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Sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho no contexto do processo judicial eletrônico (PJe)

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE ENFERMAGEM

FAUZI EL KADRI FILHO

SINTOMAS OSTEOMUSCULARES, FATORES PSICOSSOCIAIS E CAPACIDADE PARA O TRABALHO NO CONTEXTO DO PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO

(PJe)

CAMPINAS 2018

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FAUZI EL KADRI FILHO

SINTOMAS OSTEOMUSCULARES, FATORES PSICOSSOCIAIS E CAPACIDADE PARA O TRABALHO NO CONTEXTO DO PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO

(PJe)

Dissertação apresentada à Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Ciências da Saúde, na Área de Concentração: Enfermagem e Trabalho.

ORIENTADORA: THAÍS MOREIRA SÃO JOÃO

CAMPINAS 2018 ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO FAUZI EL KADRI FILHO E ORIENTADA PELA PROFª. DRª. THAÍS MOREIRA SÃO JOÃO.

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Agência(s) de fomento e nº(s) de processo(s): Não se aplica.

Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Ciências Médicas

Maristella Soares dos Santos - CRB 8/8402

Kadri Filho, Fauzi El, 1981-

K116s Sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho no contexto do processo judicial eletrônico (PJe) / Fauzi El Kadri Filho. – Campinas, SP : [s.n.], 2018.

Orientador: Thaís Moreira São João.

Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Enfermagem.

1. Saúde do trabalhador. 2. Dor musculoesquelética. 3. Estresse ocupacional. 4. Avaliação da capacidade de trabalho. I. São-João, Thaís Moreira, 1981-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Enfermagem. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Musculoskeletal symptoms, psychosocial factors and work ability in the context of eletronic judicial process (PJe)

Palavras-chave em inglês: Occupational health

Musculoskeletal pain Occupational stress Work capacity evaluation

Área de concentração: Enfermagem e Trabalho Titulação: Mestre em Ciências da Saúde

Banca examinadora: José Luiz Tatagiba Lamas Neusa Maria Costa Alexandre Cristiane Helena Gallasch Data de defesa: 27-07-2018

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BANCA EXAMINADORA DA DEFESA DE MESTRADO

FAUZI EL KADRI FILHO

ORIENTADORA: PROFª DRª THAÍS MOREIRA SÃO JOÃO

MEMBROS:

1. PROF. DR. JOSÉ LUIZ TATAGIBA LAMAS

2. PROFª. DRª. NEUSA MARIA COSTA ALEXANDRE

3. PROFª. DRª. CRISTIANE HELENA GALLASCH

Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas.

A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros da banca examinadora encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.

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A

GRADECIMENTOS

À Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas (FENF/UNICAMP) e ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPG-Enf), pela receptividade e valorização do trabalho interdisciplinar.

Ao Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT15), pela valorização do projeto e autorização para realização da pesquisa.

Ao Sindicato dos Servidores Públicos Federais da Justiça do Trabalho da 15ª Região (SINDIQUINZE), pela valorização e pelo apoio durante a realização da pesquisa. À Profa Dra Thaís Moreira São João, pelo apoio e orientação na condução da pesquisa e elaboração da dissertação.

À Profa Dra. Neusa Maria Costa Alexandre, pela receptividade, encorajamento e apoio no desenvolvimento de todas as etapas da pesquisa.

Aos Professores Doutores Sérgio Roberto de Lucca, Cristiane Helena Gallasch, Ana Beatriz de Oliveira, Maria Inês Monteiro, Marilia Estevam Cornélio, Roberta Cunha Matheus Rodrigues e José Luís Tatagiba Lamas, pela colaboração no desenvolvimento da pesquisa e do Mestrado.

Ao Estatístico Ms. Henrique Oliveira Ceretta do Serviço de Estatística da FENF/UNICAMP, pela colaboração na realização das análises estatísticas.

Aos membros do Núcleo de Estudos Comportamentais em Doenças Crônicas Não Transmissíveis (NEC-DCNT), pela colaboração no desenvolvimento da pesquisa. Aos Secretários da Pós-Graduação da FEnf, Saulo Saad e Letícia Zanotto, pelo auxílio na condução do mestrado.

Aos servidores do TRT da 15ª Região (TRT15), pelo apoio e participação na pesquisa.

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R

ESUMO SINTOMAS OSTEOMUSCULARES, FATORES PSICOSSOCIAIS E CAPACIDADE PARA O TRABALHO NO CONTEXTO DO PROCESSO JUDICIAL ELETRÔNICO (PJe)

As transformações pelas quais o judiciário trabalhista brasileiro passou nos últimos anos envolveram não apenas a informatização dos processos de trabalho, mas também um aumento de demanda e um controle mais rigoroso por meio de metas de produtividade. O processo judicial agora é totalmente disponibilizado em meio eletrônico e as tarefas relativas aos atos processuais passaram a ser feitas exclusivamente por meio do uso do computador. Neste contexto, este estudo teve como objetivo avaliar a ocorrência e as relações entre variáveis demográficas e ocupacionais, sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e a capacidade para o trabalho em servidores de um órgão desta justiça especializada. A amostra foi composta por 449 servidores, que forneceram informações demográficas e ocupacionais e responderam ao Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO), à versão Brasileira do Health and Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT) e ao Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT). Os dados foram analisados de forma descritiva e as relações entre as variáveis foram avaliadas por meio do coeficiente de correlação de Spearman, teste de Mann-Whitney e modelos de regressão linear múltipla. A ocorrência de sintomas nos últimos 12 meses foi maior em punhos/mãos (62,4%), ombros (62,1%) e pescoço (60,4%), enquanto nos últimos sete dias foi maior em pescoço (29,8%), ombros (29,4%) e punhos/mãos (29,2%). As dimensões psicossociais que apresentaram os piores resultados foram “demandas” (3,3(0,7)) e “controle” (3,6(0,7)), enquanto a média do ICT da amostra foi de 38,7(6,4). As somatórias dos segmentos corporais com queixas das quatro questões do QNSO foram significantemente maiores entre as mulheres, que também apresentaram piores resultados de ICT, enquanto não houve diferença de acordo com o sexo para nenhuma das dimensões psicossociais. A carga horária média diária com o uso do PJe apresentou correlação significante positiva de fraca magnitude com a somatória dos problemas em segmentos corporais que geraram impedimentos e consultas nos últimos 12 meses, do QNSO; e negativa com a dimensão de “controle” do HSE-IT. Analisadas de acordo com o sexo, essas correlações foram observadas apenas entre as mulheres. As dimensões de “apoio dos colegas”, “demandas” e “controle” do HSE-IT apresentaram as

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correlações mais importantes com problemas osteomusculares, os quais apresentaram correlação significante de moderada magnitude com o ICT. O modelo de regressão linear múltipla apontou a variável sexo e as dimensões “controle” e “apoio dos colegas” como relacionados à ocorrência de sintomas nos últimos 12 meses e nos últimos sete dias. No modelo em que o ICT foi a variável dependente, a idade, o sexo, as dimensões de “relacionamentos” e “cargo”, assim como as somatórias dos segmentos corporais com queixas das quatro questões do QNSO, foram relacionados à capacidade para o trabalho. Esses resultados sugerem que a ocorrência de sintomas osteomusculares foi relacionada não só a características individuais e aspectos físicos do trabalho informatizado, mas também a fatores psicossociais ocupacionais, apresentando relação com a capacidade para o trabalho dos servidores.

Linha de Pesquisa: Gestão de serviços, informação/comunicação e trabalho em saúde.

Palavras-chave: Saúde do Trabalhador; Dor Musculoesquelética; Estresse Ocupacional; Avaliação da Capacidade de Trabalho.

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A

BSTRACT MUSCULOSKELETAL SYMPTOMS, PSYCHOSOCIAL FACTORS AND WORK ABILITY IN THE CONTEXT OF ELECTRONIC JUDICIAL PROCESS (PJe)

The changes that the Brazilian labor court has been submitted to in recent years have involved not only the computerization of work processes, but also an increase in demand and a more rigorous control through productivity goals. The judicial process is now fully available in electronic form and the tasks related to procedural acts are made exclusively through the use of the computer. In this context, the aim of this study was to evaluate the occurrence and relations between demographic and occupational variables, musculoskeletal symptoms, psychosocial factors and work ability on the employees of an institution of this specialized court. The sample was composed by 449 employees and data on demographic and occupational information were gathered. The Brazilian version of the Nordic Musculoskeletal Questionnaire (NMQ), the Brazilian version of the Health and Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT) and the Brazilian version of the Work Ability Index (WAI) were applied through interview. Data were submitted to descriptive analysis and the relations between the variables were evaluated with the Spearman correlation coefficient, Mann-Whitney test and multiple linear regression models. The occurrence of symptoms in the last 12 months was higher in wrists/hands (62.4%), shoulders (62.1%) and neck (60.4%), while in the last seven days it was higher in neck (29.8%), shoulders (29.4%) and wrists/hands (29.2%). The HSE-IT dimensions that showed the worst results were "demands" (3.3(0.7)) and "control" (3.6(0.7)), while the mean of the ICT of the sample was 38.7(6.4). The number of the body segments with complaints of the four NMQ questions showed significantly higher results among women compared to men and the WAI showed worse results, while there was no difference between gender in any of the psychosocial dimensions. The average daily workload with the use of the PJe showed a positive but weak correlation with the number of the problems in the body segments that generated impairments and clinical consultations in the last 12 months and negative with the "control" dimension from the HSE-IT. Analyzed by gender, these correlations were observed only in females. The dimensions of "peer support", "demands" and "control" showed the most important significant correlations with musculoskeletal symptoms, which showed a moderate negative correlation with the ICT result. The multiple linear

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regression model pointed to the gender variable and the dimensions "control" and "peer support" as related to the occurrence of symptoms in the last 12 months and in the last seven days. In the model in which ICT was the dependent variable, age, gender, "relationship" and "role" dimensions, as well as the number of the body segments with complaints of the four QNSO questions, were related to the work ability. These findings suggest that the occurrence of musculoskeletal symptoms was related not only to the individual characteristics and physical aspects of the computerized work, but also to occupational psychosocial factors, showing relation with the work ability.

Keywords: Occupational Health; Musculoskeletal Pain; Occupational Stress; Work Capacity Evaluation.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Fluxograma de determinação do tamanho da população utilizado para o cálculo do tamanho amostral... 32 Figura 2. Fluxograma da seleção e adesão dos participantes ao estudo. ... 38

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Análise descritiva das variáveis demográficas e ocupacionais (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 39 Tabela 2. Distribuição das queixas osteomusculares por região corporal (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 40 Tabela 3. Análise descritiva dos resultados de sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho (n=449). Estado de São Paulo, 2017. .. 41 Tabela 4. Frequência de acordo com a classificação do índice de capacidade para o trabalho (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 41 Tabela 5. Análise descritiva e comparação de acordo com o sexo dos resultados de sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 42 Tabela 6. Coeficiente de correlação de Spearman entre as variáveis demográficas e ocupacionais e os resultados de sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 43 Tabela 7. Coeficiente de correlação de Spearman entre o tempo de uso do PJe e os sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho de acordo com o sexo (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 44 Tabela 8. Coeficiente de correlação de Spearman entre sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e capacidade para o trabalho (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 45 Tabela 9. Comparação entre sintomas osteomusculares e fatores psicossociais de acordo com a categoria do ICT (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 45 Tabela 10. Comparação dos resultados de capacidade para o trabalho de acordo com a ocorrência de problemas em cada segmento corporal (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 46 Tabela 11. Coeficientes de regressão linear múltipla relacionando as variáveis demográficas e ocupacionais e dimensões psicossociais com os sintomas osteomusculares (variáveis dependentes) (n=449). Estado de São Paulo, 2017. .... 48 Tabela 12. Coeficientes de regressão linear múltipla entre as variáveis demográficas e ocupacionais, as dimensões psicossociais e os sintomas osteomsuculares com o resultado do ICT (variável dependente) (n=449). Estado de São Paulo, 2017. ... 49

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Tabela 13. Coeficientes de Alfa de Cronbach para confiabilidade das dimensões do HSE-IT e do ICT. Estado de São Paulo, 2017. ... 50

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CEP Comitê de Ética em Pesquisa

CNJ Conselho Nacional de Justiça

CNS Conselho Nacional de Saúde

CSJT Conselho Superior da Justiça do Trabalho

DORTs Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho

DP Desvio Padrão

HSE UK Health & Safety Executive

HSE-IT Health Safety Executive – Indicator Tool ICT Índice de Capacidade para o Trabalho NMQ Nordic Musculoskeletal Questionnaire

PJe Processo Judicial Eletrônico

QNSO Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares SAS Statistical Analysis Software

SF-36 Medical Outcomes Study 36 - Item Short-Form Health Survey TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

TRT Tribunal Regional do Trabalho UNICAMP Universidade Estadual de Campinas

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S

UMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ... 16 1.1 Justificativa ... 27 2. OBJETIVOS ... 29 2.1 Objetivo geral ... 29 2.2 Objetivos específicos ... 29 3. MÉTODO ... 30 3.1 Desenho do estudo ... 30 3.2 Cenário do estudo ... 30 3.3 Sujeitos ... 30 3.3.1Critérios de inclusão ... 30 3.3.2Critérios de exclusão ... 31

3.3.3Cálculo do tamanho amostral ... 31

3.4 Coleta de dados ... 32

3.5 Instrumentos de coleta de dados ... 33

3.5.1 Questionário de caracterização demográfica e ocupacional ... 33

3.5.2Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO) ... 33

3.5.3Versão brasileira do Health and Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT)... 34

3.5.4Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) ... 35

3.6 Análise dos dados ... 36

3.7 Aspectos éticos ... 37 4. RESULTADOS ... 38 5. DISCUSSÃO ... 51 6. CONCLUSÃO ... 61 REFERÊNCIAS ... 62 APÊNDICES ... 74

APÊNDICE 1 - Questionário de caracterização demográfica e ocupacional ... 74

APÊNDICE 2 - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ... 75

ANEXO 1 - Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO)...79

ANEXO 2 - Versão Brasileira do Health Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT) ... 80

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ANEXO 3 - Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) ... 82

ANEXO 4 - Aprovação pela direção do TRT ... 86

ANEXO 5 - Anuência do sindicato dos servidores ... 87

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1. INTRODUÇÃO

As novas tecnologias da informação e de comunicação, ao mesmo tempo em que oferecem benefícios inquestionáveis no que se refere à celeridade dos processos de trabalho, estão relacionadas a novas demandas e atividades por parte dos trabalhadores, que os expõe a fatores de risco à saúde diversos daqueles do modo de trabalho anterior ao processo de informatização das tarefas. O processo de reforma e modernização promulgado pela Emenda Constitucional nº 45, de 8 de dezembro de 20041, que ampliou as competências da justiça do trabalho, em conjunto com a informatização do processo judicial promovida pela Lei 11.419 de 19 de dezembro de 20062 e o estabelecimento de metas nacionais pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) envolveram inovações tecnológicas e mudanças no contexto de produção que impactaram de forma significativa a prestação de serviços do judiciário trabalhista, sem que houvesse uma discussão ampla a respeito das consequências sobre a saúde de magistrados e servidores dos tribunais3.

No âmbito do órgão do judiciário federal trabalhista em que o presente estudo foi conduzido, o processo de implementação do processo judicial eletrônico (PJe) ocorreu entre os anos de 2012 e 2014 em todas as suas unidades de 1ª e 2ª instâncias. Na 1ª instância, a Justiça do Trabalho é formada pelas varas do trabalho, que julgam apenas dissídios individuais e cuja jurisdição é local, podendo abranger mais de um município. Na 2ª instância estão os Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs), que julgam recursos contra decisões das varas do trabalho, além de ações de competência originária, que ingressam diretamente no Tribunal, sem passar pela 1ª instância, como, por exemplo, habeas corpus, ações rescisórias, mandados de segurança e dissídios coletivos4.

O modo de trabalho anterior, que exigia a análise dos processos em papel e permitia o uso intercalado do computador com as pastas de processos vem, desde então, sendo substituído por um modo de trabalho com o uso exclusivo do computador. Ainda que a implementação do PJe tenha sido completa, a transição tem ocorrido gradualmente nas unidades de 1ª instância, visto que a tramitação dos processos físicos preexistentes continua de forma paralela, até que estes sejam extintos no decorrer dos próximos anos, já que os novos processos são admitidos apenas por meio eletrônico. Desta forma, muitos servidores ainda trabalham tanto

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com os processos físicos quanto com o PJe, mas em proporções que variam entre eles e entre as unidades de 1ª e 2ª instâncias, havendo desde servidores que ainda trabalham em maior proporção com processos físicos até aqueles que trabalham exclusivamente com a nova ferramenta.

A partir da implementação do PJe, o processo que antes era formado por pastas com documentos que podiam ser manuseados e movimentados (processo físico), agora é totalmente disponibilizado em meio eletrônico e pode ser transmitido via internet. No exame do processo com o PJe são utilizadas duas telas: uma para escrever a decisão e outra para visualizar os atos e termos do processo, havendo uma redução na variabilidade de movimentos e de tarefas relativas ao processo e atos processuais. Tarefas como visualizar, examinar, documentar, produzir e redigir, passam a ser feitas exclusivamente por meio do mouse, do teclado e do monitor. Além disso, com os documentos físicos, quando o servidor conclui um processo, geralmente é estimulado a se levantar e a se deslocar para realizar a movimentação do processo, o que não ocorre com o uso do processo eletrônico, já que neste caso não há demanda para levantar-se em razão da atividade de trabalho5.

A transição para o maior tempo de uso do computador entre os servidores diante da implementação do PJe foi motivo de preocupação por parte da instância responsável por promover a integração e o desenvolvimento dos Tribunais Regionais do Trabalho (Conselho Superior da Justiça do Trabalho – CSJT), que promoveu uma padronização de mobiliário e equipamentos, tendo em vista a adequação ergonômica das unidades do judiciário trabalhista a partir de 20086. De fato, houve alterações significativas no que diz respeito à disponibilização de mobiliário e equipamentos em consonância com as normas e conhecimentos ergonômicos mais atuais desde então, acompanhadas de recomendações sobre ergonomia física e orientações posturais aos servidores. No entanto, tendo em vista as posturas estáticas de pescoço e ombros e os movimentos repetitivos dos dedos que estão envolvidos no trabalho com o computador, especialmente durante a digitação e o uso do mouse, o tempo de trabalho diário ou semanal empregando este uso parece estar associado ao grau das queixas de sintomas osteomusculares nestas regiões do corpo independentemente das adequações posturais e da adoção de mobiliário e equipamentos ergonomicamente adequados7.

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As repercussões sobre a saúde física da transição do trabalho com documentos físicos em papel para o trabalho exclusivamente com o uso do computador em funcionários de setores administrativos de agências governamentais e do setor privado suecos, majoritariamente mulheres com média de idade entre 40 e 50 anos, foram analisadas por meio de estudo longitudinal por Aborg e Billing8. Entrevistas, aplicação de questionários e análise em vídeo das atividades mostraram, em conjunto, que houve efetivamente um aumento no tempo gasto no uso do computador entre os funcionários, enquanto o tempo total de trabalho não foi alterado. Enquanto 20% dos entrevistados trabalhavam por mais de 6 horas por dia com o computador antes da implementação do sistema informatizado, 80% deles passaram a trabalhar por mais de seis horas diárias com o computador após a completa informatização das tarefas. Associados a essa alteração da dinâmica de trabalho, os resultados demonstraram ter havido um aumento significante na carga de trabalho, assim como na repetitividade e monotonia das tarefas após a informatização, maior frequência de posturas estáticas e menor variabilidade de tarefas. Foi detectado um aumento da queixa de sintomas osteomusculares, sendo que as queixas em pescoço e ombros aumentaram de 44% para 62% e em mãos e braços de 11% para 33% após 18 meses da implantação do sistema informatizado.

Em acompanhamento de mais de 25000 trabalhadores por meio de três avaliações com questionários em um período de três anos, Nakazawa e colaboradores9, por sua vez, observaram que uma série de sintomas físicos como cefaleia, fadiga visual, dor articular, rigidez de ombros, dor lombar e fadiga geral estavam diretamente associados ao número de horas diárias dedicadas ao trabalho com o uso do computador nas três avaliações realizadas.

Aydeniz e colaboradores10 propuseram o estabelecimento de uma correlação entre o tempo de trabalho diário com o computador e resultados positivos para distúrbios de membros superiores e coluna cervical, submetendo os participantes do estudo aos testes ortopédicos para estes segmentos corporais. Foram avaliados um grupo de bancários que trabalhavam por mais de seis horas diárias com o uso do computador e um grupo controle composto por funcionários administrativos que faziam uso do computador por, aproximadamente, duas horas por dia. Os resultados sugeriram uma alta prevalência de sintomas osteomusculares em membros superiores entre aqueles que usavam o computador de forma intensiva.

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Houve uma tendência de aumento dos sintomas à medida que o tempo diário de uso do computador foi maior e uma correlação significante com resultados positivos para os testes relacionados à síndrome túnel do carpo.

Griffiths e colaboradores11 realizaram uma pesquisa com funcionários públicos de áreas administrativas diversas, com variações no tempo de uso do computador durante a jornada de trabalho (<2 horas, 2-4 horas, 4-6 horas, 6-8 horas e >8 horas). Utilizaram o Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO) para verificar a prevalência desses sintomas nos últimos 12 meses relacionando-o ao tempo diário de uso do computador e foi possível observar correlação positiva significante entre essas variáveis com os sintomas em quase todas as regiões do corpo. O trabalho com o uso do computador por mais de cinco horas diárias foi apontado por Alavi e colaboradores12 como fator preditor de sintomas osteomusculares em punhos e mãos em servidores públicos de área administrativa.

Blatter e Bongers13 analisaram a relação entre o tempo de uso do computador em trabalhadores de área administrativa (ocupações em que mais de 60% dos trabalhadores utilizavam computador ao menos uma hora por dia) com queixas de sintomas osteomusculares e observaram que o trabalho com o computador por mais de seis horas diárias está fortemente associado a sintomas osteomusculares relacionados ao trabalho em membros superiores, enquanto o trabalho com o computador com duração entre quatro e seis horas diárias apresentou associação moderada com esses sintomas. Estudo semelhante analisou trabalhadores com diferentes atividades no uso do computador e observou que a duração do seu uso diário está relacionada a um maior número de sintomas osteomusculares em mãos e punhos, sendo que o risco de desenvolvimento de sintomas foi mais baixo entre aqueles que utilizavam o computador por metade da jornada de trabalho em relação àqueles que o utilizavam durante todo o tempo14.

Em revisão sistemática elaborada por Ijmker e colaboradores15, dois revisores independentes selecionaram nove estudos longitudinais que apresentaram o risco estimado de sintomas ou distúrbios osteomusculares em pescoço e membros superiores de acordo com o tempo do uso do computador no trabalho. Esta revisão demonstrou evidências de associação significante entre o tempo de uso do

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computador (especialmente do mouse) e a incidência de sintomas osteomusculares em braços e mãos, apontando para uma correlação mais fraca para a incidência em pescoço e ombros. No mesmo sentido, outras revisões que trataram da relação entre o tempo de trabalho com o computador e os sintomas osteomusculares apontaram evidências de associação significante entre o volume de horas diárias ou semanais nessa atividade com a ocorrência de sintomas em membros superiores, especialmente em braços e mãos16,17. Por outro lado, a revisão elaborada por Wærsted e colaboradores18 apontou uma evidência limitada em se tratando da associação entre o tempo de uso do computador e a ocorrência de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORTs) em pescoço e membros superiores.

DORTs referem-se mais comumente a lesões de acometimento insidioso decorrentes da atividade laboral que podem afetar músculos, nervos, tendões, fáscias, articulações e cartilagens em membros superiores e inferiores, além de coluna cervical e lombar, quando há exposição a movimentos repetitivos, movimentos que exijam força excessiva, atividades realizadas com posturas inadequadas ou em que ocorra vibração, ou seja, quando a carga física de trabalho excede a capacidade adaptativa e de reparo das estruturas expostas19,20. No entanto, apesar de estarem mais comumente relacionados aos fatores físicos do trabalho, os DORTs são melhor compreendidos quando se leva em conta sua etiologia multifatorial, que envolve também características individuais e fatores psicossociais do trabalho21,22. A maior parte dos quadros de dor incapacitante em coluna e membros superiores são de origem inespecífica, sem clara evidência de lesão tecidual subjacente e, mesmo quando a doença pode ser verificada, frequentemente não se relaciona inequivocamente com os sintomas apresentados23.

A prevalência dos DORTs na população brasileira é estimada em 2,5%, associando-se significantemente ao sexo feminino, ao maior tempo de trabalho (antiguidade no trabalho) e ao diagnóstico de depressão24. Entre as características individuais, a maior ocorrência de dor osteomuscular nos indivíduos do sexo feminino é apontada na maior parte dos estudos que realizam esta análise em comparação ao sexo masculino, tanto na população geral quanto no contexto ocupacional25,26. Entre trabalhadores administrativos, Maakip e colaboradores21 observaram que ser do sexo feminino demonstrou ser a principal característica

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individual preditora para a ocorrência de sintomas osteomusculares, somando-se a fatores de risco físicos do trabalho e fatores de risco psicossociais.

Blatter e Bongers13 observaram que a análise de acordo com o sexo da relação entre o tempo de trabalho com o computador e a ocorrência de sintomas osteomusculares apontou para uma relação mais forte entre as mulheres. Enquanto para os homens, associações moderadas puderam ser observadas apenas quando o tempo de uso do computador foi maior que seis horas por dia, entre as mulheres as mesmas associações foram evidenciadas quando o tempo de trabalho informatizado foi maior que quatro horas por dia.

Recentemente, em 2015, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que tem como missão coordenar o planejamento e a gestão estratégica do Poder Judiciário, considerando entre outros aspectos a necessidade de conscientizar magistrados e servidores acerca da responsabilidade individual e coletiva para com a saúde e a manutenção de ambientes, processos e condições de trabalho saudáveis, instituiu a “Política de Atenção Integral à Saúde de Magistrados e Servidores”. Esta política tem entre seus objetivos o fomento a estudos e pesquisas sobre promoção de saúde, prevenção de doenças, causas e consequências do absenteísmo por doença e temas conexos, a fim de auxiliar a tomada de decisões27.

Considerando o modelo teórico de referência para avaliação dos aspectos relacionados à dimensão psicossocial do trabalho proposto por Karasek28, o qual aponta que reações adversas à saúde acontecem devido ao desgaste psicológico decorrente da exposição simultânea por parte dos trabalhadores a elevadas demandas psicológicas e escassa amplitude de decisão sobre o seu processo de trabalho, pode-se inferir que o contexto atual do judiciário trabalhista favoreça o desenvolvimento de agravos à saúde relacionados ao estresse ocupacional independentemente de ações pontuais dirigidas aos servidores29. No mesmo sentido, o UK Health & Safety Executive (HSE), órgão executivo britânico para a saúde e a segurança, preconiza em sua metodologia que intervenções direcionadas a avaliar e prevenir o risco à saúde relacionado ao trabalho no nível organizacional são mais efetivas que intervenções preventivas direcionadas aos indivíduos30.

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Evidências atuais sugerem ainda que a promoção de melhorias com enfoque apenas nas condições físicas do trabalho não é suficiente para prevenir a gênese e o agravamento dos DORTs, sendo necessário que as intervenções preventivas sejam desenvolvidas com a participação dos trabalhadores envolvidos, levando em conta também os fatores de risco psicossociais para que sejam mais eficazes31-33.

O estresse pode ser definido como uma reação adversa a pressões excessivas ou extremas ou demandas com sobrecarga para os indivíduos, enquanto o estresse relacionado ao trabalho pode ser compreendido como um estado psicológico que reflete a relação entre os indivíduos e seu ambiente laboral. O UK Health & Safety Executive (HSE) definiu seis aspectos do ambiente laboral que, se tratados de forma inadequada, estão associados a reduzidos níveis de saúde, produtividade e bem-estar e elevados níveis de absenteísmo34,35.

• Demandas: sobrecarga de trabalho, modo e ambiente de trabalho;

• Controle: autonomia quanto ao modo de realizar o trabalho;

• Suporte: encorajamento, auxílio e recursos oferecidos pela empresa, pela chefia e pelos colegas de trabalho;

• Relacionamentos: promoção de iniciativas positivas visando a redução de conflitos e manejo de comportamentos inaceitáveis;

• Cargo: compreensão dos trabalhadores quanto ao seu papel dentro da empresa e iniciativas da empresa que assegurem que não haja conflitos nesse sentido;

• Mudanças: maneira como as mudanças organizacionais são tratadas e comunicadas dentro da empresa.

Os distúrbios osteomusculares e os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil entre trabalhadores da iniciativa privada e servidores públicos36-39. Frequentemente estes agravos encontram-se associados no ambiente laboral e, especialmente o estresse relacionado ao trabalho, parece estar associado à presença de dor osteomuscular

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crônica40. Esta associação tanto pode indicar estressores ocupacionais como preditores para a ocorrência de sintomas osteomusculares, especialmente quando estão envolvidos a monotonia no trabalho e a falta de suporte social41, quanto a sintomatologia osteomuscular como desencadeadora de um aumento do estresse, dado que a dor e a limitação funcional tornam os indivíduos menos tolerantes às demandas psicológicas do trabalho42.

A sintomatologia osteomuscular e o estresse podem ainda representar, conjuntamente, um quadro de saúde mais amplo decorrente da sobrecarga de trabalho, tanto física quanto mental. Devereux e colaboradores43 verificaram que trabalhadores expostos a fatores de risco físicos e psicossociais relataram mais comumente sintomas osteomusculares do que trabalhadores expostos apenas a um dos fatores de risco, o que sugere uma interação entre eles capaz de induzir um aumento de queixas em membros superiores. Os fatores de risco psicossociais foram mais importantes quando havia maior exposição aos fatores de risco físicos do que quando estes eram mais baixos. Oakman e colaboradores44 puderam observar por meio de estudo longitudinal com trabalhadores de áreas diversas que, assim como a sobrecarga física de trabalho, elevadas demandas emocionais e psicológicas, além de baixo suporte social, foram preditores de dor osteomuscular em mais de uma região do corpo após quatro anos de seguimento.

Evidências experimentais sugerem que a atividade eletromiográfica em membros superiores durante a digitação, a força aplicada no uso do mouse e a repetitividade nos movimentos dos punhos são significantemente maiores quando os sujeitos são previamente induzidos ao estresse por meio da exigência de atividades cognitivas45,46. O aumento da pressão temporal para a conclusão da atividade induz a um aumento da ativação muscular, da força aplicada na digitação e a desvios de punho, enquanto um aumento da sobrecarga mental induz a um aumento da força aplicada na digitação47. Além disso, em tarefas que requerem aplicação de força em membros superiores, elevadas demandas mentais estão associadas com decréscimo da resistência e aumento da fadiga muscular48. Em resposta à sobrecarga das demandas de trabalho associada a fatores estressores, o trabalho com elevada tensão muscular e fadiga mental está associado significantemente aos sintomas osteomusculares49.

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Eatough e colaboradores50 propõem um modelo em que fatores psicossociais relacionados ao trabalho predispõem à ocorrência de DORTs mediados pela tensão psicológica resultante destes fatores. Os autores sugerem que altos níveis de estressores ocupacionais estão associados à tensão psicológica que, por sua vez, está relacionada a maiores níveis de sintomatologia osteomuscular em punhos e mãos, ombros e coluna lombar, mesmo quando controladas as demandas físicas do trabalho. No mesmo sentido, Zakerian e Subramaniam51 examinaram as relações entre fatores psicossociais do trabalho, estresse e sintomas osteomusculares em trabalhadores de área administrativa com uso intensivo do computador durante a jornada de trabalho. Elevada demanda de trabalho, baixa autonomia, baixo suporte social e interação social negativa estiveram significantemente associados ao estresse ocupacional, enquanto esta variável foi positivamente relacionada à ocorrência de sintomas osteomusculares.

Em estudo prospectivo com trabalhadores de atividades diversas, com predominância de demandas físicas, mentais ou ambas combinadas, fatores psicossociais (elevadas demandas psicológicas, baixa autonomia, insegurança no trabalho e baixo suporte social) apresentaram-se como preditores significantes para o diagnóstico de epicondilites lateral e medial, tendinite de punho e síndrome túnel do carpo após intervalo de 12 meses. Com relação à queixa de dor nos últimos sete dias, foram preditores de dor em ombros, cotovelos, punhos/mãos, joelhos e tornozelos/pés. Com relação aos últimos 12 meses, foram preditores de dor em pescoço, ombros, parte superior das costas, joelhos e tornozelos/pés52.

Ainda que os estudos que avaliam a relação entre sintomas osteomusculares e o uso do computador façam uma abordagem desta sintomatologia em trabalhadores ativos, o que significa que não se tratam de agravos à saúde que levaram ao afastamento do trabalho no momento dos levantamentos de dados, os sintomas referidos podem representar o estágio inicial dos DORTs e levar a uma perda de produtividade dos indivíduos com queixas53. Na medida em que os sintomas possam estar relacionados à atividade de trabalho, seja devido aos movimentos repetitivos ou às posturas estáticas por períodos prolongados associados aos fatores psicossociais do trabalho, a permanência na função sem o devido acompanhamento clínico e/ou de saúde ocupacional poderá

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levar a um agravamento do quadro com perda progressiva da capacidade para o trabalho54.

A capacidade para o trabalho pode ser compreendida como quão bem está ou estará um trabalhador neste momento ou em um futuro próximo e quão capacitado está para executar seu trabalho em função das exigências de seu estado de saúde e capacidades físicas e mentais55. Entre os determinantes organizacionais, demanda com sobrecarga física (esforço muscular excessivo, postura inadequada e condições ergonômicas precárias), elevada demanda mental e baixa autonomia foram associados à reduzida capacidade para o trabalho56.

Entre os pré-requisitos para capacidade funcional, avaliada indiretamente a partir do Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT), um menor volume de queixas de sintomas osteomusculares, detectados por meio de uma versão modificada do QNSO, estão relacionadas a melhores resultados no ICT57. Sharan e colaboradores58 observaram que, entre profissionais de tecnologia da informação, 63% relataram dor e desconforto durante ou imediatamente após a jornada de trabalho e que 13% indicaram ter havido perda de produtividade devido a esses sintomas. Houve uma correlação significante entre o tempo diário do uso do computador com as queixas dolorosas e a perda de produtividade referida pelos trabalhadores.

Hagberg e colaboradores59 avaliaram a relação entre a prevalência de sintomas osteomusculares e a autorreferida redução da produtividade em trabalhadores que utilizam o computador e observaram que, pelo menos, um sintoma osteomuscular esteve presente em 87% dos homens e 76% das mulheres, dentre os quais 9,2% das mulheres e 11,2% dos homens referiram redução da produtividade em função desses sintomas. A persistência da dor por um período maior de tempo foi fortemente associada à maior redução de produtividade. Madeleine e colaboradores60 também observaram uma correlação negativa significante entre a prevalência de sintomas osteomusculares e a produtividade em trabalhadores administrativos. No entanto, utilizaram uma medida de produtividade em escala de 0 a 10, na qual 0 significava “o pior que um trabalhador poderia produzir” e 10 “o melhor que um trabalhador poderia produzir na mesma função”.

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Vitta e colaboradores61 realizaram um estudo com funcionários da área administrativa de uma empresa de prestação de serviço de fornecimento de água e tratamento de esgoto que exerciam atividades sedentárias com o uso do computador. Os funcionários realizavam tarefas como digitação de documentos e dados, leitura e escrita de documentos e atendimento ao público com preenchimento de documentos. Os sintomas osteomusculares foram avaliados por meio do QNSO e a capacidade para o trabalho foi avaliada por meio do ICT. A prevalência de sintomatologia osteomuscular encontrada foi de 63,1% e apresentou significância estatística quanto à associação com a capacidade para o trabalho.

Santana62 buscou avaliar a relação entre a capacidade para o trabalho, as características sociodemográficas e funcionais e as dimensões de saúde nos servidores do Tribunal Regional do Trabalho de Pernambuco. Analisou os dados de 310 servidores por meio de questionários de características sociodemográficas e funcionais, o ICT e o Medical Outcomes Study 36 - Item Short-Form Health Survey (SF-36). Os resultados mostraram que todas as dimensões da saúde analisadas estiveram associadas à capacidade para o trabalho, sendo que, quanto melhor a qualidade de de vida relacionada à saúde, melhor a condição da capacidade para o trabalho. A força dessa associação permaneceu independente das características demográficas e ocupacionais, apontando a relevância da saúde em sua integralidade condicionando o nível da capacidade para o trabalho.

Em revisão sistemática elaborada a partir da literatura brasileira em que foram verificados os fatores associados à avaliação da capacidade para o trabalho em atividades diversas, o estresse ocupacional se destaca entre os fatores psicossociais relacionados a escores reduzidos do ICT63. Em estudo realizado com trabalhadores de diversos setores, incluindo bancários, foi possível observar a correlação significante entre dimensões do risco de estresse relacionado ao trabalho, avaliado por meio do Health Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT), e o resultado para capacidade para o trabalho, avaliado por meio do ICT64. Guidi e colaboradores65 também observaram correlações positivas entre as sete dimensões do HSE-IT e o resultado do ICT em bancários, considerando que baixos escores no HSE-IT significam maior risco de estresse relacionado ao trabalho.

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Jay e colaboradores66 puderam observar, em pesquisa realizada com técnicos de laboratório de uma empresa farmacêutica, que níveis elevados de estresse e dor osteomuscular em região cérvico-braquial estavam associados de forma independente a menores índices de capacidade para o trabalho, avaliada por meio do ICT. O resultado da capacidade para o trabalho foi melhor para os trabalhadores com menores níveis de estresse e de dor associadamente, enquanto os piores resultados para o ICT foram observados entre os trabalhadores com maiores níveis de estresse e de dor osteomuscular.

1.1 Justificativa

Os distúrbios osteomusculares destacam-se entre as principais causas de absenteísmo entre os servidores públicos no Brasil nos últimos anos37,38 e estão relacionados a menores níveis de capacidade para o trabalho e de produtividade em trabalhadores ativos59-62. Tendo em vista que alterações nas condições de trabalho que envolvam a informatização das tarefas implicam na ocorrência de fatores de risco diversos do modo de trabalho anterior, tanto físicos quanto psicossociais, faz-se necessário avaliar o impacto destas alterações sobre a saúde dos trabalhadores.

As instâncias superiores do Judiciário Federal demonstram preocupação com a repercussão da introdução do PJe sobre a saúde dos usuários, mas não há estudos entre os servidores do judiciário trabalhista avaliando a relação entre as condições de trabalho (incluindo os fatores psicossociais ocupacionais), especialmente após a introdução do PJe, com a ocorrência de problemas osteomusculares e sua repercussão sobre a capacidade para o trabalho.

Este estudo constitui fase preliminar, com vistas a desvelar o diagnóstico situacional dos trabalhadores de 1ª instância de um Tribunal Regional do Trabalho quanto ao modo de trabalho e suas relações com a saúde dos servidores. Espera-se que os resultados deste estudo permitam o delineamento de intervenções futuras junto a esta população, com vistas a atuar sobre possíveis fatores de risco e prevenir a ocorrência destes sintomas, os quais podem representar estágios iniciais de DORTs e levar à incapacidade para o trabalho. A redução ou minimização destes

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poderá acarretar melhor capacidade para o trabalho e, possivelmente, uma melhor prestação jurisdicional.

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2. OBJETIVOS

2.1 Objetivo geral

Avaliar a ocorrência e as relações entre variáveis demográficas e ocupacionais, sintomas osteomusculares, fatores psicossociais e a capacidade para o trabalho em servidores de um órgão do judiciário federal trabalhista no contexto do processo judicial eletrônico.

2.2 Objetivos específicos

• Avaliar a ocorrência de sintomas osteomusculares, os fatores psicossociais do trabalho e a capacidade para o trabalho entre os servidores;

• Verificar a relação entre as variáveis demográficas e ocupacionais e os sintomas osteomusculares, os fatores psicossociais do trabalho e a capacidade para o trabalho entre os servidores;

• Verificar a relação entre os sintomas osteomusculares, os fatores psicossociais do trabalho e a capacidade para o trabalho entre os servidores.

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3. MÉTODOS

3.1 Desenho do estudo

Foi realizado estudo exploratório e transversal.

3.2 Cenário do estudo

O estudo foi realizado em um Tribunal Regional do Trabalho (TRT) que conta com 164 unidades de 1ª instância distribuídas por mais de 100 cidades do estado de São Paulo, sendo composto por 153 varas do trabalho, nove postos avançados do judiciário trabalhista e duas varas do trabalho itinerantes. Trata-se do segundo maior Tribunal Regional do Trabalho do país em estrutura e em movimento processual e sua jurisdição atinge 599 municípios, onde reside uma população superior a 21 milhões de pessoas, uma das maiores entre as 24 regiões em que está dividida a Justiça do Trabalho do País. Possui aproximadamente 3800 servidores em seu quadro de pessoal e apenas nas unidades de 1ª instância trabalham cerca de 2400 servidores4.

3.3 Sujeitos

Fizeram parte deste estudo os servidores da 1ª instância de um Tribunal Regional do Trabalho (TRT) que estavam atuando nas varas do trabalho, nos postos avançados do judiciário trabalhista e nas varas do trabalho itinerantes, além daqueles que estavam atuando como assistentes de juízes.

3.3.1 Critérios de inclusão

Foram incluídos os servidores lotados em 148 unidades de 1ª instância do TRT que exerciam funções exclusivamente nas secretarias das varas do trabalho, nos postos avançados do judiciário trabalhista e nas varas do trabalho itinerantes, além dos assistentes de juízes. Não foram incluídos os oficiais de justiça lotados nas varas do trabalho, tendo em vista a realização de atividade externa (diligências) e os

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servidores lotados em unidades que estavam participando de atividade regular supervisionada de ginástica laboral, cuja oferta estava restrita circunstancialmente a dois fóruns trabalhistas (16 varas do trabalho) deste regional.

3.3.2 Critérios de exclusão

Foram excluídos os servidores com menos de um ano de trabalho em suas unidades e os servidores que exerciam sua função principal em secretaria de audiências. Os participantes que, após terem aceitado participar do estudo, não preencheram completamente os instrumentos de coleta de dados, não tiveram seus dados analisados.

Foram analisados apenas os dados de servidores com ao menos um ano de trabalho em suas unidades, pois foi o período em que eles foram solicitados a relatar a ocorrência dos problemas osteomusculares e em que se poderia supor com maior probabilidade que estes estivessem relacionados à atividade atual de trabalho. Apesar de trabalharem na 1ª instância e também estarem submetidos ao trabalho com o PJe, os secretários de audiência realizam tarefas que envolvem digitação contínua, distintas daquelas dos demais servidores de secretaria de vara do trabalho ou assistentes de juízes, cujos dados foram analisados neste estudo.

3.3.3 Cálculo do tamanho amostral

O cálculo amostral foi realizado considerando o objetivo de avaliar o perfil dos servidores de 1ª instância do TRT entre os quais o estudo foi conduzido, com relação à ocorrência de sintomas osteomusculares, aos fatores psicossociais ocupacionais e à capacidade para o trabalho. O cálculo foi realizado considerando a metodologia para estimação de um tamanho amostral para uma proporção67,68. No

cálculo amostral foi considerada uma proporção p igual a 0,50, cujo valor representa a variabilidade máxima da distribuição binomial, gerando assim uma estimativa com o maior tamanho amostral possível.

Considerando os critérios de elegibilidade do estudo e o detalhamento das informações a respeito da distribuição de cargos e funções dos servidores da 1ª

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instância, a população considerada para o cálculo amostral foi de 1564 sujeitos

(Figura 1). Foi assumido um erro amostral de 5% e um nível de significância de 5% e o tamanho amostral obtido foi de 309 servidores, atingindo pelo menos 371 servidores levando-se em conta a taxa de perda de 20%.

Figura 1. Fluxograma de determinação do tamanho da população utilizado para o cálculo do tamanho amostral.

3.4 Coleta de dados

A coleta dos dados foi realizada com 1767 servidores nos meses de outubro e novembro de 2017 por meio de instrumentos autoaplicáveis disponibilizados via internet com uso da plataforma de questionários e pesquisas

2374 servidores na 1ª instância

2135 servidores lotados nas varas do trabalho, nos

postos avançados do judiciário trabalhista e nas varas do trabalho itinerantes

161 oficias de justiça e 78 servidores lotados em outras

unidades de 1ª instância 1767 servidores atenderam os critérios de inclusão e foram comunicados a respeito da pesquisa 214 servidores lotados em unidades com ginástica

laboral supervisionada 154 oficiais de justiça lotados em varas do trabalho Estimativa de 146 secretários de audiências Estimativa de 57 servidores com menos de um ano em

suas unidades População considerada para

o cálculo do tamanho amostral: 1564 servidores

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online SurveyMonkey®69. Os servidores foram convidados a participar da pesquisa

por meio de e-mail institucional (com link para acesso aos questionários) e contato telefônico com um servidor de cada unidade.

3.5 Instrumentos de coleta de dados

3.5.1 Questionário de caracterização demográfica e ocupacional

Foi aplicado questionário elaborado especificamente para este trabalho e composto por questões referentes a idade, sexo, tempo de trabalho na instituição, tempo de trabalho na 1ª instância, carga horária média da jornada de trabalho diária, carga horária média diária com o uso do PJe e presença de doença causadora de sintomas osteomusculares (Apêndice 1).

3.5.2 Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO)

A avaliação da ocorrência de sintomas osteomusculares foi realizada por meio da utilização da versão brasileira do Nordic Musculoskeletal Questionnaire (NMQ), criado por pesquisadores finlandeses com o intuito de padronizar a avaliação dos sintomas osteomusculares no contexto ocupacional70 . O

QNSO teve sua versão brasileira validada por Pinheiro e colaboradores71 e foi

adaptado culturalmente para a língua portuguesa e teve sua confiabilidade confirmada por Barros e Alexandre72 (ANEXO 1). O QNSO é composto por questões

a respeito da presença de sintomatologia em pescoço, ombro, cotovelo, punho e mão, coluna dorsal, cervical, lombar, quadris, coxas e nádegas, joelhos, tornozelos e pés nos últimos 12 meses e nos últimos sete dias. Avalia ainda a repercussão dessa sintomatologia sobre a realização de atividades de trabalho, domésticas e de lazer e sobre a necessidade de consultar algum profissional da área da saúde por causa dessa condição.

Os resultados do QNSO fornecem uma medida da frequência com que cada uma das nove regiões corporais avaliadas são apontadas como relacionadas a sintomas osteomusculares (resultado qualitativo – sim ou não) e também podem fornecer uma medida do número de segmentos corporais com queixas mediante a

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somatória das regiões em que foram apontados problemas em cada indivíduo (resultado quantitativo – 0 a 9).

3.5.3 Versão brasileira do Health and Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT) A avaliação dos fatores de risco psicossociais do trabalho foi realizada por meio da aplicação da etapa quantitativa da versão brasileira do Health and Safety Executive – Indicator Tool (HSE-IT) (ANEXO 2). O HSE-IT é um instrumento desenvolvido pelo Health and Safety Executive – HSE, órgão executivo responsável pela prevenção de riscos psicossociais do Reino Unido, que permite identificar em nível organizacional as causas de estresse ocupacional relacionadas às principais dimensões assinaladas pelos trabalhadores73-75.

A validação para a língua inglesa foi elaborada por Edwards e colaboradores76 e a tradução e validação para o português brasileiro foi realizada por Lucca e colaboradores77,78, cujos resultados das análises psicométricas realizadas permitiram considerar a existência de equivalência entre as medidas das sete dimensões do instrumento em comparação à sua forma original e adaptada.

O HSE-IT é composto por 35 itens, distribuídos em sete dimensões:

• Demandas: compreende aspectos relacionados com carga de trabalho (itens 3, 6, 9, 12, 16, 18, 20 e 22).

• Controle: relaciona-se com a autonomia dos trabalhadores no desenvolvimento das suas atividades (itens 2, 10, 15, 19, 25 e 30).

• Apoio da chefia: inclui o incentivo, o suporte e os recursos fornecidos por parte da chefia (itens 8, 23, 29, 33 e 35).

• Apoio dos colegas: inclui o apoio por parte dos colegas de trabalho (itens 7, 24, 27 e 31).

• Relacionamentos: envolve as relações com os colegas de trabalho (itens 5, 14, 21e 34).

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• Cargo: verifica a adequação do trabalhador às exigências do cargo (itens 1, 4, 11, 13 e 17).

• Comunicação e mudanças: avalia em que medida os trabalhadores são envolvidos e comunicados das mudanças organizacionais por parte da empresa (itens 26, 28 e 32)79.

O questionário de 35 questões é aplicado transversalmente para os trabalhadores da empresa, que devem assinalar em uma escala do tipo Likert, para cada item, a melhor resposta que represente a frequência dos acontecimentos relativos ao trabalho nos últimos seis meses: nunca, raramente, às vezes, frequentemente ou sempre. O resultado, que é obtido apenas para cada dimensão separadamente, pode variar de 1 a 5, sendo que para as dimensões controle, apoio gerencial, apoio dos colegas, cargo e mudanças, resultados mais altos significam risco mais elevado de estresse ocupacional, enquanto para as dimensões demandas e relacionamentos, a pontuação é invertida. Para a composição do resultado final destas duas últimas dimensões, foram invertidos os resultados de modo que, para todas as sete dimensões, melhores resultados sejam representativos de melhores condições psicossociais do trabalho, ou seja, representem menor risco de estresse ocupacional80.

3.5.4 Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT)

A avaliação da capacidade para o trabalho foi realizada por meio da aplicação da versão brasileira do Work Ability Index (WAI)55, que demonstrou

apresentar propriedades de medida satisfatórias quanto à validade de construto, de critério e de confiabilidade para avaliação da capacidade para o trabalho em abordagens individuais e inquéritos populacionais na população brasileira81 (ANEXO

3). O ICT é um instrumento que permite avaliar a capacidade para o trabalho a partir da percepção do próprio trabalhador, por meio de 10 questões sintetizadas em sete dimensões: “capacidade para o trabalho atual comparada com a melhor de toda a vida”; capacidade para o trabalho em relação às exigências do trabalho”; “número atual de doenças autorreferidas e diagnosticadas por médico”, obtido a partir de uma lista de 51 doenças; “perda estimada para o trabalho devido a doenças”; “faltas ao

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trabalho por doenças no último ano”; “prognóstico próprio sobre a capacidade para o trabalho daqui a dois anos” e; “recursos mentais”. As respostas do item dois, referentes às exigências da tarefa, foram ponderadas considerando o trabalho com exigências fundamentalmente mentais, conforme orientado por Tuomi e colaboradores55 para o trabalho administrativo.

Os resultados das sete dimensões do ICT fornecem uma medida da capacidade para o trabalho que varia de 7 a 49 pontos. A quantidade de pontos alcançada em cada questão é somada, resultando em escore final, que pode variar de 7 a 49 pontos, classificados da seguinte forma: de 7 a 27 pontos: baixa capacidade; de 28 a 36 pontos: moderada capacidade; de 37 a 43: boa capacidade; e de 44 a 49: ótima capacidade para o trabalho81. As duas primeiras categorias (baixa e moderada) podem ainda ser agrupadas e classificadas como “capacidade para o trabalho inadequada” (resultado <37), enquanto as duas últimas (boa e ótima) podem ser classificadas como “adequada” (resultado ≥37)63,82.

3.6 Análise dos dados

• Análises descritivas: foram realizadas a partir da confecção de tabelas de frequência com valores absolutos (n) e percentuais (%), medidas de posição (média, mediana, mínima e máxima) e dispersão (desvio-padrão e Intervalo Entre Quartis - IQR) para todas as variáveis;

• Testes de comparação: o teste não-paramétrico de Mann-Whitney foi aplicado para realizar comparações entre variáveis quantitativas de acordo com o sexo e com o ICT categorizado (<37; ≥37), da mesma forma que para a comparação do ICT de acordo com a ocorrência de problemas em cada região corporal;

• Testes de correlação: as variáveis quantitativas foram relacionadas por meio do coeficiente de correlação de Spearman83. Quanto aos resultados do QNSO, para este efeito, foi considerada a somatória das respostas positivas em cada região do corpo (segmentos corporais com queixas – 0 a 9) para cada uma de suas quatro questões. Foram consideradas satisfatórias, porém fracas,

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correlações entre 0,10 a 0,29; de moderada magnitude entre 0,30 e 0,49 e de forte magnitude correlações iguais ou maiores de 0,5084. Para as correlações de acordo com o sexo, foi aplicada a correção de Bonferroni85;

• Análises de regressão: foram construídos modelos de regressões lineares múltiplas, via modelos lineares generalizados, a fim de verificar a relação entre as variáveis quantitativas do estudo. Nesses modelos, são apresentadas as estimativas dos coeficientes de regressão, assim como os seus intervalos de confiança e p-valores. As variáveis dependentes referentes à somatória de segmentos corporais com queixas são do tipo quantitativa discreta e, portanto, apresentaram algumas limitações com relação aos pressupostos dos modelos propostos86.

Foi adotado p≤5% como nível de significância e para a realização das análises foi utilizado o software SAS versão 9.4. A análise dos dados foi realizada com o auxílio do Serviço de Estatística da Faculdade de Enfermagem da Unicamp.

3.7 Aspectos éticos

Este estudo foi conduzido de acordo com a Resolução CNS n.º 466/12 e complementares. O projeto de pesquisa foi autorizado pela direção do TRT (ANEXO 4) e obteve anuência do sindicato que representa os servidores (ANEXO 5). Foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e aprovado sob o parecer 2.021.746/2017 (ANEXO 6). Os participantes somente puderam aderir ao estudo e terem seus dados utilizados mediante concordância com um termo de consentimento livre e esclarecido apresentado na página inicial da pesquisa, sem a qual não teria sido possível o acesso aos instrumentos de coleta de dados (TCLE – Apêndice 2).

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4. RESULTADOS

Foram contatados acerca da realização da pesquisa 1767 servidores de 148 unidades de 1ª instância, entre os quais 543 acessaram o link enviado por e-mail e responderam o TCLE, sendo que, destes, 11 não aceitaram participar. Entre os 532 servidores que aceitaram participar do estudo, foram excluídos 55 servidores devido ao preenchimento incompleto dos instrumentos de coleta de dados, 22 que exerciam a função principal em secretaria de audiências e seis com menos de um ano na 1ª instância. Foram analisados, portanto, os dados de 449 participantes distribuídos em 138 unidades de 1ª instância, resultando em uma taxa de resposta de 28,7% que envolveu a participação de servidores de 93,2% das unidades pesquisadas (Figura 2).

Figura 2. Fluxograma da seleção e adesão dos participantes ao estudo. 1767 servidores receberam o

e-mail sobre a pesquisa

543 servidores responderam o TCLE 1224 servidores não responderam o TCLE 532 servidores aceitaram participar do estudo

11 servidores não aceitaram participar do estudo 83 servidores foram excluídos do estudo 6 com menos de 1 ano na 1ª instância 22 eram secretários de audiência 55 devido a preenchimento incompleto Foram analisados os dados de 449 servidores

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A média de idade da amostra foi de 45,0(8,4) anos, sendo de 15,1(8,6) anos a média de tempo de trabalho no TRT e 14,8(8,5) anos na 1ª instância. A maioria dos participantes era do sexo feminino (58,8%), exercia o cargo de técnico judiciário (67,3%), não exercia função específica na vara do trabalho (54,1%) e não apresentava doença diagnosticada nos últimos 12 meses causadora de sintomatologia osteomuscular (82,0%). A carga horária média de trabalho foi de 7,6(0,9) horas, entre as quais 6,3(1,4) horas com o uso do PJe (Tabela 1).

Tabela 1. Análise descritiva das variáveis demográficas e ocupacionais (n=449). Estado de São Paulo, 2017.

Variável n (%) Média (DP*) Mediana (IQR**) Variação

Idade (anos) 45,0 (8,4) 46,0 (13,0) 26,0-66,0 Sexo Feminino Masculino 264 (58,8) 185 (41,2) Cargo Executante Técnico Judiciário Analista judiciário 53 (11,2) 302 (67,3) 94 (20,9) Função Diretor Assistente de Diretor Assistente de Juiz Assistente de Cálculo Outra 62 (13,8) 47 (10,5) 45 (10,0) 52 (11,6) 243 (54,1) Tempo no TRT (anos) 15,1 (8,6) 15,0 (16,0) 1,0-38,0 Tempo na 1ª instância (anos) 14,8 (8,5) 14,0 (16,5) 1,0-38,0

Carga horária média

(horas) 7,6 (0,9) 7,0 (1,0) 6,0-12,0

Carga horária média com PJe (horas) Até 5 horas

Mais de 5 até 6 horas Mais de 6 até 7 horas Mais de 7 horas 92 (20,5) 112 (24,9) 177 (39,4) 68 (15,1) 6,3 (1,4) 6,5 (1,0) 1,0-11,0 Doenças nos últimos

12 meses Não Sim

369 (82,0) 80 (18,0) *DP=Desvio Padrão; **IQR=Intervalo Entre Quartis

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Quanto aos resultados do QNSO, a ocorrência de sintomas nos últimos 12 meses foi maior em punhos/mãos (62,4%), ombros (62,1%) e pescoço (60,4%), enquanto nos últimos sete dias foi maior em pescoço (29,8%), ombros (29,4%) e punhos/mãos (29,2%). Sintomas em ombros foram apontados com maior frequência como responsáveis por impedir atividades diárias e pela realização de consulta a um profissional de saúde (19,2% e 26,9% respectivamente) (Tabela 2).

Tabela 2. Distribuição das queixas osteomusculares por região corporal (n=449). Estado de São Paulo, 2017.

Variável Problemas nos últimos 12 meses n (%) Impedimentos nos últimos 12 meses n (%) Consulta nos últimos 12 meses n (%) Problemas nos últimos 7 dias n (%) Pescoço 271 (60,4) 82 (18,3) 107 (23,8) 134 (29,8) Ombros 279 (62,1) 86 (19,2) 121 (26,9) 132 (29,4) Parte superior das costas 247 (55,0) 59 (13,1) 180 (24,1) 111 (24,7) Cotovelo 130 (29,0) 37 (8,2) 57 (12,7) 60 (13,4) Punhos/Mãos 280 (62,4) 81 (18,0) 101 (22,5) 131 (29,2) Parte inferior das costas 239 (53,2) 81 (18,0) 106 (23,6) 117 (26,1) Quadril/coxas 111 (24,7) 35 (7,8) 57 (12,7) 48 (10,7) Joelhos 132 (29,4) 49 (10,9) 74 (16,5) 54 (12,0) Tornozelos/pés 112 (24,9) 44 (9,8) 57 (12,7) 56 (12,5)

As dimensões do HSE-IT que apresentaram os melhores resultados foram “cargo”, com escore de 4,3(0,6) e “relacionamentos”, com escore de 4,1(0,7), e aquelas que apresentaram os piores resultados foram “demandas”, com escore de 3,3(0,7) e “controle”, com escore de 3,6(0,7). A média do ICT da amostra foi de 38,7(6,4) (Tabela 3).

Referências

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