CURSO DE BACHARELADO EM HISTÓRIA
INGLIT DA SILVA FREITAS
A SERRA DO DIVISOR: OS MODOS DE VIDA DOS RIBEIRINHOS DA REGIÃO DO RIO MOA
RIO BRANCO, ACRE Julho de 2013
INGLIT DA SILVA FREITAS
SERRA DO DIVISOR: OS MODOS DE VIDA DOS RIBEIRINHOS DA REGIÃO DO RIO MOA
Trabalho apresentado à Universidade Federal do Acre como requisito para obtenção do grau de bacharel em História.
Orientador: Profº. Dr. José Sávio da Costa Maia
RIO BRANCO 2013
SERRA DO DIVISOR: OS MODOS DE VIDA DOS RIBEIRINHOS DA REGIÃO DO RIO MOA
Esta monografia foi apresentada como trabalho de conclusão de Curso de Bacharelado em História da Universidade Federal do Acre, sendo aprovado pela banca constituída pelo professor orientador e membros abaixo mencionados.
BANCA EXAMINADORA
Prof. Drº. José Sávio da Costa Maia Presidente
Profª. Msc. Geórgia Lima Membro
Profº. Drº. Francisco P. de Assis Membro
Profº. Armistrong Santos Membro Suplente
Em especial, à professora Maria José Bezerra, pela paciência, acompanhamento, orientação e incentivos a mim concedidos durante toda a minha caminhada no curso de história. Sua presença e orientação foram marcantes para a escolha deste tema, para a aquisição dos conhecimentos aqui presentes e, especialmente, pela vontade e desejo de conhecer sempre mais.
A Deus, que permitiu a realização deste trabalho, que proveu meu espírito de perseverança, paciência, tolerância e otimismo.
Aos meus familiares que estiveram comigo durante toda a trajetória acadêmica; que suportaram os momentos de incerteza e de desalento; que vibraram comigo nos instantes de finalização de cada capítulo.
Ao meu orientador, Sávio Maia, que dedicou parte de seu tempo a ensinar os caminhos da pesquisa.
A todos os professores, pelos conhecimentos compartilhados.
“Curiosidade, criatividade, disciplina e especialmente paixão são algumas exigências para o desenvolvimento de um trabalho criterioso, baseado no confronto permanente entre o desejo e a realidade.” Mirian Goldenberg
O trabalho apresenta como tema “A Serra do Divisor: os modos de vida dos ribeirinhos da região do Rio Moa”, um estudo bibliográfico que buscou nos referenciais teóricos selecionados construir o modo de vida das comunidades ribeirinhas que residem na área de abrangência do PNSD. Destaca os aspectos históricos e culturais dessas comunidades e evidenciando as belezas que compõem a região e revela como as comunidades tradicionais ribeirinhas buscam o seu meio de subsistência, dela extraindo o alimento, o remédio, o conhecimento, este compartilhado com nas novas gerações, transmitido de geração a geração. Explicita ainda, que embora a criação do PNSD já tenha algum tempo, há a necessidade se levar mais informações às comunidades, promovendo momentos de discussões com as famílias e as equipes responsáveis pela criação do documento que hoje conhecemos como Plano de Manejo do PNDS.
The paper presents the theme "Serra do Divisor: the ways of life of the region bordering the Rio Moa", a bibliographic study that sought the chosen theoretical framework to build the livelihood of coastal communities residing in the catchment area of PNSD. Highlights the historical and cultural aspects of these communities and showing the beauties that make up the region and reveals how traditional riverside communities seek their livelihood, drawing her food, medicine, knowledge, shared this with the new generations, transmitted from generation to generation. Explains further that although the creation of PNSD already some time, there is the need to take more information to communities, promoting moments of discussions with families and teams responsible for creating the document we know as the Management Plan of the PNDS.
Figura 1 - Parque Nacional da Serra do Divisor... 26
Figura 2 - Vista parcial do Parque Nacional da Serra do Divisor... 28
Figura 3 - Rio Moa, na chegada ao pé da Serra do Divisor... 29
Figura 4 - Cachoeira do Buraco Central... 30
Figura 5 - Cachoeira do Amor... 30
Figura 6 - Cachoeira do Ar-Condicionado na Serra do Divisor... 31
Figura 7 - As três quedas d’água da Cachoeira Formosa... 31
Figura 8 - Cachoeira Grande... 32
Figura 9 – Mirante da Serra do Moa... 32
LISTAS DE SIGLAS
IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente
ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
FNS – Fundação Nacional de Saúde
PNSD – Parque Nacional da Serra do Divisor;
PESACRE – Grupo de Pesquisa e Extensão Agroflorestal do Acre; UFAC – Universidade Federal do Acre;
SEMA – Secretaria do Meio Ambiente SETEM
LISTAS DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Situação dos Moradores do PNSD... 44 Gráfico 2 – Tempo de Residência na Região... 44
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 13
1 O MEIO AMBIENTE, O HOMEM E SUAS PERCEPÇÕES... 16
1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA RELAÇÃO HOMEM E O AMBIENTE... 17
1.2 A CULTURA COMO PRODUTO HUMANO... 23
1.3 O TRABALHO COMO ELEMENTO INTEGRADOR ENTRE O HOMEM E A NATUREZA... 25
2 AS COMUNIDADES RIBEIRINHAS DO PNSD: MODOS DE VIDA E USO DOS RECURSOS NATURAIS... 28
2.1 CARACTERIZANDO O LOCAL DA PESQUISA... 29
2.2 RIBEIRINHOS DO RIO MÔA ... 36
2.3 MODOS DE VIDAS DOS RIBEIRINHOS DO RIO MÔA... 41
2.4 CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO, CARACTERÍSTICAS CULTURAIS E E HISTÓRICAS DO PNSD... 43
3 A REALIDADE DAS COMUNIDADES RIBEIRINHAS DO PNSD... 46
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 51
INTRODUÇÃO
Desde o início de sua historia o homem vive em meio à natureza e nela atua em função de suas necessidades e o faz para sobreviver enquanto espécie. No entanto, diferentemente de outros animais, o homem não se limita à imediaticidade das situações com que se depara; ultrapassa limites, não se restringindo às necessidades que se revelam no tempo presente, mas, indo mais além, recriando, os espaços, reciclando experiências e modificando, cada vez mais a natureza.
Visando conhecer um pouco desta relação que o homem mantém com a natureza e, mais ainda, conhecer a ousadia daqueles que optaram por viver, ou simplesmente não puderem escolher viver em outro ambiente, onde a natureza, embora exuberante, se mostra altiva, às vezes inóspita, é que se optou pela realização da pesquisa em um desses lugares: a Serra do Divisor. Lugar paradisíaco, de inúmeras e intrigantes belezas, mas, também, de muitas experiências e lutas cotidianas.
O Parque Nacional da Serra do Divisor foi criado em 1989, durante o governo do então presidente da República José Sarney e está localizado no noroeste do Estado do Acre, na fronteira com o Peru, pertencendo aos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Valter e Marechal Taumaturgo. Devido a sua localização e suas particularidades geográficas naturais - pois a própria natureza cuidou de criar barreiras que dificultam o acesso, de forma a protegê-la -, esta parte da natureza se mantém quase intacta, revelando o pouco contato que mantém com o homem e poucos são os que ousam tocá-la e, assim ela se mantém protegida, o que a torna mais atraente.
Nesta região grupos de ribeirinhos buscam a sua sobrevivência. São indivíduos, famílias e comunidades que possuem um modo de organização e reprodução social pautados nas mudanças no volume das águas do rio e pelos recursos que ele oferece.
Neste contexto, o objetivo maior deste trabalho é descrever o cotidiano e os modos de vida dos ribeirinhos que vivem às margens do Rio Moa, na região da Serra do Moa, - a qual desde 1989 foi transformada em uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, passando a ser conhecida como Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD) -, a partir da contribuição da historiografia, tendo como objetivos direcionadores a identificação das experiências socioculturais dos ribeirinhos que
vivem dentro do espaço do PNSD, a relação entre o homem e a natureza, buscando extrair os benefícios dessa relação para o homem, assim como para a natureza.
A princípio tínhamos como objetivo a realização de um estudo de caso da ocupação dos ribeirinhos, destacando a paisagem e as possibilidades de realização do turismo ambiental naquela região, tema que se constituía em um desafio e um sonho a ser realizado, o qual surgiu durante a ministração da disciplina “Pesquisa Histórica II”, sob responsabilidade da professora Maria José Bezerra, que na época como requisito de avaliação pediu um pré projeto de pesquisa, momento em foi feita uma pesquisa embrionária, onde foram colhidas algumas informações referente ao tema, as quais despertaram além de curiosidade, o interesse, motivos que levaram esta pesquisa a dar continuidade a essa proposta, aliada a oportunidade de participar de uma atividade de campo, integrando a equipe que compunha o “Trem do Conhecimento”, projeto que tinha o apoio do professor Dr. Foster Brown, pesquisador co-orientador do referido projeto.
Na referida oportunidade tivemos contato com diversos grupos sociais do Vale do Juruá, onde participei atentamente de palestras, pude conversar com algumas pessoas desses grupos e tomei conhecimento de algumas das dificuldades que eles enfrentam no seu cotidiano, mormente nos aspectos sociais, econômicos, educacional e de saúde.
Entretanto, algumas dificuldades, como a falta de financiamento do projeto e, consequentemente a impossibilidade de chegar até esses grupos ribeirinhos que vivem às margens do Rio Moa, minaram este sonho, impossibilitando o deslocamento até aquela região e, consequentemente, nos privando do convívio com aqueles ribeirinhos e, forçosamente, nos levando a mudar nossos objetivos iniciais, deslocando os caminhos antes traçados para a realização desta pesquisa que ora se apresenta como um estudo bibliográfico, sem, contudo, deixar de lado o desafio de revelar o modo de vida dos ribeirinhos da região da Serra do Divisor.
Diante deste percalço, partiu-se para uma nova empreitada, redirecionando a pesquisa. Assim, considerando a questão de estudo e o objetivo geral que direcionaram esta pesquisa buscou-se fazer o levantamento, a análise e a interpretação de livros e outras fontes de pesquisa, se pautando em alguns estudos locais e outros autores que tratam de temas pertinentes ao estudo, os quais o fundamentam.
Imbuída do desejo de concretizar a pesquisa fui à busca de novas fontes, estabelecendo contato com a equipe do SOS Amazônia, onde tive acesso a alguns documentos, como o que trata do processo de implantação do Plano Nacional da Serra do Divisor, além disto, foram realizados contatos com pesquisadores que atuaram na área da Serra do divisor, como o Professor Dr. Foster Brown, que tem uma vasta experiência de pesquisa nesta área, a professora Dra. Verônica Passos que elaborou e coordenou toda a pesquisa do Plano Nacional da Serra do divisor (PNSD), também com Roberto Tavares, funcionário da Secretaria do Meio Ambiente (SEMA), o qual já realizou pesquisa nesta região, e, também pude ter acesso ao relatório encaminhado pela antropóloga Prof. Dra. Mariana Ciavatta Pantoja e, assim, os objetivos passaram a ser outros.
A fase de pesquisa e construção deste trabalho se compôs de momentos distintos, sendo que, primeiramente, fez-se a identificação e seleção do referencial bibliográfico para, posteriormente, proceder a leitura e fichamento do referencial teórico selecionado e, por fim, o terceiro momento, que se constituiu na construção do texto ora apresentado, onde os dados coletados nos referenciais foram organizados, interpretados, analisados, resultando em uma estrutura que esta organizada da seguinte forma: Introdução, onde se busca situar o leitor quanto ao tema de estudo, os objetivos e a questão que motivou a construção deste; a Revisão da Literatura, cujo primeiro capitulo, traz uma abordagem sobre a relação que o homem mantém com o ambiente ao longo de sua existência e da produção de sua existência, relação esta que muda conforme as sociedades. O segundo capítulo enfocará o cotidiano de vida em uma comunidade tradicional ribeirinha, traçando, com base em dados coletados nos estudos locais, traços da vida social, cultural e econômica das famílias moradoras dessa região. O terceiro capítulo traz a sistematização da pesquisa realizada, apresentando os resultados e discussões. Por fim, as considerações finais, onde se evidencia a percepção desta pesquisadora com relação aos conceitos trabalhados e resultados alcançados.
1 CAPÍTULO
O MEIO AMBIENTE, O HOMEM E SUAS PERCEPÇÕES
O homem é um ser racional, social e político, mas é, também, um ser natural e como tal é parte integrante da natureza, sendo inconcebível o conjunto da natureza sem ele. Entretanto, ao mesmo tempo em que se constitui um ser natural, o homem se diferencia da natureza, pois o fato de ter consciência de ser um ser social e de sua ação na natureza o difere dos demais.
Marx (1993) chama a atenção para a capacidade reflexiva do homem, pois a reflexão é um ato peculiar do homem que ultrapassa o limite da animalidade, como podemos ver no neste trecho abaixo:
O animal identifica-se com sua atividade vital. Não se distingue dela. É a sua própria atividade. Mas o homem faz da sua atividade vital objeto da vontade e da consciência. Possui uma atividade vital consciente. Ela não é uma determinação com a qual ele imediatamente coincide. A atividade vital consciente distingue o homem da atividade vital dos animais (MARX, 1993: 164 -165).
A reflexão é a capacidade que o homem tem de não só conhecer, mas de conhecer a si mesmo e, neste particular, o torna um ser autoconsciente, e, como ser consciente, o homem se diferencia dos animais pela sua exclusiva capacidade de projetar mentalmente aquilo que produz, ou seja, antecipar idealmente a realização futura, podendo, assim, ultrapassar barreiras, modificar a natureza, imprimindo nesta a sua marca, humanizando-a e, ao fazê-lo, transforma-se a si mesmo, sendo promotor de um processo permanente de mútua transformação.
O homem, ao produzir pelo trabalho, modifica a natureza externa e a si próprio. Essa relação não é unilateral, mas essencialmente social.
Na produção da sua existência, através de suas vivências é que o homem incorpora experiências e conhecimentos, os quais repassa de geração a geração.
Neste processo de produção da existência humana o homem manteve por um longo período de sua existência uma relação de harmonia com a natureza, numa relação mística, como podemos perceber pelo relato de Gonçalves:
No princípio as relações do homem com a natureza eram permeadas de mitos, rituais e magia, pois se tratava de relações divinas. Para cada
fenômeno natural havia um deus, uma entidade responsável e organizadora da vida no planeta: o deus do sol, do mar, da Terra, dos ventos, das chuvas, dos rios, das pedras, das plantações, dos raios e trovões etc. O medo da vingança dos deuses era o moderador do comportamento dessas pessoas, impedindo uma intervenção desastrosa, ou, sem uma justificativa plausível ante a destruição natural (GONÇALVES, 2008, p.172).
1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA RELAÇÃO HOMEM E O AMBIENTE
Desde o início da história dos homens, o convívio com o meio ambiente marcou a própria capacidade de sobrevivência da espécie.
A literatura evidencia que, durante a sua evolução histórica o homem dependia dos produtos coletados na natureza e da caça para sua sobrevivência. Esta percepção da dependência ao meio em que viviam se configurou na deificação do meio ambiente e na adoração da mãe natureza, como afirma Vieira (2007, p.1).
Como se percebe nesta relação mística com a natureza o homem não degradava a natureza, mas, só retirava desta aquilo que era de necessidade extrema, assim o convívio com o meio ambiente marcou a própria capacidade de sobrevivência da espécie, na medida em que dependia dos produtos nesta coletados e, também da caça.
Contudo, a historiografia nos revela que a percepção da relação do homem com a natureza mudava conforme as sociedades. Vieira (2007, p.1) trata da relação do homem com o meio ambiente e traz de forma breve estas percepções. De conformidade com este autor no mundo grego, a terra, mãe-natureza, vivia em função de seus filhos e os demais seres vivos, alimentando-os e vendo-os viver, cabendo aos homens proteger o meio em que viviam conscientes de que a sua destruição implicaria na própria quebra da lógica da vida, assumindo uma relação de harmonia mítico-religiosa com o ambiente em que viviam e a quem deveriam preservar, respeitar e honrar.
De forma completamente antagônica a esse olhar de mundo vivenciado pelos gregos, Vieira (2007, p.1) destaca a concepção judaico-cristã que via a terra como uma posse dos homens a quem caberiam dominar, segundo a ordenança de Deus. Nesta percepção o meio ambiente passou a ser visto como um objeto presenteado aos homens, e como presente de Deus, a natureza deveria alimentar os homens e, por sua vez, se sujeitar aos caprichos da humanidade. Refém dos anseios humanos
que libertos de obrigações filiais com a terra a explorariam livremente rezando ao deus único, masculino e transcendental, localizado num mundo de abstrações metafísicas.
Mas, a história nos mostra que nem sempre esta relação foi harmônica, pois com a evolução da espécie humana, o homem se despe do pensamento mítico, arrancando os deuses da natureza e sobrepondo-se a ela, ele passa a destruí-la como se ele próprio fosse divino, cheio de poderes absolutos. A partir de então, a natureza começou a perder o seu status de mãe da vida. O desejo desenfreado pelo poder e pelo dinheiro, fez com que o homem mudasse sua concepção como parte do natural. Natureza e homem passaram a ser duas coisas distintas, conforme evidencia Gonçalves (2008, p.172).
Vieira (2007, p.2) nos diz que o século XVI manteve inalterada tal leitura de mundo, aprofundando-a a partir do seu final e do início do século XVII, período marcado pela emergência da industrialização na Europa, momento em que a ação transformadora do homem sobre a natureza fazia-se sentir de forma imediata, e que encontrava no pensamento iluminista um escopo na defesa do progresso.
Marilena Chauí (2006 p.47), por sua vez, relata que esta dicotomia nas relações homem-natureza se agudiza a partir do século XVIII e que até este período da historia do homem predominava a ideia de que a ação humana deveria existir para assegurar um aperfeiçoamento à própria natureza do homem, sendo a intervenção humana na natureza (como meio externo ou como essência, característica de si mesmo) chamada de cultura, uma vez que a palavra cultura tem por significado o cuidado do homem com a natureza, ou seja, cultivo.
Como ressalta Carvalho (2003, p.7), as Idades Média e Moderna evidenciaram muitas agressões contra a natureza, reafirmando essa dicotomia, especialmente na fase da Revolução Industrial:
O dinamismo da civilização industrial introduziu radicais mudanças no meio ambiente físico. Essas transformações implicaram a formação de novos conceitos sobre o ambiente e o seu uso. A Revolução Industrial, que teve início no século XVIII, alicerçou-se, até as primeiras décadas do último século, nos três fatores básicos da produção: a natureza, o capital e o trabalho. Porém, desde meados do século XX, um novo, dinâmico e evolucionário fator foi acrescentado: a tecnologia. Esse elemento novo provocou um salto, qualitativo e quantitativo, nos fatores resultantes do processo industrial. Passou-se a gerar bens industriais numa quantidade e numa brevidade de tempo antes impensáveis. Tal circunstância, naturalmente, não se deu sem graves prejuízos à sanidade ambiental (CARVALHO, 2003, p.7).
No que se refere às visões sobre natureza as informações coletadas nos evidenciam uma relação do homem ocidental com a natureza que se divide, sendo cinco as principais interpretações desta relação.
Souza (2009, p.115-116) ao tratar da relação entre o homem e o meio ambiente nos traz essas diferentes percepções, evidenciando que na primeira destas se prega a natureza como uma força espontânea, capaz de gerar e de cuidar de todos os seres por ela criados e movidos.
A natureza, neste sentido, seria a substância (matéria e forma) dos seres. A segunda vê a natureza como a organização universal e necessária dos seres segundo uma ordem regida por leis naturais. Neste sentido, a natureza se caracteriza pelo ordenamento dos seres, pela regularidade dos fenômenos ou dos fatos, pela frequência, constância e repetição de encadeamentos fixos entre as coisas, ou seja, a relação é de causalidade. Assim, a natureza é a ordem e a conexão universal e necessária entre as coisas submetidas ás leis naturais.
A terceira entende a natureza como tudo o que existe no Universo sem a intervenção da vontade e da ação humanas. Ela se opõe a tudo que é artificial, artefato, técnica, etc. Logo, natural é tudo quanto se produz e se desenvolve sem interferência do homem.
A quarta percepção de natureza nos diz que a natureza é o conjunto de tudo quanto existe e é percebido pelos seres humanos como meio e o ambiente no qual vivem.
A natureza, aqui, significa tanto o conjunto das condições físicas em que vivemos como aquelas coisas que contemplamos com emoção (a paisagem, o mar, o céu, as estrelas, terremotos, eclipses, etc.).
Logo, a natureza é o mundo visível como meio ambiente e como aquilo que existe fora de nós, ainda que nos provoque ideias e sentimentos.
Por fim, a última percepção que merece destaque é a atribuída pelas ciências contemporâneas à natureza: ela não é apenas a realidade externa, dada e observável, que percebemos diariamente, mas é objeto de conhecimento, construído pelas operações científicas. Corresponde a um campo objetivo, produzido pela atividade do conhecimento, com o auxílio de instrumentos técnicos.
Logo, a natureza, paradoxalmente, torna-se algo que passa a depender da interferência ou intervenção humana, pois o objeto natural é construído cientificamente.
Como se percebe, essa ideia de natureza indica uma diferença entre a concepção comum e a científica, pois a primeira considera a natureza nos quatro primeiros significados apontados, enquanto a segunda considera a natureza como conceito produzido pelo próprio homem, ela é, também, um artifício, um artefato, enfim, o resultado da construção humana. Logo, a própria ideia de natureza transformou-se em objeto cultural.
Assim, Souza (2009) afirma que é possível dizer que o homem deixou de pertencer ao grupo de seres naturais para tornar-se ser cultural, assim como a natureza.
Contudo, o homem, ao longo de sua evolução, acabou por distinguir-se da natureza, quando a toma como objeto de estudo e compreensão, assumindo-a como parte de si e, a um só tempo, como parte fora de si.
Souza (2009)nos diz, ainda, que este ser revolucionário, capaz de transformar a natureza e a si próprio, multidimensional, local e global é o homem de hoje, que se auto proclama superior aos demais seres da natureza e, nesta superioridade, muitas vezes, esquece-se que a natureza ainda age por si, não seguindo as previsões do homem, não se deixando dominar e demonstrando que também pode destruir a humanidade, como exemplo, vejam-se os tsunamis, os furacões, os terremotos.
O fato é que o homem, para sobreviver, precisa retirar seu sustento da natureza, e para que isso aconteça utiliza ferramentas que, com o passar dos anos e com o aperfeiçoamento das tecnologias dos meios de produção, foram degradando ainda mais o meio ambiente. Isso possibilitou que o ser humano acumulasse cada vez mais recursos naturais e convertesse esses produtos retirados da natureza em capital, ou seja, em riquezas que vão, cada vez mais, despertando a ganância do homem e a sua vontade de ter cada vez mais.
Essa relação de superioridade do homem em relação á natureza se agudiza a partir do século XVIII, com o advento da Revolução Industrial e com as descobertas cientificas e tecnológicas do século XIX, as quais proporcionaram ao homem condições mais sofisticas e amplas de exploração da natureza.
A Revolução Industrial é, sem dúvidas, o marco no segmento industrial, em que o trabalho artesanal, manualmente construído foi, aos poucos, sendo substituídos por máquinas mecânicas e, posteriormente, por máquinas e sistemas automatizados.
A rapidez na produção, a otimização dos processos produtivos e a padronização dos produtos foram vantagens provenientes deste processo de revolução vivenciado. Mas, não podemos descartar que, junto com os benefícios para as fábricas e empresários, e até mesmo para o individuo particularmente, a Revolução Industrial trouxe muitas desvantagens ao meio ambiente, modificando completamente a relação do homem com o meio ambiente. Isto é evidente quando, atualmente, se percebe o resultado da busca dos países por um desenvolvimento econômico, em um ritmo extremamente acelerado, sem uma reflexão ou discussão sobre os prejuízos deste crescimento para a humanidade, gerando o que se pode considerar como um dos maiores prejuízos ambientais da história da humanidade em decorrência do uso irracional: a escassez dos vários recursos naturais provenientes do solo, das águas, da fauna e da flora.
E, assim, nesta relação do homem com a natureza, muitos dos prejuízos a esta são imputados ao homem, a exemplo, os grandes problemas amplamente divulgados pelos veículos de comunicação, tais como: os desmatamentos, a desertificação, a perda da biodiversidade, a depleção da camada de ozônio, o efeito estufa, o superaquecimento global, a crise da água potável, o crescimento demográfico e a cultura consumista, a produção de enormes quantidades de lixo, a biopirataria e tantos outros complicadores, surgem pela autodesignação do homem como dominador da natureza.
A partir do século XX algumas atitudes visando sanar estes prejuízos foram tomadas e como frutos destas várias conferências entre países industrializados foram organizadas na tentativa de encontrar soluções mais adequadas para um desenvolvimento industrial sustentável, com exploração de recursos naturais feitos de modo controlado e planejado. Entre os mais importantes eventos para discussão as alterações climáticas e como amenizar o aquecimento global, estão a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2007, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2009, em Kopenhagen, o Protocolo de Kioto, a Rio Eco 92, ocorrido no Rio de Janeiro, no ano de 1992.
Contudo, afirmar que a degradação da natureza se intensifica com as descobertas científicas e tecnológicas apesar de não ser equivocada pode nos levar a
avaliação errônea de querer colocar na tecnologia e na ciência a culpa pela situação de degradação que hoje se vivencia na natureza, esquecendo-se que quem manipula estas tecnologias é o homem.
Para Oliveira e Guimarães,
A interação e interdependência do meio ambiente, portanto, pressupõem superar o paradigma de dominação que sempre caracterizou as relações entre o homem e o meio ambiente, levando-nos a uma re(significação) que potencialize a ética da alteridade, com ênfase em valores fundamentais. Este novo modelo de organização planetária deve ter como alicerce a responsabilidade, o cuidado e o respeito do homem para consigo mesmo, para com o próximo, para com as outras espécies e, até mesmo, para com os componentes abióticos que constituem a biosfera (OLIVEIRA E GUIMARÃES, 2004, p. 27):
Como resalta Gonçalves (2008, p.176) se faz mister por parte do ser humano “uma nova postura diante de si mesmo, do outro e da natureza, uma postura ética, já que a questão central da ética é: “como devo agir perante os outros?”“.
Portanto, podemos dizer, diante do exposto que as ações humanas sobre o meio natural devem ser realizadas com cautela e responsabilidade.
Cabe-nos, finalizando este ponto, afirmar que a deterioração dos recursos naturais do planeta fazem com que a preocupação com a proteção do ambiente venha cada vez mais adquirindo importância, passando a configurar um fato político, noticiado pelos meios de comunicação, discutido nas acadêmicas e outros espaços de discussões políticas e sociais a nível mundial.
Os problemas globais que estão transformando a natureza e, consequentemente o mundo, bem como a relação do homem com o meio ambiente, deteriorando o planeta e a vida – não só a humana – podem até se tornar irreversíveis. Precisam ser pensados interdependentemente, embora sejam problemas que estão interligados.
A discussão feita até aqui está em âmbito global. Quando se volta atenção para o local, pode-se dizer que estas questões, no caso do Brasil são, a exemplo global, produto desta relação capitalista, ou mercadológica, que o homem passa a ter com a natureza, - dela extraindo riquezas para gerar riquezas materiais para si, sem se preocupar com a degradação ambiental -, e, como afirma Santos, este espírito capitalista se faz sentir, principalmente, a partir da década de 50:
O espírito desenvolvimentista da década de 1950 enraizou-se no Brasil e as décadas de 1960 e 1970 apresentaram um país com prioridade na industrialização. Desta forma, têm-se documentos que baseados na premissa de que o principal impacto era a pobreza, estimulavam, e muito, a geração de poluentes e o depauperamento dos recursos naturais. Nesse período, os governos brasileiros tiveram pouquíssima preocupação com o meio. No entanto, não se pode deixar de lembrar que a grande preocupação com o meio ambiente deu-se já a partir da década de 1960 nos EUA, propagando-se para outros países e fazendo com que eles debatessem temas como avaliação de impactos ambientais, planejamento e gerenciamento ambiental. Na década de 1970, aderiram à discussão países como Canadá, Japão, Nova Zelândia, Austrália e a Europa Ocidental e, na década de 1980 , a América Latina, Europa Oriental, União Soviética e Sul e Leste Asiático. Na década de 1990, os países da África, do mundo árabe e a China iniciaram um debate sobre os problemas ambientais. Sob essa perspectiva, o Brasil se inseriu na gestão em fins dos anos de 1970 e início dos anos de 1980 (SANTOS, 2004, p. 21 apud SILVA, 2012, p.5).
Não se tem a possibilidade de reverter este processo sem pensar ações que visem conter a ação do homem e minimizar os prejuízos. Entretanto, quando se falar em pensar ações, necessariamente se falar em planejar ações. Neste sentido, Santos nos chama a atenção para o fato de que a abordagem do Planejamento Ambiental relacionado ao desenvolvimento urbano associado à conservação ambiental é um desafio recente para as gestões municipais e estaduais, pois por muito tempo a política urbana permaneceu restrita às construções, como as unidades habitacionais, escolas, postos de saúde, viadutos, pontes entre outros, na qual deixou de lado as questões ambientais.
Mais importante ainda é a ressalva que Santos (2004) faz ao afirma que nenhum planejamento se efetiva verdadeiramente sem a participação da população e sem uma forte proposta de educação ambiental, pois não existe ser humano sem o meio natural, por isso é que se deve com urgência voltar o olhar para a questão ambiental e que a gestão pública de cada país passe a preocupar-se não somente com a questão econômica, pois pode não haver uma diminuição na produção de bens, o que necessitamos é reavaliar como esta produção pode ser realizada sem degradação ambiental, pois meio para isso existe, o que não existe é vontade em fazer acontecer.
1.2 A CULTURA COMO PRODUTO HUMANO
A cultura se originou quando o homem começou a se diferenciar de outros animais e passou a utilizar instrumentos que facilitaram sua ação cotidiana, começou a se vestir e a se organizar além do que sua condição biológica lhe exigia, ultrapassando as suas necessidades básicas de sobrevivência, como comer e se reproduzir, por exemplo, aumentando, cada vez mais a sua capacidade de adaptação aos mais diferentes locais e sua capacidade de intervenção na natureza, tendo como consequência a diminuição de sua dependência aos limites impostos pelo instinto biológico.
Como afirma Martins (2008), esses atos, procedimentos e criações que foram desenvolvidos pelo homem ao longo de sua vivencia e que não estavam relacionados com o instinto natural é o que denominamos cultura. Por isso, pode-se afirmar que a cultura é um fenômeno eminentemente humano. Toda criação humana, material ou não material, é cultura; onde não há intervenção ou criação humana temos somente a natureza. Podemos falar, portanto, na existência de meio ambiente natural e meio ambiente cultural.
O ambiente cultural do homem inclui, por exemplo, as vilas, as aldeias, as cidades os animais domésticos, as plantações, os novos relacionamentos entre os indivíduos, a linguagem, as crenças, as religiões, a música, a tecnologia e etc.
Ainda de acordo com Martins (2008), a cultura ocidentalizada se manifesta por meio de variados sistemas: valores, normas, ideologia, etc. que influenciam decisivamente a personalidade individual. Para este autor, entre as variadas manifestações concretas de uma cultura, seja ela qual for, há que destacar alguns pontos que são importantes como categorias de análise e que são, ao mesmo tempo, comuns a todos os tipos de cultura, porque constituem o produto das relações sociais que se estabelecem entre os homens e que se incorporam ao modo de viver do ser humano e do grupo que ele faz parte:
1. Vida material: produção necessária para se garantir a sobrevivência: ferramentas, conhecimento, técnicas, etc. Processos que uma cultura utiliza para produzir bens e serviços e sua distribuição e consumo;
2. Interações sociais: os papéis que a população e as pessoas assumem e os padrões de autoridade e de responsabilidade. Esses são confirmados pelas instituições sociais que se reafirmam (cultos, ritos, festas, educação, chefia, etc.); 3. Linguagem: considerada não somente no sentido oral. Estende-se à totalidade da manifestação e comunicação simbólica, na qual se incluem a fala, os gestos, as expressões, os símbolos e outros mecanismos de manifestação do indivíduo;
4. Estética: revela os padrões culturais de beleza e sua expressão (nos desenhos, estilos, cores, movimentos, emoções, artes, posturas preferidas, etc.)
5. Religião: influencia na percepção que uma cultura possui sobre a vida, seu significado e seu conceito. Também desempenha influência nos papéis sociais que o homem e a mulher devem desempenhar, estabelece relações de autoridade, as responsabilidades e os deveres dos indivíduos, etc.
6. Hábitos alimentares: a obtenção, a preparação e o consumo de alimentos estão inter-relacionados com muitos outros elementos universais de uma cultura, como a cerimônia, festas, tradições e divisão do trabalho. Por exemplo, algumas culturas não consomem carne de vaca, em outras não se consome a de porco.
1.3 O TRABALHO COMO ELEMENTO INTEGRADOR ENTRE O HOMEM E A NATUREZA
A atuação do homem sobre a natureza seria realizada através do trabalho, sendo o trabalho um objeto natural que se apresenta enquanto parte de seu corpo inorgânico, modificando a natureza e a si próprio através dessa ação mediadora e transformadora humana (MARX, 1987, p.448).
Assim, Marx via no trabalho o instrumento de humanização do ser humano, diferenciando-o dos outros seres vivos.
Engels (1991) compartilhava deste posicionamento ao afirmar que o elemento diferenciador entre os homens e os animais seria a capacidade humana em transformar a natureza, enquanto que os animais apenas se utilizavam dos benefícios cedidos por ela.
Mas, naquela época ambos já se preocupavam como seria a intervenção do homem na natureza. Tal afirmação se justifica na advertência de Engels quando este diz que
“No entanto, os homens deveriam ficar atentos diante dos riscos que passariam a viver, no momento em que transformavam a natureza, já que a reação natural não só seria desconhecida, como também seria daninha aos homens” (ENGELS, 1991apud VIEIRA [s/d], p.6).
Prosseguindo, Engels advertia que “os homens não poderiam dominar a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro, como alguém situado fora da Natureza; mas sim que lhe pertencemos, com a nossa carne, nosso sangue, nosso cérebro; que estamos no meio dela (...)”.
Por sua vez, Vieira destaca que o ideário socialista pensado por Marx e Engels refunda a relação entre a natureza e homem, no momento em que compreende a importância do progresso sem que este resulte na destruição do meio ambiente. A interação entre o homem e seu meio se desloca de uma mera relação de exploração para uma simbiose onde a preservação da natureza é vista como essencial para a reprodução e preservação da espécie humana (Vieira, 2007, p.12).
Não é demais afirmar que o trabalho é elemento indispensável para o funcionamento de qualquer sociedade. É ele que possibilita a continuidade da humanidade, haja vista o homem depender dos recursos que a natureza oferece para sua sobrevivência e é através do trabalho como produto de sua força física e intelectual que este atua na natureza, transformando-a.
As transformações vivenciadas até aqui, produto da ação do homem, fruto de seu trabalho físico e intelectual tem levado para o debate a própria categoria marxiana trabalho. Estes intensos debates se desenvolvem, nesse sentido, ora negando totalmente a sua centralidade, ora repensando-o sobre outras bases, ou mesmo concepções que entendem que o mesmo ainda é central e fundamental para a problematização da sociedade capitalista.
Ao tratar do trabalho como uma categoria de análise da sociedade Lucena destaca que não podemos nos esquecer que o mesmo não se explica por si só, mas sim como um profundo processo humano de transformação da natureza (Lucena, 2006, p.1).
Todos esses debates, na realidade, têm como pano de fundo o distanciamento do homem da sua relação deificada com a natureza, trata de se questionar, ou de se refletir sobre, como afirma Antunes (2000) “os sentidos do trabalho”. Assim, o que produzir, para quem produzir e como produzir se transformaram em grandes desafios para a humanidade.
De acordo com este autor, o trabalho social hoje, complexificado, socialmente combinado e intensificado nos seus ritmos e processos, se coloca como esfera central da sociedade enquanto processo que cria valor.
Mas, como se dá a relação entre trabalho, cultura e outras categorias no cotidiano de pessoas que vivem distante deste ciclo urbano, em meio á floresta, onde muitas das tecnologias provenientes do avanço a ciência e as novas relações de trabalho ainda não se fazem presentes?
Estas são questões que serão respondidas nos capítulos seguintes, onde a vida do homem ribeirinho que vive na região do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD) será apresentada e comentada.
2 CAPÍTULO
AS COMUNIDADES RIBEIRINHAS: MODOS DE VIDA E USO DOS RECURSOS NATURAIS
Neste capítulo se abordará sobre as comunidades tradicionais ribeirinha do Rio Môa, destacando, com base em dados coletados nos estudos locais, reportagens em jornais locais, entre outras fontes, dados que nos possibilitem conhecer a região e traços da vida social, cultural e econômica das famílias que moram às margens do Rio Moa, que fica nas terras do Parque Nacional da Serra do Divisor.
A figura abaixo mostra a área que compreende o PNSD. O tamanho desta nos dá a ideia da grandiosidade e dimensão territorial e hídrica deste rio que corta o parque, um rio sinuoso, ladeado por uma densa floresta, grande não só pela sua dimensão geográfica, mas, principalmente pela importância que assume na vida destas comunidades ribeirinhas, as quais o utilizam para a navegação, irrigação, abastecimento de água, alimentação, etc.
Figura 1 - Parque Nacional da Serra do Divisor
A figura nos dá, ainda, uma dimensão, embora que ainda parcial, do parque, banhado pela bacia do rio Juruá, uma área da floresta amazônica quase intocada pelo homem, fato que se explica exatamente pelas barreiras criadas pela própria natureza, que dificultam o acesso à região. Assim, seus ecossistemas, ainda preservados, fazem dela uma importante região que precisa continuar preservada, na última porção dentro do território brasileiro antes da fronteira com o Peru.
O Parque Nacional da Serra do Divisor, cujo nome origina-se de uma importante característica geomorfológica que existe na área: a região é um divisor de águas das bacias hidrográficas do Médio Vale do Rio Ucayali (Peru) e do Alto Vale do Rio Juruá (Acre) 1.
O acesso é feito a partir da capital do Estado do Acre (Rio Branco), percorrendo 600 km de estrada de chão (BR-364), cuja condição de trafegabilidade é péssima, ficando esta intransitável durante a maior parte do ano. Outra forma de acesso é por via aérea até Cruzeiro do Sul, para depois, se empreender dois dias de viagem de barco até os limites do parque, poisa rede hidrográfica delimita boa parte da área e facilita o acesso ao PNSD, através dos rios Juruá, Moa, Juruá-Mirim, Azul, Amônea e seus afluentes, os quais são fundamentais na dinâmica de vida da população residente do PNSD, pois é a única forma de transporte, fornece alimentos e também é o local onde os moradores retiram água para beber, cozinhar e tomar banho, conforme esclarece Rodrigues (2006, p.25)
Portanto, esse complexo bionatural nos proporciona pensar o elemento humano compreendido como elemento culturalmente fundamental nessa relação homem-natureza, particularmente , os sujeitos ribeirinhos do PNSD.
2.1 CARACTERIZANDO O LOCAL DA PESQUISA
De acordo com os estudos antropológicos realizados por Mariana Ciavatta Pantoja Franco (1997) o Parque Nacional da Serra do Divisor, foicriado a 16 de junho de 1989 pelo Decreto nº. 97.839.
1 Relatório Parametrizado - Unidade de Conservação/ Ministério do Meio Ambiente/Secretaria de Biodiversidade
O Parque abrange uma área de 605.000 ha, atingindo, hoje, quatro municípios do Vale do Juruá: Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Válter e Marechal Thaumaturgo e sua administração está atualmente a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), uma autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente (FRANCO, 1997, p.3).
De acordo com Mariana C. Pantoja Franco (1997) o parque foi criado com o como objetivo "de proteger e preservar amostra dos ecossistemas ali existentes, assegurando a preservação de seus recursos naturais, proporcionando oportunidades controladas para uso pelo público, educação e pesquisa científica", sendo, portanto, uma ação do “Plano do Sistema de Unidades de Conservação do Brasil, apresentado pelo IBDF em 1979, com o objetivo de modernizar a ação estatal junto ao setor florestal, sendo este o documento fundador do marco metodológico e político-administrativo do estabelecimento de um programa sistemático de conservação da natureza na Amazônia” (BARNES, 2006, p.46).
O Parque possui no seu território a única cadeia de montanhas do Acre, a Serra do Divisor, que é o divisor de águas da bacia dos Rios Ucayali no Peru e Juruá no Brasil.
A figura abaixo nos dá a ideia do relevo da região, composto de suave ondulado e uma cadeia montanhosa, além de uma vegetação muito bonita, fazendo da região uma linda vista, assim como revela a possibilidade de diversidade de habitat, o que atribui à região uma importância singular, como nos revela a figura 2.
Figura 2 - Vista parcial do Parque Nacional da Serra do Divisor
Por sua paisagem de floresta densa, quase intocadae sua cadeia de montanha é que a Serra do Divisor chama atenção, despertando naqueles que têm a oportunidades de ver as fotos ou assistir alguns dos poucos vídeos feitos pelos intrépidos aventureiros que conseguiram adentrar a região, presenciar e desfrutar das belas cachoeiras ali existentes, também o desejo de conhecer este pedaço da floresta permeado de tantas coisas a descobrir.
De acordo com Tavares (2013), até a Serra do Divisor, ultima fronteira estrangeira do Acre com o Peru, são encontradas inúmeras comunidades. Dentro do Parque existem aproximadamente 73 comunidades, entre índios e brancos. Algumas delas existentes na beira dos rios. Outras, em locais conhecidos como centros, um pouco mais longe dos mananciais, foram criadas para se proteger das enchentes.
Como esclarece Tavares, antes mesmo de chegar a Serra do Divisor, do barco já é possível de longe avistar seu topo mais alto, de 609 metros, ou seja, a cadeia de montanhas conhecida como Serra do Moa, a qual no Peru recebe o nome de Cotamana.
De um lado e outro, a Serra abre passagem para o Rio Môa, conforme evidencia a figura 3, a qual revela a beleza deste rio, que passa por entre barreiras de pedra, cercado pela densa floresta.
Figura 3 - Rio Moa, na chegada ao pé da Serra do Divisor
Tavares (2013) compartilha, ainda, que da cadeia montanhosa jorram mananciais de água cristalina, que aos poucos vão ficando amarelas, devido à influência dos buritizais, espécie de grande ocorrência ao longo de toda cordilheira.
Na Serra do Divisor, entre as inúmeras cachoeiras as mais conhecidas são a do Buraco Central, a do Amor, Ar-Condicionado, Formosa e Cachoeira Grande.
Figura 4 - Cachoeira do Buraco Central
http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor
A cachoeira do Buraco Central, acima, é de fácil acesso dentro da Serra. Fica na margem do rio. Ela surgiu pela ação do homem, após uma prospecção de petróleo feita pela Petrobrás em 1934, o que evidencia a discussão feita acerca da relação que o homem mantém com a natureza, onde, muitas vezes, o homem modifica essa natureza. Neste caso especifico, esta mudança proporcionou algo bom, resultando em um espaço de lazer para o homem desta região e aos que a visitam.
A cachoeira seguinte, conhecida como a cachoeira do Amor, é um espaço de muito lazer para os visitantes, além dos moradores da região e entorno, se configurando como um espaço de divertimento, um ponto turístico por excelência.
A cachoeira do Amor é praticamente uma reta de cerca de vinte metros, composta por uma piscina protegida por um anteparo de pedra que mais lembra um cânion, como se percebe pela figura:
Figura 5 - Cachoeira do Amor
http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor
Desde a base do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) até a Cachoeira do Amor são trinta minutos de uma caminhada que passa por uma área de mata recuperada - uma capoeira de mais de 25 anos, dos tempos do primeiro morador do escritório montado pelo extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
Florestal, IBDF - e segue por uma pequena corredeira de água cristalina cheia de pedras2.
Um pouco mais acima fica a cachoeira do Ar Condicionado. Para chegar até lá é preciso caminhar por uma trilha por cerca de dez minutos. Diferente da água morna do Buraco da Central, a cachoeira do Ar-Condicionado possui uma água fria que vem do topo da montanha.
Figura 6 - Cachoeira do Ar-Condicionado na Serra do Divisor
http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor
Por sua vez, a Cachoeira Formosa é, sem dúvida, uma das mais belas da Serra. Ela possui três quedas d’água, cada um com cerca de três metros de largura3
.
Figura 7 - As três quedas d’água da Cachoeira Formosa
http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor
2
Informações extraídas da Agência de notícias do Acre - www.agencia.ac.gov.br.
3
Todas as informações expostas, bem como as fotos são frutos da reportagem de Luciano Tavares, do jornal online ac24horas disponível em: http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor-seu-povo-atrativos.
A beleza se completa com a formação de uma piscina natural de águas escuras no pé da cachoeira. Para conhecer a Formosa, a mais bela cachoeira do parque, é necessário caminhar por cerca de 4 horas num percurso pesado, com subidas, descidas e trechos alagados bem no coração da selva. Os minutos finais são feitos dentro do rio.
Por sua vez, a Cachoeira Grande não perde em beleza para as outras quatros, conforme evidencia a figura 8:
Figura 8 - Cachoeira Grande
http://www.ac24horas.com/2013/01/13/a-imponente-serra-do-divisor
Outro grande atrativo é o Mirante da Serra, cuja beleza transcende a imaginação, e de onde é possível avistar o rio e uma grande parte da planície do Parque da Serra do Divisor, como se vê atrás da figura abaixo:
Figura 9 – Mirante da Serra do Moa
Do Mirante é possível avistar o rio Moa e uma grande planície do Parque do Divisor. A viagem até o topo do Mirante, dependendo do preparo físico de quem se dispõe a se aventurar é de até 50 minutos.
Figura 10 – Topo do Mirante da Serra do Moa
A viagem até o topo do Mirante, dependendo do preparo físico de quem se dispõe a se aventurar é de até 50 minutos.
2.2 RIBEIRINHOS DO RIO MOA
Falar dos ribeirinhos é destacar um modo de vida peculiar. Nosso objetivo é traçar a trajetória e cotidiano destes, analisando os seus modos de vidas, principalmente daqueles que vivem às margens do Rio Moa localizado na Serra do Divisor, lugar que nos encanta e nos desperta curiosidade. E, por isso mesmo, nos instiga em desvelar e, assim compreender a relação que se estabelece entre estes povos que têm a natureza como subsidiadora de toda sua riqueza material e cultural, atribuindo-lhe valor de uso material e imaterial, individual e ao mesmo tempo coletivo.
O ribeirinho que habita as margens do Moa integra o grupo das populações tradicionais que se percebe pertencente à natureza, em seu tempo e espaço próprios, fluindo com ela e não a dominando.
“... temos como definição de “ribeirinho” a população constituinte que possui um modo de vida peculiar que a distingue das demais populações do meio rural ou urbano, que possui sua cosmovisão marcada pela presença do rio. Para estas populações, o rio não é apenas um elemento do cenário ou paisagem, mas algo constitutivo do modo de ser e viver do homem” (Silva e Souza Filho, 2002:27).
Como povos ribeirinhos, portanto, se entende aquelas populações tradicionais que residem nas proximidades dos rios e têm a pesca artesanal como principal atividade de subsistência e cultivam pequenos roçados para consumo próprio. Podem praticar também atividades extrativistas.
É como comum nestas localidades tradicionais a continuidade que há nos conceitos sobre a terra, sobre o rio, a lua, as ervas, os mitos, as lendas e crenças, as técnicas de pesca, dentre outros que são repassados de pai para filho e são mecanismos de reprodução fundamentais para a sobrevivência do grupo.
Contudo, cabe ressaltar que não é tarefa fácil entendermos o modo de vida de uma comunidade constituída a partir de uma organização social diferente da nossa. Neste sentido, é importante que o pesquisador se disponha a entender os sujeitos pesquisados dentro de contexto diferente, desprovido de pré-conceitos.
Destacar aqui os modos de vida das comunidades ribeirinhas que habitam a região do Rio Moa é de fundamental importante, haja vista os aspectos da vida social desses povos, onde a cultura tradicional acumulada érepassada por várias gerações, difere do que vem acontecendo na zona urbana onde se vivencia a globalização das culturas.
Ao analisar as peculiaridades das comunidades ribeirinhas o antropólogo Diegues (1998) parte de um olhar para as comunidades onde afirma que:
As culturas e sociedades tradicionais se caracterizam pela a) dependência e até simbiose com a natureza, os ciclos naturais e os recursos renováveis a partir do qual se constrói um modo de vida; b) conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos que se refletem na elaboração de estratégias de uso e de manejo dos recursos naturais (...); c) noção de território ou espaço onde o grupo social se reproduz econômica e socialmente; d) moradia e ocupação desse território por varias gerações, (...); e) importância das atividades
de subsistência, ainda que a produção de mercadorias possa estar mais ou menos desenvolvida, o que implica uma relação com o mercado; f) reduzida acumulação de capital; g) importância dada à unidade familiar domestica ou comunal e as relações de parentesco ou compadrio para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais; h) importância das simbologias, mitos e rituais associados à caça, à pesca e atividades extrativistas; i) a tecnologia utilizada é relativamente simples, de impacto limitado sobre o meio ambiente. Há reduzida divisão técnica e social do trabalho, sobressaindo o artesanal, cujo produtor (e sua família) domina o processo de trabalho até o produto final; j) fraco poder político, que em geral reside com os grupos de poder dos centros urbanos; l) auto-identificação ou identificação pelos outros de se pertencer a uma cultura distinta das outras. (DIEGUES, 1998 p. 87-88).
Do exposto afere-se que essa relação de dependência do homem à natureza é, exatamente, o que possibilita ao homem adquirir os conhecimentos que proporcionam tornar essa sobrevivência, além de possível, mais viável, mais particularizada, mais duradoura. É o que se pode chamar de processo de produção da existência humana, pois, apesar deste ser um processo social é, antes de tudo, um processo de construção que se pauta por esta relação e, ao mesmo tempo, reflete essa relação.
Como exercício didático, se optou por se elencar categorias que se entende como pertinentes para análise e para a compreensão desses modos de vida ribeirinhos a partir do que expõe Diegues. Assim, destaca-se que nas comunidades ribeirinhas que habitam ao longo do rio Moa as seguintes categorias:
1. Organização comunal:
As comunidades ribeirinhas partilham da ideia de vida com ajuda mutua, primando pela unidade. Neste sentido, se organizam a partir de laços de parentesco e ali é o espaço onde o sujeito vive e aprende seus deveres e os deveres da coletividade para com ele.
2. Ocupação do espaço pelas gerações:
A cultura é herança transmitida de uma geração a outra. Ela tem suas raízes num passado longínquo, que mergulha no território onde seus mortos são enterrados e onde seus deuses se manifestam. Não é, portanto um conjunto fechado e imutável de técnicas e de comportamentos (CLAVAL, 2007, p. 63)
3. Relação de trabalho:
Uma característica que merece ser destacada é que esses povos ribeirinhos não têm presente em sua cultura a lógica do acúmulo, mas sim a do trabalho para o sustento, sendo a produção para a subsistência diária. Assim, a divisão do trabalho
feita de forma peculiar, sendo as tarefas distribuídas entre todos os membros da família e consequentemente as relações de trabalho, que se dão de forma coletiva. 4. Organização Social dos Ribeirinhos do Rio Moa
A partir das leituras dos autores (Clava, 1979; Ribeiro, 2012) é possível apreender que o homem faz parte de uma sociedade e que nela existem diferentes grupos sociais e cada um deles apresenta uma organização social e cultural específica. Enfatiza-se que a maneira de organizar e pensar a vida comum aos integrantes de um determinado grupo social favorece a socialização de cada individuo ao seu grupo, bem como as relações espaciais dos mesmos.
Neste particular, pode-se dizer que as comunidades ribeirinhas que vivem as margens do Rio Môa, ou seja, dentro dos limites do PNSD, ficam basicamente isoladas. Em consequência disto, as famílias se constituem a partir do matrimônio entre pessoas da própria comunidade e, como afirma Claval, “nestas sociedades a vida social é feita de esforços para assegurar a subsistência de todos, socializar os jovens, transmitir a cultura, enriquecê-la ou adaptá-la a novas necessidades” (CLAVAL, 1979, p.39).
5. Relações Religiosas:
Na realidade do ribeirinho encontramos os mitos, que de acordo com os códigos da lei mediadora de convivência entre o ser humano e a natureza. Esta lei, caso transgredida gera sofrimento ao seu transgressor. A linguagem mítica vem ora simplificar o entendimento de algumas mensagens, ora mascarar ou re-explicar verdades sociais que para o ribeirinho, seriam inconcebíveis. O isolamento geográfico que o ribeirinho enfrenta proporciona-lhe liberdade para a criação das normas de convivência, ainda que inconscientes.
6. Relação com a natureza
As pessoas criam laços afetivos com os lugares onde moram. E muitos elementos contribuem para a criação destes laços que, quando fortes, podem superar até mesmo as grandes adversidades.
Nas comunidades ribeirinhas esses laços afetivos se fazem presentes nas atividades mais simples. É fato que a experiência do individuo com o meio, não pode ser compreendida sem levar em consideração o modo como este percebe o mundo e isso vai definir o modo como as pessoas interagem com o espaço que vivenciam.
De acordo com Ribeiro (2012, p.84), o ribeirinho do Rio Moa tem seu universo marcado pela presença da mata e do rio, elementos que estão cotidianamente em
sua vida. Essa convivência é um elo que se fortifica a cada amanhecer, quando seu olhar volta-se para o rio e adentra a mata.Essa relação entre o homem ribeirinho, as águas e a mata é o principal fio condutor do seu cotidiano.
Para este autor esta ligação é representada nas atividades de subsistência, como a caça, a pesca, as plantações de hortas, a construção de moradias, quando apresenta a organização da plantação conforme o movimento do rio, as moradias são construídas a margem deste, organizando o espaço das localidades, identifica-se uma relação muito particular e envolvente, há uma relação do sentimento de gostar deste grupo social para com a natureza e em prol dela que possam garantir sua sobrevivência.
Ribeiro (2012, p.84) afirma que o espaço ribeirinho, assim como outros espaços, pode ser compreendido pela perspectiva da construção cultural, bem como pelos seus elementos culturais. Logo, afirma, as narrativas ribeirinhas são apresentadas e interpretadas a partir de suas representações culturais. Este autor compartilha da conceituação de cultura em Geertz (1989, p. 15), o qual afirma que “o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias”.
Geertz (2006, p.116) destaca que o saber local, ou o senso comum “é um sistema cultural, [...] que se baseia nos mesmos argumentos em que se baseiam outros sistemas culturais semelhantes: aqueles que os possuem têm convicção do seu valor e da sua validade.” Esses saberes integram uma cultura local, que mesmo impregnada de elementos padronizados da globalização, possuem alguns traços bem específicos do lugar. É assim que o espaço se transforma em lugar para as pessoas. Saberes criam laços profundos que nem mesmo uma enchente ou outro desastre natural conseguem desfazer.
Para atingir este saber e finalmente compreender o modo como as pessoas vivem em um determinado espaço ou território, é preciso captar a percepção destas pessoas em relação ao meio. O morador ribeirinho, segundo Nogueira (2001, p.94) é “um sujeito que está no mundo, que participa das relações sociais de produção e construção do lugar através de seu trabalho. Possui um saber sobre eles que foi adquirido ao longo de sua existência no mundo”.
2.3 MODOS DE VIDAS DOS RIBEIRINHOS DO RIO MOA
Conforme já foi mencionado no capitulo anterior, a região que compreende o Parque Nacional da Serra do Divisor é composta por 73 comunidades, as quais se localizam ao longo das margens do rio Moa ou mais para o centro, dentro das matas, onde buscam se proteger das enchentes nos períodos de cheia.
De acordo com Yaguiu (2011, p.222), residem 722 famílias atualmente no Parque, o que representam aproximadamente 2.200 pessoas. As famílias sobrevivem da agricultura, caça, pesca, criação de animais e extrativismo. Todas as famílias são de antigos seringueiros que foram para a Serra do Môa (como era conhecida a região antes da constituição do Parque) pressionados nos seus locais de origem pelos seringalistas latifundiários.
Por trata-se de uma pesquisa bibliográfica é muito difícil revelar o cotidiano de vida dessas comunidades que vivem dentro do ambiente do PNSD, pois há uma limitação das fontes de consultas consideradas confiáveis, haja vista existirem muitos estudos que abordam de forma geral o modo de vida das comunidades ribeirinhas, mas não abordam especificamente as comunidades que residem no PNSD.
Embora admitindo as limitações da pesquisa, podemos afirmar que atingimos nossos objetivos ao evidenciar o cotidiano dos ribeirinhos que vivem nesta região.
O material de referência mais ricamente informativo compreende a Série Assentamento Sustentável São Salvador, um estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre (CÂMARA, 2002), mas, como o próprio nome indica este levantamento socioeconômico e ecológico realizado pelo Pesacre se refere ao Seringal São Salvador, exatamente porque o Projeto Assentamento Sustentável São Salvador pratica uma nova metodologia na criação e implementação de assentamentos rurais na Amazônia. Entretanto, este assentamento, em que pese sua importância e colaboração, se constitui uma parte ínfima das comunidades que vivem dentro das áreas que compõem o Parque Nacional da Serra do divisor.
O levantamento realizado pelo PESACRE esclarece que as antigas colocações do seringal São Salvador formam atualmente comunidades de várzea, distribuídas ao longo dos rios Môa e Azul. Cada comunidade é composta de 4 a 15 famílias ou unidades domésticas, somando um total de 76 famílias.
A população das comunidades varia de 22 a 88 habitantes, sendo a sede do seringal a comunidade mais populosa e com maior número de famílias. A população total do seringal soma 423 habitantes.
A população do seringal São Salvador está organizada em clãs familiares. Nas atuais comunidades moram famílias com fortes laços de parentesco, a base da organização para a produção. Familiares trabalham em mutirão ou em sistema de troca de dias para o preparo do solo ou fabricação de farinha. A única associação local de produtores abrange toda a área do rio Môa, e foi criada para o recebimento de financiamento para a produção, o que não ocorreu. Não há, portanto, organização dos produtores do seringal São Salvador no sentido do trabalho em comunidade para aumentar a produção, facilitar a compra de insumos, ou comercializar produtos (CÂMARA, 2002, p.10-12).
De acordo com o levantamento do PESACRE, a sobrevivência das comunidades de São Salvador se baseia na produção da farinha, na criação de animais domésticos, pois os mesmos criam uma variedade de animais domésticos, especialmente bovino, suíno e frango; entretanto, a área não tem cavalos, mulas e burros. Somente algumas famílias possuem recursos para criação de bovinos. Não há nenhuma demanda de mercado para o leite e, assim, a maior parte é consumida ou doada para os vizinhos. Em muitas moradias encontram-se cães e gatos domésticos.
A caça e a pesca para subsistência constituíram-se sempre como parte da cultura tradicional dos moradores do São Salvador. Entretanto, houve uma intensificação destas atividades logo depois que os moradores pararam de extrair a borracha. Nessa época os moradores e os caçadores profissionais provenientes de outras áreas iniciaram a caça intensiva a fim de vender a carne em Cruzeiro do Sul.
Mas, como informa o levantamento, os peixes fornecem a fonte principal de proteína animal no São Salvador. Todos consomem peixes, e a maioria das pessoas participa da pesca. O São Salvador possui cerca de 40 corpos d’água incluindo rios, ribeirões, lagos e lagoas que são considerados propriedade comum. Os moradores têm já uma tradição simples de manejo da pesca e de venda aos pescadores profissionais, que vêm à boca dos igarapés em barcos providos de geladeiras querendo comprar dos moradores locais. Os moradores podem, também, vender os peixes em quantidades pequenas, em Mâncio Lima, mas a pesca comercial é sazonal.
Outra fonte muito importante emais completa é o Plano de Manejo do Parque Nacional da Serra do Divisor (1998), que possibilita caracterizar a população e traçar as características históricas e culturais, além de outras questões referentes às comunidades que estão dentro da área de abrangência do PNSD.
2.4 CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO, CARACTERÍSTICAS CULTURAIS E HISTORICAS DO PNSD4
O Plano de Manejo do Parque Nacional da Serra do Divisor foi uma das fontes que contribuíram para que pudéssemos traçar algumas características da população que ali reside.
Assim, ao traçar a caracterização da população da região, o texto que compreende o Plano de Manejo do PNSD informa que o PNSD possui cerca de 3.115 moradores em 522 famílias, com uma media de 6 habitantes por grupo domestico e densidade demográfica de 0,37 hab./km2, menor que a Microrregião de Cruzeiro do Sul na qual está inserido, que é de 2,94 hab./km2. (1998, p.170)
De conformidade com o plano de manejo esta população está distribuída em 120 localidades regionalmente denominadas de “colocações”, além de 15 propriedades localmente denominadas de “fazendas” ao longo de 15 rios e igarapés no interior do PNSD. (1998, p.170),
O Plano de Manejo revela, ainda, em seus dados, que a ocupação das famílias se deu ao longo das margens dos principais rios da região, estando estas esparsas uma das outras e havendo poucas moradias centrais. As colocações possuem uma média de 4 casas, podendo, entretanto, variar de 1 a 22, sendo que as maiores estão localizadas ao longo dos grandes rios da região, que são o Rio Juruá e Juruá-Mirim, no Setor Sul, região que concentra 69% da população, e o Rio Môa e Rio Azul, no Setor Norte, que concentra 31% da população total no interior do parque. No Setor Sul, o rio Juruá e Juruá-Mirim concentram a maioria das famílias (132 e 8 famílias, respectivamente), seguido do rio das Minas (44 famílias) e rio Ouro Preto (34 famílias).
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