UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Denise Marília Bruschi
ANÁLISE DO PROGRAMA MINAS SEM LIXÕES:
CONTRIBUIÇÃO À GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS
URBANOS EM MINAS GERAIS, 2003 - 2010
Denise Marília Bruschi
ANÁLISE DO PROGRAMA MINAS SEM LIXÕES:
CONTRIBUIÇÃO À GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS
URBANOS EM MINAS GERAIS, 2003 - 2010
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental.
Área de concentração: Meio Ambiente
Linha de pesquisa: Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos
Orientador: José Francisco do Prado Filho
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Catalogação: [email protected] B912a Bruschi, Denise Marília.
Análise do Programa Minas sem Lixões [manuscrito] : contribuição à gestão de resíduos sólidos urbanos em Minas Gerais, 2003-2010 / Denise Marília Bruschi – 2011.
xxiii, 331f. : il., color.; tab.
Orientador: Prof. Dr. José Francisco do Prado Filho.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Ouro Preto. Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental.
Área de concentração: Resíduos Sólidos
1. Resíduos sólidos - Teses. 2. Gestão ambiental - Teses. 3. Resíduos sólidos urbanos - Minas Gerais - Teses. 4. Política ambiental - Teses. 5. Políticas públicas - Teses. I. Universidade Federal de Ouro Preto. II. Título.
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AGRADECIMENTOS
À minha filha Larissa, que tanto me auxiliou, com carinho e compreensão, durante a elaboração dessa dissertação. À minha filha Lorenza, que estimulou a conclusão do mestrado, com incentivos e colaborações. Vocês são grande orgulho para mim. À minha cadelinha Blume, pela companhia dias e noites afora.
À minha irmã Silvana, que tanto auxiliou e estimulou a conclusão desse trabalho. Aos meus pais e toda a família, pela torcida e carinho para que eu finalizasse esta etapa. Ao Paulo, à Fernanda e à Tatiana, pelo apoio durante todo o tempo dessa construção. Ao Professor Dr. José Francisco, pela dedicação e paciência ao orientar-me e ao apoio para a condução e conclusão deste trabalho.
Ao José Cláudio, pelas oportunidades, em especial, para a realização deste mestrado profissional. Solange e Ivan, pela viabilização e acompanhamento.
À equipe do Programa Minas sem Lixões, pela competência e responsabilidade, e por acreditar na inovação. Este é o registro da contribuição de cada um e de todos nós num trabalho sério que contabiliza tantos resultados.
À Clarinda, que tanto contribuiu para que este trabalho pudesse ser lido com prazer. À Fátima, à Marleize e à Hermita, que tanto apoiaram para que eu tivesse disponibilidade para a conclusão deste trabalho.
À Joicely, que orientou nas adequações normativas deste texto.
Ao Eualdo, à Luíza, Ruth, ao Leonardo Matiolli e à Carla Valéria, pelo apoio na busca e tratamento das informações.
À Mônica, pelas sugestões para a condução desta dissertação. À Noil, que tanto me estimulou para conclusão dessa etapa.
Ao Samuel e ao LEMAF, pela boa vontade e atenção na elaboração e encaminhamento dos mapas e informações georeferenciadas.
Aos colegas e amigos das Superintendências Regionais de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SUPRAMs) que tanto colaboraram para que pudéssemos apresentar resultados positivos e de qualidade.
vi Ao Dr. José Carlos Carvalho, por valorizar e incentivar o Programa Minas sem Lixões. Ao Ilmar e à Alice, que deram oportunidade para a mudança de rumo e melhoria da gestão dos resíduos sólidos urbanos e demais atividades de saneamento no estado. Ao Joaquim, ao Augusto e ao Alexandre, pelo apoio na construção das Deliberações. Ao Dr. Cartelle e demais membros do COPAM, parceiros valorosos na construção e desenvolvimento do Programa Minas sem Lixões.
À Edicleusa e ao Ivan, que tanto colaboraram com dados referentes ao apoio da SEDRU à estruturação dos consórcios intermunicipais no estado.
Aos amigos do CMRR, do SERVAS, do SEBRAE e das Secretarias de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG), do Desenvolvimento Regional e Política Urbana (SEDRU), da Saúde (SES), da SEMAD, e do Programa Estado para Resultados (EpR), que colaboraram para o cumprimento das metas do Programa Minas sem Lixões.
vii Pelo avesso, o lixo é a expressão de uma cidade. Não de sua alma, por certo, mas de seu corpo, daquilo que o reveste por fora e por dentro. É o sintoma de uma cidade, da mesma forma que o produto interno bruto de uma nação ou a renda per capita de um cidadão. O dejeto reflete o padrão econômico, social e cultural de uma cidade. Por isso difere tanto o lixo de Salvador, de New York e de São Paulo. O lixo é problema urbano prioritário e, do ponto de vista político, virou atestado para o governante. Cidade limpa não é apenas cidade civilizada, mas imagem do seu povo e dos seus representantes políticos. O lixo é paradoxal: dá uma idéia de pobreza, embora seja a expressão evidente da riqueza.
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RESUMO
Este trabalho registra o desenvolvimento e os resultados do Programa Minas sem Lixões no período de 2003 a 2010, contextualiza a gestão dos RSU no estado e avalia o desempenho do programa e seu alinhamento com as Políticas públicas federal e estadual de resíduos sólidos. Iniciado em agosto de 2003 pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), o Programa Minas sem Lixões compõe-se de uma série de atividades integradas, que visam a dar apoio técnico, institucional e regulamentar às administrações municipais e regionais de Minas Gerais, para otimização da gestão socioambiental e compartilhada dos resíduos sólidos urbanos (RSU). Sob os pontos de vista técnico e normativo, esta dissertação identifica as contribuições verificadas até o final de 2010, tais como o acréscimo de mais de 5.500.000 de habitantes urbanos com acesso a sistemas de destinação final de RSU regularizados pelo COPAM, devido ao aumento de 30 (3,5%) municípios em 2002, para 233 (27,3%) em dezembro de 2010, percentual muito próximo da média nacional (27,7%), segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNDB, 2008). Também no período, foi verificado que o número de municípios que utilizam lixões caiu de 819 (96%) em 2002, para 313 (36,7%). Por sua vez, um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), da Organização das Nações Unidas (ONU), estabelecem a meta até 2015, de redução em 50% do número de pessoas sem acesso ao saneamento básico, tendo como referência o ano de 1990. Cabe comentar que em Minas o índice de atendimento da população urbana por sistemas de destinação final de RSU encontra-se em 51,9%, e em relação à população total esse índice é de 44,3%, percentuais, portanto, muito próximos da meta da ONU. Ao final deste texto, são identificados e discutidos pontos passíveis de melhoria e redirecionamento do programa que, alinhado com as políticas públicas federal e estadual de resíduos sólidos, deve dar sequência a sua contribuição para a melhoria na qualidade de vida da população mineira.
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ABSTRACT
This paper is an exposition of the development and results achieved by the Minas Without
Waste Dumps Program (between the years 2003 and 2010), a contextualization of the management of municipal solid waste in the state of Minas Gerais, and an evaluation of the effectiveness of the program and its alignment with the federal and state public policies regarding solid waste. Initiated in August of 2003 by the Minas Gerais State Environmental Foundation (FEAM), the Minas Without Waste Dumps Program is based on a series of integrated activities that aim to provide technical and institutional assistance to state
municipalities while also regulating the municipal and regional public administrations located in Minas Gerais in an effort to optimize their co-responsibility in the joint socioenvironmental management of municipal solid waste. Viewed a technical and normative perspective, through dissertation identifies the advancements recorded the end of 2010. These include the increase of 5,500,000 urban inhabitants whose waste is now disposed of in facilities that are recognized and regulated by the State Council for Environmental Policies (COPAM), and the decrease in
the number of municipalities that use waste dumps, from 819 (96%) in 2002, to 313 (36.7%) in 2010. Similarly, one of the United Nations Millenium Development Goals for 2015 is the reduction in 50% of the number of people without access to basic sanitation, considering 1990 as a base year for comparison. Of consequent note is the fact that in the state of Minas Gerais the percentage of the population whose waste is disposed of according to environmentally approved procedures stands at 51.9, while in this regard the country’s percentage stands at 44.3.
These rates clearly stand in close proximity to that stipulated by the United Nations as its goal for the year 2015. Furthermore, this paper describes the program’s efforts to support the implementation of municipal selective waste collection programs and the joint management of municipal solid waste, among other valuable practices. The final passages of this paper not only identify and discuss particular aspects within the program that could be improved, but also a possible redirection of it as a whole, which, if aligned with federal and state public policy on the issue of municipal solid waste, would ensure the continued improvement of the quality of
life of the State’s inhabitants.
x
LISTA DE FIGURAS
Figura 4.1 Contribuição dos subsetores do Setor Resíduos nas emissões de GEE (2005)
... 43
Figura 4.2 Contribuição Setor Resíduos para emissões de GEE, por tipo de gás ... 44
Figura 4.3 Principais estruturas de um aterro sanitário (AS) ... 51
Figura 4.4 Principais estruturas de usinas de triagem e compostagem (UTC) ... 52
Figura 4.5 Detalhes técnicos das fases da compostagem ... 53
Figura 4.6 Principais características construtivas dos aterros controlados ... 56
Figura 4.7 Estrutura operacional da SEMAD e do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SISEMA) ... 60
Figura 4.8 Superintendências Regionais de Regularização Ambiental (SUPRAMs) e municípios sede ... 63
Figura 4.9 Publicação resumo do Projeto Saneamento e cidadania na bacia do rio das Velhas. ... 96
Figura 6.1 Geração percentual de RSU por intervalos populacionais ... 132
Figura 6.2 Geração de RSU por SUPRAM, segundo estratificação por grupo populacional. ... 136
Figura 6.3 Situação de regularização ambiental dos 75 municípios convocados ( julho/2008). ... 154
Figura 6.4 Formulário de coleta de dados de monitoramento de aterros sanitários. .... 166
Figura 6.5 Ficha de Qualificação de aterro sanitário. ... 168
Figura 6.6 Formulário de coleta de dados monitoramento de Usinas de triagem e compostagem. ... 171
Figura 6.7 Ficha de Qualificação de usina de triagem e compostagem ... 175
Figura 6.8 Relatório de monitoramento da operação de usinas de triagem e compostagem de RSU ... 183
Figura 6.9 Operadores e técnicos no seminário de operacionalidade, parte prática. .... 186
Figura 6.10 Manuais de Orientações Básicas para operação de Aterro Sanitário e Usina de Triagem e Compostagem ... 187
xi Figura 6.12 Troféu do Prêmio ICMS é mais de 100 – melhor performance ... 199 Figura 6.13 Troféu do Prêmio Minas sem Lixões ... 200 Figura 6.14 Principais medidas descritas no artigo 2º da DN 52/01, para erradicação dos lixões ... 203 Figura 6.15 Manual e CD Orientações Técnicas para atendimento à DN COPAM n. 118/08 ... 205 Figura 6.16 Formulário de coleta de dados – Depósito de RSU ... 212 Figura 6.17 Arranjo Territorial Ótimo (ATO) de Ouro Preto ... 217 Figura 6.18 Agrupamentos propostos para orientar gestão compartilhada intermunicipal em Minas Gerais ... 218 Figura 6.19 Arranjos Territoriais Ótimos – ATOs de Minas Gerais ... 219 Figura 6.20 Conformação das iniciativas de consorciamento intermunicipal para gestão de RSU ... 223 Figura 6.21 - Recursos disponibilizados pelos Projetos Estrutradores para
xii
LISTA DE TABELAS
Tabela 4.1 - Estratificações dos municípios da bacia do rio São Francisco ... 37
Tabela 4.2 - Distribuição da população urbana dos municípios mineiros sob a abrangência das SUPRAMs e URCs (Censo 2010) ... 62
Tabela 6.1 - Crescimento populacional segundo Censos IBGE 1940 a 2010. ... 130
Tabela 6.2 - Estimativa de geração de RSU por habitante, por porte dos municípios brasileiros ... 131
Tabela 6.3 - Quantidade de municípios e número de habitantes urbanos em cada intervalo populacional em Minas Gerais, segundo o censo IBGE 2010, e as estimativas de geração de RSU ... 131
Tabela 6.4 - Municípios convocados pelo COPAM e a população urbana. ... 135
Tabela 6.5 - Geração estimada de RSU por SUPRAM (kg/dia) ... 138
Tabela 6.6 - Municípios do Grupo 1convocados pelo COPAM ... 141
Tabela 6.7 - Municípios do Grupo 2convocados pela DN COPAM n. 75/04 doCOPAM ... 147
Tabela 6.8 - Municípios convocados pela DN COPAM n. 126/08. ... 157
Tabela 6.9 - Destinação final de RSU adotada pelos municípios mineiros, estratificados por SUPRAM (dezembro/2010). ... 160
Tabela 6.10 – Pontuação do critério “Tempo de inscrição no ICMS” ... 195
Tabela 6.11 – Municípios autuados e multados que assinaram TACs, por SUPRAM . 214 Tabela 6.12 - Acompanhamento da meta de % de atendimento de população urbana com sistemas de destinação de RSU regularizados... 253
Tabela 6.13 - Número de municípios que operaram sistemas de destinação final de RSU, discriminados por SUPRAM e por ano ... 261
xiii
LISTA DE QUADROS
Quadro 4.1 - Principais doenças associadas à má gestão dos RSU ... 48
Quadro 4.2 - Evolução do enquadramento da atividade de gerenciamento ambiental dos RSU ... 69
Quadro 4.3 – Regularização ambiental dos empreendimentos financiados pelo Programa Minas Joga Limpo ... 88
Quadro 4.4 - Situação da gestão de RSU pelos municípios envolvidos no Projeto Saneamento & Cidadania na bacia do rio das Velhas ... 97
Quadro 4.5 - Municípios participantes do PPAGIRS, situação de regularização ambiental e participação em programa de coleta seletiva entre 2004 e 2010 ... 106
Quadro 6.1 - Municípios com Licença de Operação (LO) do COPAM para empreendimentos de destinação final de RSU, em dezembro de 2001 ... 142
Quadro 6.2 - Parâmetros da DN COPAM n. 143/09, para enquadramento da atividade de “Tratamento e/ou destinação final de resíduos sólidos urbanos” ... 180
Quadro 6.3 - Classificação de atividades consideradas potencial poluidoras pela DN COPAM n. 74/04 ... 180
Quadro 6.4 - Monitoramento dos efluentes dos Aterros Sanitários, segundo a Nota Técnica 003/05 ... 181
Quadro 6.5 - Número de seminários de operacionalidade realizados no período de 2004 a 2010 ... 185
Quadro 6.6 - Relatório de Monitoramento de empreendimentos licenciados - campos iniciais ... 188
Quadro 6.7 - Registro e pontuação de informações captadas durante as visitas técnicas. ... 189
Quadro 6.8 - Registro dos dados de automonitoramento ... 190
Quadro 6.9 - Desempenho Operacional de Aterro Sanitário... 193
Quadro 6.10 - Desempenho Operacional de Usinas de Triagem e Compostagem. ... 193
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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AAF - Autorização Ambiental de Funcionamento ABCDE - Ambiente Brasil Centro de Estudos
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas
ABRELPE - Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais
ACMAR - Associação dos Catadores de Material Reciclável da Rancharia AIA - Avaliação de Impacto Ambiental
ALMG - Assembléia Legislativa de Minas Gerais AMM - Associação Mineira de Municípios
ANIP - Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária
AS - Aterro sanitário
ASCAVAP - Associação dos Catadores do Vale do Paraopeba ASCOM - Assessoria de Comunicação
ASPP - Aterros Sanitários de Pequeno Porte
ASTRAPI - Associação de trabalhadores com papel, papelão e materiais recicláveis de Ibirité
ATO - Arranjo Territorial Ótimo
BDMG - Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BNH - Banco Nacional da Habitação
CDTN - Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear CEMPRE - Compromisso Empresarial para a Reciclagem CERH - Conselho Estadual de Recursos Hídricos CESB - Companhia Estadual de Saneamento Básico CETEC - Centro Tecnológico de Minas Gerais
xvi CMRR - Centro Mineiro de Referência em Resíduos
CODEVASF - Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Paranaíba
CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente ConCidades - Conselho das Cidades
CNUMAD - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
COPAM - Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais COPASA - Companhia de Saneamento de Minas Gerais
DBO - Demanda Bioquímica de Oxigênio DEC - Departamento de Engenharia Civil DIMOG - Divisão de Monitoramento (FEAM) DN - Deliberação Normativa
DISAN - Divisão de Saneamento Ambiental (FEAM)
EIA/RIMA - Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental EpR - Estado para Resultados
FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais FCE - Formulário de Caracterização de Empreendimento
FCON - Fator de Consorciamento
FEAM - Fundação Estadual do Meio Ambiente FIEMG - Federação das Indústrias de Minas Gerais FIP - Fundação Israel Pinheiro
FJP - Fundação João Pinheiro
FOB - Formulário de Orientação Básica FQe - Fator de Qualidade
FRe - Fator Redutor
FUNASA - Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde GDL - Gás do lixo
GE - Geração de energia
xvii IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMS - Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre - Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação
IDA - Índice de Desempenho Ambiental IDH - Índice de Desenvolvimento Humano IEC - International Electrotechnical Commission IEF - Instituto Estadual de Florestas
IGAM - Instituto Estadual de Gestão das Águas (MG) ISA - Índice de Saneamento Ambiental (MG) IMRS - Índice Mineiro de Responsabilidade Social
INMETRO - Sistema Nacional de Metrologia e Normalização e Qualidade Industrial INSEA - Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável
ISO - International Organization for Standardization INVRSU - Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Urbanos IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IPT - Instituto de Pesquisa Tecnológica (USP)
LESA - Laboratório de Engenharia Sanitária e Ambiental MCidades - Ministério das Cidades
MI - Ministério da Integração Nacional MJL - Programa Minas Joga Limpo MMA - Ministério do Meio Ambiente
MMPP - Municípios Mineiros de Pequeno Porte
MNCR - Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis
NGA - Núcleos de Gestão Ambiental (das secretarias vinculadas ao COPAM) NT - Nota Técnica
NUCASE - Núcleo Sudeste de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental
ODM - Objetivos de Desenvolvimento do Milênio ONG - Organização Não Governamental
xviii OPAS - Organização Panamericana de Saúde
OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público PAC - Programa de Aceleração do Crescimento
PBSF - Plano de Regionalização Integrada da bacia do rio São Francisco PCA - Plano de Controle Ambiental
PERS - Política Estadual de Resíduos Sólidos PEV - Postos de Entrega Voluntária
PGIRCC - Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos da Construção Civil PGIRS - Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Urbanos PGIRSS - Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos de Serviços de Saúde PLANASA - Plano Nacional de Saneamento
LANSAB - Plano Nacional de Saneamento Básico
PMDI - Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado PMSAS - Projeto Mineiro de Saúde e Ambiente Sustentáveis PMSL - Programa Minas sem Lixões
PNAD - Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios PNMA - Política Nacional do Meio Ambiente
PNMA II - Programa Nacional de Meio Ambiente II PNRS - Política Nacional de Resíduos Sólidos PNSB - Pesquisa Nacional de Saneamento Básico
PNUD - Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento
PPAGIRS - Programa Piloto de Apoio à Gestão Integrada de Resíduos Sólidos PRE-RSU - Plano Preliminar de Regionalização da Gestão de Resíduos Sólidos de
Minas Gerais
RCA - Relatório de Controle Ambiental RCC - Resíduos da Construção Civil
ReCESA - Rede de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental REEE - Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrônicos
RIDE/DF - Região Integrada do Entorno do Distrito Federal RSS - Resíduos de Serviços de Saúde
RSU - Resíduos sólidos urbanos
xix SEDU - Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da
República
SEDRU - Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional e Política Urbana(MG)
SEEJ - Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude SEMA - Secretaria Especial do Meio Ambiente
SEMAD - Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (MG)
SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SEPLAG - Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (MG) SERVAS - Serviço Voluntário de Assistência Social do Estado (MG) SES - Secretaria de Estado da Saúde (MG)
SESI - Serviço Social da Indústria
SFS - Sistema Financeiro de Saneamento
IAM - Sistema Estadual de Informação Ambiental (MG)
SIAFI - Sistema Integrado e Administração Financeira de Minas Gerais SINIMA - Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente
SINIR - Sistema Nacional de Informações sobre Gestão dos Resíduos Sólidos SINISA - Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico
SISNAMA - Sistema Nacional do Meio Ambiente SISEMA - Sistema Estadual de Meio Ambiente (MG)
SLU - Superintendência de Limpeza Urbana de Belo Horizonte SNIS - Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento SNVS - Sistema Nacional de Vigilância Sanitária
SUPRAM - Superintendência Regional de Regularização Ambiental (MG) SUS - Sistema Único de Saúde
TAC - Termos de Ajustamento de Conduta
UCEMG - Coordenação Estadual do Programa Nacional de Meio Ambiente II-MG UFLA - Universidade Federal de Lavras
UFV - Universidade Federal de Viçosa
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância
xx URC - Unidade Regional Colegiada do COPAM (MG)
USAID - Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional UTC - Usinas de Triagem e Compostagem
VISA - Vigilância Sanitária de Minas Gerais
xxi
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 22 2 JUSTIFICATIVA ... 27 3 OBJETIVOS ... 29
3.1 Objetivos Gerais ... 29 3.2 Objetivos específicos ... 29
4 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 30
4.1 Gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos no Brasil e em Minas Gerais ... 30 4.2 Geração dos Resíduos Sólidos Urbanos ... 36 4.3 Resíduos Sólidos Urbanos e principais impactos ... 39
4.3.1 Impactos sobre a qualidade das águas ... 41 4.3.2 Impactos sobre a qualidade no ar ... 41 4.3.3 Impactos sobre a qualidade do solo ... 45 4.3.4 Impactos sociais ... 46 4.3.5 Impactos sobre a saúde ... 47
4.4 Alternativas para destinação final de RSU em Minas Gerais ... 48
4.4.1 Aterro Sanitário (AS) ... 49 4.4.2 Usinas de Triagem e Compostagem (UTC) ... 52 4.4.3 Aterro Controlado ... 54 4.4.4 Lixão ... 57
4.5 Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SISEMA) ... 58 4.6 Regularização ambiental da destinação final de RSU ... 65 4.7 Políticas Públicas Nacionais para gestão dos RSU ... 71
xxii
4.7.6 Leis do ICMS “Ecológico” e do ICMS “Solidário” de Minas Gerais ... 83 4.7.7 Programa Minas joga Limpo ... 87 4.7.8 Política Estadual de Reciclagem de Materiais ... 93 4.7.9 Projeto Saneamento e Cidadania na bacia do Rio das Velhas ... 94 4.7.10 Programa Nacional do Meio Ambiente II (PNMA II) ... 101 4.7.11 Programa Piloto de Apoio à Gestão Integrada de Resíduos Sólidos
(PPAGIRS) ... 103 4.7.12 Política Estadual de Resíduos Sólidos (PERS) ... 107 4.7.13 Programa Minas sem Lixões ... 112 5 MATERIAIS E MÉTODOS ... 125 6 RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 127
6.1 Resultado 1: Convocação ao licenciamento ambiental da destinação de RSU .... 130
6.1.1 Convocação dos municípios do Grupo 1, em dezembro de 2001 ... 140 6.1.2 Convocação dos municípios do Grupo 2, em outubro de 2004 ... 147 6.1.3 Convocação dos municípios do Grupo 3, em outubro de 2008 ... 156
6.1.4 O Monitoramento dos empreendimentos de destinação final de RSU .. 162
6.1.4.1 Visitas técnicas aos empreendimentos regularizados...165 6.1.4.2 Acompanhamento do atendimento aos condicionantes...176 6.1.4.3 Automonitoramento dos empreendimentos licenciados...177
6.1.4.4 Os seminários regionais de operacionalidade dos empreendimentos licenciados...184
6.1.4.5 Relatórios Técnicos anuais de Monitoramento...188 6.1.4.6 Classificação e hierarquização dos empreendimentos em operação...192
6.1.5 Evolução dos municípios cadastrados no ICMS “ecológico” ... 195 6.1.6 Premiações dos municípios que se destacaram na gestão de RSU ... 199
6.2 A Erradicação dos lixões ... 201
6.2.1 Visitas Técnicas e Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) ... 210
xxiii 6.6 Ações correlatas ao Programa Minas sem Lixões ... 229
6.6.1 Inventário de Resíduos Sólidos Urbanos de Minas Gerais (INVRSU) .. 229
6.6.2 Apoio aos programas de coleta seletiva ... 233 6.6.3 Programa Mineiro Saúde e Ambiente Sustentáveis (PMSAS) ... 245 6.6.4 Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR) ... 246
6.7 Consolidação dos resultados do Programa Minas sem Lixões ... 248 6.8 O Programa Minas sem Lixões e as Políticas públicas federal e estadual de
resíduos sólidos ... 269
22
1
INTRODUÇÃO
A crescente geração dos resíduos sólidos urbanos tem-se transformado num dos maiores desafios da gestão ambiental na atualidade. O aumento da população concentrada nas áreas urbanas, o consequente incremento na produção e no consumo de bens e serviços, a falta de reconhecimento dos cidadãos como partícipes responsáveis não só pela geração, mas também pela adequada gestão dos resíduos, além da disseminação da cultura de rápida obsolescência dos produtos, são algumas das principais causas desse desafio.
Agrava ainda mais essa situação o fato de o modelo de regularização ambiental ainda não contemplar a adoção de ações mitigadoras dos impactos causados no pós-consumo dos produtos, o que poderia interferir positivamente na restituição dos resíduos à cadeia produtiva e potencializar a logística reversa.
É recente a conscientização de que os recursos naturais são finitos e de que a má destinação de resíduos sólidos, em especial os classificados como “urbanos”, causa danos ambientais e à saúde pública, assim como é recente a definição de medidas para coibir o aumento desenfreado da geração de resíduos e promover a sua melhor gestão em contraposição ao seu simples afastamento.
Até o final de 2001, o estado de Minas Gerais não dispunha de ordenamento específico para a gestão dos resíduos sólidos urbanos (RSU). Foi em dezembro daquele ano que o Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) fez publicar a Deliberação Normativa (DN) de número 52, que determinou procedimentos para melhoria do manejo dos RSU no estado. Esse instrumento normativo convocou, a princípio, os municípios com população urbana igual ou superior a 50.000 habitantes, portanto os maiores geradores, para providenciarem a implantação e operação de sistemas de destinação final de seus resíduos, em consonância com a Política Ambiental de Minas.
23 até que soluções definitivas, sob os aspectos técnico e ambiental, fossem adotadas. Como eram apenas 30 as soluções licenciadas pelo COPAM até o final de 2001, acredita-se que o número de municípios que dispunham seus RSU em lixões até dezembro daquele ano ficaria em torno de 823, dos 853 municípios do estado.
O artigo 3º da mesma Deliberação orientou na adoção de soluções para gestão de RSU preferencialmente compartilhadas entre municípios. Essa modalidade de gestão é apontada como fundamental para potencializar ganho de escala no manejo dos resíduos, na manutenção e na qualidade dos serviços prestados, além de reduzir o número de áreas utilizadas na destinação final de RSU, consideradas como de grande potencial poluidor. A mesma Deliberação, no seu artigo 4º, vedou a implantação de sistemas de destinação final de RSU em áreas de bacias hidrográficas classificadas como de classe especial e classe 1, com o objetivo de preservar os mananciais de abastecimento público.
Embora a Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) tenha procurado dar ciência às administrações municipais quanto às normas estabelecidas na DN COPAM n. 52/01, constatou-se, no final de 2002, que ocorrera retrocesso na situação já precária da destinação dos RSU identificada em 2001. Optou-se, então, por uma proximidade maior e parceira do Estado com os municípios, buscando assim mobilizá-los e apoiá-los na implantação de soluções tecnicamente indicadas para a melhor gestão dos RSU.
Nesse contexto, a FEAM iniciou, em agosto de 2003, o Programa Minas sem Lixões, conjunto articulado de ações técnicas, estruturantes, normativas e de planejamento, que visam mobilizar as administrações municipais para, com o apoio dos governos federal e estadual, do setor acadêmico, do terceiro setor e da sociedade civil, gerir os RSU de maneira ambiental, econômica e socialmente correta.
Os temas abordados pelos quatro artigos da Deliberação Normativa COPAM n. 52/01 – regularização ambiental; erradicação de lixões; estruturação de consórcios públicos; e preservação de mananciais de abastecimento - são os eixos norteadores do Programa Minas sem Lixões desde o início.
24 COPAM. Isso multiplicou cerca de três vezes o percentual de população urbana atendida por esses sistemas de gestão de RSU em Minas Gerais.
Também a partir de 2003, o governo do Estado começa a adotar a política denominada “Choque de gestão”, que tem como principais objetivos alcançar o equilíbrio fiscal entre receitas e despesas; revisar processos administrativos; instituir parcerias com o setor privado, e avaliar o desempenho das instituições governamentais.
Com esse novo modelo, Minas Gerais passou a ter foco em um conjunto de projetos denominados “Estruturadores”, cujo monitoramento é formal e contínuo, e garante a priorização de recursos do tesouro estadual. No período de 2003 a 2006, foram concebidos 31 Projetos Estruturadores, que numa segunda fase, a partir de 2007, foram aumentados para 57 Projetos.
O Programa Minas sem Lixões integrou os Projetos Estruturadores do Estado desde 2004. Inicialmente como uma das ações do Projeto Estruturador Gestão Ambiental em Minas Gerais no Século XXI, gerenciado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD). A partir de 2007, compõe o Projeto Estruturador Resíduos Sólidos, gerenciado pela FEAM, e desenvolve atividades no âmbito das três ações do projeto: apoio à implantação de sistemas de disposição final adequada - Minas Sem Lixões; implantação de coleta seletiva, reaproveitamento e reciclagem; e apoio à implantação de Planos de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGIRSS).
A ação “manutenção do CMRR e alcance da auto-sustentabilidade” faz parte também das ações do Projeto Estruturador Resíduos Sólidos desde a criação, em 2007, do Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR), que desenvolve programa socioambiental com foco no estímulo à criação de melhores alternativas de trabalho e renda a partir dos resíduos, e deve obter meios para ser autosustentável até dezembro de 2011.
25 2002. Também é meta do Projeto Estruturador a redução, até 2011, de 80% no número de municípios, certamente 819 em dezembro de 2002, que depositavam RSU em lixões. A PNSB (IBGE, 2008) revela que no Brasil os lixões ainda são o destino final dos resíduos sólidos urbanos em 50,8% dos municípios. A região Sudeste apresenta, segundo a pesquisa, um dos menores percentuais (18,7%) de uso desses vazadouros como forma de deposição final de resíduos. Paralelamente, também registra a expansão na adoção de aterros sanitários como uma das soluções para disposição final de RSU, que passou de 17,3% dos municípios brasileiros, em 2000, para 27,7% em 2008.
Em Minas Gerais, até dezembro de 2010, o Programa Minas sem Lixões contabilizou 313 municípios, 36,7% do total do estado, que ainda utilizavam lixões para deposição de RSU, redução significativa considerando que em dezembro de 2002 esse percentual era de 96%. O número de municípios com acesso a soluções regularizadas pelo COPAM para gestão de RSU aumentou de 31 municípios, em dezembro de 2002, para 233 (27,3%) no mesmo mês de 2010, percentual muito próximo da média nacional.
Com as ações do Programa Minas sem Lixões direcionadas para a compatibilização dos diversos interesses que pudessem colaborar para melhores resultados na gestão dos RSU em Minas Gerais, vários foram os instrumentos legais publicados a partir de 2003, os quais orientaram na construção de uma política pública de gestão dos RSU calcada nas peculiaridades e especificidades do estado.
Em janeiro de 2009, a Lei n. 18.031 instituiu a Política Estadual de Resíduos Sólidos (PERS). Embora contemple toda a grade de classificação dos resíduos, além dos considerados urbanos, o texto consolida algumas ações já em desenvolvimento pelo Programa Minas sem Lixões e define novos direcionamentos e instrumentos a serem adotados para otimização da gestão desses resíduos no estado.
26 Diante desse panorama, em que se vislumbram ganhos consideráveis na gestão dos RSU em Minas Gerais entre 2003 e 2010, esta dissertação contextualiza e registra a trajetória temporal do Programa Minas sem Lixões, e descreve as principais ações, estratégias e ferramentas adotadas pela FEAM para estimular as administrações municipais a cumprirem as determinações estabelecidas pelos instrumentos normativos e legais que regem a gestão dos RSU. Permeia todo o texto a medição de resultados por meio da evolução dos dois principais indicadores de desempenho do Programa Minas sem Lixões: aumento percentual da população urbana do estado com acesso a sistemas de destinação final de RSU tecnicamente adequados e devidamente regularizados pelo COPAM; e a redução percentual do número de municípios mineiros onde ainda se utiliza lixão como forma de deposição desses resíduos.
27
2
JUSTIFICATIVA
Diante do panorama precário de destinação final dos resíduos sólidos urbanos (RSU) identificado em Minas Gerais até o ano de 2001, o governo do Estado passou a estabelecer metas e medir resultados que têm agregado ganhos significativos à gestão desses resíduos. A ação inicial, ainda em 2001, foi a publicação da Deliberação Normativa do COPAM n. 52, que instituiu modelo de priorização de ações governamentais para induzir as administrações municipais a adotarem melhores instrumentos de gestão dos RSU.
O número de habitantes nas sedes e a evolução das iniciativas municipais nesse sentido passam a ser os referenciais para o estabelecimento das obrigações a serem cumpridas pelos 853 municípios mineiros. Entretanto, a simples publicação da Deliberação não surtiu os efeitos esperados, já que se observou um retrocesso no gerenciamento de RSU pelas administrações municipais logo no ano seguinte à publicação. Buscando maior efetividade da política ambiental e melhor condução na gestão de RSU no estado, a FEAM desenvolve desde 2003 o Programa Minas sem Lixões.
Em dezembro de 2010, o Programa Minas sem Lixões contabilizou 313 municípios, 36,7% do total do estado, que utilizavam lixões para deposição de RSU. Quando comparado com a situação de dezembro de 2002, ocasião em que eram 819 municípios com lixões, ou seja, 96% do total, esse resultado é satisfatório.
28 Assim, é válido afirmar que esses resultados credenciam o Programa como método estratégico para atingir metas que contribuem para a melhoria da qualidade ambiental e de saúde no Estado. O seu desenvolvimento em parceria com instituições dos vários níveis de governo, com o terceiro setor e também com o envolvimento de outros segmentos da sociedade, molda um formato de atuação de médio e longo prazo, que apresenta transparência e equidade.
29
3
OBJETIVOS
3.1
Objetivos Gerais
Avaliar o desenvolvimento do Programa Minas sem Lixões no período de 2003 a 2010 e registrar sua contribuição para a gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) e instrumento de melhoria da qualidade ambiental no Estado de Minas Gerais.
3.2
Objetivos específicos
Registrar a trajetória e contexto do Programa Minas sem Lixões.
Descrever e analisar principais ações, instrumentos e resultados do Programa Minas sem Lixões.
Sistematizar resultados e verificar sua efetividade, aferida pelos seguintes indicadores: - aumento percentual da população urbana atendida por sistemas de gestão de
resíduos sólidos tecnicamente adequados e regularizados pelo COPAM; e
- redução percentual do número de municípios mineiros que ainda se utilizam dos lixões como forma de deposição desses resíduos.
30
4
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
4.1
Gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos no Brasil e em Minas Gerais
A evolução da humanidade, a partir do aumento populacional, da rápida industrialização (AMORIN, 1996) e do modelo de desenvolvimento vinculado aos padrões de consumo e estilo de vida contemporâneos disseminados pelo capital (MELO, SAUTTER, JANISSEK, 2009), produziu incremento gradativo dos problemas ambientais pela relação predatória do homem sobre a natureza, produzindo volumes cada vez maiores de resíduos cujo manejo foi negligenciado até que se tornou um problema de difícil solução.
A Revolução Industrial, que se consolidou na Inglaterra em meados do século XIX, tornou possível a produção de bens em larga escala. Passou-se do trabalho manual para a produção com máquinas a vapor concentradas em grandes fábricas, o que acarretou profundas transformações sociais e econômicas (MANO, PACHECO, BONELLI, 2005).
Nesse contexto a estrutura produtiva então incipiente trouxe, segundo Magera (2005), nova concepção das relações entre capital e trabalho e desenvolvimento tecnológico, propiciando a expansão das possibilidades de desenvolvimento material, ao afirmar que:
O desenvolvimento tecnológico gera uma melhora de qualidade de vida da humanidade e, consequentemente, um aumento da população mundial, que passa de 1 bilhão de pessoas no ano de 1800, para 6,2 bilhões, em 2002, com um crescimento de 520% em pouco mais de 200 anos, fato que não ocorrera antes visto que, para chegar a seu primeiro bilhão, a humanidade levou mais de 200 mil anos (MAGERA, 2005).
Como resultado desse crescimento, produziu-se e consumiu-se cada vez mais e mais rápido, o que ampliou a geração de resíduos, em especial nas áreas urbanas.
31 Kubitscheck que, em seu Plano de Metas, destinou dois terços dos recursos para estimular os setores de energia e transportes. Houve crescimento da ordem de 370% da indústria de bens de produção, contra 63% da indústria de bens de consumo.
Costa (1994) afirma que 70% dos municípios brasileiros não dispunham sequer dos serviços de abastecimento de água em meados dos anos 50. Formulou-se nessa ocasião o Plano de Serviços Municipais de Abastecimento de Água, com impactos modestos, especialmente pela indefinição das fontes de recurso para a sua instauração. Esse quadro, combinado com a falta de planejamento urbano, provocou o início da crise do saneamento básico nas cidades. Até então eram praticamente nulos os investimentos públicos na limpeza urbana.
O governo militar instaurado no país em 1964 passou a intervir no setor de saneamento e instituiu em 1969 o Plano Nacional de Saneamento (PLANASA), efetivamente iniciado dois anos depois. O PLANASA destinou recursos aos Estados para criação de suas próprias Companhias Estaduais de Saneamento Básico (CESB) que, no entanto, tiveram como meta ampliar o acesso da população somente aos serviços de abastecimento de água e de coleta de esgotos sanitários (ARRETCHE, 2004).
Nesse panorama, o governo de Minas Gerais fundou, em 1963, a Companhia Mineira de Água e Esgotos (COMAG), com a finalidade de executar a política estadual de saneamento básico. A partir de 1974, sua denominação foi alterada para Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA) que, no entanto, concentrou suas responsabilidades, conforme a tendência da ocasião, muito nos serviços públicos de abastecimento de água e pouco no esgotamento sanitário (COPASA, 2010a).
32 Também foi a partir dos anos 80 que se iniciaram as publicações e revisões das legislações referentes aos padrões de qualidade das águas: Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), Portarias do Ministério da Saúde, normas e padrões para a qualidade da água de consumo humano e se intensificaram as publicações das Deliberações Normativas, conjuntas ou independentes, do COPAM e do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERH).
A Constituição de Minas Gerais, de 1989, no artigo 214, determina que “todos têm direito a meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, e ao Estado e à coletividade é imposto o dever de defendê-lo e conservá-lo para as gerações presentes e futuras” (MINAS GERAIS, 2010a).
Em 1994 a Lei Estadual n. 11.720, que instituiu a Política Estadual do Saneamento Básico, orientou no sentido de se efetivar a participação dos órgãos públicos e da sociedade civil na elaboração e execução da oferta de serviços de saneamento para abastecimento de água com qualidade e quantidade que assegurassem condições mínimas de saúde e conforto; coleta e tratamento dos esgotos sanitários; coleta e controle de empoçamento e inundações que possam ser ocasionados pelas águas pluviais; e enfim para coleta, tratamento e disposição ambiental e sanitária adequadas e seguras dos resíduos sólidos urbanos, e controle de vetores de doenças transmissíveis. Como quarta unidade federativa em extensão territorial do país, ocupando uma área de 586.528,29 km2 e com 853 municípios, Minas Gerais apresentava em 94% desses municípios, conforme a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000 (IBGE, 2002), administrações municipais que eram únicas executoras dos serviços de limpeza urbana e coleta de RSU. Essa modalidade de gestão tem permitido o crescimento na oferta dos serviços de coleta à população:
33 Dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, oriundos da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), corroboram com essa tendência de se concentrar esforços na coleta dos RSU ao comemorar 100% de cobertura desses serviços no Brasil.
Nesse contexto o programa Minas sem Lixões, iniciado pela FEAM em 2003, induziu as administrações públicas municipais do Estado a ampliarem a oferta de sistemas de destinação final de RSU ambientalmente adequados que atendiam a 19,3% da população urbana no início do programa para 51,9% em dezembro de 2010, segundo resultados anuais da FEAM.
Foi também a partir de 2003 que o governo do Estado começa a adotar a política denominada “Choque de gestão”, que tem como principais objetivos alcançar o equilíbrio fiscal entre receitas e despesas; revisar processos administrativos; instituir parcerias com o setor privado, e avaliar o desempenho das instituições governamentais. Com esse novo modelo, Minas Gerais passou a ter foco em um conjunto de projetos denominados “Estruturadores”, cujo monitoramento é formal e contínuo, e garante a priorização de recursos do tesouro estadual. No período de 2003 a 2006, foram concebidos 31 Projetos Estruturadores, que numa segunda fase, a partir de 2007, foram aumentados para 57 Projetos.
O Programa Minas sem Lixões integrou os Projetos Estruturadores do Estado desde 2004. A partir de 2007, compõe o Projeto Estruturador Resíduos Sólidos, gerenciado pela FEAM, e desenvolve atividades no âmbito de três ações do Projeto: apoio à implantação de sistemas de disposição final adequada - Minas Sem Lixões; implantação de coleta seletiva, reaproveitamento e reciclagem; e apoio à implantação de Planos de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGIRSS).
34 O Projeto Estruturador Resíduos Sólidos incorporou como meta finalística, até dezembro de 2011, ampliar de 19,3% para 60% o percentual de população urbana atendida por sistemas tecnicamente adequados e devidamente regularizados pelo COPAM no que se refere à destinação final de RSU, tendo como referência a população urbana beneficiada até dezembro de 2002. Foi adotada também como meta do Projeto Estruturador a redução, até 2011, de 80% no número de municípios, sendo que eram 819 em 2002 os municípios que dispunham seus RSU em lixões.
O Programa “Saneamento Básico: Mais Saúde para Todos” coordenado pela COPASA, que também se inclui no rol dos Projetos Estruturadores do governo de Minas, por sua vez tem como objetivo ampliar a cobertura dos serviços de saneamento nos municípios mineiros por meio de convênios firmados entre eles, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional e Política Urbana (SEDRU) e a COPASA. Vem cumprindo a determinação de proporcionar a melhoria das condições sanitárias e de saúde às populações beneficiadas com a implantação de obras sanitárias de água e esgoto nos locais onde constata a precariedade ou inexistência desses serviços (COPASA, 2010b). Quanto à gestão dos RSU, a COPASA tem implantado usinas de triagem e compostagem (UTC) e operacionalizado o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no que se refere à implantação de sistemas de destinação final de resíduos sólidos urbanos, preferencialmente por meio de consórcios públicos. Os projetos contemplados no PAC deverão financiar, principalmente, obras de aterros sanitários, aterros de resíduos da construção civil (RCC), aterros sanitários de pequeno porte (ASPP), postos de entrega voluntária de recicláveis (PEV), áreas de transbordo e triagem de RCC e de resíduos domiciliares, e unidades de triagem e de compostagem (COPASA, 2010a). Ainda segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008 (IBGE, 2010a) 100% dos municípios brasileiros dispõem do serviço de coleta de RSU o que, mais uma vez registra profunda preocupação das administrações municipais e da sociedade no afastamento dos RSU das áreas urbanas, mas não se percebe a mesma atenção quanto às ações de melhoria da destinação final dos RSU.
35 88,2% o uso dessa modalidade de destinação de RSU. A região Sudeste apresenta, segundo a pesquisa, um dos menores percentuais (18,7%) de uso desses vazadouros como forma de deposição final de resíduos. Paralelamente, registrou-se expansão na adoção dos aterros sanitários como uma das soluções adequadas para a gestão de RSU, que passou de 17,3% dos municípios brasileiros, em 2000, para 27,7%, em 2008.
Em Minas Gerais encontram-se em operação soluções para destinação final de RSU operadas tanto de forma individualizada, que atendem a um único município; como de maneira compartilhada entre municípios por meio da formalização de consórcios públicos, ou unidades operadas por empresas privadas prestadoras dos serviços de destinação final.
Em 2009 foi coordenada pela SEMAD e FEAM, por meio de convênio com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a elaboração do Plano Preliminar de Regionalização da Gestão de Resíduos Sólidos de Minas Gerais (PRE-RSU) e do Plano de Gestão Regionalizada da bacia do rio São Francisco. O PRE-RSU contém orientações dos gestores municipais quanto à melhor conformação intermunicipal, os chamados Arranjos Territoriais Ótimos (ATO), para a gestão integrada dos RSU com base na viabilidade econômica e na sustentabilidade regional. Esse Plano propôs 285 agrupamentos e 51 ATOs envolvendo todos os municípios mineiros. Já o Plano de Gestão Regionalizada da bacia hidrográfica do rio São Francisco reestruturou a proposta preliminar com base em dados primários levantados junto à amostra de municípios da bacia.
36
4.2
Geração dos Resíduos Sólidos Urbanos
Ao longo da história da humanidade a idéia de crescimento se confunde com o domínio e transformação da natureza. Nesse paradigma, os recursos naturais são vistos como ilimitados (RIBEIRO, MORELLI, 2009). Nunca, em nenhuma época, o homem foi estimulado a consumir tanto e cada vez mais e seus desejos postos à prova por meio da mídia universalizada, como é agora (MAGERA, 2003). Somente a partir do século XIX, com a consolidação da era industrial e o surgimento das grandes metrópoles, é que se tomou consciência da magnitude do problema e se percebeu a importância da adequada destinação dos RSU (BRANDÃO, 2006).
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Agenda 21, documento que registrou as discussões e diretrizes consolidadas nessa ECO 92, alertava: aproximadamente 5.200.000 – incluindo 4.000.000 de crianças – morrem por ano de doenças relacionadas com o lixo. Metade da população urbana dos países desenvolvidos não tem serviços de despejo de lixo sólido. Globalmente o volume de lixo municipal produzido deve dobrar até o final do século e dobrar novamente antes do ano de 2025 (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS, 2000).
No Brasil, enquanto o crescimento populacional, no período entre 1992 e 2000, foi de 16,4 %, a geração de resíduos sólidos domiciliares foi de 49%, ou seja, três vezes maior (RIBEIRO, e MORELLI, 2009). Satisfatoriamente aquém da metade do percentual de acréscimo estimado em 1992, no entanto, segue como um problema em especial pela má destinação que dada a esses resíduos.
37 Além do volume de resíduos gerados, faz parte da complexidade para a gestão dos RSU a sua composição heterogênea. Ao avaliar os dados obtidos por Velloso (2009 apud MYR, 2009a) fica confirmada a diversidade na composição dos resíduos em Minas Gerais, situação já esperada em função da diversidade de condições climáticas, sociais, culturais e econômicas a que estão submetidas as comunidades geradoras dos RSU. Estudos gravimétricos que subsidiaram a elaboração do Plano Regional de Gestão Integrada da bacia do rio São Francisco em Minas Gerais (MYR, 2009b) identificaram que os RSU na região são compostos, em média, por 33% de recicláveis, 56% de resíduos compostáveis e 11% de rejeitos. Os critérios para estratificação e os resultados de composição gravimétrica encontrados na pesquisa realizada em 18 municípios selecionados em função do mesmo número de combinações entre a população total dos 189 municípios da bacia, o Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS) e a localização do município na porção do baixo, médio ou alto rio São Francisco, constam da TAB. 4.1.
Tabela 4.1 - Estratificações dos municípios da bacia do rio São Francisco
Critérios selecionados Municípios Rejeitos (%)
Matéria Orgânica (%) Recicláveis (%) Número de municípios do Grupo População total ≤ 5.000
IMRS baixo
Médio São Francisco Juramento 8,3 73,8 17,9 14 municípios
População total ≤ 5.000
IMRS baixo Alto São Francisco
Presidente
Kubtischeck 33,1 24,6 42,3 17 municípios
População total ≤ 5.000
IMRS médio Médio São Francisco
Joaquim
Felício 23,3 55,9 20,8 01 município
População total ≤ 5.000
IMRS médio Alto São Francisco
Fortuna de
Minas 16,5 46,5 37,1 23 municípios
5.000 < População total ≤ 10.000
IMRS baixo
Médio São Francisco Japonvar 5,4 19,1 75,6 26 municípios
5.000 < População total ≤ 10.000
IMRS baixo Alto São Francisco
São Gonçalo
do Abaeté 17,7 43,2 39,1 12 municípios
5.000 < População total ≤ 10.000
IMRS médio
Médio São Francisco Guarda Mor 6,4 60,9 32,7 02 municípios
38
Tabela 4.1 -Estratificações dos municípios da bacia do rio São Francisco (conclusão)
Critérios selecionados Municípios Rejeitos (%)
Matéria Orgânica (%) Recicláveis (%) Número de municípios do Grupo 5.000 < População total ≤ 10.000
IMRS médio Alto São Francisco
Varjão de
Minas 10,1 52,7 37,3 19 municípios
10.000 < População total ≤ 20.000
IMRS baixo
Médio São Francisco Itacarambi 15,4 42,4 42,3 15 municípios
10.000 < População total ≤ 20.000
IMRS baixo
Alto São Francisco Felixlândia 12,1 56 32 01 município
10.000 < População total ≤ 20.000
IMRS médio
Médio São Francisco Vazante 7,5 29,2 63,3 01 município
10.000 < População total ≤ 20.000
IMRS médio Alto São Francisco
Carmo do
Cajuru 29,2 44,3 26,6 12 municípios
20.000 < População total ≤ 100.000
IMRS baixo Médio São Francisco
Coração de
Jesus 27,4 34,9 37,7 11 municípios
20.000 < População total ≤ 100.000
IMRS baixo Alto São Francisco
Carmo do
Paranaíba 10 29 61 04 municípios
20.000 < População total ≤ 100.000
IMRS médio
Médio São Francisco Janaúba 14,2 60,9 24,9 05 municípios
20.000 < População total ≤ 100.000
IMRS médio
Alto São Francisco Cláudio 3,3 65 31,7 22 municípios
População total > de 100.000 IMRS médio
Médio São Francisco Montes Claros 5,7 68,6 25,7 01 município
População total > de 100.000 IMRS médio
Alto São Francisco Divinópolis 2,8 63,3 33,9 03 municípios
Fonte: adaptado de MYR, 2009b.
A análise da TAB. 4.1 apresenta resultados curiosos quanto aos percentuais de rejeitos, matéria orgânica e recicláveis que compõem os RSU. Isso comprova que a implantação de qualquer alternativa tecnológica para gestão de resíduos sólidos urbanos deve embasar-se na pesquisa gravimétrica prévia dos resíduos.
39
4.3
Resíduos Sólidos Urbanos e principais impactos
Como os materiais empregados na confecção dos produtos industriais no início da Revolução Industrial eram extraídos na natureza, havia o retorno quase completo dos refugos aos ciclos da Natureza. Assim, toda a produção, que era bastante reduzida, era consumida e sofria degradação natural, com um mínimo de impacto ambiental (MANO, PACHECO, BONELLI, 2005).
No entanto, a partir da última década do século XX e início do século XXI, o impacto provocado pelo ser humano sobre o meio ambiente é mais conhecido e debatido pela sociedade (RIBEIRO, MORELLI, 2009).
Esse novo paradigma gerou a necessidade de produção cada vez maior e mais rápida. As fábricas induziram à urbanização, uma vez que concentraram centenas de trabalhadores, os quais trocavam sua força de trabalho por salário, que revertiam na aquisição de bens de consumo. Dessa forma, foi incrementada a geração de resíduos, em especial nas áreas urbanas.
Culturalmente, no Brasil os resíduos são reconhecidos pela população como materiais inservíveis que compõem os restos das atividades humanas, o que faz com que a preocupação básica se limite ao seu afastamento do ambiente de atuação direta, independentemente da destinação que lhes será dada.
Como conseqüência, percebe-se que a responsabilidade pela gestão desses resíduos tem sido atribuída unicamente às administrações municipais. No Brasil, a organização dos serviços de limpeza urbana foi iniciada tardiamente na cidade do Rio de Janeiro, então capital do país:
40 O processo de urbanização no país é significativo a partir da década de 50. O consumo crescente, o restrito conhecimento técnico e escassez de recursos, a falta de percepção quanto às ações necessárias para manutenção e melhoria da qualidade de vida e de saúde da população, e a pouca eficácia na aplicação de instrumentos de planejamento e de penalização têm estimulado o crescimento do volume dos resíduos gerados, situação agravada nos aglomerados urbanos pela densa concentração e diversidade de impactos que a má gestão pode ocasionar.
As cidades brasileiras convivem com problemas estruturantes para a gestão dos RSU que ultrapassam os impactos diretos sobre o meio físico e os limites municipais, tais como:
- escassez de áreas para destinação final dos resíduos sólidos urbanos;
- conflitos de uso do solo entre a ocupação rural e urbana e as instalações para a destinação final dos resíduos;
- necessidade de criação de sistemas de gestão de resíduos sólidos urbanos integrados compartilhados entre municípios e condução de problemas políticos advindos dessa prática;
- dificuldades técnicas, operacionais e políticas na adoção e manutenção de alternativas técnicas e ambientalmente adequadas para destinação final dos RSU. Essas questões costumam ser limitantes quanto à definição de áreas, cada vez mais escassas, para utilização na destinação final dos RSU.
Além disso, é sabido que o gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos no Brasil ainda é feito de forma precária, sendo registrada grande concentração de esforços na otimização da coleta dos resíduos, e não nas fases pré e pós-coleta. A má gestão desses resíduos pode acarretar contaminação dos solos, poluição do ar, das águas superficiais e subterrâneas, e propiciar a proliferação de vetores de doenças.
41
4.3.1 Impactos sobre a qualidade das águas
Um dos parâmetros mais importantes para a caracterização dos resíduos sólidos urbanos é o teor de umidade da massa de resíduos que, principalmente pela decomposição da matéria orgânica, dá origem a uma mistura líquida de cor escura e odor intenso, o chorume.
Com elevada carga orgânica e composição heterogênea, decorrente da diversidade, qualitativa e quantitativa dos componentes dos materiais descartados como resíduos, o chorume é potencialmente poluente e apresenta risco à saúde pública (D’ALMEIDA, VILHENA, 2000).
Os lençóis de águas subterrâneas e os corpos d’água superficiais podem ser poluídos a partir do contato com o chorume, isso ocorre principalmente por meio do carreamento superficial, da infiltração no solo e da lixiviação dos maciços de resíduos pelas águas pluviais ou mesmo pelas águas naturais não drenadas que permeam as áreas de depósito de resíduos contribuindo significativa para o aumento de vazão e velocidade do fluxo do lixiviado.
Os parâmetros a serem verificados previamente ao descarte do chorume devem atender à Deliberação Normativa Conjunta COPAM/CERH n. 01, de maio de 2008, que estabelece padrões de qualidade das águas e de lançamento de efluentes nos corpos d’água (COPAM, CERH, 2008).
4.3.2 Impactos sobre a qualidade no ar
Da decomposição dos RSU são gerados também os compostos orgânicos que começam a ser consumidos por bactérias estritamente anaeróbias, denominadas metanogênicas que, em ambiente de pH próximo do neutro, entre 6,6 e 7,3, produzem metano (CH4) e
gás carbônico (CO2), gases de efeito estufa, e de odores desagradáveis - mercaptanas e
42 resíduos na fase anaeróbia em ambiente com pH entre 4 e 6 (LIMA, 1995). Esses gases são liberados para a atmosfera por meio de drenos ou fluem pelos interstícios da massa de resíduos causando danos à saúde humana e ao meio ambiente.
Como causa de poluição do ar oriunda do manejo e decomposição dos resíduos sólidos urbanos, D’Almeida e Vilhena (2000) citam:
- espalhamento de materiais particulados (poeiras) e leves pela ação dos ventos sobre o maciço de resíduos não recobertos, ou no momento do descarregamento pelos veículos de transporte, ou mesmo em função da atuação humana no processo de catação;
- poeiras provenientes do tráfego de veículos de transporte e do não recobrimento dos resíduos até as áreas de disposição final, tanto na área urbana durante a coleta, quanto nas vias de acesso às áreas de disposição final;
- fumaça e gases oriundos da combustão inadequada dos resíduos.
Desde julho de 2008, a DN COPAM n. 118 proibiu expressamente o uso de fogo nos depósitos de resíduos sólidos urbanos como forma de combustão desordenada desses resíduos (artigo 2º, inciso XII), bem como a proibição da permanência de pessoas no local para fins de catação de materiais recicláveis (artigo 2º, inciso X).
Essas determinações foram corroboradas pelas Políticas Estadual e Nacional de Resíduos Sólidos, em 2009 e 2010 respectivamente, ao estabelecerem que não poderão ocorrer, sob nenhuma forma, a queima a céu aberto ou em recipientes, instalações e equipamentos não licenciados para essa finalidade pelos órgãos de meio ambiente estaduais. Registra expressamente também, como alternativa inadequada, o lançamento de resíduos a céu aberto, excetuados os resíduos de mineração, e a proibição da prática da catação em depósitos de RSU (MINAS GERAIS, 2009b; BRASIL, 2010a).
43 (CH4) e o ozônio (O3) são conhecidos como gases de efeito estufa (GEE) (MINAS
GERAIS, 2008a).
A temperatura média do nosso planeta seria de aproximadamente -17ºC, em razão do balanço energético da sua superfície com o sol, a atmosfera e o espaço, caso não houvesse a presença do vapor d’água e dos GEE, destacando-se, dentre estes, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O). É graças à presença do vapor d’água e dos gases com características “estufa”, isto é gases “transparentes” às radiações solares, mas capazes de absorver a radiação térmica refletida pela Terra, que a temperatura média do planeta se mantém, atualmente, em torno de 15ºC. Sem o efeito estufa causado por mecanismos naturais, a vida, como se conhece, não poderia existir na Terra (MINAS GERAIS, 2008a).
De acordo com o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Estado de Minas Gerais (IGEE) elaborado com base em dados catalogados em 2005, a concentração de gás carbônico, metano e óxido nitroso tem aumentado de forma significativa na atmosfera.
O Setor Resíduos do IGEE, que compreende os resíduos sólidos urbanos e industriais e os efluentes domésticos, comerciais e industriais, identificou os RSU como a terceira principal fonte de emissões, responsável por cerca de 6% do total. Ainda segundo o inventário, o Setor Resíduos emitiu 7.294 Gg CO2eq, sendo 65% provenientes dos
resíduos sólidos e 35% dos efluentes industriais, domésticos e comerciais. A FIG. 4.1 mostra a distribuição das emissões de GEE por subsetores do Setor Resíduos.
Efluentes Industriais 831,3 Gg CO2eq 11,4%
Esgotos domésticos e comerciais 1.719,6 Gg CO2eq 23,6%
Resíduos sólidos industriais 1.757,3 Gg CO2eq 24,1%
Resíduos sólidos urbanos 2984,8 Gg CO2eq 40,9% Efluentes Industriais 831,3 Gg CO2eq
11,4%
Esgotos domésticos e comerciais 1.719,6 Gg CO2eq
23,6%
Resíduos sólidos industriais 1.757,3 Gg CO2eq
24,1%
Resíduos sólidos urbanos 2984,8 Gg CO2eq
40,9%
44 Nota-se pela verificação da FIG. 4.1 que os resíduos sólidos urbanos contribuíam, em 2005, com 40,9% do total das emissões atribuídas ao Setor Resíduos, o que fortaleceu a necessidade de definição de melhores de alternativas para o subsetor com o objetivo de minimização das emissões de GEE.
O gás do lixo (GDL) é composto em percentual molar por 40 – 55% de metano; 35 – 50% de dióxido de carbono; e de 0 – 20% de nitrogênio. O poder calorífico do GDL é de 14,9 a 20,5 MJ/m3, ou cerca de 5.800 kcal/m3 (SABIÁ et al., 2005). A FIG. 4.2 mostra a contribuição de cada tipo de GEE oriundo do Setor Resíduos emitido para a atmosfera, segundo a configuração urbana e industrial de 2005, objeto do inventário.
CO2 282,0 Gg CO2eq 3,7% N2O 964,4 Gg CO2eq 12,7% CH4 6.328,7 Gg CO2eq 83,5%
CO2282,0 Gg CO2eq
N2O 964,4 Gg CO2eq
CH46.328,7 Gg CO2eq
3,7%
12,7%
83,5%
Figura 4.2 Contribuição Setor Resíduos para emissões de GEE, por tipo de gás Fonte: MINAS GERAIS, 2008a.
Segundo a FIG.4.2, o CH4 foi o principal gás emitido pelo Setor Resíduos, com
participação de 83,5%. O CO2 é considerado o maior responsável pelo efeito estufa,
representando 55% do total de emissões mundiais. Embora a quantidade de metano emitida tenha sido menor, seu potencial de aquecimento é 21 vezes superior ao do CO2.