UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA MARIANA PORTO DOS SANTOS
HOSPITALIZAÇÃO: AMEAÇA À AUTONOMIA DO IDOSO?
Palhoça 2008
MARIANA PORTO DOS SANTOS
HOSPITALIZAÇÃO: AMEAÇA À AUTONOMIA DO IDOSO?
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Psicólogo.
Orientadora: Profª. Alessandra d´Avila Scherer, Msc.
Palhoça 2008
MARIANA PORTO DOS SANTOS
HOSPITALIZAÇÃO: AMEAÇA À AUTONOMIA DO IDOSO?
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de psicólogo e aprovado em sua forma final pelo Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina — UNISUL.
Palhoça, 19 de novembro de 2008.
____________________________________ Profª e orientadora Alessandra d’Avila Scherer, Msc.
Universidade do sul de santa Catarina
____________________________________ Profª. Marilda Contessa Lisbôa, Msc. Universidade do Sul de Santa Catarina
___________________________________ Profª. Simone Vieira, Msc.
À terceira idade, melhor idade, maior idade, feliz idade, velho, idoso e demais, que devem ser entendidos por todos, para serem aceitos e respeitados nas suas características, motivações, expectativas, sonhos e potencialidades.
AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer a muitas pessoas que contribuíram para o meu sucesso ao longo destes seis anos e meio de faculdade, mas este espaço se tornaria pequeno e poderia ser injusta por eventualmente esquecer alguém.
Mas deixo aqui o meu agradecimento especial aos que foram mais marcantes...
A minha mãe, Shirlei, pelo esforço e dedicação dispensados para que eu me tornasse uma vencedora, apesar das dificuldades.
A minha amiga Neide, que com sua incrível sensibilidade me ensinou a ver a vida de uma maneira mais colorida e a valorizar as pequenas coisas.
As minhas professoras Alessandra Scherer, pela confiança incondicional em mim depositada e Anita Bacelar, por todo conhecimento compartilhado neste pouco tempo de convivência.
As minhas colegas de orientação, em especial à minha amiga Paty, que apesar das suas próprias preocupações sempre auxiliaram na construção do trabalho uma das outras.
A todos os meus amigos que deixaram a sua contribuição nesta minha caminhada, confortando, incentivando, criticando, chorando, sorrindo e festejando!
VELHAS ÁRVORES
“Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo! Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem. Na glória da alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem”. (OLAVO BILAC)
RESUMO
Na velhice, uma vida mais saudável está intimamente ligada à manutenção da autonomia e independência, que constituem bons indicadores de saúde. Neste caso, conceituando-se autonomia como sendo a capacidade de decisão, de comando; e independência, a capacidade de realizar algo com seus próprios meios. Ambas podem ser comprometidas por doenças físicas que, devido a uma crescente vulnerabilidade biológica do idoso, podem ocorrer com maior freqüência remetendo à necessidade de internação hospitalar, o que pode ser encarado pelo idoso como uma situação estressante. Visto que as pessoas percebem e lidam de maneira diferente com eventos de vida estressantes, podendo-se utilizar de várias estratégias que são aprendidas, mantidas e alteradas ao longo do curso de vida, esta pesquisa objetivou compreender a relação existente entre a percepção de idosos hospitalizados sobre sua autonomia e as estratégias de enfrentamento apresentadas por estes durante a hospitalização. Para responder o objetivo da pesquisa, foram realizadas entrevistas com idosos hospitalizados, com 60 anos ou mais, com no mínimo uma semana de internação. A pesquisa é de natureza qualitativa, possui um caráter descritivo e exploratório e utilizou entrevista semi-estruturada para a realização da coleta de dados. Foram analisados os dados através de categorias selecionadas a partir dos objetivos da pesquisa e conteúdo das entrevistas, fundamentando através do referencial teórico pré-definido. Na análise de dados percebeu-se que os idosos entrevistados se percebem autônomos na medida em que todos tomam suas próprias decisões e escolhas sem a impedição de outras pessoas, e esta autonomia não é prejudicada durante a hospitalização, uma vez que estão preocupados com a recuperação de sua saúde, utilizando-se assim de estratégias de enfrentamento saudáveis frente as situações estressoras citadas.
LISTA DE SIGLAS
AIVD – Atividades Instrumentais de Vida Diária AVD – Atividades de Vida Diária
ONU – Organização das Nações Unidas UTI – Unidade de Terapia Intensiva
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Perfil dos idosos hospitalizados ...45
Tabela 2 – Categorização dos dados ...47
Tabela 3 – Síntese dos resultados: percepção sobre autonomia ...63
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...11 1.1 PROBLEMÁTICA ...11 1.2 OBJETIVOS ...13 1.2.1 Geral ...13 1.2.2 Específicos ...13 1.3 JUSTIFICATIVA ...14 2 REFERENCIAL TEÓRICO...16 2.1 GERONTOLOGIA E GERIATRIA...16 2.2 ENVELHECIMENTO HUMANO ...18 2.2.1 Definições e Terminologias...19 2.2.2 Aspectos Biológicos...20 2.2.3 Aspectos Psicológicos ...22 2.2.4 Aspectos Sociais...26 2.3 AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA...29 2.4 PSICOLOGIA HOSPITALAR...32 2.4.1 Idoso Hospitalizado...34 2.5 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO ...37 2.5.1 Na Velhice ...39 3 MÉTODO...43 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ...43 3.2 PARTICIPANTES DA PESQUISA...44
3.3 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ...45
3.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ...46
4 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ...47
4.1 PERCEPÇÃO SOBRE AUTONOMIA...48
4.1.1 Atividades ...48 4.1.1.1 Antes ...48 4.1.1.2 Depois ...49 4.1.1.3 Na hospitalização ...50 4.1.2 Escolhas...51 4.1.2.1 Antes ...51
4.1.2.2 Depois ...52 4.1.2.3 Na hospitalização ...53 4.1.3 Impedições...55 4.1.3.1 Antes ...55 4.1.3.2 Depois ...56 4.1.3.3 Na hospitalização ...56 4.2 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO ...58 4.2.1 Respostas Emocionais ...58 4.2.2 Respostas Situacionais ...59 4.2.2.1 Assistir televisão...60 4.2.2.2 Receber banho...61
4.2.2.3 Receber comida na boca...61
4.2.2.4 Escolher a comida do hospital...62
4.3 SÍNTESE DOS RESULTADOS ...63
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...65
REFERÊNCIAS...69
APÊNDICES ...71
APÊNDICE A – Roteiro de Entrevista ...72
ANEXOS ...73
ANEXO A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ...74
1 INTRODUÇÃO
Esta pesquisa partiu da experiência no Estágio Curricular Obrigatório, vinculado ao Núcleo da Saúde do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul. Estágio este realizado na Irmandade Senhor Jesus dos Passos - Hospital de Caridade, localizado na cidade de Florianópolis-SC.
Objetiva-se com esta pesquisa compreender a relação existente entre a percepção de idosos hospitalizados sobre sua autonomia e as estratégias de enfrentamento apresentadas por estes durante a hospitalização. Para tanto, caracteriza-se como uma pesquisa de caráter qualitativo, de natureza descritivo-exploratória, a qual será realizada com idosos hospitalizados, com 60 anos ou mais.
Para fundamentar a análise dos dados, esta pesquisa apresenta considerações teóricas relativas à gerontologia e geriatria; definições e terminologias do envelhecimento, bem como, os aspectos biopsicossociais; os conceitos de autonomia e independência para a gerontologia; uma breve contextualização da psicologia hospitalar e do idoso hospitalizado, e as estratégias de enfrentamento, especificamente na velhice.
Esta pesquisa parte de um contexto hospitalar onde encontra-se idosos que podem apresentar resistências, como por exemplo, aos cuidados da equipe de saúde, podendo assim inviabilizar a execução de algumas atividades, e a situação da iminente impossibilidade de exercer sua autonomia, que pode agravar o seu acometimento orgânico ou acabar por deprimir o idoso.
1.1 PROBLEMÁTICA
Momentos contraditórios marcam a vida do ser humano, construções e destruições, perdas e ganhos. Cada fase do desenvolvimento tem seus prazeres, suas exigências e suas dificuldades. E, ao longo de cada fase ocorrem significativas modificações físicas, sociais e psicológicas da constituição e no relacionamento humano (CAMON, 2002).
O envelhecimento, embora seja um processo natural, não ocorre de forma generalizada. Cada idoso é um ser único que, ao longo do seu curso de vida, foi e continua sendo influenciado por acontecimentos que interferem no seu modo de viver, seja de ordem biológica, psicológica, social ou cultural.
Sabe-se que a velhice é a última etapa do ciclo vital, caracterizada por declínio de funções biológicas, resiliência, plasticidade e aumento da dependência dos recursos da cultura (NERI, 2004). Estas alterações são naturais, gradativas, podendo se verificar em maior ou menor grau em cada indivíduo, de acordo com as características genéticas, modo de vida, alimentação, etc.
Devido a esta crescente vulnerabilidade biológica do idoso e do confronto com a principal tarefa evolutiva da velhice, que é a aceitação da própria finitude, tanto a integração social quanto a autonomia pessoal assumem capital importância. (NERI, 1995). Autonomia esta que, para Gerontologia, significa a noção e o exercício do autogoverno. Este conceito inclui também, segundo Neri (2001, p. 10), “os seguintes elementos: liberdade individual, privacidade, livre-escolha, autogoverno, auto-regulação e independência moral (...)”.
Uma velhice bem sucedida revela-se em idosos que mantêm autonomia, independência e envolvimento ativo com a vida pessoal, com a família, com os amigos, com o lazer, com a vida social. (NERI, 1995). Esta autonomia permitida por um ambiente estimulador é necessária ao bem estar do idoso. Segundo Néri (2000, p. 22), “quanto mais os idosos forem atuantes e estiverem integrados em seu meio social, menos ônus trarão para a família e para os serviços de saúde”.
Contudo, esta autonomia pode ser prejudicada pelas limitações físicas, sociais, psicológicas e econômicas impostas por um corpo mais vulnerável e mais cansado. (NERI, 1995). E, os idosos, por estarem mais vulneráveis nesta etapa da vida, começam a apresentar algumas doenças devido às modificações fisiológicas do envelhecimento. Envelhecer e adoecer não são sinônimos, porém não devem ser ignoradas certas enfermidades mais freqüentes nesta fase da vida, como o surgimento de doenças crônicas, por exemplo.
Esta maior prevalência de doenças durante a velhice remete à necessidade de internação. No entanto, este paciente requer uma atenção especial, diferente da dispensada aos pacientes hospitalizados de outras faixas etárias, exige um cuidado diferenciado, pois assim como existem os pacientes que aceitam os
cuidados da equipe de saúde, há também aqueles que parecem recusar-se, de maneira bastante resistente, a fazer o tratamento e a receber os cuidados em geral.
Na velhice, uma vida mais saudável está intimamente ligada à manutenção da autonomia e independência, que constituem bons indicadores de saúde. Neste caso, conceituando-se autonomia como sendo a capacidade de decisão, de comando; e independência, a capacidade de realizar algo com seus próprios meios. Ambas podem ser comprometidas por doenças físicas que, devido a uma crescente vulnerabilidade biológica do idoso, podem ocorrer com maior freqüência remetendo à necessidade de internação hospitalar, o que pode ser encarado pelo idoso como uma situação estressante. Visto que as pessoas percebem e lidam de maneira diferente com eventos de vida estressantes, podendo-se utilizar de várias estratégias que são aprendidas, mantidas e alteradas ao longo do curso de vida, propõe-se com esta pesquisa responder à seguinte pergunta:
Qual a relação existente entre a percepção de idosos hospitalizados sobre sua autonomia e as estratégias de enfrentamento apresentadas por estes durante a hospitalização?
1.2 OBJETIVOS
1.2.1 Geral
Compreender a relação existente entre a percepção de idosos hospitalizados sobre sua autonomia e as estratégias de enfrentamento apresentadas por estes durante a hospitalização.
- Conhecer a percepção de idosos hospitalizados sobre sua autonomia antes e depois da doença e na hospitalização;
- Identificar estratégias de enfrentamento apresentadas por idosos hospitalizados durante a hospitalização;
1.3 JUSTIFICATIVA
Com o notório envelhecimento da população brasileira, crescem as demandas por maiores conhecimentos científicos sobre o tema que possam repercutir na qualidade dos serviços oferecidos. (NERI, 1995). Assim, a relevância científica ressalta a importância e a urgência da produção e da divulgação de conhecimentos científicos sobre o envelhecimento no Brasil, contribuindo para a qualificação da formação do profissional gerontólogo. Quanto mais rápido o desenvolvimento de uma área, maior a necessidade de pesquisas.
O interesse em estudar a população idosa, parte da constatação de ser ela, hoje, a que mais cresce em todo o mundo. Há um século atrás, menos de 1% da população tinha mais de 65 anos de idade, ao final do século passado já havia aumentado para 6,2%, e acredita-se que no ano 2025 os idosos serão um quinto da população mundial (PAPALÉO NETTO, 1996). Assim, ocorrerá o que Zimerman (2000) denomina “velho-boom”: as pessoas que nasceram no pós-guerra estarão na faixa que vai dos 65 aos 80 anos, o que, sem dúvida, terá uma importante repercussão social.
A psicologia do envelhecimento é uma área de investigação relativamente recente, que teve seu início com os avanços obtidos pela gerontologia, campo este que de acordo com Neri (2001, p. 54), “é multi e interdisciplinar que visa à descrição e à explicação das mudanças típicas do processo do envelhecimento e de seus determinantes genético-biológicos, psicológicos e socioculturais”.
O estudo do envelhecimento vem ganhando representatividade também devido ao prolongamento da expectativa de vida da população. Segundo Zimerman (2000), a expectativa de vida da população mundial, que hoje é de 66 anos, passará a ser de 73 anos em 2025; no Brasil, a esperança de vida é de 67 anos e, em 2025, a expectativa é que possa chegar aos 74 anos, de acordo com a Organização
Mundial de Saúde. Acompanhando este processo de envelhecimento populacional, cresce também a consciência social sobre as questões da velhice, tornando emergente diversas áreas do conhecimento, em especial a psicologia do envelhecimento.
No estudo da velhice os conceitos de dependência, independência, autonomia e perda de autonomia emergem e assumem grande importância. (NERI, 1995). Todos querem ser donos de sua própria vida, ter a capacidade de decidir e escolher caminhos, mesmo para atos corriqueiros do dia-a-dia. As convicções pessoais do idoso merecem ser respeitadas. No entanto, é importante avaliar o grau de capacidade que a pessoa tem para tomar suas decisões (FREITAS, 2002).
Quando trata do idoso, assim como qualquer outro paciente, a equipe de saúde deve estar preparada e consciente de que seu papel interfere na qualidade e na satisfação do atendimento. Saber o que o idoso pensa, o que sente e suas expectativas proporciona oportunidade não só para reflexão da equipe que cuida, mas também, permite que medidas práticas reais sejam tomadas e que possam fortalecer o vínculo de quem cuida e de quem é cuidado.
Inerente ao processo de hospitalização, o paciente sofre total despersonalização, onde deixa de ter o seu próprio nome e passa a ser um número de leito ou então alguém portador de uma determinada patologia, deixa de ter significado próprio para significar a partir de diagnósticos realizados sobre sua patologia. (CAMON, 2003). Esta despersonalização pode interferir na manutenção e promoção da autonomia do idoso hospitalizado, pois, segundo este mesmo autor, o estigma de doente irá fazer com que surja a necessidade de uma total reformulação de seus valores e conceitos de homem, mundo e relação interpessoal em suas formas conhecidas.
O crescimento da população idosa refletiu nos serviços hospitalares, trazendo novas demandas assistenciais para o idoso e para sua família, bem como para a equipe de saúde que presta o atendimento. Esta mudança demográfica acarreta numa série de desafios para a sociedade. Dentre eles, a necessidade dos profissionais da área da saúde preparar-se para o enfrentamento dessa nova realidade, caracterizando assim a relevância social desta pesquisa.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Com efeitos a viabilizar esta pesquisa é necessário um embasamento teórico que torne possível a análise e interpretação dos dados que serão obtidos para responder o problema de pesquisa. Para tanto, a seguir serão abordadas algumas temáticas como Gerontologia e Geriatria, envelhecimento humano – suas definições e terminologias e os aspectos biopsicossociais, o conceito de autonomia e independência, uma contextualização da psicologia hospitalar, o papel do psicólogo e o idoso hospitalizado e, por fim, as estratégias de enfrentamento.
2.1 GERONTOLOGIA E GERIATRIA
A gerontologia e a geriatria são campos científicos e profissionais relativamente novos, o que faz parecer que a preocupação com a velhice teve origem nos dias atuais, mas, desde o início da civilização, o processo do envelhecimento é uma das preocupações da humanidade. Segundo Freitas et al (2002), o século XX marcou definitivamente a importância do estudo da velhice por dois fatores: o crescimento do interesse em pesquisar e estudar o processo do envelhecimento, que já se anunciava nos séculos anteriores; e o aumento da população idosa em todo mundo.
Grandes avanços na ciência do envelhecimento, graças aos conhecimentos adquiridos por meio dos estudos que se desenvolveram desde os pioneiros Metchnikoff e Nascher, em 1903 e em 1909, respectivamente, estabeleceram os fundamentos da gerontologia e geriatria. (FREITAS et al, 2002). Eles acreditavam que estas ciências iriam se transformar, em um futuro próximo, em campos férteis de realizações científicas.
Elie Metchnikoff, renomado cientista sucessor de Pasteur, em 1903 defendeu a idéia de criação de uma nova especialidade, a gerontologia, denominação obtida a partir das expressões gero (velhice) e logia (estudo). Propunha um campo de investigação dedicado ao estudo exclusivo do envelhecimento, da velhice e dos idosos. Em vez de aceitar a inevitabilidade da
decadência e da degeneração do ser humano com o avançar dos anos, Metchnikoff pensava que algum dia uma velhice fisiológica normal poderia ser alcançada pelos homens. (ACHENBAUM, 1995 apud FREITAS et al, 2002). “No entanto, sua postura rígida e o compromisso com a pesquisa não foram suficientes para ganhar o apoio e a atenção da comunidade científica para o assunto que vinha estudando”. (LOPES, 2000 apud FREITAS et al, 2002, p. 1)
Em 1909, através do estudioso Ignatz L. Nascher, criou-se uma nova especialidade na medicina, que visava tratar das doenças dos idosos e da própria velhice, esta especialidade passou a ser denominada geriatria, ou o estudo clínico da velhice. Nascher estimulou pesquisas sociais e biológicas sobre o envelhecimento e, por este motivo, foi considerado pai da geriatria. (FREITAS et al, 2002).
Através das leituras feitas, percebe-se em ambos estudiosos, pioneiros da gerontologia e geriatria, uma visão otimista das possibilidades que as pesquisas sobre o estudo do envelhecimento poderiam proporcionar e, além disso, uma concepção menos pessimista sobre a evolução da decadência e da degeneração do ser humano com o avançar dos anos.
Assim, Zimerman (2000) define a Gerontologia como a ciência que estuda o processo de envelhecimento e os múltiplos problemas que envolvem a pessoa idosa; e a Geriatria, por sua vez, refere-se ao campo da medicina que trata das enfermidades do organismo do velho, trabalhando com prevenção, tratamento e reabilitação da patologia própria dessa faixa etária.
De acordo com este mesmo autor, a gerontologia estuda as mudanças que acompanham o processo de envelhecimento do ponto de vista físico, psicológico e sociológico, preocupando-se também com a adaptação do indivíduo às várias transformações que vão ocorrendo com a idade, as implicações da personalidade e da saúde mental nesse processo. Ou seja: a gerontologia tem como meta o bem-estar integral do idoso, através de um trabalho multidisciplinar com vistas a resgatar o valor do idoso, procurando integrá-lo na família e na sociedade e garantir-lhe uma melhor qualidade de vida. Esta equipe de profissionais é composta de técnicos de diversas áreas, como assistentes sociais, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, arquitetos, administradores, enfermeiros, entre outros.
A gerontologia pode ser classificada como básica e social. A primeira delas estuda o processo de envelhecimento sob o prisma biofisiológico, genético,
imunológico e em níveis celular e subcelular. A segunda, compreende o estudo das relações recíprocas entre o indivíduo e a sociedade. (ZIMERMAN, 2000, p. 15). A força dos fatores sociais, culturais, econômicos e ambientais que podem qualificar ou prejudicar o inevitável processo do envelhecimento não pode ser contestada.
De acordo com Neri (2001), os principais desafios da gerontologia na atualidade são:
1º Pulverização da pesquisa e das teorias. 2º Construção e teste de modelos explicativos.
3º Conciliação entre os conceitos de desenvolvimento e envelhecimento. 4º Conciliação entre os vários conceitos de idade e tempo.
5º Vencer os preconceitos dos próprios pesquisadores.
6º Descrever diferenças intra e interindividuais do envelhecimento. 7º Integrar a velhice no curso de vida.
Freitas et al (2002) salienta que, embora ainda reste um longo caminho a ser percorrido para elucidar os pontos obscuros do fenômeno do envelhecimento, a verdade é que, principalmente nas últimas décadas do século XX, pôde ser observado um aumento no somatório de conhecimentos nesses campos de estudo.
2.2 ENVELHECIMENTO HUMANO
O envelhecer não é adquirir mais de 60, 80 ou 100 anos, é para todo e qualquer indivíduo (criança, jovem e adulto), que deixa de ter prazeres nas pequenas coisas que realiza, que não tem um propósito em sua vida, vive embotado e sem perspectiva. (ALBERTO, 2002, p. 166).
O envelhecimento humano é um processo natural, gradativo, podendo ocorrer em idade precoce ou avançada, em maior ou menor grau, de acordo com as características genéticas de cada indivíduo, e principalmente, com o modo de vida de cada um. Este processo abrange aspectos biológicos, psicológicos e sociais que serão descritos a seguir após algumas definições e terminologias utilizadas pela gerontologia.
2.2.1 Definições e Terminologias
Serão apresentadas a seguir as definições e terminologias mais utilizadas para designar um ser humano em idade avançada.
Os idosos são populações ou indivíduos que podem ser assim categorizados em termos da duração do seu ciclo vital. “Segundo convenções sociodemográficas atuais, idosos são pessoas de mais de 60 anos, nos países em desenvolvimento, e de mais de 65, nos países desenvolvidos”. (NERI, 2001, p. 59). Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a terceira idade começa aos 60 anos.
Este limite baseado em idade cronológica, 60 anos para ser idoso, caracteriza o marco inicial da velhice. Embora este dado seja utilizado pela maioria dos estudiosos da área, é apenas um marco cronológico, o qual, na maior parte das vezes, não corresponde à idade biológica do indivíduo. (MAZO, LOPES E BENEDETTI, 2004).
A velhice é a última fase do ciclo vital e é delimitada por eventos de natureza múltipla, incluindo, por exemplo, perdas psicomotoras, afastamento social, restrição em papéis sociais e especialização cognitiva. (NERI, 2001).
O envelhecimento, de acordo com esta mesma autora, é o processo de mudanças universais pautado geneticamente para a espécie e para cada indivíduo, que se traduz em diminuição da plasticidade comportamental, em aumento da vulnerabilidade, em acumulação de perdas evolutivas e no aumento da probabilidade de morte. O ritmo, a duração e os efeitos desse processo comportam diferenças individuais e de grupos etários, dependentes de eventos de natureza genético-biológica, sociohistórica e psicológica.
Segundo Mazo, Lopes e Benedetti (2004), a Organização das Nações Unidas – ONU dividiu o ciclo de vida sob o ponto de vista econômico, considerando o homem enquanto força de trabalho, que produz e consome os bens produzidos, em três idades: primeira, segunda e terceira idade, onde nesta última inclui-se o idoso, ou seja, as pessoas que já produziram e consumiram, mas que, pela aposentadoria, não produzem mais e só consomem – idade inativa.
Pietro (1986 apud MAZO, LOPES E BENEDETTI, 2004) classifica as idades avançadas em:
- Idade do meio: é a idade entre os 45 e 60 anos, aproximadamente. É
conhecida como idade pré-senil, crítica ou do primeiro envelhecimento. Nesta idade encontram-se os primeiros sinais do envelhecimento, os quais representam frequentemente tendências ou predisposição ao aparecimento de doenças, sendo importante à intervenção preventiva.
- Senescência gradual: idade entre 60 e 70 anos, aproximadamente.
Caracteriza-se pelo aparecimento de processos mórbidos, típicos da idade avançada, e requer aplicação de medidas diagnósticas e terapêuticas oportunas.
- Senilidade conclamada ou velhice: inicia-se por volta dos 70 anos de
idade, onde se encontra o velho ou ancião no sentido estrito. É a fase em que são mais relevantes os problemas assistenciais em termos médicos, sociais e de reabilitação.
- Grande velho ou longevo: esta idade é definida para indivíduos com
mais de 90 anos.
Rodrigues (2000 apud MAZO, LOPES E BENEDETTI, 2004) ainda define as idades em:
- Idade cronológica: é o tempo de vida a partir do nascimento; - Idade biológica: condição ou estado em que o corpo se apresenta; - Idade psicológica: é o resultado das experiências pessoais que foram
acumuladas ao longo dos anos;
- Idade social: é determinada por regras e expectativas sociais.
As terminologias e representações para designar a pessoa em idade avançada são muitas, tais como: velho, idoso, terceira idade, melhor idade, maior idade, feliz idade, idade feliz, entre outras. Cada uma destas está vinculada ao contexto histórico, cultural e social em que se vive.
O processo de envelhecer pressupõe alterações físicas, psicológicas e sociais no indivíduo, naturais e gradativas, as quais serão descritas a seguir.
O envelhecimento biológico ou senescência é o processo que preside ou determina o potencial de casa indivíduo para permanecer vivo, o qual diminui com o passar dos anos. (NERI, 2001, p. 63).
O envelhecimento, sob o enfoque biológico, é um processo natural, dinâmico, progressivo e irreversível, que acompanha o indivíduo desde o nascimento e ao longo de todo o tempo de vida possível até a morte. Nesse trajeto, provoca no organismo alterações na forma do corpo e também fisiológicas, relativas ao funcionamento dos órgãos.
Apesar de ser um processo dinâmico e gradual, o envelhecimento está acontecendo em idade mais avançada. Há alguns anos, uma pessoa de 65 anos podia ser vista como velha. Hoje é difícil vê-la enquadrada nos moldes da terceira idade. Isto deve-se ao atual avanço farmacológico, que atua na melhoria das condições de vida e uma maior preocupação com a prevenção de doenças com boa alimentação, exercícios físicos, como caminhadas e outras atividades. (ZIMERMAN, 2000).
Mas, apesar deste avanço farmacológico, o fato é que, com o passar dos anos, o desgaste é inevitável. Sabe-se que a velhice não é uma doença, mas, sim, uma fase na qual o ser humano fica mais suscetível a doenças, uma fase na qual as pessoas adoecem mais e mais rapidamente e, quando adoecem, demoram mais tempo para se recuperar. Sobre este aspecto costuma-se dizer que o idoso é semelhante a um vaso de cristal, onde qualquer coisa trinca.
Zimerman (2000) aponta, do ponto de vista físico, as principais mudanças do adulto jovem para o velho:
Modificações externas:
- as bochechas caem e embolsam;
- aparecem manchas escuras na pele (manchas senis);
- a produção de células diminui, a pele perde o tônus, tornando-se flácida; - podem surgir verrugas;
- o nariz alarga-se;
- os olhos ficam mais úmidos;
- há um aumento na quantidade de pêlos nas orelhas e no nariz; - os ombros ficam mais arredondados;
- encurvamento postural devido a modificações na coluna vertebral; - diminuição de estatura pelo desgaste das vértebras.
Modificações internas:
- os ossos endurecem;
- os órgãos internos atrofiam-se, reduzindo seu funcionamento;
- o cérebro perde neurônios e atrofia-se, tornando-se menos eficiente; - o metabolismo fica mais lento;
- a digestão é mais difícil;
- a insônia aumenta, assim como a fadiga durante o dia;
- a visão de perto piora devido à falta de flexibilidade do cristalino; a perda de transparência (catarata), se não operada, pode provocar cegueira;
- as células responsáveis pela propagação dos sons no ouvido interno e pela estimulação dos nervos auditivos degeneram-se;
- o endurecimento das artérias e seu entupimento provocam arteriosclerose;
- o olfato e o paladar diminuem.
Contudo, aprender a conviver com essas limitações é o segredo de uma melhor qualidade de vida, entendendo, aceitando e lutando para que esses problemas sejam diminuídos com exercícios físicos, como caminhadas, natação, dança e passeios, exercícios de memória, boa alimentação, bons hábitos, participação em grupos e outros cuidados, dependendo do tipo de problema. (ZIMERMAN, 2000).
Todas estas alterações por que passa o organismo da pessoa idosa acarretam também alterações psicológicas e sociais, as quais serão abordadas a seguir, baseadas principalmente nas considerações de Scherer; et al (2001), em monografia apresentada para o Curso de Pós-Graduação - Especialização em Gerontologia da Universidade Federal de Santa Catarina, além de autores como Zimerman (2000), Neri (2001) e Mazo; Lopes; Benedetti (2004).
O envelhecimento psicológico depende de como cada indivíduo avalia a presença ou ausência de marcadores biológicos, sociais e psicológicos do envelhecimento em comparação com outras pessoas de sua idade. (NERI, 2001, p. 65).
Junto às transformações corporais, e interagindo com elas, os indivíduos apresentam mudanças de comportamento, de papéis, de valores, de crenças, de acordo com as diferentes fases e grupos a que pertencem. Em relação a estas alterações, Zimerman (2000) menciona que há uma série de mudanças psicológicas, que pode resultar em:
- dificuldade de adaptar a novos papéis;
- falta de motivação e dificuldade de planejar o futuro;
- necessidade de trabalhar as perdas orgânicas, afetivas e sociais;
- dificuldade de se adaptar às mudanças rápidas, que têm reflexos dramáticos nos velhos;
- alterações psíquicas que exigem tratamento;
- depressão, hipocondria, somatização, paranóia, suicídios; - baixas auto-imagem e auto-estima.
Assim como as características físicas do envelhecimento, as de caráter psicológico também estão relacionadas com a hereditariedade, com a história e com a atitude de cada indivíduo. As pessoas mais saudáveis e otimistas têm mais condições de se adaptarem às transformações trazidas pelo envelhecimento. Elas estão mais propensas a verem a velhice como um tempo de experiência acumulada, de maturidade, de liberdade para assumir novas ocupações e até mesmo de liberação de certas responsabilidades. (ZIMERMAN, 2000, p. 25).
Estas alterações psicológicas ao longo do processo de envelhecimento ocorrem, pois as circunstâncias do dia a dia se modificam, surgindo novos papéis e novos problemas a enfrentar. As dificuldades de adaptação a esta fase estão no desconhecimento dessas modificações, as quais podem associar-se a problemas decorrentes de situações mal resolvidas ao longo dos anos. (MAZO, LOPES, BENEDETTI, 2004, p. 62). A cada nova situação que o indivíduo enfrenta em seu cotidiano, ele necessita encontrar também novas maneiras de responder ao que está acontecendo.
Scherer; et al (2001), baseados na leitura de alguns autores, tais como: Papaléo (1996), Mendonça Jorge (1995), Novaes (1995) e Néri (1995), fazem as
seguintes considerações sobre os aspectos psicológicos do envelhecimento, a saber:
A vida é um movimento de perdas e ganhos, frustrações e gratificações, que constituem a história individual de cada sujeito. Em todas as fases da vida, o ser humano vivencia perdas e separações que fazem parte de seu desenvolvimento e maturação biológica e psicológica. Na infância, a primeira perda que experienciamos é no ato do nascimento, onde há a separação do corpo da mãe. Após, ocorre a perda do seio materno e sucessivamente a separação da mãe na idade escolar, a perda da identidade e do corpo infantil na passagem para a adolescência, onde perde-se o “status de dependência” para a aquisição de uma nova condição de responsabilidade da vida adulta.
Na velhice, as perdas parecem mais visíveis e os ganhos tendem a não serem percebidos. Isto ocorre devido à concepção da cultura ocidental de que o velho é um estorvo, incapacitado e inútil. Dentre as perdas significativas que ocorrem com o avanço dos anos na vida das pessoas, podemos citar o deterioramento da saúde, com o surgimento das doenças crônicas, a modificação da aparência física, a viuvez, a morte de amigos e parentes próximos, a perda de papéis sociais valorizados, o isolamento crescente, as dificuldades financeiras decorrentes da aposentadoria. Estas perdas serão enfrentadas de diferentes formas por cada idoso, dependendo de seus recursos internos e externos, como por exemplo, o acesso a tratamentos adequados para que sejam superadas certas doenças, a presença de amigos e familiares que o tratem com respeito e assim diminuindo os efeitos do preconceito e do isolamento, a assimilação de valores e interesses ao longo da vida que o façam não sentir a perda da juventude como algo destruidor, ter tido uma vida mais satisfatória e produtiva, fazendo com que a proximidade da morte não seja vivenciada de forma assustadora.
Envelhecer e adoecer não são sinônimos, porém não devem ser ignoradas certas enfermidades mais freqüentes nesta fase da vida. As modificações orgânicas que não constituem doenças, e sim indicadores da passagem do tempo, como rugas, cabelos brancos, pós-menopausa, diminuição da potência e da atividade sexual, postura encurvada, reflexos mais lentos, etc., transformam a auto-imagem e podem gerar em alguns indivíduos, transtornos emocionais mais agudos. O aspecto físico não corresponde mais aos padrões estéticos que a sociedade de consumo estabelece como valor, desta forma, a sociedade rejeita a velhice por uma
espécie de autodefesa. A dor física, queixa comum nos idosos, muitas vezes esconde a dor do desconhecido, da perda da identidade corporal, o que causa sensação de estranheza, solidão e tristeza.
Com a aposentadoria, se dá a perda do vínculo profissional e do papel social, e como agravante, ocorre uma baixa considerável nos rendimentos, o que acarreta em uma série de privações numa fase da vida em que poderia usufruir do fruto de anos de trabalho. Nesta fase, se “aprende” novos papéis e se obtém novos privilégios. Há a oportunidade de dedicar-se a atividades interessantes que podem ser autogratificantes, auxiliando na manutenção da auto-estima.
A mulher que se dedica apenas ao lar, restringindo-se aos papéis de mãe e esposa, se debate com a questão de que a vida perdeu o sentido após os filhos já criados, fora do ambiente familiar. E algumas, após muitos anos de convivência, enfrentam a viuvez, vivenciando a perda não só psicológica, mas também a econômica. A maneira pela qual cada mulher enfrenta esta situação depende dos papéis sociais que exerceu ao longo da vida.
Essa perda de conteúdo dos papéis significa que as rotinas da vida não se estruturam mais por meio de papéis específicos, o que pode ocasionar num risco de isolamento ou alienação. Por outro lado, essa “ausência de papéis” carrega algumas vantagens para o idoso. Uma delas seria uma maior “licença para a excentricidade”, podendo expressar sua própria individualidade na maneira de vestir, de falar, nas preferências pessoais, etc. Isso se dá devido ao fato de não haver necessidade de adaptação aos limites estreitos das expectativas dos papéis. Parece haver no final da vida adulta, uma espécie de aceitação institucionalizada da excentricidade.
O preconceito está fortemente presente no idoso, pois comumente crescemos interiorizando o envelhecimento como algo negativo. Quando jovem, assimilou a idéia que seria improdutivo, frágil, dependente e doente. E assim que envelhece passa a vivenciar estas auto-imagens negativas. Em conseqüência disso, deixa de lutar por uma melhor qualidade de vida, aceitando passivamente esta fase como improdutiva, sem realizações e perspectivas.
A vida cultural e intelectual, possibilita ao idoso uma maior facilidade para assumir as mudanças impostas pela velhice, uma vez que existe o hábito de pensar, refletir e meditar. Não apenas manter-se ativo, mas permitir-se também o não fazer, mantendo vivas aspirações e fantasias, permite ao idoso uma boa qualidade de vida.
Na relação entre gerações, há uma atitude ambivalente por parte do adulto com seus velhos. Ao mesmo tempo que respeitam impostamente os mais velhos, os tratam como seres inferiores, explicitando suas incapacidades para manterem um papel ativo na sociedade.
Em relação a sexualidade na velhice, existem uma série de mitos, dentre eles, os que mais predominam é o de que esta fase é assexuada ou o de que o idoso que expressa sua sexualidade como algo natural, apresenta um “desvio” de conduta. Após os 40 anos, mudanças fisiológicas se evidenciam no ser humano no que se refere à sexualidade. No homem, ocorrem mudanças quanto à freqüência, duração, tipo de ereção e de resposta orgástica. Na mulher, durante a menopausa, podem ocorrer dificuldades no ato sexual, devido à queda na taxa hormonal, interferindo na lubrificação vaginal. Alterações da mucosa e flacidez dos músculos vaginais também são freqüentes. Há diminuição do impulso sexual, de interesses, pensamentos e fantasias sexuais, o que pode gerar tanto no homem, como na mulher, sentimentos de tristeza e frustração, o que pode ocasionar em depressão. No caso do homem, por sofrer mais com a ameaça de tornar-se impotente, são acentuados sentimentos de medo, ansiedade, insegurança e agressividade. Na mulher, a sexualidade apresenta-se menos intensa, e apesar de ser mantida a capacidade orgástica nas relações sexuais, barreiras biológicas, psíquicas ou sociais muitas vezes não as permitem vivenciar o prazer sexual. Os princípios morais que as fazem sentirem-se ridículas e transgressoras pela prática do sexo, somados à diminuição da auto-estima, pela perda dos atributos físicos e dos atrativos sexuais, interferem negativamente na realização sexual.
A manutenção de atividades ocupacionais é de extrema importância para que o idoso enfrente de forma positiva as situações de perda e as crises inerentes a fase do envelhecimento, passando a viver de forma mais prazerosa e produtiva. É necessário que sejam evidenciadas as habilidades do idoso, para que assim, possam ser preservadas sua autonomia e independência, conceitos estes muito valorizados pela Gerontologia.
O envelhecimento social é o processo de mudança em papéis e comportamentos que é típico dos anos mais tardios da vida adulta e diz respeito à adequação dos papéis e dos comportamentos dos adultos mais velhos ao que é normalmente esperado para as pessoas nessa faixa etária. (NERI, 2001, p. 67).
À medida que as pessoas vivem mais, a tecnologia avança a passos largos, os meios de comunicação bombardeiam com fatos e dados, as mudanças acontecem rapidamente, as distâncias aumentam a cada dia, a vida é cada vez mais agitada, o tempo cada vez menor e as condições econômicas são mais difíceis, nossa sociedade passa por grandes modificações. Isso tudo exige a introdução de novos conceitos e maneiras diferentes de viver e uma grande flexibilidade e capacidade de adaptação, que o idoso nem sempre tem, o que o leva a ter mais problemas. (ZIMERMAN, 2000).
De acordo com Zimerman (2000), o envelhecimento social da população traz uma modificação no status do velho e no relacionamento dele com outras pessoas em função de:
- Crise de identidade, provocada pela falta de papel social, o que levará
o velho a uma perda de sua auto-estima.
- Mudanças de papéis na família, no trabalho e na sociedade. Com o
aumento de seu tempo de vida, ele deverá se adequar a novos papéis.
- Aposentadoria, já que, hoje, ao aposentar-se, ainda restam à maioria
das pessoas muitos anos de vida; portanto, elas devem estar preparadas para não acabarem isoladas, deprimidas e sem rumo.
- Diminuição dos contatos sociais, que se tornam reduzidos em função
de suas possibilidades, distâncias, vida agitada, falta de tempo, circunstâncias financeiras e a realidade da violência nas ruas.
- Perdas diversas, que vão da condição econômica ao poder de decisão,
à perda de parentes e amigos, da independência e da autonomia.
Scherer; et al (2001), baseados na leitura de alguns autores, tais como Berger (1995), Debert (1992), Levy (1999) e Neri (1995), discorrem sobre as teorias sociais do envelhecimento, a saber:
Teoria da Atividade: Segundo esta teoria, a velhice bem sucedida pressupõe a descoberta de novos papéis ou uma nova organização dos já desempenhados. A velhice é definida como um momento de perda de papéis e trata-se de entender como trata-se dá o ajustamento pessoal à essa situação definida como de
perda e de medir o grau de conformidade e o nível de atividade dos idosos. A Teoria da atividade, desenvolvida por Robert Havighurst, supõe que o auto-conceito é validado pela participação em papéis de meia idade, sendo desejável que os idosos mantenham tantas atividades quanto possível e substituam os papéis antigos por novos, permanecendo ativos e ocupados, encontrando novos papéis que dêem significado para a vida.
Teoria da Desinsersão: A teoria da desinsersão de Cumming e Henry, demonstra que o envelhecimento é acompanhado de uma desinsersão recíproca do indivíduo e da sociedade. Em outros termos, o indivíduo põe fim de forma gradual, ao seu empenhamento e retira-se da sociedade, sendo que esta oferece-lhe muito menos que anteriormente. Quando a desinsersão é total, o indivíduo atinge um novo equilíbrio, caracterizado pela modificação do seu sistema de valores. Esta teoria tenta justificar a desinsersão, presumindo que o afastamento do meio físico e social durante o envelhecimento, é uma etapa normal do desenvolvimento.
Teoria do Afastamento: Na Teoria do afastamento, apresentada por Hooyman & Kiyak, à medida que o indivíduo envelhece, a preocupação com a vida interior é vista como normal, inevitável e satisfatória, sendo assim, os idosos com a perda de papéis, reagem satisfatoriamente, mostrando que desejam ficar livres das expectativas societárias, de serem competitivos e produtivos. O afastamento é visto como comportamento adaptativo, permitindo aos idosos manterem seu senso de valor e tranqüilidade , enquanto desempenham papéis sociais mais periféricos.
Teoria da Continuidade: A teoria da continuidade demonstra que o envelhecimento é uma parte integrante do ciclo de vida e não um período final, separado das outras fases. O idoso mantém os seus hábitos de vida, suas preferências, experiências e compromissos adquiridos e elaborados durante a sua vida. Deste modo, a conduta de um indivíduo numa determinada situação mantém-se idêntica ao mantém-seu comportamento anterior. Embora exista uma certa descontinuidade ao nível das situações sociais, os hábitos e estilo de vida adquiridos pelo idoso determinam sua adaptação.
Na medida em que mudam as condições sociais, econômicas e políticas que afetam os idosos, novas perspectivas teóricas devem surgir, contudo as teorias já existentes contribuem decisivamente para o entendimento do processo do envelhecimento na perspectiva social. Os aspectos teóricos do envelhecimento
social, tentam explicar as mudanças de interação social que acontecem na vida do indivíduo que envelhece, paralelamente as mudanças sociais.
2.3 AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA
O cerne do conceito de autonomia é a noção e o exercício do autogoverno. O conceito inclui também os seguintes elementos: liberdade individual, privacidade, livre-escolha, autogoverno, auto-regulação e independência moral (...). (NERI, 2001, p. 10).
O aspecto central do conceito de independência é a capacidade funcional que em sua expressão máxima significa poder sobreviver sem ajuda para as atividades instrumentais de vida diária e de autocuidado. (NERI, 2001, p. 10).
Paschoal (1996) menciona a definição de saúde para a Organização Mundial da Saúde como estado de completo bem-estar físico, psíquico e social e não meramente ausência de doença ou enfermidade. Posto isso, significa que um indivíduo, mesmo portador de uma doença, poderá sentir-se saudável, desde que seja capaz de desempenhar funções e atividades, mantendo-se ativo em seu meio, com alguma função social, podendo realizar-se como ser humano e ser feliz, devido a uma boa qualidade de vida. Portanto, entende-se que saúde é a capacidade de um indivíduo ou de um grupo de continuar exercendo funções em seu meio físico e social, contribuindo para a sociedade e interagindo com ela. (PASCHOAL, 1996).
À medida que se envelhece, surgem as doenças crônicas, dentre elas a hipertensão arterial, as artropatias, o diabete, e desenvolvem-se deficiências, como a auditiva e a visual. Assim, se o conceito de saúde fosse apenas ausência de doenças, a partir de determinada idade poucos seriam saudáveis. (PASCHOAL, 1996). E é justamente esse conjunto de cronicidades, prevalentes no envelhecimento, que pode levar à deterioração da habilidade de manter-se independente, pois levam a maior prevalência de incapacidades. Além disso, o próprio processo natural do envelhecimento diminui a capacidade funcional de cada sistema de nosso organismo. É o que Paschoal (1996) denomina de envelhecimento funcional.
Este mesmo autor menciona que se podem observar casos de idosos portadores de doenças crônicas que se olham como também portadores de boa saúde. Isto ocorre pelo fato de possuírem autonomia e poderem executar independente e satisfatoriamente suas atividades do dia-a-dia, continuando suas relações e atividades sociais, e exercitando seus direitos e deveres de cidadãos.
Segundo Paschoal (1996, p. 316), “os idosos têm como parâmetro de saúde uma vida independente, sobre a qual possuam controle, sem a necessidade de serem cuidados”. Se os indivíduos envelhecerem mantendo-se autônomos e independentes, as dificuldades serão mínimas para eles, sua família e a sociedade. Mesmo sabendo que a perda da autonomia e da independência, que segue condições agudas e crônicas, aumenta com o avançar da idade. Portanto, este autor conclui que na velhice, uma vida mais saudável está intimamente ligada à manutenção ou à restauração da autonomia e independência, que constituem bons indicadores de saúde.
Por então se tratarem de indicadores de saúde e de qualidade de vida para a população idosa, torna-se necessário explicitar os conceitos de autonomia e independência respectivamente como: autonomia – capacidade de decisão, de comando; independência – capacidade de realizar algo com seus próprios meios. (PASCHOAL, 1996).
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define autonomia como “faculdade de se governar por si mesmo; direito ou faculdade de se reger por leis próprias; liberdade ou independência moral ou intelectual; propriedade pela qual o homem pretende escolher as leis que regem sua conduta”. Já independência é definida como “estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem, ou do que tem liberdade ou autonomia, de quem procura recorrer só aos seus próprios meios, de quem se basta”. (PASCHOAL, 1996, p. 316).
Entende-se assim uma pessoa autônoma como sendo comandada por ela mesma, que toma decisões e, com isso, consegue construir seu próprio caminho de vida. Enquanto que o independente/dependente só o é em relação a alguma outra coisa, ou seja, a partir da inserção de um segundo neste contexto. Ela pode não ter independência em alguns aspectos, mas manter sua autonomia. Para exemplificar estes conceitos pode-se citar uma senhora que se encontra em uma cadeira de rodas devido à perna quebrada, esta poderá exercer sua autonomia totalmente
decidindo onde quer ir e que roupa quer usar, apesar de não ser totalmente independente.
De acordo com Paschoal (1996, p. 322), “saúde e bem-estar se correlacionam com independência e, principalmente, com autonomia”. Todos os indivíduos querem ser donos de sua própria vida, ter a capacidade de decidir e escolher caminhos, mesmo para atos rotineiros do dia-a-dia, como na escolha da roupa a vestir, ao ponto de sentirem-se infelizes e impotentes caso isto não ocorra.
Quando se avalia a funcionalidade da pessoa idosa é necessário diferenciar desempenho e capacidade funcional (BRASIL, 2006):
• Desempenho avalia o que o idoso realmente faz no seu dia-a-dia.
• Capacidade funcional avalia o potencial que a pessoa idosa tem para realizar a atividade, ou seja, sua capacidade remanescente, que pode ou não ser utilizada.
Um exemplo disso é quando o idoso mora em uma casa que possui escada e não a utiliza porque a família teme que ele caia. Logo, o idoso não desempenha a função de descer e subir escada por limitação da família, mas, esse possui capacidade funcional para executá-la.
Para identificar o grau de independência e conseqüente autonomia de idosos, utiliza-se a avaliação no desempenho das atividades cotidianas ou atividades de vida diária (BRASIL, 2006):
a) Atividades de Vida Diária (AVD) que são as relacionadas ao autocuidado e que, no caso de limitação de desempenho, normalmente requerem a presença de um cuidador para auxiliar a pessoa idosa a desempenhá-las. São elas:
• Alimentar-se • Banhar-se • Vestir-se • Mobilizar-se • Deambular • Ir ao banheiro
b) Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) que são as relacionadas à participação do idoso em seu entorno social e indicam a capacidade de um indivíduo em levar uma vida independente dentro da comunidade. São elas:
• Utilizar meios de transporte • Manipular medicamentos • Realizar compras
• Realizar tarefas domésticas leves e pesadas • Utilizar o telefone
• Preparar refeições
• Cuidar das próprias finanças
A questão da relatividade da dependência e da autonomia é muito relevante no que diz respeito aos velhos. Existem alguns mitos nesse sentido, como o de que na velhice os filhos passam a ser pais dos próprios pais. Isso não é totalmente verdade, o que ocorre é uma inversão de papéis devido à perda da autonomia, do comando, das condições de se determinar, escolher suas leis e objetivos. (ZIMERMAN, 2000, p. 26).
A capacidade de tomar decisões e a de auto-governo podem ser comprometidas por doenças físicas e mentais ou por restrições econômicas e educacionais. Infelizmente, é muito freqüente observar que, na vigência de situações de dependência, a autonomia da pessoa idosa tende a não ser considerada. Parece ser erroneamente aceitável que, uma vez que ele não é parcial ou totalmente capaz de executar uma ação (em termos físicos), ele também não é capaz de decidir sobre a mesma. Tal observação ocorre tanto no contexto familiar como no institucional. A condição de dependência é a que mais amedronta os idosos. A principal conseqüência da associação entre velhice e dependência é o desenvolvimento de atitudes negativas em relação às pessoas idosas.
2.4 A PSICOLOGIA HOSPITALAR
Diversos autores afirmam que, no presente momento, a psicologia vem se firmando no contexto hospitalar como sendo de grande importância em todas as situações relacionadas à saúde do ser humano, atuando tanto na prevenção como
no tratamento. Porém, a atuação do psicólogo no contexto hospitalar ainda é algo que ocorre com pouca freqüência, são poucas as instituições que valorizam o trabalho psicológico mesmo sabendo das necessidades existentes e que podem ser resolvidas com a ajuda deste profissional. Percebe-se que ainda há uma resistência em sua contratação, embora essa situação já tenha obtido alguns progressos onde o psicólogo vem aos poucos ganhando seu espaço neste campo de atuação.
Segundo Camon (2003), um dos objetivos do psicólogo no hospital é tentar minimizar o sofrimento do paciente causado pela hospitalização. O trabalho é focado no sofrimento e nas repercussões que o adoecimento e a hospitalização estão causando, associado a outros fatores como história de vida, a forma como ele assimila a doença e sua personalidade. Trata-se de inúmeras variáveis que deverão ser levadas em conta ao longo do atendimento.
O mesmo autor afirma também que o psicólogo precisa ter muito claro que a sua atuação no contexto hospitalar não é psicoterápica dentro dos moldes do chamado setting terapêutico. Isto é, um lugar adequado para a realização da psicoterapia. Nos casos de atendimentos realizados em enfermarias, o atendimento do psicólogo, muitas vezes, é interrompido pela equipe de saúde para a realização de procedimentos, seja para aplicação de injeções ou para processo de limpeza. Sendo assim, na psicologia hospitalar o profissional se depara com situações onde na maioria das vezes não tem a privacidade necessária, portanto terá que levar em conta todas as variáveis que poderão surgir durante o atendimento.
No hospital, ao contrário do paciente que procura pela psicoterapia, a pessoa hospitalizada será abordada pelo psicólogo em seu próprio leito. E, em muitos casos, sem que o paciente tenha claro qual o papel do psicólogo neste momento e até mesmo em sua vida. Dessa forma, Camon (2003) remete à importância de o psicólogo ter bem claros os limites de sua atuação para ele também não se tornar mais um dos elementos invasivos que agridem o paciente durante a hospitalização. Ainda que o psicólogo perceba que o paciente esteja necessitando muito de intervenção neste momento, deve-se respeitar a opção dele em receber ou não atendimento, demonstrando respeito à condição humana.
Ainda sobre os objetivos da psicologia hospitalar, Camon (2003) pontua que a família do paciente e a equipe de saúde também necessitam de assistência psicológica. Aos familiares por encontrarem-se fragilizados, deprimidos, ansiosos e muitas vezes negam a doença, dificultando o processo de recuperação do membro
da família que está hospitalizado; e à equipe de saúde, por estar em contato permanente com situações limítrofes que envolvem a doença e até a morte, elevando o nível de ansiedade e estresse que acabam por dificultar a relação médico-paciente e família. Diante disso, o psicólogo tornou-se, em seu caminho de construção na área hospitalar, um mediador na relação do profissional de saúde, do paciente e da família.
Diante deste cenário, o psicólogo inserido na equipe multidisciplinar é de suma importância para tranqüilizar o paciente e a família, além de avaliar e cuidar do paciente sob todos os aspectos, promovendo um atendimento que pretende cuidar do paciente como um ser total. (ISMAEL, 2006). Mas, não basta somente existir a equipe multiprofissional se a equipe não interagir em benefício do paciente, é preciso que haja troca de informações, promovendo uma atitude colaborativa e complementar.
Contudo, mesmo diante da necessidade que está sendo constatada nos hospitais da inclusão do psicólogo na equipe de saúde, do alívio que este profissional proporciona aos pacientes hospitalizados minimizando seu sofrimento, a formação acadêmica ainda é falha em relação aos subsídios teóricos que possam embasá-lo nesta prática. (CAMON, 2004).
E o psicólogo percebe no contexto hospitalar que os ensinamentos e leituras teóricas de sua prática acadêmica não serão, por maiores que sejam as horas de estudo e reflexão sobre a temática, suficientes para embasar sua atuação. Descobre que terá de aprender com os pacientes por sua dor, angústia e realidade. O paciente, de modo peculiar, ensina ao psicólogo sobre a doença e sobre como lidar com a própria dor diante do sofrimento. O hospital recebe o psicólogo e permite que em seus cantos a psicologia descubra a dimensão real da dor humana. E assim é: a psicologia no contexto hospitalar tem uma de suas performances mais humanas e verdadeiras. (CAMON, 2004, p. 4).
2.4.1 Idoso Hospitalizado
Quando o homem atingir sua plena força, será capaz de construir uma ponte entre seus ideais e a verdadeira vida. Mas um dia sente que sua força é limitada. Muitas coisas já não andam bem. O cansaço começa. A vida perde alguma coisa de sua novidade; sabe-se, enfim, que é um trabalho e uma luta. Tudo é caracterizado como “conhecido” de antemão. (ALBERTO, 2002, p. 129).
A evolução da medicina vem contribuindo com a melhoria da qualidade de vida do ser humano. Mas, como menciona Alberto (2002), esta evolução provocou uma situação aterrorizante, pois as entidades responsáveis por tal evolução viram-na sob apeviram-nas um prisma e não desenvolveram uma estruturação suficiente para lidar com o aparecimento de uma nova população, que até algumas décadas não era significativa, e hoje tampouco é considerada no nível de ser tratada com dignidade e respeito, população esta que se refere aos indivíduos que, orgulhosamente, ultrapassaram a faixa etária dos 60 anos. Esta situação traz consigo um questionamento se existirá estrutura e profissionais suficientes e adequadamente preparados para lidar com estas pessoas.
O indivíduo que atinge o estágio de envelhecimento estaria, implicitamente, sendo visto como um ser enfermo, doente, limitado, não bastando a condição da própria existência enquanto idoso, caracterizado como um esteriótipo de “enfermo”; no momento em que o homem passa a ser denominado idoso, o seu prognóstico estará fechado sem possibilidades de retorno a uma vida produtiva e com capacidade de amar. (ALBERTO, 2002). Por este motivo utilizar-se-á o termo idoso hospitalizado e não idoso enfermo.
Para os idosos hospitalizados, que sabem que a doença vai perdurar por longo tempo ou talvez para sempre, Alberto (2002) menciona quatro conflitos possíveis de ser encontrados: o conflito consigo mesmo, com o seu ambiente, com o seu leito e como seu corpo.
O conflito consigo mesmo: “Toda sua existência, toda sua vida se perdem. O começo de toda doença grave é como um “alto”, não se aceita nunca como algo irremediável, mas como uma situação de perigo” (ALBERTO, 2002, p. 139). É como se o idoso hospitalizado entrasse num outro mundo que o faz perceber tudo aquilo que já não existe para ele, a saúde, as pequenas coisas que o rodeiam, e isso o surpreende permanecendo neste estado durante todo o período de doença.
O conflito com seu ambiente: “Este conflito é causado, sobretudo pelas pessoas sãs que o visitam”. (ALBERTO, 2002, p. 139). Mesmo se para o doente a doença permanece sempre como um mistério, a pessoa sã logo o convence de sua situação, tirando-o da existência cotidiana, fazendo com que o tome como um fato consumado.
O conflito com o leito: para a pessoa sã o leito pode parecer um lugar de repouso para o doente, mas para o idoso hospitalizado o leito terá sempre o cheiro de cânfora dos medicamentos, que o associa à doença, ao hospital, etc.
O conflito com o seu corpo: o idoso hospitalizado, diferente da pessoa sã, percebe seu corpo frágil, inerte em seu leito. Não o vê mais como um “meio” e sim um “objeto”, aprisionado à doença.
O idoso no momento da sua internação muitas vezes já se encontra podado e castrado, pois uma vez banido da sociedade pelo seu sofrimento e pela constante rejeição sofrida de sua família quando adentra a um hospital para se submeter a qualquer tratamento, provavelmente não sofrerá demasiadamente com mais este sofrimento, pois vem vivenciando um processo de perdas constantes da sua cidadania, da sua personalidade, dos seus papéis na sociedade (ALBERTO, 2002).
Em cada fase, em cada área de nossa vida, sempre há um saldo a ser realizado e resgatado. As perdas não precisam significar resignação e o fim das perspectivas de vida. Mesmo perdendo, podemos ganhar através de atitudes positivas e de amor à vida. Se perdermos de um lado, podemos ganhar de outro, renovando sempre os compromissos de vida. (ALBERTO, 2002, p. 197).
Este resgate a que o autor se refere não significa negar a doença e o sofrimento do idoso, mas sim propiciar possibilidades de uma visão positiva do adoecimento e suas limitações, e enfatizar a alegria e os momentos de felicidade que o idoso pode conseguir por ser um paciente sem urgência, porém com memória e sentimento.
Assim sendo, o autor Alberto (2002) ratifica a postura dentro de um hospital numa linha multiprofissional e interdisciplinar, dentro de uma visão biopsicossocial, objetivando o bem-estar do indivíduo, proporcionando uma vida saudável, numa tentativa de amenizar o sofrimento do idoso inserido no contexto hospitalar. Se cada profissional seja ele médico, psicólogo, fisioterapeuta, enfermeiro, etc., que estiver imbuído na missão de ser um “cuidador” do idoso “enfermo” desenvolver seu trabalho pensando em equipe, voltado à saúde do paciente idoso, sem dúvida, a evolução de “cura” será mais rápida e bem mais positiva.
Alberto (2002) salienta ainda que o profissional de saúde que se propõe a desenvolver um trabalho com pessoas idosas em instituições hospitalares, ele encontrará alguns obstáculos para a prática dos seus conhecimentos clínicos. O primeiro e principal obstáculo é a sua própria sensação de impotência, o quão ele pode oferecer para a “cura” do idoso internado. O segundo são situações adversas às práticas desenvolvidas por profissionais da equipe que se propõem lidar com o idoso, tais como a rejeição pela pessoa idosa e pelo seu trato como “doente”, a incapacidade e má vontade de acompanhar o dia-a-dia do idoso “enfermo” e também a indução de vê-lo como dependente e incapaz de lidar com as suas enfermidades e limitações, propiciando um recrudecimento do processo psicológico já instalado no momento da internação. Ainda assim, é possível encontrar maneiras de fazer com que o idoso não-sadio aprenda a lidar com as suas limitações, com a sua doença, com as suas perdas, propiciando possibilidades de amenizar o seu sofrimento enquanto estiver sendo tratado como “hóspede especial”.
“Um conhecimento aprofundado não é suficiente e saber não é conhecer. É preciso ter cautela na aplicação desse conhecimento e primeiramente ter em mente que se é um profissional de saúde”. (ALBERTO, 2002, p. 163).
2.5 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
As situações estressoras evocam uma série de respostas que, Zakir (2003) classifica em dois tipos: stress, propriamente, e coping. O stress é caracterizado por respostas que surgem de forma espontânea em uma situação estressora, ou seja, respostas involuntárias. O coping é caracterizado pelas respostas evocadas por estes mesmos estímulos, mas mantidas por suas conseqüências, relacionadas tanto a mudanças no ambiente externo quanto a efeitos sob condições adversivas internas do organismo. (ZAKIR, 2003).
Os mecanismos de coping são processados mediante a mobilização de recursos naturais do indivíduo, com o objetivo de administrar situações estressoras. (ZAKIR, 2003). Segundo esta mesma autora, o coping consiste na interação entre o organismo e o ambiente, onde é lançado mão de um conjunto de estratégias
destinadas a promover a adaptação a estas situações estressantes. Ou seja, qualquer empenho em se lidar com o estressor é uma resposta de coping.
Traduzindo a palavra coping em português significa “enfrentamento”. O conceito desta gira em torno dos acontecimentos que ocorrem ao longo da vida das pessoas referentes a perdas, dificuldades, fatos inesperados, tragédias que os indivíduos precisam enfrentar e ao mesmo tempo ajustar-se ao impacto causado por estes. (ZAKIR, 2003). O foco, neste caso, é o que a pessoa faz ou pensa e não o que faria, e as estratégias estão inseridas em um contexto não podendo ser generalizadas.
De acordo com a autora citada acima, há dois principais tipos de estratégias ou funções do coping: o centrado no problema e o centrado na emoção. O primeiro dirige-se a situações mutáveis, enquanto que o segundo a situações imutáveis. A autora explica que, neste contexto, enquanto as respostas de stress são conceituadas como respostas emocionais espontâneas, as respostas do coping são tidas como produto do efeito que produzem sobre as fontes estressoras ou sobre o mal-estar resultante do contato com elas.
Ainda de acordo com a mesma autora, um indivíduo pode evitar tanto sentimentos aversivos quanto privar-se da responsabilidade de tarefas desagradáveis. A ingestão ou abuso de álcool pode ser considerada uma resposta de coping como forma de reduzir a própria tensão, visando regular emoções em determinada situação estressante. Este é um exemplo de estratégia de coping centrada na emoção, conforme explica Zakir (2003, p. 94):
O coping centrado na emoção representa esforços no sentido de regular o estado emocional em episódios estressantes, quando se é exposto aos
estressores ou quando se responde a eles em elevada magnitude. Objetiva
modificar condições emocionais momentâneas por meio de medidas que atingem a área somática, como tomar um tranqüilizante, ou de efeito emocional, como entregar-se a fantasias. Em ambos os casos pode haver redução da tensão, do “estado de stress”.
Os casos onde são empregados esforços no sentido de mudar a situação que deu origem ao mal-estar, de solucionar o problema, mudar a relação do indivíduo com o ambiente, de modo a se modificar as contingências responsáveis pela tensão, segundo Zakir (2003) caracterizam o coping centrado no problema.
As pessoas percebem de maneira diferente uma situação estressora, ao mesmo tempo que pode ser tida como controlável por algumas, pode também ser