O QUE OS ÍNDICES NÃO MOSTRAM? O IBEU E A PROBLEMÁTICA HABITACIONAL NA RM DE CAMPINAS-SP
Rafaela Fabiana Ribeiro Delcol
Doutoranda em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. E-mail de contato: [email protected]
INTRODUÇÃO
Com a finalidade de compreender melhor a complexidade urbana que permeia os espaços metropolitanos, instituições e órgãos de pesquisa têm elaborado índices que englobam uma diversidade de temas e assuntos sobre a sua dinâmica. Contudo, o que chama atenção, nesses índices, é que eles trazem como resultado algum tipo de hierarquia e/ou classificação dos espaços estudados e parece que essas classificações não possibilitam uma compreensão da totalidade, pois elas padronizam os espaços dentro da categoria analisada, limitando a abrangência da análise, como também não mostram a contradição do processo de produção atual, que tem como cerne a desigualdade.
Partindo do pressuposto de que o espaço urbano é produzido de acordo com os ditames capitalistas, que em essência produzem a desigualdade, e que, no contexto atual, a cidade é vista como mercadoria, Harvey (2008, p. 76) afirma que a competição entre indivíduos, empresas e porções do território (cidades, regiões, países, grupos regionais) é considerada um benefício primordial para a circulação do capital. Portanto, desvelar as características e as estratégias empreendidas nessa competitividade, via elaboração de índices, nos permite compreender uma das dimensões da produção do espaço enquanto mercadoria.
As ponderações aqui presentes fazem parte da pesquisa de doutorado que vem sendo desenvolvida, intitulada de: “Economia política da Região Metropolitana: A questão habitacional na Região Metropolitana de Campinas - SP”, a qual tem mostrado indicativos de uma dissociação entre o que os índices elaborados na perspectiva
metropolitana têm divulgado como a realidade desses espaços, ou seja, não mostram as contradições do processo de produção do espaço.
Portanto, o objetivo deste texto é estabelecer um diálogo entre um desses índices e a realidade; para tanto, destaca-se aqui o IBEU (Índice de Bem-Estar Urbano), índice que foi divulgado recentemente e obteve uma grande repercussão sobre sua hierarquização; e a maneira como a RM de Campinas tem sido ponderada nesse índice. Esse diálogo foi elaborado de duas maneiras: a primeira, abordando de maneira geral todo o índice e, em seguida, aprofundando para a questão habitacional de Campinas, além de apresentar outros dados e, assim, elaborar uma discussão sobre como a produção do espaço urbano tem sido apreendida pelos índices e as contradições que surgem da relação índice-realidade, ou seja, a relação entre os que estão e os que não estão representados nos índices.
O ÍNDICE DE BEM-ESTAR URBANO (IBEU) E A QUESTÃO HABITACINAL
O INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Observatório das Metrópoles) divulgou o IBEU (Índice de Bem-Estar Urbano) em 2013 - esse índice realiza um comparativo entre 15 regiões metropolitanas do país1. O que se observa com a divulgação do IBEU foi sua ampla repercussão, resultando em uma série de matérias na mídia (impressa e virtual), que buscavam promover a sua publicação, entender a metodologia utilizada pelo índice e destacar a classificação das regiões metropolitanas no IBEU.
Segundo o próprio IBEU, o objetivo desse índice é “avaliar a dimensão urbana do bem-estar usufruído pelos cidadãos brasileiros promovidos pelo mercado, via consumo mercantil e pelos serviços sociais prestados pelo Estado” (RIBEIRO e RIBEIRO, 2013, p. 7). Vale destacar que o estudo promovido pelo IBEU se baseia em dados censitários o que permite alguns questionamentos a respeito do conceito de bem-estar utilizado.
1 As Regiões metropolitanas analisadas foram as de Belém, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba,
Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Grande Vitória, Manaus, Porto Alegre, Recife, RIDE-DF, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Este índice se distingue dos demais em duas perspectivas: primeiramente, é um índice que privilegia elementos de alcance coletivo e não individual, ou seja, aquilo que “a cidade deve proporcionar às pessoas em termos de condições materiais de vida” (RIBEIRO e RIBEIRO, 2013, p. 9), e se distingue, também, pois permite um comparativo entre as regiões metropolitanas e entre os municípios que compõem as regiões metropolitanas. O IBEU foi elaborado sob duas perspectivas: o Global e Local. O IBEU Global foi pensado para o conjunto das regiões metropolitanas, o qual permite comparar as condições de vida urbana em três escalas (entre as metrópoles, entre os municípios metropolitanos e entre os bairros2), e possibilita uma dimensão abrangente de cada região metropolitana. O IBEU Local foi calculado especificamente para cada metrópole e permite identificar o bem-estar urbano em cada uma.
O índice foi estruturado em cinco dimensões: mobilidade urbana; condições ambientais urbanas; condições habitacionais urbanas; atendimento de serviços coletivos urbanos e infraestrutura urbana. Cada uma dessas dimensões contém um conjunto de indicadores, os quais foram elaborados a partir do Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No ranking do IBEU Global a RM de Campinas (RMC) se sobressai, ocupando a primeira colocação, dentre as 15 regiões metropolitanas do país avaliadas pelo IBEU. O índice da RM de Campinas foi de 0,873, em segundo lugar ficou Florianópolis (0,754) e Curitiba (0,721) em terceiro. A posição de destaque da RM de Campinas, pode, contudo, ocultar questões importantes no próprio IBEU, quando passamos à análise de cada uma das cinco dimensões que o compõem, revelando que em algumas a posição de Campinas é preocupante, como as Condições Habitacionais.
Na análise do IBEU Local e, mais especificamente, na dimensão de Condições Habitacionais Urbanas foram analisados cinco indicadores: aglomerados subnormais, densidade domiciliar, densidade morador/banheiro, revestimento das paredes e espécie
2 A designação de bairro, para este estudo, é a mesma denominada pelo IBGE, como área de ponderação
que constitui um conjunto de setores censitários – a menor unidade territorial de coleta de dados durante a realização do censo demográfico.
de domicílio. Nesta dimensão, o índice alcançado pela RM de Campinas foi de 0,791, ocupando a 3ª colocação, atrás apenas de Florianópolis (0,906) e de Curitiba (0,860). Essa dimensão, Condições Habitacionais Urbanas, revela que embora parte significativa das áreas de ponderação - 48 áreas de ponderação, de um total de 114 - estejam classificadas como satisfatórias de bem-estar urbano, o que tem contribuído para seu destaque quando comparada às outras Regiões metropolitanas, há também um percentual das áreas de ponderação que apresentam níveis Médios, 35 áreas, e há as que apresentam níveis ruins de bem-estar urbano, 31 áreas de ponderação, o que abrange mais de 400 mil habitantes, um percentual elevado quando comparado à RM de Campinas.
Ribeiro e Costa (2013) destacam ainda que as desigualdades evidenciadas na áreas de ponderação são proporcionais à média de rendimento mensal dos moradores. Assim:
Quanto maior é o nível de bem-estar urbano, maior também é a média do rendimento de seus moradores: a média do rendimento das pessoas que residem em áreas de nível bom de bem-estar urbano é 2,4 vezes maior que a média de rendimento das pessoas situadas em áreas de nível muito ruim; a média do rendimento das pessoas que moram em áreas de nível muito bom de bem-estar urbano é 4,6 vezes maior que a média do rendimento das pessoas que moram em áreas de nível muito ruim de bem-estar urbano. (RIBEIRO e COSTA, 2013, p. 3-4).
Logo, os autores evidenciam que as pessoas que possuem maior renda desfrutam igualmente de bem-estar urbano melhor e as pessoas que possuem menores rendas enfrentam as piores condições urbanas, ou seja, tais pessoas, além de apresentarem menores condic ões pessoais para viabilizar sua reproduc ão, ainda são penalizadas pelo modo como se distribuem as condic ões objetivas de reproduc ão social na cidade (RIBEIRO e COSTA, 2013).
Outro agravante que deve ser destacado na dimensão Condições Habitacionais Urbanas é o emprego da categoria subnormal utilizada pelo IBGE, que pode vir a mascarar o problema habitacional, pois a categoria subnormal admite como tal apenas os aglomerados que apresentem mais de 51 domicílios, o que nem sempre é a realidade. No município de Campinas, das 234 ocupações irregulares (sejam loteamentos, ou
favelas) encontradas, 42 delas não ultrapassam os 51 domicílios (PMC, 2011) e estão localizadas em áreas menores, em sua maioria públicas, de risco ou destinadas a fins ambientais; essas ocupações, embora classificadas pela prefeitura municipal, foram omitidas do estudo como se não existissem. Ou seja, a categoria subnormal, como é utilizada, contribui para dar invisibilidade ao problema habitacional existente.
A QUESTÃO HABITACIONAL DE CAMPINAS
A RM de Campinas3 é composta por 19 municípios4 e, de acordo com o IBGE (2010), possui uma população de 2.797.137 pessoas. Desse total, segundo o Plano Municipal de Habitação de Campinas (2011), há um déficit habitacional de 169.434 domicílios, entre favelas e loteamentos ilegais, em toda a área metropolitana, como pode ser observado na Tabela 1.
As tipologias mais expressivas se devem aos loteamentos irregulares que seguidos de domicílios em adensamento excessivo e sem banheiro, representam um montante superior a 60% dos problemas habitacionais da RM da Campinas. Tais dados dão a noção de que apesar de estar entre as 3 melhores RM do país na dimensão de habitação pelo IBEU, quase 20% de sua população enfrenta déficit habitacional ou irregularidades em seus domicílios.
Tabela 1 - Déficit habitacional por tipo de moradia na RM de Campinas
Tipo de moradia irregular Quantidade em domicílios
Favelas 30.092
Loteamentos ilegais 67.716
Coabitação 29.991
Adensamento Excessivo e sem banheiro 33.069
Em risco ou passível de remoção 8.566
3 A RM de Campinas foi instituída pela Lei nº 870, de 19 de agosto de 2000. É composta por 19
municípios, são eles: Holambra, Engenheiro Coelho, Santo Antônio de Posse, Pedreira, Artur Nogueira, Jaguariúna, Monte Mor, Nova Odessa, Cosmópolis, Vinhedo, Paulínia, Itatiba, Valinhos, Santa Bárbara d’Oeste, Hortolândia, Indaiatuba, Americana, Sumaré e Campinas.
4 Foi citado apenas 19 municípios, pois, o município de Morungaba foi incorporado à RMC somente em
Total de déficit Habitacional 169.434
Fonte: Plano Municipal de Habitação de Campinas (2011), elaboração própria.
Quando passamos aos dados disponíveis pelo IBGE (2010) sobre o município de Campinas (população total de 1.080.113), verifica-se que é onde tais problemas estão mais acentuados; o município está entre as vinte cidades do país com maior número de aglomerados subnormais, com 10,4% dos domicílios considerados nessa situação (40.099 domicílios de um total de 348.503).
Campinas está entre as dez metrópoles brasileiras com maior proporção de população residente em favelas e ocupações irregulares, segundo Queiroga (2008), com 13,8% de sua população residente nesta situação precária, e ocupa a quarta posição no Estado e, em relação ao país, Campinas está em 15º lugar em população residente nesses aglomerados.
De acordo com o IBGE (2010), Campinas apresenta 148.278 pessoas residentes em aglomerados subnormais, morando em 113 aglomerados subnormais, contudo, como já foi ressaltado, tal categoria se limita aos aglomerados com mais de 51 domicílios. Assim, segundo o Plano Municipal de Habitação (2011), a população residente em favelas, na cidade, era de 160 mil pessoas em 234 núcleos, em 2000, o que equivale a 13,38% do total de habitações, no qual, o déficit habitacional de Campinas é de 65 mil domicílios.
Desse montante, 30.871 domicílios representam déficit habitacional, ou seja, ausência de moradia e 35.537 domicílios representam inadequação habitacional, ou seja, domicílios em áreas precárias. Há ainda uma demanda prioritária de 33. 515 domicílios para a população de baixa renda, como é demonstrado na Tabela 2.
Tabela 2 - Resumo das necessidades habitacionais de Campinas (2010-2023)
Domicílios Total
Déficit Habitacional (quantitativo) 2010
Em assentamentos precários (levantamento próprio) 17.828
Fora de assentamentos precários (Fund. João Pinheiro) 13.043
TOTAL – Déficit Habitacional (Quantitativo) 30.871
Inadequação Habitacional (qualitativo) 2010
Em assentamentos precários (levantamento próprio) 35.537
Demanda Prioritária
(2011-2023) 0 a 3 s.m. 3 a 5 s.m. 22.171 11.344
TOTAL - 0 a 5 s.m. 33.515
Fonte: Plano Municipal de Habitação, elaborado pela DEMACCAMP (2011).
Ao expormos os diversos índices e dados que abordam a temática habitacional em Campinas, evidenciamos que a RM de Campinas tem apresentado resultados expressivos na análise do IBEU Global e Local, ficando em terceiro lugar, dentre as regiões metropolitanas estudadas, contudo, outros dados, como os do IBGE e PMH, apontam para um problema significativo, no que diz respeito à questão habitacional. Deste modo, atentamos para o descompasso entre os índices que distinguem a RM de Campinas como uma das melhores regiões metropolitanas do país e a realidade que tem mostrado o crescente número de pessoas e de domicílios em situações precárias e de carência de moradia.
Esse descompasso nos leva a um grande desafio para os estudos do espaço urbano, pois, de que maneira podemos desvelar a realidade em que as pessoas vivem, se os dados, por si só, não são possíveis de abarcar a totalidade? Os dados acima podem parecer contraditórios, mas respondem a uma lógica. Que lógica é essa?
DISCUSSÃO
O IBEU foi aqui, inicialmente, contraposto com outros dados de Campinas, não porque tais dados são melhores que outros, ou que esses dados são os que devem ser utilizados, principalmente porque muitos dos dados têm por essência a mesma origem, a PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 2010. Entretanto, a forma como eles foram postos nos aproxima mais da realidade da população de Campinas, pois, nos alerta sobre problemas habitacionais existentes, enquanto a hierarquia promovida pelo IBEU parece mais mascarar a realidade, do que trazê-la à tona.
Todavia, a realidade é bem mais complexa, e esse aparente mascaramento/ desconhecimento, por vezes, perpassa todo o conjunto da sociedade, que muitas vezes ignora a realidade e toma tais índices como indiscutíveis. Maricato (1996) relata que:
O desconhecimento da cidade real pelas classes médias e dominantes da sociedade é reforçado pelo seu confinamento a uma área de circulação restrita pelas "ilhas de primeiro mundo". A concentração de infraestrutura e equipamentos urbanos aliados ao mau funcionamento dos transportes públicos, vão determinar a ocupação densa da cidade hegemônica. Esses circuitos fornecem a ilusão de um espaço relativamente homogêneo, contando com comércio e serviços sofisticados. Não é apenas a estrutura administrativa municipal, os cadastros urbanos e o orçamento público que se organizam em função desse espaço restrito. Uma imprensa dedicada ao "estilo de vida" ai existente reforça a ideia predominante que toma o global pela centralidade oficial (MARICATO, 1996, p. 12).
De acordo com a autora, são várias segmentos da sociedade que parecem ignorar que as condições de vida urbana que contribuem para o processo de reprodução social não são relativamente homogêneas; como aponta a maioria dos índices sobre o espaço urbano, são heterogêneas, contraditórias e desiguais.
Ao trabalhar a complexidade desse processo desigual por meio de índices, Santos expressa que “a linguagem dos números é apenas intrigante, já que só aparentemente eles são divergentes. O problema é descobrir os mecanismos infernais de sua lógica, de modo a propor e construir uma outra” (SANTOS, 1994, p. 15).
Os mecanismos que movem a lógica aparentemente divergente dos dados anteriormente apresentados são fundamentados no modo de produção e reprodução capitalista do espaço urbano, que tem por essência a desigualdade. Essa reprodução que é mediada pela propriedade privada, demarca a desigualdade na apropriação e uso do espaço urbano e dos benefícios que distinguem as diversas porções do espaço urbano, resultando em um processo socioespacial que reproduz, lado a lado, espaços de opulência e espaços de pobreza. Assim, enquanto um percentual mínimo da população desfruta de um bem-estar urbano real, do outro lado, um contingente muito maior da população se vê em condições precárias de moradia, emprego, infraestrutura, enfim, de qualquer tipo de bem-estar.
Percebe-se que nas regiões mais industrializadas e urbanizadas, com maior população absoluta, com expressivo desenvolvimento econômico, e que tendem a ser consideradas com melhores condições de vida, como é o caso de Campinas, as desigualdades
socioespaciais tendem a ser mais acirradas, em virtude do modo de produção capitalista, que cada vez mais tem produzido espaços com precariedades múltiplas.
Conforme diagnosticado em um relatório sobre condições de habitação na região, publicado pela AGEMCAMP (2011, p. 97), “embora os municípios da RM de Campinas não possuam os mais graves problemas habitacionais do território brasileiro, em alguns deles verificam-se péssimas condições de habitabilidade”. Campinas, não é, portanto, exceção à regra, apresentando, como já mencionado, diversos problemas relacionados à temática habitacional, principalmente nas porções Sul e Sudoeste, áreas em que predominam os conjuntos habitacionais promovidos pelo Estado, os loteamentos irregulares e as favelas; há, também, carência de serviços públicos e infraestrutura, e expressam os espaços de pobreza da dinâmica capitalista desigual. No modo de produção e reprodução capitalista a cidade é vista como mercadoria. Harvey (1993) insiste na importância da imagem como mercadoria. Assim, a imagem da cidade é uma mercadoria importante. Se, para o capital privado, o investimento em imagem passa a ser tão importante quanto o investimento em máquinas e edifícios, pois, a imagem serve para estabelecer uma identidade; já, para governos que se sustentam em uma distância entre o discurso e a prática, a construção de uma imagem é fundamental (HARVEY, 1993).
Diante disso, tem decorrido uma intensa campanha publicitária, que explora desejos (bairros com infraestruturas no lugar de favelas), cria necessidades (rol da sustentabilidade habitacional) e “atribui o caráter de universal àquilo que é feito em território restrito e limitado, através de cenários ou performances” (MARICATO, 1996, p. 36).
Nesse sentido, a elaboração de índices contribui para a construção de imagens, identidades singulares de espaços, e a RM de Campinas é a que tem melhor índice de bem-estar urbano do Brasil, que se diferencia dos demais, espaços únicos. Contudo, essas imagens, na lógica capitalista, se tornaram, em certo sentido, mercadorias. E, como mercadorias, há uma concorrência entre espaços que levam em consideração os melhores modelos de desenvolvimento econômico, clima de negócios, relações comerciais mais fluídas, ou seja, vantagens competitivas que sejam atraentes para o
mercado. Portanto, ser um espaço que tem ótimos índices de bem-estar urbano pode levar a imagem da RM de Campinas a ter um atrativo a mais para o capital.
Contudo, no âmbito do espaço urbano, há fatos que não são bons nem para a imagem da cidade, nem para o mercado capitalista, a pobreza. Novamente, os índices aqui parecem convergir na direção do sistema capitalista, pois, auxiliam na invisibilidade dos problemas sociais quando abordam questões socioespaciais, como é o caso do IBEU, e legitimam de maneira hierárquica (valorativa) sua análise, na qual a pobreza parece ser ocultada.
Tal ocultamento se deve, também, porque o índice destaca o contingente de pobreza absoluta e não a de pobreza relativa (PMH, 2011). A distância entre a pobreza absoluta e a pobreza relativa pode ser constatada na maioria dos espaços urbanos do país, principalmente nas áreas metropolitanas que apresentam riqueza concentrada e pobreza dispersa. Isso explica, em parte, porque a RM de Campinas, que se destaca nacionalmente em termos de bem-estar urbano, também possui desigualdades internas significativas.
O IBEU, assim como a maioria dos índices, coloca em evidência algumas falhas em sua elaboração, que se devem à própria estrutura estática de produção de dados que não levam em consideração nem uma compreensão histórica prévia dos lugares estudados, nem da totalidade desses lugares e, também, não consideram que os espaços apresentam especificidades, assim como são heterogêneas. A análise desses elementos permitiria diagnósticos mais profundos e contínuos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em síntese, deve-se destacar a importância do IBEU, primeiro, por ser um índice que prioriza as regiões metropolitanas, segundo, porque traz, em sua composição, elementos diretamente relacionados àquilo que o poder público disponibiliza aos moradores das cidades e não ao que eles obtêm por sua própria conta (FIRKOWSKI et. al., 2013); e, também, por ser uma ferramenta de interpretação que, embora não modifique a
realidade, nem consiga abranger a totalidade, pode ser utilizado com o intuito de constatar possíveis problemas e contradições e ser de grande relevância social.
A análise do IBEU da RM de Campinas revela, por um lado, que a maior parte das áreas de ponderac ão estão em condic ões satisfatórias de bem-estar urbano. Contudo, quando nos centramos na análise das questões habitacionais de Campinas, outros dados têm apontado para desigualdades significativas, com uma população de 160 mil pessoas residentes em favelas e um o déficit habitacional de mais 65 mil domicílios.
Nesse sentido, ressalta-se que o ponto importante, que leva a uma aparente divergência dos dados expostos, é a lógica de produção e reprodução capitalista do espaço urbano, que tem por essência a desigualdade, produzindo, assim, espaços em que uma minoria da população desfruta bem-estar urbano real e, do outro lado, um contingente muito maior da população que se vê em condições desprovidas de qualquer bem-estar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FIRKOWSKI, O. L. C. de F.; SILVA, M. N. da; NAGAMINE, L. Y. Repercussões do IBEU na Região Metropolitana de Curitiba. Observatório das Metrópoles, Rio de
Janeiro, 2013. Disponível em:
<http://www.observatoriodasmetropoles.net/images/abook_file/ibeulocal_curitiba.pdf>. Acesso em: 10/04/2014.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1993.
______. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Ed. Loyola, 2008.
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MARICATO, E. Metrópole na periferia do capitalismo: Ilegalidade, desigualdade e Violência. São Paulo: Hucitec, 1996.
QUEIROGA, E. F. A metrópole de Campinas diante da megalópole do Sudeste do Brasil: um olhar dialético-espacial. In: SOUZA, M. A. A. de. A metrópole e o futuro: refletindo sobre Campinas. Campinas: Edições Territorial, 2008. p. 119-135.
RIBEIRO, L. C. Q.; RIBEIRO, M. G. (Orgs.). IBEU: índice de bem-estar urbano. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2013.
RIBEIRO, M. G.; COSTA, G. H. P. IBEU Local: Região Metropolitana de Campinas. Observatório das Metrópoles, Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: <http://www.observatoriodasmetropoles.net/images/abook_file/campinas_ibeulocal.pdf >. Acesso em: 15/04/2014.