Desigualdades, dores e prazeres na escrita urbana: algumas notas sobre “pich[x]ações" em São Paulo e Rio de Janeiro
Giovana Zimermann (FMU FIAM FAAM/SP) Fernando Pinho (IPPUR/UFRJ)
Tendo em vista o tema proposto pelo XXIV Encontro Regional da ANPUH-São Paulo, que resultou em uma convocatória para falarmos sobre história e democracia, buscamos promover uma breve reflexão sobre os vínculos entre as linguagens de resistência política, frente às desigualdades, por meio das imagens, das escritas no corpo da cidade. De modo mais particular, nosso trabalho orienta-se pela análise dos sentidos de desigualdades, dores e prazeres em duas grandes cidades brasileiras, a saber: São Paulo e Rio de Janeiro. Como pontos de materialização de tais sentidos, tomamos as escritas transgressoras (pichação/pixação1, estêncil e grafitti), que se apropriam do corpo urbano, resinificando os espaços públicos.
As relações entre a dor e o prazer no viver urbano, por sua vez, apontariam não só para o presente de nossas cidades, mas também para sua história. Algumas escritas urbanas podem ser consideradas ações visuais de resistência política visual no espaço público, podendo produzir uma crítica ativista, uma reivindicação, embora marginal e simbólica. Afinal, a rua é um espaço de comunicação, um palco para o exercício da política e do poder. Desse modo, ocupar a rua é exercer um “campo de poder”, expressão cunhada por Pierre Bourdieu (2007) – e que demonstra que essas ações artístico-políticas sempre tiveram raiz nas revoluções sociais.
O picho (com ch) é uma terminologia brasileira para o ato de escrever nas paredes como forma de rebeldia. Contudo, essa é uma ação muito antiga, que reaparece em diversos momentos da história. Na década de 70, por exemplo, os jovens do Bronx, bairro de Nova Iorque (EUA), eram conhecidos como writers (escritores); costumavam escrever seus próprios nomes – as "tags", ou chamar a atenção para problemas do governo ou para
1 “São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul, deu origem a uma forma única de expressão. Não é grafite, é pixo” - como destaca o filme "Pixo", 2009, de João Wainer e Roberto T. Oliveira.
questões sociais. O pixo (escrito com x) é uma escrita enigmática, genuinamente paulistana; também é contrário à estetização das cidades; e sua presença agressiva representa a oportunidade para a (re) territorialização, na tomada transgressora do espaço público.
O material analisado neste ensaio é composto de um arquivo fotográfico, cuja montagem se deu de forma espontânea e como consequência de nossas observações cotidianas. Empreendemos um recorte mais específico e selecionamos alguns registros que, em nosso entendimento, dizem respeito a alguns dos possíveis sentidos sobre a desigualdade, a dor e o prazer no viver urbano.
O arquivo a que se refere este ensaio fotográfico é composto por discursos que tematizam a questão da desigualdade em São Paulo e no Rio de Janeiro, e que se encontram materializados em muros e paredes dessas duas cidades. Todavia, não se tratam de quaisquer enunciados, mas, sim, daqueles que têm, na ilegalidade e na rebeldia, a sua maior marca.
Nesta experiência, é possível identificar um diálogo das linguagens que se entrecruzam na apropriação do espaço público para nele imprimir as dores, os prazeres, as perguntas, e as respostas. A tática dos autores é jogar com a visualidade, especialmente naqueles lugares quase intransponíveis, para a manifestação ou revelação do que não é permitido, mas é atingido. A constatação legal: “pixação é crime Art. 65 da Lei (9.605/98)”. A pergunta: “Corrupção ativa, enquadra-se em qual artigo?” e a resposta: “Doria pixo é arte”. A adoção de tática está associada ao pensamento de Michel de Certeau, que assim a diferencia de estratégia:
[...] em oposição às “estratégias” – que visam produzir, mapear e impor – as “táticas” originam diferentes maneiras de fazer. Resultam das astúcias dos consumidores e de suas capacidades inventivas, possibilitando aos atores escaparem às empresas de controle e tomarem parte no jogo em questão (CERTEAU, 1994, p. 46).
Essas táticas de resistência e ativismo político têm funcionado como um desabafo, principalmente nas comunidades juvenis das periferias das grandes cidades, lá, onde a vida diária é organizada sob vigilância constante, e a população vive entre a “cruz e a espada” - por um lado, o exercício da violência contra o cidadão, por parte da segurança pública, motivada na repressão e no controle social; por outro lado, a violência exercida
pelo poder paralelo -, conforme a frase pichada na periferia do Rio de Janeiro, e que funciona como um chamado verossímil a uma ordem para orientar o comportamento coletivo: “Atenção moradores, em dias de guerra evitem sair de suas casas... Grato: CV”. Nessa perspectiva, podemos considerar que as relações de poder inserem-se em todos os lugares, em todos os micropoderes, expressão cunhada por Michel Foucault, que pressupõe a formação da resistência a todo exercício de poder. Nessa medida, é preciso considerar que:
[...] a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa (FOUCAULT, 1985, p. 241).
A resistência é dada como um processo de produção e transformação do sujeito, isto é, em suas ações. É assim, por meio dos conceitos-chave de sujeito, discurso e ideologia, que a escrita urbana, entrelaça o indivíduo com a cidade.
Cabe, portanto, fazer breves considerações sobre essas categorias, segundo o quadro da Análise do Discurso de orientação francesa (AD), que nos situamos. A orientação teórica da AD defende que a linguagem possui uma relação com a exterioridade, esta entendida não como algo fora da linguagem, mas como condições de produção do discurso, que intervêm, materialmente, na textualidade, como interdiscurso, isto é, como uma memória do dizer, que abrange o universo do que é dito. A AD, estruturada por Michel Pêcheux, é atravessadas pelas teorias de Michel Foucault, e pela releitura psicanalítica que Lacan faz dos estudos de Freud. Isso tudo, sem esquecer a preocupação com a análise dos discursos cotidianos e da prática ordinária dos indivíduos, realizada por Michel de Certeau.
O sujeito
No âmbito da AD, o sujeito é resultante da relação com o sócio-ideológico; o sujeito não é a fonte absoluta do significado, do sentido; ele se constitui no entrelaçamento com as falas de outros sujeitos, portanto seu discurso é heterogêneo.
O discurso
No âmbito da AD, o discurso refere-se à palavra em movimento, a uma prática social. O discurso é uma prática, uma prática de linguagem. Não é a mesma coisa que língua, fala ou texto, embora seja na materialidade da língua que o discurso existe. O discurso também não é transmissão de informações e nem mensagem transmitida.
O arquivo
Em linhas gerais, o arquivo pode ser entendido como um campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma dada questão. Do ponto de vista discursivo, o arquivo não se refere aos materiais físicos, nem como um conjunto de dados objetivos, mas, sim, como um conjunto de dizeres onde o político (como exercício das relações de poder) se inscreve. Tal inscrição das relações de poder se dá, porque o arquivo é constituído por operações de seleção, recorte e de ordenação que precedem a sua disposição ao sujeito-leitor. O arquivo pode ser considerado, ainda, como o lugar discursivo onde seria possível acompanhar as práticas discursivas realizadas em determinadas culturas.
A cidade
Para a AD, a cidade é entendida como um espaço particular de interpretação: um espaço onde os sujeitos se interpretam e interpretam a cidade, a qual, por sua vez, impõe determinados gestos de interpretação. É um espaço simbólico e histórico: a cidade é um espaço de sujeitos e de significantes. É na e pela cidade que se constitui o discurso urbano.
A linguagem, ao ganhar o corpo urbano, [re]territorializa e [re]configura a história, suscitando novos significados para o que está instituído, questionando: os mecanismos hegemônicos; a invisibilidade da violência nas periferias; a padronização dos comportamentos; e constrói novas narrativas, contrapondo-se aos meios dominantes de comunicação.
O que pretendemos destacar neste ensaio fotográfico é a resistência visual que funciona no nível do imaginário do produtor, mas que, ao atingir o espaço público, produz
gatilhos de enfrentamento, de rebeldia e insubordinação e que, desse modo, estabelece relações com o caráter político na construção das visualidades urbanas.
Referências Bibliográficas
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. FOUCAULT, M. A Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro (RJ): Graal, 1985.
GUERRA, V. M. L. Uma reflexão sobre alguns conceitos da análise do discurso de linha francesa. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de E. P. Orlandi et alii.Campinas: UNICAMP, 1988.