CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
DEPARTAMENTO DE LÍNGUA E LITERATURA VERNÁCULAS CURSO LETRAS - LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS
Bárbara Farias da Silva
Produção textual como ponto de partida e de chegada do ensino de Língua Portuguesa:
uma análise pedagógica da proposta teórico-metodológica em Geraldi
Florianópolis 2020
Bárbara Farias da Silva
Produção textual como ponto de partida e de chegada do ensino de Língua Portuguesa:
uma análise pedagógica da proposta teórico-metodológica em Geraldi
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Letras - Língua Portuguesa e Literaturas do Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina como requisito para a obtenção do título de Bacharela em Letras - Português.
Orientadora: Profª. Rosângela Pedralli, Drª.
Florianópolis 2020
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Silva, Bárbara Farias da
Produção textual como ponto de partida e de chegada do ensino de Língua Portuguesa : uma análise pedagógica da proposta teórico-metodológica de Geraldi / Bárbara Farias da Silva ; orientadora, Rosângela Pedralli, 2020.
72 p.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) -Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Graduação em Letras Português, Florianópolis, 2020.
Inclui referências.
1. Letras Português. 2. Produção textual. 3. Ensino de Língua Portuguesa. 4. Concepção pedagógica. 5. João Wanderley Geraldi. I. Pedralli, Rosângela. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Graduação em Letras Português. III. Título.
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
DEPARTAMENTO DE LÍNGUA E LITERATURA VERNÁCULAS
ATA DE DEFESA DO TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC)
Ata de Defesa de TCC do(a) aluno(a) Bárbara Farias da Silva, realizada no dia 16 de dezembro de 2020, às10h, via webconferência.
Aos dezesseis dias de dezembro de 2020, às 10h, via webconferência, reunida a Comissão Examinadora, designada pela Portaria nº 030/DLLV/2020, de 30 de novembro de 2020, constituída pelos membros Rosângela Pedralli (orientadora), Maíra de Sousa Emerick de Maria (membro titular), Amanda Machado Chraim (membro titular) e Larissa Malu dos Santos (suplente) realizou-se, em sessão pública, a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso do(a) acadêmico(a) Bárbara Farias da Silva (matrícula 14102513): “Produção textual como ponto de partida e de chegada do
ensino de Língua Portuguesa: uma análise pedagógica da proposta teórico-metodológica em Geraldi”. Após o(a) acadêmico(a) apresentar seu trabalho, procedeu-se à arguição e à avaliação,
feitas nos termos do regulamento do TCC. A Comissão Examinadora conferiu ao TCC a nota
( ). O(A) acadêmico(a) deverá apresentar à Chefia do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas, cumpridas as formalidades, a versão final do TCC, em mídia digital, no prazo máximo de trinta dias, e submetê-la ao Repositório Institucional da Universidade, conforme o que está disposto na Resolução Normativa n° 126/2019/CUn, bem como no Manual do Repositório Institucional da Biblioteca Universitária. Nada mais havendo a tratar, a sessão foi encerrada, dela sendo lavrada a presente ata, que é assinada pelo(a) orientador(a), pelos membros da banca examinadora e pelo(a) acadêmico(a). Florianópolis, 16 de dezembro de 2020.
Profª Drª Rosângela Pedralli Orientadora e Presidente da Banca
Mª Maíra de Sousa Emerick de Maria (PPGLin/CCE) Membro Titular
Drª Amanda Machado Chraim Membro Titular
Mª Larissa Malu dos Santos (PPGLin/CCE) Suplente
Bárbara Farias da Silva Acadêmico(a) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 10 dez
AGRADECIMENTOS
À minha mãe Jucélia, por apoiar todos os meus sonhos e vivê-los comigo. Ao meu pai Moacir, pelas oportunidades.
Ao meu namorado Luis, pela compreensão e pelo amor em todos os momentos da minha trajetória pessoal e acadêmica.
Aos meus amigos, em especial à Bruna e à Luciana, que acompanham fielmente a minha caminhada.
Às integrantes da banca, Amanda Machado Chraim e Maíra de Sousa Emerick de Maria, pelas contribuições e sugestões.
A todos os professores da graduação, em especial: à professora Mary Elizabeth Cerutti-Rizzatti, responsável por despertar em mim o amor pelo mundo da Linguagem e da Educação, por me inspirar como professora e, sobretudo, como ser humano; à professora Maria Luiza Rosa Barbosa, por toda sabedoria e gentileza que me deram força nos momentos finais do curso; e à minha orientadora Rosângela Pedralli, pela confiança, pela atenção e por toda a formação que neste trabalho me foi proporcionada.
RESUMO
Este Trabalho de Conclusão de Curso tem por objetivo investigar a concepção pedagógica que fundamenta a proposta de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa do linguista João Wanderley Geraldi, que tem em seu centro a produção textual como ponto de partida e ponto de chegada desse processo. Para o desenvolvimento da presente pesquisa, tomou-se como objetos para análise: a sua coletânea de textos intitulada O texto na sala de aula (1984), na qual contém uma discussão inicial sobre a centralidade do texto no ensino de língua materna; a obra Portos de passagem (1991), texto em que o autor desenvolve teórico-metodologicamente sua proposta; e a obra A aula como acontecimento (2010), na qual o linguista atualiza sua proposta de ensino-aprendizagem. Também foram consultadas a obra A sombra do caos: ensino de gramática x tradição gramatical (1997) e o texto Redação, essa cadela (2003), do linguista Luiz Percival Leme Britto, escritos que reiteram a centralidade da produção textual no ensino de Língua Portuguesa atribuída por Geraldi. A partir da exposição teórica da concepção de língua e de texto da qual parte o autor para fundamentar o objeto de sua proposta e das principais teorias e tendências pedagógicas que se manifestam no cenário educacional, os resultados da análise sinalizam para a predominância, na proposição de Geraldi, dos fundamentos da pedagogia da Escola Nova com uma aproximação às premissas das teorizações pós-modernas sobre educação.
Palavras-chave: Produção textual. Ensino de Língua Portuguesa. Concepção pedagógica.
ABSTRACT
This study aims to investigate the pedagogical concept that founds the teaching-learning proposal of Portuguese language from linguist João Wanderley Geraldi, which has in its center the textual production as starting and final point of this process. For the development of this research, we took as analysis objects: the author’s text collection titled O texto na sala de aula (1984), which contains a initial discussion about the focus on the text in the native language teaching; the work Portos de passagem (1991), in which Geraldi develops theoretically and methodologically his proposal; and the work A aula como acontecimento (2010), in which the author improves his teaching-learning proposal. We also consulted the work A sombra do caos: ensino de gramática x tradição gramatical (1997) and Redação, essa cadela (2003), from linguist Luiz Percival Leme Britto, writings that reaffirm the centrality of the textual production in Portuguese language teaching assigned by Geraldi. From the theoretical presentation of the language and text concepts used by the author to found the proposed theme and from the main theories and pedagogical tendencies that manifest in the educational field, the results of the analysis sinalyze to the significance, in Geraldi’s proposition, of the fundaments of the “Escola Nova” pedagogy with the proximity to the assumptions of the post-modern theorizations on education.
Keywords: Textual production. Portuguese language teaching. Pedagogical conception. João
Wanderley Geraldi.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
2 CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM E DE PRODUÇÃO TEXTUAL EM
GERALDI (1984; 1997 [1991]) ... 13
2.1 DUAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM EM MARXISMO E FILOSOFIA
DA LINGUAGEM ... 15 2.2 CONCEPÇÃO DE LÍNGUA E DE PRODUÇÃO TEXTUAL PELA
INTERAÇÃO SOCIAL EM GERALDI (1984; 1997 [1991]) ... 24
3 TRADUÇÃO TEÓRICA DAS TEORIAS E TENDÊNCIAS
PEDAGÓGICAS ... 38
4 ANÁLISE PEDAGÓGICA DA PROPOSTA TEÓRICO-
METODOLÓGICA DE GERALDI... 53
4.1 MOVIMENTO HISTÓRICO DO OBJETO DA PROPOSTA DE GERALDI ... 53 4.2 POSSÍVEIS APROXIMAÇÕES DA FUNDAMENTAÇÃO PEDAGÓGICA
DA PROPOSTA DE ENSINO-APRENDIZAGEM CENTRADA NA PRODUÇÃO
TEXTUAL ... 54
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 66 REFERÊNCIAS ... 69
1 INTRODUÇÃO
Com projeção nacional, o pensamento de João Wanderley Geraldi ocupa um lugar notório nos estudos de Educação em linguagem. Presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), de 1997, e em programas de secretarias de educação estaduais, como nos estados de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e São Paulo, o trabalho do linguista ganhou força nas décadas de 1980 e 1990 (BRITTO, 1997) ao situar o texto “[...] como centro de todo o processo pedagógico” (BRITTO, 1997, p. 159) do ensino de língua materna. Em um movimento discordante do “[...] ensino da língua a partir de atividades mecânicas de repetição e reconhecimento de estruturas” (BRITTO, 1997, p. 159), Geraldi, em sua obra Portos de passagem, de 1991, coloca a produção textual como o “[...] ponto de partida (e ponto de chegada) de todo o processo de ensino/aprendizagem da língua” (GERALDI, 1997 [1991], p. 135) por ser o texto “[...] um objeto que aponta tanto para o fechamento quando para a abertura de sentidos” (GERALDI, 1997 [1991], p. 98).
Anteriormente, em 1984, nos textos de sua autoria na coletânea O texto na sala de aula, obra organizada pelo próprio linguista, Geraldi já evidenciara o enfoque da aula de Língua Portuguesa: a prática de produção textual, que é onde ocorre o “[...] uso efetivo e concreto da linguagem com fins determinados pelo locutor ao falar e escrever” (GERALDI, 1984, p. 79), tendo a leitura de textos como promotora da prática de produção destes. Nesse mesmo percurso, Luiz Percival Leme Britto desenvolveu a sua crítica ao ensino tradicional de língua — ensino com foco na gramática normativa e no ensino do “português padrão”, que, em suas palavras, de um modo equivocado e sob o viés ideológico da classe dominante (dita “culta”), vincula a norma-padrão à norma escrita, tendo esta como o “[...] paradigma de correção de todas as formas de fala” (BRITTO, 1997, p. 174) —, em sua tese de 1997, que motivou a publicação do livro A sombra do caos: ensino de gramática x tradição gramatical (1997). Nessa obra, Britto evoca as ideias de Geraldi, seu orientador, ao também defender a centralidade do texto nos processos de ensino e aprendizagem de língua e ao contrapor essa visão com movimentos de teóricos (gramáticos e linguistas) que resguardam as aulas de Língua Portuguesa para o estudo de gramática.
O que enuncia Geraldi (1984; 1997 [1991]), portanto, e o que reitera Britto (1997), é uma proposta de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa em que a produção de textos é o centro das atividades em sala de aula. À luz de uma concepção de língua centrada na
linguagem como interação, a concepção epistemológica de seu objeto — o texto — é fundamentada pela teoria linguística dos gêneros discursivos, como se observa, declaradamente, em suas principais obras que tratam do assunto: O texto na sala de aula (1984) e Portos de passagem (1991), de Geraldi; e A sombra do caos (1997), de Britto.
Teorizadas pelo Círculo de Bakhtin, a concepção filosófico-linguística de natureza socioideológica e a concepção de texto pela perspectiva dos gêneros discursivos compreendem uma relação dialógica entre língua e sociedade. Mais especificamente, tem-se que a língua, constituída e que constitui os sujeitos nas diferentes situações concretas de seu uso, é o meio pelo qual as relações interlocutivas se firmam, o que implica considerar, portanto, sua historicidade e sua contínua evolução na cadeia discursiva, e, evidentemente, o trabalho linguístico dos sujeitos (GERALDI, 1997 [1991]), para a sua constituição, ao longo da história. Nessa perspectiva, a língua se materializa em enunciados, os quais, no ideário bakhtiniano, correspondem à unidade real da comunicação discursiva. É pelo enunciado que a língua dá vida aos discursos (BAKHTIN, 2016 [1978]1), uma vez que é no enunciado que se encontra a totalidade discursiva, em razão das características que lhe constituem: a sua dimensão linguístico-verbal; e a sua indispensável dimensão extraverbal, que, nas palavras de Rodrigues (2001), é a sua dimensão social constitutiva.
Outrossim, os enunciados podem se materializar, na língua, sob diferentes formas, sob diferentes tipos relativamente estáveis, ao que, na teoria de Bakhtin (2016 [1978]), é conferida a denominação de gêneros do discurso. Nesse horizonte, compreende-se que a diversidade dos gêneros discursivos reflete a heterogeneidade dos campos de atuação humana, e que cada campo manuseia, a seu modo, a linguagem, diante de suas condições e finalidades específicas. A partir dessa noção de enunciado, Bakhtin (2016 [1976]2) também articula a
noção de texto concebido como enunciado, por aquele assumir uma condição de totalidade discursiva, própria deste, em seu entendimento, uma vez que o texto é o material primeiro das disciplinas das ciências humanas, “[...] a realidade imediata [...]” ( BAKHTIN, 2016 [1976], p. 71) desse campo de estudo e de pesquisa. A essa atribuição bakhtiniana de texto tomado
1 Em Nota à edição brasileira do volume Os gêneros do discurso, que contempla quatro textos de Bakhtin, Bezerra (2016) menciona que o texto Os gêneros do discurso, no qual Bakhtin expõe a noção de gênero
discursivo e de enunciado, teve sua primeira publicação em 1978, ainda em seus manuscritos, que foram
escritos entre os anos de 1952 e 1953.
2 Em Nota à edição brasileira do volume Os gêneros do discurso, Bezerra (2016) também menciona que o texto
O texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas teve sua primeira publicação em 1976 sob o
como enunciado, inclusive, Rodrigues (2001) confere a designação de texto-enunciado, com o intuito de dar conta do fenômeno discursivo ao qual o teórico russo se refere.
Assim, é possível depreender, sob o ponto de vista epistemológico, a concepção filosófico-linguística do objeto de análise da proposta de Geraldi, a produção textual, uma vez que a base desse pensamento está explicitamente marcada em suas obras que tratam do assunto. Contudo, sob o ponto de vista pedagógico, não é possível identificar de forma pontual, na articulação da proposta de ensino e aprendizagem feita pelo autor, a base teórico-pedagógica na qual esta se fundamenta. Entretanto, visto que toda metodologia de ensino implica uma sustentação teórica e uma concepção de educação — ainda que, nas realidades escolares, gestores e professores, muitas vezes, parecem não ter consciência dessa inalienável relação em suas práticas —, é fundamental localizar a aproximação, a partir do que traça Geraldi para delinear sua proposta de ensino e aprendizagem de língua, com uma filiação pedagógica ou uma correlação entre diferentes vertentes.
A motivação para a realização desta pesquisa, além da busca por compreender a perspectiva pedagógica que fundamenta a proposta de ensino de língua materna de um dos linguistas mais relevantes da área de Educação em linguagem, com o intuito de contribuir para as discussões do campo, foi, ademais, a busca por possibilitar, aos professores de Língua Portuguesa da Educação Básica, a compreensão da importância de se conhecer a fundamentação epistemológica e pedagógica que se encontra na base de suas escolhas no processo educativo. Diante disso, intenta-se, neste Trabalho de Conclusão de Curso, desvelar a vinculação pedagógica que está na base da concepção de produção de textos como ponto de partida e ponto de chegada das aulas de língua materna, para Geraldi (1997 [1991]), uma vez que já se tem esclarecida a sua vinculação linguística no que compete à concepção de produção textual.
Para realizar esta pesquisa, foi feita uma revisão bibliográfica, que teve como corpus de análise as obras já mencionadas O texto na sala de aula (1984) e Portos de passagem (1991), de Geraldi, e A sombra do caos: ensino de gramática x tradição gramatical (1997), de Britto, em razão de essas obras comporem um conjunto de publicações que é referência para o ensino de Língua Portuguesa e, ainda, projetarem a centralidade da produção de textos nesse processo. Além disso, integrou-se ao corpus o texto Redação: essa cadela, também de Britto, sendo um dos capítulos de seu livro Contra o consenso: cultura escrita, educação e participação, de 2003, obra posterior à publicação de A sombra do caos (1997), por se tratar de um texto que evidencia o enfoque do autor à produção textual, o qual, por sua vez, é
secundarizado na continuidade da obra, em detrimento do enfoque dado à leitura no lugar da produção (BRITTO, 2003). Por fim, também foi incorporada à análise a obra A aula como acontecimento (2010), de Geraldi, texto no qual o linguista atualiza a sua proposta de ensino-aprendizagem.
No que se refere à organização deste trabalho, destinou-se este primeiro capítulo à introdução do que será abordado na presente pesquisa, enquanto, no segundo capítulo, serão tratadas as concepções de linguagem e de produção textual as quais fundamentam o pensamento de Geraldi e de Britto, além de serem retomadas, para esse fim, as correntes do pensamento filosófico-linguístico subjetivista idealista, objetivista abstrata e interacionista, discutidas por Volóshinov (2009 [1929]). Em seguida, o terceiro capítulo será reservado para a apresentação das teorias e tendências pedagógicas, com o intuito de elucidar as teorias não críticas, crítico-reprodutivistas e críticas, de acordo com Saviani (2019 [2007]; 2018 [1983])
— ou, ainda, tendências hegemônicas e contra-hegemônicas, conforme o mesmo autor (2008) — e, ainda, as teorias pós críticas, com base em Silva (2020 [1999]), para, então, no quarto capítulo, proceder à análise e à identificação da concepção (ou concepções) pedagógica(s) da qual se aproxima a proposta teórico-metodológica de Geraldi (1997 [1991]).
2 CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM E DE PRODUÇÃO TEXTUAL EM GERALDI (1984; 1997 [1991])
Ao escolher “[...] a linguagem como posto de observação para a compreensão das questões de seu ensino” (GERALDI, 1997 [1991], p. 4), é a partir da noção de interlocução como o lugar que produz a linguagem e constitui os sujeitos no movimento contínuo da história que Geraldi parte, em sua obra Portos de passagem, de 1991, para tecer a sua proposta de ensino aprendizagem de Língua Portuguesa, que tem em seu centro a produção textual. Em um momento anterior, em 1984, no texto Concepções de linguagem e ensino de Português, da sua coletânea O texto na sala de aula, “[...] procurando construir alguma alternativa de ação, apesar dos perigos resultantes da complexidade do tema [...]” (GERALDI, 1984, p. 42), ao colocar sob a luz as questões sobre para que se ensina o que se ensina e para que os estudantes aprendem o que aprendem, no que se refere ao ensino de língua materna — questões as quais, para o autor, parecem não estar no foco dos processos de ensino e aprendizagem —, o linguista já tinha em seu horizonte que, de antemão, faz-se necessário pensar essas questões a partir de uma concepção de linguagem: nesse caso, o seu posto de observação, já em 1984, era uma concepção de “[...] linguagem como o lugar de constituição de relações sociais, onde os falantes se tornam sujeitos” (GERALDI, 1984, p. 43).
À força desse pensamento, filia-se, também, outro notável linguista da área de Educação em linguagem, Luiz Percival Leme Britto, que, em sua obra A sombra do caos: ensino de língua x tradição gramatical, de 1997, fortalece a proposta pedagógica de Geraldi sob um viés interacionista3, ao contestar a tradição gramatical com enfoque na norma-padrão
da língua. Ao encontro dessa concepção de língua, que tem em seu terreno o acontecimento social e, portanto, o trabalho dos sujeitos na constituição da linguagem, Britto (1997, p. 177) enfatiza que:
O conhecimento linguístico, em uma sociedade letrada, não se restringe ao uso prático da língua; há um saber social e histórico produzido sobre a língua, cujo domínio pode ser útil para operar com e sobre a língua. Sendo um objeto historicamente construído, a língua nacional é plena de valores e sentidos, e a percepção aguda da construção destes valores (preconceito, exclusão, elitização, apropriação), o reconhecimento da variação, o entendimento dos diferentes registros
3 O termo “interacionista” é tomado, aqui, por ser mais usual, nas teorizações da área de Educação em linguagem, no que se refere à concepção epistemológica de língua pela interação social. Vale mencionar a ciência, entretanto, do seu uso alinhado ao termo “construtivista” para se referir ao modelo epistemológico biologizante, o construtivismo, de Jean Piaget (DUARTE, 2003 [2008]), que não corresponde ao uso veiculado no presente contexto.
e o lugar da norma padrão, a convivência com a literatura e a cultura nacional e universal, o domínio dos diferentes níveis de estrutura — tudo isso exige um sujeito que, além de usar a língua, saiba como estes processos ocorrem.
Assim, sob esse enfoque do qual partem ambos os linguistas, Geraldi (1984; 1997 [1991]) pontua três questões a serem consideradas ao estabelecer como terreno de produção da linguagem a interação verbal: que a língua não é um sistema fechado, pronto e acabado, mas sim que é na relação interlocutiva que a língua se constitui; da mesma maneira, é no processo interlocutivo que os sujeitos também se constituem e, nesse processo, suas consciências e seus conhecimentos não são dados como acabados quando aqueles participam de uma atividade discursiva, e sim são produzidos pelo universo discursivo; e, por fim, é o meio social que dita a situação de acontecimento das interações, criando para estas as possíveis condições para se darem como “[...] acontecimentos singulares, no interior e nos limites de uma determinada formação social, sofrendo as interferências, os controles e as seleções impostas por esta” (GERALDI, 1997 [1991], p. 6). Essas condições, por sua vez, não estão isentas de juízos e de concepções ideológicas, pois são produtos da história e do meio social e, por essa razão, constituem-se nos limites impostos por estes, produzindo, também, limites outros.
Essa concepção de linguagem, assumida por Geraldi e na qual se respalda Britto, tem como base os postulados do Círculo de Bakhtin4 sobre o fenômeno social da interação verbal,
evidenciados na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929). Nesse texto, diante de “[...] el problema de la separación y delimitación del lenguaje como objeto de um estudio específico”56 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 79), o Círculo teoriza a respeito de duas
correntes fortes do pensamento filosófico-linguístico para investigar o fenômeno da linguagem — a partir do subjetivismo individualista e a partir do objetivismo abstrato — e apresenta a tese sobre a natureza social da linguagem — a língua constituída pela e na interação social. Com o intuito de situar o solo linguístico que sustenta o lugar de observação de Geraldi, o subcapítulo a seguir será reservado para a discussão sucinta dessas duas correntes filosóficas sobre a linguagem debatidas por Volóshinov (2009 [1929]).
4 Faz-se, aqui, a observação sobre a ciência do embate sobre a autoria da obra Marxismo e Filosofia da
Linguagem e, por essa razão, serão assumidas, neste TCC, as ideias presentes na obra como pertencentes ao
grupo denominado Círculo de Bakhtin. Contudo, a versão utilizada e referenciada ao longo deste trabalho é a versão assinada por Volóshinov (2009 [1929]).
5 [...] do problema da separação e da delimitação da linguagem como objeto de um estudo específico.
6 As traduções em português, que se encontram nas notas de rodapé das citações originais, presentes neste trabalho, da versão espanhola da obra Marxismo e filosofia da linguagem, da Editora Ediciones Godot, são de minha autoria.
2.1 DUAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM EM MARXISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
Ao longo dos capítulos Dos corrientes del pensamento filosófico lingüístico, Lengua, lenguaje e enunciado e Interacción discursiva, da segunda parte da obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, Volóshinov (2009 [1929]) apresenta duas concepções de linguagem que moveram a história dos estudos linguísticos: o subjetivismo individualista e o objetivismo abstrato. Visando elucidar ambas as orientações do pensamento filosófico-linguístico, este subcapítulo tratará de sua exploração e das críticas a seu respeito.
Fundamentada pela teoria da expressão, a vertente do subjetivismo individualista, a primeira corrente apresentada na obra por Volóshinov (2009 [1929]), tendo como um dos seus principais expoentes o filósofo Wilhelm Humboldt, compreende os fenômenos linguísticos sob a perspectiva do ato discursivo individual e criativo, que evoluem de modo contínuo e ininterrupto. Por essa razão, essa corrente filosófico-linguística procura explicar a linguagem a partir da vida individual e psíquica dos falantes, considerando, para tanto, a expressão como “[...] la categoria superior y general a la que se ajusta un acto linguístico [...]”7
(VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 134). É a atividade mental do indivíduo, portanto, que organiza a enunciação. Essa objetivação externa, por sua vez, está a serviço somente da criação individual psíquica dos sujeitos.
Por outro viés de análise, encontra-se a vertente do objetivismo abstrato, que incide sobre o sistema linguístico como centro da realidade linguística, contrapondo-se às ideias da primeira orientação, para a qual “[...] El lenguaje como producto hecho (ergon), como sistema estable de una lengua (vocabulario, gramática, fonética), es una especie de sedimento muerto, una lava petrificada de la creación linguística [...]”8 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 80).
Para esta corrente, que tem como representação máxima a Escola de Genebra, de Ferdinand De Saussure, a língua é um sistema estruturado que obedece a leis linguísticas específicas, pois é constituída por “[...] elementos idénticos y por lo mismo normativos para todos los enunciados”9 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 86), e que, portanto, não depende da
consciência individual, pois se organiza como uma construção que está para além dos limites de qualquer consciência.
7 [...] a categoria superior e geral a que se ajusta um ato linguístico [...].
8 [...] a linguagem como produto acabado (ergon), como sistema estável de uma língua (léxico, gramática, fonética), é uma espécie de sedimento morto, uma lava petrificada da criação linguística [...].
Como situa Volóshinov (2009 [1929]), uma vertente é a antítese da outra. Enquanto para a segunda é a identidade normativa que possibilita que as formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua, compondo um sistema imutável e indestrutível, constituam-se como objeto de estudo da linguística, para a primeira corrente, a língua se manifesta pela realização individual de uma forma linguística dada no ato enunciativo único. Diante dessas concepções, a historicidade fomenta uma divergência crucial entre essas duas dimensões de linguagem, uma vez que, para a primeira vertente, a língua depende do curso da história, pois com esta aquela evolui, visto que a sua lógica “[...] no es la de la repetición de una forma normativamente idéntica, sino la de uma renovación eterna, una individualización de esta forma mediante las enunciaciones estilísticamente irrepetibles”10 (VOLÓSHINOV, 2009
[1929], p. 92), e a segunda, por seu turno, estuda os fenômenos linguísticos em um plano sincrônico.
Dando início às críticas, ao indagar a efetividade do objeto de análise defendido pelo objetivismo abstrato diante da realidade linguística, Volóshinov (2009 [1929]) evidencia o caráter de norma social do sistema linguístico, que corrobora o problema de um dos maiores postulados dessa orientação: o de que a língua se manifesta em “[...] cualquier conciencia individual como un hecho externo y objetivo, y [...] es independiente de esta conciencia”11 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 104). Diante disso, compreende-se, entretanto, que o sistema linguístico, como sistema de normas sociais, apenas se constitui como tal “[...] para la conciencia individual y desde el punto de vista de esta conciencia”12 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 105) e em momento algum fora desta “[...] conciencia subjetiva de los individuos que pertenezcan a un colectivo dado regido por estas normas”13 (VOLÓSHINOV, 2009
[1929], p. 106). Assim, uma vez que se abstrai essa consciência subjetiva, não há como localizar esse sistema a partir de uma análise objetiva do objeto. E mesmo sob a luz desse cunho investigativo, a língua aparecerá, na consciência individual, como um trabalho contínuo de evolução, pois não haverá, objetivamente, “[...] un momento real en cuyo corte se podría construir un sistema sincrónico de la lengua “14 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p.
105), visto que cada consciência, a cada momento histórico, estará diante de transformações
10 [...] não é a repetição de uma forma normativamente idêntica, mas sim uma renovação eterna, uma individualização dessa forma mediante as enunciações estilisticamente irrepetíveis.
11 [...] qualquer consciência individual como um produto externo e objetivo, e [...] é independente desta consciência.
12 [...] para a consciência individual e desde o ponto de vista desta consciência.
13 [...] consciência subjetiva dos indivíduos que pertencem a um dado coletivo regido por essas normas. 14 [...] um momento real em cujo corte se poderia construir um sistema sincrônico da língua.
linguísticas que constituirão um sistema linguístico outro, imutável para aquela comunidade linguística, em outro tempo histórico.
Em continuidade às críticas, Volóshinov (2009 [1929]), a partir do que já se traçou anteriormente, examina se de fato o sistema linguístico objetivo, normativo e imutável, tal qual é sustentado pelos defensores dessa vertente, emerge na consciência individual dos sujeitos. Além de negar essa proposição, Volóshinov (2009 [1929]) ainda revela no que consiste a real manifestação dos fenômenos linguísticos na consciência individual:
La conciencia subjetiva del hablante no maneja la lengua como un sistema de formas normativamente idénticas. Tal sistema es una abstracción, obtenida mediante um arduo trabajo realizado para determinados propósitos cognoscitivos y prácticos. El sistema de la lengua es producto de una reflexión sobre el lenguaje, reflexión que no se lleva a cabo en la conciencia del hablante nativo de una lengua determinada, ni tampoco con el propósito inmediato de hablar15 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 108).
Sucintamente, como acrescenta, ainda, o teórico soviético, ao locutor, não é relevante, em uma atividade discursiva concreta, o reconhecimento de uma dada forma da língua enquanto estável e normativa, e sim o seu agenciamento adequado enquanto signo linguístico passível de variabilidade, que esteja a serviço do que pretende o locutor enunciar ao seu interlocutor, o qual, por sua vez, também compreenderá o que foi agenciado como signo, correspondente àquela atividade discursiva em que o signo está a serviço, e não o aspecto da língua enquanto sinal. A forma linguística sempre constituirá um signo linguístico, que é definido pelo contexto social e pela evolução e mobilidade da língua, e não pelo caráter de sinal tão somente identificável, sem valor linguístico passível de reconhecimento. Com isso, não pretende Volóshinov (2009 [1929]) recusar a existência desse aspecto formal da língua e sua possibilidade de identificação. Afirma o autor que:
Estos momentos sí existen, pero no son constitutivos para la lengua como tal. Están dialécticamente desactivados, absorbidos por la nueva calidad del signo (es decir, por la lengua como tal). La señal y el reconocimiento están dialécticamente desactivados em la lengua materna, es decir, precisamente para la conciencia lingüística de un miembro de un colectivo lingüístico dado. En el proceso de asimilación de una lengua extranjera la cualidad de señal y el reconocimiento todavía se perciben, todavía no están superados, la lengua no se convierte totalmente en una lengua. El ideal de la apropiación de uma lengua es la absorción de la
15 A consciência subjetiva do falante não maneja a língua como um sistema de formas normativamente idênticas. Tal sistema é uma abstração, obtida mediante um árduo trabalho realizado para determinados propósitos cognitivos e práticos. O sistema da língua é um produto de uma reflexão sobre a linguagem, reflexão que não se leva a cabo na consciência do falante nativo de uma determinada língua, nem tampouco com o propósito imediato de falar.
señalidad por la signicidad pura, del reconocimiento por la comprensión pura16 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 110-111).
Dizer que a língua se constitui de signos linguísticos em situações discursivas concretas, de acordo com o autor, significa considerar o seu acontecimento em um contexto ideológico específico, posto que, o que se materializa na comunicação social, por meio das palavras, são ideias, opiniões, veracidades, inverdades, predileções etc. Por essa razão, Volóshinov (2009 [1929]) tece sua crítica ao objetivismo abstrato, alegando que
[...] la lengua en cuanto sistema de formas normativamente idénticas no representa el modo real de la existencia del lenguaje para las conciencias de los indivíduos que la hablan. Desde el punto de vista de una conciencia hablante y de su práctica viviente de la comunicación social no existe un camino directo hacia el sistema de la lengua, propuesto por el objetivismo abstracto17 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 113).
Volóshinov (2009 [1929]), ademais, recupera historicamente o percurso de enfoque no sistema linguístico, tal qual considera a corrente objetivista, e resgata que foram os estudos filológicos que influenciaram diretamente o nascimento da linguística indo-europeia e, por conseguinte, a linguística contemporânea a esta, ao colocar, no centro de sua análise, enunciados monológicos abstraídos da realidade social. Recuperando, no entanto, a natureza da enunciação e, por conseguinte, de monumentos escritos, como os que materializaram as línguas mortas e que proveram os enunciados monológicos caros à investigação científica dos filólogos, os quais, com efeito, ainda que realizados em enunciados monológicos, respondem a algo, supõem uma compreensão ativa e se inserem, evidentemente, em um contexto ideológico específico, Volóshinov (2009 [1929]) atesta a desvinculação, pelos filólogos, da concretude das atividades discursivas em relação a esses enunciados/monumentos escritos, sujeitando-os, portanto, a uma compreensão passiva e, ainda, analisando-os em comparação a outros enunciados monológicos da língua, compreendendo-os como “[...] una totalidade
16 Estes momentos existem, mas não são constitutivos para a língua como tal. Estão dialeticamente desativados, absorvidos pela nova qualidade do signo (isto é, pela língua como tal). O sinal e o seu reconhecimento estão dialeticamente desativados na língua materna, isto é, precisamente para a consciência linguística de um membro de um coletivo linguístico dado. No processo de assimilação de uma língua estrangeira, a qualidade de sinal e o seu reconhecimento, todavia, são percebidos, todavia, não estão superados, pois a língua não se converteu totalmente em uma língua. O ideal de apropriação de uma língua é a absorção da “sinalidade” pelo signo puro e do reconhecimento pela compreensão pura.
17 [...] a língua enquanto sistema de formas normativas não representa o modo real da existência da linguagem para as consciências dos indivíduos que a falam. Do ponto de vista de uma consciência falante e de sua prática vivenciada na comunicação social não existe um caminho direto para o sistema da língua, proposto pelo objetivismo abstrato.
centrada en sí misma y aislada [...]”18 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 116), como se a
língua estivesse reservada para ser compreendida de tal maneira desde a sua origem.
No que se refere a essa compreensão passiva do filólogo diante da língua a partir da análise desses enunciados monológicos provenientes dos monumentos escritos nas línguas mortas, Volóshinov (2009 [1929]) acentua que isso se deve à abordagem de estudo de uma língua morta por partes dos filólogos, que, por sua vez, converte-se em uma equivocada noção de compreensão da palavra investigada, completamente alheia à apreensão da linguagem enquanto discurso: estuda-se a língua morta como uma língua estrangeira e, por essa razão, a reflexão que se faz acerca da linguagem é do próprio filólogo que a estuda, enquanto explorador de um terreno novo e desconhecido para ele; desconsidera-se, assim, a reflexão do próprio falante em relação à sua língua nativa. É nesse horizonte que, portanto, em resumo, o teórico soviético conclui que
[...] la comprensión pasiva se caracteriza justamente por privilegiar claramente el aspecto de la identidad del signo lingüístico, es decir, por una percepción reificada de su aspecto de señal, por tanto predomina en ella el momento de reconocimiento. Entonces la definición auténtica de la lengua dentro del pensamiento lingüístico es la siguiente: lengua muerta, escrita y ajena.
El enunciado aislado, acabado y monológico, sacado de su contexto discursivo real, no orientado hacia uma posible respuesta activa, sino a la comprensión pasiva de un filólogo, representa el dato último y punto de partida para el pensamiento lingüístico19 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 117).
Assim, a abordagem filológica, partindo de uma reflexão linguística realizada com línguas mortas e estrangeiras, influenciou a linguística da qual se ocupa a corrente do objetivismo abstrato, com um trabalho formal-sistemático de abordagem da língua. É em virtude disso que o tratamento dado a língua viva é o mesmo que fora atribuído à língua morta, pelos filólogos: maneja-se aquela como um produto pronto e desarticulado da dimensão discursiva e, portanto, da dimensão histórica. O que se constituiu, em vista disso, foi uma linguística com enfoque no enunciado monológico, abstrato e isolado da real natureza da linguagem, visto que se estende tão somente ao estudo do que é da ordem da sintaxe. O autor, mais uma vez, reitera a natureza social da enunciação e afirma que
18 [...] uma totalidade isolada e centrada em si mesma.
19 [...] a compreensão passiva se caracteriza justamente por privilegiar claramente o aspecto da identidade do signo linguístico, isto é, por uma percepção reificada de seu aspecto de sinal, portanto, predomina, para ela, o momento de reconhecimento.
Então, a definição autêntica da língua dentro do pensamento linguístico é a seguinte: língua morta, escrita e estrangeira.
O enunciado isolado, acabado e monológico, retirado de seu contexto discursivo real, não orientado para uma possível resposta ativa, e sim para a compreensão passiva de um filólogo, representa o dado último e o ponto de partida para o pensamento linguístico.
[...] entre las formas lingüísticas de los elementos de enunciado y las formas de su totalidad no hay una transición continua y en general no hay relación alguna. Sólo mediante un salto pasamos de la sintaxis a las cuestiones de la composición. Lo cual es absolutamente inevitable, puesto que las formas de un enunciado total sólo pueden ser percibidas y compreendidas sobre el fondo de otros enunciados totales em la unidad de una esfera ideológica20 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 126).
Outras questões levantadas por Volóshinov (2009 [1929]) a respeito dos equívocos do objetivismo abstrato, atreladas ao que já foi exposto até aqui, referem-se à unidade da palavra, que se sobrepõe à pluralidade de seus significados, ao assemelhar a unidade da forma com a unidade de seus significados, e a compreensão de que a língua é transmitida ao longo das gerações. Ambas as colocações, novamente, só se sustentam diante da noção abstrata de língua concebida por essa corrente fora da cadeia discursiva. Por fim, Volóshinov (2009 [1929], p. 131) recapitula o processo de evolução da língua, o qual não é possível de ser relacionado com o corte sincrônico que se estabelece como terreno para abordá-la, para essa vertente, uma vez que esta considera que, para a consciência individual, a língua se manifesta exclusivamente como um sistema normativo de formas, eliminando-se, portanto, “[...] la posibilidad de una participación activa de la conciencia hablante en el proceso de la generación histórica”21 e suas funções sociais. Ainda que, conforme coloca o autor, os
representantes dessa corrente reivindiquem a relevância sociológica de sua perspectiva, a qual está sob a fundamentação do mecanicismo e do racionalismo, aquela, por sua vez, não corresponde a uma visão apropriada do fenômeno linguístico, “[...] puesto que el linguaje es un fenómeno netamente histórico”22.
Assim se constituiu o horizonte de críticas à tese do objetivismo abstrato por Volóshinov (2009 [1929]). Conforme explanado ao longo deste subcapítulo, essa orientação do pensamento filosófico-linguístico não se basta para contemplar o fenômeno da linguagem na sua totalidade em razão de considerar a língua como um sistema abstrato de formas. Dando sequência à sua busca pela real natureza da linguagem, o autor confronta, ainda, a primeira corrente abordada em Marxismo e Filosofia da Linguagem, o subjetivismo individualista, para
20 [...] entre as formas linguísticas dos elementos do enunciado e as formas de sua totalidade não há uma transição contínua e, de modo geral, não há relação alguma. Somente mediante um salto é que passamos da sintaxe às questões da composição. O que é absolutamente inevitável, posto que as formas de um enunciado total só podem ser percebidas e compreendidas sobre o fundo de outros enunciados totais na unidade de uma esfera ideológica.
21 [...] a possibilidade de uma participação ativa da consciência falante no processo da evolução histórica. 22 [...] posto que a linguagem é um fenômeno claramente histórico.
a qual a linguagem é “[...] un continuo processo constructivo de creación (energeia) realizado en los actos discursivos individuales”23 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 80).
No que diz respeito à base filosófica dessa orientação, foi o movimento do romantismo que ditou o percurso de consolidação das especificidades do terreno pelo qual se move a vertente subjetivista individualista. O romantismo, conforme expõe Volóshinov (2009 [1929]), enfrentou vigorosamente “[...] la palabra ajena y a las categorías del pensamiento por ella condicionadas”24 e originou
[...] los primeros filólogos de la lengua vernácula, los primeiros que intentaron reestructurar radicalmente el pensamento lingüístico en base a la vivencia de la lengua materna en cuanto mediación para el proceso generativo de la conciencia y el pensamiento25 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 133).
Não obstante, os românticos, enquanto filólogos, o foram em stricto sensu, à medida que legaram ao subjetivismo individualista, assim como para o objetivismo abstrato, a enunciação monológica como “[...] la realidade definitiva y el punto de partida en su reflexión acerca del lenguaje”26 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 134). Porém, diferentemente da
percepção passiva atribuída pelo objetivismo abstrato à linguagem, a primeira corrente compreende essa enunciação monológica a partir da consciência individual dos sujeitos mediante a sua expressão enunciativa, que se constitui por dois elementos: o que é expressado e, por sua vez, desenvolvido na psique de cada indivíduo; e a objetivação externa, que ocorre por intermédio dos signos ideológicos, que se destina ao outro ou ao próprio sujeito que expressa. Revelando-se, portanto, como uma teoria da expressão, esse é o cenário em que se delineia a primeira corrente exposta por Volóshinov (2009 [1929]).
Em se tratando de uma teoria desse viés, que supervaloriza o interior e que supõe este como um princípio antagônico em relação ao exterior, as teorias da expressão compreendem, como é o caso do subjetivismo individualista, entretanto, a possibilidade de o conteúdo que é expressado constituir-se e manifestar-se para além da expressão, ou seja, podem constituir-se e manifestar-se em um meio que não seja a expressão e, posteriormente, passarem a ser esta. Contudo, a supremacia do interior nessas teorias coloca o exterior tão somente a seu serviço, valendo-se da expressão apenas para materializar o que é criado
23 [...] um contínuo processo construtivo de criação (energeia) realizado nos atos discursivos individuais. 24 [...] a palavra estrangeira e as categorias do pensamento por ela condicionadas.
25 [...] os primeiros filólogos da língua vernácula, os primeiros que intentaram reestruturar radicalmente o pensamento linguístico com base na vivência da língua materna enquanto mediação para o processo evolutivo da consciência e do pensamento.
internamente, o que é da ordem do espírito; o que corrobora, nessa perspectiva, o idealismo desse pensamento, possível de ser concebido unicamente nesse campo, uma vez que, ao se manifestar exteriormente, o que era, antes, criação interior, passa a ser regido por novas leis, as leis da objetivação externa, considerada, no campo idealista, como “[...] distorsión de la pureza de lo interior”27 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 135) — por essa razão, a corrente
do subjetivismo individualista, enquanto teoria da expressão, tem este como seu espaço de desenvolvimento, onde é possível, portanto, preservar o que é da ordem do interior e, por assim dizer, da sua pureza.
Nesse sentido, Volóshinov (2009 [1929], p. 135) contesta como equivocados os fatos de que, para a vertente subjetivista individualista, “[...] todas las fuerzas creativas y organizativas de la expresión se encuentran en el interior”28 e de “[...] que también la
comprensión, la interpretación y la explicación de un fenómeno ideológico pueden ser dirigidas hacia el interior [...]”29, em um movimento que parte do que é exteriorizado para
adentrar a organização interior, realizando o caminho oposto ao qual percorre a expressão. O autor coloca, assim, em suas palavras, que:
La vivencia — lo expresado y su objetivación externa — están hechos (sic), como ya lo sabemos, del mismo material. No hay vivencia fuera de su encarnación sígnica. Por consiguiente, desde un principio ni siquiera puede plantearse una diferencia cualitativa entre lo interno y lo externo. Pero es más que eso: el centro
organizativo y formativo no se encuentra en el interior (es decir, no em el material de los signos internos), sino afuera. No es la vivencia la que organiza la expresión, sino por el contrario, es la expresión la que organiza la vivencia, le da por primera vez una forma y una determinación del sentido30 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 136, grifos meus).
A expressão, que, nesse seguimento, coloca-se como enunciação concreta, constitui-se como produto do ato discursivo, formado na interação entre dois sujeitos pertencentes a uma mesma sociedade organizada, constituídos histórico e culturalmente por esta; nesse terreno da realidade social da linguagem, não há, portanto, lugar para a abstração dos sujeitos. E não é, pois, a consciência individual que produz essa realidade da língua: esta é produto da
27 [...] distorção da pureza do interior.
28 [...] todas as forças criativas e organizativas da expressão se encontram no interior.
29 [...] que também a compreensão, a interpretação e a explicação de um fenômeno ideológico podem ser direcionadas para o interior [...].
30 A experiência — o expresso e sua objetificação externa — são feitos, como sabemos, do mesmo material. Não há experiência fora da sua encarnação enquanto signo. Por conseguinte, desde o início, uma diferença qualitativa entre o interno e o externo nem pode ser considerada. Mas é mais do que isso: o centro organizacional e formativo não está dentro (isto é, não está no material dos sinais internos), mas fora. Não é a experiência que organiza a expressão, mas, pelo contrário, é a expressão que organiza a experiência, que lhe dá, pela primeira vez, uma forma e uma determinação do sentido.
interação social, assim como aquela, a qual se constitui, por sua vez, como “[...] un pequeño acontecimiento social y no un acto individual interno”31 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p.
145). Por conseguinte, conforme ainda acrescenta Volóshinov (2009 [1929], p. 144), “[...] todo el camino que dista entre una vivencia interior (‘lo expresable’) y su objetivación externa (‘lo enunciado’) se traza a través de un território social”32.
Assim, o autor arremata que a corrente do subjetivismo individualista não contempla o núcleo linguístico real. Embora essa corrente admita “[...] que las enunciaciones singulares representan la única realidad concreta de la lengua en que la relevancia creativa de la lengua depende de ellas”33 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 150) e que não há como separar a
forma da língua e o signo ideológico, o subjetivismo individualista falha ao considerar a consciência individual como detentora da real natureza da linguagem e, portanto, ao considerar o que é da ordem do ideológico como criação da psique.
Diante disso, visando responder qual é o verdadeiro núcleo da linguagem, Volóshinov (2009 [1929]) delineou um percurso que passa pela análise do objetivismo abstrato e do subjetivismo individualista, duas grandes correntes do pensamento linguístico-filosófico, em busca da compreensão do que seria o objeto da filosofia da linguagem de fundamentação marxista34. Nesse seguimento, ao apresentar e confrontar ambas as correntes, nos Capítulos I, II e III da segunda parte de Marxismo e Filosofia da Linguagem, o autor convoca a análise de que “[...] la verdad no se sitúa en el justo término medio, ni representa un compromiso entre la tesis y la antítesis, sino que se encuentra más allá de los dos, al negar por igual tanto la tesis como la antítesis, esto es, siendo una síntesis dialéctica”35
(VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 132). Logo, a real natureza da linguagem seria de ordem sociológica, como foi sendo mencionado ao longo dessa parte do presente trabalho, ainda que brevemente, apenas com o fim de defrontar os postulados objetivistas abstratos e subjetivistas individualistas, como o faz o próprio autor. Dessa forma, o subcapítulo seguinte tratará sobre 31 [...] um pequeno acontecimento social e não como um ato individual interno.
32 [...] todo o caminho que dista entre uma experiência interior (‘o expressável’) e sua objetivação externa (‘o enunciado’) é traçado através de um território social.
33 [...] que as enunciações singulares representam a única realidade concreta da língua em que a relevância criativa da língua depende delas.
34 No que se refere à aproximação do Círculo de Bakhtin, a quem se atribui, neste TCC, a autoria da obra base dessa discussão, Marxismo e Filosofia da Linguagem, com o marxismo, e em virtude do embate autoral que permeia a obra, cabe ressaltar que Bakhtin, de acordo com Faraco (2009), não se filiava ao ideário marxista, ao passo que Volóshinov, assim como Medvedev, “[...] buscavam, de modo explícito, intervir num debate de sua época voltado justamente para uma temática marxista” (FARACO, 2009, p. 27).
35 [...] a verdade não se situa no meio termo justo, nem representa um compromisso entre a tese e [a] antítese, mas sim que se encontra mais além dos dois, ao negar por igual tanto a tese quando a antítese, isto é, sendo uma síntese dialética.
a concepção de linguagem defendida por Volóshinov (2009 [1929]), apoiando-se em Bakhtin (2016), para, por fim, situar a concepção de língua e de produção textual de Geraldi (1984; 1997 [1991]).
2.2 CONCEPÇÃO DE LÍNGUA E DE PRODUÇÃO TEXTUAL PELA INTERAÇÃO SOCIAL EM GERALDI (1984; 1997 [1991])
Em seus termos, Volóshinov (2009 [1929], p. 151-152) declara, após ávidas críticas às duas correntes filosófico-linguísticas, apresentadas anteriormente, que o terreno real de constituição da linguagem é a interação social, não sendo, portanto, “[...] el sistema abstracto de formas lingüísticas, ni tampoco uma enunciación monológica y aislada, ni el acto psicofísico de su realización”36. Essa concepção sociológica de linguagem tem em seu
horizonte que o uso da língua se materializa em forma de enunciados, os quais correspondem, na teoria bakhtiniana, à unidade real da comunicação discursiva (BAKHTIN, 2016 [1978]), de natureza social e dialógica. O contexto geral dessa noção de enunciado, para Bakhtin (2016 [1978]), compreende, nesse sentido, que
[...] a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua. O enunciado é um núcleo problemático de importância excepcional (BAKHTIN, 2016 [1978], p. 16-17).
[...] o discurso só pode existir na forma de enunciados concretos e singulares, pertencentes aos sujeitos discursivos de uma ou outra esfera da atividade e comunicação humanas. Cada enunciado, dessa forma, constitui-se em um novo acontecimento, um evento único e irrepetível da comunicação discursiva [...] (RODRIGUES, 2001, p. 19).
Assim, o enunciado, enquanto unidade singular e irrepetível, integra à comunicação discursiva ininterrupta, que representa “[...] un momento de un continuo y multilateral proceso generativo de um colectivo social determinado”37 (VOLÓSHINOV, 2009 [1929], p. 152-153), tão somente como um instante, como um elo nessa “[...] cadeia complexa e contínua da comunicação discursiva” (RODRIGUES, 2001, p. 19), constituindo-se, portanto, na relação dialógica com outros enunciados já formados nessa cadeia. Por essa razão, nessa “[...] corrente complexamente organizada [...]” (BAKHTIN, 2016 [1978], p. 26), o enunciado forma-se sempre como uma resposta aos enunciados já-ditos, sejam estes do próprio sujeito 36 [...] o sistema abstrato de formas linguísticas, nem tampouco uma enunciação monológica e isolada, nem o ato
psicofísico de sua realização.
que os manifesta, sejam estes enunciados alheios, contexto que lhe é fundamental para estabelecer relações de sentido na comunicação discursiva.
Considerando-se, portanto, o papel, o lugar e a natureza do enunciado (RODRIGUES, 2001) e o seu trabalho contínuo de constituição da linguagem, nesse movimento, implica necessariamente considerar, para tanto, o trabalho linguístico dos sujeitos ao longo da história (GERALDI, 1997 [1991]). À luz da concepção de linguagem defendida por Volóshinov (2009 [1929]), em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), e do solo discursivo de Bakhtin (2016 [1978]), corrobora Geraldi (1997 [1991], p. 11, grifos do autor):
Individualmente, nos processos interacionais de que participamos, trabalhamos na construção dos sentidos “aqui e agora”, e para isso temos como “material” para este trabalho a língua que “resultou” dos trabalhos anteriores. Nossas operações de construção de textos ou discursos operam com tais recursos linguísticos, e com outros recursos da situação, e seu retorno em cada acontecimento discursivo não se dá sem as marcas de suas presenças em acontecimentos anteriores.
Ocorre, nesse sentido, como aponta ainda o autor, uma compreensão equivocada no que se refere a esse retorno dos recursos linguísticos nos diferentes acontecimentos discursivos, que passa a impressão de que a linguagem constitui-se como uma sistematização acabada e repetível, como defende o objetivismo abstrato (VOLÓSHINOV, 2009 [1929]); o que acontece, entretanto, é que esses recursos linguísticos, levando-se em consideração, como condição necessária para o seu emprego, os diferentes contextos discursivos, recebem, nesses contextos, diferentes significados, possíveis de serem compreendidos somente sob a luz dessas situações concretas do discurso. O que se tem, portanto, é que a língua é uma sistematização aberta e não um sistema fechado (GERALDI, 1997 [1991]) e que o acontecimento discursivo concreto, que materializa o uso da língua em forma de enunciados, configura-se como condição fundamental para a compreensão da real comunicação discursiva (VOLÓSHINOV, 2009 [1929]).
Nessa perspectiva, a dependência do enunciado em relação à dimensão social não pode reduzir-se a um componente que apenas o “envolve”, ou a um acréscimo ao enunciado. Dito de outro modo, ela é condição necessária para a sua emergência e se integra nele como um elemento indispensável a sua constituição semântica, ou seja, para a compreensão e articulação do seu sentido. O enunciado não se relaciona com a situação social a partir do seu exterior, mas do seu próprio interior. É nessa perspectiva que o enunciado é composto de uma parte verbal expressa e de uma parte “subentendida” (a situação social). A avaliação social determina, assim, não só o conteúdo temático do enunciado, mas também a sua forma (estilo, composição), bem como a sua composição genérica (gênero) e gramatical, vista do ângulo histórico. Portanto, “la diferencia de las situaciones determina la diferencia de los sentidos de uma misma expresión verbal” no enunciado, além das diversas
configurações dos enunciados” (BAKHTIN [VOLÓSHINOV], 19-- apud RODRIGUES, 2001, p. 27).
Assim, o trabalho linguístico, do qual fala Geraldi (1997 [1991]), é desempenhado a todo momento, nas situações sociais em que se manifesta, pelo movimento tanto de repetição quanto de diferenciação do uso dos recursos linguísticos e dos demais recursos que demanda o acontecimento social dado, comprovando o movimento respondente que constitui todo enunciado. O autor mostra, em um esquema, como se realiza esse trabalho.
Figura 1 - Esquema do trabalho linguístico dos sujeitos
Fonte: Geraldi (1997 [1991])
Conforme exposto no esquema delineado por Geraldi (1997 [1991], p. 12), com vistas a examinar o terreno da concepção de língua que fundamenta o pensamento do linguista e, a partir desta, a sua concepção de produção textual, cabe pontuar os elementos que integram o trabalho linguístico. Inicialmente, tem-se a situação histórico-social em que se dá esse trabalho, que, baseado nas premissas teóricas bakhtinianas, “[...] corresponde a uma das formas de interação social relativamente estável, no interior de uma das formas ou variedades de intercâmbio comunicativo social” (RODRIGUES, 2001, p. 23); essa determinada situação
histórico-social acontece, portanto, em uma dada esfera de atividade humana, que, por sua vez, correspondem às inúmeras maneiras de manuseio da linguagem, em razão dos diferentes campos onde os sujeitos atuam (campo científico, do cotidiano, literário, jornalístico etc.); participam, então, desses campos, sujeitos historicizados e sob uma compreensão ativamente responsiva (BAKHTIN, 2016 [1978]), formando o auditório do enunciado, na concepção bakhtiniana (RODRIGUES, 2001), que se organizam como o eu e o outro, necessários para a concretização das interações, nas quais, por sua vez, estabelecem uma relação interlocutiva por meio de operações com a língua, que se materializam em enunciados concretos; é a partir destes, então, que, envoltos pela sua dimensão linguístico-verbal e pela indispensável dimensão extraverbal — a sua dimensão social constitutiva (RODRIGUES, 2001) —, dá-se vida aos discursos. Arremata-se, assim, o terreno sócio-discursivo constitutivo da língua, nessa concepção, que tem, portanto, o acontecimento social e a interação entre os sujeitos como condição necessária para a constituição da comunicação discursiva e que é materializada em forma de enunciados, sendo estes a sua real unidade.
Ainda no horizonte desse trabalho linguístico produzidos pelos sujeitos, o qual Geraldi (1997 [1991], p. 15) elenca como “[...] o fio condutor da reflexão” para o entendimento dessa concepção sociológica da linguagem, o linguista articula dois pontos à sua compreensão, que tem como seu ponto de encontro e de concretização o enunciado:
[...] aquele da produção histórica e social de sistemas de referência em relação aos quais os recursos expressivos se tornam significativos e aquele das operações
discursivas que, remetendo aos sistemas de referência, permitem a intercompreensão
nos processos interlocutivos apesar da vagueza dos recursos expressivos utilizados (GERALDI, 1997 [1991], p. 15).
No que se refere às operações da língua, na produção de discursos, os sujeitos desempenham, de acordo com Geraldi (1997 [1991]), ações com a linguagem e ações sobre a linguagem, enquanto, ao manejarem os recursos da língua e ao produzirem os sistemas de referências, aqueles lidam com ações da linguagem. Essas ações linguísticas pressupõem uma reflexão sobre a língua, uma vez que, na relação interlocutiva, à luz de uma concepção de língua “[...] como uma sistematização aberta de recursos expressivos cuja concretude significativa se dá na singularidade dos acontecimentos interativos” (p. 18), há a necessidade de compreensão — que não é mera decodificação, e sim uma compreensão ativa e responsiva — tanto do discurso do outro quanto de querer se fazer entender pelo outro, o que, portanto, exige um trabalho de reflexão. Diante dessa interação entre os sujeitos,
[...] a presença da fala do outro deflagra uma espécie de “inevitabilidade de busca de sentido”: esta busca, por seu turno, deflagra que quem compreende se oriente para a enunciação do outro. Como esta se constrói tanto com elementos da situação quanto com recursos expressivos, a adequada compreensão destes resulta de um trabalho de reflexão que associa os elementos da situação, os recursos utilizados pelo locutor e os recursos utilizados pelo interlocutor para estabelecer a correlação entre os dois primeiros (GERALDI, 1997 [1991], p. 19).
Esse trabalho de reflexão da linguagem diverge em três orientações que estão presentes nas três ações linguísticas expostas por Geraldi (1997 [1991]): as atividades linguísticas; as atividades epilinguísticas; e as atividades metalinguísticas. Por atividades linguísticas, entende-se que são aquelas que, na interação, estão sendo produzidas para se referirem ao assunto do qual se fala. O trabalho de reflexão, nessas atividades, pelo locutor e pelo interlocutor, no manejo dos recursos linguísticos e na compreensão destes, respectivamente, ocorre sem ser necessário romper o fluxo do assunto. Como acrescenta o autor, “[...] elas demandam, na compreensão responsiva, um certo tipo de reflexão que se poderia dizer quase ‘automática’, sem suspensão das determinações do sentido que se pretendem construir na intercompreensão dos sujeitos” (GERALDI, 1997 [1991], p. 20).
Em continuidade, as atividades epilinguísticas, por sua vez, se caracterizam por refletirem acerca dos recursos linguísticos demandados no fluxo da interação. Tomando os recursos linguísticos como objeto de reflexão, o assunto, nessas atividades, é suspendido, por um momento, para que os interlocutores reflitam sobre as formas da língua agenciadas para a produção do discurso. Conforme Geraldi (1997 [1991], p. 24-25, grifos do autor), as atividades epilinguísticas:
Seriam operações que se manifestariam nas negociações de sentido, em hesitações, em autocorreções, reelaborações, rasuras, pausas longas, repetições, antecipações, lapsos, etc. e que estão sempre presentes nas atividades verbais [...].
[...]
Estas atividades incidem ora sobre aspectos “estruturais” da língua (como nas reformulações e correções auto e heteroiniciadas), ora sobre aspectos mais discursivos como o desenrolar dos processos interativos (por exemplo, numa conversação com mais de três sujeitos, A diz a B Por que você não fala? ou quando o locutor demanda de seu interlocutor que tome seu turno em esquemas interacionais do tipo pergunta/resposta, quando este parece não querer responder), ora sobre aspectos mais amplos da própria interação, incidindo sobre sua própria organização (por exemplo, quando se suspende o tratamento de um tema num debate para fixar o término do próprio encontro).
Por fim, são situadas as atividades metalinguísticas, as quais também têm como seu objeto de reflexão as formas da língua, mas com a diferença de que estas são analisadas fora do contexto de interação; são, assim, atividades de reflexão consciente sobre a linguagem vinculada à criação de conceitos e de classificações da língua. A reflexão sobre a língua se dá,