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PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ACÓRDÃO

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Registro: 2017.0000822129

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 1006141-43.2016.8.26.0362, da Comarca de Mogi-Guaçu, em que é apelante NIKOLAS FREITAS DE OLIVEIRA (ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA), é apelado CERAMICA CLUBE.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Negaram provimento ao recurso. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores FRANCISCO LOUREIRO (Presidente), CHRISTINE SANTINI E CLAUDIO GODOY.

São Paulo, 26 de outubro de 2017.

Francisco Loureiro Relator Assinatura Eletrônica

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Apelação no 1006141-43.2016.8.26.8.26.0362

Comarca: MOGI-GUAÇU

Juiz: SERGIO AUGUSTO FOCHESATO

Apelante: NIKOLAS FREITAS DE OLIVEIRA

Apelada: CERAMICA CLUBE

VOTO Nº 31.999

DANO MORAL. Ofensas ao autor, clube recreativo, por meio da rede social Facebook. Impropérios que ultrapassam o direito de crítica e de livre manifestação. Liberdade de expressão que não deve se sobrepor aos direitos fundamentais da honra objetiva e do bom conceito da pessoa jurídica. Linguagem coloquial e informal usada na Internet tem limite na violação da honra alheia. Dever de indenizar por danos morais. Possibilidade de danos morais à pessoa jurídica, titular de determinados direitos da personalidade. Critérios de fixação dos danos morais. Funções ressarcitória e preventiva. Quantum indenizatório mantido, à luz das circunstâncias do caso concreto. Recurso improvido.

Cuida-se de recurso de apelação interposto contra a r. Sentença de fls. 191/194, que julgou procedente a ação indenizatória ajuizada por CERAMICA CLUBE em face de NIKOLAS FREITAS DE OLIVEIRA, para condenar o réu a lhe pagar R$ 5.000,00, com correção e juros a partir da publicação da sentença, além de honorários de 10% do valor da condenação.

Fê-lo a r. sentença, basicamente sob o argumento de que o réu publicou na rede social “Facebook” ofensas à honra objetiva da autora. As publicações ultrapassaram o limite do razoável, excedendo o direito de crítica, a ponto de configurar dano moral.

Sustenta o réu apelante, em síntese, que: i) a sentença é nula por cerceamento de defesa ou falta de fundamentação; ii) a publicação ateve-se aos limites do razoável; iii) a apelada vinha prestando

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serviço insatisfatório, o que justifica o teor da publicação; iv) depois da publicação teve suspenso o direito de frequentar as dependências do clube e, pouco tempo depois, desistiu do título, o que já representa a punição adequada; v) houve mero dissabor não indenizável.

Em razão do exposto e pelo que mais argumenta às fls. 199/208, pede o provimento de seu recurso.

O apelo foi contrariado às fls. 221/227. É o relatório.

1. Não há que se falar em cerceamento de defesa, uma vez que a realização de audiência de instrução e julgamento era desnecessária.

Os autos já se encontravam adequadamente instruídos para o deslinde do feito, de forma que a realização de fase instrutória não teria maior utilidade.

A única prova que o réu pretendia produzir era a oitiva da testemunha Willian Diogo de Lima, para demonstrar supostas humilhações por que passavam, bem como o cancelamento dos treinos de basquetebol no clube. A prova dessas circunstâncias nada acrescentaria à resolução da demanda, uma vez que não bastariam para ao menos atenuar o dano provocado pelas publicações do “Facebook”.

Lembre-se ainda o disposto no art. 355, I, do CPC/15, que autoriza o julgamento antecipado da lide quando não houver necessidade de produção de outras provas. Tal foi justamente a hipótese verificada nos autos.

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natureza estritamente documental e se encontra encartada nos autos. Rejeita-se a preliminar suscitada.

2. A despeito da alegação do apelante, o decisum recorrido se encontra adequadamente motivado, em observância ao disposto no artigo 93, X, da Constituição Federal.

Lembre-se que decisão objetiva não se confunde com decisão nula por falta de fundamentação. Não é possível reconhecer ausência de prestação jurisdicional no caso em tela, pois, como sabido, “o

órgão judicial, para expressar a sua convicção, não precisa aduzir comentários sobre todos os argumentos levantados pelas partes. Sua fundamentação pode ser sucinta, pronunciando-se acerca do motivo que, por si só, achou suficiente para a composição do litígio” (STJ- 1ª T., AI

169.073-SP-AgRg, Rel. Min. José Delgado, j. 4.6.98, DJU 17.8.98, p. 44, apud Theotonio Negrão e José Roberto F. Gouvêa, in “Código de Processo Civil e Legislação Processual em vigor, 39ª ed., São Paulo, Ed. Saraiva, 2.007, nota 3 ao artigo 535, p. 698).

Ademais, ainda que a fundamentação tivesse sido concisa no decisum recorrido, não se poderia falar em nulidade da sentença cuja conclusão decorreu logicamente dos pressupostos nela adotados, e que conteve o essencial, conforme inúmeros precedentes dos tribunais neste sentido (STJ-RTJE 102/100, RT 594/109, 781/285, 811/271, JTJ

146/188, entre outros).

Observe-se também que nem mesmo a previsão do art. 489, § 1º, IV do CPC/15 altera a conclusão acima exposta, pois o aludido preceito estabelece que não se considera fundamentada a decisão judicial que “não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes

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Não é demasiado, ainda, mencionar o Enunciado n. 10 aprovado pela ENFAM (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados), destinado justamente a orientar a magistratura nacional na aplicação do art. 489, § 1º, IV do CPC/15, e que vai ao encontro do entendimento acima explicitado acerca da matéria:

“Enunciado n. 10: A fundamentação sucinta não se confunde com a ausência de fundamentação e não acarreta a nulidade da decisão se forem enfrentadas todas as questões cuja resolução, em tese, influencie a decisão da causa”.

Deixo de acolher, portanto, a preliminar em análise. 3. O recurso não comporta provimento.

Em 01 de março de 2.016 o requerido, associado ao clube autor, divulgou na rede social “Facebook” publicação do seguinte teor:

“Vende-se título do Cerâmica Clube. (já deve ter dado

tanta merda que eu nem consegui encontrar a pagina para marcar aqui, mas enfim) porém já aviso que seria uma perda de tempo a qualquer um q queira adquirir o título, pois aquele clube n tem exatamente nada a oferecer, piscinas imundas, cantinas horríveis com bebidas quentes e comidas passadas, má organização, diretoria suja e pouco participativa, nenhuma atividade ou interação ao sócio, e o pior de tudo nenhum incentivo ao esporte, é isso msm, a única coisa q ainda tinha pra fzr naquela merda agr n tem mais, simplesmente acabou o basquete do clube, nem se quer existem mais bolas para praticar o mesmo, exigem mensalidade em dia, essa do qual sofreu um puta aumento desnecessário, já q o clube n oferece nd cubra esse aumento, sem citar q as mesmas bolas eram trocadas uma vez a cada 10 anos, pq era impossível jogar com aqueles dinossauros dos quais nos eram empurrados e agr nem existem mais. Se eu quisesse sair

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de casa pra jogar em algum lugar onde eu tivesse q levar meus pertences eu n pagaria um lugar para servir única e exclusivamente para o meu lazer, mas como encontrar lazer num lugar onde não há: 1ª Segurança: O estacionamento q agr reside na cerâmica Martini, é aberto aos 4 cantos, não tem câmera, não tem fiscalização, mal tem iluminação, não se apresenta nenhum tipo de documento para usufruir o espaço (..) 2ª A forma como se preocupam com o associado é assustadoramente ridiculamente deplorável, se algo acontecer com vc ou algum pertence seu, dentro das dependências do clube, esquece meu amigo, é como eles dizem “nós não nos responsabilizamos” o q é mt engraçado pq ate onde eu sei a partir do momento em q vc abriga veículos, q seja,, ou pessoas dentro de algum estabelecimento, especialmente um clube, vc se responsabiliza sim. 3º Um não sócio tem mais prioridades q vc. Sim vc não precisa ser sócio para usar o clube, inúmeras vzs das quais eu fui jogar basquete lá, evento q aconteciam nas terças, quartas e quintas das 19 as 21 horas, mais da metade dos residentes na quadra não eram sócios, como entravam? Não faço ideia, mas esqueça sua carteirinha ou deixa atrasar um mês do pagamento deles pra vc ver se consegue se quer falar na portaria. Há tbm outro caso da associada (..). Hoje basicamente vejo o cerâmica como os restos de uma estrutura de algo q um dia já foi mt bom, mas infelizmente, e não é de agora, de uns tempos pra cá vem piorando e agr com a exclusão dos esportes podemos dizer q realmente acabou. Mas se ainda sim vc estiver disposto a enfiar seu dinheiro na bunda e pagar pra ver o quão lixo é aquele lugar e perder seu precioso tempo indo a qqr evento q seja efetuado lá, tratar comigo inbox. Ta aí outro ponto a se citar, sempre achei um absurdo sócio ter que pagar para adentrar as “festas” da porra daquele clube. Cara eu pago mensalidade, mensalidade, se isso já n significa dinheiro no bolso daqueles engravatados filho da puta, o q mais significa?

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Considerando ofensiva a publicação e outras que se seguiram com teor semelhante (fls. 48/49), o clube a registrou em ata notarial (fls. 41/44) e ajuizou ação para indenização de danos morais.

4. A conduta do requerido foi manifestamente ilícita e configurou nítido abuso do direito de expressão.

Em tema de liberdade de expressão, a melhor doutrina é toda no sentido de que não há prevalência entre os direitos fundamentais de livre expressão, de um lado, e da honra, intimidade ou privacidade, de outro lado (Cláudio Luiz Bueno de Godoy, A Liberdade de Imprensa e

os Direitos da Personalidade, Atlas, p. 65/85).

No caso concreto, a publicidade do Facebook, via utilizada pelo réu para comunicar suas criticas a terceiros, multiplica o efeito danoso e dá conhecimento geral das ofensas lançadas contra a autora.

Claro que discussões em redes sociais vêm

acompanhadas de alguma exaltação, de comoção natural, que concede certa elasticidade ao direito de crítica.

Há um abismo, porém, entre criticar a forma como o clube autor é gerido, ou a qualidade dos serviços que presta, e impingir graves impropérios contra sua cúpula e gestão.

As críticas e as expressões mais fortes usadas no reclamo não guardam pertinência com os fatos criticados. A linguagem não se atém ao uso de figuras de estilo, ironia ou sarcasmo como estratégia para realçar a indignação. O uso de ofensas diretas foge ao que se pode acobertar pela liberdade de crítica ou de reclamação do réu. Em outras palavras, descambou da crítica para o puro ataque.

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clube, como a cessação das atividades voltadas a certa modalidade esportiva, o acesso irrestrito ao estacionamento ou limitações ao direito dos associados de participar de festas. Outra, radicalmente diferente, é chamá-lo de “aquela merda” e “porra daquele clube”, ou seus gestores como “diretoria suja” e “engravatados filhos da puta”.

Não bastasse, uma das publicações seguintes, com a participação de outro usuário chamado Vitor Bueno, chega a ameaçar de agressão física os integrantes da diretoria (fl. 48).

É evidente que o requerido tem todo o direito de criticar a gestão do clube, ainda que de forma contundente. Entretanto, afora algumas críticas admissíveis (qualidade das instalações e do serviço prestado), o réu foi além e descambou para injúrias puras e simples, a denegrir gratuitamente a imagem do clube e deus dirigentes na comunidade em se se insere.

5. Imperioso reconhecer, ainda, o dever do requerido de reparar os danos morais causados à demandante.

É tema absolutamente pacífico (Súmula nº 227 do Superior Tribunal de Justiça), e hoje positivado no artigo 52 do novo Código Civil, que as pessoas jurídicas são titulares de certos direitos da personalidade e podem sofrer danos morais.

No dizer de Sérgio Cavalieri Filho, “a pessoa jurídica,

embora não seja passível de sofrer dano moral em sentido estrito ofensa à dignidade, por ser esta exclusiva da pessoa humana -, pode sofrer dano moral em sentido amplo violação de algum direito da personalidade -, porque é titular de honra objetiva, fazendo jus a indenização sempre que seu bom nome, credibilidade ou imagem forem atingidos por algum ato ilícito. Modernamente fala-se em honra profissional como uma variante da

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honra objetiva, entendida como uma variante da honra objetiva, entendida como valor social da pessoa perante o meio onde exerce sua atividade”

(Programa de Responsabilidade Civil, 7a ed., Atlas, p. 94).

Em última análise, o que se indeniza é o dano à imagem da pessoa jurídica, fator essencial para sucesso da empresa, diante do meio em que desempenha suas atividades. O que se preserva é a formação da imagem abstrata e não visual, da entidade diante do mundo dos negócios e do próprio consumidor (cf. Alexandre Ferreira de Assumpção

Alves, A Pessoa Jurídica e os Direitos da Personalidade, Editora Renovar, p. 98).

No caso em tela, a imagem do clube foi denegrida pelos impropérios do autor, alguns aludindo a uma suposta gestão desonesta do clube. O ilícito praticado pelo réu violou sua esfera extrapatrimonial, e não pode ficar impune, pena de reiteração da conduta lesiva.

Não favorece o apelante alegar que já foi punido pelo clube pela aplicação de pena de suspensão. Trata-se de simples aplicação do regulamento do clube para hipóteses como a dos autos. A pretensão da apelada é diversa, de natureza indenizatória, voltada à reparação dos danos causados a sua imagem.

O cancelamento do título do clube tampouco atenua a responsabilidade do réu. O dano descrito pela autora nada tem a ver com a condição do autor de associado, mas com a publicação de conteúdo ofensivo em rede social.

6. Resta então a questão da quantificação dos danos morais, tarefa para a qual se deve levar em conta as funções ressarcitória e punitiva da indenização.

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Na função ressarcitória, olha-se para a vítima, para a gravidade objetiva do dano que ela padeceu (Antônio Jeová dos Santos,

Dano Moral Indenizável, Lejus Editora, 1.997, p. 62). Na função punitiva,

ou de desestímulo do dano moral, olha-se para o lesante, de tal modo que a indenização represente advertência, sinal de que a sociedade não aceita seu comportamento (Carlos Alberto Bittar, Reparação Civil por Danos

Morais, ps. 220/222; Sérgio Severo, Os Danos Extrapatrimoniais, ps. 186/190).

No caso dos autos, as agressões verbais perpetradas pelo réu afetam gravemente a imagem da autora. Destaquem-se em especial os adjetivos dedicados à gestão do clube, chamada de “suja” entre outros termos.

Diante do dano suportado pela autora e da reprovabilidade da conduta do requerido, reputo adequado o valor da indenização arbitrado em sentença, em R$ 5.000,00. A quantia é suficiente à reparação dos prejuízos de ordem extrapatrimonial causados e, principalmente, inibir a prática danosa.

Saliente-se que indenização menor poderia não cumprir a função de impedir a reiteração da conduta lesiva pelo requerido.

Repita-se, o réu poderia criticar livremente a requerente, mas dentro dos limites da razoabilidade, flagrantemente violados no caso concreto.

Os juros de mora tiveram termo inicial fixados na data da sentença, o que viola jurisprudência dos tribunais, mas não foram impugnados pelo clube autor.

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inconformismo do réu, inviável seu acolhimento.

Apenas em observância ao disposto no art. 85, §§ 2º e 11 do CPC/15, majoro os honorários devidos à representante da autora para 12% do valor da condenação.

Nego provimento ao recurso.

FRANCISCO LOUREIRO

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