FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS MESTRADO EXECUTIVO EM GESTÃO EMPRESARIAL
AS CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR NACIONAL:
O PERFIL COMPORTAMENTAL DE SUCESSO
Dissertação apresentada à Escola Brasileira de Administração
Pública e de Empresas para obtenção do grau de Mestre
EDUARDO PITOMBO MESQUITA Rio de Janeiro - 2016
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS
EDUARDO PITOMBO MESQUITA
AS CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR NACIONAL:
O PERFIL COMPORTAMENTAL DE SUCESSO
Dissertação apresentada ao programa de Mestrado Profissional Executivo em Gestão Empresarial da Escola de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Gestão Empresarial.
Orientador: Prof. Dr. Marco Tulio Zanini
Rio de Janeiro 2016
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV
Mesquita, Eduardo Pitombo
As características do empreendedor nacional: o perfil comportamental de sucesso / Eduardo Pitombo Mesquita. – 2016.
114 f.
Dissertação (mestrado) - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa.
Orientador: Marco Túlio Zanini. Inclui bibliografia.
1.Empreendedorismo. 2. SEBRAE. 3. Sucesso. 4. Comportamento. I. Zanini, Marco Túlio Fundão. II. Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas. Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa. III. Título.
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho para minha família, especialmente a meus pais, meu irmão e minha esposa.
Dedico também a todos que empreendem, correm riscos, geram valor na sociedade e ajudam a construir o futuro desta nação.
AGRADECIMENTOS
Agradeço em especial aos meus pais, Marcos Mesquita e Gilda Mesquita, pela dedicação, apoio e incentivo ao longo da minha vida. Foram eles os principais responsáveis pela minha educação e formação moral.
A todas as pessoas que trabalharam comigo em alguma empresa ou projeto e fizeram parte da minha trajetória profissional.
Aos professores e colegas da turma MEX 2015, pela intensa troca de experiências, pelo convívio e coleguismo ao longo destes 2 anos.
Ao meu orientador, Prof. Marco Tulio Zanini, por estar presente nos momentos-chave do trabalho.
Agradeço também ao Diego de Faveri Pereira Lima, pela contribuição fundamental para o desenvolvimento e finalização desta pesquisa. Assim como a Aline Felix Gouveia, sempre solicita e competente na organização das atividades e demandas.
À família e amigos pela paciência e compreensão nos momentos difíceis desta trajetória. À companheira Noele Rimes O’Reilly Torres pelo apoio incondicional ao longo deste processo. Agradeço a Deus pela saúde física e mental, pela oportunidade de conseguir me desenvolver um pouco mais e manter a saúde para vencer o cansaço físico nos dias mais difíceis.
Enfim, agradeço a todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente nesta jornada e que influenciaram minha vida durante estes dois anos.
O empreendedorismo é uma revolução silenciosa, que será para o século XXI mais do que a Revolução Industrial foi para o século XX.
RESUMO
Este trabalho tem o intuito de observar as relações entre as características do comportamento empreendedor (CCEs) e o perfil de sucesso. Mais especificamente, ele traz à luz as teorias de David McClelland, adotadas pelo Sebrae através da metodologia do programa Empretec. O estudo traz em sua metodologia uma análise das dimensões culturais observadas por Hofstede, uma análise comportamental, e define quatro indicadores de sucesso para mensurar esta relação. A metodologia aplicada foi baseada em pesquisa bibliográfica, em pesquisa de campo e dividida entre aplicação de questionários online e em métodos quantitativos de análise de dados. Com o resultado de campo, pode-se observar uma relação direta entre algumas características comportamentais e os indicadores que caracterizam um perfil de sucesso empreendedor. As principais características correlacionadas ao menos com um indicador de sucesso foram: Exigência por qualidade e eficiência, Busca por oportunidades e iniciativa, Planejamento e Monitoramento Sistemático e Independência e autoconfiança. Além destas relações, a hipótese de haver mais empreendedores por oportunidade do que por necessidade foi validada, confirmando o potencial do empreendedorismo nacional.
Palavras-chave: Empreendedorismo; CCE; Sebrae; McClelland; Sucesso; Comportamento; Motivação, GEM.
ABSTRACT
This work has the goal of observing the relationship between the characteristics of entrepreneurial behavior and the successful profile. Specifically, it focuses on the theories of David McClelland as adopted by Sebrae through the methodology of its Empretec program. Its methodology includes an analysis of cultural dimensions, by Hofstede, analysis of behavior from entrepreneurs and four indicators of successful profile. The methodology was based on literature review, field research, Split between online questionnaires and qualitative methods of data analysis. In the results, we observe a direct relationship between some of the characteristics of entrepreneurial behavior and at least one indicator, which were: Search for opportunities and initiative, requirements of quality and efficiency, planning and monitoring and Independence and self-reliance. In addition, one hypothesis was that in Brazil we have more entrepreneurs motivated by opportunity than by necessity, which was confirmed and validated the entrepreneurial potential of Brazilians.
Keywords: Entrepreneurship; Sebrae; McClelland; Success; Behavior; Motivation; Global Entrepreneurship Monitor.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Modelo descritivo da Relação entre a Cultura Nacional e a Atividade
Empreendedora (AE) e Influência de outros fatores com impacto na AE ... 28
Figura 2: Eras do pensamento empreendedor... 29
Figura 3: Características do Comportamento Empreendedor (CCEs) ... 44
Figura 4: O processo empreendedor segundo definições adotadas pelo GEM 2014 ... 55
Figura 5: Modelo de hipótese 1...77
Figura 6: Modelo das hipóteses 2 e 3: constructos e seus respectivos indicadores...77
LISTA DE TABELAS Tabela 1: Estatística descritiva da amostra coletada ... 75
Tabela 2: Estatística descritiva das variáveis utilizadas nas hipóteses ... 76
Tabela 3: Análise descritiva do conjunto de CCEs ... 77
Tabela 4: Combined Loadings and Cross Loadings – Mensuração inicial ... 78
Tabela 5: Combined Loadings and Cross Loadings – Mensuração final ... 81
Tabela 6: Matriz de correlação das variáveis latentes ... 82
Tabela 7: Coeficientes das variáveis latentes ... 82
Tabela 8: Resultado estimado para testar a hipótese H2 ... 83
Tabela 9: Resultado estimado para testar a hipótese H2_a ... 84
Tabela 10: Resultado estimado para testar a hipótese H3 ... 85
Tabela 11: Resultado estimado para testar a hipótese H3_a ... 86
LISTA DE QUADROS Quadro 1: As diferentes abordagens do empreendedorismo ... 12
Quadro 2: Definições da Cultura mais referenciadas ... 21
Quadro 3: Diferenças fundamentais entre sociedades de baixa e alta distância de poder. ... 23
Quadro 4: Diferenças essenciais entre sociedades individualistas e coletivistas. ... 24
Quadro 5: Diferenças-chave entre sociedades masculinas e femininas. ... 25
Quadro 7: Diferentes abordagens sobre empreendedores ... 32
Quadro 8: Comparativo Empreendedores x Empreendedoras ... 38
Quadro 9: Habilidades necessárias dos empreendedores ... 38
Quadro 10: Fatores motivacionais - multidimensional... 50
Quadro 11: Comparação das dimensões culturais do Brasil e dos Estados Unidos ... 53
Quadro 12: Evolução das taxas de motivação ao empreendedorismo... 55
Quadro 14: Evolução das taxas de empreendedorismo ... 57
Quadro 15: Distribuição de canais para coleta de dados ... 62
Quadro 16: Coleta de dados no Facebook e LinkedIn... 63
Quadro 17: Indicadores de Fator Motivacional ... 64
Quadro 18: Indicadores de Tamanho de empresa ... 64
Quadro 19: Indicadores do perfil do empreendimento ... 65
Quadro 20: Indicadores dos Conjuntos de Habilidades... 66
Quadro 21: Indicadores das CCE - Busca de oportunidades e iniciativa ... 67
Quadro 22: Indicadores das CCE - Persistência ... 67
Quadro 23: Indicadores das CCE – Comprometimento ... 68
Quadro 24: Indicadores das CCE – Exigência de qualidade e eficiência ... 69
Quadro 25: Indicadores das CCE – Correr riscos calculados ... 69
Quadro 26: Indicadores das CCE – Estabelecimento de metas ... 70
Quadro 27: Indicadores das CCE - Busca de informações ... 70
Quadro 28: Indicadores das CCE – Planejamento e Monitoramento ... 71
Quadro 29: Indicadores das CCE – Persuasão e rede de contatos... 72
LISTA DE SIGLAS
ABIMAQ AE
Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos Atividade Empreendedora
ASDIN Associação de Indústrias do Distrito Industrial da Fazenda Botafogo BRICS
BNDES
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul Banco Nacional do Desenvolvimento
CCEs Características do Comportamento Empreendedor
PDI Distância de Poder (Power distance index)
EGEPE Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas
EnANPAD Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa e Administração
FGV Fundação Getúlio Vargas
GEM Global Monitor Entrepreneurship
GERA Global Entrepreneurship Research Association
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBQP Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade
IDHM Índice de Desenvolvimento Humano mundial
IDV Invidualismo versus Coletivismo (Individualism versus Collectivism)
MAS Masculinidade versus Feminilidade (Masculinity versus Feminity)
MPE Micro e Pequenas empresas
ONG Organização não governamental
ONU PDI
Organização das Nações Unidas
Distância de Poder (Power Distance Index) PLS
PIB
Partial Least Squares
Produto Interno Bruto
PITCE Política Industrial, Tecnologia e de Comércio Exterior
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas empresas
TEA Taxa de empreendedores iniciais (Total Early-stage entrepreneurship activity) TECPAR Instituto de Tecnologia do Paraná
TEE Taxa de empreendedores estabelecidos
TTE Taxa Total de Empreendedores
UAI Aversão à incerteza (Uncertainty avoidance index)
SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ...11 2. ESTRUTURA DA PESQUISA ...16 2.1 Tema ... 16 2.2 Contextualização do problema ... 16 2.3 Objetivos ... 17 2.4 Delimitação do estudo ... 18 2.5 Relevância do estudo ... 18
3. REFERENCIAL TEÓRICO E HIPÓTESES DE PESQUISA ...19
3.1 Cultura Nacional ... 20
3.1.1 Contextualização e conceitos ... 20
3.1.2 Dimensões de Cultura Nacional ... 21
3.1.3 Cultura Nacional e empreendedorismo ... 27
3.2 Empreendedorismo ... 28
3.2.1 História e conceitos ... 29
3.2.2 O Empreendedor... 35
3.2.3 Sucesso no empreendedorismo ... 40
3.2.4 Comportamento Empreendedor ... 43
3.2.5 Motivação para empreender ... 47
3.3 Empreendedorismo no Brasil ... 50
3.3.1 Contexto Nacional ... 51
3.3.2 Empretec ... 53
3.3.3 Global Entrepreneurship Monitor – Brasil ... 54
3.4 Hipóteses ... 57 4. METÓDO DE PESQUISA ...59 4.1 Tipo de Pesquisa ... 60 4.2 Estratégia da Pesquisa ... 60 4.4 Coleta de Dados ... 60 4.4.1 Procedimento ... 60 4.5 Instrumento de medidas ... 63 4.6 Modelos de mensuração ... 73 5. RESULTADOS ...75
5.1 Estatística descritiva da amostra ... 75
5.2 Mensuração dos constructos ... 77
5.3 Análise dos resultados ... 83
5.2 Discussão dos resultados ... 88
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...95
6.1 Implicações Gerenciais e Acadêmicas ... 95
6.2 Limitações da pesquisa ... 96
6.3 Recomendações para Trabalhos Futuros ... 97
1. INTRODUÇÃO
A questão do empreendedorismo tem atraído a atenção de pesquisadores e estudiosos de diversos setores. Pode-se atribuir sua importância direta aos potenciais benefícios que ele gera em diferentes esferas. Apesar disso, ainda há bastante espaço para a produção acadêmica e contribuições importantes de estudo neste campo, principalmente no Brasil e em países em desenvolvimento.
Alinhado com esta tendência, o estudo sobre o conceito de empreendedorismo é cada vez mais comum no campo da Administração de Empresas, de modo que sua docência ganha cada vez mais relevância e destaque em diversas áreas do conhecimento.
Por ter origem em diferentes linhas de pesquisa, existem muitas definições para o conceito de “empreendedorismo”. De forma geral, o termo pode ser definido como o processo pelo qual indivíduos iniciam e desenvolvem novos negócios (LOW; MACMILLAN, 1988).
Sobre a definição do conceito, Gartner (1990), em sua revisão bibliográfica, encontrou os principais termos associados a esse tema: inovação, fundação de uma organização, criação de valor, lucratividade, crescimento econômico, singularidade e, principalmente, a figura do empreendedor.
Segundo Zarpellon (2010, p. 52), “as mais diversas sociedades têm demonstrado grande interesse no processo de geração de emprego e renda, através da criação de empresas e no processo de desenvolvimento econômico e social”.
Julien (2010) descreve o pensamento sobre o empreendedorismo se apoiando nas seguintes abordagens: antropológica; psicológica; sociológica; geográfica; econômica e administração. O quadro 1 demonstra as visões das áreas versus as abordagens:
Quadro 1: As diferentes abordagens do empreendedorismo Fonte: Adaptado pelo autor de Julien, 2010, p. 26
Diante deste contexto, é importante demonstrar as visões multidisciplinares das raízes epistemológicas da compreensão deste fenômeno, o que possibilita observar uma sólida base teórica sobre o assunto.
Em 1999, surge o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o maior estudo sobre o empreendedorismo no mundo, que tem como objetivo mensurar a atividade empreendedora dos países e observar seu relacionamento com o crescimento econômico (GEM, 2014; IBQP, 2016).
Dentre os indicadores, uma das taxas principais é a Taxa Total de Empreendedores (TTE), que representa a soma dos empreendedores iniciais (TEA) e estabelecidos (TEE).
O GEM (2013) apresenta fatos que demonstram a relevância do empreendedorismo para um país, principalmente com baixo PIB e altas taxas de desemprego. Segundo o GEM (2013), as principais características do grupo de renda média, da qual o Brasil faz parte, são:
Maior número de pessoas iniciando novo negócio;
Maior número de start-ups propensas a não sobreviverem;
Maior incidência do driver necessidade (nos países desenvolvidos, o driver oportunidade é o que mais incide);
Alto potencial inovador e de crescimento da atividade empreendedora;
Maiores taxas de falência.
Os empreendedores que abrem o próprio negócio pelo driver “necessidade” são aqueles que não possuem opções de trabalho: desempregados, para continuar com o sustento
próprio e da família, eles se aventuram em abrir um negócio próprio, na maioria das vezes sem nenhum planejamento.
Em contrapartida, o driver “oportunidade” é apresentado mesmo quando possuem outras opções de emprego: estes empreendedores optam por iniciar um novo negócio, sabem onde querem chegar, fazem um planejamento prévio, têm em mente o que querem buscar para a empresa e visam à geração de lucros, empregos e riquezas.
O empreendedorismo no Brasil como uma área de pesquisa começou a se desenvolver a partir do início desse século. O primeiro encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (EGEPE) foi realizado no ano 2000. Em 2003, o empreendedorismo foi apresentado como uma subárea do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa e Administração (EnANPAD).
Entender esse fenômeno vem sendo objetivo de pesquisa de diversos autores brasileiros, como Dolabela (2003), Domelas (2008), Souza (2010), Gimenez et al. (2008), Rosa (2013), dentre outros.
Segundo Dolabela (2008), ao mesmo tempo em que o empreendedorismo funciona como fator de equilíbrio da estrutura empresarial, é uma importante fonte geradora de empregos, receita incremental e produção de bens. Já para a Endeavor Brasil (2013), para 74% dos brasileiros, o desenvolvimento depende muito dos empreendedores. Apesar desse importante papel, 77% acreditam que o governo local não apoia quem está à frente de um negócio, principalmente os pequenos empreendedores do País.
Dada a dimensão cultural, social e econômica atribuída ao empreendedorismo, na expectativa de contribuir com informações para quem tem ou deseja abrir um novo negócio, estudos multidisciplinares foram e ainda são realizados na busca de se entender como este fenômeno acontece.
Diversos estudos sugeriram que o contexto cultural de uma nação afeta o comportamento dos empreendedores (TAN, 2002; BASSO ET AL., 2008; GEORGE; ZAHRA, 2002).
Segundo George e Zahra (2002), as pesquisas que buscam estudar a influência da cultura sobre o empreendedorismo despertaram o interesse acadêmico há cerca de três décadas, o com objetivo principal de entender às relações entre as variáveis culturais e o comportamento empreendedor.
Segundo Busenitz e Lau (1996), o desenvolvimento de pesquisas focadas em análises do tipo transcultural procura compreender por que algumas culturas produzem individualmente maior propensão à atividade empreendedora do que outras.
Para George e Zahra (2002), a grande maioria das pesquisas que relacionam o empreendedorismo com as características culturais de um país se utilizam basicamente do modelo de conceituação de culturas nacionais elaborado por Hofstede (1980). Este autor classificou as dimensões culturais em quatro:
o Distância de Poder
o Individualismo-coletivismo o Masculino-Feminino o Aversão à incerteza
Neste trabalho, vamos aprofundar a linha behaviorista, trazendo-a como ponto central à questão do comportamento empreendedor. Mais especificamente, utilizaremos das teorias comportamentais trazidas por David C. McClelland (1960-1972). Com a utilização de um método quantitativo, o estudo pretende analisar a relação entre o comportamento do empreendedor e perfil de sucesso.
O psicólogo David McClelland (1972), partindo da hipótese de que a necessidade de realização do indivíduo seria a principal responsável pelo desenvolvimento econômico de uma sociedade, compilou um conjunto de características e comportamentos ligados às atividades empreendedoras.
O autor define em seus estudos 10 características empreendedoras comuns aos empreendedores de sucesso1. Segundo sua obra A sociedade competitiva2, apresentam-se as seguintes características:
1. Busca de oportunidades e iniciativa; 2. Persistência;
3. Correr riscos calculados;
4. Exigência de qualidade e eficiência; 5. Comprometimento;
6. Busca de informações; 7. Estabelecimento de Metas; 8. Planejamento e Monitoramento;
1 O conceito de sucesso não é definido claramente na literatura. De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sucesso é o “resultado de ação ou empreendimento, que tem bom resultado, boas vendas ou muita popularidade”. Disponível em: < https://www.priberam.pt/dlpo/sucesso>. Acesso em 15/08/2016. 2 Obra clássica de David McClelland utilizada como principal referência nos estudos de comportamento empreendedor.
9. Persuasão e rede de contatos 10. Independência e autoconfiança
Neste contexto, mostrou-se oportuno trazer teorias sociológicas, em especial as dimensões de Cultura Nacional (HOFSTEDE, 1980), para investigar as características socioculturais no empreendedorismo nacional.
Para mensurar o comportamento empreendedor, foi reproduzida a metodologia utilizada pelo SEBRAE, que é utilizada no seminário do EMPRETEC e no Prêmio MPE Brasil em parceria com a Fundação Nacional da Qualidade, baseada nas pesquisas sobre as CCEs realizada por McClelland (1972).
Como função didática, o trabalho foi dividido em cinco blocos: estrutura da pesquisa; referencial Teórico e hipóteses de pesquisa; método de pesquisa; resultados e considerações finais.
2. ESTRUTURA DA PESQUISA
2.1 Tema
A temática deste trabalho aborda o comportamento do empreendedor brasileiro. O conceito de empreendedorismo será apresentado de acordo com a definição apresentada no GEM (2015), ou seja, “consiste em qualquer tentativa de criação de um novo empreendimento, como, por exemplo, uma atividade autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um empreendimento existente”.
Ainda segundo GEM (2015), o empreendedor é todo indivíduo que já possui um negócio (formal ou informal) ou que não possui, mas está envolvido na criação de um. Portanto, estão aqui incluídos indivíduos em diferentes estágios de maturação de um negócio.
O referencial teórico se baseia principalmente nos estudos sobre o comportamento empreendedor, em especial as teorias de David McClelland (1972, 1987), a reflexão sobre as dimensões culturais de Geert Hofstede (1980), as definições e dados dos relatórios do GEM dos últimos anos (2010, 2015) e o perfil de sucesso.
O perfil será caracterizado por meio de indicadores sob os seguintes aspectos: financeiro, longevidade do empreendimento, fator motivacional e conjunto de habilidades.
2.2 Contextualização do problema
A literatura especializada e técnica sobre empreendedorismo aborda o tema por três aspectos: econômico; comportamentalista/humanista; e processual.
Segundo a literatura observada, os principais autores da teoria econômica são Schumpeter, Cantillon, Knight, Smith, Casson e Say. Tal teoria demonstra que os primeiros a perceberem a importância do empreendedorismo foram os economistas, pois estes estavam primordialmente interessados em compreender o papel do empreendedor e o impacto da sua atuação na economia.
O objetivo da abordagem comportamental do empreendedorismo foi ampliar o conhecimento sobre motivação e comportamento humano. Este tema é abordado por estudiosos de diversas áreas como psicologia, psicanálise e sociologia. Na teoria comportamentalista, os autores que se destacam são: Weber (1989), McClelland (1972),
Solomon e Winslon (1988), Filion (1999), Van Stel et al. (2005), Robbins (2009), Dolabela (2008), dentre outros.
Neste trabalho, será priorizada a questão comportamental com uma abordagem sociocultural, ou seja, verificar quais são os aspectos observáveis da cultura em que o indivíduo está inserido. Com uma contextualização das características nacionais, identificar as características comportamentais do empreendedor e sua relação com os indicadores de sucesso.
É importante ressaltar que o relatório GEM apresenta duas motivações para empreender: motivação por oportunidade ou necessidade.
O tema do empreendedorismo como processo avançou de forma muito forte nos últimos 15 anos. O trabalho de Shane e Venkataraman (2000) foi o mais citado nos artigos publicados em inglês entre os anos 2000 e 2013 (ZANIN; SILVA, 2015). Percebe-se a importância da publicação de Shane e Venkataraman pela forma como ela ganhou destaque na mesma década em que foi lançada e, assim, aumentar a distância do segundo trabalho mais citado no último período observado (2007 a 2013).
Ainda segundo Zanin e Silva (2015), pode-se dizer que houve um foco nos últimos anos mais em pesquisas sobre o processo de empreender, suas potencialidades e os diferenciais das pequenas empresas do que em decifrar a figura do empreendedor e seus traços.
2.3 Objetivos
Principal
O objetivo final desta pesquisa é investigar quais são as características comportamentais mais representativas no empreendedor de sucesso.
Intermediários
Espera-se, também, por meio deste estudo:
i) Identificar as características do comportamento dos empreendedores mais relevantes;
ii) Analisar a atividade empreendedora sob o aspecto cultura; iii) Identificar que fatores motivam o empreendedor nacional;
2.4 Delimitação do estudo
O estudo foi realizado por meio de survey, com amostra por conveniência. Ademais, esta pesquisa não está dirigida a um setor específico da economia, área de atuação ou determinada empresa ou organização. Ou seja, o universo desta pesquisa são os respondentes que concluíram o questionário e se consideram empreendedores. Por ser uma pesquisa comportamental, o resultado está baseado na percepção destes indivíduos no momento de suas respostas.
2.5 Relevância do estudo
A relevância deste trabalho se intensifica pelo fato de trazer em seu objetivo central uma análise sobre o comportamento empreendedor e o contexto sociocultural do indivíduo que empreende.
“No Brasil, os empreendedores de MPEs representam 98% das empresas existentes no País, 27% do PIB, 52% do total de empregos com carteira assinada e 85% dos estabelecimentos rurais” (SEBRAE, 2014). É oportuno, portanto, um estudo mais profundo a respeito dessa questão, tendo em vista que a maior parte dos negócios criados no país é concebida por pequenos empreendedores, que normalmente não possuem conceitos de gestão de negócios e atuam de forma empírica e sem planejamento.
Para (DORNELAS, 2016), os empreendedores estão revolucionando o mundo. Seu comportamento e o próprio processo devem ser estudados e compreendidos. O empreendedor, ao promover a criação de valor (MENGER, 1988) de diferentes maneiras, acaba se tornando um agente transformador da sociedade (DRUCKER, 2008).
É importante ressaltar a necessidade de aprofundar estudos sobre o tema dentro do contexto nacional; ou seja, considerando as características do Brasil, desenvolver pesquisas sobre o empreendedorismo e o comportamento empreendedor que possam influenciar positivamente o desenvolvimento do ecossistema empreendedor nacional.
Dolabela (2008) afirma que a questão central do empreendedorismo nacional é a análise sobre quais são as características do empreendedor de sucesso. Tema central para o desenvolvimento de empreendedorismo que gera valor e empregos na sociedade.
Refletir sobre a influência dos aspectos culturais nas características comportamentais dos empreendedores nacionais possibilita, ainda, uma ampliação da percepção do perfil empreendedor nacional e uma análise sobre a influência do comportamento empreendedor no perfil de sucesso.
3.1 Cultura Nacional
3.1.1 Contextualização e conceitos
A Cultura Nacional é um conjunto de valores, crenças, normas, comportamentos, atitudes e ideias particulares que são partilhadas pelas pessoas de um determinado país (LEUNG ET AL., 2005). Estas características, nascidas das forças e elementos únicos de um país, como sua história, língua, religião e clima, são compartilhadas ao longo do tempo e das gerações (ALMEIDA, 2014). Entretanto, a Cultura Nacional não existe somente quando os membros estão restritos às fronteiras do país, ou seja, a ela também pode se alterar fora das fronteiras nacionais do país de origem (HOUSE ET AL., 2004).
Esta questão ainda pode ser abordada como um conjunto de aspectos característicos assumidos por um determinado grupo que divergem e os distingue de outros grupos. Pode-se dizer assim que uma sociedade ou país tem uma cultura própria que o diferencia de outro (ALMEIDA, 2014). Segundo Kluckhohn (1951, p. 86),
“cultura consiste num conjunto de formas padronizadas de pensar, sentir e reagir, adquiridas e transmitidas principalmente através de símbolos (...); essencialmente as ideias tradicionais e especialmente os valores a que lhe estão ligados.”
Foram realizadas diversas pesquisas para descrever o que é cultura e de que forma esta influencia os comportamentos dos membros de uma sociedade. No quadro abaixo, apresentamos as definições mais citadas pela literatura:
Definição Autor
Cultura é uma programação da mente coletiva que distingue os membros de um grupo ou categoriza uma pessoa relativamente a outra.
Hofstede (1980, 1997)
Cultura é um conjunto de aprendizagem, valores, atitudes e significados que evoluiu historicamente e é partilhada pelos membros de uma determinada comunidade de modo a influenciar a forma material e não material do modo de vida desses membros. Os indivíduos da comunidade aprendem estas características partilhadas em diferentes fases do processo de socialização, por via de instituições, família, religião, educação formal e da sociedade como um todo.
Tayeb (1988); Morrison (2006)
Cultura é como um sistema subjacente de valores peculiares, específico de um grupo ou sociedade que molda o
desenvolvimento de certos traços da personalidade e motiva os indivíduos em uma determinada sociedade a desenvolver um
Mueller & Thomas (2001)
comportamento que pode não ser prevalente em outras sociedades.
Cultura é como uma partilha de motivações, valores, crenças, identidades e interpretações ou significado de acontecimentos importantes que são resultantes de experiências comuns dos membros de um grupo e são transmitidos ao longo das gerações.
House et al (2004)
Quadro 2: Definições da Cultura mais referenciadas Fonte: Adaptado pelo autor de Almeida, 2014, p. 5
Segundo Hofstede (1980, 1997), os valores culturais representam o que é bom, correto e desejável e explicam a base da adoção de certos comportamentos na sociedade, por exemplo: família, política, trabalho, sistema educativo, leis, etc.
É importante ressaltar que a Cultura Nacional não determina na totalidade todos os comportamentos, valores e crenças de um indivíduo, pois cada pessoa tem também suas características únicas, por vivências, experiências e traços de personalidade pessoais e particulares (SCHWARTZ, 1999).
Vivemos em uma sociedade em rede (CASTELLS, 1999), em que a tecnologia nos permite chegar e comunicar com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, sendo cada vez mais incentivada a globalização. Neste contexto, coloca-se a questão: a Cultura Nacional pode de alguma maneira se perder ou se tornar menos relevante ao longo do tempo?
Parece haver um consenso geral entre os autores de que a Cultura nacional é difícil de mudar. As sociedades poderão alterar alguns dos seus comportamentos e práticas, mas dificilmente essas mudanças terão um grande impacto nos valores culturais ao ponto de os modificar (HOUSE ET AL., 2004; HOFSTEDE, 1997).
3.1.2 Dimensões de Cultura Nacional
Na literatura, é possível identificar quatro grandes trabalhos científicos que pretendem abordar aspectos distintos entre países e caracterizar as culturas desses países analisando-os através de um conjunto de dimensões que quantificam e qualificam a cultura de cada país (ALMEIDA, 2014). Os quatro estudos mencionados foram desenvolvidos por Geert Hofstede (1980, 1991), Schwartz (1992, 1999), Trompenaars (1997) e House et al. (1999, 2004).
Neste trabalho, vamos priorizar a posição de Geert Hofstede, que realizou uma investigação sobre este tema através de um questionário que aplicou a milhares de
colaboradores da empresa IBM em diferentes países. Hofstede buscou medir de que forma os valores culturais influenciam os significados que membros de diferentes sociedades atribuem ao trabalho (HOFSTEDE, 1980).
De acordo com o conceito desenvolvido por Hofstede (2001, p. 9-10), cultura “é o programa coletivo da mente que distingue os membros de um grupo ou categoria das pessoas de outro” e “é para a coletividade humana o que a personalidade é para um indivíduo”.
Através da análise de resultados obtidos de 40 países, Hofstede (1980) identificou quatro (4) diferentes dimensões da cultura que reconhecem características distintas.
Distância de Poder (Power Distance Index - PDI):
Expressa a forma como os membros de uma sociedade aceitam e esperam as desigualdades, assim como permitem e respeitam o poder (HOFSTEDE, 1980). A principal questão decorrente daí é como a sociedade lida com as desigualdades. Sociedades de elevada distância de poder se caracterizam, além das desigualdades por: elevado respeito por hierarquia; desempenho de papéis definidos e muito enraizados na subserviência de uns e poder de outros; existência de símbolos presentes e aceitos por todos (HOFSTEDE, 1997).
Já nas culturas com baixa distância de poder, as desigualdades são menos significativas e a estrutura hierárquica menos rígida e vertical. Existe nelas uma maior autonomia e independência, havendo direitos iguais no acesso a recursos e conhecimento (HOFSTEDE, 1997).
Distância de poder pode ser definida como “a medida em que os membros menos poderosos de instituições e organizações de um país esperam e aceitam que o poder seja distribuído desigualmente” (HOFSTEDE ET AL., 2010). O índice de Distância de Poder nos informa a respeito das relações de dependência em um determinado país.
Há nos países de grande distância de poder uma dependência considerável dos subordinados com relação a seus chefes. Os subordinados preferem tal dependência na forma de chefes autocráticos ou paternalistas ou a rejeitam completamente, o que é conhecido em psicologia como contradependência. Como consequência, observa-se um padrão de polarização entre dependência e contradependência (HOFSTEDE ET AL., 2010).
A dependência não se restringe ao universo organizacional. Ela tem suas raízes na família. Nos países com grande distância de poder, como o Brasil, existe uma dependência nos mais velhos que abrange todas as relações, de maneira que o programa mental contém uma grande necessidade dessa dependência. Nos países com baixa distância de poder,
observa-se o contrário: independência é um componente majoritário do programa mental dos indivíduos, igualmente adquirido desde o seio familiar (HOFSTEDE, 1997).
No quadro abaixo é possível observar as principais diferenças no âmbito familiar, escolar e profissional nas sociedades caracterizadas com alta e baixa distância de poder:
BAIXA DISTÂNCIA DE PODER ALTA DISTÂNCIA DE PODER
A hierarquia nas organizações pressupõe uma desigualdade de papéis, estabelecida por conveniência.
A hierarquia nas organizações reflete uma desigualdade existencial entre indivíduos de maior e menor nível.
A descentralização é comum. A centralização é comum. Diferenças salariais reduzidas entre a cúpula e a base
da organização.
Diferenças salariais elevadas entre a cúpula e a base da organização.
Os subordinados esperam ser consultados. Os subordinados esperam que os chefes lhe digam o que fazer.
O chefe ideal é um democrata dotado e competente. O chefe ideal é um autocrata benevolente.
Os privilégios e símbolos de status são mal vistos. Os privilégios e símbolos de status devem existir para a direção e são bem vistos.
Quadro 3: Diferenças fundamentais entre sociedades de baixa e alta distância de poder. I: norma geral, família, escola e local de trabalho
Fonte: Adaptado pelo autor a partir de Hofstede, 1997, p. 53
Hofstede et al. (2010) e Javidan et al. (2006) destacam os efeitos mais facilmente observáveis:
Centralização do poder em poucas pessoas;
Subordinados esperam que lhes digam o que fazer, o que também pode ser traduzido por uma grande falta de autonomia que pode chegar à apatia;
Subordinados esperam participar do processo decisório, embora esperem que seus superiores tomem as decisões;
Transferência de responsabilidades é frequente;
Espera-se que os contatos entre subordinados e chefes sejam iniciados por estes últimos;
Inúmeras camadas de supervisão hierárquica;
Expressiva disparidade entre a remuneração do topo e da base da organização;
Nível educacional de trabalhadores relativamente baixo;
Baixo status do trabalho manual em comparação com o trabalho de escritório;
Concessão de privilégios para superiores.
Individualismo e Coletivismo (Individualism versus Coletivism – IDV):
Reflete em que medida os membros de um país se valorizam a si próprios ou no(s) seu(s) grupo(s) que pertencem. A sociedade individualista é caracterizada quando os laços entre os indivíduos são pouco firmes - cada um deve se ocupar de si mesmo e sua família
mais próxima (HOFSTEDE, 1997). Entretanto, nas sociedades coletivistas, as sociedades se caracterizam por pessoas que são integradas, desde o nascimento, em grupos fortes e coesos, que as protegem para toda a vida em troca de uma lealdade inquestionável (HOFSTEDE, 1997).
Nas sociedades individualistas, é reforçada a importância do indivíduo e da sua realização pessoal. Este é responsável pelo seu próprio desenvolvimento, sendo o próprio objetivo alcançar o poder e sucesso abundante (HOFSTEDE, 1980). Por sua vez, nas sociedades coletivistas, os interesses do grupo prevalecem sobre os desejos e interesses particulares dos indivíduos. Estes se sentem parte integrante do grupo e as suas relações se baseiam em cooperação, respeito pelos outros e harmonia (PINILLOS; REYES, 2011).
Segundo Hofstede (1997), essas dimensões estão associadas aos seguintes fatores: Do lado individualista:
Tempo pessoal – ter um trabalho que proporcione tempo suficiente para a vida pessoal e familiar;
Liberdade – ter considerável liberdade para organizar o trabalho como se entender;
Desafio – ter um trabalho estimulante, que proporcione um sentimento de realização pessoal.
Do lado coletivista:
Formação - ter oportunidade de aprender ou de se aperfeiçoar;
Condições de trabalho – ter boas condições físicas de trabalho;
Utilização de competências – ter possibilidade de utilizar plenamente as competências possuídas no trabalho.
Na tabela abaixo, identificam-se as principais diferenças entre as sociedades: SOCIEDADES COLETIVISTAS SOCIEDADES INDIVIDUALISTAS
A relação empregador-empregado é percebida em termos morais como um vínculo familiar.
A relação empregador-empregado constitui um contrato que prevê as vantagens mútuas.
O recrutamento e promoção levam em consideração o grupo do indivíduo.
O recrutamento e a promoção baseiam-se unicamente nas competências e regras.
Pratica-se uma gestão de grupos. Pratica-se uma gestão de indivíduos. A relação prevalece à execução da tarefa. A tarefa prevalece face à relação.
Quadro 4: Diferenças essenciais entre sociedades individualistas e coletivistas. I: norma geral, família, escola e local de trabalho
Fonte: Adaptado pelo autor a partir de Hofstede, 1997, p. 87
Representa a existência ou não de uma disparidade entre os papéis assumidos pelos dois gêneros e de que forma isso influencia certas características dessa sociedade. Nos países tidos como masculinos (valores elevados) existe uma maior desigualdade entre homens e mulheres no que diz respeito ao papel assumido por cada um, tendo a mulher um papel mais passivo (HOFSTEDE, 1997). Estas sociedades valorizam o sucesso material, a valorização pessoal e o heroísmo.
Nas sociedades identificadas como femininas, existe menos diferenciação entre os papéis sociais desempenhados pelos gêneros. Existe uma valorização da harmonia, cooperação, qualidade de vida, relacionamentos e preocupação com os mais fracos (HOFSTEDE, 1997).
As escolhas associadas a essa dimensão podem ser descritas da seguinte forma (HOFSTEDE, 1997):
Sociedades com alto grau de masculinidade:
Remuneração – poder obter um salário elevado;
Ser reconhecido – ver seus méritos reconhecidos quando se realiza um bom trabalho;
Promoção – ter a possibilidade de ascender a funções superiores;
O desafio – fazer um trabalho estimulante que proporcione um sentimento de realização pessoal.
No oposto, o polo “feminino” corresponde às seguintes escolhas:
Hierarquia: ter boas relações de trabalho com seu chefe direto;
Cooperação – trabalhar em um clima de cooperação;
Zona em que se vive – viver num meio agradável para si próprio e família;
Segurança do emprego – ter a segurança de trabalhar na mesma empresa tanto tempo quanto desejar.
Na tabela abaixo, identificam-se as principais diferenças entre as características dessa dimensão:
SOCIEDADES FEMININAS SOCIEDADES MASCULINAS
Trabalha-se para viver. Vire-se para trabalhar. Os gestores apelam para a intuição e procuram o
consenso.
Os gestores devem ser decisivos e afirmativos.
Acentua-se a igualdade, solidariedade e a qualidade de vida no trabalho.
Enfatiza-se a equidade, a competição entre colegas e a performance.
Os conflitos são resolvidos através de negociação e do compromisso.
Os conflitos são resolvidos através do confronto.
Quadro 5: Diferenças-chave entre sociedades masculinas e femininas. I: norma geral, família, escola e local de trabalho
Aversão à incerteza (Uncertaninty avoidance index - UAI):
Reflete como uma sociedade reage e qual o seu grau de preocupação em função da incerteza ao desconhecido (HOFSTEDE, 1997). Nos países de alta aversão à incerteza, verifica-se uma grande resistência à mudança; uma procura permanentemente por estabilidade e segurança; tudo o que é diferente é considerado perigoso; não se gosta de assumir riscos e há uma elevada necessidade de criar regras e procedimentos que ajudam na condução dos comportamentos.
Por outro lado, nas sociedades com baixa aversão à incerteza, o futuro e a sua imprevisibilidade aparecem como algo natural e traz certa curiosidade nos indivíduos. Estes são tolerantes a novas ideias e à adoção de comportamentos diferentes e não têm receio da mudança e de assumir riscos (HOFSTEDE, 1997; MUELLER; THOMAS, 2000).
Hofstede (1997) aponta que tudo começa com a questão sobre o stress no trabalho. A análise realizada via questionário apontou as principais questões para observar e medir essa dimensão:
1. “Sente-se frequentemente nervoso ou tenso durante o trabalho?”;
2. “As regras de uma empresa não devem ser infringidas mesmo que o empregado pense que é do interesse da empresa”;
3. “Quanto tempo pensa continuar a trabalhar para a IBM?” (questão sobre o desejo de estabilidade profissional)
Vale ressaltar que a cultura de um país não é uma combinação das características do “cidadão médio” nem uma personalidade “média”. Ela é, dentre outras coisas, um conjunto de reações prováveis dos cidadãos que possuem uma certa programação mental (HOFSTEDE, 1997).
A tabela abaixo resume as diferenças essenciais entre as sociedades com elevada e baixa aversão à incerteza (HOFSTEDE, 1997):
BAIXA AVERSÃO À INCERTEZA ALTA AVERSÃO À INCERTEZA
Por vezes é bom não fazer nada: trabalha-se muito apenas quando é necessário.
Necessidade emocional de estar constantemente ocupado; necessidade interior para trabalhar duramente.
A precisão e pontualidade devem ser aprendidas e respeitadas.
Precisão e pontualidade surgem naturalmente.
Tolerância a ideias e comportamentos diferentes. Repúdio pelos comportamentos e ideias diferentes; resistência a inovação.
Quadro 6: Diferenças-chave entre sociedades com alta e baixa aversão a incerteza. I: norma geral, família, escola e local de trabalho
Fonte: Adaptado pelo autor a partir Hofstede, 1997, p. 150
Apesar de ter chegado a essas quatro dimensões, a intenção original do estudo revelou apenas que todas as unidades pesquisadas partilhavam a mesma cultura corporativa. No entanto, o estudo cross-national utilizando uma mesma empresa em diversas nações serviu para propor formas de como implementar estudos cross-organizational com várias empresas em um mesmo país.
Dentre os pontos fortes deste trabalho, destaca-se o fato que provê uma robusta base empírica, tendo sido aplicado em uma quantidade grande de países. Motta e Vasconcelos (2006) afirmam que o estudo de Hofstede tornou-se um clássico e forneceu resultados importantes à cerca da influência das culturas locais nas culturas organizacionais.
Contudo, as conclusões do estudo possuem limites metodológicos, pois a amostra de cada unidade é pouco representativa para expressar a amostra da população do país e não poderia representar a cultura local (MOTTA; VASCONCELOS, 2006).
Hofstede (1991) reconhece que:
O modelo das quatro dimensões de diferenças nacionais de cultura certamente não representa a verdade final sobre o assunto, mas tem servido como uma estrutura útil tanto para os professores quanto para os profissionais e estudantes, para guiar previamente projetos de pesquisa no confuso campo de culturas nacionais.
3.1.3 Cultura Nacional e empreendedorismo
É notório que a Atividade Empreendedora (AE) é mais elevada em determinados países do que em outros. São diversos os estudos e autores que defendem que a Cultura Nacional é um dos fatores determinantes para explicar os diferentes níveis de AE das sociedades (BASSO ET AL., 2008; DAVIDSSON, 1995; MUELLER; THOMAS, 2000; HAYTON; GEORGE; ZAHRA, 2002; HOUSE; JAVIDAN., 2004; HOFSTEDE; MINKOV, 2010; PINILLOS; REYES, 2011; ALMEIDA, 2014).
Os valores e práticas culturais presentes em uma sociedade, ao influenciar certos comportamentos corretos ou inadequados adotados pelos indivíduos, influenciam também a sua decisão, motivação, propensão a agir e a identificar e aproveitar oportunidades de empreendimentos ou negócios, assim como a forma que avaliam a viabilidade destas oportunidades (HOFSTEDE, 1980; MUELLER; THOMAS, 2000).
Vale ressaltar que Cultura Nacional, na sua totalidade, não é o único elemento que impacta a AE. O papel dos fatores ambientais/institucionais (econômicos, financeiros, sociais, políticos, legais e tecnológicos) também são relevantes para a sua existência e desenvolvimento, assim como a cultura setorial e corporativa. Estes fatores podem ser impulsionadores, ou não (BASSO ET AL., 2008)
Segundo Kreiser et al. (2010), os fatores ambientais/institucionais são criados a partir da referência de crenças e valores culturais, que vão determinar algumas das suas especificidades e condições. Neste sentido, a Cultura Nacional influencia indiretamente a orientação empreendedora de cada país e o nível de tolerância à existência das dimensões que a caracterizam.
A dinâmica descrita na relação entre a Cultura Nacional e a Atividade Empreendedora, bem como as outras variáveis que impulsionam a AE, está esquematizada na figura abaixo:
Figura 1: Modelo descritivo da Relação entre a Cultura Nacional e a Atividade Empreendedora (AE) e Influência de outros fatores com impacto na AE
Fonte: Adaptado pelo autor de Lee & Peterson (2000)
3.2.1 História e conceitos
Sendo o empreendedorismo o tema principal deste trabalho, pretende-se apresentar seus principais conceitos, assim como aqueles sobre a figura do empreendedor e, mais especificamente, o seu comportamento.
Para Barros, Fiúsa e Ipiranga, (2005) a origem da Escola Empreendedora se deu no âmago dos conceitos das teorias e pensamentos econômicos. Nesta ótica, Landström e Benner (2010) afirmam que os pioneiros a estudar essa prática foram Richard Cantillon e Jean Baptiste Say. O manuscrito Essai Sur La Nature Du Commerce En Général (CANTILLON, 1730 apud FILION, 1999) é considerado o primeiro trabalho sobre esse fenômeno. Segundo Filion (1999), os escritos de Cantillon revelam um homem em busca de oportunidades de negócios, preocupado com o gerenciamento inteligente de negócios e a obtenção de rendimentos otimizados para seu capital.
O economista Say (2001) definiu o empreendedor como aquele que transfere recursos econômicos de um setor de produtividade mais baixa para um setor de produtividade mais elevada e de maior rendimento. Segundo Barros, Fiúsa e Ipiranga (2005), a visão de Say não está ligada apenas ao fato de o indivíduo abrir seu próprio negócio, mas de ser o criador de algo inovador, ou seja, aquele que muda e transforma valores, seja fornecendo produtos e serviços inéditos ou de forma diferenciada ou única.
Segundo Filion (1999), Say, que considerava o desenvolvimento econômico como resultado da criação de novos empreendimentos, foi o segundo autor a demonstrar interesse pelos empreendedores. Já Richard Cantillon descrevia o empreendedor como aquele que estava envolvido com a troca de mercadoria direcionada ao lucro e decisões empresariais tomadas em face das incertezas. Uma de suas grandes contribuições foi a ênfase sobre o “risco e as incertezas” (FILION, 1999).
Abaixo, pode-se verificar de forma sucinta a evolução cronológica do processo apresentado por Landstrom e Benner (2010):
Fonte: Adaptado pelo autor a partir de Landström e Benner, 2010, p. 20
Segundo Verga e Silva (2014) na era econômica (1870-1940), o interesse pelo empreendedorismo por parte dos economistas vem desde a abordagem de Cantillon (1680-1734), seguida pela tradição knightian, representada pelo autor Frank Knight (1885-1972), com foco nas incertezas, além da fase schumpeteriana, representada por Joseph Schumpeter (1883-1950). Este último constrói uma nova teoria econômica baseada na “mudança e inovação”. Por fim, há a escola austríaca (a partir de 1871) que destaca a necessidade de uma melhor compreensão do empreendedorismo e um esclarecimento entre a ligação do empresário, empresa e a sociedade.
Hisrich, Peters e Sheperd (2014) apresentam informações sobre o desenvolvimento da teoria do empreendedorismo e do termo empreendedor a partir da idade média até 1985, quando definem empreendedorismo como o processo de criar algo com valor, dedicando o tempo e o esforço necessário, assumindo riscos correspondentes e recebendo as consequentes recompensas da satisfação econômica e pessoal.
Zarpellon (2010, p. 48) afirma que, na teoria econômica, o empreendedorismo é visto mais como um fenômeno individual, ligado à criação de empresas - quer através de aproveitamento de oportunidades ou simplesmente por necessidade de sobrevivência -, do que um fenômeno social que pode levar o indivíduo ou uma comunidade a desenvolver capacidades de solucionar problemas e buscar a construção do próprio futuro, isto é, de gerar capital social e capital humano.
Ainda segundo Filion (1999), Cantillon é o precursor da teoria econômica, e associou o empreendedor à oportunidade de lucro não explorado e ao risco intrínseco à sua exploração. Fillion corrobora esta posição com Adam Smith (1723-1790), considerado o formulador da teoria econômica a qual vislumbra o empreendedor como aquele que deseja obter um excedente do valor sobre o custo de produção.
Para Schumpeter (1997) o empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela criação de novos produtos e serviços, pelo desenvolvimento de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais. Com base nessa definição surge o conceito de destruição criativa3.
3
Destruição criativa em economia é um conceito popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter em seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), quando descreve o processo de inovação, que tem lugar numa economia de mercado em que novos produtos destroem empresas velhas e antigos modelos de negócios.
Drucker (2008) afirma que Schumpeter postulava que o desequilíbrio dinâmico provocado pelo empreendedor inovador, em vez de equilíbrio e otimização, é a "norma" de uma economia sadia e a realidade central para a teoria e prática econômica, portanto, o foco desta teoria é construído em torno do marco da teoria econômica institucional4.
A era das ciências sociais (1940-1970), por sua vez, foi um período marcado por estudiosos das áreas de psicologia e ciências sociais, que buscaram o entendimento do empreendedor como indivíduo e começaram a investigar suas obras e traços de comportamento e personalidade (LANDSTRÖM; BENNER, 2010).
Por fim, a época dos estudos de gestão (1970-2016) foi e continua sendo marcada por mudanças políticas, econômicas e tecnológicas. Neste contexto, o conceito de empreendedorismo se torna uma questão prioritária na sociedade atual.
Para Landström e Benner (2010), muitos estudiosos de diferentes áreas se interessam pelo tema empreendedorismo e, com isso, o campo teve crescimento considerável nos últimos anos. Porém, isso não significa que exista um consenso sobre o tema, mas apenas reforça a necessidade de continuação das pesquisas direcionadas a uma melhor compreensão dos diversos aspectos desse fenômeno.
Considerando a grande importância dos empreendedores para a economia e a sociedade em que estão inseridos, os behavioristas (comportamentalistas) foram motivados a pesquisar sobre o comportamento e personalidade do empreendedor.
Segundo Baggio (2014), um dos primeiros autores desse grupo a demonstrar interesse foi Max Weber. Ele identificou o sistema de valores como um elemento fundamental para a explicação do comportamento do indivíduo. É importante observar que os autores da teoria comportamentalista não se opuseram às teorias dos economistas, e sim ampliaram as características dos empreendedores e a gama de estudos sobre o assunto.
No quadro abaixo, apresenta-se um comparativo das diferentes abordagens sobre empreendedores na visão desses autores até o início da década de 80.
Data Autor Características
1961 McClelland Correr riscos e necessidade de realização 1964 Pickle Relacionamento humano, habilidade de
4 A teoria econômica institucional se concentra na compreensão do papel das instituições na moldagem do comportamento econômico. Essa corrente teve seu apogeu nos anos 1920 e 1930, influenciando significativamente as medidas tomadas à época do New Deal.
comunicação, conhecimento técnico 1971 Palmer Avaliador de riscos
1971 Hornaday e Aboud Necessidade de realização, autonomia, agressão, poder, reconhecimento, inovação, independência
1973 Winter Necessidade de Poder
1974 Borland Controle interno
1974 Liles Necessidade de realização 1977 Gasse Orientado por valores pessoais
1978 Timmons Autoconfiança, orientado por metas, corredor de riscos moderados, centros de controle,
criatividade e inovação
1980 Sexton Enérgico, ambicioso, revés positivo 1981 Welsh e White Necessidade de controle, visador de
responsabilidade, auto confiança, corredor de riscos moderados.
1982 Dunkelberg e Cooper
Orientado ao crescimento, profissionalização e independência.
1991 Filion Princípios da educação do empreendedor 2000 Shane e
Venkataraman
Empreendedorismo como processo
2004 Hisrich e Peter Conjunto de habilidades empreendedoras 2008 Drucker Inovação como vetor de uma economia sadia 2012 Dornelas Comportamento como prioridade
Quadro 7: Diferentes abordagens sobre empreendedores Fonte: Adaptado pelo autor – Boulton, Carland e Hoy (1984)
Segundo Brancher, Oliveira e Roncon (2012), o trabalho mais citado pelos artigos analisados do EnANPAD sobre comportamento empreendedor foi o realizado por David McClelland. Este autor criou a Teoria das Necessidades Adquiridas, que preconiza que pessoas são impulsionadas por agirem motivadas por suas necessidades de realização, afiliação e poder, adquiridas com o seu desenvolvimento social. Ele argumenta que as pessoas possuem um pouco dessas necessidades em graus diferentes, destacando, contudo, uma delas. A seguir apresentaremos aspectos destes três conceitos:
Necessidade de Realização: As pessoas se interessam pelo seu próprio desenvolvimento, exigem um padrão de sucesso, domínio de tarefas complexas e superação de outras, de correr riscos calculados, desejam influenciar seus resultados e necessitam de feedback concreto de seu grau de desempenho no grupo (SEBRAE, 2014)
Pessoas com alta necessidade de realização procuram mudanças em suas vidas, estabelecem metas e se colocam em situações competitivas, estipulando para si metas realistas. Segundo McClelland (1972), a necessidade de realização é a primeira necessidade identificada entre os empreendedores bem-sucedidos e é a grande impulsionadora das pessoas na construção do empreendimento. O referido autor promoveu essa definição com base na cultura anglo-saxônica.
Características:
Procura alcançar sucesso perante uma norma de excelência;
Aspira alcançar metas elevadas e realistas;
Responde positivamente à competição;
Toma iniciativa;
Prefere tarefas em que possa ser diretamente responsável pelos resultados;
Assume riscos moderados;
Relaciona-se preferencialmente com peritos.
Necessidade de Afiliação: Desejo de travar relacionamentos próximos, evitar conflito, estabelecer fortes amizades, ser solicitado e aceito pelos outros. É uma necessidade social, de companheirismo e apoio por ideias em comum para desenvolvimento de relacionamentos significativos com pessoas. Demonstram dificuldade em avaliar os subordinados de forma objetiva, pois as pessoas são mais importantes que a produção de outputs (SEBRAE, 2014). Características:
Procura relações interpessoais fortes;
Faz esforços para conquistar amizades e restaurar relações;
Atribui mais importância às pessoas que às tarefas;
Procura aprovação dos outros para as suas opiniões e atividades;
Necessidade de Poder: Desejo de ser responsável pelos demais e ter autoridade sobre outros. Preferem o confronto, a concorrência e se preocupam muito com seu prestígio, reputação e com a influência que possam exercer sobre as outras pessoas, inclusive, mais do que com os seus resultados. Procuram a liderança e possuem elevada tendência ao poder associada às atividades competitivas. Buscam o reconhecimento e respeito dos outros.
Características:
Tenta assumir posições de liderança espontaneamente;
Necessita/deseja provocar impacto;
Preocupa-se com o prestígio;
Assume riscos elevados.
Em 1972, David McClelland realizou uma pesquisa mundial para conhecer os pontos convergentes entre as pessoas bem-sucedidas nos negócios e se tais características eram comuns entre os países. As principais características identificadas foram: busca de oportunidade e iniciativa; correr riscos calculados; persistência; exigência de qualidade e eficiência; comprometimento; busca de informações; estabelecimento de metas; planejamento e monitoramento sistemáticos; independência e autoconfiança e persuasão e rede de contatos.
Segundo Filion (1999), não se pode ainda avaliar um indivíduo e afirmar com certeza que ele vai ser bem-sucedido como empreendedor. No entanto, pode-se dizer se esse indivíduo tem as características comumente encontradas nos empreendedores. O autor enfatiza:
Embora nenhum perfil científico tenha sido traçado, as pesquisas têm sido fonte de várias linhas mestras para futuros empreendedores, ajudando-os a
situarem-se melhor. A pesquisa sobre empreendedores
bem-sucedidos...permite aos empreendedores em potencial e aos empreendedores de fato a identificarem as características que devem ser aperfeiçoadas para obtenção de sucesso (Filion,1999 p.10).
Somado às produções acadêmicas, algumas entidades colaboram com o desenvolvimento do empreendedorismo gerando relatórios periódicos acerca desta atividade no qual publicam os números do setor e trazem as tendências e conclusões identificadas em diversos países.
Um dos exemplos mais relevantes de relatórios é o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que considera o empreendedorismo como vetor do crescimento econômico inclusivo,
e desenvolve pesquisas anuais sobre o perfil da atividade empreendedora no mundo, inclusive no Brasil (a partir do ano 2000).
Esse projeto é administrado pela holding Global Entrepreneurship Research Association (GERA), ligada à London Business School e Babson College, em Boston. O objetivo principal deste relatório é a pesquisa sobre a criação de novos negócios no mundo. Segundo o site do GEM (2016), a organização apresenta os seguintes indicadores: 17 anos de dados; mais de 200.000 entrevistas ao ano; mais de 100 países; mais de 500 especialistas em pesquisas sobre empreendedorismo; mais de 300 instituições e escolas envolvidas; mais de 200 instituições de financiamento. Os dois principais elementos para o GEM são: comportamento empreendedor; o contexto nacional e como isso impacta o empreendedorismo local.
No Brasil, o GEM é realizado pelo IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade), em parceria com instituições nacionais e estaduais. Segundo o site do IBQP (2016), a pesquisa levanta dados sobre as diferenças da capacidade empreendedora entre os países; a contribuição do empreendedorismo para o crescimento econômico e tecnológico; potencial dos governos para promover o empreendedorismo; a relação entre as oportunidades empreendedoras e a capacidade dos indivíduos em explorar novas oportunidades.
A pesquisa é realizada de forma comparativa, os diversos países envolvidos no projeto (aproximadamente 90% do PIB Mundial e 2/3 da população). No Brasil, o GEM tem constituído uma rica base de dados e análises, cuja capacidade de descrição e avaliação das tendências do comportamento deste fenômeno tem subsidiado os mais variados agentes na área (IBQP, 2016).
Veremos mais à frente outras informações e conteúdo sobre o empreendedorismo com foco de análise nas características no Brasil.
3.2.2 O Empreendedor
Não existe unanimidade entre os autores quanto aos perfis de empreendedores. Existem várias abordagens sobre o assunto. Na visão de Davidsson (2005), a definição de empreendedor está ligada à disposição para assumir riscos. Segundo o autor, o empreendedor é aquele que recorre à decisão para agir em uma oportunidade percebida e empreende esforços para alcançar sua realização.
Filion (1999) afirma que as características variam de acordo com as atividades que o empreendedor executa em um determinado período ou em função do estágio da empresa.
Ainda segundo Dolabela (2008), um dos campos centrais da pesquisa desse tema consiste no estudo do ser humano e dos comportamentos que podem conduzir ao sucesso. Em contrapartida, o domínio de ferramentas gerenciais é visto como uma consequência do processo de aprendizado. No empreendedorismo, é mais importante o ser do que o saber (Dolabela, 2008).
Dos empreendedores, se espera a iniciativa de promover mudanças, de não aceitar a estagnação, com consciência dos impactos gerados pelas suas decisões e ações, e conforme as atividades desenvolvidas. Dolabela (2003) argumenta que todos podem se quiserem agir de forma empreendedora. É empreendedor alguém que sonha e busca transformar o seu sonho em realidade, impulsionando o desenvolvimento humano e sustentável.
O autor afirma ainda:
Se o tema do empreendedorismo é o desenvolvimento, sabemos também que não se trata de qualquer desenvolvimento – menos ainda de mero crescimento econômico (...) Porque desenvolvimento mesmo só ocorrerá quando mais capital humano gerar mais capital social, que irá gerar mais capital empresarial, que produzirá mais renda, que resultará em mais capital humano, etc. Um processo de novos e múltiplos laços de realimentação e reforço de cada fator e de todos em conjunto. Quando isso ocorrer, o sistema adquirirá vida própria e, por assim, dizer, “rodará” sozinho, percorrendo os círculos virtuosos daquilo que chamamos de desenvolvimento humano e sustentável (DOLABELA, 2003, p. 122).
Filion (1991) define o empreendedor com uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões. O autor apresenta o conceito de si, que consiste na principal fonte de criação, ou seja, as pessoas só conseguem realizar quando se julgam capazes de fazê-lo. Dolabela (2008) corrobora essa visão e afirma que a imagem que o indivíduo tem de si mesmo influencia diretamente seu desempenho.
Dolabela (2008) afirma a importância do empreendedor guiado por valores éticos, corroborando com a visão de Migueles e Zanini (2009), que afirmam: Líderes que agem baseados em valores são fundamentais para a produção de valor e para a ação coordenada em cenários complexos e imprevisíveis.
Baseado em valores, o líder reduz os custos de transação internos e aumenta sua eficiência ao promover a redução da entropia organizacional, ou seja, reduz as incertezas comportamentais e motiva as pessoas a aportarem suas melhores ideias, contribuições e esforços para o atingimento das metas coletivas (MIGUELES; ZANINI., 2009)