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ANÁLISE SEMIÓTICA DAS CAPAS DAS REVISTAS VEJA E ÉPOCA: O CASO ISABELLA NARDONI

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Academic year: 2021

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Laura Peruchi Mezari1

Resumo

Este artigo traz algumas considerações sobre as capas das revistas Veja e Época sobre o caso Isabella Nardoni. O estudo fundamenta-se na semiótica e conceitos relacionados. O método utilizado foi qualitativo de descrição. Busca-se identificar quais os signos utilizados e suas diferentes conotações.

Palavras-chave: Semiótica. Signo. Jornalismo de Revista.

INTRODUÇÃO

O assassinato de Isabella Nardoni, ocorrido em 29 de março de 2008, ganhou atenção especial da mídia brasileira. Pela brutalidade com que a menina de 5 anos foi assassinada e pelos principais suspeitos serem o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, o caso ganhou espaço na mídia. De acordo com os laudos divulgados, Isabella teria sido agredida pelo pai e pela madrasta e, em seguida, jogada da janela do apartamento do pai, localizado no sexto andar de um edifício na Zona Norte de São Paulo. Naquele fim de semana, a menina estava sob os cuidados de Alexandre, o que acontecia a cada quinze dias.

Através da imprensa, o público teve acesso a análises, opiniões, laudos, críticas, declarações de especialistas e familiares – uma vasta quantidade de informações. Trata-se de um acontecimento que mexeu com o cotidiano das pessoas, já que muitas famílias colocaram-se no lugar da mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira, manifestando apoio em sua dor pela perda da filha e indignação pela brutalidade de sua morte.

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Bacharel em Jornalismo, Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL.

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O episódio que gerou muita repercussão na imprensa brasileira é vital para que se analise a maneira como os veículos de comunicação fizeram a cobertura do caso. Assim, este artigo tem como tema Análise semiótica das capas das revistas Veja e Época: o Caso Isabella Nardoni, delimitado nas edições de Veja número 2055, de 09/04/2008, e número 2057, de 23/04/2008 - e das edições de Época número 516, de 07/04/2008, e número 522, de 19/05/2008, nas quais o fato foi manchete.

A partir da delimitação do tema, tratando-se de uma análise semiótica e dos sentidos que as capas dos veículos de comunicação podem reproduzir, procura-se perceber que signos são utilizados nas capas e que são percebidos pelos receptores da mensagem. Nas revistas semanais a escolha das imagens utilizadas nas capas é de fundamental importância para chamar a atenção do leitor. Examinar semioticamente o enfoque escolhido pelas revistas e os elementos nelas utilizados traz uma contribuição ao jornalismo, a fim de que se perceba que mensagem é passada ao receptor e de que maneira isso é feito.

Em um caso polêmico como a morte de Isabella Nardoni, essa reflexão se torna ainda mais necessária. Através de uma análise das capas das revistas Veja e Época, pode-se perceber que enfoque foi escolhido, o tipo de conotação e as interpretações que podem ser provocadas no receptor da mensagem, o leitor da revista.

É a teoria semiótica que embasa a análise dos elementos das capas, os signos. Segundo Santaella (2004), trata-se de uma teoria que nos permite analisar o movimento interno das mensagens, o modo como elas são engendradas e os recursos que nelas são utilizados. Ainda segundo a autora, essa ciência traça as linhas através das quais uma análise deve ser conduzida. Entretanto, ela salienta que, para detectar as marcas que o contexto deixa em uma mensagem, é necessário conhecer a história do sistema de signos e do contexto sociocultural em que eles se situam. Para analisar as capas referentes ao caso Isabella, é necessário levar em conta o período que estas abrangem, bem como toda a repercussão que o assassinato provocou.

A autora (2004, p. 59) ainda explica, numa concepção geral, que a semiótica é uma teoria voltada ao estudo de todos os tipos de signos, códigos, sinais e linguagens. Assim, ela permite aos seus estudiosos compreender mensagens

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explícitas e implícitas em palavras, imagens e sons. “Além disso, a semiótica estuda os processos de comunicação, pois não há mensagem sem signos e não há comunicação sem mensagem”. Dessa maneira, a semiótica auxilia na compreensão do potencial comunicativo das mensagens, bem como nos efeitos que estas podem produzir nos receptores.

Mas a semiótica fornece apenas as diretrizes através das quais uma análise deve ser conduzida. Sem conhecer a história de um determinado conjunto de signos e suas características socioculturais, não se pode perceber que marcas esse conjunto traz em si. “Em suma, a semiótica não é uma chave que abre para nós milagrosamente as portas de processos de signos cuja teoria e prática desconhecemos” (SANTAELLA, 2004, p. 6).

Os signos estudados pela teoria semiótica podem ser verbais e não-verbais. No processo de comunicação, são utilizados dois tipos de linguagem: a verbal e a não-verbal. De acordo com Alcure, Ferraz e Carneiro (1996, p. 8), “a linguagem é uma construção da razão, uma invenção do sujeito para poder aproximar-se da realidade”. As autoras afirmam que as duas formas de comunicação – verbal e não-verbal – são campos complementares e que, na prática, é impossível separá-los. Eles se complementam. Santaella (2006, p. 11) reforça o conceito, explicando que linguagem refere-se a uma infinidade de formas de comunicação e significação. “[...] todos os sistemas de produção de sentido aos quais o desenvolvimento dos meios de reprodução de linguagem propiciam hoje uma enorme difusão”.

As capas de revistas, objetos deste artigo, unem linguagem verbal e não-verbal.

Segundo Scalzo (2003, p. 11-12), “uma revista é um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento”. Vilas Boas (1996, p. 15) afirma que a revista semanal é o veículo que preenche vazios deixados pela cobertura dos jornais, rádio e televisão. “A revista [...] procura também ‘rever’ o que já foi visto na semana”.

As capas podem ser consideradas “vitrines” das revistas. São elas que chamam a atenção do leitor, convidam à leitura, despertam – ou não – o interesse. Scalzo (2003, p. 62) afirma que “uma boa revista precisa de uma capa que a ajude a

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conquistar leitores e os convença a levá-la para casa”. Ela precisa, portanto, ser um resumo irresistível de cada edição. Vilas Boas (1996, p. 101) completa o conceito ao afirmar que “as revistas de informação geral chegam às bancas do mesmo modo que um sabonete ao supermercado. Por isso precisam de atrativos que as diferenciem do jornalismo dinâmico e veloz de todos os dias”.

Segundo Scalzo (2003, p. 63), não há fórmula ou regra que defina como uma boa capa deve ser produzida. Mas, segundo a autora, “notícias quentes e exclusivas vão sempre redundar em capas fortes e chamativas”. A autora (2003, p. 67) ainda explica que “é o universo de valores e de interesses dos leitores que vai definir a tipologia, o corpo do texto, a entrelinha, a largura das colunas, as cores, o tipo de imagem e a forma como tudo isto será disposto na página”. Vilas Boas (1996, p. 72) concorda. Para ele, deve-se sustentar o interesse do leitor. “Daí se produzir uma capa com os atrativos de uma embalagem, e não apenas um julgamento de importância jornalística”.

OS SIGNOS NA COBERTURA DO CASO ISABELLA

REVISTA ÉPOCA – EDIÇÃO Nº. 516

É na edição da revista Época, com data de 7 de abril de 2008, que o caso da morte da menina Isabella Nardoni é abordado pela primeira vez. A capa apresenta-se com três pequenas chamadas na parte superior e o assunto da chamada principal é o caso Isabella. Há uma foto da menina no centro da capa. Ela está sorrindo, com as mãos no rosto. Essa imagem está encaixada em um fundo preto. Abaixo, entre aspas, há uma declaração como título: Nossa flor tão amada. Nunca vamos entender o porquê. Após o título, há uma linha de apoio com a explicação, em letras menores, citando a autoria da declaração-título: Cristiane, tia e madrinha de Isabella Nardoni, assassinada aos 5 anos.

O que chama a atenção em primeiro lugar é o contraste entre a foto da menina e o fundo preto. A cor preta é o símbolo do luto, da morte, da tristeza. De acordo com Santaella (2000), o símbolo não possui semelhança com seu objeto; ele

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recebe essa denominação pelo fato de ser uma lei natural ou convencional. Ou seja, estabelece-se que o preto é a cor da morte. Da mesma maneira, o branco, cor das frases que aparecem na capa, simboliza pureza, paz, candura, adjetivos ligados à infância. A capa gera certo desconforto por juntar idéias que seriam tão inconcebíveis: morte e infância.

Nessa capa da revista Época pode-se perceber claramente o uso das duas linguagens: verbal, através das frases, e não-verbal, através da foto e do fundo preto. De acordo com Hernandes (2005), o uso dos dois tipos de linguagem é trabalhado para produzir sentidos, construídos para que causem certas impressões. No caso da capa em questão, imagem e texto complementam-se.

Na capa, podemos observar diversos signos: a foto da menina, as frases e a própria cor preta utilizada como fundo. De acordo com Santaella (2004, p.8), signo é “qualquer coisa de qualquer espécie [...] que representa uma outra coisa, chamada de objeto do signo”, e que produz uma interpretação na mente, chamada de interpretante do signo.

A fotografia representa a menina Isabella. A cor preta se junta à imagem da criança, demonstrando que ela não está mais entre os vivos. A foto é considerada um índice, signo que, de acordo com Santaella (2000), funciona como veículo de transmissão, pois tem a capacidade de alertar e conduzir o receptor do signo para o seu objeto.

A utilização de uma foto com a menina sorrindo, radiante, em um fundo preto, sugerindo a morte, pode ser considerada uma estratégia da revista para tocar emocionalmente o leitor. De acordo com Santaella (2005), os efeitos gerados pelos signos podem ser simbólicos, mas também podem ser de nível emocional e sensitivo. Como se trata de um caso que chocou o país, apela-se para o lado emocional, com o objetivo de mexer com os sentimentos do leitor. Conforme Scalzo (2003, p. 62), uma boa capa de revista é capaz de conquistar leitores e fazer com que eles a levem para casa.

O texto presente na capa da revista: manchete e subtítulo representam símbolos, por ser composto por palavras. Essas são consideradas símbolos por serem signos de convenção. Sabemos que elas possuem um significado por apreendermos tal significado. Peirce (1999) explica que qualquer palavra é exemplo de signo.

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As informações presentes na capa são poucas. A chamada principal é relativamente curta: uma citação e a autoria da mesma. De acordo com Alves (2003), esse é o princípio do título: fornecer o máximo de informação com o mínimo de meios. Isso quer dizer que o título deve instigar o leitor: ao mesmo tempo em que apresenta o tema, deve despertar a curiosidade. Na capa da Época, pode-se afirmar que foi seguido esse conceito e também outro princípio da semiótica relatado por Santaella (2004): a contextualidade. De acordo com a autora, o contexto histórico, social e cultural dos signos deve ser levado em conta no momento da análise. A capa da revista possui informações suficientes para situar o leitor que não conhece o fato. Através da autoria da declaração, o leitor é levado a interpretar que a menina assassinada está na foto e o clima é de luto e tristeza, sentimentos transmitidos pela declaração da madrinha da menina. Além disso, a revista consegue despertar o interesse por não citar que tipo de abordagem será dado na reportagem: não acusa e não defende ninguém. Ela apenas usa o lamento da madrinha para transparecer o sentimento de luto que o país estava sentindo naquelas semanas.

REVISTA VEJA – EDIÇÃO Nº. 2055

A revista Veja com data de 9 de abril de 2008 dá destaque em sua capa única e exclusivamente para um assunto, sem chamadas para outras matérias: o mal praticado contra as crianças. A imagem de um olho, com uma expressão pesada e carregada, sobrancelhas curvadas, ilustra grande parte do espaço. Em seu reflexo (pupila), o rosto da menina Isabella Nardoni, sorrindo. É como se o olho estivesse observando a menina. Na parte inferior, em letras grandes e maiúsculas, a manchete: O MAL. Ao lado, em letras um pouco menores, como subtítulo: Crianças abandonadas, torturadas e assassinadas. Abaixo, na linha de apoio: Uma investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre as origens da perversidade humana. As cores que prevalecem são o preto e o branco e suas variações, em tons de cinza e grafite, inclusive no logotipo da revista.

O assunto da capa envolve o assassinato da menina Isabella. Entretanto, ela não é o único foco da revista. Seu nome não é citado na capa. O leitor pode identificar que a morte da menina será tratada na reportagem pelo fato de o olho

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refletir seu rosto. Assim, se o leitor não souber do ocorrido, sua interpretação da capa não será completa. Ele não vai entender por que o rosto da menina está refletindo no olho misterioso. Ou pode ligar à imagem aos textos, que se referem a crianças, não a uma especificamente. Então, a mensagem que a capa quer transmitir vai depender diretamente do conhecimento do leitor. Segundo Santaella (2004), se a quantidade de informações que um receptor possui não for suficiente, a semiótica não é capaz de fazê-lo formular interpretações profundas e complexas.

Por meio da capa pode-se perceber que a revista foi além, abordando não somente o caso Isabella, mas construindo um contexto histórico e social para o caso e trouxe mais conteúdo para o leitor. De acordo com Vilas Boas (1996, p. 74), uma revista deve acompanhar o fato e ir além dele; “municiar o leitor com informações sobre o que tal fato está indicando, que tipo de mudanças e o que ele realmente significa”.

A capa da revista chama a atenção por utilizar apenas três tons: branco, preto e suas variações, em cinza. Essas cores mórbidas transmitem certo desconforto. O preto indica a morte. De acordo com Peirce (1999, p.73), um símbolo “não pode indicar uma coisa particular qualquer: ele denota uma espécie de coisa. É não apenas isso como também, em si mesmo, uma espécie e não uma coisa singular”. A cor preta aliada à expressão do olho, que, curvado, expressa o sentimento de raiva, faz a capa transmitir certo medo. Casa, assim, com a manchete: o mal. Ora, o mal é sentimento que, principalmente na infância causa medo e insegurança. Esse deve ser o sentimento que as crianças abandonadas, torturadas e assassinadas, palavras da chamada principal, sentiram antes de morrer. E parece ser medo e luto os sentimentos que a revista quer transmitir ao leitor. Segundo Netto (2002), o efeito de sentimento tem um papel tão grande que pode apresentar-se como o único efeito significativo produzido pelo signo. Assim, a capa está arquitetada para transmitir tal mensagem.

Os textos presentes na capa de Veja são considerados símbolos. Peirce (apud SANTAELLA, 2000, p. 135-136) explica que “a palavra, em si mesma, não tem existência, embora tenha que ser real, consistindo em que os existentes deverão se conformar a ela”. Compreendemos o significado do texto pelo fato de as palavras conterem representações. A própria manchete “o mal” pode ser

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considerada símbolo por trazer conotações desagradáveis; significados associados à negatividade.

A imagem do olho utilizada na capa e a imagem da menina refletida no mesmo são índices, pois, segundo Santaella (2000), fotografias são consideradas índices. Peirce (1999) explica que as fotografias são índices por possuírem conexão física. Além disso, a fotografia do olho, nesse caso, com as sobrancelhas curvadas, indica também o sentimento de raiva.

O título principal da capa, o mal, em letras maiúsculas e grandes, ‘grita’ para o leitor. A palavra mal por si só já traz consigo diversas conotações negativas. A construção da revista encaixa-se na afirmação de Pereira Júnior (2006, p.143) que explica que “o título é uma informação que grita. A tendência a estimular títulos curtos, acompanhados por muitos elementos de titulação complementar, acentua uma vocação ‘publicitária’ inerente a toda titulação, com implicações éticas e ideológicas precisas”.

A linguagem não-verbal, segundo Alcure, Ferraz e Carneiro (1996), pode não se apresentar clara como as palavras, apesar de ser carregada de significados. No caso da capa de Veja, o significado da imagem fica mais claro quando se lê os textos. As autoras (1996, p.29) afirmam que um dos principais papéis da comunicação não-verbal é ser “mais emocional e sensitiva”.

REVISTA VEJA – EDIÇÃO Nº. 2057

A revista Veja, com data de 23 de abril de 2008, dá destaque na capa para a investigação sobre o caso. Trata-se do foco principal da revista. A chamada principal traz uma foto de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da menina. Percebe-se que estão dentro de um carro, atrás do banco do motorista. Do rosto de Alexandre, aparecem apenas os olhos; ele está com a cabeça um pouco abaixada. O rosto de Anna Carolina aparece mais, é possível ver sua boca também. Os olhos do casal não estão na direção da câmera, estão fixados em outro ponto e cobertos por uma sombra escura. Percebe-se que o que se enxerga é o que foi iluminado pelo flash da câmera; a foto foi tirada à noite. Na parte inferior da capa, o título diz: Para a polícia, não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella: Foram eles.

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Destaca-se que todas as palavras estão com letras maiúsculas. Até os dois pontos, as letras estão em tamanho pequeno. Na afirmação “foram eles” adota-se um grande tamanho nas letras, ou seja, é a manchete.

Novamente, Veja adotou cores escuras em grande parte do espaço. Apesar de o assunto não ser único e exclusivo, o modo como a mensagem foi arquitetada chama muito a atenção do leitor.

A foto do casal é classificada como índice. Santaella (2000) afirma que os índices são os signos mais facilmente exemplificados. Num mundo que também fala por imagens, a fotografia apresenta-se como índice utilizado em abundância no jornalismo. Índices apontam, remetem e indicam. A expressão do casal retratada pelo fotógrafo, junto ao texto, “foram eles” deixa no ar uma acusação: os dois são, de fato, os assassinos de Isabella Nardoni. Em uma frase com tanto pesar, é natural que se use uma imagem condizente com o texto. Uma foto posada do casal não caberia no contexto que a revista criou em sua capa. O contexto que uma imagem possui facilita sua compreensão.

A linguagem verbal – textos – e não-verbal – fotografia – complementa-se na capa da revista. A foto parece ter sido feita especialmente para a manchete. Para Santaella e Nöth (1998, p. 53), “a abertura interpretativa da imagem é modificada, especificada, mas também generalizada pelas mensagens do contexto imagético. O contexto mais importante da imagem é a linguagem verbal”.

Segundo Scalzo (2003), a fotografia é o primeiro elemento que chamará a atenção do leitor, que prende sua visão. Para a autora (2003, p. 69-70), fotografias devem “excitar, entreter, surpreender, informar, comunicar idéias ou ajudar o leitor a entender a matéria”. A fotografia na capa de Veja surpreende o leitor, pelo fato de vir acompanhada de uma suposta resposta que todo o país queria naquela época: quem foram os assassinos de Isabella Nardoni? A revista responde: foram eles – Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá.

Apesar de a revista contextualizar sua acusação ao afirmar que se trata de uma conclusão da polícia – Para a polícia, não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella: foram eles - o que salta aos olhos do leitor é a acusação “foram eles”. Tal constatação pode ser feita pelo fato de a revista seguir a afirmação de Scalzo (2003). Para a autora, letras enormes fazem as frases gritar. Dessa maneira, a revista “grita” para o leitor, revelando os assassinos de Isabella.

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Esses títulos, compostos de palavras, são considerados símbolos, já que, conforme concepção de Peirce (1999), símbolos são signos por convenção; as palavras não identificam as coisas que elas representam. Interpretamos a manchete da capa como acusatória por conhecermos o significado de suas palavras. Entretanto, no conjunto, podemos afirmar que a linguagem jornalística é indicial, pois ela representa o fato, e este é uma construção que o jornalismo faz da realidade. Lage (2006b, p. 51) confirma a afirmação, ao expor que “a comunicação jornalística é, por definição, referencial”.

O texto da capa apresenta-se na terceira pessoa do plural, característica dos textos jornalísticos. Segundo Mancini (2005, p. 31), “esse é um modo do narrador apresentar o texto que produz um efeito de objetividade, de distanciamento do fato narrado, de ausência de um julgamento direto”. O que não aconteceu nesse caso, já que a revista está fazendo uma acusação explicitamente, pelo fato de dar grande destaque à afirmação foram eles, manchete que chama a atenção do leitor antes de ele perceber o seu contexto.

REVISTA ÉPOCA – EDIÇÃO Nº. 522

A revista Época, com data de 19 de maio de 2008, mais de um mês após a morte da menina Isabella, dá destaque novamente ao caso. Desta vez, traz na capa a mãe da menina, Ana Carolina Oliveira. Na foto, ela está abatida, séria, com ar triste. Suas olheiras são visíveis. A manchete traz o seguinte texto: Exclusivo – Por dentro da mente e do mundo de Ana Carolina. Na linha de apoio, Época teve acesso à intimidade da mãe de Isabella na tentativa de decifrar de onde vem sua força impressionante para lidar com a dor. Na outra linha de apoio, Mais: o lado obscuro da “Nova Família” – aquela em que se misturam pais, mães, padrastos, madrastas e filhos de mais de um casamento. A foto é colorida e os textos estão em branco.

O que mais chama a atenção na capa é a fotografia de Ana Carolina. Seu rosto já seria suficiente para prender os olhos do leitor, já que, desde que Isabella foi assassinada, a mídia procurou acompanhar o sofrimento da mãe e os movimentos solidários dos brasileiros para com ela. O caso chocou por mexer em uma relação

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tão estreita que é a de mãe e filhos. Daí a identificação do público e seu apoio à Ana Carolina. Para Netto (2002, p.81), a semiótica, realizada em situações histórico-sociais, como o caso Isabella, tem como fundamento “revelar uma ideologia, combatê-la, destruí-la”. A revista aproveitou o momento de solidariedade do povo brasileiro para ouvir a mãe da menina, chamando ainda mais a atenção do público para a leitura da reportagem.

A expressão de Ana Carolina é triste. Os olhos caídos e umedecidos, a boca parece estar seca, as olheiras escuras, dando um ar pesado à expressão, representando/indicando a dor da mãe ao perder sua filha. A cor do fundo da foto, um cinza-claro, contribui para realçar ainda mais as olheiras de Ana. A expressão de tristeza de Ana Carolina, estampada na capa da revista, procura tocar o leitor, no lado emocional. Santaella (2004) explica que os efeitos gerados por um signo podem ser desde uma simples reação física e sentimentos ou ter a natureza de um pensamento. Para a autora, o primeiro efeito de um signo é o sentimento que ele pode causar num intérprete – nesse caso, o leitor. Além disso, Santaella (2000) ainda explica que os mecanismos midiáticos têm uma complexidade psicológica que influenciam a maneira como o receptor interpreta a mensagem transmitida. Ainda pode-se destacar que a expressão da mãe de Isabella, suas olheiras e os olhos úmidos são índices já que denotam tristeza, cansaço, abatimento, sugerindo o estado de espírito da mãe

Pode-se afirmar que a fotografia de Ana Carolina, classificada como índice, traz uma mensagem. Scalzo (2003) explica que, por mais perfeito que seja o texto jornalístico, a fotografia sempre ajudará a compreendê-lo melhor. Assim, a fotografia da mãe de Isabella ajuda a complementar a manchete Por dentro da mente e do mundo de Ana Carolina.

A fotografia ilustra a manchete e ajuda a reforçar o sentimento de tristeza que a mãe está sentindo. Além disso, a manchete convida o leitor a conhecer um pouco mais da vida dela, sugerindo e convidando a entrar no mundo e na mente de Ana Carolina. Considerando-se o fato de que a morte da menina mexeu com o país, um convite para conhecer a vida da mãe de Isabella é bastante atraente. Todos os focos de atenção estavam nela e no casal acusado.

Através da linha de apoio, a revista explica a mente e o mundo de Ana Carolina: Época teve acesso à intimidade da mãe de Isabella na tentativa de decifrar

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de onde vem sua força impressionante para lidar com a dor. Aqui, ao informar ao leitor de que teve acesso à intimidade de Ana, a linha de apoio sugere uma exclusividade da cobertura da revista Época. Quando o caso estava em destaque, eram muitos os comentários sobre a coragem de Ana Carolina, já que ela nunca se mostrou em situação de desespero. A revista, então, procura mostrar ao público onde a mãe busca suas forças para suportar o sofrimento. Segundo Mouillaud (1997), a escolha de certo tipo de título vai orientar a compreensão do leitor.

Além de falar sobre a vida de Ana Carolina, a revista constrói outro contexto para o caso, que pode ser observado através da segunda linha de apoio: Mais: o lado obscuro da “Nova Família” – aquela em que se misturam pais, mães, padrastos, madrastas e filhos de mais de um casamento. O caso Isabella mostrou uma nova realidade das famílias, já que o pai da menina tinha outra esposa e outros filhos. Assim, a revista procurou investigar mais sobre a nova família. Vilas Boas (1996) explica que o papel da revista é exatamente este: municiar o leitor com informações e ir além do fato que está em foco.

Netto (2002, p. 58) afirma que “qualquer das palavras de uma língua” pode ser considerada símbolo. Assim, os textos presentes na capa de Época recebem essa classificação, com significados dados por convenção.

CONCLUSÃO

Os veículos de comunicação jornalística têm hoje um papel fundamental na sociedade, pois são fontes de informação e de utilidade pública para a população. A eles cabe ainda o papel de formadores de opinião, propondo a reflexão sobre os fatos. Espera-se que os mesmos assumam esse papel com imparcialidade, a fim de que o público possa ter acesso à informação sem juízos de valor, podendo tirar suas próprias conclusões a respeito dos diversos assuntos que lhe são apresentados todos os dias.

Entretanto, a imparcialidade no jornalismo não é fator fácil de ser alcançado. Na própria edição, ao optar por uma fotografia, uma declaração ou uma cena, o jornalista acaba escolhendo a informação a ser transmitida, a fim de oferecer a melhor matéria e conquistar o leitor, ouvinte ou telespectador.

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A informação é o produto jornalístico. E, para ‘vender’ um produto, é preciso chamar a atenção do consumidor. Com a concorrência entre veículos, a linha entre credibilidade e sensacionalismo fica muito tênue. Isso fica muito mais visível em grandes acontecimentos. Foi o que ocorreu com o caso Isabella Nardoni.

Tratando-se de um crime que, até o momento, não teve uma decisão da justiça quanto à punição dos suspeitos – que irão à júri popular, segundo informações veiculadas recentemente na imprensa nacional –, é de vital importância que os veículos de comunicação sejam cautelosos na abordagem e no enquadramento do caso.

Nesse estudo, que procurou verificar os signos utilizados nas capas das revistas Veja e Época, referentes ao caso Isabella Nardoni. Destacaram-se a fotografia e o texto, comprovando que linguagem verbal e não-verbal, no caso dos objetos de estudo, complementam-se. Foi possível perceber claramente o uso das duas linguagens. Pode-se afirmar que as capas foram construídas para que causassem certas impressões no leitor. Impressões estas que ficam muito mais claras para o receptor através do uso de linguagem verbal e não-verbal. Nas capas analisadas, os textos explicaram as fotografias utilizadas, procurando contextualizar o leitor a respeito do ocorrido. Essa constatação é confirmada por Hernandes (2005), que afirma que o uso de dois tipos de linguagem é trabalhado para produzir certos sentidos e provoquem interpretações.

Também foi possível perceber as diferentes conotações dos signos verbais e não-verbais utilizados nas capas - algumas foram diretas, deixando claro ao leitor do que estavam tratando. É o caso das edições de Época. Através de seus textos e de suas fotos, não deixaram dúvidas ao leitor de qual era o seu assunto principal – o assassinato de Isabella Nardoni. A revista utilizou construções mais amenas em suas capas, procurando despertar mais o lado solidário e emocional do leitor. Isso pode ser percebido através da imagem de Isabella sorridente, em sua primeira capa, contrastando com o preto, símbolo do luto e com a imagem da mãe, Ana Carolina, com o semblante triste e deprimido, na segunda capa.

Já nas edições de Veja, pode-se afirmar que a interpretação do sentido depende da carga de informação do receptor da mensagem. A revista utilizou textos mais curtos e impactantes; o mesmo pode-se afirmar sobre as imagens. Nas duas edições, a revista privilegiou o impacto do caso, trazendo à tona todo o horror que o

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assassinato da menina despertou. Em sua primeira capa, Veja não falou apenas do caso Isabella, mas contextualizou o assunto, trazendo à tona uma discussão sobre a perversidade humana. O periódico cumpriu, segundo Vilas Boas (1996), a obrigação de uma revista, que deve municiar o leitor com informações completas sobre o fato, indo além do ocorrido. Em sua segunda capa, Veja ousou ao utilizar um texto que acusava o casal Alexandre e Anna Carolina do assassinato de Isabella. A revista chama a atenção do leitor pela manchete Foram eles. Afirmação confirmada por Scalzo (2003), que explica que letras enormes – no caso da capa em questão – gritam. Cabe dizer ainda as capas de foram mais criativas que as de Época, já que suas mensagens foram mais subliminares.

Através do estudo proposto, também foi possível perceber que tipo de conotação os signos que compunham as capas geravam no receptor da mensagem. As revistas procuraram utilizar a emoção e o impacto para tocar o leitor. Assim, ao comover o público, o que se encaixa nas capas de Época, o impacto dos signos utilizados pode ser considerado positivo, já que em nenhum momento a revista acusou alguém. Época utilizou fotos que demonstram uma tendência para o lado emocional que o caso despertou nas pessoas. Já nas capas de Veja o impacto dos signos usados pode ser considerado negativo, pois a revista foi acusatória em uma das capas e em outra contextualizou o caso, apresentando outros crimes, mostrando o lado mau do ser humano. As capas das duas edições chamam a atenção por utilizarem tons escuros, predominando o preto, cor que indica luto e morte. De acordo com Netto (2002), o efeito de sentimento tem um papel tão grande no receptor que pode apresentar-se como o único efeito significativo produzido pelo signo. A construção da mensagem pendendo para o lado negativo é o que mais fica evidenciado nas capas de Veja.

Ao finalizar esse estudo, salienta-se que as interpretações aqui expostas não são as únicas, tampouco, as definitivas. A semiótica permite várias leituras dos signos, afinal, de acordo com Carmo Jr (2005, p. 152), “ela precisa ir mais além, apontando para perspectivas mais generalizantes, aplicáveis a outros objetos, em outros contextos”. Nessa análise, pretendeu-se perceber que tipos de conotações a linguagem jornalística, exposta nas capas, pode provocar no leitor. Como a mídia possui o papel de fonte de informação e formadora de opinião, é fundamental que os

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jornalistas estejam cientes dessa função e do poder que as palavras e imagens podem provocar no público-alvo.

No entanto, as interpretações da pesquisa não param por aí. Sabemos que a análise de um objeto tem múltiplas possibilidades. Novos olhares podem extrair novas interpretações e novas pesquisas. Por isso, o caso está aberto a outros estudos, a partir da própria semiótica ou de quaisquer outras linhas teóricas.

REFERÊNCIAS

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Referências

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