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SOMOS TODOS FEG II

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Academic year: 2022

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(1)

SOMOS TODOS FEG

II

LUIZ CORREARD NELSON KUWADA

WALMIR TORRES

(2)

______________________________________________________________________

Título:

Somos Todos FEG - II

(c) 2020 Luiz Correard, Nelson Kuwada e Walmir Torres Direitos de Edição pertencentes aos autores

Revisão e Complementação:

Luiz Carlos Correard Pereira

CAPA:

Fotografia do Álbum de Formatura FEG 1979 (não temos o autor para os devidos créditos)

No alto, cercado por nós, o ilustre Professor Darwin Bassi

Esta é uma obra romanceada, composta por

lembranças. Os acontecimentos aqui descritos não

necessariamente aconteceram da maneira descrita.

(3)

Aos nossos filhos e netos Aos nossos pais e irmãos Às nossas companheiras

Aos nossos colegas, contemporâneos ou não, na UNESP Guaratinguetá Aos nossos Professores

Às moças de Guaratinguetá, Lorena e Aparecida.

Primum bibere, deinde philosophari

Nemo saltat sobrius

Vinum et musica laetificant cor

(4)

ÍNDICE

Nota dos Autores ... 05

O Justiceiro ... 06

The Roux ... 07

Língua de Boi é Bom? ... 08

O Bife ... 10

Futebol ou Engenharia, eis a Questão... 11

O Bíblico ... 12

Às Mães de Guará ... 13

Um Japa ... 15

Braço de Ferro ... 16

Uma do Barbinha ... 18

Uma Partida de Basquete... 19

Ali na Opus 6 ... 21

Pô, Assim Não!! ... 22

Choveu na Procissão de Santo Antônio ... 23

O General e seus Pupilos ... 24

Choveu Homem em Guará ... 26

Va Bene, Prego ... 27

E o Pavão exibiu sua Cauda... 29

Participações Especiais O Irmão do Fernandão ... 30

O Avesso ... 31

Uma Aula ... 32

(5)

NOTA DOS AUTORES

Esta sequência de historinhas de nosso tempo de FEG mostra que tomamos gosto pela coisa de escrever algumas lembranças dessa época tão marcante em nossas vidas. Então, para lembrar, repetimos aqui a nota de nossa primeira publicação:

Não queremos, aqui, exagerar as dificuldades dos alunos, falar de condições sociais ou das qualidades e deficiências da escola. Não pretendemos fazer qualquer juízo de valor ou ressaltar qualquer aspecto biográfico de quem quer que seja. Também não nos preocupamos demais com a cronologia dos acontecimentos (até porque – como falamos entre nós - não lembramos mais exatamente das relações períodos/professores; aliás, é difícil lembrar de muita coisa dessa época, dados aos quarenta anos que se passaram - voaram... - desde a formatura ). Assim, pretendemos apenas trazer pelo menos um sorriso ao rosto de quem ler essas linhas, ao relembrar alguns fatos e “causos”- alguns verdadeiros, outros nem tanto, talvez fazendo parte do folclore da Faculdade - botando no papel essas histórias, conforme fomos lembrando a partir da retomada de contato dos últimos anos e pelo esforço de alguns abnegados colegas, em especial o nosso querido Luiz Querido Moreira

______________________________________________________________________

Luiz Carlos Correard Pereira Nelson Issamu Kuwada Walmir Máximo Torres Participação Especial:

Edson Machado Elmar Borges Fábio Bonfanti

Mário Canuto Pedro Bordalo

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O Justiceiro

Tivemos um professor paquistanês, o Malik. Era um camarada esquisitão, muito boa gente, com grande noção de justiça. Não sabíamos nada dele, mas gostávamos do professor que sabia valorizar o esforço dos alunos. Dava aula de MecFlu (Mecânica dos Fluidos). Pelo que eu saiba, nunca reprovou ninguém. Cheguei a traduzir (gratuitamente) alguns artigos que ele me trouxe em inglês, como colaboração para compor uma apostila que ele nos forneceu (recebendo os devidos créditos e agradecimentos).

Nas aulas, seu sotaque era notório, ao ponto de não entendermos algumas coisas que ele falava ao demonstrar o que queria através de equações:

- Pega valor aqui, plisa aqui, vai chegar no 10, plisa... plisa outro componente... chega no parte primeira do equaçon... - e assim ia falando o mestre – Plisa, plisa...

O Osli, fazendo graça (entre a gente, só. Ele é muito tímido até hoje):

- Mas que coisa significa esse plisa que ele tanto fala?

- É MAIS, Osli, é MAIS – resmungava o Tanakinha, defensor do Malik – cê sabe, porra, cê tá é de sacanagem com o professor...

Em certa ocasião ocorreu um episódio que foi um exemplo da pessoa que era esse nosso professor. Tanakinha e eu estávamos num supermercado comprando alguma coisa, quando ouvimos certa confusão na área do caixa-rápido. Chegamos perto e ouvimos o Malik, com seu sotaque paquista-portunhol:

- Non, non!! Ladron son vocês! Eu pago. Deixa moleque em paz!!

Fomos conversar com alguns funcionários do estabelecimento e nos inteiramos do que estava acontecendo: um dos seguranças do supermercado pegou um moleque de rua que tinha roubado um chocolate ou outra bobagem qualquer e queria levá-lo para dentro de uma sala para revistá-lo ou sei lá o quê.

O Malik, presenciando a cena, se opôs com veemência – de tal maneira que, frente ao tumulto que havia se formado, os gerentes do lugar acharam por bem soltar o moleque.

E a fama do professor de ter um bom coração se manteve.

(7)

The Roux

Em 1978, o professor Roberto Andrade Roux, ou simplesmente Professor Roux (se pronuncia “Ru” - Acho que tinha descendência francesa) ministrava, na FEG, a matéria chamada Operações Unitárias para o quarto ano do curso de engenharia mecânica.

Naquela época, a FEG só oferecia somente esse curso de engenharia. Hoje, oferece cursos em outras áreas da engenharia. Neste curso, era ensinado como ocorria o processo de refino do petróleo numa torre de uma refinaria. Dependendo da altura e temperatura, os derivados eram produzidos. Os componentes mais pesados (piche) eram produzidos embaixo, enquanto que óleo diesel, querosene e gasolina eram produzidos na região intermediária e os gases e produtos mais leves na região superior. Uma matéria até que legal. A avaliação do curso seria feita em 3 provas, sendo que a pior nota do aluno seria descartada. Lembrando que a média para aprovação na FEG era 5,0.

Com as aulas do início de curso dadas, veio a primeira prova. Prova feita e o resultado foi um belo 7,0. Alegria total!! Agora precisava de tirar um 3,0 em uma das duas provas restantes e a aprovação estava garantida. Ressaltando, quase toda a turma tinha se dado bem naquela primeira prova. O curso prosseguiu. Aí pensei comigo... “tiro um 5,0 ou 6,0 na segunda prova e fico livre dessa matéria... faço a terceira prova só pra cumprir tabela...” Acho que o nobre mestre também teve o mesmo pensamento, de forma inversa.

Como a maioria tinha tirado nota boa na primeira prova, se fossem bem também nessa, haveria uma perda de interesse pelo curso. E veio a segunda prova. Minha nota, um decepcionante 2,0. Acendeu minha luz amarela de perigo. Não lembro como foi o desempenho da turma. Agora tinha que torcer para tirar pelo menos um 3,0 na terceira prova para passar “batendo na trave com um ridículo 5,0”, depois de um início tão promissor.

E o curso continuou. A quantidade de matéria aumentou bastante e junto com ela o medo da terceira prova, que agora abrangeria toda a matéria do semestre. Novamente pensei comigo: “acho que vou conseguir, afinal era apenas um 3,0”. Eu era um aluno esforçado e não era comum tirar notas tão baixas. Mesmo assim, tratei de estudar bastante a matéria.

E veio a terceira e derradeira prova do curso. Muita tensão da minha parte. Para mim a prova foi difícil. Acho também que “deu um branco” e “aos trancos e barrancos” consegui terminar aquela prova. Uma ou duas semanas de tensão, não lembro bem, no aguardo dos resultados. Por fim, eles vieram.

Minha nota, TCHAN TCHAN TCHAN... Adivinhem? Apenas um mísero e necessário 3,0 para passar raspando na matéria. Essa foi por pouco. Bons Tempos.

Walmir

(8)

Língua de Boi é Bom?

Um dos ensinamentos que passei para os meus filhos foi que a melhor escola para aprenderem o significado da convivência, da divisão de opiniões e do respeito, do saber os limites de cada um, da divisão de tarefas e também, pasmem... a deixar de ser o

“enjoadinho” da turma e aprender a comer de tudo, é ir morar em uma república.

Morávamos no bairro do Pedregulho e, sem carro, íamos uma vez por semana caminhando em duplas ao Mercado Municipal de Guará para a compra dos legumes, verduras e proteína da semana. É claro que trazíamos também sempre um garrafão de vinho misturado com a metade do tonel de vinho doce e metade do tonel de vinho seco do bar do português. Éramos em seis, portanto perfazíamos três duplas. Normalmente o Ruy e o Ishibashi, o Lesse e o Alarcon e o Motoki e eu, às vezes isto variava. A cada semana ia uma dupla, com aquelas sacolas de lona bem típicas daqueles nossos tempos.

Apesar do cardápio largamente discutido e votado, feito para um período maior (não dava para discutir toda semana), a dupla acabava decidindo e escolhendo na hora o que trazer para a semana, principalmente a proteína. Invariavelmente tinha sardinha toda semana e também feijão preto - produtos mais em conta devido ao sempre baixo nível de grana no caixinha da república. Sempre que podia, o Ishibashi trazia alguma comida típica da banca da japonesa do mercado, onde ele - na sua proposital demora da escolha do produto devido à sua insistência em paquerar uma das meninas também “japa” - levava o seu parceiro de sacola a ralhar.

De fato, então, era uma vantagem ir às compras no mercado, não nos incomodando em percorrer toda a distância até ao centro e trazendo todo o peso nas mãos, aos pares e com cada qual segurando uma alça da sacola.

Aprendi que cada um tinha um hábito na ingestão dos alimentos. O Lesse por exemplo, juntava o arroz com o feijão em “cambalhotas” como que “tonteando” - sim era esta a palavra que usávamos na gozação para descrever este malabarismo - a dupla feijão com arroz com o seu garfo. Até hoje não soube porque ele fazia isto, isto continua um mistério.

O Ruy então, engolia o arroz e o feijão e sempre deixava a porção que ele mais gostava para o final, tornando-se a “gran finale” do seu prato.

As proteínas eram sempre contadinhas. Uma ou duas no máximo para cada um. Numa

destas semanas em que o Ruy foi com o seu parceiro ao mercado, trouxeram LÍNGUA

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Fiquei pensando, tomando coragem e empurrando também para o “gran finale” – por outro motivo é claro, aquele pedaço de carne.

Mas para o nosso amigo Ruy este deveria ser o prato suprassumo de sua vida. No afã de que desistíssemos de comer aquela carne, sobrando mais fatias para ele, ficava dizendo para todos “Vocês não gostam de língua de boi? É muito saborosa e macia...deve ser porque com esta língua o boi ficou lambendo o rabo (e outro lugar impublicável) da vaca”...

Por questões econômicas e de sobrevivência, é claro que naquele momento não deixei de comer. Assim também os meus outros companheiros da república. No final, após algum tempo passei a apreciar a tal língua de boi, com ou sem a massagem na vaca. E assim como consequência desta feliz convivência e após anos de duplas no mercado municipal, devo ter apurado bem o meu paladar... felizmente.

Nelson

(10)

O Bife

Na nossa República, a Opus 6, íamos vivendo e aprendendo a conviver. Tínhamos uma empregada que cuidava da casa, fazia almoço, lavava e passava roupas. A comida era contada, fora arroz e feijão. Sempre 6. Se tinha bife, eram 6 bifes; se tinha frango, eram 6 coxas ou sobrecoxas; se tinha panqueca, eram 6 panquecas. E por aí ia. Realmente, era uma república de remediados.

O Tanakinha era um sujeito um tanto fechado e sisudo, com cara de invocado, mais como aparência do que como atitude. Tinha certa cultura e se mostrou um bom amigo, principalmente do Osli, que era o caçula da nossa república. Certo dia, o almoço já servido...

- Gente, preciso sair agora, não vai dar pra almoçar – o Tanakinha chega da rua, joga os cadernos e livros na mesa, esbaforido - Osli, faz favor... guarda meu bife na geladeira.

E dizendo isso, pegou um palito, rasgou uma folha do caderno e rabiscou em letras bem grandes “favor não comer, eu cuspi no bife – Tanaka”... e fincou o palito com o bilhete no bife. O Osli, então, pegou o prato com o bife e guardou na geladeira.

Mais tarde, após as aulas da noite, eis que o Tanakinha chega com alguns pães e vai direto para a geladeira pegar o seu bife. Surpresa!! No bilhete, debaixo do seu escrito “eu cuspi no bife” também estava escrito em letras bem grandes: “EU TAMBÉM”. O Tanakinha ficou uma fera. Furioso, xingou, brigou e tals. Mas nunca ficamos sabendo quem foi.

Nem se ele comeu ou não o tal bife.

Correard

(11)

Futebol ou Engenharia eis a Questão

A equipe de futebol de campo da turma de 1975, base da seleção da FEG no período 1975- 1979, era muito forte e competitiva. Do goleiro ao ponta esquerda, era um timaço. Havia um torneio entre as turmas do primeiro ao quinto ano do curso. Nessa modalidade, esse time ganhou todos esses torneios durante os anos do período 75-79.

Um dos destaques desse time era o Thomas Josef Uebelhart, ou simplesmente Thomas. De descendência suíço-egípcia, ele jogava pela ponta direita e era bem forte. Com dribles desconcertantes e muita rapidez, ele era o tormento dos laterais adversários. Se colocasse a bola à frente, era difícil ou quase impossível pará-lo. Seria o nosso Salah, fazendo um paralelo com o atacante egípcio do Liverpool. Com o passar do tempo, começamos a pensar

“Puxa, o Thomas joga tão bem, né? Acho que ele até podia jogar profissionalmente. Tem tanto perna-de-pau jogando por aí...”.

Um belo dia, chega o Thomas e diz para a galera: “Fui chamado para fazer um teste no São Bento de Sorocaba”. Ele era da região de Sorocaba. O São Bento, ou Azulão Sorocabano, já havia revelado grandes jogadores de clubes e da seleção brasileira como Luís Pereira, Marinho Peres, Paraná e Chicão. Quem sabe o Thomas não seria uma nova revelação? A princípio, ficamos com um misto de euforia/alegria e preocupação. “E se ele for muito bem no teste e fizerem uma boa proposta de contrato. Perderemos o nosso colega para o futebol?”

Os dias se passaram e chegou o dia do TESTE. E lá se foi o nosso craque rumo ao São Bento.

Expectativa na galera. Será que o Thomas foi bem ou foi mal? Acho que no dia seguinte, não lembro, chega o Thomas. Ele logo foi rodeado pela galera, que perguntava curiosamente

“Como foi lá? Como foi lá? Eles gostaram? Conta, conta, conta.” Ele calmamente, como é sua característica, e com voz baixa respondeu com outra pergunta. “Vocês acham que eu sou rápido?”. Em um coro unânime, respondemos “Claro que você é. No nosso time você é o mais rápido”. Prosseguindo, ele disse, “Pois é, lá tinha uns moleques de 16 e 17 anos que pareciam ter asas nos pés, eles voavam. Não vi o cheiro da bola. Não passei no TESTE”.

Novamente pairou um sentimento dúbio de decepção por ele não ter conseguido, misturado com alegria, afinal continuaríamos a ter o nosso amigo e nosso craque no time. Acho que foi melhor assim. Se fizermos essa pergunta a ele, acho que irá concordar.

O Thomas chegou ainda a jogar uma partida como jogador profissional pelo time da cidade, naquela época Esportiva de Guaratinguetá (hoje somente Guaratinguetá), no estádio Dario Rodrigues Leite. Esse jogo foi contra o Goiabeiras, da segunda ou terceira divisão do Rio de Janeiro, não sei, e o resultado foi 1x1. Até hoje, mais de quarenta anos depois, ele diz que

“se orgulha de nunca ter perdido uma partida como profissional”. Risos gerais. O futebol brasileiro perdeu um craque, nós ganhamos um amigo e o Brasil ganhou um bom engenheiro mecânico formado pela FEG.

Walmir

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O Bíblico

O nosso professor Champlin era uma pessoa diferenciada, muito muito “na dele”. Era responsável por nossas aulas de inglês. Não reprovava ninguém, fingia que não via todo mundo “colando” descaradamente nas provas – “problema de vocês”, dizia no seu português carregado. Procurava ser simpático e atencioso.

Americano grandalhão e desengonçado, suas aulas eram famosas não pela matéria, mas pelas conversas que, sempre que tínhamos oportunidades, travávamos com esse professor chegado numa filosofia. Participante de seminários e autor de vários livros sobre religião e diversas interpretações bíblicas, o professor Champlin é conhecido e discutido também nos EUA (pesquise “Russell Norman Champlim” no Google).

Certa vez, assim que terminou sua aula, o professor saiu quase correndo (era seu jeitão, ele não andava, quase corria) em direção a seu carro. Atrás dele, o Machadinho, colega nosso, também correndo, todo elétrico como era seu jeito, querendo discutir questões da última prova. Todos sabiam que o Champlin fugia de qualquer conversa sobre provas e foi engraçado ver (razoavelmente perto) a tentativa do camarada de arrancar alguma coisa do professor:

- Agôra non dá... – antecipou o professor, rapidamente ligando o carro.

- É só uma questãozinha, professor – e o Machadinho tentava mostrar uma folha de papel que trazia nas mãos.

- Depois, agôra non dá... – e o mestre tentava fechar a porta do carro. E alguns alunos (eu, inclusive), de lado, vendo tudo e rachando de rir.

- Mas... mas... – o colega não desistia.

Outros colegas que passavam também pararam para olhar a cena. O Machadinho segurando a porta do carro e o Champlin tentando fechá-la. Ficou assim alguns instantes, puxa daqui, puxa de lá. E a turma rindo.

- Amanhã, amanhã. – e o mestre finalmente deu por terminada a “conversa”, fechando a porta com força e arrancando rapidamente com o carro. O Machadinho ficou ali parado, com cara espantada.

Correard

(13)

Às Mães de Guará

Nesta história quero deixar aqui os meus agradecimentos a sempre gentil e cuidadora D.

Edmê e sua família, pelo carinho com que me receberam em Guará.

Era na entrada do prédio da administração que cruzávamos com as estudantes do COTEC, que ocupavam também as salas de aula da faculdade. Apesar de mais velhos, fazíamos amizade com elas, pela proximidade diária do entra-e-sai escolar, da espera da carona e das horas dos intervalos das aulas. Obviamente alguns olhares e paqueras aconteciam naqueles momentos.

Havia uma turminha inseparável de meninas, a Gina, a Gisele, a Márcia, as irmãs Valéria e Rogéria, a Alaíde e a Cida, as quais conheci logo nos meus primeiros meses de faculdade e com a qual acabei fazendo amizade. Motivado pela saudade da terra natal, solidão familiar; o estabelecimento deste contato com as pessoas da cidade nos possibilitava conhecer um pouco melhor o dia-a-dia do local, amenizando também os duros dias de puro estudo. Além disso, no ambiente da faculdade predominantemente masculino, vozes e olhares femininos eram bem mais agradáveis.

Com a enxurrada de novos alunos da FEG em 1975, com a maioria vindo de outras cidades e estados, naturalmente a cidade se encheu de novas caras masculinas, causando expectativas na população feminina local. A população Guaratinguetaense nos recebeu muito bem. Na saudade e na falta do meu ambiente familiar, deixado para trás lá na minha pequena cidade, acolheu-me a D. Edmê e sua filha Gina em seu lar, nos convites invariáveis de um almoço em família aos domingos. Eram pratos tipicamente italianos, como uma lasanha ou uma bela macarronada com frango assado.

Lá eu acabava passando a tarde toda em conversas e brincadeiras, ou audição de músicas ao seu piano ou mesmo na vitrola, também com seus irmãos Bá e Bê. Uma ou outra vez fomos na camionete do Sr. Hélcio para a “roça”, cortando as estradas curvas da serra e que acabaram gravadas na minha memória. Esta então acabou se tornando a minha família de Guará, onde vivenciei um ambiente familiar, descansando um pouco da ruidosa convivência masculina republicana.

E assim foi, sem despedidas, acabando. Após a conclusão do colégio, a Gina após o

COTEC foi fazer engenharia em Santa Rita do Sapucaí. Eu, do meu lado, no 4o ano,

iniciando as minhas atividades de estágio e, logo, no 5o ano com estágio em São Paulo

permanecia pouco tempo em Guará. Acabamos então perdendo o contato e os meus tão

almejados almoços aos domingos.

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Iniciei a minha carreira profissional no estado de São Paulo onde dividi uma república com o Mutton e o Oscar Sanhaço, em Sertãozinho. Depois de uma passagem pela capital, acabei virando mineiro de BH em 2001.

Mas... existem coincidências e ligações do destino.

Em uma tarde ensolarada, numa festa de Santa Rita na igreja da mesma Santa, próximo à minha residência, eis que vejo uma pessoa com um aspecto familiar auxiliando os afazeres desta festa, numa barraquinha de santinhos. Na dúvida, pergunto pelo seu nome a um outro atendente e ele não sabendo, a chama. Então... após mais de vinte e cinco anos, como um presente do destino me reencontro com a minha amiga Gina, filha da D.

Edmê e do Sr. Hélcio, onde por várias vezes “filei” um almoço familiar e passei agradáveis tardes de domingo.

Após o reencontro e retomada da amizade, pudemos rememorar fatos antigos e novos.

Coincidentemente moramos no mesmo bairro distante a poucas centenas de metros, nossos filhos estudaram no mesmo colégio e se conheciam, embora não sabiam que os pais poderiam ter se conhecido anteriormente. Hoje mantemos a amizade iniciada na faculdade e continuada aqui, nós paulistas... novos mineiros.

Mais tarde, depois destes longos anos, retornei com minha mãe e minha esposa para uma visita à D. Edmê, para que elas conhecessem aquela que foi a minha mãe “emprestada”

de Guará. Ela hoje está residindo em Roseira.

Feliz daquele que pode, na ausência do seu ambiente familiar, encontrar uma família que o acolha! E em nome de todos estes que tiveram esta sorte, quero aqui deixar o meu agradecimento a esta família e a todas aquelas que nos acolheram tão bem.

Nelson

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Um Japa

Na OPUS 6, além do Tanaka, tínhamos mais dois “japas”: o Nakamiti e o Takao, ambos excelentes alunos, daqueles que estudam pouco e sempre tiram notas boas. O Naka era gozador, mas sempre “na dele”, não se misturava muito. Tinha o apelido de “Bagrão”

(mais de uma vez fiz a caricatura dele, um enorme bagre com cara de Nakamiti).

Certa ocasião, um sacana entrou no quarto enquanto o Naka dormia, de barriga pra cima e roncando muito muito alto, como sempre. Pois esse alguém pegou uma varinha de pescar (que eu tinha na república), fez de um pedaço de barbante a linha de pesca, usou um pedaço de pão seco como “isca” e prendeu a varinha ao pé da cama, de forma a que a “isca” ficasse suspensa bem na cara do dorminhoco, quase encostando. E a isca balançava ao sabor dos roncos do Nakamiti, a varinha de pesca firme e forte. Quem viu, riu muito.

Outra do Nakamiti: a república tinha apenas um banheiro e era fundamental que a higiene fosse mantida para bem de todos. Mas tinha um porco que nunca puxava a descarga após o uso da privada (desconfiávamos do sujeito que poderia ser o porcão, por vários motivos, mas nunca conseguimos provar). E a caca toda ficava lá, literalmente, para quem viesse a seguir.

Cansados de reclamar, com uma ideia do Nakamiti bolamos um aviso bem-humorado que seria colado na parede, em cima do botão da descarga da privada. Ficou até que bem feitinho, em papelão, com um plástico por cima. Era assim:

Seja como for, funcionou. O tal teve vergonha e nunca mais tivemos esse problema específico. Mas tivemos de fazer outra campanha contra as melecas na pia...

Correard

DÊ DESCARGA QUANDO USAR O VASO PRIVADA NÃO É AQUÁRIO

MIJO NÃO É ÁGUA COCÔ NÃO É PEIXINHO

PORTANTO

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Braço de Ferro

As disputas esportivas entre os alunos do primeiro ao quinto ano do curso de engenharia mecânica da FEG eram comuns no período de 1975 e 1979. Não sei, depois que me formei em 79, se essas disputas continuaram. Acredito que sim, pois eram muito legais.

Os jogos envolviam várias modalidades: futebol de campo, futebol de salão, basquete e vôlei. As equipes da turma de 75 eram bastante fortes e competitivas, e conquistaram a maioria dos títulos disputados naquele período.

Lembro-me de um jogo final entre o 4º. (turma de 75) e o 5º. ano. Não me recordo da modalidade, mas creio que era basquete ou futebol de salão (já considero um milagre conseguir recordar esses episódios após passados quase 50 anos...).

Esse jogo foi realizado no período noturno em um ginásio coberto da cidade de Guaratinguetá. O time vencedor seria o supercampeão daquele ano. Jogo muito difícil, pois os dois times eram muito fortes, as eram muito amigos entre si. Iniciado o jogo, a torcida da turma de 75 era muito mais numerosa e barulhenta que a torcida adversária.

Jogo muito pegado, ninguém queria perder. Por um lado, o 5º. ano queria se despedir da FEG com chave-de-ouro. Por outro lado, o 4º. queria manter a sua hegemonia como vencedores naquela competição. Veio o intervalo e os jogadores dos dois times estavam bastante cansados. Começa o segundo tempo e o jogo mantinha a sua pegada forte, mas leal. Ninguém queria perder. As ruidosas torcidas mantinham os ânimos dos seus atletas.

Por fim, o jogo terminou empatado. Não lembro o placar. Naquela época não era comum, ou conhecido, o conceito de prorrogação nos jogos, nem disputa por pênaltis.

Aí surgiu um impasse entre as equipes. “Quem seria o campeão daquele ano?”, “Como vamos resolver isso?”, “Precisamos ter um campeão. Não podemos ficar sem campeão”.

Aí, não sei quem sugeriu “Porque não decidimos o vencedor em uma Queda de Braços?”.

As equipes e as torcidas, bem humoradas, logo aceitaram. Aí surgiu outro impasse “Quem seriam os dois competidores?”. O normal seria cada equipe escolher o mais forte da turma para a competição. Mas, como estava um ambiente bastante amistoso, alguém sugeriu

“Que tal se os competidores forem os menores de cada turma?”

A arquibancada foi ao delírio, aprovando a ideia, e começou a gritar o meu apelido de

trote “Emil, Emil, Emil, Emil!!”. Acabou sobrando essa disputa para mim (1,52m) e para

o Edinho, de mesma estatura, um pouco mais alto ou mais baixo, não sei ao certo.

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tiques nervosos. Mas, o ambiente estava tão legal, que eu fingia empurrar o braço do Edinho e ele fazia o mesmo comigo, mantendo as duas mãos trêmulas como estando no limite dos esforços de cada um. E a galera foi à loucura. No final, não houve vencedor naquela disputa e ambas as equipes foram consideradas campeãs naquele ano. O quinto ano fechou seu período de FEG com chave-de-ouro e a turma de 75 manteve a sua hegemonia vencedora, e todos ficaram felizes.

BONS E FELIZES TEMPOS.

Walmir

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Uma do Barbinha

Na nossa época, a FEG não havia um computador para uso e estudo (é... ninguém tinha e não faz tanto tempo assim...) e, para as aulas de Cálculo Numérico - cujo professor, o Saad, era uma figuraça - chamava os alunos de “campeão” e era muito simpático (fiz muitas caricaturas dele) - íamos uma ou duas vezes por mês a São José dos Campos, onde utilizávamos o computador do ITA. Eram tempos de FORTRAN e cartões perfurados, acreditem. Saíamos da pracinha central de Guaratinguetá, bem cedo, embarcávamos no ônibus da FEG e íamos para o ITA. Sono na ida e farra na volta, claro.

Certo dia, justamente quando iríamos pela manhã a São José dos Campos, saímos para pegar o ônibus da FEG e notamos a ausência do nosso colega Barbinha, que não dormira na República. Alguém lembrou que ele iria a um bar, após a aula da noite passada. Na praça do centro da cidade, aguardávamos o ônibus chegar para entrar e nos encostarmos numa poltrona qualquer. Nada do Barbinha. Gozação de quem o conhecia: “Tá preso”, disse um. “Tá na zona”, riu um outro.

O ônibus chega e começamos a embarcar. Nada do Barbinha. O motorista pergunta se já poderia ir e, à concordância dos alunos próximos, liga o ônibus. Nada do Barbinha. Nesse instante, o Osli dá uma última olhada e...

- Peraí, motor, peraí!! – grita. O motorista, que já fazia o veículo sair, segura o ônibus.

O Osli, em seguida, sai e corre até o mais próximo banco da praça - pertinho de onde todos esperavam o ônibus – e, adivinhem! Sacode e acorda o Barbinha, que ali estava, dormindo deitado no banco, a cabeça coberta pela blusa. O cara tinha travado e dormido num banco em plena praça!! Claro, estava todo vomitado! Claro, ele não entrou no ônibus. Claro, a gozação durou muito! E ele ficava p da vida quando lembravam isso...

Correard

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Uma Partida de Basquete

Este “causo” é compartilhado com o nosso amigo Edson Machado, companheiro de partidas de basquete. Eu já havia esquecido e ele me relembrou.

As partidas de basquete entre faculdades eram cenas comuns. Participávamos dos jogos Inter-Unesp, dos jogos contra outras faculdades, vizinhas ou não, e quando o jogo era fora usávamos invariavelmente o ônibus da FEG, que era azul, de placa branca e com uma identificação da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá em suas laterais. Em uma destas viagens, o ônibus quebrou em plena rodovia Presidente Dutra. Foi necessário o motorista buscar o auxílio de um mecânico das proximidades. E entre a busca do problema mecânico e a profusão de estudantes em cima do cara, estes preocupados com o horário do jogo, o mecânico (talvez de sacanagem) pergunta “esta tal de faculdade do que que é?” Orgulhosamente e quase em uníssono, a resposta veio rápida: “de engenharia mecânica, é claro!!” Ao que ele responde: “-Mecânica? Pô...vocês ainda têm muito o que aprender, neste andar da carruagem que engenheiro de M... serão vocês...”. Mas fomos para o jogo.

Foi em uma destas partidas amistosas entre o time da FEG e uma faculdade adversária, na quadra descoberta ao lado do Bloco I (o ginásio de esporte naquele tempo ainda estava em construção) que se deu o fato. Como técnico do time, o Faro - nosso professor de educação física - e gigantes como Hermann e o Edson Machado do nosso lado, sem contar com os craques “Luish Carlosh” e João Alfredo Espigosa, com sua elegância habitual.

Eu também participava da equipe naquela noite de primavera. O jogo daquela vez estava bastante equilibrado e difícil.

Normalmente a minha posição era ala da equipe; porém, em um dado momento devido às condições momentâneas do jogo, entre corre-corres e marcações daqui e dali, eu precisei marcar o alto pivô da equipe adversária. O cara estava desequilibrando o jogo.

Instantaneamente me passou pela cabeça “precisamos tirar este sujeito do time deles”.

Ao mesmo tempo me veio na lembrança uma tática que me foi apresentada nos meus

tempos de colégio, onde, numa partida, o professor me ensinou um movimento não muito

justo, quando solicitado um pedido de tempo. Dada a situação, sem titubear, apliquei o

golpe: de repente a confusão...o jogador oponente com um transtorno visível em sua face

veio para cima de mim, dizendo que iria me “encher de porrada” e que aquilo não ficaria

barato, como lembrou o nosso amigo Edson. E entre escudos humanos, empurra daqui e

dali e deixa disso de cá e de lá, o pivô foi se acalmando. Como resultado fomos ambos,

para o banco, expulsos da partida.

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Agora eu sentado e assistindo ao jogo no banco, já também substituído por questões táticas e também no banco, o curioso Edson sem compreender o ocorrido, me perguntou o que tinha acontecido e eu inocentemente e calmamente disse lhe: “ele está assim porque eu fiz um exame de próstata nele” (palavras do amigo Edson). Antes, porém eu teria ido lavar as mãos naquela torneira beirando a quadra... é claro.

Mais tarde, também segundo o nosso amigo Edson, o cara apareceu na faculdade querendo saber onde eu morava. Não sabemos o porquê, se para tirar uma satisfação ou se ....

Se ganhamos o jogo, não lembro.... Mas afirmo sinceramente que nunca mais vi o cara.

Nelson/Edson

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Ali na Opus 6

Não lembro mais quem foi o responsável, mas certo dia trouxeram um par de luvas de boxe para a república, daquelas grandes e vistosas. Curiosos, todos nós experimentamos, dando pulos e “jabs” no estilo do grande e muito admirado Muhammad Ali, famosíssimo após bater o campeão George Foreman (era 1974) e recuperar o título de campeão mundial dos pesos-pesados que já havia sido seu.

Pois bem. Alguém teve a brilhante idéia de fazer algumas “lutinhas” entre nós mesmos da república e alguns colegas que apareciam, claro que “só na brincadeira”. Daí... podem imaginar o que aconteceu.

A primeira vez foi com o Barbosa. Não lembro o colega que foi seu “oponente” na ocasião (talvez o veterano Marcio “Camacho”, a quem nunca mais vi), mas sei que, após uma troca de socos mais agressivas, a brincadeira foi degringolando para uma violência explícita, até que a “turma do deixa-disso” entrasse em ação e acalmasse os ânimos.

Ninguém se machucou.

Outra vez foi comigo e com o Oscar Sanhaço. Começou também na brincadeira e, embora não tenha chegado a ser uma briga de verdade, chegou a esquentar um pouco. Pulo daqui, pulo dali, rodando e fazendo pose, a gente ria e acertava alguns socos no braço um do outro. Até que...

... sem querer (sem querer querendo?), arrisquei um “jab” um pouco mais forte que vazou a defesa do colega e – pimba! – acertei o canto direito da boca do Sanhaço. Putz... sangrou um pouquinho. E agora? Mas... antes que a coisa esquentasse mais, eu pensei em parar, mas ele estava esperto e – pimba!! – me acertou o canto esquerdo da boca. Sangrou um pouquinho também. Não foi nada sério para nenhum de nós e... acabamos rindo. Mas paramos.

Lembro que houve outras brigas por causa dessa coisa das luvas de box na república, mas não lembro mais o nome de ninguém que brigou. Acabou acabando.

Correard

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Pô, assim não!!

Tivemos um professor (não lembro de qual matéria), o Júlio Malva, que tinha um problema nas cordas vocais que fazia com que sua voz fosse fina, daquela aspirada, como acontece com muita gente.

Primeira aula com esse professor, todos curiosos e um tanto preocupados (será que esse cara é linha dura? Será que ele aplica provas difíceis ou é razoável? Tem cara de legal...

O professor olha a turma, se apresenta, a turma se entreolhando.... aquela vozinha... não, ninguém riu, já sabíamos da voz dele. E foi para a chamada nominal, aluno por aluno (que era praxe na FEG, não sei se ainda existe isso):

Fulano – chamava o professor. - Presente! - Respondia o aluno Beltrano! – Presente!

A turma olhando, na expectativa. E assim estava indo a chamada até que...

- Pedro P ... – chamou o professor, vozinha fina; - Presente! – Respondeu o interpelado...

com vozinha fina também.

A turma segurando o riso. Aí, o professor reclamou:

- Pô, assim não... Por favor, com essas coisas não se brinca... Assim, não, pô!!

E os dois, professor e aluno, ficaram sem graça. A turma, finalmente, riu. É que o colega também tinha o mesmo problema de voz que o professor, isto é, falava fino. Alguém explicou isso para o professor, que entrou na brincadeira e também riu. Ainda bem.

Correard

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Choveu na Procissão de Santo Antônio

Cidades do interior costumam ser muito religiosas. Em especial, Guaratinguetá, no Vale do Paraíba - por conta do achado, por pescadores, de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, no rio Paraíba, no ano de 1717, passando a ser chamada de “Nossa Senhora Aparecida” em decorrência da forma como “apareceu”. Atribuiu-se a esse achado o milagre da abundância de peixes naquela pescaria, que até então estavam escassos nas redes. Posteriormente, outros milagres foram e são atribuídos à santa até hoje. Naquela época, o atual município de Aparecida não existia e era apenas uma vila que pertencia a Guaratinguetá.

Em 1928, com o progresso daquela vila, ocorreu a emancipação de Aparecida, que então se tornou um município. Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada a Rainha do Brasil e sua Padroeira, pelo Papa Pio XI. Além da devoção pela Padroeira, Guaratinguetá tem também o seu santo Padroeiro, Santo Antônio, comemorado anualmente no dia 13 de junho com festejos e uma procissão saindo da Igreja Matriz de Santo Antônio e passando por algumas ruas do centro da cidade, entre elas a rua Marechal Deodoro.

Nessa rua Marechal Deodoro existia uma república chamada “Puleiro (sic) dos Anjos”, que ficava numa sobreloja, onde funcionava uma padaria. O imóvel possuía uma pequena varanda, onde os estudantes ficavam, principalmente no final da tarde, assistindo do alto o vai-e-vem das pessoas, principalmente das meninas de Guará.

Pois então, em uma dessas procissões, tudo caminhava calmamente, como é normal acontecer em uma procissão, muita reza, velas nas mãos das pessoas e cânticos religiosos em homenagem ao santo. Tudo ia bem até passar pela rua Marechal Deodoro. Quando a procissão estava passando embaixo da varanda da Puleiro dos Anjos, um ou mais estudantes da república começaram a fazer xixi sobre os devotos.

Foi uma confusão danada!! Onde já se viu fazer tal coisa?? Um desrespeito com o santo e com as pessoas!! Logo acionaram a polícia, que rapidamente chegou ao local em busca dos malfeitores. Quase foram todos para o xilindró, não fosse a interferência do diretor da FEG na época, que era um ex-militar e pessoa influente na cidade... e que gostava muito dos estudantes da faculdade.

Walmir

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O General e seus Pupilos

A disciplina de Desenho Mecânico do Curso de Engenharia Mecânica da FEG era ministrada às sextas-feiras pelo Prof. Osvaldo Lopes, um militar reformado, que foi logo apelidado pela turma como “General”. À primeira vista, ele não tinha “cara de bons amigos”, mas com o tempo descobrimos ser boa-praça. Como era comum na época, havia a “chamada”, para a verificação da presença dos alunos. O General costumava “pegar no pé” de alguns pupilos. A chamada ocorria logicamente em ordem alfabética e fluía naturalmente até chegar ao nosso colega Chumski. O General chamava “Valdir Chumski”

e logo em seguida o próprio professor, ele mesmo, perguntava: “Quem é Chumski?”, olhando por cima dos óculos. Era um ritual que se repetia a cada aula como se assim fosse o primeiro dia. Depois de algum tempo, a turma toda já sabendo desse ritual, aguardava aquele momento da chamada pelo nome do Valdir Chumski, e se antecipava ao General perguntando em coro: “Quem é Chumski?”. Risos gerais, inclusive do mestre.

Outro colega daquela turma e naquela disciplina, fora vítima do General, em outra prática costumeira: foi o Pedro Bordalo. Durante as aulas, o General costumava ficar circulando entre as mesas de desenho verificando o andamento dos trabalhos propostos aos alunos.

Nestas incursões, ele notou que o nosso colega Bordalo tinha certa dificuldade em desenho técnico e não conseguia “visualizar” facilmente as vistas das peças (Bordalo é natural do Maranhão e ali cursara a modalidade antiga do ensino médio chamada

“Científico” e nunca estudara Desenho Técnico). Perspicaz e experiente, o General logo detectou essa dificuldade do colega, e o nomeou seu principal interrogado (interlocutor) nas dinâmicas de sua didática. Quase sempre, tal como aquele ritual do Chumski, perguntava ao Bordalo em particular, “Pedro, se rebatermos essa figura, essa linha ficará em cima ou embaixo? Nervoso e inquieto diante da situação, ele respondia sem pensar muito “em cima”; o General replicava a pergunta: em cima ou embaixo Pedro? E este confirmava: “em cima” professor. “Está errado, Pedro, retrucava o mestre; ficará embaixo.”

As mesas (pranchetas) eram relativamente grandes e próximas umas das outras, e as aulas

de desenho não permitiam muitos alunos na sala, assim, todos acompanhavam e ouviam

bem esses interrogatórios do General. Segundo o próprio Bordalo, ele achava que o

professor não fazia aquilo por maldade. Ele queria apenas instigá-lo ao estudo na tentativa

de superar aquela dificuldade, de ajudar mesmo, utilizando essa técnica de interlocução

didática. Por via das dúvidas, e para não pagar mais o mico, o Bordalo, que nas primeiras

aulas ocupava as mesas das primeiras fileiras, começou a usar as mesas do fundão da sala.

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mesa do Bordalo e como de costume fez a pergunta em outro rebatimento de projeção de peças: e então Pedro, “a linha vai ficar em cima ou embaixo?” e o pobre Bordalo respondeu “embaixo”. Desta vez, o General não retrucou de imediato; foi um tanto quanto sacana e resolveu fazer uma consulta à classe perguntando “O Pedro acha que a linha tal vai ficar embaixo. Quem concorda com ele?”. Como estava errado, ninguém concordou, e ele completou em voz alta “Pedro, ninguém concorda com você”. Ao que o Pedro logo replicou: “vixe Maria, então deu em cima, professor!”. Risos gerais.

Walmir/Bordalo

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Choveu Homem em Guará

Existia uma certa rivalidade entre os cadetes da escola de aeronáutica e os graduandos da FEG, na conquista das meninas de Guará. Ambos tinham suas origens em outras cidades do estado ou país, aumentando desta forma a densidade masculina na cidade, para o deleite feminino local. Os cadetes possuíam uma rígida norma de conduta, enquanto que nós Feguianos éramos considerados “um pouco” bagunceiros.

Morando no bairro Pedregulho, mais próximo à Escola de Aeronáutica, podíamos observar o treinamento dos militares. Singravam no céu os novos supersônicos F5 adquiridos recentemente pelo governo militar. Oriundos da base aérea de Santa Cruz e em uma rápida passagem de treinamento pelo pequeno aeroporto de Guará, numa operação de “toque e arremetida, uma destas aeronaves chocou-se com um urubu – comum nas imediações do aeroporto – obrigando os pilotos a se ejetar, resultando na destruição da aeronave ao cair em uma região próxima à Serra da Mantiqueira. Foi um alvoroço geral. Muitos curiosos, inclusive Feguianos, se embrenharam nos pastos à procura de souvenir.

Sucesso provavelmente teria tido a “turma da fumacinha”, pois o local tinha sido bastante explorado e conhecido por eles na procura de seus cogumelos da alegria. Neste dia, com a queda dos dois pilotos, choveu homem em Guará.

Comum também como parte do seu treinamento, eram os dias em que sobrevoavam aqueles aviões Hércules, despejando uma enorme quantidade de militares no seu treinamento de paraquedismo. Ficávamos observando defronte a nossa república e então... Neste dia então a coisa ficava mais feia – literalmente “chovia homem demais da conta em Guará”.

Nelson

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Va bene, Prego

Não, esse não é um causo sobre italianos ou seus descendentes, como poderia supor o leitor, pelo título. Na verdade, somente tomei conhecimento deste episódio mais recentemente, durante um bate-papo com um dos envolvidos, o Fábio Bonfanti. Fábio é natural da cidade de Leme, no interior paulista, e entrou na FEG em 1975. Durante a matrícula na faculdade havia um pré-trote, com corte de cabelo e algumas pinturas nos calouros, principalmente no rosto, feitas por veteranos do curso. Os veteranos também aproveitavam a ocasião para colocar apelidos nos calouros ou simplesmente conhecidos como “bixos”. Para alguns calouros, os veteranos perguntavam se tinham algum apelido anterior, talvez para poupar seu trabalho na escolha de um novo apelido. Foi o que aconteceu com nosso amigo Fábio, que prontamente respondeu, sem maiores explicações: “lá na minha terra, sou conhecido desde o tempo de ginásio como Prego”.

O veterano anotou aquilo numa lista de aprovados e vida que segue. O início das aulas seria algumas semanas depois.

O pai do Fábio era professor de um Colégio Estadual em Leme, onde Fábio também estudava. O professor era magro e os alunos o apelidaram de “Prego”, um típico caso de bullying. Sim, já existia bullying naquela época. Fábio passou a ser conhecido no colégio como “Filho do Prego”, sem que seu pai soubesse. Com o passar do tempo e com o crescimento do Fábio, ele passou a ser chamado apenas “Prego” ou “Pregão”.

Com o início das aulas, na primeira semana, os “bixos” receberam placas com seus respectivos apelidos de trote. Qual não foi a surpresa do nosso amigo Fábio ao receber a sua placa com o apelido de “Busanfan” - uma alusão ao seu sobrenome Bonfanti. Ele não entendeu nada da mudança de apelido, mas também não se preocupou muito com aquilo, pois tudo era festa. Mas aquele mistério logo seria desvendado. Por algum motivo, aquele veterano havia anotado o apelido de “Prego” para o aluno imediatamente após o Fábio na lista, ou seja, para o nosso colega Flávio Carlos Maluf, que a partir daquela semana passou a ser chamado por “Prego”... e assim foi por cinco curtos anos. Curtos anos mesmo, pois passaram muito rápido.

Com o tempo, os amigos carinhosamente ou caridosamente, passaram a chamá-lo de

Busa, eliminando uma boa parte da carga mais ofensiva da alcunha. Fábio ou Busa, como

acabou sendo conhecido, é um cara boa praça e se destacou por sua habilidade em fazer

caricaturas de professores e colegas de turma, um artista. O Flávio, ou Prego, morava na

República Puleiro dos Anjos vizinha da minha querida república Kilombo na Rua

Marechal Deodoro. Prego era um cara bem bacana e um tanto excêntrico, a começar pelos

seus veículos de transporte. Ele também gostava de pitar um cachimbo com uns fumos

aromatizados. Seus veículos eram: uma motocicleta Jawa (Tchecoslováquia) ano mil

novecentos e bolinhas e um jipinho Candango. O jipe Candango tinha mecânica DKW

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com motor de dois tempos com aquele barulho característico, os mesmos motores usados nos DKWs, Vemaguetes e Belcars. O nome Candango foi dado ao veículo em homenagem aos trabalhadores recrutados na década de 50, principalmente das regiões norte e nordeste, para a construção de Brasília. Por várias vezes, peguei carona com o Prego. Era sempre uma aventura. Será que a moto não vai parar no caminho? E esse jipinho, será que não vai enguiçar? Nunca ocorreu nada com os dois veículos e sempre chegávamos à FEG sem problemas, mas se algo ocorresse, garanto que o Prego daria um jeito de consertar. Ele era bem habilidoso em mecânica de veículos e motos.

Bons tempos e boas recordações.

Walmir/Fabio Bonfanti

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E o Pavão exibiu a sua cauda

Elmar, nosso amigo da turma de 1976, ganhou o apelido de Pavão no trote daquela turma.

Esse apelido pegou. Hoje, nos esforçamos para chamá-lo de Elmar, pois pegou mesmo o apelido. Pois bem, em um sábado, Pavão e alguns amigos da FEG foram lá pelas bandas de Nova Guará em um boteco experimentar uma tal “pizza no palito”, inventada pelo proprietário, o Juarez - que fora funcionário da inesquecível Padaria Mundial, no centro de Guaratinguetá - e seus sócios Sansão e Vandir, esse último metido a ser fortinho . A pizza no palito era uma pizza normal fatiada na própria forma em pequenos pedaços e consumida como aperitivo espetando palitos para pegar Acompanhando a “pizza no palito”, foram várias cervejas e outras bebidinhas, de forma que o pessoal saiu do boteco um tanto alterado.

Naquele mesmo sábado, o Diretório Acadêmico da FEG, ou simplesmente o “DA”, estava promovendo, na sua sede no centro da cidade, um show com o artista Zé Ramalho.

Muitos outros shows foram promovidos pelo DA naquela época, com artistas da MPB (Ivan Lins, MPB4, Toquinho & Vinicius, Elba Ramalho, Baby Consuelo, entre outros).

Depois de saírem daquele boteco, Pavão e seus amigos também foram ao show do Zé Ramalho. O show estava indo muito bem. Veio o intervalo, e o nosso amigo Pavão, não sei como, conseguiu um violão e subiu ao palco para mostrar seus dons artísticos. Uma dessas desinibições provocadas quando se está mamado. Diante daquilo, o responsável pelo som show então colocou a música “Frevo Mulher” da Amelinha, talvez com o intuito de desanimar o colega. Mas o tiro saiu pela culatra. A ouvir os primeiros acordes daquele frevo “...quantos elementos amam aquela mulher...” , nosso amigo Pavão deixou de lado o violão e começou a dar alguns passos de frevo. Ele adorava frevo.

A plateia gostou da performance e aplaudiu muito, mesmo não entendendo muito da dança. As meninas da cidade também estavam dançando no salão. Mas, todo aquele esforço gasto na dança provocou muito calor no nosso colega, que decidiu tirar a camisa para se refrescar. A plateia entendeu aquilo como o início de uma coisa mais apimentada.

O Cacá, nosso amigo de turma, que também estava junto desde o boteco lá em Nova Guará, propôs um desafio ao colega: “Se você tirar a roupa pago mais uma cerveja”. Era o incentivo que faltava para o começo de um strip-tease, que começou a rolar com um entusiasmado coro de “TIRA, TIRA, TIRA,TIRA” da galera presente. Sem saber o que fazer e empolgado com seus cinco minutos de fama, Pavão não hesitou: arriou as calças e exibiu o traseiro ao público, acabando com um desfecho final tirando uma foto com o

“fiofó” exposto em cima do palco. A plateia foi à loucura. Nosso amigo Pavão foi retirado do palco e o show de Zé Ramalho pode continuar.

Walmir/Elmar/Mário Canuto

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Participações Especiais

O Irmão do Fernandão (ou O Garrafão)

O Fernandão, que entrou conosco na FEG e depois veio a trabalhar no Banco do Brasil, onde fez carreira (junto com Micinha, Neves e Lourival, também nossos colegas) tinha um irmão, o Adilson, que gostava de uns golinhos (como todos nós, claro).

Em Aparecida, havia um boteco, o Bar do Peixe do nosso também amigo Nenê, que era famoso pelo bom nível musical e intelectual dos artistas que por lá passavam (nomes como Adoniram Barbosa, Walmor Chagas, Maria Isabel de Lisandra – atriz de teatro e TV dos anos 1970 – além de outros). Era um dos nossos lugares preferidos não só nos finais de semana, mas na semana toda, principalmente após provas difíceis da FEG.

Pois era um sábado de verão e a noite prometia, pelas belas mulheres presentes. Num canto, estava sentado o Adilson com sua namorada e alguns amigos, com muitas cervejas dispostas em lugar visível na mesa, para que o garçom malandro, o Evaristo, não

“errasse” a conta e aumentasse o número final.

Nesse dia, o Adilson apareceu no bar com um garrafão de cachaça e, entre uma cerveja e outra, dava umas bicadas na “marvada”. Assim, lá pelas 5 da manhã, a turma da mesa já se juntava a Baco e chamava urubu de “meu louro”. Então, em certo momento, o Adilson, ao retornar de uma das suas idas à toalete, notou que seu garrafão de cachaça tinha simplesmente desaparecido. Sumiu! Evaporou-se! Muito p da vida, foi reclamar com o dono do lugar, o Nenê. Este, claro, nada pode fazer no momento.

Mas... um tempo depois, descobriu-se quem foi o larápio e foi devidamente recuperado o tal garrafão... bem mais vazio, naturalmente, e - num retorno do Adilson ao Bar – foi- lhe devidamente entregue o pertence, com pedidos de desculpas. Assim, o irmão do nosso colega recebeu seu garrafão de volta... e acabamos por ficar surpresos com sua bem humorada exclamação: “roubar não é digno, mas... roubar cachaça é divino!!”

Aí, depois dessas demos muitas risadas e, claro, ajudamos a acabar com o que restava do tal garrafão.

Edson Machado

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O Avesso do Avesso do Avesso do Avesso...

Era o ano de 1978. Uma das músicas mais executadas nas rádios era “Sampa”, do Caetano Veloso. Estava eu indo ao banco para tirar um dinheirinho para pagar o caixinha da República (e ficar com algum para passar o fim de semana), cantarolando a canção.

Quando eu cheguei no trecho “...pois és o avesso do avesso do avesso do avesso...”, vi subindo a rua, quase na frente ao banco, uma menina deslumbrante, usando óculos escuros.

O galã aqui então se aprumou, respirou fundo, estufou o peito, com esperança de impressionar a garota. E não é que, num rompante, ela tira os óculos, cerra os olhos... e - Surpresa! - na sequência, ela morde o lábio inferior com um lento movimento de “não”

com a cabeça. Fiquei espantado, não esperava aquela reação, olhei para trás para ver se era para outra pessoa aquela cena... mas não tinha ninguém!

Mas não ficou nisso! Ela entreabriu a boca e começou a roçar a o lábio superior com a pontinha da língua. Eu fiquei paralisado. Pensei pelo avesso, “será que quando a gente olha com cobiça uma mulher ela fica com o mesmo constrangimento e desconforto”? Eu fiquei atônito pelo inusitado da situação.

Foi quando, para minha surpresa, ela... espirrou! Aaaatchin!! E voltou a colocar os óculos, passou por mim e seguiu seu caminho. Não pude deixar de rir muito da minha ilusão. E voltando à música, me dei conta que o avesso do avesso do avesso do avesso é o direito.

Fábio Bonfanti

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Uma Aula do Prof. Hermeto

Mais uma vez, o Prof. Hermeto, que vinha de Itajubá, estava atrasado. A sala toda esperando por ele, no anfiteatro. De repente ele chega como um tufão, bravo e exaltado.

Assim que entrou na sala, jogando seu material sobre a mesa, dividiu com a turma o motivo da sua inconformidade.

Aconteceu que, na EFEI, para não ter que cortar o mato que crescia no campus, tacaram fogo que virou uma fumaceira e as labaredas ficaram altas. Com isso, alguns preás que viviam por ali, fugiram apavorados da queimada e acabaram indo para as ruas.

Alguns alunos, vendo os bichinhos atarantados, inventaram de brincar de futebol, usando os bichinhos como bola!! O Hermeto ficou p...!!

“Como futuros engenheiros fazem uma desumanidade dessas? O que se pode esperar deles?”

Com muita bronca, pontuou que, se nós nos aplicarmos e estudarmos muito, vamos nos transformar em ótimas maquininhas, maquininhas que farão muitos cálculos e resolverão muitos problemas. Mas alertou: “sempre vai haver uma maquininha mais moderna que vai deixar a antiga obsoleta”. Aí veio a lição que guardei para o resto da minha vida:

“Vocês têm que se tornar gente, gente é insubstituível!! Vocês têm que estudar, se aplicar, mas não deixar de se preocupar com os seus semelhantes, com os animais, ler um livro, escutar músicas, assistir filmes, tudo isso vai contribuir para que vocês se tornem gente!

Só assim vocês serão insubstituíveis!!”

Mesmo com toda a carga na faculdade e sobretudo depois, já formado, sempre me lembro dessa aula e procuro cumprir sua inspiração. Encontrei-me com ele muitos anos depois, num evento de homenagem na FEG. Comentei desse episódio, que tanto me marcou, mas... ele disse que não se lembrava.

Fábio Bonfanti

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Trem de Guará para Guará

Janeiro 1976. Após um ano de estudos, finalmente fui aprovado no exame vestibular MAPOFEI, ingressando na Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá – FEG, em 1975.

Eu residia na época em Campinas, com uma irmã que ali morava com a família. Sendo natural do Maranhão, costumava passar as férias de fim de ano na linda ilha de São Luís.

Nesse ano, no retorno das férias, já em Campinas, tive uma ideia mirabolante: ir de trem para Guaratinguetá. Meu cunhado informara que provavelmente havia uma linha que fazia esse percurso passando por São Paulo (capital). Assim, fui à Estação Ferroviária de Campinas, na Praça Marechal Floriano Peixoto (Estação FEPASA) e perguntei ao atendente se havia trem para Guará - o qual respondera que sim; perguntei-lhe ainda se o trem parava em São Paulo. O filho-da-mãe retrucou: “NÃÃÃO, vai direto para Guará”.

E eu, “ótimo, então tira um bilhete pra mim”.

Embarquei no trem por volta das 23:00 h, convicto do meu destino - Guaratinguetá - e da chegada às 06:00 h, a tempo de estar na FEG para as aulas da manhã. Como bom nordestino e voltando de férias, eu carregava uma mala grande e pesada, cheia de roupas e bugigangas: farinha d’água (de mandioca), doce de leite/buriti da mamãe, bacuri, cupuaçu etc.

Depois de algumas horas de solavancos e apitos de trem, por volta das 02:30h da madrugada senta-se sorrateiramente ao meu lado um homem aparentando uns 40 anos.

Achei estranho, mas continuei na minha indesejável aventura, tentando conseguir dormir um pouco. Eis que o homem que acabara de sentar-se ao meu lado, aproxima maliciosamente a sua mão sobre minha coxa. Ingenuamente, empurrei sua mão achando se tratar de um sonâmbulo ou coisa parecida. Nada disso, era um “gay” mesmo, que voltou a assediar-me com suas mãos, mais uma vez. Desta feita, falei em alto e bom tom:

“sai pra lá ô @#%¨&*#, procura sua turma!” Talvez envergonhado ou decepcionado por ter errado o alvo, levantou-se e foi embora pro quinto dos infernos e felizmente não mais voltou a me importunar.

Nesse mal estar, perdi pelo menos uma hora de descanso. Após algum tempo, finalmente peguei no sono e lá pelas 06:00 h, acordo com uns barulhos malucos (parecia sinos ecoando, mesclado a vozes desencontradas). Era o trem chegando em Guará. Achei tudo esquisito, pois a paisagem não lembrava em nada a querida Guaratinguetá. Perguntei então, ao passageiro do outro lado da fileira (não era o gay): aqui é Guará? Respondeu- me: sim. Insisti: é Guaratinguetá? Retrucou o passageiro: NÃÃÃO, estamos chegando em Guará, próximo de Ituverava; Guaratinguetá é do outro lado do Estado, no Vale do Paraíba (xinguei com raiva aquele vendedor de bilhetes na FEPASA de Campinas).

Quase desmaio, num misto de raiva, angústia e desespero. Desci na Estação Ferroviária

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de Guará (também FEPASA), desativada em 1979, e saí em busca de informações, para seguir meu destino: Guaratinguetá.

Um atendente do guichê de passagem na Estação então informou-me: pra chegar no seu destino, você tem que ir pra Ribeirão Preto, de lá pegar outro ônibus para São Paulo e daí seguir viagem para Guaratinguetá. E o próximo ônibus pra Ribeirão era somente as 10:00 h. Meu Deus, e agora? E agora? Dinheiro contado de estudante, mala enorme e pesada e ter que fazer essa “via crucis” de mais de 500 km até Guaratinguetá. Xinguei novamente aquele vendedor filho-da-mãe; mas... coitado; no fundo, a culpa era minha.

Naquela época, os ônibus, nas bandas dali, eram verdadeiros paus-de-arara: lotados, com passageiros caipiras humildes, carregando toda sorte de bagagem: sacos, malas, galinha, papagaio, periquito, além de crianças de colo chorando e tudo mais, cigarro de palha, canivete na bainha de couro marrom presa no cinturão da calça suja e frouxa, camisa xadrez manga comprida, além do chapéu de palha ou tipo Panamá de aba larga e botina velha de caipira.

Comprei então, a passagem de ônibus para Ribeirão Preto e quando fui despachar a

“senhora” mala o despachante disse que o bagageiro estava superlotado e que eu levasse a minha mala dentro do ônibus. E assim eu fiz. Só que, a cada povoado à beira da estrada, o motorista parava para pegar passageiros. E assim, o ônibus foi lotando, lotando e o povo se apinhando no corredor, até que um maledicente passageiro criador de caso, reclamou da minha mala: “essa mala aqui no corredor tá atrapalhando tudo, sô”. Perguntou ao motorista: “de quem é essa mala?” Fiquei calado, avexado (jargão nordestino), pois não queria mexer naquele embrulho ou entrar em confusão. Disse o maledicente “então joga fora essa mala, não tem dono!” Levantei-me e vociferei: “Opa! Opa! Opa! essa mala é minha! Na rodoviária o despachante mandou entrar com ela pois no bagageiro não tinha espaço!” E nesse clima sombrio e cômico, consegui chegar em Ribeirão e seguir viagem para São Paulo e ali chegar a tempo de pegar o último ônibus da “Pássaro Marrom” para Guaratinguetá. Não lembro bem, mas acho que por volta da meia noite, finalmente consegui chegar na Terra das Garças Brancas. Ufa!

Agora, restava-me descansar e aguardar a gozação, as chacotas e zombarias dos colegas.

E não deu outra; no dia seguinte, não só os colegas de república (saudosa Kilombo, à

época, um pequeno sobrado na Rua Padre Anchieta, nº 33 / Campo do Galvão,

posteriormente, um casarão da família Caltabiano, na Praça Piratininga, no mesmo bairro,

e por último na Rua Marechal Deodoro nº 79 / Centro, próximo ao Mercado Municipal,

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e outros como Maranhão e Pitombeira - esse também não colou. No entanto, a gozação rendeu até os últimos dias daquela feliz convivência.

Da Guará, terra dos guarás (lobos) pouco me lembro, porém, a Guará, a Terra das Garças Brancas, essa jamais esquecerei, pois foi o berço e a cama da minha vida acadêmica e profissional, além de um convívio feliz, fraterno e inesquecível junto aos 99 colegas que na FEG ingressaram naquele memorável ano de 1975, em pleno governo militar do então General Ernesto Beckmann Geisel. Minha eterna gratidão a essa cidade que considero um marco importantíssimo na minha longa jornada da vida.

A tempo: Guará é vizinha de São Joaquim da Barra, terra do maior contador de causos do Brasil: o cantor, compositor e artista Rolando Boldrin.

Pedro Bordalo

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Serenata na Madrugada

Estávamos em meados do segundo semestre de 1975, nosso primeiro ano na FEG.

Éramos seis em nossa república, a “ WC”, localizada no beco da Rua Lamartine Delamare, já no bairro do Campo do Galvão, sua primeira localização desde que foi fundada naquele mesmo ano de 75. A Lamartine começa na esquina do Instituto Rodrigues Alves, perto da Rodoviária, e desce em direção ao Campo do Galvão, terminando aparentemente num beco sem saída, às margens da linha do trem. Mas não acaba ali. Ela pula o trilho, por cima do muro de placas de concreto, e acaba realmente do outro lado, na Castro Santos, dentro do Campo do Galvão. Nesse outro beco, vindo pela Castro Santos é que ficava a WC, na beira silenciosa e tranquila dos trilhos da então Central do Brasil.

Éramos seis na alegre vivenda: Jeová, Zé Cubatão, Poeta, Dimas, Potrão e eu, Cacá, todos empinhocados em um único quarto, com dois beliches e duas camas de solteiro, que ocupavam TODO o espaço disponível do quartinho abafado. Para acessar aos beliches, tínhamos que passar sobre as camas de solteiro.

Zé Cubatão, ótimo violonista, pelo menos para os nossos padrões estudantis, animava e alegrava as noites de sexta feira, com muita música e cantoria, quase sempre no Zé Cobrinha, bar da moda na época, localizado num posto de gasolina em uma das ruas centrais da nossa querida Guaratinguetá.

Em uma dessas noites, o sambinha corria solto... “Choooora, não vou brigar, não vou brigar, chegou a hora, vai devagar, pode chorar, pode chorar...”. Fim de noite, ali pelas 3 da matina surgiu a ideia: vamos fazer uma serenata pras namoradinhas?

A adesão foi imediata. Poeta e eu, com namoradinhas novas, as escolhemos como as nossas musas inspiradoras. Zé Cubatão, no violão, lógico, indispensável, Poeta no chocalho improvisado de lata de cerveja com arroz, Kuwada - que na época era o Coalhada, apelido que não pegou - no vocal e eu na minha flautinha doce sofrível, enveredamos madrugada adentro rumo às casas de nossas eleitas. Nosso primeiro destino:

a casa de minha namorada, Rosângela, que morava perto da igreja da Matriz, bem no centro da cidade. Chegamos ao local, muro alto, muito alto, os cachorros da vizinhança começando a latir desesperadamente.

- “Xá” comigo - fui logo dizendo, agarrando a beirada alta do muro, subindo rapidinho -

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Zé Cubatão, pulou pro outro lado, Poeta também e eu passei o violão e os instrumentos pra eles. O Kuwada, quietinho, foi até o portão, bateu a mão na maçaneta e falou pros otários: “o portão tá destrancado, seus tontos...” e entrou sem nenhum esforço. Gozação geral. Mas vamos pra seresta.:

Chegamos na janela da amada e começamos com um “Carinhoso” arrebatador.

Acordaram os irmãos da namorada, o pai da namorada, a mãe da namorada, os vizinhos da namorada, toda a cachorrada das vizinhanças da namorada... menos a namorada.

A bela adormecida não acordava mesmo, e tome-lhe “Carinhoso”, bis de “Carinhoso”, refrão do “Carinhoso”... e nada da amada acordar. Foi preciso uma chacoalhada enérgica dos irmãos para que, finalmente, na décima-terceira execução do bendito “Carinhoso” ela aparecesse na janela, tonta de sono, sem entender bulhufas do que estava acontecendo.

Ufa!! Primeira missão cumprida, fomos muito bem recebidos pelos pais da namorada, mas não tanto assim pelos seus vizinhos, que soltaram alguns “elogios” para os seresteiros... e para as mães dos seresteiros.

Agora era a missão final: a namorada do Poeta, que morava na Rua do Porto, perto do antigo Supermercado Guará. Descemos em direção à Ponte Metálica, rindo muito das trapalhadas, ensaiando uma música nova, já que aquele “Carinhoso” tava meio desgastado. Ninguém tava com saco de tocar essa novamente.

Essa musa era mais acessível. A janela da consorte (ou seria “sensorte”...) era direto na rua, muito mais fácil de executar nossos gorjeios seresteiros.

- É essa janela mesmo, Poeta? Olha lá hein!?

- É essa mesmo, Zé, manda bala na introdução!

Cacá faz a introdução com a flauta, começamos a cantoria. Aos primeiros acordes sonoros da voz empostada e emocionada do Kuwada, acendeu-se a luz do quarto.

- É ela, ela acordou. Capricha aí, Kuwada, balança o chocalho, Poeta, sublima, Zé !!!

Abre-se a janela, não tão suavemente como a janela da homenageada anterior e NÃO aparece a namorada. Aparece um sujeito muito, mas muito bravo, nos elogiando carinhosamente com os mesmos adjetivos da vizinhança da casa anterior, não esquecendo novamente de nossas queridas genitoras. E pior, tinha um objeto comprido na mão, que Zé Cubatão foi logo gritando:

- Corre que é espingarda!!!

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Rapaz, foi uma correria... Kuwada arregalou o zóio e zuniu fora. O Poeta - que tava manquitolando um pouco da perna esquerda - sarou na hora, eu quase engoli a flauta na arrancada e Zé Cubatão bateu o recorde universitário dos 100 m rasos com violão, modalidade esportiva inventada na hora. Nem o José Camargo, o famoso Guaru, campeão da faculdade nos 100 metros rasos conseguiria correr mais rápido...

Alguém conseguiu olhar pra trás e viu um vulto na janela sacudindo o objeto com a mão, e xingando. Se era espingarda, cabo de vassoura ou taco de sinuca, até hoje ninguém sabe.

Ninguém quis voltar pra descobrir...

Já estava tão tarde, quase que amanhecendo, que nem um último boteco aberto pra saideira a gente conseguiu encontrar. Mas tentamos. E fomos pra casa dormir, que para aquela noite a diversão já tinha sido suficiente.

Mário Canuto Adendo:

“Mais de quarenta anos depois, no encontro dos 40 anos da nossa formatura...”

Para a minha alegria e deleite, ao invés de uma sessão de serenata na madrugada, fomos agraciados, desta vez, não com aquelas nossas vozes desafinadas dos antigos seresteiros, mas com uma linda canção cantada pela Rô, com o fundo musical ao som de uma flauta do nosso amigo Cacá.

Para registro da história dos nossos amigos: Poeta saiu após o seu primeiro ano para se graduar em Geologia na USP e o Zé Cubatão transferiu-se para a EFEI (atual UNIFEI - Universidade Federal de Itajubá), graduando se em Engenharia Elétrica.”

Nelson Kuwada

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Referências

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