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Universidade de Lisboa
Faculdade de Ciˆencias
Departamento de Engenharia Geogr´
afica, Geof´ısica e Energia
Avalia¸
c˜
ao da seca global
num clima em mudan¸
ca
Maria Inˆ
es Vieira Lopes Ramalho
Disserta¸
c˜
ao
Mestrado em Ciˆencias Geof´ısicas
Especializa¸c˜
ao em Meteorologia
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Faculdade de Ciˆencias
Departamento de Engenharia Geogr´
afica, Geof´ısica e Energia
Avalia¸
c˜
ao da seca global
num clima em mudan¸
ca
Maria Inˆ
es Vieira Lopes Ramalho
Disserta¸c˜
ao orientada por:
Prof. Doutor Pedro M. M. Soares
Mestrado em Ciˆencias Geof´ısicas
Especializa¸c˜
ao em Meteorologia
Resumo
As Secas s˜ao fen´omenos que afectam a humanidade desde os tempos mais remotos. O impacto que exercem nos ecossistemas conferem-lhes o estatuto de desastre natural, sendo tamb´em respons´avel por grandes impactos s´ocio-econ´omicos `a escala global. Desta forma, desde os anos 70 que tˆem sido desenvolvidos diversos ´ındices para identificar e quantificar as secas em intensidade, dura¸c˜ao e extens˜ao espacial, sendo largamente utilizado o Standardized Precipitation Index (SPI), um ´ındice baseado na precipita¸c˜ao que ´e invariante no tempo e espa¸co. Mais recentemente foi desenvolvido um novo ´ındice, Standardized Precipitation Evapotranspiration Index (SPEI), que tem em considera¸c˜ao n˜ao s´o a precipita¸c˜ao como tamb´em o efeito da temperatura e da evapora¸c˜ao nas secas. A incorpora¸c˜ao da temperatura no c´alculo do SPEI pretende ser uma mais valia na compreens˜ao das secas no contexto do aquecimento global. O ´ındice Normalized Soil Moisture (NSM), que tem como base o conte´udo de ´agua no solo, foi igualmente analisado. Neste estudo s˜ao utilizadas os resultados das simula¸c˜oes hist´orica (1961-2005) e do futuro RCP8.5 (2005-2100) do modelo EC-Earth para calcular e analisar os 3 ´ındices de seca referidos, com o principal objectivo de avaliar a seca global num clima em mu-dan¸ca. Esta an´alise permite caracterizar a seca globalmente em frequˆencia de ocorrˆencia, severidade e extens˜ao espacial, num clima presente e de futuro, permitindo aferir qual o impacto das altera¸c˜oes clim´aticas nas propriedades da seca a n´ıvel global. O modelo EC-Earth representa razoavelmente a ocorrˆencia e a severidade das secas no clima pre-sente em diversas regi˜oes, quando comparados os seus resultados com observa¸c˜oes locais. Os resultados mostram que localmente e para uma escala temporal de 40 anos, que o ´ındice SPEI n˜ao acrescenta informa¸c˜ao ao ´ındice SPI. Na an´alise global verificou-se um aumento evidente das ´areas afectadas por secas (15%), secas moderadas (10%) e secas severas (8%). Com o aumento de frequˆencia de ocorrˆencias a incidir sobre ´Africa, este e sul da Europa, Am´ericas, ´Asia e Austr´alia na ´ultima metade do s´eculo XXI em resul-tado do aquecimento global. Sendo que nos dom´ınios analisados, globo, Mediterrˆaneo e Pen´ınsula Ib´erica, verificou-se um aumento pronunciado das ´areas afectadas por seca, seca moderada e seca severa a partir de 2030, com destaque para a Pen´ınsula Ib´erica que apresenta um aumento de ´area afectada por seca de 300% o que corresponde a 67% da ´
area total da Pen´ınsula Ib´erica no fim da segunda metade do s´eculo XXI. Tem-se ainda um aumento de ´area afectada por seca severa em 75% que corresponde a 85% da ´area total da Pen´ınsula Ib´erica, no entanto este aumento brusco est´a distribu´ıdos apenas por 17 meses dos ´ultimos 15 anos da s´erie.
Palavras chave:
Seca, Altera¸c˜oes Clim´aticas, Aquecimento Global, ´Indice Standardizado de Precipita¸c˜ ao-Evpotranspira¸c˜ao, ´Indice Standardizado de Precipita¸c˜ao, Humidade do solo normalizada
Droughts are phenomena which affect Humanity since the earliest times. The im-pact they have in the ecosystems grants them a natural disaster status. They also have huge global socioeconomic effects. Thus, since the seventies several indices have been developed to identify and quantify droughts in what concerns intensity, duration and spatial extension. A widely used index is the Standardized Precipitation Index (SPI), which is based on rainfall and is time and space invariant. Recently, a new index has been developed, the Standardized Precipitation Evapotranspiration Index (SPEI), which has into account not only the rainfall but also the effect of temperature and evaporation on droughts. Including temperature in the SPEI evaluation is intended to be an added value to understand droughts in the context of global warming. The index Normalized Soil Moisture (NSM), which is based on the soil water content, was also analyzed. In this study, the results of the historical (1961-2005) and the future simulations RCP8.5 (2005-2100) of the EC-Earth model were used in order to compute and analyse the re-ferred 3 drought indices, being the main goal the evaluation of the global drought in a changing climate. This analysis allowed to typify drought globally in terms of frequency of occurrence, severity and spatial extension in a present and future climate, enabling the assessment of the impact of climate change in drought properties at a global level.
The EC-Earth model reasonably represents the occurrence and severity of droughts in the current climate in several regions when comparing its results with local observations. Results show that, locally in the present climate and for a 40 year timeframe, the SPEI index does not add significant information to the SPI index.
In the global analysis, there was a clear increase of the areas affected by droughts (15%), moderate droughts (10%) and severe droughts (8%), with increased occurrences in Africa, east and south of Europe, Americas, Asia and Australia in the second half of the XXI century, as a result of global warming. In the areas considered, i.e., globe, Mediterranean and Iberian Peninsula, there was a sharp increase of the areas affected by drought, moderate drought and severe drought as from 2030, notably the Iberian Peninsula which presents an increase of the areas affected by droughts in 300% which corresponds to 67% of the total area of the Iberian Peninsula in the latter half of the XXI century. There is also an increase in the area affected by severe drought in 75%, which corresponds to 85 % of the total area of the Iberian Peninsula, however this abrupt increase is distributed only for 17 months from the last 15 years of the series.
Keywords:
Drought, Climatic Changes, Global Warming, Standardized Precipitation Evapotranspi-ration Index, Standardized Precipitation Index, Normalized Soil Moisture
Agradecimentos
Ao meu orientador Doutor Pedro M. M. Soares manifesto o meu agradecimento pela dis-ponibilidade, colabora¸c˜ao, conhecimentos transmitidos e capacidade de est´ımulo ao longo de todo o trabalho.
`
As amigas de longa data Diana, Sofia e Susana pelo caminho tra¸cado em conjunto, pela amizade e apoio permanente.
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A Catarina N. pela amizade desde o primeiro ano de licenciatura e continua¸c˜ao ao longo do mestrado.
`
A Ana T., Filipa V. e Joana M. pelas pausas, amizade e companheirismo.
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A Catarina M., Isabel R. e Joana C. pela amizade e companhia bem humorada neste ´
ultimo ano.
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A minha irm˜a Filipa um agradecimento especial.
`
A minha m˜ae e ao meu padrasto, Isabel e Fausto, um agradecimento sincero por propor-cionarem os meus estudos com total entusiasmo e incentivo constante.
1 Introdu¸c˜ao 1 2 Dados e M´etodos 5 2.1 Modelo EC-Earth . . . 5 2.2 ´Indices de Seca . . . 6 2.2.1 SPI . . . 6 2.2.2 SPEI . . . 9 2.2.3 NSM . . . 12
3 Seca no clima Presente 14 3.1 Indore . . . 15 3.2 Albuquerque . . . 18 3.3 Hels´ınquia . . . 21 3.4 S˜ao Paulo . . . 23 3.5 Valˆencia . . . 26 3.6 Beja . . . 28 3.7 Sul de Portugal . . . 30
4 Seca num clima em mudan¸ca 34 5 Conclus˜oes 45 Anexos 47 A Anexos 48 A.1 C´alculo anal´ıtico (SPI) . . . 48
Lista de Figuras
3.1 Mapas globais da m´edia de 40 anos (1961-2000) para as vari´aveis: (a) precipita¸c˜ao anual (mm), (b) temperatura (oC), (c) evapotranspira¸c˜ao po-tencial (mm) e (d) conte´udo de ´agua no solo (mm). . . 14 3.2 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 16 3.3 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 17 3.4 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda), SPI (centro) e NSM (`a direita),
para as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 18 3.5 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 18 3.6 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 19 3.7 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de
acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 20 3.8 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 21 3.9 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 22 3.10 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita)
de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 23 3.11 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. S˜ao Paulo, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 24 3.12 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. S˜ao Paulo, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 24 3.13 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita)
de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. S˜ao Paulo, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 25 3.14 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
3.16 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Valˆencia, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 28 3.17 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. Beja, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 28 3.18 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Beja, per´ıodo de 1961 a 2000. . 29 3.19 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de
acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Beja, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 30 3.20 Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6,
12 e 24. Sul de Portugal, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 31 3.21 Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo
com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Sul de Portugal, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 32 3.22 S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de
acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Sul de Portugal, per´ıodo de 1961 a 2000. . . 33 4.1 Representa¸c˜ao da (a) anomalia relativa precipita¸c˜ao (frac¸c˜ao), (b)
ano-malia da temperatura (oC), (c) anomalia relativa da evapotranspira¸c˜ao
potencial (frac¸c˜ao), e (d) anomalia relativa do conte´udo de ´agua no solo (frac¸c˜ao). . . 34 4.2 Destaque das ´areas de estudo: globo, Mediterrˆaneo e Pen´ınsula Ib´erica. 35 4.3 Area global afectada por (a) seca, (b) seca moderada e (c) seca severa, no´
per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . . 36 4.4 Desvio-padr˜ao inter-decadal de ´area afectada no globo por (a) seca, (b)
seca moderada e (c) seca severa, no per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . . 37 4.5 Area mediterrˆ´ anea afectada por (a) seca, (b) seca moderada e (c) seca
severa, no per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . . 38 4.6 Desvio-padr˜ao inter-decadal de ´area afectada no Mediterrˆaneo por (a) seca,
(b) seca moderada e (c) seca severa, no per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . 38 4.7 Area da Pen´ınsula Ib´´ erica afectada por (a) seca, (b) seca moderada e (c)
seca severa, no per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . . 39 4.8 Desvio-padr˜ao inter-decadal de ´area afectada na Pen´ınsula Ib´erica por (a)
seca, (b) seca moderada e (c) seca severa, no per´ıodo 1961-2100, dada pelos ´ındices NSM e SPEI para os per´ıodos de acumula¸c˜ao de 12 e 24 meses. . 39
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
4.9 Frequˆencia de ocorrˆencia de seca ≤ −1, para o ´ındice de seca SPEI com escala de acumula¸c˜ao temporal k=12 (esquerda) e k=24 (direita). Si-mula¸c˜oes do Presente 1961-2000 e do Futuro 2061-2100. . . 41 4.10 Frequˆencia de ocorrˆencia de seca moderada ≤ −1.5, para o ´ındice de seca
SPEI com escala de acumula¸c˜ao temporal k=12 (esquerda) e k=24 (di-reita). Simula¸c˜oes do Presente 1961-2000 e do Futuro 2061-2100. . . 42 4.11 Frequˆencia de ocorrˆencia de seca severa ≤ −2, para o ´ındice de seca SPEI
com escala de acumula¸c˜ao temporal k=12 (esquerda) e k=24 (direita). Simula¸c˜oes do Presente 1961-2000 e do Futuro 2061-2100. . . 43 4.12 Frequˆencia de ocorrˆencia do ´ındice NSM para (a) seca, (c) seca moderada
e (e) seca severa, (b) seca, (d) seca moderada e (f ) seca severa, para as simula¸c˜oes do Presente 1961-2000 e do Futuro 2061-2100, respectivamente. 44
1. Introdu¸
c˜
ao
A seca ´e um fen´omeno que tem afectado a civiliza¸c˜ao desde que h´a mem´oria, moldando habitats e ecossistemas, e tendo um imenso impacto em diversos sectores econ´omicos e sociais. As problem´aticas envolvidas neste fen´omeno desencadearam ao longo dos tempos a necessidade de compreendˆe-lo e mitigar os seus efeitos. Nos ´ultimos anos, o consenso em torno do aquecimento global por parte da comunidade cientifica tem elevado o estudo de seca a um assunto central e mais premente.
A seca ´e parte natural da variabilidade do clima onde a maioria dos anos exibe uma climatologia m´edia, e anos com eventos extremos que afectam um elevado n´umero de pessoas (Wilhete, 2000). Tal facto, confere urgˆencia `a compreens˜ao e previs˜ao da sua variabilidade (Dai et al. 2004). Contudo, a variedade de dom´ınios afectados pela seca, a sua distribui¸c˜ao geogr´afica e as suas escalas temporais diversas, torna-a dif´ıcil de quan-tificar, resultando numa falta de consenso na sua defini¸c˜ao (Wilhete, 2000; Keyantash e Dracup, 2002). Assim, com o intuito de compreender e monitorizar a seca, foram desen-volvidos numerosos ´ındices com base em dados de precipita¸c˜ao e temperatura (McKee, 1993; Vicente-Serrano, 2009), utilizados nesta disserta¸c˜ao como ferramenta para o estudo do impacto das altera¸c˜oes clim´aticas nas propriedades das secas a n´ıvel global.
A partir do fim do s´eculo XIX e in´ıcio do s´eculo XX, numerosas interpreta¸c˜oes de seca foram surgindo. Na primeira d´ecada do s´eculo XX, o U.S. Weather Bureau identificou como seca um per´ıodo n˜ao inferior a vinte e um dias, com valores iguais ou inferiores a 30% de precipita¸c˜ao normal para esse mesmo per´ıodo (Henry, 1906; Steila, 1987). Uma das medidas de seca frequentemente utilizada na ´epoca diz respeito ao d´efice de precipita¸c˜ao acumulada (Kincer, 1919), donde derivaram diversos crit´erios: 15 dias consecutivos sem precipita¸c˜ao; 21 dias ou mais com precipita¸c˜ao inferior a um ter¸co do normal; precipita¸c˜ao anual inferior a 75% do normal; qualquer valor acumulado de precipita¸c˜ao inferior a 85% do normal. Em 1957 foi introduzido por Friedman um ´ındice de seca baseado nos valores anuais de precipita¸c˜ao, para um estudo relativo ao Texas, e crit´erios similares foram pos-teriormente aplicados a outros pa´ıses. Entre eles, 15 dias consecutivos com precipita¸c˜ao inferior a 0.25 mm, na Inglaterra; na ´India, precipita¸c˜ao igual ou inferior a metade do normal por semana; ou ainda, na R´ussia, 10 dias com precipita¸c˜ao total sem exceder os 10 mm (Heim, 2002). Muitos outros crit´erios semelhantes podem ainda ser encontrados na literatura. A introdu¸c˜ao de crit´erios locais de seca foi um passo importante na tenta-tiva de compreens˜ao do fen´omeno. No entanto, foram desde cedo reconhecidas algumas
limita¸c˜oes (Abbe, 1894; Henry, 1906), uma vez que a aplica¸c˜ao de tais crit´erios/´ındices era apenas v´alida para a regi˜ao em quest˜ao, pelo que n˜ao podiam ser aplicados a outras. Outras desvantagens prendiam-se ao facto de que ao serem ´ındices de seca meteorol´ogica, n˜ao se adequavam para monitorizar seca agr´ıcola ou hidrol´ogica. Palmer em 1965 define seca como um per´ıodo na ordem dos meses ou anos em que a humidade dispon´ıvel nessas regi˜oes deveria ser inferior `a da climatologia esperada. Em 1978, Felch escreveu que a seca n˜ao come¸ca necessariamente com o cessar da precipita¸c˜ao, mas sim com o fim da ´
agua dispon´ıvel no solo, reservat´orios, aqu´ıferos, etc. Analogamente, a seca n˜ao acaba quando a precipita¸c˜ao retoma os seus valores normais, mas sim quando os sistemas de ar-mazenamento s˜ao restaurados. Nesse mesmo ano, Felch distingue seca de aridez definindo esta ´ultima como estando associada a locais com m´edia de precipita¸c˜ao permanentemente baixa como ´e o caso dos desertos. Landsberg (1982) refor¸ca que as secas desenvolvem-se dadas as condi¸c˜oes meteorol´ogicas, e que podem ocorrer mediante uma diminui¸c˜ao anormal de precipita¸c˜ao mesmo em locais com elevados valores de precipita¸c˜ao. Este autor refere ainda `as secas como parte do sistema clim´atico, e por isso n˜ao devem ser interpretadas como consequˆencia de altera¸c˜oes clim´aticas, porque ser˜ao inevitavelmente substitu´ıdas por anos de valores de precipita¸c˜ao m´edios e/ou excessivos.
Em 1997, a sociedade Americana de Meteorologia definiu quatro categorias de seca: seca meteorol´ogica ou climatol´ogica, agr´ıcola, hidrol´ogica e s´ocio-econ´omica. Um ponto em comum entre todas elas ´e a existˆencia de valores deficit´arios de precipita¸c˜ao. Se-gundo Wilhite e Glantz (1985), estas categorias de seca apenas ilustram a sua variedade e unicidade, e consequentemente concluem que n˜ao ´e poss´ıvel e que n˜ao deveria haver uma defini¸c˜ao universal de seca. Acrescentam ainda que, determinar o in´ıcio e o fim da seca pode ser mais dif´ıcil do que defini-la. A seca meteorol´ogica expressa-se pela redu¸c˜ao ou ausˆencia de precipita¸c˜ao, num per´ıodo de meses ou anos, sendo normalmente acom-panhada por temperaturas acima do normal. A seca meteorol´ogica antecede e favorece outros tipos de seca (Dai, 2011). A seca agr´ıcola ´e um per´ıodo com solos secos, que resulta de valores anormais de precipita¸c˜ao, eventos intensos de precipita¸c˜ao mas menos frequentes, e evapora¸c˜ao excessiva. Estes fen´omenos a curto prazo afectam as camadas superficiais do solo, prejudicando actividades agr´ıcolas, ainda que as camadas subjacentes possam estar saturadas. A seca hidrol´ogica ocorre para per´ıodos prolongados de ausˆencia de precipita¸c˜ao, podendo gerar um d´efice no conte´udo de ´agua nas camadas inferiores, reduzindo os n´ıveis de ´agua nos aqu´ıferos, reservat´orios ou lagos. Este tipo de seca tem a particularidade de permanecer mesmo ap´os o fim da seca meteorol´ogica, at´e que os n´ıveis de ´agua sejam restaurados. Com o prolongar da seca meteorol´ogica, e consequentemente da agr´ıcola e hidrol´ogica, podem-se atingir casos de seca severa, que afectam profun-damente a agricultura, reservas de ´agua, ecossistemas e condi¸c˜oes b´asicas necess´arias `
as popula¸c˜oes, designada por seca s´ocio-econ´omica. Dracup et al. (1980b), definiu seca econ´omica, como per´ıodos de baixo fornecimento de ´agua que afecta actividades humanas. No contexto de secas, a escala temporal ´e o per´ıodo sobre o qual os eventos de estudo s˜ao analisados e comparados com o que ´e dito normal para esse per´ıodo e localiza¸c˜ao. A selec¸c˜ao do per´ıodo de escala temporal para o estudo de seca depende inteiramente do objectivo para o qual o estudo foi tra¸cado (Dracup et al., 1980b). A escala temporal separa os diferentes tipos de seca. Por exemplo, um d´efice de precipita¸c˜ao de 3 meses pode causar impactos dr´asticos na agricultura (McKee et al., 1993), e/ou um inverno seco, com um d´efice de precipita¸c˜ao de 6 meses, resulta numa leve cobertura de neve
re-Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
duzindo degelo na primavera, o que resulta numa baixa dos aqu´ıferos (Kingery, 1992). A distribui¸c˜ao t´ıpica de frequˆencia da precipita¸c˜ao para uma dada escala temporal (mensal, sazonal e anual) n˜ao ´e gaussiana, mas enviesada para maiores valores de precipita¸c˜ao. Isto implica que a m´edia da precipita¸c˜ao para um dado per´ıodo ´e maior que a mediana (Edwards, 1997), obrigando a que os ´ındices de seca com base em valores de precipita¸c˜ao tenham de ser ajustados a uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao. O aumento da escala temporal para 2 a 4 anos revela que a frequˆencia de precipita¸c˜ao torna-se aproximadamente gaussi-ana (Katz e Glantz 1986). No desenvolvimento de ´ındices de seca, nomeadamente ´ındices de seca agr´ıcola, ´e necess´ario considerar outros factores como a vegeta¸c˜ao, tipos de solo, evapotranspira¸c˜ao, humidade do ar, velocidade do vento temperatura, etc. Muitas des-tas vari´aveis n˜ao s˜ao facilmente mensur´aveis e n˜ao podem ser incorporadas em ´ındices. Deste modo, o armazenamento de ´agua no solo, com base na evapora¸c˜ao e transpira¸c˜ao resultante das plantas foi considerado como fundamental para a caracteriza¸c˜ao de seca. De acordo com Thornthwaite (1931), o c´alculo da evapotranspira¸c˜ao (ET) depende de vari´aveis como a velocidade do vento, humidade, tipo de vegeta¸c˜ao, condi¸c˜oes do solo e a radia¸c˜ao solar, sendo esta ´ultima um factor dominante. Os dados de radia¸c˜ao solar po-dem ser determinados com recurso a m´edias di´arias da temperatura, latitude, e a altura do ano, para aproximar a quantidade de ´agua perdida para a atmosfera por evapora¸c˜ao, assumindo que h´a sempre ´agua dispon´ıvel no solo. A esta medida chama-se evapotrans-pira¸c˜ao potencial (PET). Com base nestas novas considera¸c˜oes Thornthwaite prop˜oe em 1948, um ´ındice de seca que tem em conta a precipita¸c˜ao menos a evapotranspira¸c˜ao.
Palmer (1965) desenvolve um ´ındice de seca que traduz o balan¸co de ´agua, o Palmer Drought Severity Index (PDSI), que ´e um ´ındice ainda amplamente utilizado nos Estados Unidos. Incorpora precipita¸c˜ao, evapotranspira¸c˜ao e capacidade de armazenamento de ´
agua no solo, num sistema hidrol´ogico de duas camadas. ´E um ´ındice meteorol´ogico que tanto pode ser utilizado para eventos de seca como de cheias, embora seja preferenci-almente utilizado para secas. Utiliza registos hist´oricos de precipita¸c˜ao e temperatura, assim como o conte´udo de ´agua dispon´ıvel no solo (Alley, 1984). Todos os termos da equa¸c˜ao do balan¸co de ´agua s˜ao determinados atrav´es das vari´aveis: precipita¸c˜ao, tem-peratura, evapotranspira¸c˜ao, escoamento e quantidade de ´agua no solo. O PDSI pode apresentar valores entre -10 e 10 mas os seus valores est˜ao normalmente compreendidos entre -4 e 4 (Dai, 2011). Valores entre 0 e -0.5 s˜ao considerados normais, de -0.5 a -1,0 tem-se in´ıcio de seca, de -1.0 a -2.0 seca suave, de -2.0 a -3.0 seca moderada, de -3 a -4 seca severa e abaixo de -4 tem-se seca extrema. Do mesmo modo, para eventos de cheias temos uma classifica¸c˜ao semelhante (Palmer, 1965; Karl, 1983). Apesar da grande aceita¸c˜ao do ´ındice de Palmer, a sua vers˜ao original apresenta diversas aproxima¸c˜oes e consequentemente limita¸c˜oes (Alley, 1984). O c´alculo da evapotranspira¸c˜ao estimado pelo m´etodo de Thornthwaite (1948) pode sobrestimar o impacto da temperatura `a su-perf´ıcie (Trenberth et al., 2007; Hobbins et al., 2008), e por isso utiliza-se a equa¸c˜ao de Penman-Montheith, que considera valores de radia¸c˜ao, humidade e velocidade do vento (Dai, 2011). Os valores utilizados para quantificar a intensidade de seca, s˜ao arbitr´arios e baseados em estudos realizados por Palmer em Iowa e no Kansas, U.S., e por isso con-ferem ao ´ındice um estatuto local, ainda que apresente alguma robustez quando utilizado noutras regi˜oes. Para conferir ao ´ındice compara¸c˜oes espaciais aperfei¸coadas, Wells et al. (2004) propˆos calibra¸c˜oes ao ´ındice, com base em condi¸c˜oes locais, substituindo as calibra¸c˜oes usadas por Palmer, relativas ao centro dos Estados Unidos. Outra fragilidade
do modelo est´a associada ao c´alcuclo simplificado de duas camadas generalizado para todas as regi˜oes podendo ou n˜ao ser representativo destas, e considerar a capacidade de armazenamento de ´agua destas duas camadas independente dos ciclos sazonais e anuais da cobertura de vegeta¸c˜ao assim como do seu desenvolvimento (Alley, 1984).
Mais recentemente em 1993, McKee et al. propˆos um novo ´ındice, o Standardized Precipitation Index (SPI). Este ´ındice requer unicamente dados hist´oricos de valores acu-mulados de precipita¸c˜ao, que s˜ao utilizados na computa¸c˜ao de uma distribui¸c˜ao de pro-babilidade, e posteriormente transformada numa distribui¸c˜ao normal. Guttman (1999) determinou que a distribui¸c˜ao Pearson Tipo III, seria a melhor distribui¸c˜ao de probabi-lidade a aplicar. A grande vantagem do SPI ´e a sua simplicidade, quando comparado com o PDSI, que necessita de 68 parˆametros para defini-lo. Outra vantagem do SPI, diz respeito `a utiliza¸c˜ao de escalas temporais mais adequadas aos tipos de seca identificados anteriormente: seca meteorol´ogica, agr´ıcola e hidrol´ogica. Apesar da grande aceita¸c˜ao do SPI (Hayes et al., 1999), este assume que a variabilidade da precipita¸c˜ao ´e muito maior que a de outras vari´aveis como a temperatura e a evapotranspira¸c˜ao, considerando-as es-tacion´arias podendo por isso ser negligenciadas. No entanto um estudo realizado por Hu e Willson (2000) revelou a importˆancia do papel da precipita¸c˜ao e da temperatura no PDSI, que respondem igualmente a varia¸c˜oes similares de magnitude das duas vari´aveis. Deste modo, o uso de ´ındices de seca que incluam a temperatura na sua formula¸c˜ao, como o PDSI apresentam vantagens, especialmente em aplica¸c˜oes que envolvam cen´arios de clima futuro. Outros autores alertam para a importˆancia da temperatura na caracteriza¸c˜ao da seca, principalmente se tivermos em conta o aumento da temperatura m´edia global entre 0.5 a 2oC nos ´ultimos 150 anos, e os cen´arios de aquecimento projectados pelos modelos clim´aticos para o s´eculo XXI. Nesse sentido, Vicente-Serrano et al. (2009), prop˜oe um novo ´ındice, Standardized Precipitation-Evapotranspiration Index (SPEI) que tem em considera¸c˜ao a temperatura e a evapotranspira¸c˜ao, e que mant´em em grande medida a simplicidade do SPI.
Dutra et al. (2008) propˆos um ´ındice com uma formula¸c˜ao completamente diferente dos anteriores, o ´ındice de seca Normalized Soil Moisture (NSM). Trata-se de um ´ındice que tem por base a normaliza¸c˜ao do conte´udo de ´agua no solo. A vantagem da sua utiliza¸c˜ao deve-se `a sua componente f´ısica, apenas baseada nos balan¸cos de fluxos de energia e ´agua no solo.
O estudo realizado nesta disserta¸c˜ao focou-se no c´alculo dos ´ındices de seca para o globo no clima presente e futuro atrav´es dos resultados do modelo EC-Earth. Os ´ındices calculados e analisados foram os ´ındices de seca SPI, SPEI e NSM. Na sec¸c˜ao 2 apresenta-se o modelo global EC-Earth e a metodologia de processamento aplicado `as vari´aveis relevantes ao estudo de seca, assim como uma descri¸c˜ao detalhada dos ´ındices utilizados e as parameteriza¸c˜oes de cada um. No cap´ıtulo 3 apresenta-se a climatologia calculada para o per´ıodo 1961-2000 (presente) para o globo, e realizou-se uma an´alise comparativa dos trˆes ´ındices de seca para diversos locais que abrangem climas d´ıspares e por isso com respostas bastante diferentes nos valores dos ´ındices e na ocorrˆencia de seca. A escolha destes locais permite avaliar o modelo EC-Earth uma vez que se tem como referˆencia resultados para os ´ındices de seca SPI e SPEI com observa¸c˜oes, nesses mesmos locais, para o s´eculo XX (Vicente-Serrano, 2009). Por fim, no cap´ıtulo 4 realizou-se um estudo de anomalias entre o presente e o futuro (2061-2100), com especial ˆenfase na an´alise de frequˆencia de secas, a sua distribui¸c˜ao, intensidade e evolu¸c˜ao temporal.
2. Dados e M´
etodos
2.1
Modelo EC-Earth
O presente estudo realiza-se com recurso a resultados de simula¸c˜oes com o modelo global EC-Earth. Este modelo tem como base o sistema NWP (Numerical Weather Prediction) do European Center for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF) e foi desenvolvido como um Earth System Model atrav´es da colabora¸c˜ao de diversos servi¸cos meteorol´ogicos e grupos universit´arios de diversos pa´ıses europeus (Hazeleger et al., 2010). O modelo EC-Earth ´e um modelo acoplado atmosfera-oceano, em que o modelo at-mosf´erico ´e o IFS, o modelo oceˆanico o REMO, e a superf´ıcie ´e representada pelo modelo H-TESSEL integrando o gelo. Cada componente possui subcomponentes que represen-tam os processos f´ısicos e processos relacionados com a biologia e a geoqu´ımica (Hazeleger et al., 2010). As simula¸c˜oes foram realizadas no Instituto Dom Luiz, com os modelos IFS, REMO e H-TESSEL. A configura¸c˜ao do modelo atmosf´erico considerou 62 n´ıveis verti-cais, cujo topo se encontra aos 5 hPa, sensivelmente a 37 km. A malha global horizontal corresponde a uma grelha gaussiana reduzida - N80, i.e., a uma resolu¸c˜ao de aproxi-madamente 1.125 graus (125 km). O pacote f´ısico de modelo inclui um conjunto de parametriza¸c˜oes para os processos de sub-escala, nomeadamente, para a representa¸c˜ao das nuvens, microf´ısica e turbulˆencia. Tal como referido o modelo EC-Earth incorpora o modelo de superf´ıcie H-TESSEL, onde o conte´udo de ´agua no solo ´e uma das vari´aveis calculadas, fundamental para o estudo das secas e que avalia a resposta do solo aos for¸camentos atmosf´ericos. O modelo se superf´ıcie estima ainda a ´agua `a superf´ıcie, os fluxos de energia, e a evolu¸c˜ao temporal da temperatura do solo. Para caracterizar as vari´aveis junto a superf´ıcie o modelo diagnostica a temperatura e a humidade aos 2m, a press˜ao `a superf´ıcie e a velocidade do vento aos 10m. No contexto do cons´orcio EC-Earth foram realizadas simula¸c˜oes hist´oricas (1850-2005) e de futuro (2006-2100) para serem disponibilizadas no Coupled Model Intercomparison Project phase 5 (CMIP5). As simula¸c˜oes hist´oricas para o s´eculo XX correspondem a diversas inicializa¸c˜oes no per´ıodo pr´e-industrial com lags de 5 anos. Para as simula¸c˜oes de futuro foram utilizados cen´arios de emiss˜oes de CO2 baseados no Representative Concentration Pathways (RCP), i.e., cen´arios de emiss˜oes equivalentes a 2.6, 4.5, 6.0 e 8.5 W m−2 do for¸camento de radia¸c˜ao
no fim do s´eculo XXI. No IDL efectuou-se uma simula¸c˜ao hist´orica com in´ıcio em 1850 e a simula¸c˜ao de futuro abrange o per´ıodo entre 2006 e 2100, correspondente ao cen´ario RCP8.5.
Neste trabalho foram utilizados os resultados das simula¸c˜oes hist´orica e de futuro (RCP 8.5) para o c´alculo de trˆes ´ındices de seca: SPI, SPEI e NSM. Foram utiliza-das as vari´aveis tri-hor´arias (perfazendo oito medidas di´arias) de LSP - Large scale precipitation (m), CP - Convective precipitation (m), 2T - 2 metre temperature (K), SWVL1, SWVL2, SWVL3, e SWVL4, V olumetric soil water layer para quatro n´ıveis do solo a 0-7, 7-28, 28-100, 100-289 cm, respectivamente (m3m−3). Para o c´alculo do
SPI, a precipita¸c˜ao foi obtida atrav´es da acumula¸c˜ao mensal das vari´aveis LSP e CP, posteriormente convertida em mil´ımetros e para o SPEI fez-se o mesmo procedimento para a precipita¸c˜ao, e para a temperatura realizou-se a m´edia mensal, depois convertida em oC. Para o c´alculo do NSM foi realizada a integra¸c˜ao do conte´udo de ´agua l´ıquida das
quatro camadas, convertida em mil´ımetros, e posteriormente realizadas m´edias mensais. De modo a caracterizar sinteticamente o clima presente e futuro, calculou-se uma climatologia recorrendo `as simula¸c˜oes referidas. A climatologia incorpora 40 anos de si-mula¸c˜ao hist´orica (1961-2000) e de futuro (2061-2100).
2.2
´
Indices de Seca
2.2.1 SPI
O Standardized Precipitation Index (SPI) foi desenvolvido por McKee et al. (1993), com o intuito de alcan¸car uma melhor representa¸c˜ao de valores an´omalos do conte´udo de ´agua, relativamente ao PDSI. ´E baseado em probabilidades e foi desenvolvido para ser um indicador de seca espacialmente invariante que integre a importˆancia das diver-sas escalas temporais (Guttman, 1999), tem sido por isso utilizado na ´ultima d´ecada como ´ındice de seca, e ainda pela sua simplicidade e robustez, n˜ao sendo afectado por diferen¸cas geogr´aficas. O SPI ´e calculado para quantificar o d´efice de precipita¸c˜ao em diversas escalas temporais, e representa uma transforma¸c˜ao de s´eries temporais de preci-pita¸c˜ao numa distribui¸c˜ao normal. A possibilidade da an´alise de secas a diferentes escalas temporais permite a identifica¸c˜ao dos diferentes tipos de seca: meteorol´ogica, agr´ıcola ou hidrol´ogica (Edwards e McKee, 1997). A sua versatilidade temporal ´e tamb´em impor-tante na dinˆamica de seca, e permite descrever o in´ıcio e fim das secas. Hayes el al. (1999) discute as vantagens e desvantagens do uso do SPI para caracterizar a severidade da seca, sendo uma vantagem do ´ındice ser baseado simplesmente em dados de precipita¸c˜ao, e de apenas requerer a computa¸c˜ao de trˆes parˆametros (Pearson III). E embora obtido apenas com dados de precipita¸c˜ao, o SPI exibe um comportamento semelhante ao PDSI, consi-deravelmente mais complexo, dependente de diversos parˆametros (Keyantash e Dracup,
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
2002). E por ser independente de vari´aveis como o conte´udo de ´agua no solo, pode ser usado quer em per´ıodos de ver˜ao como de inverno. Outra grande vantagem do ´ındice ´
e a sua normaliza¸c˜ao, que garante que a frequˆencia de eventos extremos, para qualquer escala temporal seja consistente (Hayes el al., 1999). O SPI apresenta contudo algumas desvantagens. O primeiro rev´es deve-se `a confian¸ca depositada no ajuste de uma distri-bui¸c˜ao de probabilidade te´orica, assim McKee et al. (1993) recomenda o uso de s´eries temporais com pelo menos 30 anos. Em 1997, Edwards e McKee, sugerem a estima¸c˜ao de dois parˆametros α e β no ajuste de uma distribui¸c˜ao `a s´erie temporal de acordo com a aproxima¸c˜ao de Thom (1958). No entanto, a distribui¸c˜ao Gamma, primeiramente con-siderada por McKee (1993), foi mais tarde examinada e concon-siderada menos adequada em detrimento da distribui¸c˜ao Pearson III (Guttman, 1999), dado que esta ´ultima apre-senta maior flexibilidade que a distribui¸c˜ao Gamma de dois parˆametros (Vicente-Serrano, 2006a). A fun¸c˜ao densidade de probabilidade da distribui¸c˜ao Pearson III, (2.9), cont´em α, β e γ, parˆametros de forma, escala e de origem, respectivamente. No entanto, o SPI apresenta-se incapaz de identificar zonas com maior tendˆencia de seca, j´a que dado um longo per´ıodo de tempo, secas extremas, ocorrem com a mesma frequˆencia em todas as localiza¸c˜oes. No uso de escalas temporais curtas em regi˜oes de baixa sazonalidade de precipita¸c˜ao, podem ocorrer, erradamente, grandes valores positivos ou negativos de SPI, pelo que ´e importante o conhecimento da climatologia do local em estudo (Hayes el al., 1999). O c´alculo do SPI inicia-se com o c´alculo da precipita¸c˜ao consoante a escala tem-poral pretendida, sendo precipita¸c˜ao total para um dado mˆes i e ano j, acumulada de acordo com a escala temporal k. A equa¸c˜ao (2.1), v´alida para as escalas temporais k=1, 3, 6 e 12, representa o c´alculo dos meses de um ano, onde Pj,l ´e a precipita¸c˜ao (mm) do
primeiro mˆes de um ano j (Paulo et al., 2003). De um modo geral, para cada mˆes i em considera¸c˜ao, o total de precipita¸c˜ao nesse mˆes, ser´a o somat´orio da precipita¸c˜ao desse mˆes mais a precipita¸c˜ao de (k − 1) meses que lhe antecedem.
Xj,ik = 12 X l=13−k+j Pj−1,l+ j X l=1 Pj,l Se i < k j X l=i−k+1 Pj,l Se i ≥ k (2.1)
No c´alculo do SPI usou-se, como j´a referido, a distribui¸c˜ao Pearson III. Para tal s˜ao pri-meiramente calculados os Probability-Weighted Moments (PWMs), ws, para cada escala
temporal k (Eq. (2.2)). ws= 1 N N
X
i=1 (1 − Fi) s Xi (2.2)Os PWMs dependem da s´erie de precipita¸c˜ao Xi e de um estimador de frequˆencia, Fi
(Eq.(2.3)), onde i ´e a posi¸c˜ao de cada valor da s´erie ordenada, e N o n´umero de ob-serva¸c˜oes. Este procedimento est´a de acordo com a aproxima¸c˜ao de Hoskings (1990).
Fi =
i − 0.35
N (2.3)
Segue-se a determina¸c˜ao dos L-moments λ1, λ2, λ3, e λ4 (Eq. (2.4)), em fun¸c˜ao dos
PWMs. λ1 = w0 λ2 = w0 − 2w1 λ3 = w0 − 6w1+ 6w2 λ4 = w0− 12w1+ 30w2− 20w3 (2.4)
Destes, derivam os coeficientes de skewness e kurtosis (Eq.(2.5)). τ3 = λ3 λ2 τ4 = λ4 λ2 (2.5)
A fun¸c˜ao distribui¸c˜ao de probabilidade de F (x) ´e dada pela equa¸c˜ao (2.9). Esta exibe os parˆametros α, β e γ, forma, escala e origem, respectivamente, para valores de preci-pita¸c˜ao x > 0, e Γ(β), a fun¸c˜ao Gamma de beta. Estes parˆametros s˜ao calculados de acordo com as equa¸c˜oes (2.6), (2.7) e (2.8). Os parˆametros α, β e γ, calculados com base nos L-moments s˜ao obtidos de acordo com Hoskings (1990). No caso de τ3 ≥ 1/3, ent˜ao
τm = 1 − λ3, e beta ´e obtido pela primeira equa¸c˜ao de (2.6), caso contrario τ3 < 1/3,
τm = 3πτ32, e beta pode ser calculado seguindo a segunda equa¸c˜ao de (2.6).
β = (0.36067τm− 0.5967τm2 + 0.2536τm3) (1 − 2.7886τm+ 2.56096τm2 − 0.77045τm3) Se τ3 ≥ 13 (1 + 0.2906τm) (τm+ 0.1882τm2 − 0.0442τm3) Se τ3 < 13 (2.6) α =√πλ2 Γ(β) Γ β +12 (2.7) γ = λ1− αβ (2.8)
Calculados os parˆametros da distribui¸c˜ao Pearson III, procede-se `a resolu¸c˜ao anal´ıtica da fun¸c˜ao distribui¸c˜ao de probabilidade de F (x) (Vicente-Serrano e Cuadrat, 2002) que
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
pode ser consultado no Anexo 1.
F (x) = 1 αΓ(β) x Z γ x − γ α β−1 e−(x−γα )dx (2.9)
A distribui¸c˜ao Pearson III n˜ao est´a definida para x=0. Assim, para s´eries temporais que incluem meses de precipita¸c˜ao nula, foi adaptada a equa¸c˜ao (2.10), onde q ´e a proba-bilidade de precipita¸c˜ao nula. Seguindo o pensamento de Edwards (2001), q pode ser calculado pela simples rela¸c˜ao q = m/n , onde n ´e o n´umero total de meses e m o n´umero de meses sem precipita¸c˜ao.
H(x) = q + (1 − q)F (x) (2.10)
A equa¸c˜ao (2.10) representa uma m´edia em 0 e desvio padr˜ao 1. Esta normaliza¸c˜ao, torna o SPI compar´avel no tempo e espa¸co, e para uma dada escala temporal, tˆem-se valores positivos (negativos) de SPI para observa¸c˜oes superiores (inferiores) `a mediana (Guttman, 1999). Para obter o ´ındice (Eq. (2.12)) ´e realizada uma transforma¸c˜ao de H(x), de acordo com a formula¸c˜ao apresentada na equa¸c˜ao (2.11) (Abramowitz e Ste-gun, 1965), onde P ´e a probabilidade de exceder um determinado valor de precipita¸c˜ao, P = 1 − H(x). Se P > 0.5, P ´e substitu´ıdo por 1 − P , e o sinal do SPI ´e trocado. As constantes utilizadas s˜ao: C0 = 2.515517, C1 = 0.802853, C2 = 0.010328, d1 = 1.432788,
d2 = 0.189269 e d3 = 0.001308. W = p−2ln(P ) Se P ≤ 0.5 p−2ln(1 − P ) Se P > 0.5 (2.11) SP I = W − C0+ C1W + C2W 2 1 + d1W + d2W2+ d3W3 (2.12) 2.2.2 SPEI
O Standardized Precipitation Evapotranspiration Index (SPEI) foi desenvolvido por Vicente-Serrano et al. (2009), com o intuito de aperfei¸coar o ´ındice SPI que ´e calcu-lado apenas com base na precipita¸c˜ao. O SPEI apresenta sensibilidade `as varia¸c˜oes da evapora¸c˜ao, resultantes das flutua¸c˜oes de temperatura, e mant´em ainda a simplicidade de c´alculo do SPI (Vicente-Serrano, 2009). O SPEI baseia-se na diferen¸ca entre a
pita¸c˜ao e PET. Esta diferen¸ca representa um balan¸co de ´agua simplificado (Thornthwaite, 1948), que pode ser calculado para diferentes escalas temporais. O c´alculo da evapo-transpira¸c˜ao envolve parˆametros como a temperatura `a superf´ıcie, a humidade do ar, a radia¸c˜ao descendente, a press˜ao de vapor de ´agua, e os fluxos de calor sens´ıvel e latente `
a superf´ıcie, e torna-se por isso um termo de dif´ıcil c´alculo (Allen et al., 1998). Diferen-tes m´etodos foram propostos para o c´alculo indirecto da evapotranspira¸c˜ao a partir de dados meteorol´ogicos, envolvendo o m´etodo de Penman-Monteith. Contudo, para tal ´e necess´ario conhecer um vasto conjunto de parˆametros como a radia¸c˜ao solar, velocidade do vento, temperatura e humidade relativa, dados estes que n˜ao se encontram dispon´ıveis na grande maioria do globo. Uma vez que a inclus˜ao no ´ındice da evapotranspira¸c˜ao tem o intuito de obter uma estima¸c˜ao temporal relativa, o seu m´etodo de c´alculo n˜ao ´e cr´ıtico, e ´e utilizada uma simples aproxima¸c˜ao do m´etodo de Thornthwaite (1948). Na equa¸c˜ao (2.13) pode observar-se que esta aproxima¸c˜ao exige apenas os valores mensais de temperatura (oC), relativamente mais f´aceis de obter para todo o globo. Assim a PET ´e dada por: P ETi = 16K 10T I m (2.13)
O parˆametro I ´e o ´ındice de calor, que ´e calculado como a soma dos doze ´ındices mensais i (eq. (2.14)), que por sua vez depende das temperaturas mensais.
i = Ti 5
1.514
(2.14)
O expoente m na equa¸c˜ao (2.13) ´e um coeficiente que varia com o ´ındice de calor I, e traduz-se pela equa¸c˜ao m = 6.75·10−7I3−7.71·10−5I2+1.79·10−2I +0.492. Tem-se ainda
para o c´alculo da evapotranspira¸c˜ao, K, um coeficiente de correc¸c˜ao, calculado como fun¸c˜ao da latitude de cada mˆes. N e N DM , correspondem ao n´umero m´aximo m´edio de horas de sol para o mˆes em quest˜ao, e o n´umero de dias do mˆes, respectivamente.
K = N 12 N DM 30 (2.15)
O parˆametro N ´e ent˜ao calculado de acordo com a equa¸c˜ao (2.16) que varia com Ws
(m´edia mensal do ˆangulo hor´ario do nascer do sol). Tanto a latitude φ, como a declina¸c˜ao solar δ est˜ao em radianos.
N = 24 π
Ws (2.16)
Ws= arccos(− tan φ tan δ) (2.17)
Por fim, o c´alculo da declina¸c˜ao solar, δ, definida na equa¸c˜ao (2.18), varia com J que representa a m´edia mensal dos dias julianos. Todos os parˆametros calculados nas equa¸c˜oes
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
de (2.13) a (2.18), s˜ao calculados para cada mˆes. δ = 0.4093 sin 2πJ
365 − 1.405
(2.18)
Tendo os valores de temperatura e de evapotranspira¸c˜ao mensais, procede-se `a sua dife-ren¸ca (Eq. (2.19)), que trata simplesmente do d´efice ou superavit de ´agua mensal (mm), para cada ponto da grelha.
Di = Pi− P ETi (2.19)
Similarmente ao SPI, o SPEI tamb´em permite o uso de diferentes escalas temporais. Os valores mensais calculados Di s˜ao agregados de acordo com as equa¸c˜oes em (2.20). Dj,ik
para um dado ano j e mˆes i depende da escala temporal k, que pode ser k = 1, 3, 6, 12 meses. Para o c´alculo do SPEI a diferentes escalas temporais, ajusta-se uma fun¸c˜ao probabilidade de distribui¸c˜ao, e tal como no SPI utiliza-se a distribui¸c˜ao Pearson III.
Xj,ik = 12 X l=13−k+j Dj−1,l+ j X l=1 Dj,l Se i < k j X l=i−k+1 Dj,l Se i ≥ k (2.20)
O SPEI difere no seu c´alculo do SPI pois n˜ao precisa dos L-moments λ2, λ3, e λ4, nem
dos coeficientes de skewness e kurtosis. S˜ao assim calculados os PWMs, probability-weighted moments (Eq. (2.21)), igualmente dependentes do estimador de frequˆencia Fi,
sendo i a posi¸c˜ao de cada valor da s´erie ordenada, e N o n´umero de observa¸c˜oes (Hoskings, 1990). ws= 1 N N
X
i=1 (1 − Fi)sXi (2.21) Fi = i − 0.35 N (2.22)Os parˆametros α, β e γ, s˜ao facilmente obtidos com base nos PWMs e na fun¸c˜ao Gamma de beta. β = 2w1− w0 6w1− w0 − 6w2 (2.23) α = (w0− 2w1)β Γ1 + β1Γ1 −β1 (2.24)
γ = w0− αΓ 1 + 1 β Γ 1 − 1 β (2.25)
Calculados os parˆametros da distribui¸c˜ao Pearson III, aplicam-se directamente para a obten¸c˜ao da fun¸c˜ao distribui¸c˜ao de probabilidade, para as s´eries de precipita¸c˜ao com diferentes escalas temporais.
F (x) = " 1 + α x − γ β#−1 com γ > x < ∞ (2.26)
Similarmente ao SPI, para obter o ´ındice ´e utilizada a equa¸c˜ao (2.27) (Abramowitz e Stegun, 1965). Sendo que P ´e a probabilidade de exceder um determinado valor de precipita¸c˜ao, P = 1 − F (x). Se P > 0.5, P ´e substitu´ıdo por 1 − P , e o sinal do SPEI ´e trocado. As constantes utilizadas s˜ao: C0 = 2.515517, C1 = 0.802853, C2 = 0.010328, d1
= 1.432788, d2 = 0.189269 e d3 = 0.001308. W = p−2ln(P ) Se P ≤ 0.5 p−2ln(1 − P ) Se P > 0.5 (2.27) SP EI = W − C0+ C1W + C2W 2 1 + d1W + d2W2+ d3W3 (2.28) 2.2.3 NSM
O conte´udo de ´agua no solo ´e um bom indicador de seca, reflecte a precipita¸c˜ao re-cente e condi¸c˜oes antecedentes de ´agua no solo, indicando o potencial agr´ıcola e a ´agua dispon´ıvel armazenada (Keyantash e Dracup, 2002). A coluna de solo actua como um filtro entre a precipita¸c˜ao e os processos que removem ´agua do sistema hidrol´ogico, tais como a evapotranspira¸c˜ao e os escoamentos sub-superficiais (Entekhabi et al., 1996). A quantidade de ´agua nas camadas de topo do solo est´a correlacionada com os termos me-teorol´ogicos e de precipita¸c˜ao a curto prazo, e fornece uma medida de seca meteorol´ogica. O conte´udo de ´agua no solo ao n´ıvel das ra´ızes ´e governado pelo crescimento da flora de acordo com a ´agua dispon´ıvel para a transpira¸c˜ao e ´e ent˜ao um indicador de seca agr´ıcola (Keyantash e Dracup, 2002). Os n´ıveis mais profundos do solo reflectem a seca hidrol´ogica ou de longo prazo, n´ıveis estes que contˆem a ´agua dispon´ıvel para aqu´ıferos e rios (Sheffield et al., 2004). Nesse contexto, o ´ındice de seca Normalized Soil Moisture (NSM) proposto por Dutra et al. (2008) prop˜oe uma normaliza¸c˜ao do conte´udo de ´agua no solo, cuja
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
distribui¸c˜ao de ´agua no solo possa corresponder a uma distribui¸c˜ao gaussiana com m´edia zero. A vantagem da utiliza¸c˜ao deste m´etodo deve-se `a sua componente f´ısica, apenas baseada nos balan¸cos de energia e ´agua no solo, sendo estes calculados com um modelo de solo, n˜ao sendo necess´arias correc¸c˜oes locais como no PDSI. Por outro lado, um factor negativo ´e a necessidade de for¸camento atmosf´erico cont´ınuo dada a escala temporal do ´ındice. Stedinger et al. (1993) revela que as vari´aveis hidrol´ogicas, incluindo o conte´udo de ´agua no solo, s˜ao melhor descritas por L-moments. Teoricamente os L-moments tˆem vantagem sobre os momentos convencionais por serem mais robustos `a presen¸ca de valores discrepantes e caracterizarem uma gama maior de distribui¸c˜oes (Hoskings, 1990). Dada a sua simplicidade ser´a apenas aplicado o m´etodo de Dutra (2008), onde o conte´udo total de ´agua das quatro camadas ´e agregado em valores mensais e normalizado pela m´edia mensal inter-anual (climatologia), e pelo desvio padr˜ao, definindo o NSM (2.29).
N SMi,j = θi,j − θi σi (2.29) onde θi = 1 N N X j=1 θi,j (2.30) e σi = v u u t 1 N − 1 N X j=1 θi,j− θi 2 (2.31)
Sendo que θi,j ´e o conte´udo total de ´agua nas quatro camadas, para cada ponto da
grelha, no mˆes i, e ano j, com i = 1, ..., 12, e j = 1, ..., N , com m´edia mensal intra-anual θi (Eq. (2.30)) e desvio padr˜ao σi (Eq. (2.31)).
No presente cap´ıtulo realiza-se uma breve descri¸c˜ao climatol´ogica global com base nas vari´aveis utilizadas para o c´alculo dos ´ındices de seca em estudo. Para tal calcularam-se as m´edias para os 40 anos de simula¸c˜ao do clima presente para as seguintes vari´aveis: a precipita¸c˜ao, conte´udo de ´agua no solo e a temperatura `a superf´ıcie (fig.3.1).
A figura 3.1a apresenta a m´edia do per´ıodo hist´orico para a precipita¸c˜ao em mm, salientando-se os valores mais elevados de precipita¸c˜ao para a zona intertropical de con-vergˆencia, e sobre terra nas regi˜oes de relevo acentuado.
(a) (b)
(c) (d)
Figura 3.1: Mapas globais da m´edia de 40 anos (1961-2000) para as vari´aveis: (a) preci-pita¸c˜ao anual (mm), (b) temperatura (oC), (c) evapotranspira¸c˜ao potencial (mm) e (d) conte´udo de ´agua no solo (mm).
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
Por outro lado observam-se valores de reduzida precipita¸c˜ao em zonas des´erticas, no in-terior continental e sobre os p´olos. Estas zonas de reduzida precipita¸c˜ao coincidem em alguma medida com valores de PET mais acentuados (fig.3.1c). Analisando agora a temperatura m´edia (3.1b) esta denota claramente o gradiente meridional onde as tempe-raturas superiores est˜ao sob os oceanos, interior dos continentes e regi˜oes des´erticas. De acordo com a figura 3.1c, a evapotranspira¸c˜ao exibe valores elevados na zona intertropical de convergˆencia. Tal facto ´e favorecido com os valores elevados de precipita¸c˜ao e tempe-ratura analisados anteriormente, o que resulta em evapora¸c˜ao da ´agua dispon´ıvel. Nos p´olos por conven¸c˜ao as regi˜oes que apresentam m´edia mensal da temperatura negativa exibem evapotranspira¸c˜ao nula. O conte´udo de ´agua no solo (fig.3.1d) relaciona-se com as vari´aveis anteriores, e observa-se para zonas de reduzida precipita¸c˜ao, temperaturas elevadas e evapotranspira¸c˜ao superior, baixos valores de ´agua no solo. Estas zonas est˜ao igualmente associadas a desertos, zonas com reduzida vegeta¸c˜ao ou com cobertura de gelo, pelo que o modelo EC-Earth representa bem a climatologia do fim do s´eculo XX. Os resul-tados da temperatura e da precipita¸c˜ao demonstram uma concordˆancia razo´avel com os resultados da rean´alise ERA-Interim (n˜ao mostrados). Uma vez que est´a fora do ˆambito desta tese, n˜ao se procedeu a uma avalia¸c˜ao mais exaustiva. Em seguida focar-nos-emos numa an´alise para diversos locais: Indore, Albuquerque, Hels´ınquia, S˜ao Paulo, Valˆencia, Beja e Sul de Portugal. Os cinco primeiros foram escolhidos para compara¸c˜ao com os resultados de ´ındices de seca calculados recorrendo a observa¸c˜oes (Vicente-Serrano, 2009) o que permite uma avalia¸c˜ao, ainda que s´o estat´ıstica e algo limitada, da capacidade do EC-Earth representar a seca no s´eculo XX. Nesta sec¸c˜ao a seca ser´a dividida em trˆes intensidades: seca - i ≤ −1, seca moderada - i ≤ −1.5 e seca severa - i ≤ −2.
3.1
Indore
Indore localiza-se na regi˜ao centro da ´India e apresenta um clima com trˆes per´ıodos distintos, s˜ao eles ver˜ao, per´ıodo de mon¸c˜oes e inverno. Esta exibe valores elevados de temperatura no ver˜ao, usualmente seco (at´e 42oC), e os invernos s˜ao moderados e secos, com temperaturas compreendidas entre 8 a 26oC. Cerca de 95% da precipita¸c˜ao total
anual observada nesta regi˜ao ocorre no per´ıodo de mon¸c˜oes entre os meses de Junho e Setembro. A ocorrˆencia de temperaturas elevadas e humidade do ar reduzida s˜ao favor´aveis `a existˆencia de fluxos de energia tais como calor latente e sens´ıvel importantes no balan¸co de PET e humidade no solo, considerado no SPEI e NSM, respectivamente. Na figura 3.2 apresentam-se os histogramas dos valores acumulados da diferen¸ca entre a precipita¸c˜ao e a evapotranspira¸c˜ao. Observa-se para a acumula¸c˜ao k=3 (fig.3.2a) uma distribui¸c˜ao que apresenta maiores frequˆencias na gama dos -150 a 0 mm. De um modo geral pode avaliar-se Indore como um local com maior n´umero de eventos em que a evapotranspira¸c˜ao ´e superior `a precipita¸c˜ao. A partir da acumula¸c˜ao para k=6 meses, nota-se um deslocamento da distribui¸c˜ao de frequˆencias para valores mais negativos, e para k=24 apenas frequˆencias negativas, o que sugere um cen´ario favor´avel `a ocorrˆencia de secas.
(a) k=3 -600 -450-300-150 0 150 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (b) k=6 -600 -450-300-150 0 150 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (c) k=12 -600-450-300-150 0 150 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (d) k=24 -600 -450 -300 -150 0,00 0,04 0,08 0,11 0,15 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET Figura 3.2: Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000.
A figura 3.3 apresenta os histogramas dos ´ındices de seca NSM SPI e SPEI para Indore. Para a escala de acumula¸c˜ao k=3 do SPEI (fig.3.3a) tem-se 25% de n´umero de ocorrˆencias aproximadamente em torno zero, pelo que esta escala n˜ao determina nenhum favorecimento a secas. O elevado n´umero de ocorrˆencias no bin zero est´a relacionado com o maior n´umero de eventos da diferen¸ca P-PET tamb´em em zero (fig.3.2a). A distribui¸c˜ao que em k=6 (fig.3.3a) aproxima-se de uma distribui¸c˜ao gaussiana, revela na acumula¸c˜ao at´e k=24, um ajuste de modo a tornar-se numa distribui¸c˜ao bimodal e aproximadamente sim´etrica. Assim, n˜ao se conclui com o ´ındice SPEI tratar-se de um local com predominˆancia de seca. As escalas temporais do SPI mostram bimodalidade na distribui¸c˜ao de eventos com per´ıodos de seca e per´ıodos h´umidos. Em concordˆancia com o SPEI e SPI, observa-se para o NSM uma distribui¸c˜ao gaussiana com um maior n´umero de ocorrˆencias de ´ındice positivo ainda que moderado (fig.3.3h).
(a) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (b) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (c) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (d) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (e) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (f ) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (g) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (h) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca (i) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a NSM
Figura 3.3: Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000.
A an´alise das s´eries temporais dos trˆes ´ındices para Indore, no per´ıodo de 1961 a 2000 (fig.3.4), revela uma grande semelhan¸ca entre os ´ındices de seca SPEI e SPI. As escalas temporais k=3 e k=6, n˜ao demonstram muita informa¸c˜ao j´a que nos ´ındices SPEI e SPI observam-se elevadas frequˆencias de per´ıodos curtos - de seca e de per´ıodos h´umidos. Destaca-se em particular no fim da s´erie, o aumento do per´ıodo do ´ındice de seca em ambos os ´ındices, tamb´em observado nas escalas temporais posteriores. As semelhan¸cas tornam-se mais evidentes entre os ´ındices para as escalas superiores que revelam menor frequˆencia de per´ıodos de seca e h´umidos e de maior extens˜ao temporal. Com o incremento do per´ıodo de acumula¸c˜ao para k=24, observa-se uma maior consistˆencia nos per´ıodos de seca e h´umidos. De um modo geral observa-se para o SPI valores superiores do ´ındice tanto para per´ıodos de seca como para per´ıodos h´umidos (fig.3.4f). Tal pode dever-se ao facto de se tratar de um ´ındice baseado apenas em dados de precipita¸c˜ao, ao inv´es do SPEI que trata de uma diferen¸ca entre precipita¸c˜ao e evapotranspira¸c˜ao. O ´ındice NSM (fig.3.4g) est´a em boa concordˆancia com os ´ındices SPEI e SPI, mas revela intensidades e dura¸c˜ao diferentes para os per´ıodos de seca e per´ıodos h´umidos. Tal facto pode justificar-se por o ´ındice NSM justificar-ser um ´ındice mensal que pondera apenas as anomalias interanuais, estando mais vulner´avel a extremos. Assim verificam-se semelhan¸cas no fim dos anos 70, no in´ıcio e fim da d´ecada de 90, todos per´ıodos de seca.
(a) k=3 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (b) k=3 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (c) k=6 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (d) k=6 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000
(e) k=12 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (f ) k=12 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (g) k=12 -4 -2 0 2 4 N S M 1960 1970 1980 1990 2000 (h) k=24 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (i) k=24 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000
Figura 3.4: S´eries temporais de SPEI (`a esquerda), SPI (centro) e NSM (`a direita), para as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Indore, ´India, per´ıodo de 1961 a 2000.
3.2
Albuquerque
Albuquerque exibe um clima semi-´arido com m´edia anual de precipita¸c˜ao de 216 mm, variando entre as m´edias mensais de -3oC no inverno (m´ınima) e 32oC no ver˜ao (m´axima). As esta¸c˜oes do ano exibem invernos frios; primaveras quentes e ventosas, sendo a esta¸c˜ao mais seca do ano; o ver˜ao apresenta temperaturas altas e baixos valores de humidade relativa. O outono caracteriza-se por dias com elevada amplitude t´ermica, dias quentes e noites frias com reduzida precipita¸c˜ao. Os reduzidos valores de precipita¸c˜ao na escala de acumula¸c˜ao k=3 podem-se observar na figura 3.5a.Verifica-se, como esperado, frequˆencias elevadas de P-PET para o intervalo compreendido entre os -450 e os 0 mm justificando assim o conhecido clima seco da regi˜ao. Com o aumento da escala temporal k tem-se o aumento de frequˆencias de valores de P-PET para intervalos cada vez menores, e tem-se para k=24 frequˆencias unicamente para deficit de precipita¸c˜ao (fig.3.5d).
(a) k=3 -450 -300 -150 0 150 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (b) k=6 -600 -450-300-150 0 150 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (c) k=12 -600 -450 -300 -150 0 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (d) k=24 -600 -450 -300 -150 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET Figura 3.5: Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000.
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
Na an´alise dos histogramas do ´ındice SPEI para Albuquerque denota-se uma bimoda-lidade para k=3 com maior frequˆencia de per´ıodos h´umidos (fig.3.6a). Com o acumular das escalas temporais k a distribui¸c˜ao do ´ındice tende a aproximar-se de uma distribui¸c˜ao gaussiana centrada em zero, para k=12. Para a acumula¸c˜ao a 24 meses pode observar-se uma elevada frequˆencia de per´ıodos de seca e per´ıodos h´umidos entre -1 e 1 com alguma prevalˆencia de per´ıodos h´umidos. Na figura 3.6d observa-se ainda 12% de ocorrˆencia de seca moderada e seca extrema (i ≤ −1.5). Os histogramas do ´ındice SPI mostram para todas as escalas, bimodalidade `a excep¸c˜ao de k=24 onde se tˆem maior frequˆencia do ´ındice para a ocorrˆencia de per´ıodos h´umidos (fig.3.6h). O histograma referente ao NSM (fig.3.6i), apresenta um grande n´umero de eventos entre -1.5 e 0, e uma cauda de valores positivos entre 0 e 3.5. Observam-se maiores frequˆencias de per´ıodos de seca, re-sultado espect´avel tendo em conta que ´e um local inserido num clima ´arido, e pelo NSM se relacionar unicamente com o conte´udo de ´agua no solo.
(a) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (b) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (c) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (d) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (e) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (f ) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (g) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (h) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (i) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a NSM
Figura 3.6: Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000.
As s´eries temporais presentes na figura 3.7 revelam um comportamento semelhante entre o SPEI e o SPI. Para as escalas de acumula¸c˜ao k=3 e k=6 observa-se muitas os-cila¸c˜oes entre per´ıodo curtos, de seca e h´umidos. Na figura 3.7d relativa ao SPI com k=6
observa-se uma maior extens˜ao temporal dos per´ıodos de seca. Note-se em particular, um per´ıodo de seca no fim da d´ecada de 70 da simula¸c˜ao de control, vis´ıvel em ambos os ´ındices quer na escala temporal k=12 e k=24. Observa-se tamb´em uma fraca con-cordˆancia entre os dois ´ındices anteriores e o NSM (fig.3.7g). Neste ´ultimo denotam-se muitas ocorrˆencias de per´ıodos muito h´umidos no in´ıcio da s´erie, n˜ao vis´ıveis nos SPEI e SPI. Por outro lado, revela a partir do fim da d´ecada de 70 da simula¸c˜ao de control per´ıodos longos mas pouco intensos de seca. Estes per´ıodos observados no NSM, n˜ao est˜ao em concordˆancia com o SPEI e SPI que mostram mais per´ıodos h´umidos e mais persistentes. (a) k=3 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (b) k=3 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (c) k=6 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (d) k=6 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (e) k=12 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (f ) k=12 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (g) k=12 -4 -2 0 2 4 N S M 1960 1970 1980 1990 2000 (h) k=24 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (i) k=24 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000
Figura 3.7: S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Albuquerque, per´ıodo de 1961 a 2000.
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
3.3
Hels´ınquia
Hels´ınquia apresenta um clima temperado continental, com m´edia anual de preci-pita¸c˜ao de aproximadamente 650 mm e 70 cm de neve. Os ver˜oes apresentam dias longos e amenos com temperaturas m´edias di´arias de 18oC. Os invernos apresentam tempera-turas mais elevadas do que o esperado para estas latitudes altas (m´edia di´aria de -5oC)
devido `a influˆencia do mar B´altico e da corrente do Golfo Os histogramas para Hels´ınquia de valores acumulados de P-PET revelam mais frequˆencias de ocorrˆencia de superavit de precipita¸c˜ao (fig.3.8). Note-se que para k=3 apresenta-se um pico de frequˆencias entre os 50 e 150 mm indicando que `a escala sazonal h´a bastantes eventos onde a precipita¸c˜ao ´
e superior `a evapotranspira¸c˜ao (fig.3.8a). Tratando-se de um clima n´ordico com tempe-raturas baixas e com poucas horas di´arias a evapora¸c˜ao n˜ao ´e t˜ao elevada o que ´e mais evidente e se pode demonstrar na figura 3.8d para as acumula¸c˜oes k=24 onde se observam reduzidas frequˆencias com deficit de precipita¸c˜ao.
(a) k=3 -300-200-100 0 100 200 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,20 0,24 F r e q u ê n ci a P-PET (b) k=6 -400-300-200-100 0 100200300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,20 0,24 F r e q u ê n ci a P-PET (c) k=12 -200 -100 0 100 200 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,20 0,24 F r e q u ê n ci a P-PET (d) k=24 -300-200-100 0 100 200 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,20 0,24 F r e q u ê n ci a P-PET Figura 3.8: Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000.
Os histogramas de Hels´ınquia referentes aos ´ındices SPEI, SPI e NSM est˜ao presentes na figura 3.9. Observa-se para o SPEI uma distribui¸c˜ao bimodal entre eventos de seca e per´ıodos h´umidos (fig.3.9d), e tem-se para k=24 a prevalˆencia de per´ıodos h´umidos associados ao superavit de precipita¸c˜ao. Nas figuras relativas ao SPI est´a presente bi-modalidade em todas as escalas de acumula¸c˜ao k, sendo que a frequˆencia de ocorrˆencia dominante encontra-se entre valores de ´ındice de -1 a -0.5 para per´ıodos de seca e 0.5 a 1 para per´ıodos h´umidos. Estes valores de ´ındice negativos e positivos est˜ao associa-dos a per´ıoassocia-dos com caracter´ısticas pouco significativas. Por outo lado `a semelhan¸ca com o SPEI o SPI na escala a 24 meses exibe a prevalˆencia de per´ıodos h´umidos (fig.3.9h). Para o NSM tem-se uma distribui¸c˜ao gaussiana centrada em zero, e com a informa¸c˜ao dos histogramas dos ´ındices SPEI e SPI, n˜ao se conclu´ı que Hels´ınquia exiba predominˆancia de per´ıodos de seca ou h´umidos. Os histogramas revelam para qualquer ´ındice e escala um m´aximo de seca extrema de 3%, sendo a seca moderada que exibe maior frequˆencia aproximadamente de 15% para o SPEI, 8% para o SPI e 10% para o NSM.
(a) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (b) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (c) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (d) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (e) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (f ) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (g) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (h) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (i) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a NSM
Figura 3.9: Histogramas do SPEI (em cima), SPI (centro) e NSM (em baixo), de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000.
A an´alise das s´eries temporais de Hels´ınquia (fig.3.10) revela para as escalas de acu-mula¸c˜ao de k=3 e k=6 oscila¸c˜oes de curta frequˆencia para per´ıodos de seca e h´umidos, e destaca-se o SPI que representa para estas escalas per´ıodos de seca e per´ıodos h´umidos ligeiramente mais longos. Nos ´ındices SPEI e SPI observa-se boa concordˆancia na de-termina¸c˜ao dos per´ıodos, variando em intensidade. Pode observar-se para escala de acu-mula¸c˜ao de k=24 que a s´erie apresenta um extenso e intenso per´ıodo de seca na primeira metade, mas com predominˆancia de per´ıodos h´umidos (fig.3.10h e fig.3.10i). Para o NSM observa-se grande variabilidade, mostrando semelhan¸cas com os ´ındices anteriores nos per´ıodos de seca e h´umidos, divergindo na extens˜ao e intensidade das ocorrˆencias.
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca (a) k=3 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (b) k=3 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (c) k=6 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (d) k=6 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (e) k=12 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (f ) k=12 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (g) k=12 -4 -2 0 2 4 N S M 1960 1970 1980 1990 2000 (h) k=24 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (i) k=24 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000
Figura 3.10: S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. Hels´ınquia, per´ıodo de 1961 a 2000.
3.4
S˜
ao Paulo
S˜ao Paulo apresenta um clima subtropical com uma m´edia anual de precipita¸c˜ao de aproximadamente 1370 mm. Apresenta invernos amenos e secos (11oC a 23oC, valores
mensais), e ver˜oes chuvosos com temperaturas moderadamente quentes com m´edia da temperatura m´ınima nos 17oC e m´axima 28oC. O histograma `a escala sazonal mostra elevados valores de evapotranspira¸c˜ao (fig.3.11a). Pode-se observar que S˜ao Paulo `a escala sazonal, nomeadamente no ver˜ao apresenta um balan¸co de P-PET, com evapotranspira¸c˜ao potencial superior, relacionado com regime de chuvas e temperaturas elevadas. Contudo, com o acumular das escalas temporais observa-se uma desloca¸c˜ao da distribui¸c˜ao para valores positivos, exibindo para k=24 valores acima de 1000 mm (fig.3.11d) o que vai de encontro com a caracteriza¸c˜ao do clima da regi˜ao.
(a) k=3 -200 -100 0 100 200 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (b) k=6 -300-200-100 0 100 200 300 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (c) k=12 400 600 800 100012001400 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET (d) k=24 1000 1250 1500 1750 2000 0,00 0,04 0,08 0,12 0,16 0,19 F r e q u ê n ci a P-PET Figura 3.11: Per´ıodos de acumula¸c˜ao de D, de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. S˜ao Paulo, per´ıodo de 1961 a 2000.
Os histogramas referentes ao SPEI revelam para k=3 e k=6 bimodalidade em torno de zero (fig.3.12). Observa-se para a primeira escala de acumula¸c˜ao para o SPEI e SPI elevada frequˆencia de ocorrˆencia entre -1.5 e -0.5 associada a valores de baixa precipita¸c˜ao `
a escala sazonal, com 23% de seca para o SPEI e 30% para o SPI (fig.3.12a e fig.3.12e). Por outro lado, para as restantes escalas de acumula¸c˜ao k observa-se uma distribui¸c˜ao que n˜ao indica prevalˆencia de per´ıodos de seca ou h´umidos. Na figura 3.12i o histograma do ´ındice NSM n˜ao revela predominˆancia de per´ıodos de seca ou h´umidos.
(a) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (b) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (c) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (d) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPEI (e) k=3 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (f ) k=6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (g) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (h) k=24 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a SPI (i) k=12 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 0,00 0,06 0,12 0,18 0,24 0,30 F r e q u ê n ci a NSM
Avalia¸c˜ao da seca global num clima em mudan¸ca
`
A semelhan¸ca com os locais anteriores, para as escalas temporais k=3 e k=6 observa-se maior ocorrˆencia de per´ıodos curtos de seca e h´umidos para os ´ındices SPEI e SPI. Para as escalas de acumula¸c˜ao de k=12 e k=24 observa-se uma distribui¸c˜ao e intensidade similar entre os dois ´ındices para os per´ıodos de seca e per´ıodos h´umidos Em destaque tem-se para S˜ao Paulo e no fim da d´ecada de 60 a seca mais prolongada neste registo de 40 anos, seguidos de per´ıodos curtos (2-3 anos) at´e ao fim da simula¸c˜ao de control. Na figura 3.13g para o NSM observa-se fraca concordˆancia com os ´ındices SPEI e SPI. A s´erie temporal apresenta muitas oscila¸c˜oes de ocorrˆencias de curta dura¸c˜ao e intensidade entre per´ıodos de seca e h´umidos. Ainda assim, apresenta alguns pontos semelhantes ao SPEI e SPI, com menor defini¸c˜ao.
(a) k=3 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (b) k=3 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (c) k=6 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (d) k=6 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (e) k=12 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (f ) k=12 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000 (g) k=12 -4 -2 0 2 4 N S M 1960 1970 1980 1990 2000 (h) k=24 -4 -2 0 2 4 S P E I 1960 1970 1980 1990 2000 (i) k=24 -4 -2 0 2 4 S P I 1960 1970 1980 1990 2000
Figura 3.13: S´eries temporais de SPEI (`a esquerda) e SPI (centro) e NSM (`a direita) de acordo com as escalas temporais k=3, 6, 12 e 24. S˜ao Paulo, per´ıodo de 1961 a 2000.