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Academic year: 2021

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DÁDIVA E ASSISTÊNCIA SOCIAL: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL?

Autores: Janete Krack Magnagnagno1 Osmir Dombrowski2

INTRODUÇÃO

A proposta deste trabalho é trazer um olhar diferenciado à Assistência Social, em especial ao Programa Bolsa Família, contribuindo assim com a discussão que se apresenta na Antropologia, de que a dádiva, tal qual desenvolvida por Marcel Mauss, está presente na Modernidade, demonstrando que em alguns aspectos, as relações sociais construídas na modernidade apresentam as características da dádiva.

O Programa Bolsa Família é desenvolvido pela política de Assistência Social em nível municipal, porém, foi planejado e instituído pelo governo federal. É um programa social de destaque atualmente no cenário nacional o qual reserva traços que expressam a lógica da doação, sustendo-se a ideia de que, embora situado num contexto de negação da prática da doação, o Programa apresenta as características da dádiva.

Primeiramente inicia-se o trabalho apresentando a conceituação da dádiva, com ênfase à sua característica de relação, argumentando que a dádiva não se constitui como um ato isolado, mas constitui-se numa relação.

Em seguida, amplia-se a discussão trazendo o Programa Bolsa família enquanto parte da política pública de Assistência Social, discutindo como o referido, embora atendendo as funções e aos objetivos da Assistência Social, destoa um pouco dos seus princípios, especificamente no que tange ao aspecto da contraprestação.

Ao finalizar, a argumentação é desenvolvida de forma a caracterizar o Programa Bolsa Família como uma expressão atual da relação da dádiva. Uma relação que é

1 Mestranda em Ciências Sociais – Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – Campus – Toledo. Graduada em Serviço Social pela mesma universidade. Atua como Assistente Social na Prefeitura Municipal de Cascavel, onde atualmente coordena o Sistema Municipal de Monitoramento e Avaliação da Política de Assistência Social.E-mail: [email protected].

2 Doutor em Ciência Política pela USP, professor adjunto da UNIOESTE- PR. E-mail:

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construída a fim de alcançar os próprios objetivos delineados para o Programa e conseguir cumprir os desafios à que se propõe.

Objetiva-se, portanto problematizar a formatação do Programa Bolsa Família sob a ótica da teoria antropológica além de refletir sobre os limites que o Programa Bolsa Família pode oferecer ao reconhecimento da Política de Assistência Social como direito social.

A discussão apresentada no presente texto é resultante de pesquisa bibliográfica e documental, a primeira se dá no campo da antropologia e da Assistência Social, enquanto a pesquisa documental tem por foco a instituição e regulação do Programa Bolsa Família. Buscando-se assim estabelecer uma relação entre a teoria antropológica apresentada por Marcel Mauss e o desenho do Programa Bolsa Família, demonstrando que a dádiva está presente nas relações contemporâneas que o Estado estabelece com os cidadãos.

A DÁDIVA ENQUANTO RELAÇÃO

A dádiva de que se trata, é aquela apresentada por Marcel Mauss na sua célebre obra “O ensaio sobre o dom”, no qual estuda o sistema de troca de sociedades primitivas, indagando o que está presente nas relações das sociedades estudadas que faz com que as trocas ocorram, ou seja, o que está presente nas relações de troca que determina que os presentes recebidos, sejam obrigatoriamente recebidos e assim retribuídos. Como ele próprio aponta:

Qual é a regra do direito e de interesse que, nas sociedades do tipo atrasado ou arcaico, faz que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa dada que faz com que o donatário a retribua? (Mauss, 2003, p.188)

Sob essa indagação Mauss mostra, atento ao caráter voluntário que está presente, que a dádiva se dá por um ciclo de três momentos distintos, mas vinculados entre si: dar, receber e retribuir, conforme aponta Godbout: “(...) dádiva é percebida como um ciclo e não como um ato isolado, como um ciclo que se analisa em três momentos, dar, receber, retribuir” (1999, p.28)

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Mauss atenta também ao fato de que o caráter voluntário, aparentemente livre e gratuito é, no entanto, obrigatório e interessado. Explicando a incidência da relação tríade do dar, receber e retribuir, Mauss percebe que a ocorrência deste ciclo está permeada por interesses.

Conforme Lygia Sigaud (1999), Mauss tem por tema, as trocas que se fazem sob a forma de presentes, em teoria voluntários, mas na realidade obrigatoriamente dados e retribuídos, sendo que este tinha um objetivo duplo em seu trabalho:

de um lado fazer uma espécie de arqueologia sobre a natureza das relações humanas, por meio da descrição de fenômenos de troca e de contrato, assim como encontrar a moral e a economia que lhe eram solidários; de outro, mostrar que esta moral e economia funcionam ainda em „nossas‟ sociedades de modo constante(...) ( SIGAUD, 1999, p.92)

Jacques T. Godbout(1999), em sua obra “O espírito da dádiva” claramente comprova que “esta moral e economia” estão presentes na modernidade, que embora tenham ocorrido rupturas e construção de novos conceitos de convivência humana na era moderna, a dádiva continua presente permeando as relações humanas, sempre seguindo o ciclo que lhe é peculiar: dar, receber e retribuir.

É fundamental perceber que as relações humanas são estabelecidas sob a dádiva, quer dizer, que ao iniciar uma relação de amizade, de companheirismo, afetiva ou mesmo de inimizade, a relação de troca, de dádiva, de ofertar, receber e retribuir está presente. As relações humanas estão permeadas pela dádiva, pelas constantes trocas que se caracterizam obrigatórias para sustentar a relação.

A dádiva serve, antes de mais nada, para estabelecer relações. E uma relação sem retorno (por parte daquele a quem damos ou de outra pessoa que o venha a substituir) uma relação de sentido único, gratuita nesse sentido e sem motivo, não seria uma relação(...)é preciso pensar a dádiva não como uma série de atos unilaterais e descontínuos, mas como relação (...) não é uma coisa, mas uma relação social( Godbout, 1999, p. 16)

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Acontecendo a negação da troca, o não aceitar ou não retribuir ocorre o rompimento ou a negação de uma relação, o ciclo da dádiva é interrompido e a relação não se sustenta ou não se estabelece.

Aceitar uma dádiva, um presente, por exemplo, significa apontar o desejo de manter uma relação, ao aceitá-lo inicia-se um vínculo social, o qual vai se sustentar na expectativa da retribuição a este presente.

Frente a isso, apresenta-se a seguir a verificação da presença da dádiva na relação que se constrói entre cidadão e Estado na atualidade, possibilitando perceber uma relação construída sob a dádiva e os aspectos que a caracterizam.

A ASSISTÊNCIA SOCIAL E O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA

Para realizar a reflexão proposta, é preciso inicialmente esclarecer uma característica da Assistência Social, sem a qual a reflexão não faria sentido: a gratuidade. A Constituição Federal Brasileira de 88 já dispõe, e a Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS (Lei 8.742/93), bem como o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, estabelecem que a Assistência Social será prestada de forma gratuita sob o princípio da universalidade, sendo que deve ser prestada a quem dela necessitar.

Conforme consta:

A Assistência Social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas (Art. 1º da LOAS)

O princípio da gratuidade na Assistência Social, não se refere apenas à vedação de pagamento por parte do beneficiário, em pecúnia, mas também como contraprestação. Os textos que tratam da Assistência Social, dispõem que é vedada qualquer forma de contraprestação, portanto, não é permitida a exigência de que o indivíduo receptor do benefício seja obrigado a oferecer qualquer coisa em troca.

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Essa vedação está ancorada na noção de direito, e a Assistência Social enquanto direito do cidadão, não pode exigir deste a devolutiva do benefício, ou que seja imposta qualquer condição para o exercício desse direito. Ao contrário, sendo garantido como direito social, a Assistência Social deve ser oferecida ao cidadão por parte do Estado, não havendo pré-requisito de merecimento por boa conduta ou coisas do gênero. O direito, especificamente da Assistência Social, é prestado a quem dele necessitar.

Essa gratuidade de que se fala, sem contraprestação, é um aspecto fundamental na Assistência Social, pois caracteriza a mesma enquanto direito, e assim reflete a uma ruptura com os antigos preceitos que estavam afastados do reconhecimento desta enquanto direito do cidadão.

E por razões históricas, marcadas por um processo árduo e longo pela conquista do status de direito social para a Assistência Social, é que esse reconhecimento apresenta-se de grande importância no cenário atual. Durante um grande período histórico, o que se iniciou desde sua gênese, a Assistência Social esteve caracterizada por aspectos contrários à noção de direito, como os da caridade, da boa vontade, da benevolência e da esmola. O altruísta baseava as ações desenvolvidas em prol dos mais necessitados.

A Assistência Social no Brasil vem trilhando um longo caminho de luta pelo rompimento permanente com suas antigas raízes, a fim de que enquanto direito social, a Assistência Social no Brasil possa estar se solidificando também enquanto Política Pública. Romper com essas características está pactuado em todo o território nacional, entre as três esferas governamentais e as instâncias de participação popular. Esse desafio está expresso, além da Constituição Federal e a LOAS, principalmente na Política Nacional de Assistência Social-PNAS (2004) e na instituição do SUAS- Sistema Único de Assistência Social.

Essa pactuação foi realizada quando da IV Conferência Nacional de Assistência Social realizada em 2003, a qual deliberou pela construção e implementação do Sistema Único de Assistência Social, considerado como requisito essencial, apresentado no artigo 6º da LOAS, para a efetivação da Assistência Social como política pública. Essa deliberação desencadeou a discussão e o processo de reestruturação orgânica da Assistência Social,

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resignificando a referida política pública em todo o país, caracterizando-se como uma política de direito de cidadania e responsabilidade estatal.

Desta forma, a Assistência Social no Brasil vive uma nova era fulcrada em novos compromissos, conforme expresso na PNAS: “(...) a Assistência Social inicia seu trânsito para um campo novo: o campo dos direitos, da universalização dos acessos e da responsabilidade estatal”.

Um dos principais documentos que expressa a nova conformação da Assistência Social é a Política Nacional de Assistência Social- PNAS, aprovada pelo Conselho Nacional de Assistência Social –CNAS, através da Resolução 145 de 2004. Portanto, de acordo com a PNAS, a Assistência Social apresenta-se com três funções básicas: Proteção Social, Vigilância Social e Defesa dos Direitos Socioassistencias. De acordo com Di Giovanni, entende-se por Proteção Social as formas:

institucionalizadas que as sociedades constituem para proteger parte ou o conjunto de seus membros. Tais sistemas decorrem de certas vicissitudes da vida natural ou social, tais como a velhice, a doença, o infortúnio, as privações(...) Neste conceito, também, tanto as formas seletivas de distribuição e redistribuição de bens materiais (como a comida e o dinheiro), quanto os bens culturais (os saberes), que permitirão a sobrevivência e a integração, sob várias formas na vida social. Ainda os princípios reguladores e as normas que, com o intuito de proteção, fazem parte da vida das coletividades. (Di Giovanni, 1998, p. 10 APUD PNAS, 2004)

Com isso, a Assistência Social deve prover os meios necessários para a Proteção Social do cidadão, a fim de afastá-lo das vulnerabilidades às quais possa estar sendo submetido, que podem ser decorrentes de situações de violência, ausência ou insuficiência de renda.

De acordo com a PNAS 2004 a Proteção Social deve garantir três formas de segurança: “segurança de sobrevivência ( de rendimento e de autonomia); de acolhida; e de convívio ou vivência familiar (PNAS, 2004, p. 31). Dentre estas, para fins deste trabalho, nos interessa conhecer a segurança de sobrevivência, a qual é definida pela PNAS como:

A segurança de rendimentos não é uma compensação do valor do salário mínimo inadequado, mas a garantia de que todos tenham uma forma monetária de

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garantir sua sobrevivência, independente de suas limitações para o trabalho ou do desemprego. É o caso de pessoas com deficiência, idosos, desempregados, famílias numerosas, famílias desprovidas das condições básicas para sua reprodução social em padrão digno e cidadã. (PNAS, 2004, p. 31)

Com vistas a cumprir com suas funções na garantia de segurança de sobrevivência, a Assistência Social desenvolve um Programa específico de transferência de renda às famílias em situação de vulnerabilidade social, que tenham dificuldade em assegurar à sua sobrevivência, que se apresentam com insuficiência ou até mesmo ausência de renda. Trata-se do Programa Bolsa Família instituído pela lei 10.836/2004 e regulamentado pelo decreto federal 5.209/2004.

Este Programa tem por finalidade a execução das ações de transferência de renda do

governo Federal (Lei 10.836/04), atendendo a famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, proporcionando-lhes uma renda mensal como garantia ao exercício do seu direito à sobrevivência digna.

Sendo esta a finalidade, o Programa Bolsa Família, amplia a sua abrangência, conforme expresso em seus objetivos básicos, sendo eles:

Art. 4o Os objetivos básicos do Programa Bolsa Família, em relação aos seus beneficiários, sem prejuízo de outros que venham a ser fixados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, são:

I - promover o acesso à rede de serviços públicos, em especial, de saúde, educação e assistência social;

II - combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional;

III - estimular a emancipação sustentada das famílias que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza;

IV - combater a pobreza; e

V - promover a intersetorialidade, a complementaridade e a sinergia das ações sociais do Poder Público. (Artigo 4º do Decreto 5.209 de 2004)

Dentre os objetivos, conforme consta, está o de promover o acesso à rede de serviços de Assistência Social, Saúde e Educação, quer dizer que além de propiciar o acesso a renda, o Programa também objetiva que as famílias integrantes do programa

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acessem outros direitos que já lhe são assegurados e reconhecidos em lei, e que algumas vezes e por diferentes motivos não são acessados.

Para alcançar o primeiro objetivo traçado pelo Programa, o decreto regulamentário, expressa que acessar aos direitos sociais de saúde e educação caracterizam-se como condicionalidade ao recebimento do valor financeiro, ou seja, é preciso que as famílias usufruam o seu direito já garantido em lei para acessar outro direito: da renda mínima.

Consta no artigo 3º da lei 10. 836/2004:

A concessão dos benefícios dependerá do cumprimento, no que couber, de condicionalidades relativas ao exame pré-natal, ao acompanhamento nutricional, ao acompanhamento de saúde, à freqüência escolar de 85% (oitenta e cinco por cento) em estabelecimento de ensino regular, sem prejuízo de outras previstas em regulamento.

Por definição, sendo a transferência de renda um direito da política de Assistência Social, garantido enquanto proteção social na segurança de sobrevivência, não é pertinente que seja exigido do cidadão, ou melhor, seja-lhe condicionado o recebimento da renda mensal sob o exercício dos seus direitos.

A exigência da contraprestação está dessa forma, descaracterizando o direito do cidadão de sobrevivência, fragiliza a noção de direito pelo qual a Assistência Social quer ser reconhecida. O direito a receber, por parte do Estado, uma renda mínima que garanta as famílias os meios mínimos necessários à vida digna, sob a ótica do Bolsa Família, parece que não é por si suficiente, é preciso que o cidadão cumpra determinadas condições, é necessário que ele retribua pelo que receber. Quer dizer que para alcançar o direito à renda mínima, o cidadão deve apresentar uma contraprestação, cujo cumprimento lhe fará merecedor desse repasse.

Portanto, mesmo a Assistência Social sendo caracterizada pela ausência da contraprestação por parte do seu usuário, se verifica essa prática no Programa Bolsa Família. Pretende-se na próxima seção entender a lógica presente nessa prática e como ela está demonstrando a construção de uma relação entre o Estado, executor da Política de Assistência Social e o cidadão.

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O PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA: UMA DÁDIVA

De acordo com o que foi apresentado, a regulamentação do Programa Bolsa Família estipula que para ser beneficiário da renda mínima que o Programa oferecer não basta ser usuário da Política de Assistência Social e apresentar os critérios de elegibilidade. Para manter-se no Programa, é necessário que o cidadão faça a sua parte, retribua o que lhe foi concedido, para que seja possível continuar com o benefício da renda.

Neste aspecto, argumenta-se que o Programa Bolsa Família, objetiva construir uma relação com o seu usuário, considerando que o mesmo se dá sob as características de uma relação, pois obrigatoriamente é preciso que haja a reciprocidade, o beneficiário do Programa, se desejar manter-se na relação, deve responder cumprindo as condicionalidades, ou seja, deve oferecer algo que se espera que ele ofereça.

Nota-se, portanto a presença, no referido Programa, das características clássicas da dádiva, constituindo-se numa relação de reciprocidade, onde a tríade dar, receber, retribuir está presente e é alimentada pelas partes da relação: o Estado e o cidadão.

Esta relação entre o Estado e o cidadão, é renovada a cada mês. Quando o Estado libera o recurso, faz a sua doação ao cidadão, se este retribuir com a vacinação e pesagem dos filhos, além da frequência destes à Escola, então a relação continua e o cidadão se mantém como beneficiário do Bolsa Família. Caso haja a negativa, quer dizer, o cidadão não retribua, o Estado bloqueia o recurso e a relação é interrompida. Da mesma forma caso haja algum problema e o Estado deixa de repassar o recurso ao cidadão, este se sente desobrigado a cumprir as condicionalidades e a relação é interrompida.

Para alcançar os seus objetivos expostos na seção anterior, o Programa é desenvolvido sob a lógica da dádiva, estabelecendo uma relação com o seu usuário, o programa alcança os outros objetivos, que nada mais são de fazer com que o cidadão usufrua os seus direitos.

Essa relação, que tem o caráter obrigatório, faz com que o Estado ofereça as condições necessárias para que o cidadão acesse o seu direito à saúde e educação. José

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Murilo de Carvalho ao definir direitos sociais como a participação do cidadão na riqueza coletiva, afirma que “(...)A garantia de sua vigência depende da existência de uma eficiente máquina administrativa do poder público” (CARVALHO, 2008, p.10), o que pode remeter a ideia de que não havendo uma eficiente máquina administrativa, os direitos sociais não sejam alcançáveis.

Dessa forma, embora o Estado tenha por dever disponibilizar ao cidadão os direitos sociais, a construção dessa relação recíproca para com o cidadão, obriga o Estado a disponibilizar os meios necessários e favoráveis para que o cidadão envolvido na relação possa acessar os seus direitos à saúde e educação.

Godbout aponta a importância dada por Mauss na ação do Estado enquanto dádiva, quando afirma:

(...) embora reconhecendo a importância da dádiva em toda sociedade, considera que na sociedade ocidental a dádiva assume sobretudo a forma de redistribuição do estado, que a seguridade social é de alguma forma o prolongamento moderno da dádiva primitiva, e que as outras manifestações da dádiva, fora desse contexto, acabarão sendo substituídas por formas mistas de circulação em que a dádiva tradicional estará imbricada de uma forma ou de outra na ação do Estado.(Godbout, 1999, p. 66)

Defendendo a ideia de que a relação que se estabelece entre Estado e cidadão está ancorada na dádiva, então o fato do rompimento dessa relação, também interrompe o movimento que faz esse cidadão para acessar os seus direitos. Quer dizer, que se o Estado através da Política de Assistência Social objetiva garantir que os seus usuários acessem os seus direitos através de uma relação de troca, o cidadão vai fazê-lo como retribuição à doação que recebeu, o que no caso de não recebimento da doação, não vai haver retribuição, pois uma relação foi interrompida.

Mauss analisou esta relação nas sociedades primitiva e alguns autores, entre eles Godbout, apresentam constatações de que ela está presente na modernidade e tem permeado a lógica das relações sociais.

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Portanto, nos parece um tanto quanto vão o esforço que faz a política de Assistência Social em admitir que a vedação da contraprestação seja ignorada para que outros objetivos sejam alcançados, os quais serão perdidos no momento em que a relação for interrompida.

CONCLUSÕES

A Assistência Social apresenta como um dos seus princípios a “universalização dos direitos sociais, a fim de tornar o destinatário da ação assistencial alcançável pelas demais políticas públicas” (inciso II do art. 4º da LOAS)

Dessa forma, sendo o Programa Bolsa Família uma relação de dar, receber e retribuir ele está atendendo ao princípio referido, pois os atores envolvidos na relação estão obrigados em cumprir a tríade característica da dádiva. E ainda está potencialmente garantindo o cumprimento dos seus objetivos enquanto Programa, conforme análise apresentada.

Então, estipular uma relação de troca entre o usuário/cidadão, parece ser uma estratégia utilizada pela política de Assistência Social para alcançar êxito no enfrentamento das situações de vulnerabilidade e pobreza à que se propõe.

Porém, conforme discussão aqui levantada, tornar o cidadão alcançável pelas outras políticas, possivelmente permanecerá enquanto o período que essa relação durar e pode não ser tão exitosa quanto se pressupõe. Assim, se o exercício dos seus direitos está vinculado a uma relação, ele cessará quando do fim da relação.

Refletir sobre essa situação permite também analisar e refletir sobre o custo que pode ter para a Assistência Social ignorar o princípio da gratuidade quando permite que seja exigido de um cidadão, detentor de direitos, inclusive do direito à sobrevivência, de apresentar uma contraprestação ao seu direito. Talvez a conquista de status de política pública e de direito, que foi obtida pela Assistência Social sob lutas e após longo período histórico, possa estar sendo comprometida por essa presença da doação que se apresenta na relação de dádiva na qual se constitui o Programa Bolsa Família e dos seus beneficiários.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. PNAS- Política Nacional de Assistência Social. 2004. BRASIL. LOAS- Lei Orgânica da Assistência Social. 1993. BRASIL. Lei Federal 10. 836. 2004

BRASIL. Decreto Federal 5.209. 2004

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.

GODBOUT, Jacques T. O espírito da dádiva. Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999.

SIGAUD, Lygia. As vicissitudes do ensaio sobre o dom. Revista Mana 5.(2) p. 89 à 124, 1999.

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