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Juventudes e Cidadania: Rede Cuca e a campanha sobre os Direitos dos Jovens

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Academic year: 2021

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Juventudes e Cidadania: Rede Cuca e a Campanha sobre os Direitos dos Jovens1

Samaisa dos ANJOS2

Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE

Resumo

O trabalho pretende buscar as pistas sobre a abordagem da cidadania para e com os jovens, dialogando com a campanha #todojovemtemdireito, da Rede Cuca, localizada em Fortaleza e realizada no mês de maio de 2015. Neste cenário, pretendemos abordar a importância da comunicação no entendimento da cidadania e nas possibilidades de efetivação desse e de outros direitos, assim como do discurso atravessado por significados e negociações simbólicas que versam sobre territórios, subjetividades, estereótipos.

Palavras-chave: juventudes; Rede Cuca; cidadania.

Introdução

A relação dos jovens com a cidade, seus pares, as instituições e as negociações simbólicas são caminhos de diálogo e compreensão sobre as constituições de identidades, imagens e ações. Entendendo que os movimentos das juventudes “sinalizam novas concepções da política, da sociedade, da cultura e devem ser entendidos como “metáforas da transformação social” (Cruz, 2006), como citou Barbalho (2013) ao abordar o tema da juventude, da política, da cultura e da mídia, compreendemos a necessidade de mergulhar e acompanhar esses movimentos como potencial contribuição para a área.

Em agosto de 2013, o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852) foi instituído, dispondo sobre os direitos dos jovens, assim como os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude (SINAJUVE). Dentre os aspectos da Lei, destacamos o entendimento do Estatuto sobre participação juvenil e, assim, a possibilidade de vislumbrar como tais direitos podem ser potencializados nas atividades de diálogo, formação e troca de experiências com os jovens. Um ponto a ser ressaltado neste artigo é a previsão do Direito à Comunicação e à Liberdade de Expressão, na Seção VII do Estatuto. Entre os artigos elencados, vislumbra-se o direito à produção de conteúdo e o acesso às tecnologias de informação e comunicação, assim como a ação do poder público para que

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Trabalho apresentado no GP Comunicação para Cidadania XV Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

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Mestranda em Comunicação do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail:

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haja uma efetivação desse direito por meio de incentivos e promoções de inclusões, por exemplo.

Na busca por compartilhar com os jovens a complexidade e amplitude do Estatuto e, consequentemente, a abrangência dos direitos das juventudes, a Rede Cuca realizou, em maio deste ano, a campanha #todojovemtemdireito. Os direitos à diversidade, igualdade, liberdade, cultura, lazer, desporto, comunicação, liberdade de expressão, território, mobilidade, acesso à justiça, segurança, cidadania, participação social e política, representação juvenil, saúde, trabalho e renda, educação, sustentabilidade e meio ambiente foram abordados no material da campanha. Vislumbramos neste cenário um diálogo entre a importância da comunicação e a efetiva apropriação dos meios para o caminho da cidadania para as juventudes, assim como as pistas que a campanha da Rede Cuca, que atende jovens de 15 a 29 anos em três bairros de Fortaleza, oferece.

Levando em consideração que os meios de comunicação de massa constituem importantes “instrumentos de controle social, especialmente através da produção de modos de ser, viver e existir” (Coimbra e Nascimento, 2003), os atravessamentos do discurso dessas mídias merecem olhar especial ao falarmos das juventudes. E, pensando as amplas e dinâmicas vivências dos jovens com as mídias e as novas tecnologias, podemos perceber como eles podem (e já o fazem) ocupar outros espaços de construção de identidade, de relacionamentos, de expressão.

Os mesmos jovens que são levados a cambalear na ambiguidade entre o potencial de modelo cultural ou de periculosidade e envolvimento nos problemas sociais - seja como causa ou potenciais vítimas - como aponta Peralva (2007), adentram a novos espaços nesta relação com a mídia, com a própria juventude e suas experiências com a cidade. E, como pontuou Lima (2011), a constituição das identidades juvenis pode acontecer em diferentes espaços. Neste caminho, os jovens podem-se tornar “produtores de identidades juvenis”, em especial, por meio das novas tecnologias de informação e comunicação, dando luz ao que poderia estar assombreado.

As possibilidades para que os jovens tenham canais vários de comunicação perpassam ações de projetos, organizações não governamentais, instituições públicas. A ideia de ouvir o jovem, colocar em suas mãos a produção de informação é estratégia de escuta, de abertura, de compreensão e empoderamento. Esses discursos oferecem pistas sobre a relação das juventudes com a cidade, consigo próprios e com seus pares. No entanto, muitas iniciativas de ONGs e de instituições públicas são dominadas “pela visão do

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jovem como “problema”, em relação ao qual é necessário intervir, para “salvar” o sujeito e reintegrá-lo à ordem social” (CAROLINA e DAYRELL, 2006). Por meio desta visão do jovem problema há a impossibilidade de reconhecê-los como interlocutores capazes, potentes, criativos, entendedores dos seus contextos, caminho este que acreditamos ser o que permite um diálogo mais aberto, direto e colaborativo.

Ao longo dos anos, a visão sobre a juventude na América Latina foi acompanhando as mudanças políticas, sociais, econômicas e de mercado, passando de grupo vulnerável, sujeito de direito, a atores estratégicos no desenvolvimento, assim como indivíduos cujo empoderamento precisava ser abordado, como cita relatório da Unesco, de 2004, sobre políticas públicas para a juventude (BARBALHO, 2013). As variáveis da participação dos jovens na sociedade também passaram por um olhar de atenção de diversas áreas do conhecimento, alterando entre a não participação e as novas formas de participação, acompanhando, assim, as maneiras de engajamento, as áreas de maior envolvimento, as dificuldades de continuidade, como citam Boghossian e Minayo (2009) em artigo sobre a participação juvenil.

No referido trabalho, as autoras apontam as novas formas de atuação e mobilização dos jovens e a dificuldade de que tais movimentações sejam assimiladas e que haja possibilidade de mudança nas práticas e relações de poder vigentes. Boghossian e Minayo (2009) ressaltam os mecanismos de participação que os jovens criam e os novos espaços de interlocução, cujo diálogo com gestores, organizações sociais e instituições precisa ser reforçado. Com base na revisão de produção sobre o assunto, as autoras comentam o obstáculo do preconceito que atravessa os jovens, mas, também, as respostas por meio da diversidade e do pluralismo social.

A Rede Cuca

Em 2015, a Rede Cuca possui três equipamentos com atividades variadas voltadas para o público de 15 a 29 anos em territórios considerados “estratégicos” – como é ressaltado nos materiais de divulgação da Rede –em três bairros da periferia de Fortaleza: Barra do Ceará, Mondubim e Jangurussu. Os equipamentos são mantidos pela Prefeitura de Fortaleza e geridos pela Organização Social Instituto Cuca.

Em maio de 2015, por exemplo, eram oferecidos cursos de inglês, fotografia, percussão, musicalização, assim como a prática de natação, capoeira, jiu jitsu, triathlon nos Cucas de forma gratuita. A programação mensal também é formada por espetáculos de teatro, dança, cineclubes, grupos de estudos, oficinas e rodas de conversa sobre assuntos

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relacionados ao cotidiano dos jovens, como redes sociais, mercado de trabalho, liberdade, cultura, consumo, saúde, etc. Com o primeiro Cuca inaugurado em 2009, na Barra do Ceará, e os demais somente em 2014 (com uma mudança de gestão em 2013), o trabalho em rede completou um ano no primeiro semestre de 2015, possibilitando uma melhor análise sobre as especificidades, demandas, potencialidades e lacunas de cada equipamento, uma vez que cada Cuca está inserido em um contexto diferente, levando em consideração os bairros e comunidades, a apropriação da programação, as necessidades das juventudes participantes.

As atividades dos equipamentos da Rede Cuca ainda são recentes no cotidiano da juventude e da cidade, mas levando em conta a carência de espaços públicos e de atividades de acesso possível para os jovens das periferias de Fortaleza, os Cucas vêm se configurando como pontos de busca por formação, de potenciais encontros de habilidades e vontades pulsantes da juventude. Mesmo com tais características, também entendemos que os equipamentos ainda possuem muitos desafios a serem abordados, como a construção de um diálogo forte com as comunidades do entorno e o fortalecimento das políticas públicas de juventude pelas gestões.

O Cuca e a comunicação

No entendimento deste trabalho e da nossa trajetória na pesquisa, a compreensão do jovem como produtor de comunicação, narrador de si, da relação que estabelece com a cidade, com aqueles que partilham o lugar e a escuta atenta dessas narrações, dessas construções de produtos comunicacionais é um reconhecimento do potencial das juventudes e do papel dentro das comunidades que elas possuem.

Assim, adentraremos em algumas atividades dos Cucas, especialmente, nas ações relacionadas à comunicação em um caminho de apropriação de processos. Dentro da estrutura da Rede Cuca, programas como Difusão e Programação, Promoção dos Direitos Humanos e Educação possuem diversos projetos e ações que contam com participação no cotidiano de atividades dos jovens participantes dos três equipamentos. Dentro da área de Difusão e Programação, as atividades abrangem artes cênicas, música, audiovisual entre cursos, espaços de troca de conhecimento, de apresentações, exibições de mostras. Na área de Educação se concentram os cursos intensivos, extensivos e as práticas esportivas, que preenchem parcela significativa das programações mensais dos Cucas. Já na Promoção dos Direitos Humanos, os jovens encontram espaços para oportunidades de emprego, assessoria

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para concorrer a editais, ideias para Economia Criativa. Nessa área também está a atuação das equipes de Promoção à Saúde, de Comunicação Popular, de Participação Juvenil e as ações do Cuca na Comunidade.

A equipe ou núcleo de Comunicação Popular – levando em consideração os apontamentos sobre a comunicação nas sociabilidades e subjetividades das juventudes já feitos e a serem feitos neste trabalho – atua no desenvolvimento potencial da participação dos jovens nos processos comunicacionais, na construção de um diálogo entre o próprio equipamento (e suas demandas), as comunidades e as vontades dos jovens. Entre os projetos destacados dentro da programação mensal da Rede Cuca (material impresso e virtual com a programação e notícias sobre os Cucas), estão o Repórter Cuca e a Rádio Cuca.

Ao apontarmos com destaque esse aspecto das atividades da Rede Cuca, levamos em conta os atravessamentos da comunicação no cotidiano dos jovens e das possibilidades de apropriação dos processos pelas juventudes. Pelo olhar para o contexto social dos equipamentos também precisamos considerar como as subjetividades são impactadas com as construções simbólicas da mídia tradicional. E, levando em consideração que a imagem da periferia e, consequentemente, dos jovens moradores das periferias, pautada na mídia ainda está envolta no estigma da violência, da exclusão, das dificuldades, há o potencial de ressignificação por parte dos jovens a partir das experiências que reuniram ao longo da vida. Assim, pode-se reconstruir discursos quando há o acesso – neste caso, mediado por um meio institucional – aos meios de produção da informação. Importante reiterar que os equipamentos da Rede Cuca estão instalados em bairros da periferia (Barra do Ceará, Mondubim e Jangurussu), onde a imagem de violência e exclusão é frequentemente usada pelos meios de comunicação tradicionais.

Assim, neste percurso de possibilidade de produção de conteúdo, Peruzzo (2002), ao abordar a comunicação comunitária e a cidadania, aponta a possibilidade de desconstrução de um possível mito sobre o processo de produção comunicacional, uma vez que, quando ao alcance da comunidade, esse processo fica em um patamar diferente.

A participação das pessoas na produção e transmissão das mensagens, nos mecanismos de planejamento e na gestão do veículo de comunicação comunitária contribui para que elas se tornem sujeitos, se sintam capazes de fazer aquilo que estão acostumadas a receber pronto, se tornam protagonistas da comunicação e não somente receptores. (Peruzzo, 2002)

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E, com as novas tecnologias, o encontro entre essas características várias do mundo contemporâneo e a possibilidade de desconstrução de certas questões da comunicação e da mídia, por exemplo, podem problematizar e criar situações interessantes e potencialmente criativas para as juventudes. Neste aspecto, Lima (2011) pontua algumas questões da juventude ao se inserir neste novo-velho consumo.

A periferia urbana, ao inserir-se no consumo das novas tecnologias midiáticas, busca falar de si mesma e de seus modos de viver numa dimensão de visibilidade ampliada em conexão com um mundo exterior tão distante e ao mesmo tempo tão perto, dispondo da liberdade de reinventar-se e de mostrar a vida cotidiana das periferias para além da miséria e dos problemas decorrentes do tráfico de drogas, sem o policiamento dos olhares acadêmicos ou jornalísticos que tão usualmente veiculam o imaginário da violência urbana, construído fora das comunidades pobres, sem o devido respeito ao ponto de vista dos moradores das periferias da vida. (LIMA, 2011, p. 106)

Na relação com a produção de conteúdo de comunicação – não mais somente como público, ouvinte, espectador, mas produtor – há a possibilidade de “fazer vir à tona muitos fios da trama social que permanecem sem visibilidade nos grandes veículos de comunicação” (MATOSINHOS; MENDONÇA, 2007), seja em jornais comunitários, blogs, fanzines, produções como as propostas na Rede Cuca, que incluem programas de rádio, material multimídia para internet, fotografias, produtos audiovisuais, entre outros. Entendemos que essa possibilidade de experimentação, de ressignificação da identidade forjada pela mídia por meio das próprias vivências pode apontar para uma ampliação interessante das trajetórias desses jovens.

A divulgação das atividades da Rede Cuca e das oportunidades de participação, seja dos cursos, exposições, shows, eventos, de uma maneira geral, é realizada dentro dos próprios equipamentos, por meio da distribuição de uma programação impressa específica para cada Cuca, cuja tiragem é de 30 mil exemplares, sendo 10 mil para cada equipamento, por meio do site da Prefeitura e da página de Facebook da Rede Cuca.

Para este trabalho, pousaremos o olhar nas publicações do Cuca e, especificamente, em alguns materiais do programa impresso e do site – aqueles que dizem respeito à campanha realizada no mês de maio sobre direitos dos jovens – nos quais nos deteremos adiante. A página da Rede Cuca, na rede social Facebook, possui mais de 33 mil curtidas3 e está definida dentro do campo de Arte, entretenimento e instrução esportiva dentre as

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opções elencadas pela rede social. A página é utilizada para divulgar e chamar para a participação de eventos, cursos, programação em geral, assim como compartilhar fotos e os processos das campanhas e atividades realizadas pelos três equipamentos e os jovens que deles participam.

O jovem potencial do Cuca

A realização de campanhas com temas de demanda e interesse da sociedade e das juventudes é um dos processos de comunicação e apropriação dos espaços e das temáticas utilizados pelos Cucas. Em 2013, por exemplo, foi realizada a campanha educativa “Mente Livre, CUCA crespa” sobre igualdade racial. O tema, que não perde a atualidade, começou a ser levado aos espaços do Cuca no mês de novembro, em que se celebra o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e seguiu até dezembro, segundo histórico do site do próprio Cuca. A arena Cuca Acesa – espaço de comunhão de ações e ideias – foi usada para chamar os jovens para discutir a negritude, a igualdade racial, a violência contra a mulher negra, a cultura afro. O tema foi escolhido pelos próprios jovens. Entre oficinas de rap, de dança africana e percussão, exibição de filmes, lançamento de livros, encontros sobre cabelos crespos, cursos sobre a história dos afrodescendentes, destacamos o tema de um dos seminários: “Juventude negra quer viver”, seguido de vídeo contra o extermínio da juventude negra. Tais assuntos, debatidos por jovens da periferia, em um país e uma cidade que consolidam seus índices de morte de jovens – quando se confirma a cada dia que a juventude que morre é a da periferia – ganha relevância na compreensão dos jovens e de todos aqueles que participam das atividades sobre os discursos que atravessam a forma como as identidades são construídas, os estereótipos a serem analisados, as afirmações a serem feitas.

Em 2014, aconteceu a campanha “Tire o seu preconceito do caminho. Juventude quer passar com todo amor” sobre diversidade sexual. Durante o mês de abril, foram debatidos assuntos como direitos humanos, ações do movimento LGBT, homofobia, representação da mídia. Entre os materiais da campanha, estavam imagens de pés – femininos e masculinos – misturadas em diversas combinações possíveis. A frase “Pelo fim da intolerância e pelo respeito à diversidade sexual” acompanhava as imagens de divulgação. Ao pensarmos os Cucas como espaços de sociabilidade, de produção de subjetividade, assim como a escola, a família, as amizades, etc. o debate sobre a diversidade sexual se mostra imprescindível para as relações de respeito, convivência, compreensão,

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empatia. As duas iniciativas tiveram como cenário os espaços do equipamento localizado no bairro Barra do Ceará, conhecido como Cuca Barra, em funcionamento desde 2009 e propuseram, por meio de rodas de conversa, debates, eventos culturais, exibição de filmes e seminários o diálogo e compartilhamento de experiências sobre os temas pelos jovens, convidados e mediadores.

Em maio de 2015, a Rede Cuca promoveu o “#todojovemtemdireito – Uma campanha em respeito aos direitos da juventude”, com foco nos direitos dos jovens elencados no Estatuto da Juventude, Lei Nº 12.852, de 5 de agosto de 2013. Com eventos do dia 5 a 29 de maio (mas que tiveram capilaridade de ações para além deste recorte temporal inicial), a campanha envolveu os três equipamentos em atividades diversas que abordaram, de diferentes maneiras, os assuntos atravessados pela temática dos direitos dos jovens. Escolhas no ato de comunicar da campanha dão pistas sobre diálogos possíveis com as formas das juventudes se organizarem, se sociabilizarem, se comunicarem, trocarem experiências simbolicamente. Com a comunicação por meio da internet e das redes sociais ocupando espaço significativo nos cotidianos, o título da campanha em forma de hashtag (#todojovemtemdireito) dialoga diretamente com a comunicação virtual, a fácil identificação do assunto, a possibilidade de tornar a campanha ainda mais falada. O uso das hashtags no mundo virtual (Twitter, Facebook, Instagram, etc.) permite que um assunto seja compartilhado com mais facilidade por determinado grupo de pessoas, assim como demonstra apoio a um assunto específico, entre tantas outras funções que vão sendo apropriadas e ressignificadas pelos usuários.

Na campanha #todojovemtemdireito, quatro temáticas principais foram abordadas: Trabalho digno, Educação, cultura, arte e lazer, Violência contra a juventude e Protagonismo e participação juvenil. Dentre as áreas de focalização para as ações da campanha, a Rede Cuca já possui diálogo direto com questões relacionadas ao trabalho (equipe de Economia Criativa, por exemplo), educação (cursos variados), cultura, arte e lazer (exposições, filmes, esportes, oficinas de artes variadas, etc.), protagonismo e participação (Fórum de Jovens, discussões sobre ações nas comunidades, apropriação da produção dos meios de comunicação) e violência (com seminários, rodas de conversa sobre o tema, além dos espaços de sociabilidade das juventudes dentro dos equipamentos). Tais ligações deram capilaridade à proposta da campanha, uma vez que fortalecem e dão novas ferramentas para os debates que já fazem parte das programações mensais.

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Assim como os temas dos anos anteriores não perderam a atualidade, a discussão e polêmicas em torno da redução da maioridade penal (enquanto possibilidade que vem sendo discutida e apoiada por muitos políticos atuais e tende a ser votada em breve) também fizeram parte da programação da Rede Cuca – com posicionamento da Prefeitura contrário à redução – por meio de conversas, atividades para demonstrar apoio à juventude (sarau, etc.). Neste cenário, discutir os direitos das juventudes – acessíveis a tão poucos, tanto no conhecimento quanto na efetivação – se mostra como mais um passo para o fortalecimento da posição do jovem enquanto indivíduo que percebe seu espaço, o discurso atravessado pelos territórios e vivências e as possibilidades diante de si.

No material da campanha #todojovemtemdireito, cada temática foi relacionada a uma frase de músicas dos rappers paulistanos Criolo e Emicida (ver Anexo). Neste cenário, é importante apontar que, dentro das programações das juventudes, o rap, o hip hop e o grafite construíram uma ponte de encontros de jovens de diferentes cidades, bairros, estados e países - cada um dialogando com linguagens e temáticas específicas, mas com o pano de fundo de tais manifestações culturais que foram foco de diversos trabalhos sobre as sociabilidades juvenis.

Na temática sobre trabalho digno, “Os muleque é novim, mas faz um dinheiro sim”, da música Lion Man, do Criolo. Já na área de Educação, cultura, arte e lazer foi escolhida a frase “Porque a arte liberta, esse é o meu desejo”, da música É o teste, também do rapper Criolo. Já na área de Violência contra a juventude o enunciado foi “Fazer a vida ser certa mais do que a morte”, da música Ubuntu Fristaili do Emicida. Para falar de Protagonismo e participação juvenil o trecho escolhido foi “Você é o único representante do seu sonho”, da música Levante e Anda, do mais recente CD do rapper Emicida, O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui.

As músicas com propostas de crítica social, congruências com os sonhos, desejos, dificuldades e encruzilhadas encontradas pelos jovens, em especial da periferia, uma vez que são os territórios periféricos os locais de vivência e existência das poesias dos dois rappers formam diálogos com as experiências das juventudes de outros tantos locais, como Fortaleza e se colocam enquanto vozes abrangentes – uma vez que nos cenários locais muitas outras vozes usam a arte para expressar o que os jovens, os trabalhadores, as mulheres, as crianças vivem. No material da campanha, em especial, no site da Prefeitura, alguns pontos do Estatuto da Juventude foram ressaltados, como já elencado neste trabalho, como o direito à diversidade e igualdade, ao desporto e ao lazer, à comunicação e à

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liberdade de expressão, à cultura, à cidadania, participação social, política e representação juvenil.

O recorte do Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013) é de 15 a 29 anos – estando aqueles entre 15 e 18 anos sob os efeitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entre os princípios do Estatuto, podemos destacar o reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares; a promoção de autonomia e emancipação dos jovens; o respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude; a valorização e promoção da participação social e política (de forma direta e por meio de suas representações); a promoção do bem-estar, da experimentação, do desenvolvimento integral, da vida segura, da cultura de paz, da não discriminação, da criatividade e da participação no desenvolvimento do País, assim como a valorização do diálogo e convívio do jovem com as demais gerações.

Dentre esses aspectos previstos em Lei, destacamos o entendimento do Estatuto sobre participação juvenil e, assim, a possibilidade de vislumbrar como tais direitos podem ser potencializados nas atividades de diálogo, formação e troca de experiências com os jovens. Para o Estatuto, a inclusão do jovem nos espaços públicos e comunitários por meio da concepção “como pessoa ativa, livre, responsável e digna de ocupar uma posição central nos processos políticos e sociais” abrange o envolvimento ativo dos jovens em ações de políticas públicas com foco em benefícios para as suas comunidades, cidades e regiões, assim como em ações que contemplem defesa dos direitos das juventudes e a efetiva inclusão nos espaços de decisão com direito a voz e voto.

Entre as ações da campanha, aconteceram eventos para entrega de adesivos e informações sobre os direitos dos jovens, shows, rodas de conversa, oficinas, debates, seminários, sessões de cinema, intervenções urbanas, atividades em escolas públicas dos bairros fizeram parte da programação da campanha. Entre as rodas de conversa e seminários, estavam temas como “Juventude e Redes Sociais”, “Direito à Educação”, “Eu cuido, não prendo”, “Direito à Comunicação”, “Práticas territoriais de cuidado em Saúde Mental”, “Juventude: moda, consumo e comportamento”, “Direito à Cultura”, “Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes”, “Ser livre, uma questão de ser?”, “Direito ao Meio Ambiente”.

Entendemos que a realização de campanhas sobre os direitos juvenis oferece um diálogo com os jovens participantes das atividades da Rede Cuca, uma vez que, dentro da programação mensal de cada equipamento, as questões relacionadas às vivências das

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juventudes, na sociedade, são constantes e contínuas – atendendo às demandas e especificidades de cada Cuca.

Considerações Finais

A relação entre o Estatuto da Juventude, a realidade de acesso aos direitos pelos jovens e os desafios que confrontam qualquer instituição que se coloca como espaço de sociabilidade, apropriação, formação das juventudes são amplos, profundos e complexos. No entanto, podemos apontar que conhecer os próprios direitos é uma prerrogativa essencial para a compreensão das possibilidades das pessoas, dos caminhos de luta e defesa de tais direitos, de apropriação das ferramentas para a prática e, da vivência da cidadania (DALLARI, 2002 apud LAHNI et al., 2010). Nesse viés, compreendemos que construir caminhos para o conhecimento por parte dos jovens é reconhecimento das pessoas enquanto cidadãs, participantes de seus contextos e capazes de buscar as trilhas que o respeito aos direitos poderiam oferecer.

E, entendendo que as subjetividades e sociabilidades são atravessadas pela materialidade, pelos territórios ocupados, apontamos que as campanhas realizadas pela Rede Cuca, com especial foco nas ações do ano de 2015, possibilitam um diálogo de conhecimento, conscientização dos direitos, potencialidade da cidadania e das ações. Também acreditamos que, por parte das atividades propostas pelas campanhas e outras que discutem a relação dos jovens com a sociedade e com as demandas juvenis, abre-se uma possibilidade de reconstrução da imagem do jovem (seja para ele mesmo, para os pares, a comunidade, as instituições), levando em conta que os discursos são potenciais na negociação simbólica sobre a definição que fazemos de nós mesmos e que o outro faz de nós. Assim, na iniciativa compreendida, nesse trabalho, como a busca da construção de um mosaico de discurso e ação e da imagem de um jovem conhecedor de seus direitos, narrador de suas relações e experiências e com escuta e espaço para a formação dos campos de atuação há uma potencialidade de diálogo profundo entre tais campanhas – pontuais – e a programação continuada da Rede Cuca enquanto foco no olhar para as juventudes.

Ao percebermos que o discurso é também um produtor de identidades – atravessado pelo lugar de onde se fala – a tentativa de mudar o discurso sobre os jovens, em especial quando as juventudes são de áreas periféricas – é compreendida como passo importante na apropriação de tais discursos e dos processos comunicacionais, cuja importância foi citada, neste trabalho, enquanto fontes de estereótipos e marcas de história e imagem que

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impactam as subjetividades. Entendendo a ideia de juventude como uma construção social que ultrapassa os marcadores biológicos (ressaltando também os recortes realizados por legislações e trabalhos de instituições internacionais sobre o tema), reiteramos a importância de que as pluralidades juvenis e as mediações produzidas por essas diferenças e semelhanças (BARBALHO, 2013) sejam atravessadoras do olhar para e com as juventudes. E, ao jogarmos o foco de luz para as juventudes das periferias, (mais) obstáculos no que diz respeito ao reconhecimento da cidadania e participação podem ser elencados. Barbalho (2013) lembra que os jovens de menor poder aquisitivo não estão fora da lógica de consumo e encontram, até mesmo, produtos com propostas várias nos jogos de identificação e diferenciação social. No entanto, o autor pontua que, mesmo que se configurem como consumidores, os jovens das classes populares podem não ser reconhecidos como cidadãos por grupos da sociedade, complementando que “[...] suas expressões e movimentos culturais sofrem do preconceito duplo de classe e étnico” (BARBALHO, 2013, p. 22). Tal entendimento enaltece a importância da apropriação desses jovens dos conceitos e práticas da cidadania, da participação, da criação de espaços – e não só ocupação – do fazer nascer possibilidades dentro das sociabilidades. Assim, para além dos processos para o maior conhecimento dos próprios direitos, o desafio posto é a de conseguir formar caminhos, para que tais direitos se efetivem por meio da participação e ação das juventudes.

REFERÊNCIAS

BARBALHO, Alexandre. A criação está no ar: juventudes, política, cultura e mídia. Fortaleza: EdUECE, 2013.

BOGHOSSIAN, Cynthia Ozon; MINAYO,Maria Cecília de Souza. Revisão Sistemática Sobre

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PERUZZO, C. M. K. Comunicação comunitária e educação para a cidadania. PCLA. 2002. Disponível em: http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista13/artigos%2013-3.htm. Acesso em 23 out 2014.

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Referências

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