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Processo 1125/20.1BELSB Data do documento 7 de janeiro de 2021 Relator Jorge Pelicano

TRIBUNAL CENTRAL ADMINISTRATIVO SUL | ADMINISTRATIVO

Acórdão

DESCRITORES

Protecção internacional > Retoma para itália

SUMÁRIO

I. Beneficiando o Recorrente de autorização de permanência em Itália, emitida por razões humanitárias, há que concluir que não se encontra carecido de protecção internacional.

II. A circunstância do Recorrente ter obtido melhor tratamento médico em Portugal não obsta à sua transferência para Itália, nem obrigava o SEF, no presente caso e perante as circunstâncias alegadas, a instruir o procedimento com informação sobre o tratamento médico dispensado ao Recorrente em Itália.

TEXTO INTEGRAL

Acordam, em conferência, na Secção de Contencioso Administrativo do Tribunal Central Administrativo Sul:

A..., nacional da Guiné Bissau, vem interpor recurso da sentença datada de 14/08/2020, que negou provimento ao pedido de anulação do despacho do Director Nacional Adjunto do SEF, que considerou o pedido de protecção internacional por si deduzido inadmissível e determinou a sua transferência para Itália.

Apresentou as seguintes conclusões com as suas alegações de recurso:

“1. Vem o presente recurso interposto da sentença que indeferiu o pedido deduzido pelo Autor, aqui Recorrente, no sentido da revogação do despacho do Senhor Director Nacional Adjunto do SEF que havia considerado Itália como Estado responsável pela tomada a cargo do Recorrente.

2. Como resulta da sentença ora recorrida, o Tribunal a quo concluiu que cabia ao Autor invocar factos que suscitassem dúvidas ao SEF acerca do cumprimento das obrigações que o Estado italiano está vinculado em matéria de protecção internacional.

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3. Na ausência de tal invocação não se impunha ao SEF a realização de quaisquer diligências investigatórias adicionais nesta matéria, bastando-se a tomada de decisão na sequência do cumprimento exclusivo dos procedimentos legalmente previstos.

4. Esta posição do Tribunal a quo é sustentada na recente decisão do Supremo Tribunal Administrativo de 04/06/2020, proferida no proc. n.º 1322/19.2BELSB.

5. E, é com base no exposto, que o Tribunal a quo decidiu pelo indeferimento da pretensão do Recorrente, alegando que “Não resultando dos autos, nem do procedimento administrativo, a existência de deficiências sistémicas do procedimento de asilo e das condições de acolhimentos dos requerentes de asilo em Itália (que nem sequer foram alegadas pelo Autor), que permitissem concluir pela probabilidade séria de o Autor, ao ser transferido para aquele Estado, correr um risco real de ser sujeito a tratos desumanos ou degradantes, na acepção do artigo 4.º da CDFUE, outra não poderia ter sido a decisão da Entidade Demandada, senão a de considerar o pedido de protecção internacional inadmissível (…) e determinar a transferência do Autor para Itália, por ser este o Estado-Membro responsável pela respectiva análise (…)”.

6. Ora, o Recorrente não se conforma com esta decisão que, não só não teve em devida conta os factos alegados pelo Recorrente e dados como provados pelo próprio Tribunal a quo, como desconsiderou a jurisprudência deste mesmo Tribunal que vem considerando que cabe ao Estado português - mais concretamente ao SEF - avaliar, em concreto, as condições de acolhimento no país responsável pela tomada a cargo do Recorrente, qualificando como ilegais e inadmissíveis decisões meramente administrativas e burocráticas, sem análise da situação de facto e das especificidades de cada caso, por violação dos princípios da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

7. Tal como referido supra, o Tribunal a quo considerou que o Recorrente não havia alegado factos que indiciassem qualquer risco de tratamento desumano ou degradante em Itália ou falha no sistema de acolhimento.

8. Ora, resulta das declarações do Recorrente dadas como provadas e reproduzidas na alínea D) dos factos provados, que por falhas no sistema de registo do Recorrente no sistema da segurança social, o Recorrente não estava em condições de obter os apoios sociais a que teria direito por estar desempregado e os cuidados médicos de que precisava.

9. De realçar que o Recorrente informou que “(…) agora que estou doente querem que arranje outro contrato de trabalho (…)” e que, “Mas eu estou doente não posso trabalhar e eles não emendam o erro do meu cartão”.

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alegado pelo Recorrente, não procurou saber qual a doença do Recorrente, quais os tratamentos que seriam devidos e que tipo de acompanhamento médico é que o Recorrente teve em Itália.

11. No entender do Recorrente o facto de estar doente e de não obter, no país responsável pelo acolhimento, os cuidados médicos de que carece será indício relevante para obrigar à avaliação e ao apuramento das efectivas condições de acolhimento no país em causa, à luz da CEDH e da CDFUE.

12. Do exposto resulta demonstrado que, contrariamente ao que o Tribunal a quo concluiu, os factos que indiciariam risco no acolhimento em Itália foram efectivamente alegados pelo Recorrente nas suas declarações.

13. Os serviços administrativos é que os terão ignorado, não tendo dado qualquer seguimento às queixas e denúncias feitas pela Recorrente.

14. Em complemento ao exposto, e no que refere especificamente às falhas sistémicas do sistema de acolhimento em Itália, as mesmas são de conhecimento público e estão detalhadamente descritas no acórdão deste mesmo Tribunal de 22/08/2019, proc. n.º 1982/18.1BELSB, conforme transcrição supra e que aqui se dão por integralmente reproduzidas por uma questão de economia processual.

15. É de realçar que, como foi entendimento deste mesmo Tribunal, as falhas do sistema de acolhimento em Itália são factos notórios, de conhecimento público, cujo desconhecimento o SEF não pode invocar, inclusivamente porquanto foi parte no dito processo que culminou com o acórdão ora invocado.

16. E tanto são de conhecimento público e notório que o próprio Recorrente o alegou nas declarações dadas como provadas e reproduzidas na alínea G) dos factos provados, das quais se transcreve a seguinte parte: “(…) o objectivo do Estado italiano é terminar com a sua protecção humanitária. As políticas em Itália tornaram-se anti-imigração ao longo dos últimos anos, sendo o seu objectivo não permitir a integração dos beneficiários de protecção internacional em Itália”.

17. Nessa medida, e em face do exposto, tendo o SEF directo conhecimento das falhas no sistema de acolhimento em Itália, como detalhadamente relatado nos diversos relatórios identificados e nas notícias amplamente difundidas pela comunicação social, competiria aos serviços efectuar uma análise mais aprofundada da actual situação naquele país por forma a avaliar da manutenção ou não das falhas identificadas.

18. Só após essa análise, com eventual actualização de dados e informação, é que o SEF estaria em condições de tomar uma decisão devidamente fundamentada e não uma decisão meramente administrativa e burocrática, como se verificou.

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resulta de factos públicos e notórios amplamente divulgados pela comunicação social - que o SEF deveria ter actuado de forma mais diligente e zelosa, procurando averiguar se a transferência do Recorrente para aquele país seria a decisão que melhor defenderia os interesses e direitos do Recorrente, dando pleno cumprimento aos princípios da CEDH e CDFUE.

20. Nessa medida, improcede a conclusão do Tribunal a quo no sentido de que o Recorrente não alegou factos que impusessem ao SEF a realização de outras diligências investigatórias.

21. Improcede porque tal alegação não corresponde à realidade, como resulta demonstrado das declarações do Recorrente dadas como provadas e reproduzidas na alínea G) dos factos provados.

22. E improcede porque as falhas sistémicas do sistema de acolhimento italiano resultando de factos públicos e notórios, de conhecimento geral e do próprio SEF, não careceriam, sequer, de alegação, como conclui este mesmo Tribunal.

23. E é por tudo isto que o Recorrente mantém o entendimento de que, não obstante a presunção de aceitação tácita da tomada a cargo por parte de um Estado membro, nos termos do art. 22.º do Regulamento de Dublin, a verdade é que se impõe aos serviços de imigração portugueses uma análise das condições de acolhimento no Estado pretensamente responsável sob pena de violação dos mais elementares direitos humanos, em especial quando esse Estado é Itália e o próprio SEF tem conhecimento directo das deficientes condições de acolhimento dos migrantes.

24. Repita-se que resulta dos 2.º e 3.º parágrafos do n.º 2 do art. 3.º do Regulamento de Dublin que “Caso seja impossível transferir um requerente para o Estado-Membro inicialmente designado responsável por existirem motivos válidos para crer que há falhas sistémicas no procedimento de asilo e nas condições de acolhimento dos requerentes nesse Estado-Membro, que impliquem o risco de tratamento desumano ou degradante na aceção do artigo 4.o da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, o Estado-Membro que procede à determinação do Estado-Estado-Membro responsável prossegue a análise dos critérios estabelecidos no Capítulo III a fim de decidir se algum desses critérios permite que outro Estado-Membro seja designado responsável.

Caso não possa efetuar-se uma transferência ao abrigo do presente número para um Estado-Membro designado com base nos critérios estabelecidos no Capítulo III ou para o primeiro Estado-Membro onde foi apresentado o pedido, o Estado-Membro que procede à determinação do Estado-Membro responsável passa a ser o Estado-Membro responsável.” (sublinhado nosso).

25. Ou seja, o Estado português só pode transferir a responsabilidade de acolhimento para outro Estado membro com base dos critérios definidos no regulamento aplicável se estiver em condições de assegurar que o Estado responsável não apresenta falhas sistémicas no respectivo procedimento de asilo e condições de acolhimento.

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factos por parte do requerente, sobretudo e em especial nas situações em que as falhas do sistema de acolhimento do país em causa são de conhecimento público e do próprio SEF como é o presente caso.

27. É ao Estado português que, enquanto entidade decisora sujeita aos princípios ínsitos no Regulamento de Dublin e à defesa dos direitos humanos reconhecidos pela própria União Europeia, cabe a análise e avaliação das condições em que assenta a sua tomada decisão, que, dada a sensibilidade das questões e matérias em apreciação, não pode ser feita de forma automática e meramente burocrática.

28. Ao contrário da prática do SEF, a postura dos serviços de imigração não pode ser meramente passiva, devendo antes o Estado português ter uma postura activa com vista à protecção dos direitos humanos e à realização do Estado direito, em especial nas situações em que as falhas do sistema de acolhimento do país em causa são de conhecimento público e do próprio SEF como é o presente caso, repita-se.

29. Este tem sido o entendimento deste Tribunal Central Administrativo Sul de que são exemplos o acórdão de 21/11/2019, proc. n.º 401/19.0BELSB, e os acórdãos de 26/09/2019, proferidos nos procs. n.ºs 557/19.2BELSB e 751/19.6BELSB.

30. Em face de tudo o que vem exposto, conclui o Recorrente que deverá ser dado provimento ao presente recurso, revogando-se a sentença ora recorrida e, consequentemente, anulando-se a decisão do SEF de declarar Itália como Estado responsável pela tomada a cargo do Recorrente por ilegal, por violação do disposto no art. 3.º do Regulamento de Dublin e atenta a inexistência de elementos instrutórios que permitam concluir pela ausência de falhas sistémicas no procedimento de asilo e nas condições de acolhimento em Itália que possam implicar o risco de tratamento desumano ou degradante na aceção do artigo 4.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.”.

O Recorrido apresentou não apresentou contra-alegações. Foi dado cumprimento ao disposto no art.º 146.º, n.º 1 do CPTA.

Com dispensa de vistos, atenta a sua natureza urgente, vem o processo submetido à Conferência desta Secção de Contencioso Administrativo para decisão.

Há, assim, que decidir, perante o alegado nas conclusões de recurso, se a sentença recorrida sofre do erro de julgamento que lhe é apontado, por, ao contrário do decidido, o despacho que indeferiu a pretensão do ora Recorrente dever ser anulado por o SEF não ter instruído devidamente o procedimento administrativo. *

Dos factos.

Para a decisão do recurso, importa considerar a seguinte matéria de facto fixada na sentença recorrida: A. O Autor nasceu na Guiné Bissau, aos 08/05/1982 - cfr. fls. 16 do PA;

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Refugiados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras - cfr. fls. 20 do PA;

C. No decurso da instrução do procedimento, e na sequência da recolha de impressões digitais ao Autor, o SEF detetou três registos no sistema EURODAC, a saber: CASE ID IT1TP00WL5, inserido em Itália em 26/02/2015; CASE ID DE1150624HAL00897, inserido na Alemanha em 24/06/2015 e CASE ID IT1TP013L4, inserido em Itália em 13/05/2016 - cfr. fls. 3 a 5 do PA;

D . Em 03/02/2020, o Autor prestou declarações no Gabinete de Asilo e Refugiados, nos termos do instrumento de fls. 22 a 28 do PA, que aqui se dá por integralmente reproduzido, e do qual se extrai, nomeadamente, o seguinte:

«Imagem no original»

E. Nesse mesmo dia, o SEF elaborou o documento de fls. 29 e 30 do PA, denominado “RELATÓRIO”, cujo teor, por brevidade, se dá por integralmente reproduzido e no qual foi assinalada a opção:

F. O Autor tomou conhecimento nesse mesmo dia do documento referido na alínea antecedente e ainda do sentido provável da proposta de decisão de inadmissibilidade do pedido de proteção internacional e consequente transferência para Itália e de que dispunha do prazo de 5 (cinco) dias para se pronunciar – cfr. fls. 31 do PA;

G. Em sede de audiência de interessados, o Autor pronunciou-se nos termos do instrumento de fls. 42 e 43 do PA, cujo teor, por brevidade, se dá por integralmente reproduzido;

H . O Autor é titular de uma autorização de residência emitida pelas autoridades italianas, válida até 21/09/2020 - cfr. fls. 32, 33 e 49 do PA;

I . Em 14/02/2020, o SEF efetuou um pedido de tomada a cargo do Autor às autoridades italianas, nos termos do instrumento de fls. 46 a 51 do PA, cujo teor se dá por integralmente reproduzido;

J . Em 17/04/2020, foi elaborada a Proposta de fls. 57 a 62 do PA, cujo teor se dá por integralmente reproduzido, e do qual se extrai, nomeadamente, o seguinte:

“(…).

9. Analisadas as alegações, verifica-se que o requerente não apresenta matéria de facto suscetível de impedir a sua transferência para Itália.

10. Aos 14-02-2020, o GAR apresentou um pedido de tomada a cargo às autoridades italianas ao abrigo do artigo 12º n.1 do Regulamento (UE) 604/2013 do PE e do Conselho, de 26 de junho (Regulamento Dublin). 11. Decorrido o prazo de dois meses estabelecido no art.2 22 n! 1, do Regulamento (UE) 604/2013 do PE e do Conselho, de 26 de junho, sem as que as autoridades italianas se tivessem pronunciado, tal equivale à aceitação tácita do pedido, conforme previsto nos termos do nº 7 do mesmo artigo 22º

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12. Atendendo à situação de admissão tácita, deve o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras proferir uma decisão de inadmissibilidade do pedido.

Pelo exposto, (…) propõe-se que a Itália seja considerada o Estado responsável pela tomada a cargo, ao abrigo do artigo 22.º, n.º 7 do Regulamento (CE) N.º 604/2013, do Conselho de 26 de junho.”

K . Em 17/04/2020, o Diretor Nacional Adjunto do SEF, com base na informação referida na alínea antecedente, proferiu decisão a considerar inadmissível o pedido de proteção internacional apresentado pelo Autor e determinou a sua transferência para Itália, por ser o Estado-Membro responsável pela análise do pedido de proteção internacional – cfr. fls. 63 do PA;

L. A decisão referida na alínea anterior foi comunicada ao Autor em 20/05/2020 - cfr. fls. 65 do PA. *

Direito

Alega o Recorrente que a sentença recorrida incorreu em erro de julgamento ao ter decidido que “o Autor, quer na entrevista quer em sede de audiência de interessados, não invocou quaisquer factos que configurem a ocorrência de condições deficitárias em Itália ao nível ao acolhimento ou que permitam concluir pela probabilidade de ser sujeito a tratamentos desumanos ou degradantes, na acepção dos artigos 3.º da CEDH e 4.º da CDFUE” pelo que “(…) não se impunha à Entidade Demandada a realização de quaisquer outras diligências probatórias”.

Lembra que nas declarações por ele prestadas junto do SEF, dadas como provadas e reproduzidas na alínea D) dos factos provados, referiu que não estava em condições de obter os apoios sociais a que teria direito por estar desempregado e não recebia os cuidados médicos de que precisava, tendo referido especificamente que “(…) agora que estou doente querem que arranje outro contrato de trabalho (…)” e que, “Mas eu estou doente não posso trabalhar e eles não emendam o erro do meu cartão”.

Alega ainda que existem em Itália falhas sistémicas no procedimento de asilo e nas condições de acolhimento dos requerentes de protecção internacional, o que diz constituir facto notório e de conhecimento público, que não foi tido em consideração pelo SEF, nem foi tido em conta na sentença recorrida.

Na sentença recorrida decidiu-se que apesar do Recorrente (…) ter referido que era maltratado em Itália, percebe-se, pelo contexto das suas declarações e pela pronúncia em sede de audiência prévia, que tal vocábulo não foi utilizado em termos que configurem um tratamento cruel ou desumano face ao preceituado no artigo 3.º do Regulamento de Dublin e do artigo 4.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, mas apenas pelas questões burocráticas que estiveram envolvidas na celebração de contratos de trabalho em Itália.

Em momento algum, e mesmo em sede judicial, o Autor alegou que foi vítima de maus tratos físicos e/ou psicológicos, ameaçado, ou que sentiu a sua vida e a sua integridade física em risco, aquando da sua permanência em Itália.

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invocou quaisquer factos que configurem a ocorrência de condições deficitárias em Itália ao nível do seu acolhimento ou que permitam concluir pela probabilidade de ser sujeito a tratamentos desumanos ou degradantes, na aceção dos artigos 3.º da CEDH e 4.º da CDFUE.

As razões que o Autor declarou, enquanto motivo para ter deixado Itália, prendem-se essencialmente com questões laborais e de burocracias com documentação.

Com efeito, na situação concreta em apreciação, a factualidade provada e as declarações prestadas pelo Autor não suscitam dúvidas acerca do cumprimento das obrigações a que o Estado Italiano está vinculado em matéria de proteção internacional, razão pela qual, na situação concreta, não se impunha à Entidade Demandada a realização de quaisquer outras diligências instrutórias.

Como referido no Acórdão do STA, de 04/06/2020, processo n.º 1322/19.2BELSB, disponível em www.dgsi.pt, “(…). Em suma, das suas declarações não se indicia qualquer falha sistémica no seu acolhimento em Itália nem qualquer risco de tratamento desumano ou degradante sendo que lhe competia a ele alegar e demonstrar a existência de circunstâncias excepcionais que lhe fossem próprias e não o conhecimento comum e generalizado as dificuldades de acolhimento em Itália.

Pelo que o SEF não se encontrava obrigado a fazer quaisquer averiguações sobre eventuais falhas sistémicas do sistema de acolhimento italiano, uma vez que, no caso concreto, inexistem quaisquer indícios de que o A. tenha sido ou venha a ser vítima das mesmas, nomeadamente com a gravidade extrema que é pressuposto da aplicação da cláusula de salvaguarda constante do artº 3º nº 2 do Regulamento Dublin III.

Não resulta, assim, alegada a existência de quaisquer factos que permitam indiciar que o autor vá ser transferido para um país onde se verifiquem deficiências sistémicas no procedimento de asilo e condições de acolhimento que impliquem o risco de ser desrespeitado o seu direito absoluto a não ser sujeito a penas ou tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos.”

Não resultando dos autos, nem do procedimento administrativo, a existência de deficiências sistémicas do procedimento de asilo e das condições de acolhimento dos requerentes de asilo em Itália (que nem sequer foram alegadas pelo Autor), que permitissem concluir pela probabilidade séria de o Autor, ao ser transferido para aquele Estado, correr um risco real de ser sujeito a tratos desumanos ou degradantes, na aceção do artigo 4.º da CDFUE, outra não poderia ter sido a decisão da Entidade Demandada, senão a de considerar o pedido de proteção internacional inadmissível, nos termos dos artigos 19.º-A, n.º 1, alínea a) e 20.º, n.º 1, da Lei de Asilo, e determinar a transferência do Autor para Itália, por ser este o Estado-Membro responsável pela respetiva análise, ao abrigo do disposto no artigo 12.º do Regulamento de Dublin.”. A sentença recorrida não sofre do erro de julgamento que lhe é imputado.

Nas declarações que o Recorrente prestou perante o SEF, referiu que era titular de autorização de permanência em Itália por razões humanitárias, emitida em 29/05/2018, válida até 21/09/2020. Referiu que o nome que constava dos seus documentos emitidos pelas autoridades italianas precisava de ser rectificado e que, para tanto, lhe foi dito por essas autoridades que tinha de apresentar um contrato de trabalho, o que lhe era impossível por se encontrar doente. Descreveu tal doença como sendo “dor de barriga” e que em Itália não obteve um bom acompanhamento médico, por apenas lhe ter sido administrado um medicamento em pó que não surtiu efeito, ao contrário dos cuidados médicos que

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recebeu em Portugal, onde já fez exames médicos e lhe foram prescritos outros medicamentos.

Como se vê, à data em que o Recorrente apresentou pedido de protecção internacional em Portugal (02/01/2020), bem assim como à data em que foi emitido o despacho pelo SEF que considerou a sua pretensão inadmissível (17/04/2020), beneficiava de protecção do Estado italiano, uma vez que a autorização de permanência por razões humanitárias por este emitida tinha validade até ao dia 21/09/2020, pelo que nada prova que estivesse carecido de protecção.

Por outro lado, nada demonstra que a sua transferência para Itália o colocará em risco de aí vir a sofrer de tratos desumanos ou degradantes na acepção do art.º 4.º da CDFUE, ou do art.º 3.º da CEDH, nomeadamente por via da situação de doença que descreve. Nada prova que a doença que diz sofrer não possa ser tratada em Itália, nem que a sua transferência para esse país o coloque em risco de vida ou em risco de vir a sofrer ofensa na sua integridade física.

A circunstância de ter obtido melhor tratamento médico em Portugal não obsta à sua transferência para esse país, nem obrigava o SEF, perante as circunstâncias alegadas, a instruir o procedimento com informação sobre o tratamento médico dispensado ao Recorrente.

Também nada demonstra que até ao dia 21/09/2020, data do termo de validade da autorização de residência, não pudesse vir a arranjar trabalho, de forma a poder proceder à rectificação do seu nome nos documentos italianos, ou que as autoridades italianas não lhe renovassem a autorização de permanência. Nem se vê, perante o demais alegado pelo Recorrente, que factos relevantes ficaram por averiguar pelo SEF de forma a assegurar que a sua transferência para Itália não o colocaria em situação de vir a sofrer de tratos desumanos ou degradantes na acepção do art.º 4.º da CDFUE, ou do art.º 3.º da CEDH.

Também não se pode concluir que a sentença recorrida tenha errado por não ter atendido às falhas de natureza sistémica que o Recorrente diz existirem no procedimento de protecção internacional e nas condições de acolhimento de refugiados em Itália.

Desde logo por, contrariamente ao alegado pelo Recorrente, não se tratarem de factos notórios ou de conhecimento público.

Sobre tal questão decidiu este Tribunal através do acórdão proferido no âmbito do proc. n.º 1030/20.1BELSB, em que interveio o presente colectivo de juízes, acessível em www.dgsi.pt, que:

“As deficiências que são apontadas ao procedimento de protecção internacional e às condições de acolhimento dos requerentes de asilo em Itália, encontram-se descritas, entre outros, no acórdão deste Tribunal proferido no âmbito do processo n.º 2364/18.0BELSB, datado de 14/05/2020, acessível em www.dgsi.pt, em que se transcreve e se remete para o teor de vários relatórios do ACNUR e de várias organizações não governamentais.

Considerando o teor de tais documentos, e no que se refere ao procedimento a que são submetidos os requerentes de protecção internacional em Itália, há que concluir que existem falhas no serviço prestado pelas ONGs nos pontos de passagem de fronteira, em especial nos portos do adriático, existindo insuficiências e lacunas ao nível da comunicação e interpretação prestada e no material informativo disponível (cfr. relatório do ACNUR, de Janeiro de 2019, referido a fls. 11 a 13 do parecer do CPR). Através das alterações legislativas introduzidas pelo “decreto Salvini” (Decreto Lei n.º 113/2018, implementado pela Lei 132/2018) foi criado o conceito de “país seguro”, tendo sido elaborada uma lista de 13 países

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nessa situação, que constitui um critério relevante de decisão no âmbito do procedimento de tramitação acelerada, caso os requerentes não apresentem outros elementos de prova. Apesar dos requerentes se poderem registar quando chegam a Itália e, posteriormente, poderem formular o pedido de protecção internacional (variando o tempo de espera de acordo com os serviços – Questura - situados nas várias regiões de Itália), subsistem obstáculos de natureza burocrática que atrasam o procedimento, mostrando-se este muito moroso até que mostrando-seja emitida a decisão final. Foi abolida a atribuição do estatuto de protecção humanitária, tendo sido substituído por uma autorização de residência “para casos especiais”, mas de duração limitada. Facilitou-se a revogação do estatuto de refugiado e aumentou-se o período máximo de detenção nos centros para repatriação (http://www.asylumineurope.org/sites/default/files/report-download/aida_it_2019update.pdf).

Ao nível das condições de alojamento oferecidas aos refugiados, as alterações legislativas introduzidas em 2018 reduziram o número de centros de acolhimento, nomeadamente os de “segunda linha”, de que se destacavam os SPRAR, que continham condições de acolhimento para pessoas vulneráveis, nomeadamente para famílias.

Privilegiou-se a construção de centros de acolhimento de maior dimensão, para funcionarem como centros de acolhimento de “primeira linha”, destinados a alojar a generalidade dos refugiados, bem assim como as pessoas com necessidades especiais. Prestam-se aí cuidados destinados à satisfação das necessidades essenciais, tendo-se suprimido os serviços destinados à integração dos refugiados que eram prestados nos centros de “segunda linha”.

Verificou-se a redução do financiamento e dos serviços prestados nos centros de primeiro acolhimento, sendo estes geridos por associações ou empresas privadas que concorrem a procedimentos públicos de adjudicação, o que tem levado à diminuição da qualidade dos serviços aí prestados aos refugiados, incluindo as condições materiais de alojamento.

Os cuidados prestados aos requerentes de protecção internacional transferidos ao abrigo do Regulamento de Dublin III, não evidenciam a existência de um tratamento padronizado a nível nacional, sendo tais requerentes, em geral, submetidos aos mesmos procedimentos que os restantes requerentes de asilo e podem ter de aguardar alguns dias nas instalações do aeroporto (no caso dos aeroportos de Roma e Milão), para serem realojados nos centros de “primeira linha”, que não oferecem as condições que os antigos centros de “segunda linha” propiciavam, nomeadamente às pessoas que fazem parte dos grupos vulneráveis. Os refugiados frequentemente enfrentam dificuldades burocráticas para aceder aos procedimentos legais e de recepção, muitas vezes se encontrando irregulares e sem-teto – relatório de 23/01/2020, no sítio www.ecre.org- divulgado pelo Conselho Suíço de Refugiados e ainda o relatório da AIDA consultável em

http://www.asylumineurope.org/sites/default/files/report-download/aida_it_2019update.pdf).

Conforme refere o TJUE, no processo C-163/17, as falhas sistémicas a que se refere o n.º 2 do art.º 3.º do Regulamento de Dublin III “devem ter um nível particularmente elevado de gravidade”, que seria alcançado quando a indiferença das autoridades de um Estado-Membro tivesse como consequência que uma pessoa completamente dependente do apoio público se encontrasse, independentemente da sua vontade e das suas escolhas pessoais, numa situação de privação material extrema, que não lhe permitisse

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fazer face às suas necessidades mais básicas.

Apesar das deficiências que acima são apontadas ao procedimento de protecção internacional implementado pela Itália e às condições de acolhimento dos requerentes, não estamos perante uma situação como a vivida na Grécia, descrita no acórdão proferido pelo TEDH no âmbito do processo M.S.S. contra a Bélgica e a Grécia, de 21/01/2011 (queixa n.º 30696/09) e no acórdão do TJUE, no âmbito dos processos C-411/10 e C-493/10, acima indicados, em que se possa concluir pela existência de falhas sistémicas.

Note-se que o ACNUR, contrariamente ao que ocorreu no processo M.S.S. v. Bélgica, de 21/01/2011, acima mencionado, que tratou da situação dos refugiados na Grécia, nunca veio a desaconselhar a transferência de requerentes de protecção internacional para Itália.

A jurisprudência que o STA tem emanado sobre a questão tem entendido, que “apenas em casos devidamente justificados, ou seja, naqueles casos em existam motivos válidos para crer que há falhas sistémicas no procedimento de asilo e nas condições de acolhimento dos requerentes e que tais falhas implicam o risco de tratamento desumano ou degradante, nomeadamente por envolver tortura, é que se impõe ao Estado em causa diligenciar pela obtenção de informação actualizada acerca da existência de risco de o requerente ser sujeito a esse tipo de tratamentos” - ac. do STA, datado de 16/01/2020, proc. n.º 02240/18.7BELSB.

No ac. do STA, datado de 02/07/2020, proc. n.º 01088/19.6BELSB, sumariou-se que “não sendo demonstrada a existência de falhas sistémicas no procedimento de asilo e nas condições de acolhimento dos requerentes num determinado Estado-Membro (nos termos do n.º 2 do artigo 3.º do Regulamento (UE) n.º 604/2013), e não sendo possível concluir que, independentemente da existência de uma forte pressão migratória que se constata existir nesse específico Estado-Membro, o requerente de protecção internacional tenha sido e/ou vá ser objecto de tratamento desumano ou degradante na acepção do artigo 4.º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, não há motivo para admitir o pedido e para não proceder à transferência do requerente de asilo.

(…)”

Perante o exposto, há que concluir que o presente recurso tem de improceder, dado não ter ficado demonstrado o erro de julgamento que é imputado à sentença recorrida, pois nem a situação em Itália sofre das falhas de natureza sistémica que o Recorrente diz existirem, nem se pode concluir que o procedimento sofra do deficit instrutório que lhe é apontado.

Decisão

Pelo exposto, acordam em conferência os juízes da secção de contencioso administrativo do TCA Sul em negar provimento ao recurso e manter a sentença recorrida.

Sem custas – art.º 84.º da Lei n.º 27/2008, de 30 de JunhoLisboa, 7 de Janeiro de 2021

O relator consigna, nos termos do disposto no art. 15.º-A do DL n.º 10-A/2020, de 13.03, aditado pelo art. 3.º do DL n.º 20/2020, de 01.05, que têm voto de conformidade com o presente acórdão os Juízes Desembargadores que integram a formação de julgamento.

(12)

Celestina Castanheira Ricardo Ferreira Leite

Referências

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