EMOC;6ES E DESENVOLVIMENTO VOCACIONAL: PRINCIPIOS PARA A PRAnCA
EM ACONSELHAMENTO VOCACIONAL
PAULO CARDOSO 1
RESUMO: 0 presente texto aborda as implicavoes da
abordagem das emovoes na psicologia vocacional. Ap6s uma caracterizavao das emovoes, assente na compreensao da pluralidade das experiencias emocionais e das estru turas emocionais inconscientes que organizam as experi encias pessoais, sao apresentados os factores que melhor explicam 0 crescente interesse da psicologia vocacional
pelo tema, Entre estes, salientam-se, por urn lado, os que se prendem com 0 desenvolvimento do conhecimento
cientifico relativo as bases biol6gicas das emovoes e aos processos pelos as quais pessoas as perce bern, e, por ou tro, os que decorrem do proprio desenvolvimento da psi cologia vocacional. Por fim, referem-se alguns princfpios orientadores da reflexao sobre 0 papel das em0lr0cs ncste
dominio, com particular enfase nas suas implicalroes pni ticas,
ABSTRACT: This text is about the implications of emotions approach in vocational psychology, After cha racterizing emotions based in the understanding of the plurality of emotional experiences and of the unconscious
I Ml'.~ln' l'lIl I'SH'IIII1)!,III. dlln'llll' dn I kpatlallll'llln til' Psil'ologia. Universidade de nVIIIII, Pll~I:!/.!'lII.'VOIlI.))l
. ,
1
-,
...;
26 ....~~~~_D~._~e__ senvolvimento Vocacional ao Longo da.._Vi_lda _____~ __ ~ I; e desenvolvimento vocacional 27
emotional structures that organize personal experiences, we present the factors that can give a better explanation of the growing interest of vocational psychology in this issue. On one hand we stress the factors which are connected to the development of scientific knowledge about the biological roots of emotions and the processes that allow people to perceive them and, on the other the factors inherent in the development of vocational psy chology. Finally. we refer some guiding principles in the study of the role played by emotions in this field, with spL'Cial focus on its practical implications.
Int rmhl(i\o
SllIilh (' [.:l/,lII"IIS (19l)O) t:hamam a aten~ao para 0 facto de que,
illdl'pC'ndl'lItt'IIIl'lltl' do l'OIlSeIlSO sobre a importancia das emo~oes na
vida dl' todos n()s, 0 interesse pelns emo~oes, enquanto fen6meno cen
Ira[ e cstrlltllnlllle do fllncionamento humano, e recente na psicologia.
Este novo cnfoquc IS visfvcl nas inumeras publica~oes sobre 0 tema e
na abertura de difcrentes {lreas da psicologia a integra~ao dos novos
conhecimentos. A Psicologia VocacionaI acompanhou tambem este mo
vimento, sobretudo a partir dos anos 90, com 0 aparecimento das pri
meiras publica~oes focadas no papeI das emo~oes no comportamento
vocacional (Kidd, 1998; Young, Paseluikho e Valach, 1997).
Definir emo-;Oes
Por serem experiencias muito pessoais e variadas, as emo~oes esti
veram durante muito tempo conotadas com a subjectividade e, por isso mesmo, nao susceptfveis de uma abordagem cientffica (Gross, 1999). Daqui resulta uma evidente dificuldade em obter consensos na defini
~ao do conceito de emo~ao. Para Smith e Lazarus (1990), a principal
razao desta dificuldade reside na ausencia de criterios clams que permi
tam diferenciar uma emo~ao de uma nao emo~ao, pois existe entre
ambas uma fronteira onde coabitam elementos de emo~ao e de nao
emo~ao.
Embora reconhecendo estas dificuldades, 0 presente artigo parte
de uma defini~ao de emo~ao como sintese de elementos que tern aver
~
com: (a) afectos pnmanos, enquanto estimulas:ao fisiol6gica e senso
rial; (b) motiva~oes, sob a forma de necessidades, preocupa~oes, inten
~oes e objectivos; e (c) cogni~oes, expressas em avalias:Ocs, expecta
tivas e crens:as (Greenberg, Rice e Elliot, 1993; Greenberg e Paivio,
1997). Esta defini~ao facilita a apreensao da pluralidade das experien
cias emocionais e das estruturas emocionais inconscientes que organi
zam 0 comportamento humano, permitindo ainda uma compreensao
mais clara da sua importfmcia para a psicologia vocacional.
Do ponto de vista das suas funs:Ocs, as emos:oes revelam tambem a pluralidade dos diferentes nlveis e processos que as constituem: em
termos biol6gicos, regulam estados internos e permitem reac~oes a si
tuas:oes especificas, como por exemplo as de ataque e/ou fuga em situa
\ioes de amea~a (Damasio, 2000); ao nlvel das motiva~oes, determinam
o estabelecimento de objectivos e de tendencias de ac~ao; em termos
cognitivos, cumprem funs:oes de regulas:ao da atens:ao e de valora~ao;
finalmente, no que respeita as rela~oes interpessoais, facilitam a regula
\iaO das interacs:oes a partir da tonalidade emocional em que estas ocor rem (Greenberg et aI., 1993).
As emo-;oes na Psicologia Vocacional
o
crescente interesse da psicologia vocacional pelo papel dasemo~oes nos comportamentos vocacionais decorre de duas grandes
razoes: em primeiro lugar, os contributos mais recentes do conheci
mento cientifico sobre as emo~oes, particularmente no que respeita as
suas bases bioI6gicas e aos processos pelos as quais pessoas percebem, assimilam, compreendem e gerem emos:oes; em segundo, os novos enquadramentos te6ricos e praticos da psicologia vocacional, particular
mente os que reconhecem explicitamente 0 peso das emos:oes no com
portamento vocacional.
Os contributos do conhecimento cientifico sobre as emofoes
A evolu~ao do estudo das emo~oes no comportamento humano
csta presente em praticamente todos os domfnios das ciencias humanas.
No cntanto, 0 presente artigo centra-se nos avans:os mais recentes das
nellrociencias, da psicologia experimental, da psicologia em geral e da
psicotcrapia, pelas rela~Ocs mais estreitas que podem tee com a teoria,
29
,
l
2H /)1'.I't'nvolvimento Vocacional ao da Vida
o
primeiro contributo destas areas do saber e a afirmasrao da natureza l11uttidilllClIsionul das emosroes, como sintese de experiencia senso afectiva c cognitiva. As neurociencias, recorrendo a investigasroes em pessoas com lesoes cercbrais, clariticaram as bases biologicas das emoc,;ocs c a estreita rchli;ao entre pensamento e emosrao (Damasio, 1994, 2(00). A psicotogia experimental, atraves da investigasrao sobre 0 processamento da informac,;ilo emocional, evidenciou as relasroes estrei tas entre cognic,;ao e ell1oc,;ao (Eysenck e Kane, 2(00). A psicoterapia,
por seu lado, deu corpo
as
conceptualizasrOes sobre as dimensoes estruturais do funcionamcnto humano como sfntese de informasrao afectival sensorial/cognitiva (Guidano, 1991; Greenberg, et aI., 1993; Young, Klosko e Weishaar, 2003).
o
segundo contributo e a compreensao do lugar das emosroes nosprocessos de tomada de decisao. A este proposito, Emmerling e Cher niss (2003) referem a possibilidade da informasrao emocional interferir positiva ou negativamente nestes processos. Partindo de uma analise da investigasrao neste ambito, concluem que a vivencia de estados afecti vos positivos reduz a disposi9ao para assurnir riscos na tomada de deci sao, de modo a evitar aitera90es desses estados. Em contrapartida, esta dos afectivos negativos, como a raiva, aumentam a impulsividade do comportamento e, por consequencia, a tendencia para assumir riscos. Tambem conclufram que nos processos de tomada de decisao, as emo 90es podem influenciar 0 numero de 0p90es consideradas e os graus de auto-explora9ao em que as pessoas se envolvem. A investiga9ao na area das neurociencias tern reafrrmado tambem 0 peso das em090es nos pro cessos de tomada de decisao. Estudos realizados por Antonio Damasio (1994) evidenciaram que os sujeitos, quando colocados em situa90es
complexas, para as quais na~ encontravam uma logica orientadora das
suas decisoes, recorriam a sinais emocionalmente carregados, cujas ori gens estavam no passado. Isto e, as decisoes tomadas no presente eram dirigidas pelas consequencias emocionais das decisOes anteriores.
o
terceiro contributo foi dado pela psicologia cognitiva experimental, particularmente atraves do reconhecimento da importancia do papel da evoca9ao de experiencias emocionais na recupera9ao de infor ma9ao em mem6rias inconscientes. A investiga9ao revelou que 1) este tipo de informa9ao e mais facilmente recuperado quando as pessoas focam a sua atensrao nas especificidades dos acontecimentos associados
a
informa9ao a recuperar (Kihlstrom, 1990, citado em Greenberg et al.Emo(oes e desenvolvimento vocacional
1993) e 2) quando h:i urn paralelismo entre a em09ao vivida no aconte
cimento e a em09ao vivida no momento da sua evoca9ao (Eysenck &
Kane, 2(00).
Urn ultimo contributo para a psicologia vocacional e 0 da com preensao do papel das em090es na estrutura9ao do funcionamento hu manu como fonte de significa90es geradoras de auto-conhecimento e mudansra (Goleman, 1995; Greenberg, 2002; Greenberg, et aI., 1993;
Young & Behary, 1998). Destaca-se aqui, particularmente, 0 contributo
da psicoterapia, pois a natureza do seu objecto e da sua pratica focam
principal mente os processos de mudan9a de comportamento, permitindo assim urn conhecimento mais explfcito e sistematico do papel das emo
90es na estrutura9ao e mudan~a comportamentais.
Os contributos do desenvolvimento da Psicologia Vocacional
Os avan90s recentes da Psicologia Vocacional criaram tambem urn
terreno fertiI para a integra~ao dos novos conhecimentos sobre a natu
reza das em090es. Estes avan90s resultaram: (a) da emergencia dos mo delos construtivistas da carreira; (b) do esbatimento das fronteiras entre aconselhamento pessoal e 0 aconselhamento vocacional; e (c) das mu dan9as na natureza das carreira.
Os modelos construtivistas da carreira sao aqui destacados porque
se referem de forma frequente e explfcita ao papel das emo~oes na teo
ria e pratica do desenvolvimento vocacional. Numa perspectiva constru tivista, os sujeitos surgem como agentes activos, construtores de signifi ca90es de si e da realidade, num processo dialectico entre as estruturas de significado existentes e as experiencias sociais nos contextos onde se
movem (Brott, 2001; Savickas, 2002; Young, Valach & Collin, 2(02).
Neste processo, as emo~oes estao presentes simultaneamente como
componentes das estruturas de significado e como determinantes das interac90es sociais. Relativamente a este ultimo aspecto, as em090es nao s6 activam os comportamentos interpessoais como tambem influen ciam os objectivos da interac9ao e a regulasrao da mesma. Ainda no quadro dos contributos dos modelos construtivistas da carreira, outra
materia sensivel e a conceptualiza~ao da relasrao entre necessidades, inte
rcsses e valores. Estes surgem aqui como dimensoes motivacionais da pcrsonalidade que estimulam e direccionam 0 sujeito para determinados
o~jcctivos da carreira. Nesta perspectiva, a dinamica do comportamento
vocacional e entendida
a
luz de urn processo em que os sujeitos tendem30
,
f'1b''I',
Desenvo/vimnlltl VtU'{w;mw/ tlO I.,ongo da Vida
~~~~-~-~--
-~~~~~~~-~~----nados valores (objectivos) c, dcstc modo, rcsolverem as suas necessi dades (Savickas, 1989; 1995). Esla irJcin pcrmite integrar necessidades,
interesses e valores numa cOl1ccp~ao de cll1o~oes vista como sfntese de
experiencia sensorial, afectiva c cognitiva. Ao mesmo tempo, esta abor dagem remete tambem para priilicas onlie, mais uma vez, as emoyoes surgem como urn importante recurso a explorar, especialmente quando o objectivo e 0 de ajudar as pcssoas I1n simbolizayao das suas necessi
dades, interesses e valores, ou seja, (~jurJa-las na construyao de signifi
cayOes sobre "0 que as move".
o
esbatimento das fronteiras entre aconselhamento em pessoal e 0aconselhamento vocacional surge na sequencia de dois desenvolvimen tos importantes. Primeiro, a passagem de um paradigma de ajustamento
a urn paradigma desenvolvimentista, permitindo situar 0 comportamento
vocacional no quadro do desenvolvimento psico16gico global e, conse quentemente, abrindo as diferentes dimensoes do funcionamento pes soal as conceptualizayoes e praticas da psicologia vocacional. Segundo, o alargamento das pniticas de orientayao vocacional a uma maior diver sidade de contextos. Urn exemplo deste alargamento e 0 da frequencia de programas de intervenyao com populayoes desfavorecidas associados a problemas de exclusao social, a diferentes tipos de deficiencias, a marginalidade, a comportamentos aditivos, entre outros. Nestes casos, a melhoria da qualidade de vida das pessoas e a promoyao da igualdade de direitos e oportunidades passam pelo desenvolvimento de projectos de integrayao socioprofissional onde a construyao do projecto vocacio
nal e inseparavel das dinamicas emocionais especfficas
a
problematic adas pessoas.
As mudanyas na natureza das carreiras tern conduzido a reformu layao de teorias e pnlticas sobre 0 desenvolvimento da carreira. Resul tado de dinamicas de transformayao economic a, tecnol6gica, social e politica, as carreiras deixaram de ser uma sequencia previsivel de fases, num percurso profissional marc ado pela seguranya e estabilidade, para
tenderem a ser pautadas por mudanya e imprevisibilidade (Guichard &
Huteau, 2001; Hall & Mirvis, 1995; Sullivan, 1999). Neste sentido, a
compreensao do papel das emoyoes na gestao e na tomada de decisao
da carreira pode contribuir decisivamente para descrever 0 impacto das
transiyoes da carreira e das estrategias de confronto com as mesmas
(Armenakis & Bedeian, 1999; Kidd, 1998). Por isso, algumas praticas
organizacionais tendem a reforyar a importancia das emoyoes no desen volvimento da carreira. Embora mais evidente em praticas centradas
Emop5es e desenvolvimento vocacional 3]
nos problemas de stress e burnout, 0 enfoque nas emoyoes e tambem
visfvel nas que se prendem com 0 treino (coaching).
Alguns prindpios para a abordagem das emo~oes na pratica do
aconselbamento vocacional
Os princfpios que a seguir se apresentam pretend em ser urn instru mento para a abordagem das emoyoes na pratica do aconselhamento vocacional e estao, por isso, organizados de acordo com tres nfveis de
actuayao: 0 da prevenyao, centrado na promoyao da adaptabilidade; 0
da avaliayao, na promo~ao da identidade vocacional; e 0 da interven
y3.0, na promoyao da mudanya pessoaF.
A adaptafiio as mudanfQS da carreira If influenciada pela regulafiio das emofoes
A mudanya e imprevisibilidade que hoje caracterizam a carreira impoem uma enfase particular nas questoes da adaptabilidade, colo
cando novos desafios a pessoas e organiza~Oes na gestao da mudan~a.
Referencias ao conceito de adaptabilidade sao cada vez mais frequentes
na literatura, particularmente na que se refere
a
psicologia das organiza~oes e das carreiras. Como Savickas (2002) assinala, a adaptabilidade
na carreira "is a psychological construct that denotes an individual's readiness and resources for coping with current and antecipated tasks of
vocational development" (pp.156). Neste processo de adapta~ao, uma
eficaz regula~ao das emo~oes pode revelar-se critica na motiva~ao e na
gestao do comportamento. A prop6sito, urn estudo de Brown, George
-Curran e Smith, (2003) evidenciou rela~oes positivas entre a com
petencia para identiticar, expressar e regular emoyoes e, por outro lado, as expectativas de auto-eficacia face a tomada de decisao na carreira,
explora~ao vocacional e adesao as escolhas da carreira. Tambem Car
son e Carson (1998) encontraram uma rela~ao positiva entre inteligen
cia emocional e adesao
a
carreira. A influencia dos estados afecti vos nocomportamento vocacional e igualmente confirmada por Emmerling e
Embora estruturados deste modo, estes princfpios estao presentes em todos os
nlwis rcfcrilios (por exemplo. nao
e
possfve] promover adaptabiIidade sem expandir
-32 DesellvolvimelllO VO('(lciolla/ (10 l.illlf.lO da Vida 33
numa revisao reccnte de lileratura. Em sintese, a regu
la~ao das emo~oes e um elemento central no planeamento, na explora
~ao, e na tomada de decisao da carreira, promovendo nos sujeitos uma
perspectiva de agencia face as mudanc;us du carreira.
A interven~ao de desenvolvimento vocacional pode fazer-se no decor
rer do processo de ajuda, especialmente quando sao evocadas experien
cias de transi~ao. Nesta situac;ao, os sujeitos podem ser estimulados a
focar a sua aten~ao nas em~oes, identificando-as, expressando-as, e fa
zendo emergir novas representa~oes da realidade com que se confron
tam. Deve ter-se em aten~ao que este trabalho e mais exigente, mas
necessario, naqueles que evitam 0 contacto emocional. A identidade vocacional
e
estruturada pelas emoroesA identidade vocacional expressa-se na clareza e estabilidade de objectivos, interesses, personalidade e talentos (Holland, Daiger e Power,
1980), dando urn sentido ao caminho a percorrer. A analise das emo
~oes pode dar urn importante contributo para a clarifica~ao da identi
dade vocacional, facilitando a consciencia de: (a) dimensoes estmturais subjacentes as dificuldades cr6nicas do desenvolvimento vocacional; e
necessidades, interesses e val ores centrais na constm~ao de urn pro
vocacional.
A consciencia das dimensoes estmturais subjacentes dificulda
des cr6nicas do desenvolvimento vocacional pode conseguir-se atraves
de diferentes estrategias e indicadores, como os padroes de interac~ao
na rela9ao de ajuda, a utilizat;;ao de provas de avaIiat;;ao estandardizadas
(Silva, 1997), ou 0 recurso a hist6rias de vida (neste caso, por exemplo,
a persistencia de determinadas dificuldades ao longo da vida pode reve lar-se um indicador da sua natureza cr6nica). Entretanto, a focagem nas em090es pode tambem contribuir para a consciencia destas dimensoes
estruturais, pois estimula mem6rias emocionais implfcitas (Eysenck &
Kane, 2000; Kihlstrom, 1990, citado em Greenberg et aI. 1993), levando
assim
a
recupera~ao de informa~ao em estruturas emocionais inconsdentes e essenciais
a
constru~ao de novas representa~oes deEste tipo de intervent;;ao
e
particularmente necessaria na present;;ade dificuldades vocacionais resultantes de problemas estruturais, como
os de indecisao cr6nica e os de dificuldades recorrentes na adapta~ao
aos contextos escolares e profissionais. Nestes casos, ao optar por uma
interven~ao centrada nas em090es, 0 psic610go pode ajudar a pessoa a
perceber como essas dificuldades estruturais se expressam nos proble
Emo<;5es e desellvolvimento vocadollal
mas vocacionais. A activa~ao das emo~oes associadas aos esquemas de
representat;;ao disfuncionais produz uma experiencia emocional que sus
dta uma consciencia sentida de inseguran~as presentes em muitas
dimensoes da vida, particularmente ao nivel dos comportamentos voca donais).
A consciencia de necessidades, interesses e valores pode ser explo rada na abordagem da natureza motivadora das emoroes
Esta op~ao pode ser urn complemento de formas de avalia9ao
quantitativa e/ou qualitativa. Com efeito, os resultados de avalia~iio
quantitativa fornecem indicadores (tipos de interesses e/ou valores)
que podem constituir um ponto de partida para abordagens de natureza
qualitativa que privilegiem a explora~ao das emo~oes. Por exempl0, ao
descrever experiencias pessoais de satisfa<;ao (em actividades de tempos
livres, escolares ou profissionais), 0 sujeito
e
levado a focar-se nas seninternas desse sentimento de satisfa9ao, a amplia-Ias e, final mente, a simboliza-Ias em palavras. Este trabalho explorat6rio tern a vantagem de permitir ao sujeito assumir-se como agente activo na
constru9ao das representa~oes de si, 0 que nao acontece no caso de
representa<;oes construfdas externamente quando, por exemplo, se
e
confrontado com resultados de testes nao assurnidos experiencialmente
(Leitao & Miguel, 2001).
o
desenvolvimento vocacional exige mudanras continuas nas repre sentaroes de siEste princfpio e indissociavel do antecedente, na medida em que 0 desenvolvimento da identidade vocacional implica mudan<;as ao
das estruturas de representa~oes de s1. Esta transforma~ao, importante
para a adapta9i:io
as
contfnuas mudan9as da carreira, pode ser potenciada pelo recurso a estrategias de estimula~ao emocional desenvolvi
das na rela<;ao de ajuda. Com efeito, este tipo de interven~iio permite
acesso a multipla informa<;ao (sensorial, motivacional e cognitiva) de
diferentes niveis de consciencia que
e
sintetizada numa nova estruturarepresenta~ao (Greenberg & Paivio, 1997; Greenberg et aI., 1993,
Greenberg & Van Balen, 1998).
1 Pm"a um conhecimento mais aprofundado sobre estas estrategias de intervem;;ao
ver Gendlin (1996); Greenberg (2002); Greenberg et al. (1993) e Young, Klosko e Weishaar (20m).
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-34 Desenvolvimen/o Vocacional ao Longo da Vida
Este processo pode ser ilustrado por urn caso de abandono escolar e de marginalidade de urn jovem que, apos algumas sessOes de aconse lhamento, se reconhece perdido e scm objectivos. A estrategia de inter
ven~ao pas sou pel a explora~ao de emo~oes associadas a experH~ncias
reveladas em entrevista semi-estruturada (Savickas, 1989). Esta inter
ven~ao fez emergir uma representa~ao completamente nova de si: a
imagem de urn jovem que utiliza 0 "gueto" e a marginalidade como
forma de valoriza~ao pessoal deu lugar
a
de alguem interessado emactividades de ajuda ao proximo que envolvam componentes de heroi
cidade e risco. Esta mudan~a decorreu da entrevista, na qual ficou clara
a coexistencia de uma admira~ao pela mae (a pessoa que ajuda) e pelo
bombeiro (0 heroi salvador que enfrenta riscos). Esta coexistencia foi
expressa na vontade de ser bombeiro ou seguran~a (alguem que se valo
riza ajudando e, ao mesmo tempo, assumindo 0 papel de heroi). A redes
coberta de si como alguem positivo levou ainda a tendencias de ac~ao
estreitamente relacionadas com os novos projectos (tirar carta de con
du~ao e fazer certifica~ao de competencias).
As decisiJes da carreira envolvem processos complexos onde dimen siJes emocionais devem ser consideradas
Em geral, a complexidade dos processos de decisao exige abor dagens multidimensionais que tenham em conta os factores de ordem
cognitiva e emocional que os dificultam ou facilitam (Paixao & Silva,
2001). Para reafirmar 0 papel dos factores de ordem emocional nas
decisoes da carreira, apresenta-se aqui uma modalidade de interven~ao
designada por "dialogo de duas cadeiras" (Greenberg et aI., 1993). Esta tecnica pode ser muito relevante nos casos em que a indecisao voca
cional resulta de incompatibiliza~ao entre as exigencias sociais e as ne
cessidades pessoais. Sao dis so exemplo as escolhas da carreira pouco
tradicionais para 0 grupo de perten~a ou as nao aprovadas por pessoas
significativas. Nestes casos, a pessoa
e
ajudada a diferenciar as duaspartes do eu em conflito (a que exprime as exigencias sociais e a que acentua as necessidades pessoais) e a coloca-Ias em dialogo. Assim, numa cadeira expressam-se os imperativos sociais, e na outra as neces sidades e objectivos pessoais. Os dois lados entram num diaJogo mar
cado pela intensifica~ao da expressao emocional, perrnitindo assim um
contacto intenso com cada uma das partes, uma clarifica~ao do conflito
e a sua resolu~ao atraves de negocia~ao ou integra~ao de um lado no
outro.
Er.'lol':OI?S e desenvolvimenlo vocacional 35
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