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SIMETRIAS EM GEOMETRIA E FÍSICA

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Academic year: 2021

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Ricardo Paleari da Silva

SIMETRIAS EM GEOMETRIA E FÍSICA

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Ricardo Paleari da Silva

SIMETRIAS EM GEOMETRIA E FÍSICA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Matemática Aplicada da Universi-dade Federal do Paraná, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Matemática Apli-cada.

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Outeiral Correa Hoefel.

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Confesso que é realmente muito difícil escrever sucintamente um agradecimento a todos aqueles cuja existência é, ou foi, essencial até o presente momento de minha vida. Se eu fosse listar aqui todos os nomes importantes, provavelmente eu gastaria muitas horas digitando (bem gastas certamente), porém, o espaço é curto para isto.

Quero agradecer aos meus amigos e colegas, desde os amigos de infância até os mais recentes da universidade. Certamente eles são os principais responsáveis por muitos de meus momen-tos mais felizes e das minhas peculiares risadas.

À Lilian, pelos ótimos momentos que somente com ela eu poderia ter vivido. Certamente ela é uma pessoa com a qual posso contar em qualquer momento da minha vida, além de ser prova-velmente a única pessoa no mundo que consiga me aguentar.

Um obrigado também ao Prof. Dr. Eduardo Hoefel, por ter me orientado neste trabalho e tam-bém por ter me mostrado outras maneiras interessantes de pensar e ver matemática. Certa-mente tudo isso fez com que eu evoluísse muito em vários sentidos. Não poderia deixar de agradecer também pelos chocolates dos finais de semana.

Agradeço à CAPES pelo apoio financeiro. Agradeço também ao PPGMA por ter oferecido uma estrutura razoável para que eu realizasse meus estudos nestes dois anos de mestrado. Agradeço a todos aqueles professores que me ajudaram tanto durante toda a minha estadia na UFPR, e também a aqueles que trabalham arduamente para que o departamento de matemática da UFPR, seus cursos de graduação e seus programas de pós-graduação melhorem cada vez mais, os quais espero que, num futuro próximo, sejam grandes referências em ensino e pesquisa de ótima de qualidade.

Finalmente, agradeço aos meus pais por serem responsáveis pela pessoa que sou hoje, e por todo o apoio que sempre tive para chegar onde estou. Tenho certeza de que minha mãe estaria muito feliz se pudesse ler isto agora.

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Albert Einstein

“Uma geometria não pode ser mais verdadeira do que outra; poderá ser apenas mais cômoda.” Henri Poincaré

“Nenhuma grande descoberta foi feita jamais sem um palpite ousado.” Isaac Newton

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O objetivo desta dissertação é fazer um estudo mostrando algumas ligações entre geometria e física utilizando conexões em fibrados principais. Mais especificamente, descreveremos as geometrias clássicas como exemplos de espaços simétricos e, além disso, mostraremos exem-plos de field strenghts como expressões de conexões em certos fibrados principais. Começamos fazendo uma apresentação sucinta dos conceitos: fibrado principal, conexão e curvatura. Em seguida, dividimos o trabalho em duas direções. Na primeira, usamos a linguagem de fibrados principais e conexões para definir o conceito de espaço simétrico e escrevemos, nestes termos, as geometrias clássicas (simplesmente conexas) de curvatura constante: a geometria Esférica, a geometria Hiperbólica e a geometria Euclidiana. No segundo, apresentamos uma relação entre as fibrações de Hopf e alguns temas oriundos da física teórica: o eletromagnetismo e a teoria de Yang-Mills.

Palavras-chave: conexão em fibrado principal, curvatura, espaço simétrico, fibrados de Hopf, eletromagnetismo, teoria de Yang-Mills.

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The aim of this work is to make a study showing some relations between geometry and physics using connections on principal fiber bundles. More specifically, we will describe the classical ge-ometries as examples of symmetric spaces and, besides, we will show examples of field strenghts as expressions of connections in some principal fiber bundles. We start doing a quick presen-tation of the concepts: principal fiber bundle, connection and curvature. In the following, we divide the work in two directions. First, we use the language of principal fiber bundles and con-nections to define the concept of symmetric space and we write, in these terms, the classical geometries (simple connected) of constant curvature: the Spherical geometry, the Hyperbolic geometry and the Euclidean geometry. Next, we present a relation between the Hopf’s fibrati-ons and some topics arising from theoretical physics: the eletromagnetism and the Yang-Mills’ theory.

Keywords: connection on principal fiber bundle, curvature, symmetric space, Hopf ’s bundles, electromagnetism, Yang-Mills’ theory.

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Introdução 1

1 Conceitos e resultados preliminares 4

1.1 Fibrados Principais e exemplos . . . 5

1.2 Fibrados Associados . . . 13

1.3 Conexões em Fibrados Principais . . . 15

1.4 Forma de curvatura . . . 23

1.5 Fibrados Vetoriais e conexões lineares . . . 28

2 Simetrias em Geometria 36 2.1 Espaços Homogêneos Simétricos . . . 36

2.2 Transformações . . . 44

2.3 Exemplos de Espaços Homogêneos Simétricos . . . 50

2.3.1 Geometria Esférica . . . 51

2.3.2 Geometria Hiperbólica . . . 55

2.3.3 Geometria Euclidiana . . . 58

3 Simetrias em Física 61 3.1 Álgebra dos Quatérnios e Espaços Projetivos . . . 61

3.2 Fibrados de Hopf . . . 67

3.2.1 Fibrado Complexo . . . 69

3.2.2 Fibrado Quaterniônico . . . 76

3.3 Fibrados sobre esferas . . . 88

Referências Bibliográficas 99

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Estruturas fibradas têm sido objetos de fundamental importância em grandes áreas da mate-mática e da física desde algumas décadas atrás. Na geometria diferencial, por exemplo, temos naturalmente os fibrados vetoriais, nos quais guardamos ao mesmo tempo informação da vari-edade base e, sobre cada ponto desta, guardamos também informação sobre o espaço vetorial típico daquele fibrado vetorial em questão (por exemplo, o espaço tangente naquele ponto, o espaço dual, espaço dos tensores, etc...). Outro exemplo é o fibrado de referenciais de uma va-riedade, em que colocamos sobre cada ponto desta o conjunto de todas as bases ordenadas do espaço tangente correspondente. A estrutura fibrada mais simples que podemos ter é um produto cartesiano X× Y , o qual é pensado como uma estrutura fibrada sobre X e, em cada ponto x∈ X , a fibra é uma cópia do espaço topológico Y , de modo que X × Y pode ser pensado como uma “colagem” de cópias da fibra Y sobre cada ponto x de X . Esta é a maneira mais simples de fazer tal colagem. Uma estrutura fibrada em geral segue a mesma ideia, porém nem todas são obtidas globalmente como um produto cartesiano, o que se exige é que isso aconteça pelo menos localmente. Isso se tornará mais preciso posteriormente. Um dos objetos mais importantes quando se considera um fibrado é o tipo de fibra que usamos. Nos casos de nosso interesse, os fibrados terão uma “fibra típica”, sendo que nesta fibra age um grupo, chamado de grupo estrutural do fibrado. Dependendo da situação, a fibra típica pode ter tipos de estruturas diferentes, sendo, por exemplo, topológica, vetorial, de grupo de Lie, entre outras.

Nesta dissertação lidaremos com fibrados principais e seus fibrados associados (em particu-lar, fibrados vetoriais). Sem muito rigor, podemos dizer que um fibrado principal é um fibrado cuja fibra típica é o grupo estrutural e, além disso, a ação nas fibras é dada por translações à esquerda. Um exemplo clássico que procura motivar uma tal estrutura é o seguinte: partículas se movendo em uma região e que interagem. Por motivos físicos, é importante entender como é a variação da fase destas partículas, porque sua fase relativa tem consequências observáveis. A fase de uma partícula é representada por um número complexo de módulo 1 (isto é, um ele-mento do grupo S1). Se o movimento de uma partícula é modelado em uma variedade M , uma

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maneira para tentar manter o controle de variação da fase desta partícula é colocar em cada ponto da variedade M uma cópia de S1como fibra, e considerar assim um fibrado sobre M

fa-zendo uma “colagem” destas fibras (este fibrado é chamado de espaço de fases). O movimento da partícula, pensado neste espaço de fases, é um exemplo de seção local deste fibrado. Neste caso a fibra típica é o próprio grupo, que age por translações (rotações). Posteriormente, estu-daremos esse exemplo com mais detalhes. O objeto que de fato tem o papel de medir a variação da fase é uma conexão neste fibrado. Veremos que uma conexão em um fibrado principal induz uma conexão em cada fibrado vetorial associado, o que corresponde a uma noção de derivação de seções. No caso particular em que o fibrado vetorial é o fibrado tangente, recuperamos a no-ção de conexão da geometria Riemanniana, ilustrando que a partir do estudo de conexões em fibrados principais é possível, de certa maneira, estudar questões de geometria Riemanniana.

O exemplo de origem física do parágrafo anterior nos diz que a linguagem de fibrados prin-cipais e conexões pode modelar questões teóricas do eletromagnetismo. De fato, o eletromag-netismo foi a primeira teoria a ser considerada como um exemplo de Teoria de Calibre. Algumas destas teorias têm o papel de tentar unificar em uma única linguagem certas forças da natureza. Nesta linguagem, o eletromagnetismo é uma teoria de Calibre de grupo U(1) = S1(abeliano),

que tem o papel de unificar as forças elétrica e magnética. Em 1954, C. N. Yang e R. Mills in-troduziram uma teoria de Calibre, de certa maneira análoga à teoria do eletromagnetismo, para tentar modelar a interação forte entre os nucleons de um átomo. Esta teoria, chamada de Teoria de Yang-Mills, é uma teoria de Calibre com grupo SU(2) (não abeliano). Assim como no eletro-magnetismo temos as Equações de Maxwell, existem também as equações de campo na teoria de Yang-Mills. Em 1970, Sir Michael Atiyah começou a estudar a matemática das soluções des-tas equações. Daí em diante muita matemática apareceu como consequência desses estudos, com trabalhos de S. Donaldson, M. Freedman (existência de R4“exóticos”), entre outros.

Dada assim um preliminar do que é a teoria de fibrados e um pouco da sua importância, vamos comentar o que será feito nesta dissertação. No capítulo 1, apresentamos os conceitos mais importantes deste trabalho: fibrados principais, conexões e suas respectivas curvaturas. No capítulo 2, mostramos como estes objetos podem modelar diferentes tipos de geometrias, introduzindo para isso o conceito de espaço simétrico. As três geometrias clássicas de curvatura constante (e simplesmente conexas), a geometria Esférica, a geometria Hiperbólica e a geome-tria Euclidiana são escritas na linguagem de espaços simétricos. Finalmente, no capítulo 3 são estudados os fibrados de Hopf (complexos e quaterniônicos) e é apresentada uma ideia de como estes fibrados modelam situações oriundas da física teórica: o monopolo magnético (um con-ceito introduzido por P. Dirac) e a teoria de Yang-Mills. Por fim, veremos que o fato de que estas

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teorias são quantizadas é refletido em um fato puramente topológico dos fibrados em questão. Neste trabalho é assumido como conhecida a teoria básica de variedades diferenciáveis, gru-pos de Lie, álgebras de Lie e o conhecimento dos elementos básicos da geometria Riemanniana. Para uma apresentação da teoria de variedades diferenciáveis e grupos de Lie podem ser con-sultados por exemplo[Lee03], [BG80], [Hel62], [KN69], [War83] e [Spi75]. Para elementos bási-cos de geometria Riemanniana podem ser consultados[Car92], [Lee97], [O’N83] e [Pet06]. Para elementos básicos de topologia algébrica recomendamos[Nab97], [Hat02] e [BT82]. Para ele-mentos de álgebra recomendamos[Lan02]. Para uma apresentação em nível mais elementar do capítulo 2 recomendamos[Mil77]. Para possíveis continuações dos temas desta dissertação recomendamos, por exemplo,[Jar05] para uma primeira leitura e [DK90] para uma leitura mais avançada.

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Conceitos e resultados preliminares

Neste capítulo apresentamos os conceitos e os resultados principais que serão usados, os quais tentamos expor de uma forma objetiva. Vamos esclarecer algumas convenções e notações. Em todo o texto quando dizemos “P é uma variedade”, queremos dizer que P é uma variedade dife-renciável de dimensão finita no sentido de[Lee03], além disso, diferenciável aqui vai ser sinô-nimo de “diferenciável de classe C”. Se f : M → N é uma aplicação diferenciável entre duas

variedades, detonaremos por f: T M → T N a aplicação induzida entre os fibrados tangentes de

M e N respectivamente, a qual chamamos simplesmente de derivada de f . O espaço vetorial dos campos vetores em M será denotado porX(M ). O elemento neutro de um grupo de Lie G

será denotado por e , a menos que seja especificado outro símbolo. O produto de dois elementos

g , h∈ G é denotado por g · h (a menos que seja um grupo aditivo).

Definição 1.1. Uma ação (à direita) de um grupo de Lie G numa variedade P é uma aplicação

diferenciável f : P× G → P, tal que f (u , e ) = u e f (f (u , g ), h) = f (u , g · h) para todos u ∈ P e

g , h∈ G .

Para economia de notação, a ação de um elemento g ∈ G em um certo u ∈ P será denotada simplesmente por u· g . Com esta notação, as propriedades da ação são escritas como abaixo:

1. u· e = u , para todo u ∈ P.

2. u· (g · h) = (u · g ) · h, para todos u ∈ P e g , h ∈ G .

Outra notação frequente é a seguinte: quando fixamos g∈ G , denotamos por Rg a aplicação

induzida pela ação: Rg(u ) = u · g . Podemos fazer considerações análogas a respeito de ações à

esquerda. A ação é dita livre se u· g = u , para algum u ∈ P, implicar g = e . A ação é dita efetiva se u· g = u , para todo u ∈ P, implicar g = e .

(13)

Para cada g ∈ G , temos o difeomorfismo Lg : G → G definido por Lg(h) = g · h, chamado

a translação à esquerda por g . Analogamente, o difeomorfismo Rg : G → G , Rg(h) = h · g , é

a translação à direita por g . Temos também a aplicação adjunta ad(g ) : G → G , definida por ad(g )(h) = g hg−1= L

g ◦ Rg−1(h) = Rg−1◦ Lg(h).

A álgebra de Lie de G , denotada pela letra góticag, será pensada ora como o espaço tangente

TeG , ora como o conjunto de campos de vetores invariantes à esquerda em G . Se X ∈g, então

ad(g )∗(X) = (Rg−1)X , pois(Lg)X = X.

Dado X∈ TgG , existe um único campo invariante à esquerda que vale X em g , bastar tomar

o campo invariante à esquerda associado a((Lg)−1)∗(X) ∈g, que por simplicidade de notação,

também será denotado por X .

Definição 1.2. A forma de Maurer-Cartan é a 1-forma em G com valores em gdefinida por Θg(X) = Xe, em que Xe é o valor na identidade do único campo invariante à esquerda que vale X

em g .

1.1

Fibrados Principais e exemplos

Definição 1.3. Sejam M uma variedade e G um grupo de Lie. Um fibrado principal Csobre

M com grupo de estrutura G consiste de uma variedade P e uma ação (à direita) de G em P, (u , g ) 7→ u · g , tais que:

1. a ação é livre.

2. M é difeomorfo ao espaço quociente P/G e a projeção canônica π : P → M é diferenciável.

3. P é localmente trivial, isto é, para todo x ∈ M existe um aberto U ⊂ M contendo x e

um difeomorfismoψ : π−1(U) → U × G da forma ψ(u ) = (π(u ),ϕ(u )), em que ϕ satisfaz

ϕ(u · g ) = ϕ(u ) · g para todos u ∈ π−1(U) e g ∈ G .

Denotaremos um tal fibrado principal porB = P(M ,G ) ou apenas por P quando estiver claro quem é a variedade M e o grupo de Lie G . É usual dizer que P é o espaço total, M é o espaço base, e que para cada x ∈ M a pré-imagem do conjunto unitário {x } pela aplicação π, denotada porπ−1(x), é a fibra sobre x. Como π é uma submersão, as fibras são subvariedades

fechadas de P. As aplicaçõesψ da definição acima são chamadas de trivializações locais. Pela forma como se escreve uma tal trivialização localψ, e também por esta ser um difeomorfismo, segue que a restrição da aplicaçãoϕ a uma fibra π−1(x), em que x ∈ U é arbitrário, fornece um

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difeomorfismo entre esta fibra e o grupo G . Assim, em um fibrado principal, qualquer fibra é difeomorfa ao grupo estrutural G .

Note também que pela propriedade 2., a ação é transitiva quando restrita a uma fibra qual-quer, isto é, fixado u ∈ π−1(x), para qualquer outro v ∈ π−1(x) existe g ∈ G tal que u = v · g . Além

disso, como a ação é livre, tal elemento g é único.

Seja P(M ,G ) um fibrado principal. Pela condição 3. da definição, existe uma cobertura de

M por abertos{Uλ}λ∈Λ onde estão definidas trivializações locaisψλ :π−1(Uλ) → Uλ× G , com

ψλ = (π,ϕλ). Suponha que α,β ∈ Λ sejam tais que Uα ∩ Uβ 6= ;. Note que para cada

u∈ π−1(Uα∩Uβ) e g ∈ G , temos que

ϕα(u · g ) · (ϕβ(u · g ))−1= ϕα(u ) · g · g−1· ϕβ(u )−1= ϕα(u ) · ϕβ(u )−1.

Portanto, tem sentido definir a função de transição gαβ : Uα ∩ Uβ → G , colocando

gαβ(x) = ϕα(u ) · ϕβ(u )−1, em que u é qualquer elemento da fibra π−1(x). A aplicação g αβ é

diferenciável, pois pode ser escrita como composição de aplicações diferenciáveis. De fato, se i : Uα∩ Uβ → Uα∩ Uβ× G é a inclusão i (x ) = (x , e ), como ψ−1α ,ϕα eϕβ são diferenciáveis e o

produto e a inversão do grupo G são diferenciáveis, segue que gαβ = (ϕα· ϕβ−1) ◦ ψ−1α ◦ i é

dife-renciável.

Se Uα∩Uβ∩Uγ6= ;, então dado x ∈ M nesta interseção e u ∈ π−1(x), temos:

gγβ(x) · gβα(x) = ϕγ(u )ϕβ(u )−1ϕβ(u )ϕα(u )−1= ϕγ(u )ϕα(u )−1= gγα(x).

Isto é, as funções de transição satisfazem (quando tem sentido) gγα= gγβ· gβα, que é a

cha-mada condição de cociclo. Veremos posteriormente que o conjunto das funções de transição determina o fibrado principal.

Definição 1.4. Seja P(M ,G ) um fibrado principal. Uma aplicação diferenciável s : U → P, U ⊂ M

aberto, tal queπ ◦ s = IdU é chamada uma seção local do fibrado. No contexto físico, é comum

dizer que s é um calibre.

Observação 1.1. Existe uma correspondência 1-1 entre seções locais de um fibrado princi-pal e trivializações locais. De fato, dada uma trivialização local ψ : π−1(U) → U × G , com

ψ(u ) = (π(u ),ϕ(u )), podemos definir uma seção local s : U → P colocando s (x) = ψ−1(x,e ).

Ela é chamada de seção local canônica associada aψ. Reciprocamente, dada s : U → P uma seção local, defina f : U×G → π−1(U) colocando f (x, g ) = s (x) · g .

(15)

Temos que f é injetora, pois se f(x1, g1) = f (x2, g2), então x1= π(s (x1)· g1) = π(s (x2)· g2) = x2

por definição de seção local, daí g1= g2pois a ação é livre. Esta aplicação também é sobrejetora

pois dado u ∈ π−1(U) temos que s (π(u )) está na mesma fibra de u por definição de seção local,

logo existe um único g ∈ G tal que u = s (π(u )) · g . Isto define uma função u 7→ ϕ(u ) := g . Segue que f é bijetiva, e sua inversaψ = f−1 é ψ(u ) = (π(u ),ϕ(u )). Finalmente, dados u ∈ π−1(U)

e g ∈ G , como s (π(u · g )) · (ϕ(u ) · g ) = s (π(u ))(ϕ(u ) · g ) = u · g , temos que ϕ(u · g ) = ϕ(u ) · g . Portantoψ é uma trivialização local. Observe daí a seguinte consequência dessa correspon-dência. Suponha que um grupo de Lie G age livremente em uma variedade P e que M := P/G seja uma variedade com a projeção canônicaπ : P → M sendo uma submersão. Se esta projeção admitir uma família de seções locais definidas em abertos que cobrem M , então podemos cons-truir uma estrutura de fibrado principal P(M ,G ). Outra consequência dessa observação é que caso um fibrado principal possua uma seção global, então ele possui uma trivialização global, e portanto esse fibrado é um produto cartesiano.

Definição 1.5. Um morfismo de um fibrado principalB1= P1(M1,G1) em um fibrado principal

B2 = P2(M2,G2) consiste de um par de aplicações (f , f0), em que f : P1 → P2 é uma aplicação

diferenciável e f0 : G

1→ G2é um homomorfismo de grupos de Lie tais que f(u · g ) = f (u ) · f0(g )

para todos u∈ P1e g ∈ G1. Em geral, denotaremos um tal morfismo por(f , f0) : B1→ B2.

Assim, um morfismo de fibrados preserva fibras, portanto induz uma aplicação F : M1→ M2

determinada pela equaçãoπ2◦ f = F ◦ π1. A aplicação induzida é diferenciável. De fato, dado

x ∈ M1qualquer, considere um aberto U1⊂ M1 contendo x e uma seção local (diferenciável)

s1: U1→ M1do fibrado P1. Por definição de seção local, temos queπ1◦ s1= IdU1, de modo que

em U1vale F= π2◦ f ◦ s1, e assim F é escrita como composição de aplicações diferenciáveis.

Definição 1.6. Um morfismo(f , f0) : B

1 → B2 é um mergulho se f : P1→ P2é um mergulho e

f0: G

1→ G2é um monomorfismo.

Note que, usando trivializações locais, a primeira função coordenada de f é a aplicação induzida F , portanto, se f é mergulho, então F é também um mergulho. No caso da definição acima dizemos que P1(M1,G1) é um subfibrado de P2(M2,G2).

Definição 1.7. Se (f , f0) : B

1 → B2 é um mergulho entre dois fibrados com mesma base M e

a aplicação induzida F é a identidade de M , dizemos que (f , f0) é uma redução do grupo de

estrutura do fibrado P2(M ,G2) para G1e que P1(M ,G1) é um fibrado reduzido.

Definição 1.8. Se H é um subgrupo de Lie de G , dizemos que o grupo de estrutura do fibrado P(M ,G ) é redutível a H se existe um fibrado reduzido Q(M ,H).

(16)

O teorema a seguir caracteriza quando um grupo de estrutura admite redução. Este teorema não será usado posteriormente, porém, será enunciado e demonstrado pela sua importância na Teoria de Fibrados Principais em geral.

Teorema 1.1. O grupo de estrutura G é redutível para um subgrupo de Lie H se, e somente se, existe uma cobertura de M por trivializações locais tal que as funções de transição tomam valores em H .

Demonstração: Suponha primeiramente que o grupo de estrutura G é redutível a H e seja Q(M ,H) o fibrado reduzido. Considere Q como subvariedade de P. Seja {Uα} uma cobertura

aberta de M associada às trivializações locais ˜ψα: ˜π−1(U

α) → Uα× H, ˜ψα= ( ˜π, ˜ϕα), de Q(M ,H).

As funções de transição correspondentes tomam valores em H . Vamos estender agora cada ˜ψα para uma aplicaçãoψα :π−1(Uα) → Uα× G que será de fato uma trivialização local do fibrado

P(M ,G ). Fazemos isso da seguinte maneira: dado u ∈ π−1(Uα), tome ˜u ∈ ˜π−1(Uα) e g ∈ G tais

que u= ˜u · g e defina ϕα(u ) = ˜ϕα( ˜u ) · g e ψα(u ) = (π(u ),ϕα(u )). Vejamos que ϕαestá bem

de-finida. Se u = ˜u1· g1= ˜u2· g2, com ˜u1, ˜u2∈ ˜π−1(Uα) e g1, g2∈ G , então g1g−12 ∈ H pela ação ser

livre, e portanto ˜

ϕα( ˜u2) · g2= ˜ϕα( ˜u1· g1g−12 ) · g2= ˜ϕα( ˜u1) · g1g2−1g2= ˜ϕα( ˜u1) · g1.

É fácil ver agora que ψα é de fato uma trivialização local de P(M ,G ). Suponha agora que

Uα∩ Uβ 6= ; e sejam x ∈ Uα∩ Uβ e u ∈ π−1(x). Sejam também ˜u ∈ ˜π−1(x) e g ∈ G tais que

u= ˜u · g , então

gαβ(x) = ϕα( ˜u · g )ϕβ( ˜u · g )−1= ˜ϕα( ˜u )g g−1ϕ˜β( ˜u ) = ˜ϕα( ˜u ) ˜ϕβ( ˜u )−1∈ H,

e portanto as funções de transição tomam valores em H .

Reciprocamente, assuma que exista uma cobertura{Uα} de M com um conjunto de funções

de transição tomando valores em H . Da definição de subgrupo de Lie, é possível mostrar que a restrição do contradomínio gαβ : Uα∩ Uβ → H é uma aplicação diferenciável na estrutura

diferenciável de H . Pelo teorema 1.1 é possível construir um fibrado principal Q(M ,H) a partir desta cobertura e destas funções de transição. Seja fα: ˜π−1(U

α) → π−1(Uα) a composição das três

aplicações abaixo (que são mergulhos): ˜

π−1(U

α) → Uα× H → Uα×G → π−1(Uα).

(17)

Definição 1.9. SejamB1= P1(M ,G1) e B2= P2(M ,G2) fibrados principais e (f , f0) um morfismo

deB1emB2. Dizemos que(f , f0) é um isomorfismo entre esses fibrados se f for um

difeomor-fismo e f0um isomorfismo de grupos de Lie. No caso em que P

1= P2e G1= G2, dizemos que(f , f0)

é um automorfismo do fibrado.

Dados dois automorfismos(f1, f10) e (f2, f20) de um fibrado principal B = P(M ,G ), tem-se que

(f1, f10)◦(f2, f20) := (f1◦ f2, f10◦ f20) é também um automorfismo do fibrado B. O conjunto dos

au-tomorfismos do fibradoB, denotado por G (B), é um grupo com a operação ◦. Evidentemente a identidade deste grupo é o morfismo(IdP, IdG) e se (f , f0) é um automorfismo do fibrado, o seu

inverso é o morfismo(f−1, f0−1).

Observação 1.2. No caso de dois fibradosB1eB2sobre o mesmo espaço M e mesmo grupo G ,

um isomorfismo(f , f0) : B

1→ B2tal que f0= IdGe F = IdM é chamado de equivalência.

SejaB = P(M ,G ) um fibrado principal e {(Uλ,ψλ)}λ∈Λ uma cobertura aberta de M por

tri-vializações locais paraB. Considere um refinamento desta cobertura, isto é, uma cobertura aberta{Uk0}k∈K de M tal que cada Uk0 está contido em algum Uλ. Para cada k ∈ K , selecione

λ = λ(k ) ∈ Λ com U0

k ⊂ Uλ. Seψ0k : π−1(Uk0) → Uk0 × G é definida por ψ0k = ψλ|π−1(Uk0), então

{(U0

k,ψ0k)}k∈K também é uma cobertura trivializante de B. Agora suponha que sejam dados

dois fibrados principais,B1= P1(M ,G ) e B2= P2(M ,G ), e considere coberturas abertas

triviali-zantes{U1

λ1}λ1∈Λ1e{U

1

λ2}λ2∈Λ2deB1eB2respectivamente. Segue então que{U

1 λ1∩U

2

λ2}λ1∈Λ1,λ2∈Λ2

é um refinamento comum destas coberturas e assim é uma cobertura trivializante para ambos B1eB2. Portanto, não há perda de generalidade supor que dois fibrados P1(M ,G ) e P2(M ,G )

tenham as mesmas vizinhanças trivializantes. Segue abaixo um critério para equivalência de fibrados principais.

Teorema 1.2. SejamB1= P1(M ,G ) e B2= P2(M ,G ) fibrados principais e {Uλ}λ∈Λuma cobertura

trivializante para ambosB1 e B2. Sejam gαβ1 , gαβ2 : Uα∩ Uβ → G as funções de transição

cor-respondentes paraB1 e B2respectivamente. EntãoB1 e B2 são equivalentes se, e somente se,

existem funções contínuas hλ: Uλ→ G , λ ∈ Λ, tais que

g2

αβ(x) = hα(x)−1gαβ1 (x)hβ(x), x ∈ Uα∩Uβ.

Demonstração: Suponha primeiramente queB1eB2sejam equivalentes e seja f : P1→ P2uma

equivalência. Fixe x ∈ Uα∩Uβ. Note que para qualquer u ∈ π−11 (x), temos f (u ) ∈ π−12 (x). Sejam

ψ1

(18)

sobre Uβ. Dado g∈ G qualquer, note que

ϕ1

α(u · g )ϕα2(f (u · g ))−1= ϕα1(u ) · g · g−1ϕα2(f (u ))−1= ϕα1(u )ϕα2(f (u ))−1,

de modo que tem sentido definir hα: Uα→ G por hα(x) = ϕα1(u )ϕα2(f (u ))−1, em que u é qualquer

elemento deπ−11 (x). Similarmente para hβ.

Como g1

αβ(x) = ϕα1(u )ϕβ1(u )−1e gαβ2 (x) = ϕα2(f (u ))ϕ2β(f (u ))−1, segue que

g2

αβ(x) = hα(x)−1gαβ1 (x)hβ(x).

Para a recíproca, para cadaλ ∈ Λ definimos fλ:π−11 (Uλ) → π−12 (Uλ) por

fλ(u ) = (ψ2λ)−1(x,hλ(x)−1ϕλ1(u )).

Verifica-se que estas aplicações coincidem nas interseções Uα∩ Uβ e que portanto definem

globalmente uma aplicação f : P1→ P2e, além disto, pode-se mostrar que f é uma equivalência.

ƒ

Teorema 1.3. Seja M uma variedade, {Uλ}λ∈Λ uma cobertura aberta de M e G um grupo de

Lie. Suponha que em cada interseção não vazia Uα∩ Uβ seja dada uma aplicação diferenciável

gαβ : Uα∩ Uβ → G e de modo que esta família de aplicações satisfaça a condição de cociclo:

gγα= gγβ· gβαem Uα∩Uβ∩Uγ. Então existe um fibrado principal P(M ,G ) que possui esta família

de aplicações como funções de transição e, além disso, tal fibrado é único a menos de isomorfismo. A demonstração do teorema acima pode ser encontrada em[KN69] pg. 52.

Finalmente, vamos apresentar os exemplos de fibrados principais que mais usaremos ao longo deste trabalho.

Exemplo 1.1. Se M é uma variedade e G é um grupo de Lie, então G age livremente em P := M ×G

definindo a ação por(u , g )·h = (u , g ·h). Isto fornece o fibrado principal P(M ,G ) que é chamado

de fibrado principal trivial. Note que segue da definição de isomorfismo de fibrados principais que todo fibrado é localmente isomorfo a um fibrado trivial.

Exemplo 1.2. SeB = P(M ,G ) é um fibrado principal e S é uma subvariedade da variedade M ,

podemos considerar a restriçãoπ|π−1(S):π−1(S) → S e verificar que π−1(S)(S,G ) é também,

(19)

Exemplo 1.3. Seja G um grupo de Lie e H um subgrupo fechado de G . Temos que H age à direita

em G pela multiplicação do grupo: (g ,h) 7→ g · h, para g ∈ G e h ∈ H. Sabemos que ([Lee03]

pg. 229) o espaço de órbitas G/H tem uma única estrutura de variedade para a qual a projeção

canônicaπ : G → G /H é uma submersão. Além disso, é possível mostrar que tal projeção admite

uma seção numa vizinhança deπ(e ). Pela observação 1.1, temos então um fibrado principal

G(G /H,H).

Exemplo 1.4. Seja M uma variedade de dimensão n . Um referencial linear u em um ponto x ∈ M é uma base ordenada (X1, ..., Xn) do espaço tangente TxM . Seja L(M ) o conjunto de

to-dos os referenciais lineares em toto-dos os pontos de M eπ : L(M ) → M a aplicação que leva um

referencial u em x no ponto x . O grupo linear G L(n,R) age à direita em L(M ) como segue. Se

a = (ai j) ∈ G L(n,R) e u = (X1, ..., Xn) é um referencial linear em x ∈ M , defina u · a como sendo

o referencial linear(Y1, ..., Yn) dado por Yj = Piai jXi. Esta ação é livre e, além disso, dados dois

referenciais lineares u , u0em x ∈ M , a existência da matriz mudança de base de u para u0nos diz

que esta ação é transitiva na fibraπ−1(x). Vamos colocar uma estrutura diferenciável em L(M ).

Seja(x1, ..., xn) um sistema de coordenadas locais em um aberto coordenado U de M . Os

cam-pos Xi = ∂ /∂ xj em cada ponto de U formam uma base do espaço tangente correspondente.

Portanto, dado um referencial linear Y = (Y1, ..., Yn) em x ∈ M , temos que existe uma única

matriz (matriz mudança de base) a = (ai j) ∈ G L(n,R) para a qual Yj = Piai jXi para cada

i= 1,2,...,n. Isso fornece então uma bijeção entre π−1(U) e U ×G L(n,R). Para tornar L(M ) uma

variedade diferenciável, tomamos(x1, ..., xn, ai j) como coordenadas em π−1(U). Assim, temos que

L(M )(M ,G L(n,R)) é um fibrado principal, chamado de fibrado dos referenciais lineares sobre M .

Um conceito importante que aparece na teoria de fibrados principais é o conceito de gera-dor infinitesimal. Antes de definí-lo, lembremos o resultado importante de que o colchete de Lie[X,Y ] de dois campos de vetores X,Y numa variedade M é dado por:

[X,Y ] = lim

t→0

1

t · Y − (ϕt)∗Y ,

ondeϕt é o fluxo (local) do campo X . Mais especificamente, se x∈ M , então:

[X,Y ]x= lim t→0

1

t · Yx− ((ϕt)∗Y)x .

(20)

at := exp(t A) = ϕt(e ) e para cada g ∈ G temos ϕt(g ) = g · at = Rat(g ), assim: [B,A] = lim t→0 1 t · (ϕt)∗B− B = lim t→0 1 t · (Rat)∗B− B = lim t→0 1 t · € ad(a−1t )B − BŠ.

Seja f : P× G → P uma ação à direita de um grupo de Lie G numa variedade P. Para cada u ∈ P, seja fu : G → P a aplicação induzida: fu(g ) = f (u , g ). Dado A ∈g, podemos associar

o campo A# X(P), chamado de gerador infinitesimal de A (ou campo fundamental de A),

colocando para cada u ∈ P, A#(u ) = (f

u)∗A, ou seja: A#(u ) = d d t t=0 u · exp(t A).

Proposição 1.4. A aplicação" :gX(P) definida por "(A) = A#é um homomorfismo de álgebras

de Lie. Quando a ação for efetiva, então" é injetiva e quando a ação for livre, então para todo

A∈gnão nulo, o campo A#não se anula.

Demonstração: Evidentemente " é linear. Para ver que [A#, B#] = [A, B]#, sejam u ∈ P e

at = exp(t A), daí

[A#, B#] u= lim t→0 1 t ·  B# u− (Rat)∗(B # ϕ−t(u ))  = lim t→0 1 t · € B# u− (Rat)∗(fu·a−1 t )∗B Š , e por outro lado

Rat◦ fu·a−1(g ) = Rat(u · a −1 t · g ) = u · a −1 t · g · at = fu(ad(a −1 t ))(g ),

para todo g∈ G . Portanto (Rat ◦ fu·a−1t )∗B= (fu)∗(ad(a −1 t )∗B), e então: [A#, B#] u= lim t→0 1 t €(fu)∗(B − ad(a −1 t )∗B)Š = (fu)∗([A, B]) = [A, B] # u.

Assim" é um homomorfismo de álgebras de Lie. Seja agora A ∈gtal que A#

u= 0 para algum

u ∈ P. Considere a curva α(t ) = u · at. Temos queα0(0) = A#u = 0. Dado outro t0∈ R qualquer,

temos que: α0(t 0) = d d t t=t0 u· at= d d t t=0 u· at+t0= d d t t=0 (u · at) · at0= (Rat0)∗(A # u) = 0.

Portanto a curvaα é constante, e como α(0) = u , segue que u · at = u para todo t ∈ R.

(21)

isto é, A#

u = 0 para todo u ∈ P. Mas isto implica que u · at = u para todo u ∈ P, e como a ação

é efetiva temos que at = e para todo t ∈ R, e assim A = 0. Se a ação é livre, como foi mostrado

acima, se em algum u ∈ P tivermos A#

u = 0, então at = e para todo t ∈ R, e portanto A = 0. ƒ

Voltamos agora ao caso de fibrados principais. Se P(M ,G ) é um fibrado principal então, por definição, a ação de G em P é livre. Portanto, dado A ∈gnão nulo, o campo A# X(P) não

se anula. Além disso, dado u ∈ P temos também por definição que A#

u= d/dt|t=0(u · exp(t A)), e

como o caminho t 7→ u ·exp(t A) tem imagem na fibra sobre x := π(u ), segue que A#

u∈ Tu(π−1(x)).

Podemos induzir assim a aplicação"u :g→ Tu(π−1(x)), "u(A) = A#u, que é injetiva pela

observa-ção acima, e portanto um isomorfismo pois dimg= dimTu(π−1(x)). A proposição abaixo será

usada posteriormente.

Proposição 1.5. Seja A# o gerador infinitesimal de A g. Então para cada g ∈ G , (R

g)∗A#é o

gerador infinitesimal correspondente a ad(g−1)

A∈g.

Demonstração: Sabemos que para todos A∈ge g ∈ G vale a relação: exp(ad(g )A) = ad(g )(exp(A)).

Fixando u ∈ P e escrevendo B = ad(g−1) ∗ A, temos que:

(Rg)∗A#Rg −1(u ) = d d t t=0

Rg((u · g−1) · exp(t A))

= d d t t=0

u· (ad(g−1) · exp(t A))

= d d t t=0 u· exp(ad(g−1)∗A) = d d t t=0 u· exp(t B) = B#(u ). ƒ

1.2

Fibrados Associados

Faremos agora uma importante construção que nos levará a definir os chamados fibrados ve-toriais. Os fibrados associados têm um papel importante na relação entre fibrados principais e

(22)

fibrados vetoriais que será explorada mais adiante.

Seja P(M ,G ) um fibrado principal e suponha que tenhamos uma ação à esquerda ρ de G em uma variedade F . Podemos definir uma ação à direita de G na variedade produto P× F colocando(u ,v ) · g := (u · g , g−1· v ). Seja E = P ×G F := (P × F )/G o espaço quociente por esta

ação. Dado(u ,v ) ∈ P×F , denotaremos por [u ,v ] sua classe em E . Fica bem definida a aplicação πE: E → M , πE([u ,v ]) = π(u ). Chamaremos a aplicação πE simplesmente de projeção, e como

em fibrados principais, dado x∈ M , o conjunto π−1

E (x) é chamado a fibra sobre x.

Daremos agora ao conjunto E uma estrutura de variedade diferenciável. Para isso, fixe x ∈ M e uma trivialização local ψ : π−1(U) → U × G , em que U é um aberto de M contendo

x . Temos que ψ(u ) = (π(u ),ϕ(u )), em que ϕ : π−1(U) → G satisfaz ϕ(u · g ) = ϕ(u ) · g .

Va-mos definir uma bijeçãoφ : π−1E (U) → U × F da seguinte maneira: dado [u ,v ] ∈ π−1E (U), defina φ([u ,v ]) = (π(u ),ϕ(u ) · v ).

Para ver queφ está bem definida, suponha que (u ,v ) e (u0, v0) sejam tais que [u ,v ] = [u0, v0],

assim existe um elemento g ∈ G para o qual (u , v ) = (u0, v0) · g = (u0· g , g−1· v0), o que implica

u = u0· g e v = g−1· v0. Entãoϕ(u0) · v0 = ϕ(u · g ) · g−1· v = ϕ(u )g g−1· v = ϕ(u ) · v . Como

u= u0· g , u e u0estão na mesma fibra, e portantoπ(u ) = π(u0). Assim φ está bem definida.

Para ver queφ é injetiva, sejam [u ,v ],[u0, v0] ∈ E tais que φ([u ,v ]) = φ([u0, v0]). Segue que

(π(u ),ϕ(u ) · v ) = (π(u0),ϕ(u0) · v0). Em particular π(u ) = π(u0), portanto existe g ∈ G para o qual

u0= u · g , assim

g−1· v = g−1ϕ(u )−1ϕ(u0)v0= g−1ϕ(u )−1ϕ(u )g · v0= v0

e daí[u ,v ] = [u0, v0]. Para ver que φ é sobrejetiva seja (y,v ) ∈ U × F e escolha u ∈ π−1(y ). Temos

então queφ[u ,ϕ(u )−1· v ] = (y , v ).

Mostraremos agora que as aplicaçõesφ induzem uma estrutura diferenciável em E . Para isso, definiremos as cartas e verificaremos que as funções de transição são diferenciáveis. Se-jam Uα e Uβ subconjuntos abertos de M tais que Uα∩ Uβ 6= ;, para os quais estejam definidas

trivializações locaisψαeψβe com a função de transição correspondente gαβ : Uα∩Uβ→ G .

Se-jamφα:π−1E (Uα) → Uα× F e φβ:π−1E (Uβ) → Uβ× F as aplicações induzidas. Suponha que exista

x ∈ Bα∩ Bβ, com Bα⊂ π−1E (Uα) e Bβ ⊂ π−1E (Uβ), e que φα(Bα), φβ(Bβ) sejam domínios de cartas

e fβ da variedade M× F . As cartas correspondentes em E são definidas por cα = fα◦ φα,

(23)

escolhendo u para o qualπ(u ) = x, temos que

cα◦ cβ−1(p) = fα(φα([u ,ϕβ(u )−1· v ])) = fα(x,ϕα(u ) ◦ ϕβ(u )−1· v ) = fα(x, gαβ(x) · v ).

Portanto as funções de transição são diferenciáveis e E é uma variedade diferenciável. Note que com esta estrutura, πE : E → M é diferenciável. Chamamos E , ou mais precisamente

E(P,M ,G ,ρ, F ), de fibrado associado ao fibrado P(M ,G ) com fibra F .

1.3

Conexões em Fibrados Principais

Definição 1.10. Seja P(M ,G ) um fibrado principal sobre uma variedade M com grupo G . Para

cada u∈ P seja Vu o subespaço de TuP consistindo dos vetores tangentes à fibra que passa por u ,

isto é, Vu = Ker π∗u. Uma conexão C em P é uma escolha de um subespaço Hu de TuP, para cada

u∈ P, tal que:

1. TuP= Vu⊕ Hu.

2. Hu·g= (Rg)∗Hu para todo u ∈ P e g ∈ G .

3. Hu é uma distribuição diferenciável.

O subespaço Vu é chamado subespaço vertical e Hu é chamado subespaço horizontal de

TuP (com respeito à conexão C ). Cada vetor X ∈ TuP se decompõe numa soma X= Xv+ Xh, em

que Xv∈ Vu é a componente vertical de X e Xh∈ Hu é a componente horizontal de X .

Temos uma maneira natural de associar a cada conexão C em P uma 1-forma em P com valores na álgebra de Liegde G .

Definição 1.11. A forma de conexãoω de uma conexão C é definida em cada X ∈ TuP como

sendo o único A∈gtal que(A#)

u= Xv.

A formaω está bem definida pois temos o isomorfismo "udegem Vu induzido pelo gerador

infinitesimal. Note que o núcleo desta 1-forma é, em cada ponto, o subespaço horizontal cor-respondente. Segue abaixo uma proposição que apresenta as propriedades que caracterizam a forma de conexão.

Proposição 1.6. A forma de conexãoω tem as seguintes propriedades: 1. ω(A#) = A para todo A ∈g.

(24)

2. (Rg)∗ω = ad(g−1)∗◦ ω, isto é, ω(Rg)∗X = ad(g−1)∗(ω(X)) para todo g ∈ G e todo campo

vetorial X sobre P.

Reciprocamente, dada uma 1-formaω com valores emgsobre P tendo as propriedades acima,

existe uma única conexão C em P cuja forma de conexão éω.

Demonstração: Sejaω a forma de conexão. A primeira propriedade segue imediatamente da definição deω. Para mostrar a segunda, por linearidade podemos separar nos casos em que X é horizontal e em que X é vertical. Se X é horizontal, entãoω(X) = 0 e além disso, pela condição 2. da definição de conexão, segue que(Rg)∗X também é horizontal, portantoω((Rg)∗(X)) = 0,

e a igualdade segue pela linearidade de ad(g−1)

. Se X é vertical, podemos supor que é então

um campo vetorial fundamental A#. Como(R

g)∗(X) é o campo vetorial fundamental

correspon-dente a ad(g−1)(A), então (Rgω)u(X) = ωu·g((Rg)∗X) = ad(g −1)(A) = ad(g−1)∗(ωu(X)).

Reciprocamente, dada uma 1-formaω satisfazendo 1 e 2, definimos Hu = {X ∈ TuP;ω(X) = 0}

e mostra-se agora que u7→ Hu define uma conexão em P. ƒ

A projeçãoπ : P → M induz uma aplicação linear (π)u : TuP → TxM , para cada u ∈ P, em

que x = π(u ). Na presença de uma conexão em P, (π∗)u é um isomorfismo quando restrito ao

subespaço horizontal Hu (o núcleo de∗)u é justamente Vu). Isso nos permite definir

levanta-mento horizontal de campos vetoriais:

Definição 1.12. O levantamento horizontal de um campo vetorial X em M é o único campo

vetorial em P que é horizontal e que se projeta em X . Tal campo será denotado por XH. A condição

de se projetar em X significaπ(XH

u) = Xπ(u )para todo u ∈ P.

Proposição 1.7. Dada uma conexão em P e um campo vetorial X em M , existe um único

levanta-mento horizontal XH. O levantamento XHé invariante por R

g para todo g ∈ G . Reciprocamente,

todo campo vetorial Y em P que é horizontal e invariante por G , é o levantamento de um campo vetorial X em M .

Demonstração: A existência e unicidade de XH segue do isomorfismo de H

u com Tπ(u )M . Para

(25)

x∈ M tal que π−1(U) ≈ U ×G . Usando este difeomorfismo, nós primeiro obtemos um campo

di-ferenciável Y emπ−1(U) tal que π

(Y ) = X. Então XHé a componente horizontal de Y e portanto

é diferenciável. A invariância de XH por G é clara pela invariância dos subespaços horizontais

por G . Reciprocamente, para todo x ∈ M , tome um ponto u ∈ P tal que π(u ) = x e defina Xx = π(Yu). O vetor Xx é independente da escolha de u na fibra de x , pois se u0= u · g , então

π(Yu0) = π(Rg)(Yu) = π(Yu). Segue então que Y é o levantamento do campo vetorial X. ƒ

Algumas propriedades do levantamento de campos:

Proposição 1.8. Sejam X e Y campos vetoriais em M e XH e YH os levantamentos horizontais

correspondentes. Então:

1. XH+ YH é o levantamento horizontal de X+ Y .

2. Para toda função diferenciável f : M→ R, (f ◦ π) · XHé o levantamento horizontal de f · X .

3. A componente horizontal[XH, YH]

hde[XH, YH] é o levantamento horizontal de [X,Y ].

Demonstração: As duas primeiras são evidentes e a terceira segue da igualdade: π([XH, YH]h) = π([XH, YH]) = [X,Y ].

ƒ Observe que se(x1, ..., xn) é um sistema de coordenadas locais no aberto U ⊂ M e XH

i é o

levantamento horizontal do campo vetorial Xi = ∂ /∂ xi, então (X1H, ..., XnH) é uma base para a

distribuição horizontal u7→ Hu emπ−1(U).

Seja P(M ,G ) um fibrado principal e ω uma forma de conexão. Veremos como ω se comporta com respeito a trivializações locais. Seja{Uα} uma cobertura aberta de M com uma família de

trivializações locaisψα :π−1(Uα) → Uα× G e a família correspondente de funções de transição

gαβ: Uα∩Uβ → G . Para cada α, seja sα: Uα→ P a seção local canônica associada a ψα. SejaΘ a

1-forma de Maurer-Cartan em G . Para cadaα, o potencial de calibre, no calibre sα, é a 1-forma

com valores emgdefinida em Uαpor

Aα= sαω.

Em cada interseção Uα∩ Uβ não vazia, defina também uma formaΘαβ, com valores emg,

colocando

(26)

Proposição 1.9. Em cada interseção Uα∩Uβnão vazia, as formasAα,Aβ eΘαβ satisfazem

Aβ= ad(gαβ−1)∗◦ Aα+ Θαβ.

Reciprocamente, dada uma família de formas{Aα}, cada uma definida em Uαe satisfazendo

a equação acima para cadaα,β tal que Uα∩Uβ 6= ;, existe uma única forma de conexão ω em P

para a qual as formasAαsão dadas pela maneira descrita acima.

Demonstração: Seja f : P× G → P a ação dada no fibrado e lembramos que denotamos por fu0 : G → P e Rg0 : P → P as aplicações induzidas pela ação. Identificaremos T(u0,g0)(P × G )

com Tu0P× Tg0G , de modo que para cada w = (wP, wG) ∈ Tu0P× Tg0G a derivada da ação f se

expressa por f(w ) = Rg0wP+ fu0wG. Primeiramente fixeα,β para os quais Uα∩ Uβ 6= ;. Fixe

x ∈ Uα∩ Uβ e X ∈ TxM . Temos que sβ(x) = sα(x) · gαβ(x). Agora, para qualquer y ∈ Uα∩ Uβ,

sβ(y ) = sα(y ) · gαβ(y ) = f ◦ (sα, gαβ)(y ), e daí

sβ ∗X = f(sα∗X , gαβ ∗X)

= Rg0(sα∗X) + fu0∗(gαβ ∗X)

= (Rg0◦ sα)∗X+ (fu0◦ gαβ)∗X ,

em que g0 = gαβ(x) e u0 = sα(x). Para completar a primeira parte da demonstração, basta

mostrar que

ω((Rg0◦ sα)∗X) = ad(g

−1

αβ)(Aα(X))

ω((fu0◦ gαβ)∗X) = Θαβ(X).

A primeira igualdade é a que segue: ω€(Rgαβ(x)◦ sα)∗X Š = ωsβ(x)€(Rgαβ(x))∗sα(x)(sα∗X) Š = ωsβ(x)€(Rgαβ(x))∗sβ(x)·gαβ(x)−1(sα∗X) Š = ad(gαβ(x)−1)∗€ωsβ(x)·gαβ(x)−1(sα∗X) Š = ad(gαβ(x)−1)∗ ωsα(x)(sα∗X) = ad(gαβ(x)−1)∗€(sαω)x(X) Š = ad(gαβ(x)−1)∗(Aα(X)).

(27)

A(gαβ(x)) = (gαβ)∗x(X), de modo que

Θαβ(X) = (gαβΘ)(X) = Θgαβ(x)(gαβ ∗X) = Θgαβ(x)

€

A(gαβ(x))Š = A.

Portanto, precisamos mostrar queωsβ(x)€(fu0◦ gαβ)∗XŠ = A. Considere o gerador

infinitesi-mal A#. Por definição, A#(u ) = (f

u)∗A, de modo que A#(sα(x) · gαβ(x)) = (fsα(x)·gαβ(x))∗A. Mas

fsα(x)·gαβ(x)(g ) = (sα(x) · gαβ(x)) · g = sα(x) · (gαβ(x) · g ) = fu0(gαβ(x) · g ) = fu0(Lgαβ(x)(g )) = fu0◦ Lgαβ(x)(g ), e daí (fsα(x)·gαβ(x))∗A = (fu0)∗((Lgαβ(x))∗A) = (fu0)∗(A(gαβ(x))) = (fu0)∗((gαβ)∗X) = (fu0◦ gαβ)∗X . Assim, A#(s α(x) · gαβ(x)) = (fu0◦ gαβ)∗X , concluindo que ω€(fu0◦ gαβ)∗X Š = ω€ A#(sα(x) · gαβ(x))Š = ω€ A#(sβ(x)) Š = A.

Para mostrar a recíproca, vamos dividir o argumento em algumas partes. Primeiramente, seja (U,ψ) uma trivialização local e s (x) = ψ−1(x,e ) a seção canônica associada. Sejam

(x0, g0) ∈ P × G e (X,Y ) ∈ T(x0,g0)P× G . Fixando x0 e deixando variar g , a aplicação induzida

porψ−1éψ−1

x0(g ) = s (x0)· g . Analogamente, fixando g0e deixando variar x , a aplicação induzida

porψ−1éψ−1 g0(x) = s (x) · g0= (Rg0◦ s )(x ). Deste modo ψ−1 ∗ (X,Y ) = Rg0(sX) + fs(x0)∗Y. Escrevendo A= (Lg−1 0 )∗g0Y , então Y = (Lg0)∗A e assim fs(x0)∗Y = fs(x0)∗((Lg0)∗A) = A #(s (x 0)·g0).

Em particular, quando g0= e obtemos ψ−1∗(x0,e)(X,A) = sX + A#(s (x0)). Concluímos assim que

(28)

para algum A∈g.

Primeiro definimos a forma em porções do fibrado. Dado um índiceα, vamos definir ωαem π−1(U

α) como segue: se x0∈ Uα, u = sα(x0), X ∈ Tx0M e A∈g, defina

ωα(u )(sα∗X+ A#(u )) = Aα(X) + A.

Note que qualquer ponto emπ−1(U

α) se escreve de maneira única como sα(x0)·g , para algum

x0∈ Uαe algum g ∈ G . Escreva u = s (x0) e para cada X ∈ Tu·g(π−1(Uα)), defina

ωα(u · g )(X) = ad(g−1)∗◦ ωα((Rg−1)X).

Mostra-se daí queωαé uma forma de conexão em P|π−1(Uα). Sejam agora(Uα,ψα) e (Uβ,ψβ)

trivializações locais tais que Uα∩ Uβ 6= ; e sejam x0∈ Uα∩ Uβ e X ∈ Tx0M . Derivando ambos os

lados da igualdade sβ(x) = gαβ(x) · sα(x) = (f ◦ (gαβ, sα))(x) podemos obter

sβ ∗(X) = (Rgαβ(x0))∗(sα∗(X)) + Θαβ(X)

#(s β(x0)).

Mostra-se com o auxílio desta expressão que as formasωαeωβcoincidem emπ−1(Uα∩Uβ),

de modo que definem uma formaω em todo o espaço total P. ƒ

No caso particular em que o grupo estrutural G é um grupo de matrizes, podemos escrever as equações de compatibilidade de uma maneira mais simples. Seja x ∈ Uα∩ Uβ e X ∈ TxM .

Considere um curva diferenciávelα : (−ε,ε) → M com α(0) = x e α0(0) = X, daí

Θgαβ(x)€(gαβ)∗X Š = Θgαβ(x)€(gαβ◦ α)0(0) Š = € Lgαβ(x)−1Š €(gαβ◦ α)0(0) Š = € Lgαβ(x)−1◦ gαβ◦ α Š0 (0) = d d t t=0 €(gαβ(x))−1(gαβ◦ α)(t )Š = gαβ(x))−1(gαβ◦ α)0(0).

Na linguagem matricial, podemos escrever o resultado acima comoΘαβ= gαβΘ = g−1αβd gαβ.

Sabemos também que em grupos de matrizes vale ad(g )A= g Ag−1, de modo que

Aβ= gαβ−1Aαgαβ+ gαβd gαβ.

(29)

cam-pos vetoriais no espaço base, temos também uma noção de levantamento horizontal de curvas e transporte paralelo de uma fibra ao longo de uma curva. Sejaα : [a,b] → M , uma curva de classe C1por partes em M . Um levantamento horizontal deα (ou simplesmente levantamento)

é uma curvaˆα : [a,b] → P tal que π(ˆα(t )) = α(t ) para todo t ∈ [a,b]. Aqui, uma curva horizontal quer dizer uma curva de classe C1por partes cujos vetores tangentes são sempre horizontais.

Proposição 1.10. Sejaα : [0,1] → M uma curva de classe C1em M e seja x= α(0). Para qualquer

ponto u∈ P tal que π(u ) = x , existe um único levantamento ˆα de α tal que ˆα(0) = u .

Demonstração: Pela trivialidade local do fibrado podemos escolher uma curvaβ : [0,1] → P (não necessariamente horizontal) de classe C1por partes tal queβ(0) = u e π(β(t )) = α(t ) para

todo t ∈ [0, 1]. Da transitividade da ação, qualquer outra curva ˆα para a qual π(ˆα(t )) = α(t ) e ˆα(0) = u deve ser da forma ˆα(t ) = β(t ) · g (t ), em que g : [0,1] → G é uma curva com g (0) = e . Vamos supor que um tal levantamento exista e estudar que equação diferencial a curva g deve satisfazer. Denote por f : P×G → P a ação de G em P. Temos que ˆα(t ) = f (β(t ), g (t )), e portanto:

ˆα0(t ) = f

0(t ), g0(t )) = (Rg(t ))∗0(t )) + (fβ(t ))∗(g0(t )).

Para cada t , o vetor(fβ(t ))(g0(t )) é vertical, e portanto pode ser visto como um gerador

in-finitesimal A(t )#de algum vetor A(t ) ∈gno pontoˆα(t ). Mostraremos agora que A(t ) deve ser o

valor na identidade do único campo invariante à esquerda cujo valor em g(t ) é g0(t ). De fato,

para todo t0∈ [0, 1], temos

A(t0)#(ˆα(t0)) = d d t t=0 ˆα(t0) · exp(t A(t0)) = d d t t=0 β(t0)g (t0)exp(t (Lg(t0)−1)∗g 0(t 0)),

e fazendo mudança de variáveis u= t − t0, encontramos

A(t0)#(ˆα(t0)) = d d t t=t0 β(t0)g (t0)g (t − t0) = (fβ(t0))∗g 0(t 0), de modo que ˆα0(t ) = (R

g(t ))∗β0(t ) + A(t )#(ˆα(t )). Assim, calculando a forma ω em cada um dos

termos do lado direito da igualdade que expressaˆα0(t ), encontramos

ω((Rg(t ))∗β0(t )) = (Rg(t ))∗ω(β0(t )) = ad(g (t )−1)∗ω(β0(t ))

e

ω(A(t )#(ˆα(t ))) = (L

(30)

Queremos que ˆα(t ) seja horizontal, e para isso devemos ter ω(ˆα0(t )) = 0. Como

ad(g (t )−1)

ω(β0(t )) = (Lg(t )−1)(Rg(t ))ω(β0(t )),

teremos:

g0(t ) = −((Rg(t ))∗◦ ω)(β0(t )).

Prova-se que esta equação diferencial acima tem solução única com g(0) = e ([Nab97] pg.

308). ƒ

Com a noção de levantamento de curvas, podemos definir o chamado transporte paralelo de uma fibra ao longo de uma curva. Para isso, sejamα : [0,1] → M uma curva de classe C1,

x0 = α(0) e x1 = α(1). Para cada u0 ∈ π−1(x0), o único levantamento de α começando em u0

termina em um pontoˆα(1) = u1∈ π−1(x1).

Assim, fica bem definida uma aplicação τα : π−1(x0) → π−1(x1). Se fixarmos g ∈ G e

res-tringirmos a aplicação Rg aπ−1(x0), teremos que τα◦ Rg = Rg ◦ τα. Isto é verdade pois apenas

precisamos observar que seˆα é o levantamento de α começando em u0, então por unicidade do

levantamento, o levantamento deα começando em u0· g é o caminho ˆα· g . Em geral, podemos

definir a transporte paralelo para curvas de classe C1por partes de maneira evidente.

Para a proposição abaixo, dada uma curvaα : [0,1] → M , definimos α−1 : [0,1] → M por

α−1(t ) = α(1 − t ) para cada t ∈ [0,1] e se β : [0,1] → M é uma outra curva, com α(1) = β(0),

definimos a curvaα ∗ β : [0,1] → M por α ∗ β(t ) = α(2t ) se t ∈ [0,1/2] e α ∗ β(t ) = β(2t − 1) se t ∈ [1/2, 1]. A curva α−1é chamada de curva inversa deα e α ∗ β é chamada de justaposição de

α e β.

Proposição 1.11. 1. Seα é curva de classe C1por partes em M , então o transporte paralelo ao

longo da curvaα−1é o inverso do transporte paralelo ao longo deα: τ−1

α = τα−1.

2. Seα é uma curva ligando x até y em M e β liga y até z em M , então o transporte paralelo

ao longo da justaposiçãoα · β, que liga x até z , é a composição dos respectivos transportes

paralelos:τα∗β = τα◦ τβ.

Suponha agora que seja dada uma conexão C num fibrado principal P(M ,G ). Dado x ∈ M , como observado acima, cada curva de classe Ck por partes α começando e terminando em

x determina uma bijeção da fibra π−1(x) nela mesma. O conjunto de tais bijeções forma um

grupo, o qual é chamado de grupo de holonomia de C com ponto base x , e é denotado por Holx.

(31)

1.4

Forma de curvatura

Vamos definir nesta seção a chamada curvatura de uma conexão e mostrar a primeira equação de estrutura. Começaremos definindo objetos mais gerais, as formas pseudotensoriais.

Seja P(M ,G ) um fibrado principal e ρ : G → Aut(V ) uma representação de G num espaço vetorial real V de dimensão finita.

Definição 1.13. Uma r -formaϕ em P com valores em V é dita pseudotensorial do tipo (ρ,V ) se (Rg)∗ϕ = ρ(g−1) ◦ ϕ

para todo g ∈ G . A forma ϕ é chamada forma tensorial se ϕ(X1, ..., Xr) = 0 toda vez que algum

Xi é vertical.

Exemplo 1.5. Seρ0é a representação trivial, então uma r -forma tensorial do tipo(ρ0, V) pode

ser escrita comoϕ = πϕ

M, em queϕM é uma r -forma em M com valores em V .

Exemplo 1.6. Sejamρ uma representaçao de G em V e E o fibrado associado. Uma forma

ten-sorial de grau r e tipo (ρ,V ) pode ser pensada como uma associação que a cada x ∈ M

for-nece uma aplicação r -linear alternada ˜ϕx : TxM× ... × TxM → π−1E (x). Para isso, basta definir

˜

ϕx(X1, ..., Xr) = [u ,ϕ( ˜X1, ..., ˜Xr)], em que u ∈ π−1(x) e ˜Xi é qualquer vetor em TuP para o qual

πX˜i = Xi. Reciprocamente, dadas r -formas alternadas ˜ϕx: TxM× ... × TxM→ π−1E (x), definimos

ϕu(X1, ..., Xr) = [π(u ), ˜ϕπ(u )(πX1, ...,πXr)]. Note que a escolha de uma 0-forma linear alternada

para cada x ∈ M com valores em π−1E (x), é simplesmente uma seção de E . Em particular, uma

0-forma tensorial do tipo(ρ,V ), isto é, uma função f : P → V tal que f (u · g ) = ρ(g−1)(f (u )),

pode ser pensada como uma seção de E .

Proposição 1.12. Seja C uma conexão em P(M ,G ). Se ϕ é uma forma pseudotensorial de grau r

do tipo(ρ,V ), então:

1. A forma(ϕ · h), definida por (ϕ · h)(X1, ..., Xr) = ϕ((X1)h, ...,(Xr)h), é uma forma tensorial do

tipo(ρ,V ).

2. A forma dϕ é pseudotensorial de grau r + 1 do tipo (ρ,V ).

3. A(r + 1)-forma Dϕ := (d ϕ) · h é forma tensorial de tipo (ρ,V ). Demonstração:

(32)

1. Temos que

(Rg)∗(ϕ · h)(X1, ..., Xr) = ϕ(((Rg)∗X1)h, ...,((Rg)∗Xr)h),

mas se X é horizontal e Y é vertical, então

((Rg)∗(X + Y ))h= ((Rg)∗X+ (Rg)∗Y)h= (Rg)∗X

e

(Rg)∗(X + Y )h= (Rg)∗X .

Portanto(Rg)∗(Xh) = ((Rg)∗X)h, o que implica

(Rg)∗(ϕ · h)(X1, ..., Xr) = (Rg)∗ϕ((X1)h, ...,(Xr)h) = ρ(g−1)ϕ((X1)h, ...,(Xr)h).

Logo, R

g(ϕ · h) = ρ(g−1) ◦ (ϕ · h) e ϕ · h é pseudotensorial de mesma grau e tipo que ϕ. Da

forma como foi definida,ϕ · h é evidentemente tensorial. 2. Como d(ρ(g−1) ◦ ϕ) = ρ(g−1) ◦ d ϕ, temos que

(Rg)∗(d ϕ) = d ((Rg)∗ϕ) = d (ρ(g−1) ◦ ϕ) = ρ(g−1)(d ϕ).

3. É evidente juntando os itens anteriores.

ƒ A forma Dϕ é chamada derivada exterior covariante de ϕ. Note que se ω é a forma de conexão de C , entãoω é uma forma pseudotensorial de grau 1 e tipo (ad,g).

Definição 1.14. A 2-forma tensorial de tipo(ad,g) definida por Ω := Dω é chamada de forma de

curvatura deω (ou simplesmente curvatura de ω).

Antes de mostrarmos a primeira equação de estrutura, precisamos de uma lema.

Lema 1.13. Se X é um campo horizontal e A#é um campo fundamental, então[X,A#] é um campo

horizontal.

Demonstração: Se at = exp(t A), então

[X,A#] = d d t t=0 1 t · (Rat)∗X− X .

Referências

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