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EXCLUÍDOS E DELINQUENTES. Berlin, 1919-1933.

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Excluídos e delinqüentes

E i k e G e i s e l

Como toda metrópole, Berlim também tinha seus bairros miseráveis e seus antros de banditismo. Para o Scheunenviertel convergem principalmente os judeus que

emigram do leste. Essa população de judeus pobres se agrupa no centro de Berlim, numa espécie de gueto

chamado na linguagem popular de "Suíça judia".

trativo da Alemanha, o seu mercado capitalista. Era também a sua maior cidade industrial. Ali se achavam cerca de 900.000 empregados e funcionários e se concentrava a duodécima parte de todo o setor industrial alemão, com aproximadamente 1,7 milhão de trabalhado-res. As grandes empresas, com mais de 2 mil empregados, eram dominadas pelos gigantes da indústria elétrica e de máquinas, e imprimiam sua marca em bairros inteiros, quando não os faziam assemelhar-se, como o de Siemensstadt, ao norte, a locais de produção cercados de prédios! Lá trabalhavam mais de 50.000 operários. A companhia de eletricidade AEG formava, sozinha, o coração de Wed-ding. Era também ao norte, em Tegel, que se situava a gigantesca fábrica de máquinas Borsig.

A cada dia, milhões de trabalhadores atravessavam Berlim, sobre e sob a terra. O mundo moderno, com suas imagens e sensações fortes, já se achava presente naquelas ondas de tráfego que convergiam para cruzamentos estratégicos para, em seguida, dispersarem-se pelos qua-tro pontos cardeais.

Mas a metrópole, tanto para os autóctones quanto para os turistas, tinha os seus limites. Não ultrapassava as lojas de Alexanderplatz, a Alex, como era chamada. Lá reinava a grande loja Hermann Tietz; lá 57

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parava o bonde. Atrás, entre as ruas do mercado central e o teatro da Volksbühne, a Cena Popular, estendia-se uma espécie de território inimigo, o universo do mercado negro, dos jogos de azar, dos hotéis suspeitos, das mulheres baratas.

O bairro da miséria

Essa espécie de área de despejo em pleno centro da cidade se chamava Scheunenviertel, bairro dos Celeiros. Esse nome era devido aos celei-ros, estábulos e hangares ali instalados no século XVII. A partir do século XIX, camponeses se amontoaram no local, que logo se tornou sinônimo de miséria, devassidão e crime.

O seu centro, em decadência, foi arrasado em 1906, mas essa tenta-tiva de saneamento não modificou em nada as condições de habitação das camadas sociais mais baixas. Segundo uma pesquisa efetuada logo após a Primeira Guerra, só se conseguia entrar nas casas do Scheunenviertel depois de beber um bom trago: "Muitas vezes, não se encontra um único móvel. Quatro a seis pessoas em média vivem em apenas um cômodo..."

No fim dos anos vinte, o arquiteto Hanz Poelzig foi encarregado de tentar suprimir os bolsões insalubres, chaga no coração da cidade. Mas o seu projeto, um pouco à maneira da Metropolis de Fritz Lang, só pôde ser parcialmente realizado: ergueu-se apenas um punhado de prédios residenciais e de escritórios, no estilo racional e funcional da época.

Toda metrópole tem seu bairro de marginais e desclassificados. A história deste não seria diferente da crônica habitual se ele não tivesse representado, durante algumas décadas, a primeira etapa dos emi-grantes judeus do leste a caminho da terra prometida: os Estados Unidos. Foi nos arredores da entiga rua dos Granadeiros, cheia de lojas, pensões e sinagogas, que milhares deles, sobreviventes dos

pogroms, acabaram se instalando, com a ilusão de pisar no primeiro degrau da escada do paraíso.

Na verdade, essa emigração começara durante a Primeira Guérra. Alguns milhares de judeus do leste foram então transferidos para a Alemanha, na maioria das vezes por meio de violência, para trabalhar na indústria bélica ou na extensão da rede ferroviária da capital. Muitos permaneceram. Milhares de outros juntaram-se a eles quando, após a retirada dos alemães e da derrocada da monarquia dos Habs-burgo, e em resposta às alterações provocadas pela revolução russa,

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uma tempestade de perseguições de todo gênero se abateu sobre eles na Europa do leste.

Uma etapa para os emigrantes judeus do Leste

Primeira e, em geral, última etapa dos emigrantes judeus, o Scheunen-viertel favoreceu então a cristalização de uma velha fantasia popular, a identificação fácil do judeu com o estrangeiro. Vestidos de preto, os judeus do Leste representavam, por assim dizer, negros judeus. Em 1925, eram eles aproximadamente um quarto dos 172.000 berlinenses de origem judaica.

Ao contrário dos russos brancos que chegaram a Berlim em número igualmente grande, mas trazendo algum dinheiro ou alguns objetos de valor que conseguiram salvar, instalando-se no oeste burguês da cidade, os judeus vindos da Europa oriental possuíam muito pouco além da roupa do corpo. Eram proletários, acostumados a exercer pequenos ofícios ambulantes. A rua dos Granadeiros tornou-se o seu centro, quase tão familiar quanto o seu shtetl,' e onde se oferecia tudo o que era necessário a um refugiado.

Os recém-chegados são divididos em refugiados políticos e refugia-dos econômicos. Distinção vã, na realidade: aos olhos de torefugia-dos, eles eram os desmancha-prazeres, incapazes de se adaptarem à vida social de Berlim. Em suma, para usar uma linguagem atual, eles se revelaram dificilmente assimiláveis. Atraídos para a Alemanha pela ordem libe-ral da República de Weimar, trouxeram consigo, dizia-se, os sintomas da crise, do ser associai, e, naturalmente, do tifo: era o que repetiam os anti-semitas, reforçando na população a idéia latente de que essa famosa ordem liberal podia reduzi-la a menos que nada.

Em 1920, o delegado de polícia de Berlim, o social-democrata Ernst, já se preocupava com os problemas que seus sucessores encontrariam, segundo ele, inevitavelmente. A situação dos judeus do Leste, expli-cava ele, "pela maneira como são tolerados e tratados hoje com benevolência, produzirá os mais terríveis perigos, nos planos político, econômico e sanitário". Um ano antes, ainda se pudera evitar esse perigo: a soldadesca abatera Rosa Luxemburgo e assassinara seu companheiro Leo Jogisches, dois judeus do Leste...

Em novembro de 1923, foi a vez da marginália invadir as ruas judias, saqueando as lojas de frutas e legumes, lançando este grito de

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guerra: "Desclassificados de todas as classes, uni-vos!". Depois de passar os dias diante das mesas de jogo instaladas perto das agências de emprego, essa mistura de bandidos, marginalizados, farrapos hu-manos, "perdidos", se encontrava à noite nas tabernas do bairro.

No Scheunenviertel, nada de Al Capone, nem Camorra, nem capo

di tutti i capi. As coisas aconteciam de modo familiar, com espírito gregário e apático, respeitando as regras de uma associação. A margi-nália alemã tinha como modelo os Sparvereine e os Ringvereine, estru-turas corporativas que davam ao afluxo amorfo daqueles que acaba-ram ali um aspecto quase decente à primeira vista, com suas associa-ções de proxenetas e ladrões de nomes bonitos: "Sólido como um rochedo", "Fiel para sempre", "O Carvalho Alemão".

A leste de Berlim, esse tipo de estrutura bastava para provocar arrepios nos pequenos burgueses: ao lado dos estabelecimentos notó-rios de divertimentos libertinos, das salas discretas com espetáculos pornográficos e bailarinos nus, dos cabarés mal-afamados e bares não-convencionais, os Ringvereine comandavam milhares de prostitu-tas clandestinas. Entretanto, uma vez controlada dez anos mais tarde, essa marginália, longe de ser o reflexo contestador de uma ordem social decadente, se mostrou, pelo contrário, um instrumento de sua estabilização.

No Scheunenviertel, orava-se em quartos vizinhos a outros cômo-dos arrumacômo-dos como cervejarias rudimentares. Os piecômo-dosos viviam ao lado dos impudicos, as associações religiosas judaicas ao lado do sindicato do crime. Os santos e as meretrizes moravam no mesmo andar. Em suma, era o centro de todos os amálgamas, e, assim sendo, evidentemente, era fácil de confundir o rabino com o bandi-do. Para os contemporâneos, as ruas atrás da Alexanderplatz, bem como o bairro dos malfeitores em tomo da estação de Silésia, consti-tuíam um enclave dentro da cidade, o território dos excluídos da sociedade.

Um ninho de preconceitos ^

Na época, eram comuns as batidas policiais no local. "Campo de

reunião" e "detenção administrativa antes da expulsão" eram noções conhecidas. Apareceu mesmo uma nova denominação: campo de concentração. Regularmente, os judeus internados sofriam ameaças de seus carcereiros, as quais, mais tarde, eles concretizariam no exer-cício de suas funções.

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Mas a esse ódio para com os imigrantes judeus do Leste correspon-de também um interesse, que se tomou admiração, pela cultura repre-sentada pelo judaísmo oriental e pela Europa oriental em geral. Ex

oriente lux, tal era o slogan que definia o entusiasmo de certos meios intelectuais, judaicos ou não, nos quais se lançava um olhar crítico sobre o desenvolvimento da civilização. No espírito desses sonhado-res, Berlim estava na vanguarda: tinha a vocação para ser o ponto de encontro do oeste e do leste, o lugar em que o Oriente natural e espontâneo viria fertilizar o Ocidente ressequido.

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JOSEPH ROTH

Muitas vezes, os judeus do Leste que passam por Berlim têm um visto de trânsito que lhes permite ficar dois ou três dias na Alemanha. Porém, vários portado-res desse documento, ficaram por dois ou três anos em Berlim.

A maioria dos judeus do Leste que há muito se instalaram em Berlim chegaram antes da guerra. Seus parentes vieram depois. Fugitivos provenientes de ter-ritórios ocupados também vieram. Judeus que tinham prestado serviço ao exército de ocupação alemão na Rússia, na Ucrânia, na Polônia, na Lituânia, tiveram que seguir o exército alemão até a Alemanha.

Em Berlim, há também delinqüentes judeus do Les-te. Batedores de carteira, vigaristas, impostores, falsá-rios, especuladores de inflação. Quase nenhum assal-tante, e assassinos só os indivíduos dispostos a matar para roubar.

O judeu do Leste só se vê livre da luta pelos docu-mentos, contra os docudocu-mentos, quando se volta contra a sociedade por meios delituosos e ilegais. De modo geral, o delinqüente judeu já era assim em sua terra natal. Chega à Alemanha sem documentos ou com documentos falsos. Não se apresenta à polícia.

Apenas o judeu do Leste honesto — ele não só é honesto como também temeroso — se apresenta à polícia. O que é muito mais difícil na Prússia do que na Áustria. A polícia berlinense tem a particularidade de dar buscas em domicílios e, igualmente, controlar os documentos na rua, acontecimentos freqüentes du-rante o período de inflação.

O comércio de roupas velhas não é proibido, mas também não é tolerado. Aquele que não tiver licença não pode comprar uma calça velha. Nem pode vendê-la.

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No entanto, ele a compra e também a vende. Insta-la-se na Joachimsthlerstrasse ou na esquina dessa rua com o Kurfürstendamm e faz-se de inocente. Ele deve avaliar, pela aparência dos transeuntes, primeiro se estes trajam roupas velhas, depois, se precisam de dinheiro. As roupas compradas são vendidas no dia seguinte na Bolsa de roupas.

Há também diferenças hierárquicas entre os ambu-lantes. Existem ambulantes ricos, poderosos, para os quais os pequenos elevam um olhar muito humilde. Quanto mais rico é um ambulante, mais dinheiro ele ganha. Não vai para a rua, nem precisa disso. Não sei mesmo se posso chamá-lo de "ambulante" pois, na verdade, possui uma loja onde vende roupas de se-gunda-mão e uma licença para tal. Se esta não lhe pertence pessoalmente, é de algum cidadão, um bur-guês berlinense que nada entende de comércio de roupas, mas que recebe uma porcentagem sobre os negócios a que se associou.

Os proprietários de lojas e os ambulantes se reúnem de manhã na Bolsa de roupas. Os segundos trazem o que adquiriram na véspera, toda a roupa velha. Na primavera, as roupas de verão e de esporte estão em alta. No outono, estão em alta os cutaways, os smokings e as calças listradas. Quem se apresenta no outono trazendo roupas de linho, de verão, nada entende dos negócios.

O ambulante revende ao proprietário da loja, com um lucro irrisório, as roupas que comprou na véspera por um valor insignificante. O proprietário manda passá-las e consertá-las, tentando dar-lhes um aspecto melhor. Depois, ele as pendura diante do seu letreiro e deixa-as flutuar ao vento.

Quem entende da venda de roupas de segunda-mão logo poderá passar a vender roupas novas. Abri-rá um bazar, em vez de uma portinha. Um dia, seAbri-rá proprietário de uma loja.

Um ambulante pode fazer carreira em Berlim, e se ambientará mais rapidamente que seus conterrâneos em Viena. Berlim iguala as diferenças e apaga os par-ticularismos. É por essa razão que não existe um gran-de gueto berlinense.

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64 Berlim, 1919-1933

Há apenas algumas ruazinhas judias nos arredores da ponte de Varsóvia e no "bairro dos Celeiros". A mais judia das ruas berlinenses é a tristonha Hirtens-trasse.

Nenhuma rua no mundo é tão triste. A Hirtenstras-se não tem nem mesmo a esperança sofrida e a inércia de uma pocilga.

É uma rua berlinense impregnada, mas não modi-ficada, pela presença dos seus habitantes, judeus vin-dos do Leste. Nenhum bonde ou ônibus passam ali. Raramente um automóvel. Apenas caminhões e carre-tas, meios de transporte plebeus. Por trás de muros escondem-se as pensões. Chega-se até elas por de-graus estreitos, sujos, gastos. Fazem lembrar saltos de sapatos velhos, de cabeça para baixo. Nas entradas abertas acumula-se o lixo, que é objeto de comércio. Jornais velhos, meias rasgadas, solas de sapato. Ca-darços de sapato e de uniformes. A Hirtenstrasse é tediosa como uma rua de subúrbio. Não tem o jeito de rua principal do lugarejo. É nova, de má qualidade, já estragada, coisa malfeita. Como se fosse uma rua oriunda de um grande bazar. Há algumas vitrinas escuras. Nessas vitrinas, doces judeus, croissants com semente de papoula, pãezinhos, pão preto. Uma jarri-nha de vinho, um papel-pega-moscas viscoso.

Além disso, há escolas talmúdicas e casas de ora-ção. As inscrições são em hebraico. As letras parecem estranhas nessas paredes. Pelas janelas semifechadas, vêem-se lombadas de livros.

Há judeus com seu tallcs debaixo do braço. Saem da casa de oração e vão tratar da vida. Vêem-se crian-ças doentes, mulheres velhas...

É forte a tentação de transformar em gueto essa rua tediosa, mantida tão limpa quanto possível. Mas Ber-lim acaba sempre vencendo. Os habitantes lutam num combate inútil e, se querem a expansão, Berlim os oprime.

Extraído de

Juife mi erraitce,

col.

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