Matutinidade-vespertinidade em crianças e hora do dia: efeitos de
sincronia?
Ana Allen Gomes1, 2, Diana A. Couto1, Hugo Cruz1,3, & Carlos Fernandes da Silva1,2 1. Universidade de Aveiro, Departamento de Educação | PsyLab – Unidade laboratorial Sleep & ChronoLab. Portugal. 2. Unidade de I&D IBILI – Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida (Faculdade de Medicina, Universidade de
Coimbra). Portugal.
3. Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento – CeiED (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa). Portugal
Resumo
A presente comunicação insere-se no simpósio convidado intitulado “Do laboratório para a intervenção psicológica: processos básicos e factores psicossociais”. Neste âmbito, apresentamos uma das linhas de investigação que temos procurado desenvolver na unidade laboratorial Sleep & ChronoLab, pertencente ao PsyLab-Laboratório de Psicologia Experimental e Aplicada da Universidade de Aveiro. Assim, depois de uma introdução às noções básicas sobre matutinidade-vespertinidade e de uma menção breve ao estado da arte sobre o efeito de sincronia, assente na investigação disponível em bases internacionais, passamos a abordar um conjunto de estudos de que somos responsáveis, em curso, através dos quais pretendemos clarificar se existe um efeito de interacção entre o tipo diurno (ou matutinidade-vespertinidade) e a hora do dia, sobre os desempenhos de crianças em instrumentos estandardizados de avaliação de inteligência, de dificuldades de leitura e escrita e de aptidões para as aprendizagens escolares. Se os resultados encontrados forem ao encontro do esperado e sugerirem um “efeito de sincronia” (i.e., melhores desempenhos quando a criança é testada numa hora congruente com o seu cronótipo), então terão importantes implicações para as avaliações psicoeducativas.
Palavras-chave: matutinidade-vespertinidade; cronótipo; hora do dia; efeito de sincronia.
Abstract
This communication is part of the invited Symposium titled "from the laboratory to the psychological intervention: basic processes and psychosocial factors". In this context, we present one research line that we have been developing at the Sleep & Chrono Lab, a laboratorial unit belonging to the PsyLab - Laboratory on Experimental and Applied Psychology of the University of Aveiro. After introducing the basics about morningness-eveningness and circadian rhythms, we briefly mention the state-of-the-art on the synchrony effect research (i.e., time of day x diurnal type effects), by considering published articles available from international bibliographic databases. After that we present a set of ongoing research projects aimed to clarify whether there are any significant interaction effects in children between time-of-day and diurnal type/morningness-eveningness on their performances in standardized measures used to assess intelligence, reading and writing difficulties, and school learning aptitudes. If the results to be found met our expectations, suggesting a “synchrony effect” (i.e., higher performances when children are tested in times of the day congruent with their chronotype), then these will have important implications for psychoeducational assessment.
Keywords: morningness-eveningness; chronotype; time of day; synchrony effect.
Submitted to publication in the Proceedings of the 2nd Congress of the Portuguese College of Psychologists (Ordem dos Psicólogos Portugueses) / IX Ibero-American Congress of Psychology, Lisbon, 9-13 September 2014 [Submetido para publicação no livro de actas do 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses / IX Congresso Iberoamericano de Psicologia, Lisboa, 9-13 de Setembro de 2014]
Matutinidade-vespertinidade e ritmos circadianos Definições e justificação da relevância do tema
O nosso funcionamento diurno é caracterizado por pontos altos e baixos (flutuações) no que respeita ao desempenho de determinadas actividades cognitivas, em virtude da existência de
ritmos circadianos (ritmos endógenos com periodicidade de cerca de 1 dia).Além disso, os seres
humanos apresentam diferenças entre si quanto às horas em que ocorrem os máximos e mínimos dos seus ritmos circadianos, o que se traduz em variações ao longo de um continuum de matutinidade-vespertinidade.
A matutinidade-vespertinidade ou tipo diurno (ou o cronótipo, como frequentemente aparece na literatura) traduz a posição temporal, no nictómero, das acrofases, definindo-se acrofase como a fase ou a hora do dia em que determinada função psicológica ou biológica (ex.: alerta subjectivo e temperatura corporal profunda, respectivamente) atinge o seu máximo/zénite: mais cedo nos matutinos e mais tarde nos vespertinos (cf. e.g. Adan et al., 2012; Gomes, 2006; Silva et al., 1996; 2000). Por seu turno, ritmo pode ser definido por uma sequência bem definida de acontecimentos (ciclo) que se repete na mesma ordem e nos mesmos intervalos (Silva, 2000). É fundamental compreender que, por definição, matutinos e vespertinos não diferem em aspectos quantitativos (ex.: duração de sono), mas sim temporais (ex.: horários de sono), das variáveis estudadas.
Além de se distinguirem em termos de preferências horárias subjectivas, a investigação aponta para diferenças de fase fiáveis e sistemáticas entre matutinos e vespertinos para vários ritmos circadianos (cf. revisões de Kerkhof, 1984 e Adan et al., 2012), destacando-se pela consistência dos achados científicos, em adultos, os seguintes: temperatura corporal profunda, alerta subjectivo, sono-vigília, melatonina e cortisol.
Surpreendentemente, menos se tem investigado sobre as diferenças de fase respeitantes aos desempenhos cognitivos ou aos ritmos psicobiológicos em geral… Talvez por este motivo, nos anos 90 do século XX os psicólogos Leconte e Leconte-Lambert lançavam o seguinte repto (1995, p. 4): “Les psychologues doivent alors faire une chronopsychologie comme les biologistes ont fait
une chronobiologie”. Contudo, decorridas duas décadas desde esta afirmação, o estado de
desenvolvimento da cronopsicologia continua a não ter paralelo considerando os enormes avanços da cronobiologia e seus contributos para outras áreas (psicologia, medicina do sono, educação, … Assim, a afirmação mantém-se válida nos dias de hoje, apontando para a necessidade dos psicólogos desenvolverem mais esta área específica, uma vez que em psicologia é fundamental que sejam reconhecidos os aspectos rítmicos do comportamento humano.
Diferenças inter-individuais e evolução intra-individual ao longo do ciclo de vida
A matutinidade-vespertinidade tem sido conceptualizada como uma característica individual relativamente estável ao longo da vida atendendo aos dados dos estudos longitudinais e apresenta sistematicamente uma distribuição gaussiana (e.g., Kerkhof, 1985). Deste modo, entre os polos mais extremados deste continuum, com “tipos matutinos” por um lado e “tipos vespertinos” pelo outro, situam-se a maioria das pessoas, que poderão ser designadas por “tipos intermédios”, a categoria mais numerosa.
As pontuações de matutinidade-vespertinidade mostram-se quase sempre equivalentes entre sexos, mas modificam-se conforme a idade. Embora em média as crianças e os idosos tenham horários mais matinais (do que os adultos) e os adolescentes tenham horários mais tardios, é incorrecto assumir que crianças e idosos são matutinos ou que adolescentes e jovens adultos são
vespertinos, como se não existissem variações inter-individuais numa análise transversal de cada faixa etária. Assim, ainda que seja frequente dizer-se de modo pouco preciso que a vespertinidade aumenta em adolescentes e jovens adultos e que a matutinidade aumenta com o envelhecimento, não se podem confundir as diferenças inter-individuais com as variações intra-individuais ao longo do ciclo de vida. Com efeito, quando se estudam grupos de indivíduos, as acrofases são em média mais matinais na infância, mais tardias a partir da puberdade (incluindo adolescentes e jovens adultos) e novamente mais matinais com a idade avançada; todavia, ao analisarmos transversalmente as diferenças inter-individuais no posicionamento das acrofases ou as pontuações dos questionários de auto-resposta para medir o tipo diurno, verificamos que estas persistem quaisquer que sejam as idades consideradas. Assim, por exemplo, supor que todas as crianças são matutinas seria tão impreciso como afirmar que são todas baixas em altura.
Além de manter-se relativamente estável ao longo da vida, a matutinidade-vespertinidade é em grande parte independente dos horários impostos aos indivíduos. Assim se compreende que uma pessoa de tipo diurno matutino continue a sê-lo mesmo quando tem de fazer trabalho nocturno, do mesmo modo que pessoas de tipo vespertino mantêm-se enquanto tal mesmo quando têm sistematicamente de cumprir horários matinais na escola ou trabalho. Embora os ritmos circadianos de uns e outros possam adaptar-se em certa medida a um horário não óptimo, quando se comparam matutinos e vespertinos submetidos aos mesmos horários escolares ou laborais subsistem diferenças entre si nas acrofases de vários ritmos circadianos (e.g., temperatura corporal profunda).
Medição
A avaliação do tipo diurno pode ser feita através de medidas biológicas, passando pela recolha, ao longo de um dia, de várias amostras, por exemplo, da temperatura corporal profunda ou da melatonina salivar. Estas medidas, embora mais objectivas, são mais dispendiosas, menos práticas e mais invasivas para os participantes. Por estes motivos, têm sido desenvolvidos questionários de auto-resposta, que mostram correlação com vários ritmos circadianos. Os mais conhecidos e usados são muito provavelmente o Questionário de Matutinidade de Horne e Ostberg (1976) e o Questionário Compósito de Matutinidade (Smith et al., 1989), adaptados para diversas línguas e países. Mais recentemente, tem conhecido também grande aceitação o Questionário de Cronótipo de Munique (Roennenberg et al., 2003).
Entretanto, a partir dos questionários pensados para adultos, têm sido desenvolvidas versões para crianças, habitualmente a partir dos 8-9 anos (e.g., versão de Carskadon & Acebo, 1993). No entanto, só há pouco tempo dispomos de instrumentos para crianças pré-púberes ou ainda mais novas, desde as idades pré-escolares, nomeadamente o Children ChronoType Questionnaire de Werner LeBourgeois, Geiger e Jenni (2009).
Efeitos de (des)sincronia, horas óptimas/não óptimas e tarefas cognitivas
A evidência da existência, quer dos ritmos psicobiológicos, quer de diferenças inter-individuais de tipo diurno, levanta uma questão fundamental: funcionamos do mesmo modo a qualquer hora do dia? Podemos fazer “n’importe quoi, n’import quand” (Reinberg, 1994) ?
O “efeito de sincronia” é uma expressão que surge nos últimos anos na literatura e aplica-se sempre que se registam melhores desempenhos quando a pessoa é testada numa hora congruente com o seu cronótipo (“hora óptima”), do que numa hora incongruente (“hora não óptima”). Mais tradicionalmente, a investigação interessada nas flutuações diurnas do desempenho referia-se ao efeito da hora do dia (time of day).
Não obstante a investigação sobre este efeito remontar aos anos 80 do século XX, os estudos ainda são pouco abundantes. De modo preocupante, tanto as flutuações circadianas dos nossos desempenhos cognitivos, como os cronótipos e mais exactamente o tipo diurno, têm sido largamente ignorados por investigadores e profissionais que conduzem avaliações cognitivas (cf. Schmidt et al., 2007), nas mais diversas áreas da psicologia (e.g., neuropsicologia; psicologia cognitiva; psicologia educacional; gerontopsicologia).
Ao nível da investigação, é necessário reconhecer que abundam os estudos que consideram, ou o efeito do tipo diurno, ou o efeito da hora do dia, sobre os desempenhos. Contudo, muito menos estudos têm averiguado a influência das duas varáveis em simultâneo.
Tomando o caso do efeito de sincronia sobre os desempenhos cognitivos, fizemos uma pesquisa na Scopus usando como palavras-chave “chronotype AND [operador boleano] time of day”. Foram obtidos 47 resultados “brutos” à data de 09/09/2014. Quando seleccionámos especificamente os estudos que incidiam em desempenhos cognitivos, intelectuais ou escolares, o número reduziu-se substancialmente, cerca de uma dezena (embora reconhecendo a dificuldade e artificialidade da distinção entre desempenhos ou variáveis “cognitivos” e “não cognitivos”, excluímos estudos acerca do efeito de sincronia envolvendo: desempenhos motores e desportivos; outras variáveis psicológicas, e.g., humor subjectivo, comportamento moral, mudança de atitudes; variáveis fisiológicas, e.g., respostas cardiovasculares a stressores, sensibilidade à dor). Embora nesta pesquisa constem estudos desde os anos 90 do século XX, apenas no último par de anos se assiste a um franco acréscimo de publicações sobre o efeito de sincronia em geral. Passamos a sistematizar de modo muito resumido os estudos localizados relevantes, ou seja, os que envolviam tarefas “cognitivas” e considerando para além dos resultados da Scopus, alguns outros estudos localizados de outras fontes que já conhecíamos. Os estudos seleccionados são apresentados na Tabela 1, por ordem cronológica, do mais antigo para o mais recente. Todos estes estudos foram realizados em adultos (ou em adolescentes quando especificado) e os resultados são frequentemente significativos no sentido da existência de um “efeito de sincronia” ou de interacção entre hora do dia e tipo diurno sobre os desempenhos.
A investigação sobre o tema em crianças de idade pré-escolar ou escolar (pré-púberes) parece ser extremamente escassa, senão inexistente (p. ex., acrescentando à pesquisa anterior a palavra “children”, surgiram 4 resultados à data de 09/09/2014, nenhum dos quais em crianças pré-púberes). É certo que existem numerosos estudos em crianças sobre as flutuações diurnas dos desempenhos cognitivos (e.g., Barron et al., 1994; Crepon, 1985; Van der Heijden et al., 2010), com destaque para estudos sobre os ritmos escolares do cronopsicólogo Testu (e.g., Testu, 1996, 2008). Existe também, em crianças e adolescentes, um apreciável número de investigações preocupadas com os desempenhos académicos tendo em conta o tipo diurno e as questões dos horários escolares. Mas novamente, sobre o efeito de interacção entre hora do dia e tipo diurno, em particular, não encontrámos nenhum estudo na base de dados Scopus em crianças pré-púberes, talvez devido à inexistência, até anos recentes, de um questionário de medicação simples da matutinidade-vespertinidade validado em crianças não adolescentes. Assim, consideramos de grande importância contribuir para a investigação sobre o efeito de sincronia em geral, e muito particularmente em crianças, onde a lacuna é mais evidente.
Tabela 1: Estudos seleccionados sobre o efeito de sincronia e desempenhos cognitivos
Autores e ano Tarefas / variáveis / medidas
Monk & Leng (1986) Tarefas de detecção de estímulos (“simples”) e de raciocínio lógico (“complexa”)
Anderson et al. (1991) Tarefa envolvendo o acesso à memória a longo prazo Natale & Lorenzetti (1997) Compreensão de leitura
Song & Stough (2000) Medidas de inteligência
Natale, Alzani & Cicogna (2003) Uma tarefa “simples” de detecção visual, envolvendo atenção selectiva; três tarefas “complexas”: raciocínio silogístico, espacial e “critpo-aritmético”
Hidalgo et al. (2004) Vários testes de memória
Goldstein et al. (2007) Medidas de inteligência - subtestes seleccionados da WISC-III [Adolescentes 11-14 anos]
Bennett et al. (2008) Funções executivas
Matchock & Mordkoff (2009) Componentes da atenção (alerting, orienting, and executive components)
Clarisse et al. (2010) Flutuações diurnas da atenção [Adolescentes]
Wieth & Zacks (2011) Resolução de problemas “analíticos” vs. de “insight” (os segundos beneficiam das horas não óptimas, talvez devido a um controlo inibitório diminuído)
Hahn et al. (2012) Em adolescentes de 11-14 anos: Bateria de testes funções executivas [Adolescentes 11-14 anos]
Lara, Madrid & Correa (2014) Tarefas envolvendo controlo executivo sobre a inibição de resposta
Investigações no PsyLab – Laboratório de Psicologia Experimental e Aplicada da UA, directamente relacionadas com o efeito de sincronia em crianças
Em ligação com o PsyLab-Laboratório de Psicologia Experimental e Aplicada da UA (sediado no Departamento de Educação e coordenado pelo último autor do presente trabalho), que acolhe as investigações orientadas pelo pessoal docente afecto à psicologia da UA, por vezes em parceria com equipas de outras universidades ou laboratórios, têm sido desenvolvidas algumas investigações directamente relacionadas com o estudo do efeito de sincronia, ou seja, interessadas em examinar em simultâneo os efeitos do tipo diurno e a hora do dia. Depois de aludirmos às investigações em adultos, incidiremos naquelas que estão a ser conduzidas especificamente em crianças e directamente associadas ao Sleep & ChronoLab (uma das unidades funcionais do PsyLab), que se dedica à psicologia do sono e ao estudo dos aspectos rítmicos do comportamento.
Em adultos, em ligação com o PsyLab foi já concluída uma investigação de doutoramento, cujo orientador principal foi o último autor do presente trabalho, que consistiu num estudo de campo de alguns ritmos de desempenho cognitivo em jovens estudantes universitários matutinos e vespertinos (Moura, 2014). Os perfis de desempenho ao longo dos vários momentos do dia mostraram-se diferentes consoante o tipo diurno dos participantes para diversas variáveis estudadas. Também em adultos, está em curso uma outra investigação de doutoramento, novamente orientada pelo último autor do presente trabalho, acerca dos efeitos da hora do dia e do tipo diurno no contexto da psicologia forense (Bem-Haja, comunicação pessoal).
Especificamente em crianças, foco do presente trabalho, está em curso um amplo projecto financiado pela FCT, intitulado “Matutinidade-Vespertinidade em crianças, hora do dia e seu
impacto em medidas estandardizadas de dificuldades de leitura e escrita” (tendo como investigadora principal a primeira autora desta apresentação). No âmbito da I parte deste projecto, temos trabalhado na versão portuguesa de um questionário que permite avaliar o tipo diurno em crianças pré-púberes (Couto, Gomes, Azevedo, Clemente, Bos & Silva, 2013; Couto, Gomes, Azevedo, Bos, Leitão & Silva, 2014). Na II parte do projecto, procura-se perceber se o efeito de sincronia se manifesta nos desempenhos de crianças em provas estandardizadas comummente usadas na avaliação de dificuldades de leitura e escrita. Como subtema deste projecto mais amplo, está a ser iniciado formalmente um trabalho de doutoramento que incidirá especificamente nas medidas de inteligência em crianças (doutoranda Diana A. Couto, com orientação dos primeiro e último autores desta comunicação). Paralelamente, como projecto de doutoramento independente mas intimamente interligado com o projecto mais amplo, também acolhido na UA, está em curso uma investigação mais focalizada nos desempenhos das crianças em provas de aptidões para as aprendizagens escolares (doutorando Hugo Cruz, com orientação da primeira autora e co-orientação da Professora Doutora Alcina Martins da Universidade Lusófona). Passamos então, nas subsecções seguintes, a apresentar de modo mais detalhado o projecto global financiado pela FCT, bem como cada um dos trabalhos de doutoramento.
Projecto FCT “Matutinidade-Vespertinidade em crianças, hora do dia e seu impacto em medidas estandardizadas de dificuldades de leitura e escrita” (Ref. PTDC/PSI-EDD/120003/2010-FEDER-020756)
Este projecto insere-se na área científica principal da psicologia, mais especificamente da psicologia da educação e desenvolvimento; a área científica secundária corresponde às ciências da saúde, subárea de neurociências - sistemas, clínica e comportamento, da FCT. A equipa actual conta com 1 investigador principal, 6 outros investigadores pertencentes várias universidades nacionais e 1 bolseira com grau de mestrado. A Instituição Proponente e de acolhimento do
projecto é a Universidade de Aveiro e a Unidade de Investigação Principal é o IBILI- Instituto de
Imagem Biomédica e Ciências da Vida (FMUC). No âmbito de uma das amostras da II parte da investigação, o projecto conta ainda com a colaboração da Consulta de Dificuldades Específicas de Aprendizagem – Centro de Desenvolvimento da Criança Dr. Luís Borges - Hospital Pediátrico de Coimbra – Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC).
Os dois grandes objectivos deste projecto são:
I - Estudar a versão definitiva do Questionário de Cronótipo em Crianças - versão portuguesa do Children ChronoType Questionnaire (CCTQ) de Werner et al. (2009), numa amostra nacional de crianças do pré-escolar e do ensino básico, com idades entre os 4 e os 11 anos, por forma a obter um instrumento válido e fidedigno, para medir o tipo diurno (matutinidade-vespertinidade), bem como dados normativos adequados ao nosso país.
II - Examinar, em crianças do 1º CEB (2º ao 4º anos), em que medida a interacção entre cronótipo (tipo matutino versus tipo vespertino) e hora da avaliação (manhã versus tarde) tem impacto sobre as pontuações alcançadas em medidas estandardizadas utilizadas na avaliação psicoeducativa de dificuldades de leitura e escrita.
Dentro do primeiro grande objectivo, correspondente à I parte do projecto, objectivos específicos passaram por estudar a consistência interna do QCTC e a sua estabilidade temporal; determinar pontuações directas e padronizadas em crianças portuguesas; analisar a validade do QCTC examinando a correlação entre as três medidas de cronótipo extraídas do questionário e as suas associações com parâmetros de sono estimados através de actigrafia.
Resumindo os principais resultados apurados até ao momento na I parte do projecto (já publicados sob a forma de abstract e apresentados com mais detalhe sob a forma de
comunicação em painel, cf. Couto et al., 2014), foi apurada uma amostra final de cerca de 3000 crianças (51.1% do sexo masculino), com idades dos 4 aos 11 anos, recrutadas em dez Agrupamentos de Escolas públicos seleccionados aleatoriamente em cada uma das regiões educativas de Portugal Continental.
Para a Escala de Matutinidade/Vespertinidade (M/V) do QCTC (somatório dos itens 17 a 26) encontrámos um coeficiente alfa de Cronbach de .728. Registaram-se intecorrelações moderadas a elevadas entre as três medidas de cronótipo que integram o QCTC, a saber, a já referida Escala M/V, o Ponto Médio de Sono corrigido (PMSc, calculado a partir de várias questões do QCTC, traduzindo a fase do sono) e o item individual de avaliação de cronótipo (CT, item 27 do QCTC). Na amostra global encontraram-se médias de 29.0 (±5.16) na Escala M/V, 3:34 (±42 min) quanto ao PMSc e uma mediana de 3 para o item CT. Estes valores mostraram-se relativamente próximos em comparação com os do estudo original em crianças de Zurique, exceptuando os horários mais tardios na amostra continental portuguesa, como expressos pelo PMSc. Determinámos ainda valores percentílicos provisórios na amostra global no que respeita à Escala M/V – especificamente: P10, P25, P75 e P90. Através destes valores provisórios torna-se possível, quer definir três categorias de tipo diurno (matutinos; intermédios; vespertinos) adoptando os critérios de Werner et al. (2009) baseados somente nos P10 e P90; quer as cinco categorias clássicas propostas por Horne e Ostberg (1976), que fazem uso dos quatro postos percentílicos referidos, designadas por tipos “definitivamente matutinos”, “moderadamente matutinos”, “de nenhum tipo”, “moderadamente vespertinos” e “definitivamente vespertinos” (cf. poster correspondente à referência Couto et al., 2014). Neste momento, temos estado a apurar, por sexo e idade, as pontuações directas e padronizadas (postos percentílicos) definitivas, após a exclusão da amostra final de crianças que se encontram na puberdade.
Para a II parte da investigação, está a ser privilegiado um plano experimental 2x2 inter-sujeitos (VI 1 = cronótipo: matutino versus vespertino; VI 2 = hora do dia de aplicação das provas: manhã versus tarde), com distribuição aleatória de crianças matutinas e vespertinas por sessões de avaliação de manhã versus de tarde. Este plano de investigação corresponde ao chamado “paradigma de investigação baseado no crotótipo”, considerado por Schmidt et al. (2007, p. 761) como o mais apropriado para investigar a influência do relógio biológico e da hora do dia sobre as variações do desempenho. Pretende-se estudar este efeito em duas amostras distintas: uma amostra recolhida em meio escolar de crianças com desenvolvimento típico (sem dificuldades de aprendizagem ou outras); uma amostra recolhida em contexto clínico de crianças com suspeita de dificuldades de leitura e escrita. Ao considerarmos ambas as amostras, esperamos escrutinar em que medida um eventual efeito significativo da interacção entre o tipo diurno e a hora do dia se manifesta em crianças com desenvolvimento típico apenas, somente em crianças que evidenciam dificuldades de leitura e escrita, ou em ambos os casos. Entre outros, são usados instrumentos como a Escala de Inteligência para Crianças de Wechsler (WISC-III) (orig: Wechsler, 1991; versão port.: Simões, Menezes Rocha e Ferreira, 2003), as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (MPCR) (orig.: Raven, 1947; versão port.: Simões, 2002), o Teste de Idade de Leitura (TIL) (Sucena e Castro, 2010), ou a bateria de Avaliação da Leitura em Português Europeu - ALEPE (Sucena e Castro, 2011). Enquanto a recolha da amostra clínica foi iniciada em 2013/14 com a colaboração da equipa da Consulta de Dificuldades Específicas de Aprendizagem (Directora: Prof. Doutora Luísa Diogo) do Centro de Desenvolvimento da Criança Dr. Luís Borges do Hospital Pediátrico de Coimbra - CHUC, a recolha da amostra escolar está a decorrer no presente ano lectivo de 2014/15 no Agrupamento de Escolas de Matosinhos (Directora: Professora Elisabete Ferreira).
Projectos de doutoramento em curso sobre o efeito de sincronia em crianças
Como mencionado, estão em curso dois projectos de doutoramento sobre os efeitos de sincronia em crianças. Um deles inscreve-se na área da psicologia, iniciou-se em 2014/15 e intitula-se “Matutinidade-Vespertinidade em crianças, hora do dia e avaliação da inteligência: existirá um efeito de sincronia?” (doutoranda Diana A. Couto, segunda autora do presente trabalho). Consiste num subtema do projecto geral da FCT, já apresentado, que se centrará especificamente nas medidas de inteligência. Uma vez que esta investigação ainda se encontra numa fase de início de recolha dos dados, passaremos a centrar-nos no próximo projecto.
Desde 2012/13 encontra-se em curso o projecto de doutoramento em educação (psicologia da educação) intitulado “Matutinidade-vespertinidade, hora do dia e desempenho intelectual em alunos do 1º CEB: contributos para pensar a organização dos horários escolares”, desenvolvido pelo bolseiro Hugo Cruz (terceiro autor do presente trabalho). O principal objectivo é analisar as relações entre as preferências diurnas e três tipos de aptidões para a aprendizagem escolar (Compreensão Verbal, Aptidão Numérica e Aptidão Perceptiva Espacial) em diferentes momentos da jornada escolar diária (9h-9h30/11h-11h30/14h-14h30/16h30-17h). Quanto aos instrumentos, foi utilizado o QCTC para medir o tipo diurno, de modo a identificar crianças matutinas, intermédias e vespertinas, e a Bateria de Aptidões para a Aprendizagem Escolar (BAPAE) de Vitória de La Cruz (versão original de 1996, versão portuguesa de 2008 na 3ª edição pela CEGOC-TEA), compreendendo as provas de Compreensão Verbal, Relações Espaciais, Conceitos Quantitativos, Constância da Forma e Orientação Espacial. Em 2013/14 foi recolhida uma amostra de cerca de 800 crianças do 1º ciclo do ensino básico. Dada a receptividade do Agrupamento em que decorreu a recolha, o estudo foi posteriormente alargado a crianças do ensino pré-escolar, através das Provas de Diagnóstico Pré-escolar (PE-PDPE) da mesma autora (De La Cruz, 2012). Neste momento, o projecto encontra-se numa fase de conclusão da cotação das provas e da introdução dos resultados destas na base de dados já preparada para o efeito.
Conclusão e potenciais implicações práticas
Retomando a nossa questão fundamental: será que existe um efeito de sincronia, ou seja, uma interacção significativa entre a matutinidade-vespertinidade em crianças e a hora do dia com impacto em termos de desempenhos cognitivos e escolares? Nos estudos que descrevemos adoptámos um paradigma experimental que nos permitirá retirar conclusões com alguma segurança. Assim, muito em breve estaremos em condições de iniciar a análise dos primeiros dados que nos permitirão delinear algumas respostas àquela interrogação fundamental.
Caso se manifeste o “efeito de sincronia” em crianças, nos projectos que referimos, então isso significará que as pontuações nas provas estandardizadas são sensíveis às influências da interacção cronótipo x hora do dia, acarretando um conjunto de possíveis implicações para os processos de avaliação (psicológica e educacional). Por exemplo, tomando o caso concreto da avaliação psicológica, tão importante no exercício da profissão dos psicólogos: se existir um efeito de sincronia, os processos de avaliação psicológica deverão ter em consideração o tipo diurno para a escolha da hora mais apropriada para a administração das provas. Caso não seja exequível a escolha da hora de aplicação das provas psicológicas, pelo menos será necessário ter em conta o cronótipo e a hora do dia na interpretação dos resultados da criança. Poderá fazer sentido, futuramente, determinar normas para horas óptimas e não óptimas de testagem, nos instrumentos de avaliação psicológica que sejam sensíveis aos efeitos da interacção tipo diurno x hora do dia (à semelhança do que já se faz para o sexo ou o grupo etário, por exemplo).
Trabalho suportado pelo Projecto PTDC/PSI-EDD/120003/2010-FEDER-020756, coordenado pela primeira autora, financiado pela FCT / QREN / Programa COMPETE. Os segundo e terceiro autores usufruem de bolsas individuais da FCT, respectivamente: bolsa no âmbito de projecto PTDC/PSI-EDD/120003/2010-FEDER-020756 - Diana Almeida Couto; bolsa de doutoramento com a ref. SFRH/BD/86577/2012 - Hugo Miguel Fernandes Cruz. Agradece-se também ao Departamento de Educação pelo acolhimento dos projectos, espaços laboratoriais e suporte à impressão de questionários. Uma última palavra especial de agradecimento é devida às crianças e seus encarregados de educação, razão de ser destas investigações, assim como aos vários Agrupamentos de Escolas, suas Direcções e Docentes, pela excelente receptividade e colaboração imprescindíveis na recolha de dados, bem como à instituição parceira do projecto ao nível da recolha da amostra clínica, a Consulta de Dificuldades Específicas de Aprendizagem do Centro de Desenvolvimento da Criança Dr. Luís Borges, Hospital Pediátrico de Coimbra, CHUC.
Contacto para Correspondência
Ana Allen Gomes. Afiliação: Departamento de Educação, Universidade de Aveiro; Unidade de Investigação: IBILI (FMUC). Morada: Campus Universitário de Santiago. 3810-193 Aveiro. Correio electrónico: [email protected]
Referências
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