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CONTOS ESPIRITUAIS DO TIBETE

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Academic year: 2021

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Texto

(1)

RAMIRO CALLE

CONTOS ESPIRITUAIS

DO TIBETE

Tradução de Carla Ribeiro

k

(2)

Índice

Introdução

...

11

Os indolentes

...

17

A sábia voz do vazio

...

20

De costas para o essencial

...

23

O búfalo e o iaque

...

25

O lama arrogante

...

27

O presente

...

30

O erro da tartaruga

...

33

Conceitos

...

36

O lama equilibrista

...

39

A previsão do astrólogo

...

41

O legista

...

43

O eremita

...

46

A busca que não cessava

...

48

É essa a diferença

...

51

Parece igual

...

53

A raposa

...

55

O valor da forma humana

...

57

O ignorante

...

58

Om mani padme hum

...

60

O saco

...

62

A inexorável lei do karma

...

65

O casal de corvos

...

66

(3)

6

Deliciosas maçãs

...

72

O rei e o pastor

...

76

O burrito

...

79

Avareza

...

82

O gato ladino

...

84

A eloquência do oceano

...

87

O amigo desonesto

...

89

O mendigo mentiroso

...

92

O eremita arisco

...

94

Os dois irmãos

...

96

A ave petulante

...

100

Entre bêbedos vai o jogo

...

102

A aposta

...

103

A amada

...

105

A porta

...

107

Combate entre fantasmas

...

109

A espera

...

112

O monge preguiçoso

...

114

As duas irmãs

...

115

A artimanha

...

118

O barbeiro

...

120

O peso da virtude

...

124

O lama pragmático

...

127

Chá com manteiga de iaque

...

130

Ambiguidade

...

132

A mente ata, a mente liberta

...

134

Extravagâncias

...

135

O esquecido

...

137

Tomar e dar

...

139

O velho lama

...

141

O mentor tolerante

...

143

O poder do autoengano

...

145

A controvérsia

...

147

O discípulo promotor

...

149

A suspeita

...

150

O mendigo

...

152

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(4)

Nem por defeito, nem por excesso

...

154

Contenda de egos

...

155

Em busca do elogio

...

157

Os truques do guru

...

159

O tigre e o cordeiro

...

161

Debaixo da nogueira

...

163

O brincalhão

...

165

O hipócrita

...

166

A atitude

...

168

Uma questão de meditação

...

170

A profecia

...

172

Ante o insulto

...

175

Automortificação

...

176

Discrepâncias

...

177

O pregador trágico

...

179

O agiota

...

182

A flecha envenenada

...

184

A peste

...

185

O grão de mostarda

...

188

O ingrato

...

190

Energia

...

193

A atenção

...

195

O asceta penitente e o camponês

...

196

Nem uns nem outros

...

198

De tropeção em tropeção

...

200

Méritos e deméritos

...

203

Lenda de uma busca

...

205

O príncipe perfeito

...

207

Um homem e duas mulheres

...

208

O lama e o monge

...

210

A serpente

...

212

Renascimento

...

214

Questão de imaginação

...

216

Não há inimigos pequenos

...

218

O acrobata e o aprendiz

...

220

(5)

8

À morte pela cobiça

...

222

Consequências do karma

...

224

O bando de macacos

...

226

O chapéu de ouro

...

228

O poder da observação

...

230

Impermanência

...

232

O tonto

...

233

Ascetismo

...

235

O caçador

...

237

A parábola dos dois dardos

...

239

A mulher astuta

...

241

O tigre herbívoro

...

244

A trapaça

...

246

Necrófagos

...

248

A ratazana

...

250

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(7)

17

Os indolentes

O abade de um mosteiro no longínquo Tibete era um homem

muito velho, mas com uma grande lucidez mental e uma energia

notável. No mosteiro, havia um grande número de noviços das

mais diversas idades, bem como alguns monges. Sob o  límpido

céu azulado do planalto, no reconfortante silêncio das montanhas,

noviços e  monges recitavam as escrituras, praticavam meditação

e efetuavam as cerimónias litúrgicas. Mas dois monges evitavam

frequentemente a sua presença nestes atos, dedicando-se a tagarelar

sobre trivialidades. O abade era um homem muito paciente

e, em-bora ciente do comportamento dos seus discípulos, nada dizia.

Pre-feria deixar passar o tempo para ver se os jovens compreendiam por

eles mesmos o equívoco da sua atitude. Era um lama compreensivo

e que não coagia os aspirantes. Mas o tempo passava com

a facili-dade com que as nuvens atravessam o céu, dia após dia, naquele

recatado lugar afastado do ruído mundano. Os monges persistiam

no seu comportamento e, na verdade, a cada dia tornavam-se mais

abúlicos e raramente assistiam a um ofício, ou liam as escrituras,

ou praticavam a meditação.

O abade mandou chamar os dois jovens e recebeu-os na sua

pró-pria cela. Num tom afetuoso, disse-lhes:

– Não posso continuar a  esconder-vos que me magoa ver, dia

após dia, como consumis a vossa vida sem que vos tenteis aproximar

da vossa natureza iluminada. Tornastes-vos indolentes. Não quero

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(8)

repreender-vos, porque cada pessoa deve responsabilizar-se pelas suas

atitudes, mas sou vosso mestre e tenho de vos advertir de que vos

dei-xastes vencer pela negligência.

Os jovens ficaram pensativos por alguns instantes. Fitaram

o venerável lama e viram quanta paz e compaixão se refletiam no

seu rosto sulcado pelas rugas da velhice. Cheirava a incenso e, pela

estreita janela, era possível contemplar o céu azul-turquesa. Atrás

do lama, numa das paredes da sua austera cela, havia uma imagem

do Buda em meditação. Um dos jovens disse:

– Mas, venerável lama e respeitado mestre, deste-nos a iniciação.

Não basta isso para que, com o poder que nos transmitiste com

a ini-ciação, possamos evoluir? Não basta esse poder para nos irmos

apro-ximando da mente iluminada, do Nirvana?

O ancião guardou um silêncio perfeito. Os jovens prostraram-se

diante dele e abandonaram a estreita divisão. Passaram uns dias

e eis que, uma bela manhã, o venerável lama colocou nas mãos de

cada um dos jovens um frasquinho hermeticamente selado que

continha um aromático perfume de sândalo. Disse-lhes:

– Ponde o frasco de essência na vossa cela.

Admirados, os monges depositaram o  frasco de essência nas

respetivas celas. Se o  lama o  solicitava, por algum motivo seria.

E passaram algumas semanas. Certa manhã, o abade dirigiu-se aos

monges que, como era habitual, estavam a mandriar, e disse-lhes:

– Fareis penitência. Passareis três dias fechados na vossa cela, em

jejum.

– Mas porquê? – protestaram os monges, perplexos.

– Porque não cheirais a sândalo.

(9)

19

– Sim, a sândalo – respondeu o abade, com firmeza. – Dei-vos

um frasco de essência com sândalo e em nenhum dia senti que

chei-rásseis a ele.

– Mas como haveríamos de cheirar a sândalo se mantivemos

fe-chado o frasquinho que nos deste? – replicaram os monges.

O abade, com os seus olhos profundos e eloquentes, fitou-os em

silêncio por alguns instantes. Depois, quebrou o amável silêncio do

amanhecer para lhes dizer:

– Além de mandriões e  indolentes, sois uns néscios. Claro que

não podeis cheirar a sândalo, pois, ainda que vos tenha dado

sân-dalo da melhor qualidade, está hermeticamente fechado no frasco

de essência! De igual modo, dei-vos a mais poderosa iniciação, mas,

em vez de a utilizardes e desenvolverdes em vós o seu poder, através

da meditação, abandonastes-vos à vossa inescusável indolência. De

que serve que vos tenha oferecido o melhor sândalo se não

o utilizas-tes? Da mesma forma, de que serve que vos tenha dado uma

pode-rosa iniciação se, com a vossa preguiça, deixastes que a sua chama

se extinguisse?

Diz o Sábio:

Sê diligente, aplica-te incansavelmente ao

auto-desenvolvimento, pois ninguém pode soltar por ti os

entraves da mente e encontrar a mente iluminada

que em ti reside.

Referências

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