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A C Ó R D Ã O 7ª Turma
CMB/brq
AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA EM FACE DE DECISÃO PUBLICADA NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO EMPREGADOR. ACIDENTE DE TRABALHO. MOTORISTA. DESVIO DE FUNÇÃO. INDENIZAÇÕES POR DANOS MORAIS E ESTÉTICOS. FORTUITO INTERNO. TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA. APLICAÇÃO.
Agravo de instrumento a que se dá
provimento para determinar o
processamento do recurso de revista, em face de haver sido demonstrada possível afronta ao artigo 927, parágrafo único, do Código Civil.
RECURSO DE REVISTA EM FACE DE DECISÃO PUBLICADA NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO EMPREGADOR. ACIDENTE DE TRABALHO. MOTORISTA. DESVIO DE FUNÇÃO. INDENIZAÇÕES POR DANOS MORAIS E ESTÉTICOS. FORTUITO INTERNO. TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA. APLICAÇÃO.
Perante o Direito do Trabalho, a responsabilidade do empregador pela reparação de dano, no seu sentido mais abrangente, derivada do acidente do trabalho ou de doença profissional a ele equiparada, sofrido pelo empregado, é subjetiva, conforme prescreve o artigo 7º, XVIII, da Constituição Federal de 1988. No entanto, podem-se considerar algumas situações em que é recomendável
a aplicação da responsabilidade
objetiva, especialmente quando a atividade desenvolvida pelo empregador causar ao trabalhador risco muito mais acentuado do que aquele imposto aos demais cidadãos, conforme previsto no parágrafo único do artigo 927 do Código Civil Brasileiro. No presente caso, o quadro fático delineado na decisão regional revela que o autor (fiscal
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agrícola) sofreu acidente
automobilístico quando realizava o traslado de documentos de uma unidade empresarial para outra, localizada em
município diverso, mediante a
utilização de veículo da empresa, no exercício de atribuições de motorista - função diversa daquela para a qual foi contratado. Em decorrência do acidente, “sofreu lesões de natureza grave, traumatismo craniano grave e fratura de extremidade superior do úmero”. Ainda, consoante anotado no acórdão regional, o infortúnio aconteceu quando o motorista de um ônibus, na pista contrária, perdeu o controle e invadiu a via em que o autor conduzia o seu veículo. Ficou registrado, por fim, que a testemunha ouvida afirmou ter sido “exigida a apresentação de carteira nacional de habilitação e a realização de curso de direção defensiva quando passou a exercer a função de fiscal agrícola”, o que conduz à ilação de que a atividade de transporte de documentos acima mencionada era de rotina da reclamada. Nesse contexto, é possível concluir que o empregado, submetido a tais condições - mormente se considerado o estado de má conservação das rodovias desse país, a falta de sinalização das estradas e a imprudência e negligência de outros motoristas -, foi exposto à situação de risco que, aliada ao desvio funcional e à consequente falta de treinamento, é potencialmente agravada, a atrair a
responsabilidade objetiva do
empregador. Outrossim, o fato de terceiro que ocasionou o acidente em discussão não exclui o nexo de causalidade e, por consequência, a responsabilidade civil da empresa, pois constituí condição previsível e risco próprio da função de motorista, sendo possível, no entanto, o ajuizamento de ação regressiva pelo empregador. Desse
modo, deve ser reconhecida a
responsabilidade do empregador e
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deferida a reparação pleiteada.
Precedentes do TST. Recurso de revista conhecido e provido.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso de Revista n° TST-RR-25120-84.2014.5.24.0091, em que é Recorrente
WILLIAN ALVES DA SILVA e Recorrida BIOSEV S.A.
A parte autora, não se conformando com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região, que negou seguimento ao recurso de revista, interpõe o presente agravo de instrumento. Sustentando que foram preenchidos todos os pressupostos legais para o regular processamento daquele recurso.
Contraminuta e contrarrazões ausentes.
Dispensada a remessa dos autos ao Ministério Público do Trabalho, nos termos do artigo 95, § 2º, II, do Regimento Interno do Tribunal Superior do Trabalho.
É o relatório.
V O T O
AGRAVO DE INSTRUMENTO CONHECIMENTO
Conheço do agravo de instrumento, visto que presentes os pressupostos legais de admissibilidade.
MÉRITO
RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO EMPREGADOR – ACIDENTE DE TRABALHO – MOTORISTA – DESVIO DE FUNÇÃO - INDENIZAÇÕES POR DANOS MORAIS E ESTÉTICOS - FORTUITO INTERNO - TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA – APLICAÇÃO
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O agravante pretende a responsabilização civil da empresa, em virtude de acidente de trabalho sofrido, que resultou em lesões de ordem moral e estética. Defende aplicável a Teoria da Responsabilidade Objetiva à hipótese, tendo em vista que executava serviços de motorista, em desvio de função. Afirma, ainda, que a culpa de terceiro, no caso, não pode ser utilizada como excludente do nexo causal. Pleiteia, assim, o pagamento de indenizações por danos morais e estéticos, em valores não inferiores a R$ 70.000,00 (setetenta mil reais) e R$ 50.000,00, respectivamente. Indica violação do artigo 927, parágrafo único, do Código Civil, dentre outros. Transcreve arestos para confronto de teses.
Eis o teor da decisão regional:
“A prova dos autos é inequívoca ao demonstrar que o autor foi vítima de acidente provocado por invasão indevida de ônibus na estrada em que conduzia seu veículo.
Configurada a situação fática acima referência, não há que se falar em responsabilidade objetiva do empregador, pois o ato de terceiro é causa excludente da responsabilidade objetiva, cabendo à vítima buscar a responsabilidade de quem provocou o prejuízo. Ora, o empregador não pode responder por atos praticados por todos os motoristas que circulam nas rodovias.
De outro modo, não vejo culpa empresarial porque o autor foi encarregado de levar documento a outra unidade da empresa. A circunstância eventual não caracteriza desvio de função e mesmo que assim se reconheça, não foi essa a causa do acidente, sendo de se diferenciar condições de causa. Data venia, não vejo como alicerçar a responsabilidade civil do empregador por atos praticados por terceiros.
Nego provimento ao recurso.
Fica prejudicada a análise dos pedidos quanto aos danos extrapatrimoniais e danos estéticos.” (fls. 383/384 - destaquei)
Inicialmente, é preciso destacar que o Código de Processo Civil previu, expressamente, em seu artigo 941, § 3º, que o voto vencido declarado será considerado parte integrante do acórdão para todos os fins legais, inclusive de pré-questionamento.
Logo, não se trata, na hipótese, do revolvimento de fatos e provas, mas, apenas, do correto enquadramento jurídico dos fatos ali consignados.
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Feitos os devidos esclarecimentos, passo à análise da matéria.
Perante o Direito do Trabalho, a responsabilidade do
empregador pela reparação de dano, no seu sentido mais abrangente,
derivada do acidente do trabalho ou de doença profissional a ele equiparada, sofrido pelo empregado, é subjetiva, conforme prescreve o artigo 7º, XVIII, da Constituição Federal de 1988.
No entanto, podem-se considerar algumas situações em que é recomendável a aplicação da responsabilidade objetiva, especialmente quando a atividade desenvolvida pelo empregador causar ao trabalhador risco muito mais acentuado do que aquele imposto aos demais cidadãos, conforme previsto no parágrafo único do artigo 927 do Código Civil Brasileiro.
Conjugue-se a isso, que prevalece no Direito do Trabalho, a Teoria do Risco do Negócio, prevista no artigo 2º da CLT, que enseja a atribuição da responsabilidade objetiva ao empregador, impondo a este a obrigação de indenizar os danos sofridos pelo empregado, independentemente de culpa, quando a atividade normal da empresa propicia, por si só, riscos à integridade física do empregado, o que remete às condições previstas no artigo 927 do Código Civil, parágrafo único, que preceitua:
"Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem."
Portanto, a obrigação de reparar decorre dos danos causados pelo tipo de trabalho desenvolvido ou pelas condições ambientais existentes na empresa. Embora não desejados, e ainda que a empresa esteja empenhada em erradicar os riscos e adote medidas de segurança, remanescem os efeitos nocivos do trabalho, suscetíveis de mitigação, mas não de eliminação.
Dessa forma, os danos sofridos pelo empregado, ainda que residuais, também devem ser objeto de reparação pelo empregador,
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tanto em decorrência da sua responsabilidade objetiva como em razão de ser ele quem assume os riscos do negócio.
A propósito da caracterização da atividade como de risco, Carlos Alberto Bittar e Carlos Alberto Bittar Filho informam que pode basear-se em critérios naturais ou jurídicos, estando albergados, no primeiro caso, aquelas em que o perigo decorre da sua própria natureza (periculosidade intrínseca), como no transporte de valores, abastecimento de aeronaves, fabricação de explosivos e de produtos químicos, ou em virtude dos meios utilizados (substâncias, aparelhos, máquinas e instrumentos perigoso s) – tomados no sentido dinâmico, postos em ação, como meios, nas mãos dos homens –; no segundo, as consagradas nas práticas legislativas e reconhecidas como tais pela jurisprudência.1
Ainda é da lição dos autores indicados a observação no sentido de não ser fácil a determinação da periculosidade, apontando não apenas para a definição em leis especiais, o que incluiria o rol definido por ato administrativo da autoridade competente, como também para a relevância do papel da jurisprudência, que teria a possibilidade de caracterizar como lesiva a atividade que expõe o empregado a fatores de riscos elevados.
Esse, aliás, é o ponto principal da questão: a impossibilidade de eliminação do fator agressivo à saúde humana. É exatamente para casos como esse que tem lugar a regra prevista no citado parágrafo único do artigo 927 do Código Civil.
Revela a necessidade de colocar-se o homem como centro da proteção de todo o sistema da responsabilidade e de privilegiar-se o princípio da dignidade humana como base da sociedade brasileira, o que justifica a inserção, na Carta de 1988, de várias regras em que é utilizada a diretriz da responsabilidade objetiva, de forma coerente com a evolução processada nesse campo, o que permite concluir pelo acolhimento da tese que norteia a regra inserida no precitado dispositivo legal.
Há atividades em que é necessário atribuir-se um tratamento especial, a fim de que sejam apartadas do regime geral da responsabilidade, em virtude do seu caráter perigoso, ou de acentuado
1
BITTAR, Carlos Alberto; BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Direito civil constitucional. 3. ed. ver. atual. da 2. ed. da obra O Direito civil na Constituição de 1988. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 161-170
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risco à saúde do trabalhador, sempre presente na execução cotidiana da prestação de serviços. Nesses setores não se pode analisar a controvérsia à luz da teoria da culpa; há risco maior e, por isso mesmo, quem o cria responde por ele.
Para Caio Mário da Silva Pereira – autor do anteprojeto original do Código Civil e defensor dessa teoria – a ideia fundamental da teoria do risco criado consiste em afirmar-se que cada vez que uma pessoa, por sua atividade, cria um risco para outrem, deve responder por suas consequências danosas, independentemente de determinar-se, isoladamente, em cada caso, se o dano é devido a culpa.
Representa uma ampliação do conceito do
risco-proveito e, por conta disso, é “mais eqüitativa para a vítima, que não tem de provar que o dano resultou de uma vantagem ou de um benefício obtido pelo causador do dano. Deve este assumir as conseqüências de sua atividade”2.
Para justificar a sua assertiva, no sentido da maior amplitude, cita o exemplo de um acidente automobilístico. De acordo com a doutrina o risco-proveito, a vítima somente teria direito ao ressarcimento se provasse a obtenção de proveito pelo agente, ao passo que na teoria do risco-criado a indenização é devida, mesmo no caso de se tratar de passeio para lazer.
Antônio Elias de Queiroga sustenta que é suficiente que pessoa exerça uma atividade que possa gerar risco de dano para terceiros, para caracterizar essa forma de responsabilidade.
“Se, em consequência dessa atividade, alguém vem a sofrer um dano, surge a obrigação de reparar, ainda que sua conduta seja isenta de culpa [...] se o fato decorreu, objetivamente, da ação, imputa-se a responsabilidade ao autor, ainda que este não tenha agido culposamente3.”
Não se indaga se houve ou não culpa; atribui-se a responsabilidade em virtude de haver sido criado o risco, numa atividade habitualmente exercida pelo empregador.
No presente caso, o quadro fático delineado na decisão regional revela que o autor (fiscal agrícola) sofreu acidente
2
Pereira, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil. 9. ed. rev. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 284
3
Queiroga, Antônio Elias de. Responsabilidade civil e o novo código civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 12.
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automobilístico quando realizava o traslado de documentos de uma unidade empresarial para outra, localizada em município diverso, mediante a utilização de veículo da empresa, no exercício de atribuições de motorista - função diversa da qual foi contratado (fl. 386).
Em decorrência do acidente, “sofreu lesões de natureza grave, traumatismo craniano grave e fratura de extremidade superior do úmero” (fl. 386).
Ainda, consoante anotado no acórdão regional, o infortúnio aconteceu quando o motorista de um ônibus, na pista contrária, perdeu o controle e invadiu a via em que o autor conduzia o seu veículo. Ficou registrado, por fim, que a testemunha ouvida afirmou ter sido “exigida a apresentação de carteira nacional de habilitação e a realização de curso de direção defensiva quando passou a exercer a função de fiscal agrícola” (fl. 387), o que conduz à ilação de que a atividade de transporte de documentos acima mencionada era de rotina da reclamada.
Nesse contexto, é possível concluir que o empregado, submetido a tais condições - mormente se considerado o estado de má conservação das rodovias desse país, a falta de sinalização das estradas e a imprudência e negligência de outros motoristas -, foi exposto à situação de risco que, aliada ao desvio funcional e à consequente falta de treinamento, é potencialmente agravada, a atrair a responsabilidade objetiva do empregador.
Outrossim, o fato de terceiro que ocasionou o acidente em discussão não exclui o nexo de causalidade e, por consequência, a responsabilidade civil da empresa, pois constituí condição previsível e risco próprio da função de motorista, sendo possível, no entanto, o ajuizamento de ação regressiva pelo empregador.
Cito, por oportuno, julgados do TST que evidenciam o risco no exercício da função de motorista, de forma geral, dispondo, inclusive, sobre a inexistência de excludente por fato de terceiro:
“RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO ANTERIORMENTE À VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. ACIDENTE DE TRÂNSITO. INFORTÚNIO LABORAL. MOTORISTA. ENTREGADOR DE JORNAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO EMPREGADOR. TEORIA DO RISCO PROFISSIONAL. FATO DE TERCEIRO NÃO EXCLUDENTE DA RESPONSABILIDADE. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS
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E MORAIS. Normatizando a responsabilidade civil objetiva, dispõe o parágrafo único do art. 927 do Código Civil: "Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem". Sob essa perspectiva, a jurisprudência deste Tribunal de uniformização é firme em reconhecer a responsabilidade objetiva do empregador, não sob o enfoque da culpa, mas com apoio na teoria do risco profissional. O fato de o acidente ser causado por terceiro não é causa excludente da responsabilidade do empregador pela reparação dos danos morais e materiais experimentados pela vítima, na medida em que a conduta de outros motoristas é inerente aos acidentes de trânsito, sem que se possa cogitar de força maior ou caso fortuito. Precedente da SDI-1 e de todas as Turmas do TST. Recurso de revista conhecido e provido” (RR - 666-74.2012.5.03.0162, Relator Ministro: Walmir Oliveira da Costa, 1ª Turma, Data de Publicação: DEJT 15/06/2018);
“(...) MOTORISTA DE CAMINHÃO. ACIDENTE DE TRABALHO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E ESTÉTICOS. O Tribunal Regional, soberano na análise de fatos e provas, consignou que a causa do sinistro „deu início no estouro do pneu seguido de perda de controle do conjunto cavalo e bitrem vindo a ocorrer o tombamento em cascata, primeiro a última composição, depois a segunda composição e por último, o cavalo que colidiu com o barranco‟. Afastou a alegação de culpa do reclamante e concluiu que compete à agravante a reparação dos danos morais e estéticos. Segundo a jurisprudência consolidada desta Corte, a atividade de transporte em rodovias, por si só, apresenta alto grau de risco, configurando atividade perigosa, nos termos do art. 927, parágrafo único, do Código Civil. Essa atividade de risco impõe que o empregador seja responsabilizado pelo simples fato de se verificar o nexo causal entre os danos sofridos e o labor durante o exercício da atividade perigosa. Frisa-se que, na hipótese de exercício de atividade de risco, não há que se perquirir acerca de eventual culpa ou dolo daquele que expôs a vítima à atividade perigosa. Dessa forma, tem-se que para se chegar a conclusão diversa seria necessária a reapreciação do conjunto de fatos e provas existentes nos autos, expediente vedado à luz da Súmula 126 do TST, motivo pelo qual não se divisa ofensa dos dispositivos apontados no tema. Precedentes. Agravo não provido. (Ag-AIRR - 235-97.2013.5.07.0031 , Relatora Ministra: Maria Helena Mallmann, 2ª Turma, Data de Publicação: DEJT 01/03/2019) (grifei);
“AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. ACIDENTE DO TRABALHO. MORTE DO EMPREGADO POR
ACIDENTE DE TRÂNSITO. MOTORISTA DE CAMINHÃO.
TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS. ATIVIDADE DE RISCO.
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RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA EMPREGADORA. CULPA EXCLUSIVA DE TERCEIRO. Por aplicação do parágrafo único do art. 927 do Código Civil, que prevê a responsabilidade objetiva em razão do risco do empreendimento, responde o empregador, nos termos do art. 2º, caput, da CLT, pelos danos advindos de acidente do trabalho sofrido pelo empregado no exercício de atividade que o expõe a tal risco. No caso dos autos, a atividade desenvolvida pelo empregado era a de motorista de transportadora, que o expunha a risco bem mais acentuado do que aquele a que estão sujeitos os demais membros da sociedade. O risco acentuado do trabalho do motorista profissional está inclusive previsto no art. 2º, parágrafo único da Lei nº 12.619/2012. A culpa exclusiva de terceiros, contra quem o transportador tem ação regressiva, não afasta a responsabilidade do empregador em relação ao motorista empregado, na medida em que a conduta dos outros motoristas é intrínseca ao acidente de trânsito, sem que se possa cogitar de força maior ou caso fortuito. Não desconstituídos os fundamentos do despacho denegatório, não prospera o agravo destinado a viabilizar o trânsito do recurso de revista. Agravo regimental conhecido e desprovido.” (AgR-AIRR - 12209-06.2013.5.18.0103 , Relator Ministro: Alexandre de Souza Agra Belmonte, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT 15/02/2019);
“AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DE TRABALHO. TEORIA
DO RISCO. INCIDÊNCIA. MOTORISTA DE CAMINHÃO.
DESLOCAMENTO A SERVIÇO. RODOVIA 1. O entendimento perfilhado pela SbDI-1 do TST orienta no sentido de que o caput do art. 7º da Constituição Federal constitui-se tipo aberto, vocacionado a albergar todo e qualquer direito quando materialmente voltado à melhoria da condição social do empregado. 2. Cede espaço, assim, ao reconhecimento da responsabilidade objetiva do empregador, prevista no art. 927, parágrafo único, do Código Civil, quando a atividade desenvolvida pelo empregado revela-se eminentemente de risco. 3. No âmbito das relações de emprego, o conceito de atividade de risco não se aquilata necessariamente à luz da atividade empresarial em si, conforme o respectivo objeto estatutário: apura-se tendo os olhos fitos também no ofício executado em condições excepcionalmente perigosas, expondo o empregado a risco acima do normal à sua incolumidade física. Segundo a atual doutrina civilista, a vítima, e não o autor (mediato ou imediato) do dano, constitui a essência da norma insculpida no art. 927, parágrafo único, do Código Civil de 2002. 4. Inegável o risco inerente à atividade profissional que submete o empregado, motorista de caminhão, a deslocamentos em rodovias, tendo em vista os alarmantes índices de acidentes de trânsito observados nessas vias e a precariedade das estradas brasileiras. Precedentes. 5. Acidente de trabalho, com morte do empregado, no exercício de atividade profissional que lhe impunha transitar em rodovia implica responsabilidade objetiva do empregador. 6. Agravo de instrumento da Reclamada a que se nega provimento
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(AIRR-596-11.2011.5.09.0749, Relator Ministro João Oreste Dalazen, 4ª Turma, DEJT 13/05/2016);
“AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA. ACÓRDÃO PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. ARTIGO 896-A DA CLT. ACIDENTE DO TRABALHO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. FATO DE TERCEIRO RELACIONADO AO RISCO DA
ATIVIDADE. TRANSCENDÊNCIA POLÍTICA RECONHECIDA.
DECISÃO EM DESCONFORMIDADE COM A REITERADA
JURISPRUDÊNCIA DO TST. Caracterizada a existência de transcendência política, em razão de desconformidade com a reiterada jurisprudência do TST, além de ofensa ao artigo 927, parágrafo único do Código Civil, dá-se provimento ao agravo de instrumento para determinar o prosseguimento do recurso de revista. Agravo de instrumento provido. RECURSO DE REVISTA. ACÓRDÃO PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. ARTIGO 896-A DA CLT. ACIDENTE DO TRABALHO.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA. FATO DE TERCEIRO
RELACIONADO AO RISCO DA ATIVIDADE. TRANSCENDÊNCIA POLÍTICA RECONHECIDA. DECISÃO EM DESCONFORMIDADE COM A REITERADA JURISPRUDÊNCIA DO TST. Não se nega que, mesmo na seara da responsabilidade objetiva, seria possível a ocorrência de excludentes capazes de afastar o nexo de causalidade e, via de consequência, a obrigação de indenizar, tais como a culpa exclusiva da vítima ou fato de terceiro, hipótese última adotada pelo Regional como fundamento para exclusão da responsabilidade da reclamada. Porém, em se tratando de atividade de risco, como no caso, em que o reclamante, motorista de ônibus interestadual, sofreu infortúnio enquanto prestava serviço para a sua empregadora, situação inegavelmente enquadrada na exceção prevista no artigo 927, parágrafo único, do Código Civil, o fato de terceiro capaz de romper o nexo de causalidade seria apenas aquele completamente estranho ao risco inerente à mencionada atividade, o que não é a hipótese. Recurso de revista conhecido e provido.” (RR - 1259-36.2015.5.12.0037, Relator Ministro: Breno Medeiros, 5ª Turma, Data de Publicação: DEJT 30/11/2018);
“(...) RECURSO DE REVISTA. RECURSO DE REVISTA SOB A ÉGIDE DA LEI Nº 13.015/2014. REQUISITOS DO ART. 896, § 1º-A, DA CLT ATENDIDOS. ATIVIDADE DE RISCO. AJUDANTE DE MOTORISTA DE CAMINHÃO. ACIDENTE EM RODOVIA. MORTE
DO AJUDANTE. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA
EMPREGADORA. INDENIZAÇÕES POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. Verifica-se que a norma constitucional abraça a responsabilidade subjetiva, obrigação de o empregador indenizar o dano que causar mediante comprovação de dolo ou culpa, e o Código Civil, de forma excepcional, nos casos de atividade de risco ou quando houver expressa previsão legal, prevê a responsabilidade objetiva do autor do dano, situação
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em que não se faz necessária tal comprovação. A norma constitucional trata de garantia mínima do trabalhador e não exclui a regra do parágrafo único do artigo 927 do Código Civil, o qual, por sua vez, atribui uma responsabilidade civil mais ampla ao empregador, perfeitamente aplicável de forma supletiva no Direito do Trabalho, haja vista o princípio da norma mais favorável, somado ao fato de o Direito Laboral primar pela proteção do trabalhador e pela segurança do trabalho, com a finalidade de assegurar a dignidade e a integridade física e psíquica do empregado em seu ambiente laboral. Do quadro fático delineado no acórdão regional extrai-se que o de cujus era ajudante de motorista de caminhão. Em uma viagem, houve um acidente com o caminhão, ocasionando a morte do obreiro. É certo que o de cujus, no desempenho da função de ajudante de motorista de caminhão, transportava os gases industriais fabricados pela 3ª reclamada, em veículo de propriedade da 1ª reclamada, sujeitando-se a risco maior de sofrer infortúnio relacionado com o tráfego. Trata-se, inegavelmente, de atividade que, pela sua natureza, implica risco para o empregado que a realiza. Incide o parágrafo único do artigo 927 do Código Civil. É objetiva a responsabilidade do empregador. Presentes o dano e o nexo de causalidade com a execução do contrato de emprego e, tratando-se de atividade de risco, impõe-se o reconhecimento da responsabilidade objetiva da reclamada. Esta Corte tem adotado o entendimento da responsabilidade objetiva nos casos em que trata de acidente automotivo que causa dano ao motorista. Se a responsabilidade é objetiva ao dano causado ao motorista, também deve ser quanto ao dano causado ao ajudante do motorista. O risco ao qual está ordinariamente submetido o trabalhador no desempenho de suas funções é o de envolver-se em acidentes oriundos diretamente da atividade com veículos, tais como acidentes automobilísticos, como ocorreu com o de cujus. Vale dizer, o acidente que vitimou o empregado, mesmo sendo provocado por terceiro, insere-se na dimensão do risco da atividade desenvolvida pelo obreiro. Impende salientar, ainda, que o risco da atividade econômica deve ser suportado pelo empregador, e não pelo empregado (artigo 2º da CLT). Presentes o dano experimentado pelos reclamantes e o nexo de causalidade com a execução do contrato de emprego, e tratando-se de atividade que, pela sua natureza, implica risco para o empregado que a desenvolve, constata-se a violação do art. 927, parágrafo único, do Código Civil. Recurso de revista conhecido e provido.” (RR-458-57.2013.5.03.0097, Relator Ministro: Augusto César Leite de Carvalho, 6ª Turma, Publicação: DEJT 03/11/2015); “AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DA LEI 13.647/2017 - INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS - PRESCRIÇÃO Tratando-se de pretensão à indenização por danos morais e materiais decorrentes de relação de emprego - acidente do trabalho - , aplicável é a prescrição trabalhista, prevista no art. 7º, XXIX, da Constituição da República, sobretudo quando o evento lesivo é posterior à vigência da EC nº 45/2004. ACIDENTE DE TRABALHO - DANOS MORAIS E MATERIAIS - CARACTERIZAÇÃO
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- RESPONSABILIDADE OBJETIVA - MOTORISTA DE CAMINHÃO A jurisprudência do TST é no sentido de admitir a responsabilidade objetiva do empregador quando demonstrado que a atividade desempenhada implica risco à integridade física e psíquica do trabalhador. Nessa esteira, o Eg. TST tem se posicionado no sentido de reconhecer a aplicação da teoria do risco em hipóteses como a dos autos, em que o empregado, no exercício da função de motorista de caminhão, sofre acidente de trânsito. (...)” (AIRR - 20327-37.2016.5.04.0561, Relatora Ministra: Maria Cristina Irigoyen Peduzzi, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 31/01/2019)
Nesse passo, verifico possível ofensa ao artigo 927, parágrafo único, do Código Civil, o que torna plausível a revisão da decisão denegatória.
Do exposto, dou provimento ao agravo de instrumento para determinar o processamento do recurso de revista.
RECURSO DE REVISTA
Satisfeitos os pressupostos extrínsecos de
admissibilidade, passo à análise dos pressupostos recursais intrínsecos.
RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO EMPREGADOR – ACIDENTE DE TRABALHO – MOTORISTA – DESVIO DE FUNÇÃO - INDENIZAÇÕES POR DANOS MORAIS E ESTÉTICOS - FORTUITO INTERNO - TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA – APLICAÇÃO
CONHECIMENTO
Nos termos da fundamentação expendida na decisão do agravo de instrumento, considero que houve afronta ao artigo 927 do Código Civil, razão pela qual conheço.
MÉRITO
Como consequência lógica do conhecimento do apelo, por violação do artigo 927 do Código Civil, dou-lhe provimento para julgar
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procedentes os pedidos de indenizações por danos morais e estéticos, em virtude do acidente de trabalho ocorrido.
Passa-se ao exame dos critérios a serem observados na fixação dos montantes arbitrados a título de danos morais e estéticos.
Na lição de Caio Mário da Silva Pereira, o magistrado deve levar em conta que “a vítima deve receber uma soma que lhe compense a dor ou o sofrimento, a ser arbitrada pelo juiz, atendendo às circunstâncias de cada caso, e tendo em vista as posses do ofensor e a situação pessoal do ofendido. Não tão grande que se converta em fonte de enriquecimento, nem tão pequena que se torne inexpressiva”. (Responsabilidade Civil. 9ª ed. rev. Rio de Janeiro: Forense).
Aguiar Dias assinala que não se deve construir a ideia de que a indenização por dano moral não possui limites. Na sua opinião, deve-se buscar um “equivalente adequado” e destaca que a “reparação será, sempre, sem nenhuma dúvida, inferior ao prejuízo experimentado”. (Da Responsabilidade Civil. 9. ed. V. II. Rio de Janeiro: Forense, 1984. p. 740).
No que tange ao dano estético, é preciso salientar que, embora também seja um dano extrapatrimonial, a parametrização deve ter como perspectiva o prejuízo sofrido pela vítima em razão da alteração permanente de sua harmonia física.
Assim, considerando os limites do pedido, a gravidade das lesões (traumatismo craniano grave, fratura de extremidade superior do úmero, com limitações de movimento e cicatriz permanente no membro superior esquerdo – fls. 390/391), as circunstâncias em que ocorreu o acidente (desvio de função e fato de terceiro), o tempo de internação (24 dias, sendo 11 em unidade de terapia intensiva), afastamento do trabalho (cerca de 4 meses) e evolução do quadro clínico, arbitro em R$ 40.000,00 (quarenta mil) o valor da reparação por danos morais e em R$10.000,00 (dez mil) por danos estéticos.
Juros e correção monetária na forma da lei e da Súmula nº 439 do TST.
ISTO POSTO
ACORDAM os Ministros da Sétima Turma do Tribunal
Superior do Trabalho, por unanimidade, dar provimento ao agravo de
Firmado por assinatura digital em 01/07/2019 pelo sistema AssineJus da Justiça do Trabalho, conforme MP
instrumento para determinar o processamento do recurso de revista. Por maioria, conhecer do recurso de revista, por violação do artigo 927 do Código Civil, e, no mérito, dar-lhe provimento para julgar procedentes os pedidos de indenizações por danos morais e estéticos, em virtude do acidente de trabalho ocorrido, nos valores de R$40.000,00 e R$10.000,00, respectivamente, ora arbitrados. Juros e correção monetária na forma da lei e da Súmula nº 439 do TST. Eleva-se o valor da condenação em R$50.000,00, para fins processuais. Vencido o Exmo. Desembargador convocado Roberto Nóbrega de Almeida Filho, que não conhecia do recurso de revista.
Brasília, 26 de junho de 2019.
Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)
CLÁUDIO BRANDÃO Ministro Relator