PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PARANÁ
COMARCA DA REGIÃO METROPOLITANA DE MARINGÁ - FORO CENTRAL DE
MARINGÁ
7ª VARA CÍVEL DE MARINGÁ - PROJUDI
Avenida Tiradentes, 380 - Centro - Maringá/PR - CEP: 87.013-900 - Fone:
(44)3261-2973
Autos nº. 0010100-88.2013.8.16.0017
Processo: 0010100-88.2013.8.16.0017 Classe Processual: Procedimento Ordinário
Assunto Principal: Práticas Abusivas Valor da Causa: R$1.500,00
Autor(s): Acir Bacon
Réu(s): UNIMED REGIONAL MARINGÁ - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO
/ aforada por ACIR BACON em face de UNIMED REGIONAL DE MARINGÁ –
Declaratória c c Obrigação de Fazer
COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO, já qualificados. .
I SÍNTESE
Consta na inicial (sequência 1.1): ( ) manteve vínculo empregatício com UNICESUMAR (“Centroa
Universitário de Maringá”) entre 1993 a 2011; ( ) quando do contrato de trabalho, aderiub
(automaticamente), e seus dependentes, a “contrato de seguro de saúde”; ( ) os pagamentos à partec
passiva só ocorriam quando usava o plano de saúde, os valores sendo descontados em folha pagamento; ( )d
nunca lhe foi exigido pagamento de mensalidade, até porque não estava previsto contratualmente; ( )e
depois dos 30 (trinta) dias da demissão imotivada (aos 11.2.11), a parte ativa manifestou interesse em
manter o plano, o qeu foi aceito; ( ) em 16.7.12 fez requerimento para transformação em vitalício o plano,f
pelo preenchimento dos requisitos da Lei n. 9.656/98, porém, teve o pedido negado, pela falta de
contribuições mensais no período de vigência do contrato; ( ) o contrato de plano foi encerrado emg
31.5.13; ( ) requer que se condene a parte passiva a manter o plano por prazo indeterminado ou emh
caráter vitalício, nos moldes em que usufruía durante a vigência do contrato de trabalho, ou, alternativamente, com o pagamento integral das mensalidades e encargos. Documentos nas sequências 1.2-1.21.
Na sequência 17.1 foi deferida liminar (sequência 1.1) para estender a vigência desse plano até ulterior
deliberação judicial, independentemente de contraprestações mensais, mas, somente, quando do efetivo uso dos serviços (sequência 37.1), como acontecia durante aquele contrato de trabalho.
Na contestação a parte passiva aduziu (sequência 32.1): ( ) somente tem direito ao “plano aposentado” oa
beneficiário que contribui mensalmente para os planos coletivos de assistência à saúde; ( ) o “planob
aposentado” não se aplica à hipótese de “custo operacional”; ( ) requer a improcedência da demanda, comc
imputação dos ônus sucumbenciais à parte ativa. Documentos nas sequências 32.2-32.6.
Na impugnaçãoà contestação, a parte autora expendeu (sequência 39.1): ( ) a prestação dos serviçosa
perdurou por aproximadamente 10 (dez) meses, depois da extinção do contrato de trabalho; ( ) ab
Resolução n. 279, da ANS, não se aplica ao caso, por só regular fatos posteriores à sua vigência (1.6.12); ( )c
aos 1.6.11 formulou requerimento administrativo para manutenção do plano, quando vigoravam as
resoluções ns. 20 e 21, do CONSU, que não previam ônus de contribuir mensalmente; ( ) cumpre osd
requisitos da Lei n. 9.656/98.
.
II FUNDAMENTOS DE FATO E DE DIREITO.
II.1. PREAMBULARMENTE . . .
II 1 1 Julgamento antecipado
Esta causa comporta julgamento antecipado, a teor do art. 330, inc. I, do CPC, segundo se verá em item próprio (notadamente, no mérito). Ou seja, no caso, o desencadeamento de instrução processual só traria óbices às partes, tendo em vista o tempo e os custos expendidos para realização da perícia técnica.
Destarte, para o desfecho regular desta controvérsia (de seu mérito), não há necessidade, nem sentido ou
conveniência de dilação probatória. Ora, ela se assenta em questões essencialmente de mérito, com os pontos de fato relevantes suficientemente esclarecidos, inclusive, dado aos debates e elementos carreados aos autos.
Destarte, o julgamento antecipado desta demanda realmente se impõe!
II.1.2. Aplicabilidade CDC
O CDC define consumidor como “toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto e/ou serviço
como destinatário final” (art. 2º, caput), e os que se inserem nesse rol ou status por equiparação
(arts. 2º,
parágrafo único, 17 e 29), e como
fornecedor
, quem comercializa produtos e/ou presta serviços (art. 3º,
).
caput
O certo é que as partes se enquadram nos conceitos de consumidor e fornecedor, que enuncia o Código
Consumerista. Com efeito, não se olvida que a parte ativa utilizou o plano de saúde em benefício próprio,
enquadrando-se, assim, como destinatário final fático (em pessoa) e econômico
(ciclo econômico
concluído na pessoa daquela) do serviço prestado, à luz da “teoria finalista”.
Todavia, ainda que outro fosse o entendimento deste Juízo, as 3ª e 4ª Câmaras do egrégio STJ têm
entendido a vulnerabilidade ou hipossuficiência do consumidor como dado determinante à caracterização
da relação de consumo ou do conceito de consumidor, e não necessariamente o requisito da “destinação final”. Nessa linha, a Min. NANCY ANDRIGHI, para quem “a aplicação do CDC municia o consumidor de mecanismos” para “equilíbrio e transparência às relações de consumo, notadamente em face de sua
situação de vulnerabilidade frente ao fornecedor” (veja em
). Em suma, o
http://www.stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398Etmp.texto=99044
STJ pacificou que o CDC é aplicável aos contratos de “plano de saúde”, por sua própria natureza (de trato
e prazo ), não se tratando de retroatividade da legislação consumerista! Nesse rumo, o
sucessivo indefinido
voto do Min. LUIS FELIPE SALOMÃO. Confira:
- ,
Tratando se de contrato de plano de saúde de particular não há dúvidas de que a convenção e as alterações ora analisadas estão submetidas ao
, , ,
regramento do Código de Defesa do Consumidor ainda que o acordo original tenha sido firmado anteriormente à entrada em vigor em 1991 . Isso ocorre não só pelo CDC ser norma de ordem pública (art. 5º, XXXII, da CF), mas também pelo fato de o plano de assistência dessa lei
médico-hospitalar firmado pelo autor ser um contrato de trato sucessivo, que se renova a cada mensalidade ( RESP n. 418.572/SP, Rel. Min. LUISin FELIPE SALOMÃO, DJ de 30.3.09). Os destaques são desta transcrição!
Assim, ao caso se aplicam as disposições do Código de Defesa do Consumidor. Ademais, quanto a aventada
inversão do ônus da prova, descabe deliberações a respeito, na medida em que não influenciará no resultado prático da demanda, conforme se verá adiante.
II.2. MÉRITO
Na sequência 1.1 a parte ativa pugnou pela aplicação, com parcimônia e razoabilidade, da Lei n. 9.656/98 ao caso, com a prevalência dos benefícios adquiridos antes da entrada em vigor dessa Lei, sob a pena de
ofensa a “ato jurídico perfeito”, constitucionalmente tutelado. Mas, tal interpretação
é absolutamente
equivocada, contrária à ordem jurídica pátria.
Com efeito, a Lei n. 9.656/98, assim como as Resoluções editadas pela ANS (verbi gratia, a de n. 279/11), são plenamente aplicáveis aos contratos celebrados a partir da sua vigência, sem prejuízo aos consumidores
com contratos anteriores, que poderão optar por adaptá los- à nova sistemática legal dos planos de saúde
(art. 35, caput), por termo próprio, assinado pelas partes contratantes, de acordo com as normas a serem
(art. 35, § 1º), tendo em vista a natureza jurídica desses pactos (de ).
definidas pela ANS trato sucessivo
Confira:
Aplicam-se as disposições desta Lei a todos os contratos celebrados a partir de sua vigência, assegurada aos consumidores com contratos anteriores, bem como àqueles com contratos celebrados entre 2 de setembro de 1998 e 1 de janeiro de 1999, a possibilidade de optar pela adaptação ao sistemao previsto nesta Lei.
§ 1º [...] a adaptação dos contratos de que trata este artigo deverá ser formalizada em termo próprio, assinado pelos contratantes, de acordo com .
as normas a serem definidas pela ANS
Depreende-se da postulação inicial, que o plano de saúde com que a parte ativa foi agraciada, quando se vinculou em termos empregatícios com a instituição de ensino UNICESUMAR, era na espécie “custo
”, em que o adimplemento de mensalidades é de responsabilidade do (no caso, a
operacional contratante
UNICESUMAR), restando aos beneficiários o pagamento dos valores relativos à efetiva utilização dos
serviços. Por exemplo, nas ocasiões em que o beneficiário o usava para consultas médicas, realização de exames etc, fato incontroverso, tanto que a parte ativa afirma, expressamente, que se enquadrava nessa modalidade assistencial (de saúde).
A Lei n. 9.656/98 é expressa quanto à possibilidade de mantença da condição de beneficiário, mas mesmas
condições da cobertura assistencial da época da vigência do contrato de trabalho, aos aposentados, que
contribuíram para produtos do “Plano Privado de Assistência à Saúde”, a teor dos arts. 30, caput, e 31,
, por
caput prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou
, em prazo indeterminado (art. 1º, inc. I). No entanto, a ANS, no gozo de suas atribuições,
pós-estabelecido
em 24.11.11, editou a Resolução n. 279, que, em caráter específico, não estendeu essas garantias aos
planos a “custo operacional”, porque, em tais casos, a participação do empregado se dá apenas com o pagamento de coparticipação ou franquia em procedimentos (art. 6º, § 1º), isto é, apenas quando da
. Veja:
utilização dos serviços de assistência médica e odontológica
Art. 30, caput - Ao consumidor que contribuir para produtos de que tratam o inciso I e o § 1 do art. 1 desta Lei, em decorrência de vínculoo o empregatício, no caso de rescisão ou exoneração do contrato de trabalho sem justa causa, é assegurado o direito de manter sua condição de beneficiário, nas mesmas condições de cobertura assistencial de que gozava quando da vigência do contrato de trabalho, desde que assuma o seu pagamento integral.
Art. 31, caput - Ao aposentado que contribuir para produtos de que tratam o inciso I e o § 1 do art. 1 desta Lei, em decorrência de vínculoo o empregatício, pelo prazo mínimo de dez anos, é assegurado o direito de manutenção como beneficiário, nas mesmas condições de cobertura assistencial de que gozava quando da vigência do contrato de trabalho, desde que assuma o seu pagamento integral.
Resolução n. 279/11 – Art. 6º - Para fins dos direitos previstos nos artigos 30 e 31 da Lei nº 9.656, de 1998, e observado o disposto no inciso I do artigo 2º desta Resolução, também se considera contribuição o pagamento de valor fixo, conforme periodicidade contratada, assumido pelo empregado que foi incluído em outro plano privado de assistência à saúde oferecida pelo empregador em substituição ao originalmente disponibilizado sem a sua participação financeira. § 1º Os direitos previstos nos artigos 30 e 31 da Lei nº 9 656 de 1998 não se aplicam na hipótese de planos. , ,
- ,
privados de assistência à saúde com característica de preço pós estabelecido na modalidade de custo operacional uma vez que a
, ,
participação do empregado se dá apenas no pagamento de coparticipação ou franquia em procedimentos como fator de moderação na .
utilização dos serviços de assistência médica ou odontológica
Também assim estes precedentes:
CONTRATO DE SEGURO COLETIVO EMPRESARIAL COM PATROCÍNIO FIRMADO ENTRE A OPERADORA DO PLANO E A EMPRESA EMPREGADORA DA AUTORA -RESCISÃO UNILATERAL DO CONTRATO DE TRABALHO SEM JUSTA CAUSA - MANUTENÇÃO DA CONDIÇÃO DE USUÁRIA NAS MESMAS CONDIÇÕES DE COBERTURA ASSISTENCIAL DE QUE GOZAVA QUANDO DA VIGÊNCIA DO CONTRATO DE TRABALHO - IMPOSSIBILIDADE - USUÁRIO QUE NÃO PREENCHE
. . / -
O REQUISITO DE CONTRIBUINTE PREVISTO NO ART 30 DA LEI 9 656 98 SISTEMA DE COPARTICIPAÇÃO DO PLANO QUE NÃO É - / IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL SENTENÇA REFORMADA
-CONSIDERADO COMO CONTRIBUIÇÃO RESOLUÇÃO NORMATIVA 279 2011
RECURSO PROVIDO ( TJPR, n. 1126129-3, Rel. LUIZ OSORIO MORAES PANZA. 9ª Câmara Cível, DJ de 22.5.14). Fonte sem estes destaques!in
SEGUROS. PLANOS DE SAÚDE. MANUTENÇÃO DO PLANO APÓS APOSENTADORIA. IMPOSSIBILIDADE. PECULIARIDADES DO CASO CONCRETO. CONTRATO DE CUSTO OPERACIONAL. REVOGAÇÃO DA ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. AGRAVO DE INSTRUMENTO PROVIDO (in TJRS, AI n. 70052092517, Rel. ANTÔNIO CORRÊA PALMEIRO DA FONTOURA, DJ de 27.6.13, 6ª Câmara Cível).
RECURSO INOMINADO. CONTRATO DE CUSTO OPERACIONAL QUE NÃO SE CONFUNDE COM PLANO DE SAÚDE. INAPLICABILIDADE DA REGRA DO ART. 30 DA LEI Nº 9.656/98. RECURSO ONHECIDO PORQUE TEMPESTIVO. RECURSO IMPROVIDO ( TJRS, n. 71004372777, Rel. ROBERTO BEHRENSDORF GOMES DAin
SILVA, DJ de 21.8.13, 2ª Turma Recursal Cível).
Para os fins da Resolução n. 279, da ANS, em complementariedade à Lei n, 9.656/98, tem-se por qualquer valor pago pelo empregado, inclusive, com os descontos em folha de pagamento,
contribuição
para custeio parcial ou integral da contraprestação pecuniária do plano privado de assistência à saúde, disponibilizado pelo empregador, devido ao vínculo empregatício [...] (art. 2º, inc. I). Destarte, o
pagamento apenas quando da utilização dos serviços não configura contribuição. Vai daí, que se impunha a
negativa de se manter o plano de que trata o art. 6º, dessa Resolução.
Portanto, a partir da Resolução n. 279/11, plenamente aplicável ao caso (vez que os contratos de plano de
saúde são de trato sucessivo), à manutenção da condição de beneficiário do plano de saúde pressupõe o
preenchimento do requisito da ( ) demissão ou exoneração 1 imotivada, e ( ) da 2 contribuição para os
produtos de que trata a Lei n. 9.656/98. Portanto, devido à efetiva cumulatividade desses requisitos é que
a parte ativa nãofaz jus ao benefício vindicado, já que, durante todo o contrato de trabalho apenas
contribuía quando do efetivo uso dos serviços.
o julgador é obrigado a responder, um a um ou todos os argumentos das partes,
Ad argumentandum, não
mas, somente, àqueles suficientes a fundamentar seu convencimento in ( TRE-RN – EDRE n. 828, Rel.
FABIO LUIZ MONTE DE HOLLANDA, DJ de 6.9.08, mutatis mutandis). Assim, as perquirições das partes que
se revelaram irrelevantes não foram objeto de análise expresso neste decisum, por absoluta ausência de
pertinência lógica. Ademais, quanto à possível demora da parte passiva, em responder à postulação da parte ativa (quase dez meses), não é suficiente para afastar a aplicabilidade da Resolução n. 279, da ANS, até pelas peculiaridades do caso. Ou seja, por todos os ângulos que se analise a postulação, a sua
se impõe, vez que a pretensão , realmente, está juridicamente desamparada.
improcedência sub judice
Destarte, a liminar que na sequência 17.1 (complementada na sequência 37.1) resta automaticamente
à parte passiva, a partir do trânsito em julgado deste , oportunidade para
revogada, para se abrir decisum
que busque os ressarcimentos que, eventualmente, lhe couberem (em demanda própria, caso haja a
necessidade de provocação judicial para tanto, a propósito, como no decisum da sequência 17.1 restou
cogitado).
II.3. SUCUMBÊNCIA
A parte autora restou vencida. Assim, à luz da regra da sucumbência e/ou da causalidade, responderá
pelas custas processuais e pelos honorários advocatícios da parte passiva, que, a teor do art. 20, § 4º (às
lides sem condenação), do CPC, arbitro em R$ 800,00 (oitocentos reais), depois de sopesados o grau de
do patrono desta, o aqui efetivamente realizado, o local de sua prestação, a natureza e
zelo trabalho
“importância da causa” e o tempo gasto para a composição desta lide (e, acessoriamente, as alíneas “A” a “C”, § 3º).
.
III DISPOSITIVO
Ante o exposto, julgo improcedentes as pretensões articuladas por ACIR BACON em face de UNIMED
REGIONAL DE MARINGÁ
–
COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO
, já qualificados, o que faço com
fulcro no art. 6º, da Resolução n. 279, da ANS, c/c a Lei n. 9.656/98 (
a contrario sensu)
.
Automaticamente, fica revogada a liminar da sequência 17.1 (complementada na sequência 37.1).
Comunicações devidas.
Os ônus sucumbenciais encontram-se regulados no item II.3, supra, que ora é considerado como parte integrante desta disposição.
, cumpridas todas as recomendações contidas do Código de Normas da egrégia
Oportunamente
Corregedoria-Geral da Justiça deste Estado, arquivem se- estes autos.
Com inclusão desta sentença no sistema PROJUDI, resta publicada. Registro nos termos postos no item
2.20.1.4, do Código de Normas da egrégia Corregedoria-Geral da Justiça deste Estado. Intimem se- .
Maringá, 20 de agosto de 2014. –
JOSÉ CAMACHO SANTOS Juiz de Direito * Documento assinado digitalmente; chancela à direita!