UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE
DOUTORADO EM ARQUITETURA E URBANISMO
ANTÔNIO MARTINS DA ROCHA JÚNIOR
DOMÍNIO DA FORMA
PERMANÊNCIAS E MUTAÇÕES NAS COMPOSIÇÕES ARQUITETÔNICAS
SÃO PAULO
2014
Rocha Jr., Antônio Martins
B672d Domínio da forma: permanências e mutações nas composições arquitetônicas. / Antônio Martins da Rocha Júnior – 2014.
254 f. : il. ; 30cm.
Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014.
Bibliografia: f. 247-254.
1. Arquitetura, permanências e mutações. 2. Arquitetura, modernidade e tradição. 3. Arquitetura substancial. 4. Arquitetura
acidental. I. Título.
CDD 720
ANTÔNIO MARTINS DA ROCHA JÚNIOR
DOMÍNIO DA FORMA: PERMANÊNCIAS E MUTAÇÕES NAS COMPOSIÇÕES ARQUITETÔNICAS
Tese apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Arquitetura e Urbanismo
Orientador:
Prof. Dr. Rafael Antonio Cunha Perrone
SÃO PAULO
2014
ANTÔNIO MARTINS DA ROCHA JÚNIOR
DOMÍNIO DA FORMA: PERMANÊNCIAS E MUTAÇÕES NAS COMPOSIÇÕES ARQUITETÔNICAS
Tese apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Arquitetura e Urbanismo
Aprovada em 24/04/2014
BANCA EXAMINADORA
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Prof. Dr. Rafael Antonio Cunha Perrone Universidade Presbiteriana Mackenzie
_______________________________________________________________________
Prof. Dr. Valter Luis Caldana Junior Universidade Presbiteriana Mackenzie
_______________________________________________________________________
Profª. Drª. Eunice Helena Sguizzardi Abasc Universidade Presbiteriana Mackenzie
_______________________________________________________________________
Profª. Drª. Anália M. M. de Carvalho Amorim Escola da Cidade
_______________________________________________________________________
Prof. Dr. Orestes Bortolli Junior
Universidade de São Paulo
À Lina, ao Davi, ao que está por vir.
Aos irmãos, que discordam, mas sempre se dão.
Aos meus pais, Antônio e Irene, que superestimam e acham mais.
AGRADECIMENTOS
À Universidade de Fortaleza, pela compreensão e incentivo.
À Universidade Presbiteriana Mackenzie, pelo conteúdo eficientemente transmitido.
Ao professor Rafael Perrone, pela orientação e pelas valiosas contribuições.
Ao engenheiro Rogério Campos, pela colaboração.
RESUMO
Expõe a discussão acerca da existência, coexistência ou confronto de dois procedimentos no âmbito do fazer arquitetônico contemporâneo: um proveniente da noção de espaço estável, que produz uma arquitetura constituída por elementos perfeitamente localizáveis; e o outro derivado da noção de espaço fluido, que enseja uma arquitetura constituída por uma profusão de efeitos especiais. Dito de outro modo – seguindo conceituação expressa pela pesquisa –, o embate entre um espaço substancial, homogêneo – vinculado à noção de inteiro e regulado pela Geometria Euclidiana – e um espaço acidental, heterogêneo – ligadodo à ideia de deformação, modelado e representado por meios topológicos. No estudo dessa dicotomia, buscou-se compreender se o espaço dito substancial – oriundo da tradição clássica e que havia prevalecido no curso da História – entrou em crise para dar lugar ao espaço dito acidental, resultante, supostamente, da inovação tecnológica, sobretudo a digital. O objetivo é vislumbrar a condição da Arquitetura contemporânea em meio às tecnologias avançadas e sua relação com processos projetuais historicamente enraizados. A pesquisa verifica, portanto, se a noção de todo, que se relacioana e se harmoniza com suas partes, perdeu o seu sentido para dar lugar a um espaço instável, levando ao domínio das superfícies e, por consequência, ao fim de uma tradição. Para se abordar o problema da tradição na Arquitetura, a pesquisa foi buscar as raizes e o desenvolvimento histórico da linguagem clássica, considerando que ela representou, conscientemente, um ideal absoluto para inúmeros movimentos artísticos. Faz referência, também, a movimentos ditos anticlássicos, que se portaram como contraposições a premissas clássicas, dentre elas a ideia de forma como valor permanente. Esse caminho histórico tem como propósito detectar se a confrontação do espaço substancial com o espaço acidental é algo realmente contemporâneo, ou se não passa de mais uma configuração arcaica, percebida desde muito tempo. A conveniência da pesquisa diz respeito às possibilidades projetuais e aos processos a serem utilizados no ensino de Arquitetura.
Palavras-chave: Arquitetura, pemanências e mutações. Arquitetura, modernidade e
tradição. Arquitetura substancial. Arquitetura acidental.
ABSTRACT
The work exposes the discussion concerning the existence or coexistence, confrontation of two procedures under the do contemporary architectural: one from the notion of stable space, which produces an architecture consisting of elements perfectly localizable; and the other derived from the notion of fluid space, which generates an architecture consisting of a profusion of special effects. Or, to put it another way – following the conceptualization research – the clash between a substantial space, homogeneous – linked to the notion of whole and governed by Euclidean geometry-and a space accident, heterogeneous – linked to the idea of deformation, modeled and represented by topological means. In the study of this dichotomy sought to understand whether space said substantial – from the classical tradition and which had prevailed in the course of history – came into crisis to give rise to space said accidental, resulting, supposedly, of technological innovation, especially the digital. The goal is to envision the condition of contemporary architecture in the midst of the advanced technologies and their relationship with project processes historically rooted. The research checks, therefore, if the notion of the whole is related and harmonizes itself with its parts, if it lost its meaning to make way for an unstable space, leading to the dominance of the surfaces and, consequently, the end of a tradition. To address the problem of tradition in architecture, the research looked for the roots and the historical development of the classical language, considering that it represented, propositaly, an absolute ideal for numerous artistic movements. References, also, the so-called anti-classic movements, which behaved as counterpoints to classical assumptions, among them the idea as a permanent value. This historic path aims to detect whether the substantial space confrontation with the accidental space is something really contemporary, or if it's more an archaic setting, perceived for a long time. The convenience of the present research concerns to the project possibilities and the procedures to be used in the teaching of Architecture.
Keywords: Architecture, permanencies and mutations. Architecture, modernity and
tradition. Substantial Architecture. Accidental Architecture.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO... 11
2. NATUREZA DO ESPAÇO E EXPRESSÃO ARQUITETURAL ... 15
2.1 Espaço substancial, espaço acidental ...15
2.2 Espaço de fluxo, espaço de lugares ...17
2.3 Fazer arquitetônico e cânones ... 19
2.4 Espaço platônico ... 22
2.5 Matéria e forma em Aristóteles ... 24
2.6 Ordem formal platônica e interpretações aristotélicas da forma ... 25
2.7 Medievo e ordem aristotélica ... 27
2.8 Renascimento e espaço platônico ... 31
2.9 Dualidade espacial barroca ... 39
2.10 Classicismo como arquétipo durável ... 43
2.11 Historicismo, mimese e modernidade... 44
3. GEOMETRIA E CONCEPÇÃO DO ESPAÇO ... 47
3.1 Espaço relativista ... 47
3.2 Geometria e vanguardas do século XX ... 52
3.3 Ordem geométrica e compreensão do mundo ... 57
3.4 Laboratório egípcio ... 59
3.5 Essência geométrica e construtiva do templo grego ... 66
3.6 Proporções e cânones clássicos ... 68
3.7 Sintagma clássico ... 73
3.8 Arquitetura romana e preceitos clássicos ... 75
3.9 Renascimento e cultura clássica ... 82
3.10 Perspectiva cônica e organização do espaço ... 90
3.11 Urbanismo barroco e perspectiva ... 94
3.12 Arquitetura e espaço curvo ... 98
4. COMPOSIÇÕES ARQUITETÔNICAS: PERMANÊNCIAS E MUTAÇÕES ... 108
4.1 Idade da informação e experiências formais ... 108
4.2 Composição, forma e projeto ... 119
4.3 Classicismo e autonomia da arte ... 122
4.4 Neoclassicismo e caráter tipológico ...123
4.5 Durand e suas lições de Arquitetura ... 128
4.6 Metodologia, tipologia e academicismo ... 132
4.7 Modernismo e composição ... 135
4.8 Sistemas fundamentais dos mecanismos de composição ... 141
4.9 Composição e contemporaneidade ... 143
4.10 Superficie topológica “líquida” ...147
4.11 Pavilhão da Água Doce: plasticidade líquida e interação ...150
5. ESTUDO DE CASOS ... 158
5.1 Ideia de composição ... 158
5.2 Periodização e escolha dos casos ... 169
5.3 Modernidade técnica e plasticidade clássica: os projetos para o Aeroporto Santos Dumont ... 163
5.3.1 O projeto vencedor do certame (1937) ... 168
5.3.2 O projeto executivo de 1938 ...174
5.3.3 O projeto executado em 1944 ... 177
5.3.4 Tradição e modernidade ... 183
5.4 Centro George Pompidou: a técnica como definidora da forma e elemento de projeto ... 187
5.4.1 Confiança tecnológica ... 189
5.4.2 O projeto ... 194
5.4.3 Técnica e realidade cotidiana ... 202
5.4.4 Libertação da forma ...204
5.5 Museu Guggenheim: efeito de superfície como espetáculo ... 206
5.5.1 O edifício e o entorno urbano ... 208
5.5.2 Desempenho funcional e estrutural ... 216
5.5.3 Concepção, composição e representação ... 218
5.5.4 Satisfação emocional ... 223
5.5.5 Investigação formal ... 224
5.5.6 Efeito de superfície ... 228
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 232
6.1 Desmaterialização da Arquitetura: percurso diacrônico... 232
6.2 Mutações e permanências ... 234
6.3 Processos projetuais e resultado espacial ... 241
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 247
1 INTRODUÇÃO
O projeto desta tese de doutoramento nasceu da inquietação em se compreender a natureza do espaço arquitetônico produzido em meio à sociedade informacional em que hoje se vive. No caminho percorrido, foram investigados os efeitos, nas composições arquitetônicas, das práticas criativas oriundas da contemporaneidade. No trajeto da pesquisa, depreendeu-se, do pensamento de alguns autores, que existe nos tempos atuais a adoção de conceitos e procedimentos definidores da expressão arquitetural distintos de processos historicamente enraizados. Para esses autores, tal mudança é consequência das transformações tecnológicas e econômicas, que fizeram com que a relação da sociedade com processos de inovação técnica e criação artística tenha sido objeto de grandes alterações. O novo formato de organização social, configurada ao final do século XX, teria 1 , assim, promovido alterações da vivência do espaço e do tempo, dando a moldura para a formatação de realidades diversas, incluindo a Arquitetura.
A consequência advinda das novas concepções de mundo na Arquitetura, para pensadores contemporâneos, é que as metodologias atuais argumentam contra se estabelecer qualquer cânone único ou histórico para o desenvolvimento das novas práticas criativas. A ideia de espaço estático, homogêneo, substancial – oriundo da tradição clássica e que havia prevalecido no curso da História – teria entrado em crise e cedido lugar ao espaço dinâmico, heterogêneo, acidental, resultante, ao que se imagina, da inovação tecnológica, sobretudo a digital. Nessa direção, a Geometria euclidiana, que regulava os arranjos espaciais das dimensões urbana e arquitetônica, progressivamente teria perdido o seu sentido, para dar lugar a percepções e representações que nada teriam em comum com o passado. Haveria, desse modo, uma dualidade própria dos tempos atuais em definir a natureza do espaço e, em consequência, a expressão arquitetural de uma obra concebida. A percepção é a de que estaria havendo um deslocamento do estático para uma condição de instabilidade, levando à Arquitetura ao domínio das superfícies.
1
O verbo é expresso no futuro do passado haja vista que o entendimento dos autores consultados não é
necessariamente corroborado pela tese. Outras situações como essa ocorrerão ao longo do texto, sendo que a
posição do autor deste trabalho será revelada com clareza no decorrer da tese, sobretudo no capítulo 6, das
Considerações Finais.
O deslocamento do estático para o dinâmico, reflexão inicial da pesquisa, parecia, à primeira vista, bem explicar as transformações pelas quais a Arquitetura passava desde o final do século XX. Ponderou-se, entretanto, que a confrontação do espaço estático com o dinâmico pode não ser um produto típico da sociedade informacional, e sim a configuração de algo arcaico, percebido desde muito tempo. Buscaram-se, nos ensinamentos da História, outros princípios confrontantes que acompanharam a Arquitetura em diversos momentos e foram encontradas outras dualidades, como as surgidas das contraposições do Clássico com o Medievo, o Romântico ou o Moderno. Observou-se, também, que uma dualidade específica, talvez a mais importante para explicar a natureza dos espaços concebidos, perpassa todo esses movimentos e chega aos dias atuais. É a dualidade surgida das noções de espaço e forma provenientes do pensamento de Platão – que teoriza o espaço como fechado, estático e duradouro – e de Aristóteles, ao imaginar uma ordem orgânica, variada e plural para a constituição das coisas corpóreas. Desse modo, examinou-se com atenção a possibilidade de o confronto de procedimentos na definição da expressão arquitetural contemporânea também ser explicada pelo embate platônico-aristotélico. Achou-se de relacionar, portanto, as atitudes de “novidade” e “antiguidade” para que fossem percebidos quais elementos tradicionais persistem na prática arquitetônica.
Para se abordar o problema da tradição na Arquitetura, a pesquisa foi buscar, além do
entendimento das teorias de espaço formuladas por Platão e Aristóteles, as raizes e o
desenvolvimento histórico da linguagem clássica, haja vista que ela representou (e ainda o
faz), conscientemente, um ideal absoluto para inúmeros movimentos artísticos. A pesquisa
faz referência, também, a movimentos ditos anticlássicos, que se portaram ou se portam
como contraposições a premissas clássicas, dentre elas a ideia de forma como valor
permanente. Observando-se distintos movimentos e linguagens artísticas no percurso da
Grécia até os nossos dias, verificou-se, nos mecanismos de composições e de transmissão
de conhecimento, a consolidação de alguns sistemas teóricos e práticos fundamentais. Esses
sistemas, não mutuamente exclusivos, necessariamente, são essenciais para a comprensão
do que a tese se propõe: abordar as permanências e mutações no fazer arquitetônico.
Com fundamento nos mecanismos de composições que se estabeleceram ao longo da História, a pesquisa aborda, por meio de estudos de casos, o suposto deslocamento do estático, do substancial, para a condição de instabilidade formal, acidental, que teria conduzido a Arquitetura do final do século XX ao domínio das superfícies. Os casos estudados foram escolhidos tendo como balizamento temporal os anos 1960, que se caracterizaram por um processo de crítica e revisão conceitual da cultura arquitetônica.
Ademais, a década de 1960 é também o período em que a sociedade informacional se estabeleceu como modo específico e organização social, marcando, nas manifestações artísticas, a busca por novas expressividades nas formas. Os casos estudados procuram expressar um período diacrônico, embora a pesquisa não deixe de investigar um percurso sincrônico para a suposta passagem do espaço homogêneo, vinculado à noção de inteiro, para o espaço heterogêneo, ligado à ideia de deformação. Foi analisada uma obra anterior à década de 1960, outra imediatamente após os anos 1960 e a terceira representando os tempos mais próximos dos dias atuais. As obras estudadas foram escolhidas em razão de suas ideias geradoras, estruturas espaciais e respostas à cultura e à tecnologia, refletindo, densa e profundamente, o período histórico em que foram concebidas e construídas. Essa abordagem permitiu refletir sobre as distintas natureza do espaço arquitetural e concluir se há uma forma espacial predominante na sociedade informacional, marcando o fim de uma tradição.
O trabalho encontra-se estruturado em seis capítulos, incluindo a introdução e as considerações de remate. Apresenta um percurso que, para se chegar às argumentações e conclusões, parte da compreensão de variadas naturezas do espaço (capítulo 2), passa pelo papel da Geometria nas concepções espaciais (capítulo 3), analisa os procedimentos de composições arquitetetônicas à luz das permanências e mutações (capítulo 4) e deságua nos estudos de casos (capítulo 5). Todo esse percurso teve como objetivos:
a) aprofundar a compreensão acerca do papel das preexistências da Arquitetura, das formas e disposições na definição do esquema formal dos edifícios;
b) verificar como ocorre a estruturação da forma geral de um edifício concebido
segundo as noções de espaço estável e de espaço instável;
c) notar se opções para a obtenção do esquema formal de um projeto levarão a diversificadas categorias de processos de composição;
d) compreender a definição do sentido da Arquitetura em meio à sociedade informacional; e
5) investigar se ocorreram mudanças na proposição dos espaços e formas da Arquitetura comprendida no âmbito da realidade informacional contemporânea.
Para se refletir sobre essas questões, hipóteses foram lançadas no capítulo 2,
propiciando subsídios para o desenvolvimento do trabalho e para o que se pretende
demonstrar nas conclusões. Na verificação das hipóteses, definiu-se um universo conceitual
oriundo de uma base bibliográfica e utilizou-se do estudo de três casos como modo de
aproximação das hipóteses à realidade projetual. O recorte temporal dos casos estudados
(1930-2000) tem o propósito de verificar a natureza do espaço de obras concebidas antes,
durante e após a década de 1960, anos que marcaram a consolidação da sociedade
informacional. As obras escolhidas foram analisadas utilizando-se o significado de
composição como o arranjo geométrico, a estrutura básica de disposição de elementos
gráficos que leva ao resultado formal do objeto arquitetônico projetado,
independentemente da natureza do espaço concebido. Observou-se, entretanto, que os
arquitetos contemporâneos procuram criar mundos projetuais compatíveis com a natureza
de cada espaço, escolhendo determinados processos compositivos e instrumentos de
desenho e mídias de representação. As implicações de tudo isso no fazer e no ensinar
arquitetônicos é levar à compreeensão das possibilidades projetuais – como o edifício deve
ser projetado – e que processos devem ser utilizados no ensino de Arquitetura, indicando o
grau de pertinência da pesquisa.
2 NATUREZA DO ESPAÇO E EXPRESSÃO ARQUITETURAL
A crise da noção de dimensão surge com a crise do inteiro, ou seja, de um espaço substancial, homogêneo, herdado da geometria grega arcaica, em benefício de um espaço acidental, heterogêneo, em que as partes, as frações, novamente tornam-se essenciais.
Paul Virilio
2.1 Espaço substancial, espaço acidental
Analisando a sociedade “tecnologizada” em que hoje se vive, o filósofo francês Paul Virilio (2008) parte da Arquitetura e das políticas urbanas para investigar os efeitos de um mundo que se organiza cada vez mais segundo a produção e difusão de imagens e informações. Ele compreende que a expressão arquitetural está vinculada aos sistemas de comunicação, e, em consequência, o espaço construído é definido não só pelo efeito material e concreto das estruturas edificadas, das permanências de elementos e marcas arquiteturais ou urbanísticas, mas, igualmente, pela “incessante profusão de efeitos especiais que afetam a consciência do tempo e das distâncias, assim como a percepção do meio”. (P.18). Virilio entende que há o confronto de dois procedimentos na definição da expressão arquitetural: um deles bem material, constituído de elementos físicos, paredes, limiares e níveis, todos precisamente localizados; o outro, imaterial, do qual as imagens e mensagens não possuem localização precisa. Esse confronto seria consequência do desequilíbrio crescente entre a informação midiatizada e a informação direta dos sentidos,
“fazendo com que o efeito de real pareça suplantar a realidade imediata”. (P.17). Haveria, deste modo, uma tendência ao deslocamento do estático na Arquitetura, antes predominante, para uma condição de instabilidade, com a transparência tomando o lugar das aparências – aquelas que se mostram à primeira vista. Expresso de modo diverso e seguindo a conceituação de Virilio (2008), a passagem de “um espaço substancial, homogêneo, herdado da geometria arcaica grega” 2 e vinculado à noção de inteiro, para “um espaço acidental, heterogêneo”, vinculado à ideia de desintegração (p.19).
2
Virilio não explicita o sentido da expressão “geometria grega arcaica”, mas entende-se como tal a Geometria
geradora do sintagma artístico clássico e seus conceitos de composição (axialidade, simetria, ortogonalidade
...). Pode ser entendida, também, como a geometria sistematizada por Euclides (330-275 a.C.) em Os
elementos, obra que se vale do modo dedutivo para definir propriedades demonstráveis da Geometria Plana
com base em conceitos apriorísticos.
Para Virilio, está ocorrendo uma crise do inteiro, a passagem de um espaço contínuo para um espaço descontínuo, provocando a perda de referências fundamentais da Arquitetura e Urbanismo – simbólicas, históricas, geométricas, com o declínio da centralidade, da axialidade, ocorrendo a desvalorização da antiga repartição das dimensões físicas. Estaria sendo destruída, deste modo, a estruturação tradicional das aparências, fundada desde a Antiguidade na Geometria Euclidiana, que regulava as superfícies tanto da dimensão urbana quanto da arquitetônica. A ideia da dimensão física, que parece remontar a um estado arcaico da Geometria grega, estaria progressivamente perdendo o seu sentido, para dar lugar a percepções eletrônicas de tempo e espaço e que nada teriam em comum com as do passado.
Por meio da confrontação do “espaço substancial” com o “espaço acidental”, Virilio (2008) tenta vislumbrar a condição da Arquitetura contemporânea “em meio ao desconcertante concerto das tecnologias avançadas”. (P.17). Ele ressalva que não se trata de um julgamento maniqueísta, de um elogio ou uma condenação a priori dos meios técnicos atuais, mas da abordagem de um fenômeno complexo que suscita alterações radicais nos mais diversos referenciais: perceptivos, estéticos, políticos, filosóficos. A dualidade substancial versus acidental tem a pretensão de entender a dinâmica tecnológica que envolve a Arquitetura nos dias atuais, de modo a compreender a crise do espaço contínuo e homogêneo em benefício da relatividade do espaço descontínuo e heterogêneo.
Das preocupações de Virilio emergem, portanto, questões ligadas à atualidade do fazer
arquitetônico, ou, precisamente, ao confronto de duas concepções projetuais: uma
proveniente da noção de espaço estável, que produz uma arquitetura constituída por
elementos perfeitamente localizáveis; e a outra derivada da ideação de espaço instável, a
ensejar uma arquitetura que agrega às suas estruturas construídas uma profusão de efeitos
especiais. Da primeira concepção, o espaço que surge tende a ser composto pela noção do
todo que se relaciona e se harmoniza com suas partes; na segunda, o espaço resultante
inclina a ser constituido por partes desintegradas e definido por superfícies criadas pelo
grande aparato tecnológico da Era digital. Nos dois tipos de espaço, os arquitetos criam
mundos projetuais por meio da escolha de processos compositivos e de instrumentos de
desenho e mídias de representação compatíveis com cada tipo de espaço. A questão é saber
– e daí procede a pertinência do tema – se comprovado o deslocamento do estático na Arquitetura para uma condição de instabilidade, será possível detectar nesta condição a permanência de elementos e princípios arquitetônicos em concepções recentes, ou se os procedimentos de composição e representação tradicionais não são mais suficientes para traduzir o espaço arquitetônico produzido pela sociedade informacional 3 . As respostas a essas indagações têm implicações de ordem projetual – como o edifício será projetado – e de ordem pedagógica – que processos devem ser utilizados no ensino de Arquitetura, indicando o grau de pertinência da pesquisa.
2.2 Espaço de fluxos, espaço de lugares
O pensamento de Virilio encontra paralelo na compreensão de Manuel Castells (1999) sobre o que este entende como “paradigma tecnológico baseado na informação”. Para Castells, esse paradigma deu nova face ao arranjo social, contribuindo de modo decisivo para a definição dos traços distintivos das sociedades do final do século XX e começo do terceiro milênio. As mudanças provenientes das transformações tecnológicas e econômicas fizeram com que a relação da sociedade com o processo de inovação técnica tenha passado por grandes alterações. Castells, no entanto, não sugere que novas formas e processos sociais surgem em consequência de transformação tecnológica, pois “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”. (P. 25). Ele compreende que a tecnologia incorpora a sociedade e esta utiliza a inovação tecnológica, ocorrendo uma interação dialética de ambas que faz surgir outras práticas sociais. O novo formato de organização social configurada ao fim do século XX e analisado por Castells – o conceito de sociedade em rede – teria promovido alterações da vivência do espaço e do tempo, dando a moldura para a formatação de realidades diversas, incluindo a Arquitetura. À nova lógica espacial que surge sob o efeito do paradigma da tecnologia da informação Castells chama de espaço de fluxos, em oposição ao espaço de
3
O termo informacional é aqui utilizado no sentido dado por Castells, indicando “o atributo de uma forma
específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se
as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas” surgidas na segunda
metade do século XX. Castells considera que uma das características principais da sociedade informacional é a
lógica de sua estrutura baseada em rede, o que explica o uso do conceito de “sociedade em rede”. Ver
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede; tradução Roneide Venâncio Majer (A era da informação: economia,
sociedade e cultura; v. 1). São Paulo: Paz e Terra, 1999, Prólogo, nota 33, p. 46.
lugares, este tendo relação com a ordem espacial historicamente enraizada na experiência comum das pessoas (p.404). Ainda conforme Castells (2001, p. 440), o espaço de lugares vincula-se às pessoas, que são locais, enquanto o espaço de fluxos é associado às elites empresariais e financeiras, que são cosmopolitas. Da oposição dialética entre essas duas expressões de lugares emerge um debate sobre a Arquitetura atual que pode ser visto em Castells e que mantém um paralelo com as ideias de espaço acidental e espaço substancial definidas por Virilio. Este vê a Arquitetura resultante do espaço acidental constituída por uma profusão de efeitos especiais, enquanto Castells (2001, p. 444-445) enxerga as formas da arquitetura moldada pelo espaço de fluxos como neutras, diáfanas, puras, resultando no que ele chama de “arquitetura da nudez”. Dessa discussão desponta a oportuna investigação sobre se há, na sociedade informacional, uma forma espacial predominante e, em caso afirmativo, quais as consequências dessa constatação na formatação da Arquitetura.
A dualidade do espaço substancial versus espaço acidental – destacada por Virilio – ou do espaço de fluxos versus espaço de lugares – formatada por Castells – pode explicar o deslocamento do estático na Arquitetura, que estaria ocorrendo em meio a um outro universo de objetos artificiais, outros modos de produção e outras visões de mundo, recentemente definidos. Nos anos 1960 viu-se florescer de início as chamadas estéticas informacionais e a redefinição de questões de espaço, tempo, memória, fruição e cultura, que procuram explicar que a Arquitetura está perdendo plasticidade, passando da hegemonia do espaço fechado e estável para uma ‘’antropologia cultural das superfícies’’
(DOMINGUES, 2009, p. 36) 4 . No âmbito dessa compreensão teórica, a Arquitetura se manifesta por meio das possibilidades tecnológicas da computação gráfica em criar superfícies envoltórias, maleáveis, fluidas e envolventes com o intuito de criar um modo de fruição estética distinta da tradicional. O território é composto ultrapassando o efeito material e concreto das estruturas construídas, indicando que, no processo de mudanças da noção de limite, o pleno não existe mais. Assistir-se-ía, desde modo, a um fenômeno paradoxal “em que a opacidade dos materiais de construção se reduz a nada” (VIRILIO, 2008, p. 9). O espaço construído participaria de uma topologia transparente, eletrônica, ligada a um tempo de duração técnica, “sem comparação com qualquer calendário de atividades ou
4
A autora analisa o sistema de arte geral, não fazendo menção específica à Arquitetura.
memória coletiva [...], duração que contribui para a instauração de um presente permanente [...]” (VIRILIO,2008, p. 11). 5
2.3 Fazer arquitetônico e cânones
Para Corona Martínez (2000), a consequência das novas concepções de mundo na Arquitetura é que esta se tornou uma relíquia cultural, sobretudo porque “... os meios que serviam para imaginar um edifício e para construí-lo entraram em crise sem que tenhamos com que substituí-los”. (P. 51). Hoje já não se projeta para a eternidade, assinala Corona Martínez, porém os mesmos métodos são usados para projetar e métodos parecidos para construir. O edifício, que até há cerca de dois séculos se mostrava como “o protótipo da obra humana, o artefato privilegiado por sua durabilidade e magnitude” (p.51), teria passado para o círculo do consumo e da moda. Corona Martínez entende, entretanto, que essa passagem só ocorre pela via da representação, haja vista que a Arquitetura – protótipo da permanência – não é produzida em velocidade e quantidade suficientes para que possa ingressar no âmbito do superconsumo. A materialidade arquitetônica só ocorre depois que a ideia circula sob a forma de representação arquitetônica, fazendo com que o edifício tenha a imagem de coisa demasiadamente conhecida. Em consequência, “projeta-se pela metade algo que está superado antes de ser construído” ou, inversamente, em reação a esse efeito,
“persegue-se a atemporalidade, reduzindo a arquitetura a uma geometria de volumes simples, platonicamente eternos”. (P.53). Das ideias de Corona Martínez depreende-se que, apesar de os objetivos sociais e culturais terem mudado, continua-se a utilizar cânones 6 clássicos na representação e materialização da Arquitetura atual.
5
Entende-se o presente permanente de Virilio como o tempo das pequenas narrativas práticas, cotidianas, que substituíram as grandes narrativas téoricas, herdeiras da Renascença e que eram ligadas à capacidade universalmente reconhecida de dizer, descrever e inscrever o real; compreende-se como a crise da noção de
“narrativa” intercambiada com a crise da ideia de “dimensão” como narrativa geometral e que levou, conforme Virilio (2008), à súbita fratura das formas inteiras, à “destruição das propriedades do único pela industrialização...”. (P.19). Tem relação, acrescente-se, com a aceleração do enfraquecimento da faculdade de intercambiar experiências que caracterizava as sociedades pré-modernas, conforme o sentido expresso por Walter Benjamin. Ver Os pensadores (textos escolhidos); tradução José Lino Grunnewald e al. 2 ed. São Paulo:
Abril Cultural, 1983.
6
O termo cânone (ou ordem) é aqui utilizado como um conjunto de regras gerais de onde se extraem regras
especiais, como as definidas por uma ordem arquitetônica clássica específica (dórica, jônica ...) ou pelos
preceitos arquitetônicos formulados por Le Corbusier, na primeira metade do século XX. A palavra cânone
possivelmente derive do grego kanon, termo utilizado para designar uma vara ou cana que servia de referência
como unidade de medida.
Para outros estudiosos da contemporaneidade, entretanto, a natureza interdisciplinar dos trabalhos com novas mídias, bem como as metodologias atuais, argumentam contra se estabelecer qualquer cânone único ou histórico para o desenvolvimento das novas práticas criativas 7 . Há quem considere – como o arquiteto holandês Lars Spuybroek 8 – o desenho arquitetônico tradicional como sendo um sistema redutivo. A concepção de superfícies envoltórias, maleáveis e fluidas requeridas pela contemporaneidade – e que remetem à noção de espaço acidental definida por Virilio e à ideia de espaço de fluxo formatada por Castells – exigiria mudanças nas ações projetuais, representativas e construtivas da Arquitetura, agora entendida como espaço eminentemente animado e interativo. Para isso, seria preciso modelar, por meio das avançadas técnicas de animação, “as estruturas e as formas arquitetônicas no âmbito de um espaço virtual constituído por inúmeros movimentos, fluxos e forças em constante interação e transformação”. (SILVA, 2004). O digital se colocaria de forma inovadora nos processos de criação, produzindo imagens que assumiriam estados mutantes por experiências vividas pelo sujeito no processo de percepção e fruição dos novos agenciamentos espaciais, “interfaceados” com tecnologias interativas (DOMINGUES, 2009, p.36). O resultado plástico derivado desse processo cabe no conceito de “arquitetura líquida”, que tem o propósito de significar um território interativo e liquefeito resultante de algorítmos matemáticos. 9 Tal plasticidade liquefeita – que aqui pode ser exemplificada por meio do Pavilhão da Água Doce 10 (Figura 2.1) – encontra paralelo no
7
Como é o caso de MALINA, Roger. Leonardo olhando para frente: fazendo a história e escrevendo a historia.
In: DOMINGUES, Diana (org.). Arte, ciência e tecnologia: passado, presente e desafios; tradução Flávio Gisele Saretta et al. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 20.
8
Spuybroek dirige o escritório de Arquitetura e design Nox, que, além de Arquitetura, produz objetos,
instalações multimídias, vídeos e textos diversos que são publicadas em revistas especializadas. Os integrantes do grupo Nox têm discutido com outros arquitetos contemporâneos os princípios e as diretrizes de uma arquitetura que recebeu a denominação de “arquitetura líquida”, resultante da preocupação do papel do computados na concepção, imaterialidade, interatividade e informação na arquitetura. Ver VELLOSO, Ivan Mac- Dowel. Os meios digitais na arquitetura do Grupo NOX. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo).
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura-PROPAR, Porto Alegre, 2009. Disponível em:
<http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/24801/000747017.pdf?sequence=1>. Acesso em : 28 out.
2010.
9
A expressão “arquitetura líquida” é creditada ao arquiteto venezuelano Marcos Novak, tendo aparecido em um trabalho seu publicado em 1991 (Liquid Architectures in Cyberspace). A arquitetura líquida de Novak se limita à exploração de formas e espaços virtuais, mas a expressão passou a ser vista como sinônimo de espaço onde as percepções sensoriais humanas condicionam e determinam a ambiência, associando agenciamentos espaciais a uma manifestação momentânea do tempo, em que imagens e mensagens não possuem localização precisamente definida.
10
Obra analisada em detalhes no capítulo 4 desta tese.
conceito de “modernidade líquida”, nos termos empregados pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2001) para caracterizar os tempos atuais. Para ele, a (pós) modernidade é líquida porque dilui os sólidos as grandes instituições como a família e a religião, as antigas relações sociais e de trabalho, as ordens econômicas e as grandes utopias e dota a sociedade atual de grande mobilidade, fluindo, sem limites ou controles, por meio das fronteiras geográficas. É, segundo Bauman, um processo de descorporificação e desterritorialização, no qual o tempo adquire instantaneidade e urgência, e os espaços de trabalho e de relações pessoais perdem o imperativo da proximidade física, multiplicando-se e interagindo em distintos lugares físicos. Ocorreria, desse modo, um processo de
“virtualização” da vida cotidiana nos variados ambientes de interação humana, sejam os direcionados ao trabalho, à moradia ou ao puro convívio social.
1
2 Figura 2.1 – Plasticidade liquefeita
Pavilhão da Água Doce, Ilha de Neetje Jans, Holanda, 1993-1997. Grupo Nox.
Perspectivas do exterior (1) e do interior (2).
Fonte: http://www.nox-art-architecture.com/ (1 e 2).
Arquitetura configurada por um arranjo geométrico não ortogonal, se enquadrando, supostamente, em um
padrão de espaço distinto do cartesiano. Piso, teto e parede são organizados como uma superfície envoltória
única na busca por uma continuidade espacial fluida e envolvente, plasticidade liquefeita que encontra paralelo
no conceito de “modernidade líquida” nos termos empregados por Bauman (2001).
Malgrado o emprego ou não de cânones ou da virtualização na realidade do fazer arquitetônico atual, o tipo de dualidade destacado por Virilio parece não ser necessariamente um produto típico da sociedade informacional. Embora possa ser vista como algo característico da atualidade, a dualidade substancial versus acidental se configura como algo arcaico, percebida desde muito tempo. Pelo que se pode extrair dos ensinamentos históricos, ela acompanha a Arquitetura em diversos momentos, como a dualidade surgida das noções de espaço e forma provenientes do pensamento de Platão e Aristóteles ou a contraposições (derivadas ou não do embate platônico-aristotélico) do clássico com o Medievo, o romântico ou o moderno. Na tarefa de se conhecer e compreender o papel das preexistências, permanências e mutações no campo da Arquitetura, o saber histórico é o meio fundamental. A história faz parte operativa do presente, pois fazer edifícios novos quase sempre é uma crítica ou referência a edifícios do passado. “O significado de uma igreja é outra igreja”, disse Décio Pignatari (1989, p.119), embora as formas, expressões ou composições arquitetônicas se relacionem a determinadas circunstâncias e traduzam os sentimentos do momento histórico em que foram concebidas.
A dinâmica histórica leva às mutações, entretanto as formas da Arquitetura podem não ser apenas casuais e incertas, com significado eminentemente contextualizado com a época.
Levadas da Geometria pura à Arquitetura, elas podem se expressar em determinados momentos históricos como absolutas, dando lugar a signos que parecem transcender o significado temporal (PEREIRA , 2010, p. 38). À luz do passado é possível compreender ações arquitetônicas do presente com o intuito de se especular sobre o sentido da Arquitetura hoje produzida em meio a uma sociedade informacional, que se mostra com a necessidade de representar mais dados, camadas e conexões do que as sociedades que a precederam 11 .
2.4 Espaço platônico
Na visão platônica, o mundo material, tanto físico quando biológico, pode ser inteligível em virtude do número – assim como preconizava a doutrina pitagórica. Na relação entre as formas e os objetos, há, entretanto, certa diferenciação entre as duas propostas. Para os pitagóricos, os números são realidades corpóreas, constituídas por unidades
11
Para seguir-se a compreensão de Lev Manovich sobre a sociedade informacional, conectada em rede, contida
no texto “Abstração e complexidade”, in: Domingues, 2009, p.407.
indecomponíveis. As coisas imitam os números numa acepção plenamente realista: os objetos refletem exteriormente sua constituição numérica interior e, deste modo, “o modelo e a cópia estão ambos no plano do concreto; são as duas faces – interna (apreendida racionalmente) e externa (apreendida pelos sentidos) – da mesma realidade” (PESSANHA, 1987, p. XVIII). No projeto platônico há, na criação das formas, um “distanciamento” entre o plano sensível (o que se apreende pelos sentidos), e o inteligível (o que se apreende pela razão). Por meio de um discurso universal autônomo e fundado na razão, Platão acredita poder realizar seu projeto por intermédio de um progressivo afastamento da experiência sensível em direção ao inteligível puro. Ao fazê-lo – explica Garcia-Roza (2003, p. 9) – inicia o movimento do pensamento em direção a um mundo de puras formas: uma realidade metafísica, criando, assim, a transcendência, a busca da pureza. Os objetos físicos – múltiplos, concretos, perecíveis – aparecem como cópias imperfeitas dos arquétipos ideais, incorpóreos, perenes; são apenas pálidos reflexos das essências puras ou ideias arquetípicas.
O mundo sensível é uma imitação do mundo inteligível, pois as ideias não podem ser percebidas pelos sentidos, mas apenas pela razão pura.
No âmbito da Arquitetura (e da visão platônica), se esta tenciona espelhar as essências (ideias), que são fixas e eternas, terá que erigir edifícios sólidos e duradouros, pois o verdadeiro não se altera nem é corrompido pelo tempo (PULS , 2006, p. 109). Em se tratando da conformação urbana, a estrutura racional, articulada e lógica da cidade ideal platônica deveria ter um tamanho delimitado pelo número de habitantes e por uma muralha. As principais condições de existência da pólis platônica eram que fosse pequena, isolada, contida em si mesma e fechada. Para Mumford, Platão subestimava os estímulos e desafios do crescimento e da variedade, a desordem, o conflito, a tensão, a fraqueza, coisas que, se não petrificadas em um padrão fixo, poderiam produzir uma comunidade muito mais desejável. A imagem da cidade que Platão cultivava, entretanto, era a de um absoluto geométrico baseado em ideais arquetípicos, uma cidade latente como ideia, mas que jamais foi adequadamente realizada em tijolos ou mármores 12 . Ficou, entretanto, o conceito de espaço platônico – fechado, estático, duradouro, contido em si mesmo – que, com respaldo na cultura clássica helênica, impregnou as concepções artísticas do mundo ocidental em
12
Ver MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas; tradução Neil R. da
Silva. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 191-219.
vários momentos históricos. E daí parece proceder a noção de “espaço substancial”
formulada por Virilio, espaço que define uma expressão arquitetural homogênea e estática, precisamente constituída por paredes, níveis e limiares.
2.5 Matéria e forma em Aristóteles
Contraposto à teoria platônica das ideias, Aristóteles compreende que a essência das coisas está nas próprias coisas e não em um mundo unicamente inteligível, como fazia crer Platão. Para Aristóteles, a essência das coisas está na substância – que é, para ele, a fusão da matéria com a forma 13 – e não separada em um mundo de ideias perfeitas e de formas imperfeitas, equivalendo a dizer que não é possível conhecer as coisas somente pela inteligência, pois, se assim fosse, a percepção sensível seria inútil 14 . A percepção sensível, ao contrário, mostra que as coisas se transformam continuamente, admitindo-se, juntamente com a inteligência, um misto de racionalismo e empirismo sensível em questões concernentes ao conhecimento daquilo que existe ou com possibilidade de existir. Na constituição do substrato das coisas corpóreas, as formas geométricas retratam os aspectos figurativos dos objetos, concretizados por um suporte material qualquer, ocorrendo a fusão de forma e matéria. A matéria informe se acrescenta, se agrega, é sintetizada com a forma, sendo constituída, nesse processo, a essência do objeto. Por meio das causas material (aquilo de que uma coisa é feita) e formal (que define o objeto, distinguindo dos demais) é estabelecida a beleza de um ente observado por um contemplador externo, as quais Aristóteles acrescenta a causa final (a utilidade) e a causa motora (o trabalho despendido pelo agente que faz o objeto) para explicar as nuanças da beleza arquitetônica (PULS, 2006, p. 143).
Na visão aristotélica, um edifício não deve tão-somente ser bem formado e dimensionado, mas tem de ser adequado à sua finalidade; há de também suscitar a admiração pelo trabalho necessário para sua construção. A forma está ligada à causa final (a função) e a dimensão vincula-se à causa motora (que permitiu a produção) e dessa
13
Na interpretação aristotélica, uma escultura de madeira, por exemplo, é a fusão da madeira (matéria) com o projeto do artesão (forma).
14
Aristóteles, Metafísica, livro I, capítulo IX.
imbricação surgem as explicações da obra arquitetônica e as causas de sua beleza 15 . No âmbito da cidade, Aristóteles aceitava a necessidade de variedade e pluralidade, entendendo que o ideal não era uma forma racionalmente abstrata, a ser arbitrariamente imposta. No dimensionamento dessa cidade, utiliza a lição do crescimento controlado aprendido do mundo orgânico, ao ensinar que em todas as espécies biológicas existe um limite de tamanho; e mostra isto como igualmente verdadeiro para os artefatos humanos, incluindo à cidade, cujo tamanho e superfície não podem ser aumentados indefinidamente.
E o melhor limite da cidade não deveria ser dado pela muralha, mas pelo espaço suficiente para as finalidades da vida e para ser abrangido de um único olhar pelo cidadão, ideia ao mesmo tempo formal e política de unidade urbana (MUMFORD, 2008, p.222-229). E talvez aí esteja implícita a mesma essência proveniente da fusão da forma com a matéria, em que a
“matéria informe” que se acrescenta à forma urbana é a dimensão política, com ambas constituindo o substrato da vida citadina, que permitia ao cidadão, do alto da acrópole, contemplar – como diz Mumford – “toda a sua cidade tão prontamente quanto podia abranger a forma e o caráter de uma única pessoa”. (2008, p.224). Pelas noções de organicidade, variedade e pluralidade presentes na concepção aristotélica da forma é possível relacioná-la com o conceito de “espaço acidental” proposto por Virilio, embora a relação não seja tão imediata quanto a vinculação do conceito de “espaço substancial” com a concepção platônica do espaço.
2.6 Ordem formal platônica e interpretações aristotélicas da forma
Não obstante a crítica de Aristóteles, a ideia pitagórica e platônica de um mundo ser conhecido por princípios abstratos, e, portanto, mais afastados dos dados imediatos dos sentidos, vem introduzir na Ciência o conceito de prova formal, proposição que passa a outra, formando uma sequência, com o intento de se chegar a uma proposição conclusiva. A prova formal é o conceito-chave para a elaboração dos sistemas axiomáticos vistos em Os elementos, de Euclides, obra que expõe de modo dedutivo todo o conhecimento geométrico da época e cuja abordagem definiu a natureza da Matemática até
15
Aristóteles, Metafísica, 983a-983b.
o século XIX 16 . De Pitágoras a Euclides, passando por Platão, observa-se que aos princípios do número são acrescentadas as propriedades do espaço, ensejando, por meio de processos de abstração, uma passagem da Aritmética para a Geometria 17 . O espaço, a Geometria e a forma fazem parte de um território de leis próprias que produzem a linguagem clássica da Arquitetura cuja permanência impregnou (para sempre?) a Arquitetura ocidental. Tal linguagem tem como suporte os conceitos de ordem e proporção, que definem a disposição das partes na composição de um conjunto – conforme será visto com maior profundidade no capítulo 3. A ordem é uma categoria abstrata, ideal, transferida a uma obra arquitetônica, dando lugar a uma ordem concreta, real; tem semelhança com o pensamento idealista de Platão, pois são regras ideais que podem se configurar concretamente e de modo distinto, não sendo formas materiais ou sensíveis ( PEREIRA, 2010, p. 51-52).
A ordem formal platônica estabeleceu-se ao longo da história da Arquitetura, diluindo as interpretações aristotélicas da forma como substância, “como o propósito e o elemento ativo da existência do objeto”. (MONTANER, 2002, p. 8). Para Montaner, só no princípio do século XX a forma voltou a ser entendida “como a essência, a composição estrutural interna, a estrutura mínima irredutível constituída por elementos substanciais e básicos”, superando tradições insuficientes, fruto de um pensamento conservador que formatava o mundo como fechado e estático (MONTANER, 2002, p. 8) 18 . Um retorno a Aristóteles já havia ocorrido na Idade Média, embora a vastidão do período desafie a capacidade de síntese sobre a questão.
Sabe-se, entretanto, que, durante certo período da Idade Média, houve grande resistência de Roma ao ensino e propagação da Filosofia grega. O temor papal era de que os
16
A despeito das diferenças com Pitágoras e Platão, o pensamento de Aristóteles é de grande relevância para o desenvolvimento da Ciência dedutiva, entendida por ele como um edifício “logicamente estruturado de verdades encadeadas em relações de consequência lógica a partir de pressupostos fundamentais não demonstrados”, a mesma concepção exemplarmente utilizada por Euclides. A obra Os elementos responde a um ideal aristotélico de ciência, embora não siga a inferência da silogística aristotélica, que é a argumentação lógica constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Ver SILVA, Jairo José. Filosofias da Matemática. São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 50.
17
No Timeu, Platão fornece uma descrição da estrutura da realidade empírica em termos geométricos, em substituição à teoria aritmética dos pitagóricos, conforme pode ser visto no capítulo 3 desta tese.
18
Montaner reporta-se ao conceito aristotélico de forma, mas esta é aqui utilizada, para o caso da Arquitetura,
como entidade geradora do espaço arquitetônico, independentemente da natureza do espaço, seja ele
substancial, acidental, de lugares, de fluxos, platônico ou aristotético. Na análise de obras arquitetônicas, a
pesquisa vai além das explicações visualistas, pois compreende que o conceito de forma pode ter relação com a
materialidade empregada, com os aspectos funcionais, sociais e com o entorno. As formas transmitem valores,
remetem a determinados significados e algumas se tornam marcos visuais e culturais, como as obras
arquitetônicas escolhidas para estudo de caso e analisadas no capítulo 5.
conhecimentos dos autores pagãos desviassem os cristãos nas crenças dos dogmas ou fizessem neles nascer heresias. Não havia, no entanto, como ignorar a herança intelectual grega, que progressivamente se difundia, tanto no original quanto por meio dos árabes e também das universidades (NASCIMENTO. In: OLIVEIRA et al., 1996, p.37).
2.7 Medievo e ordem aristotélica
Uma vez aceita a filosofia pagã, a pouco e a pouco as obras de Platão e Aristóteles
redefinem o pensamento medieval, iniciando a formação do sujeito moderno (MALARD,
2006, p.57). Antes mesmo do que a historiografia considera como início da Idade Média,
Santo Agostinho (334-430) já se servia de Platão para discutir as verdades da religião, não
relegando toda a tradição filosófica à categoria do erro. As verdades da fé, entretanto,
situavam-se em um plano superior ao conhecimento profano, pois “a fé na revelação divina
proporciona o mais elevado conhecimento de que somos capazes, e tais verdades não as
poderíamos alcançar somente pela força da razão”. (NASCIMENTO. In: OLIVEIRA et al., 1996,
p.37). Com a aceitação da cultura pagã, o ensino na Idade Média passa a contar, de um lado,
com um elenco de matérias vinculadas ao saber profano, e, de outro, com a Teologia cristã –
com as primeiras a serviço da segunda. A convivência entre as duas instâncias nem sempre é
pacífica, como pode ser visto em Pedro Abelardo (1079-1124), ao censurar aqueles que
diminuem o valor da dialética – disputa argumentativa baseada apenas na razão. Abelardo
defende a argumentação dialética como um serviço que se pode prestar à religião, pois a
habilidade na disputa e a segurança na fé permitirão o triunfo sobre os hereges
(NASCIMENTO. In: OLIVEIRA et al., 1996, p.37). Nascimento acrescenta que a militância em
favor da verdade também está presente em São Tomás de Aquino (1225-1274), embora que
de maneira bem diferente. Na Suma Teológica, uma das bases da dogmática do catolicismo
e uma das principais obras da Escolástica, São Tomás trata de numerosas questões, segundo
a disputa de argumentos com a seguinte estruturação: é exposta uma tese, são expressos os
argumentos contrários, as razões a favor e depois os primeiros são refutados. No
entendimento de São Tomás, a Filosofia é um trabalho de demonstração da verdade por
meio de instrumentos que permitam ao filósofo triunfar sobre os detentores das pretensas
verdades. Deste modo, a Filosofia não é a busca pela verdade, simplesmente porque a
verdade já foi encontrada por meio da palavra de Deus. E mais, no plano estritamente
filosófico, não há como se buscar a verdade, pois ela está posta na obra de Aristóteles, a quem São Tomás chama simplesmente o Filósofo 19 . “Há, portanto, duas sínteses: a das verdades profanas, filosoficamente, constituídas pela doutrina de Aristóteles; e a das verdades cristãos, contidas na Sagrada Escritura e nas interpretações autorizadas dos textos sacros”. (NASCIMENTO. In: OLIVEIRA e al., 1996, p.39). O eixo da Filosofia tomista centrava- se na relação entre fé e razão, que para Tomás de Aquino não estão em conflito, dando-se a tarefa de compatibilizar a Filosofia aristotélica com a síntese das verdades cristãs.
Voltando ao âmbito da Geometria, da forma e da Arquitetura, as catedrais góticas pareciam concretizar o esforço escolástico de firmar a paz duradoura entre a fé e a razão.
Representavam, pelo lado da fé, o triunfo da luz sobre a escuridão, ou seja, o próprio Cristo, que seria a nova luz que iluminou o mundo depois de uma longa época de trevas. E como as igrejas eram a casa de Deus, cada templo deveria ser a morada da luz. Para poder captar a luz para o interior do templo de modo que ela fosse protagonista, teriam que se valer da razão, uma vez que as velhas técnicas construtivas da Arquitetura românica, do período anterior ao gótico, não seriam satisfatórias. Nas grossas e maciças paredes de uma edificação românica, não se podia abrir grandes vãos por onde penetrasse a luz em torrentes e iluminasse o interior do templo. Era necessário e imprescindível abrir as paredes e rasgá- las de cima a baixo com grandes janelas para, através delas, capturar a luz do Sol, e deixá-la inundar os santuários cristãos. A Geometria racional da nova Arquitetura introduziu o arco ogival de dois centros, o arcobotante e o contraforte. Estes elementos constituíam a base do sistema estrutural da catedral gótica, capazes de abrir grandes vãos e de suportar os esforços das abóbadas de pedra, que já não eram suportados pelas paredes e sim pelos contrafortes nos quais os arcobotantes descarregavam os esforços (Figura 2.2). Deste modo, estavam garantidos a paz entre a fé e a razão, bem como o triunfo da luz, sendo possível a construção de naves tão altas como nunca até então se conseguira no Ocidente cristão.
19
Tomás de Aquino procurou estabelecer a doutrina católica com base na Filosofia de Aristóteles, embora que
a Teologia aristotélica não estivesse em sintonia com a noção de Deus adotada pelo Cristianismo. O Deus de
Aquino é a fonte de toda a existência; o Deus de Aristóteles “é uma espécie de arquiteto desinteressado”, diz
Russel, pois “a existência não é considerada como algo que precise ser conferido a coisas particulares, que
simplesmente estão ali, assim como a matéria-prima da qual foram moldadas”. Apesar disto, o aristotelismo de
Aquino conseguiu se firmar de modo completo, com o tomismo se transformando na doutrina oficial da Igreja
romana do século XIII ao século XV. Ver RUSSEL, Bertand. História do pensamento ocidental: a aventura das
idéias dos pré-socráticos a Wittgenstein; tradução Laura Alves e Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002,
p.216-220.
Figura 2.2 – Sistema estrutural gótico
Corte perspectivado com esquema de distribuição dos esforços.
(Intervenção gráfica que se fez sobre desenho de Viollet le-Duc)
O sistema estrutural adotado possibilita a abertura de grandes vãos, pois os esforços das abóbadas de pedra passam a ser sustentados não mais pelas paredes, como no período românico, mas principalmente pelos contrafortes nos quais os arcobotantes descarregam os esforços. As catedrais pareciam, assim, concretizar o esforço escolástico de firmar a paz duradoura entre a fé e a razão.
Como um tratado escolástico, a catedral gótica evidenciava a estruturação e a subdivisão
sistemática de suas partes, tanto em planta quanto nos demais elementos da edificação,
como as abóbadas de nervuras. Diferentemente do período romântico, tais abóbadas se
distribuem em um só tipo pelas partes que compõem a catedral: o conjunto longitudinal, o
transepto, a abside, o deambulatório e a franja de capelas radiais. O resultado formal é
proveniente do racionalismo construtivo, onde o sistema estrutural promove a
desmaterialização das paredes, libera ao máximo o espaço interno – que se enchem de luz –
e faz com que a edificação se alce ao céu. O mecanismo de composição utilizado pelas
guildas medievais tem como base o conhecimento dos recursos construtivos e sua
codificação, ensejando formas que só serão compreensíveis pela materialidade construtiva.
Das especulações de Tomás de Aquino, é possível extrair a ideia de que o ofício do arquiteto medieval, como do sábio, era organizar diretamente as coisas em função de uma meta, tirando dessa meta a regra do seu governo e da ordem que cria 20 . E a regra se mostra como sendo a junção de forma e matéria, ordem aristotélica que parece definir a essência arquitetural da catedral gótica.
A mesma essência pode ser observada no desenho peculiar do burgo medieval: irregular, tortuoso, com forma inesperada em cada esquina, sendo marcado pela sinuosidade, descontinuidade e a surpresa, arranjo espacial que sugere o caminhar, seja para as atividades cotidianas, para um cortejo de guilda ou procissão religiosa; um cenário urbano sem eixos, de massas construtivas dinâmicas, que se expandem ou desaparecem pela aproximação ou afastamento do ponto de vista do caminhante. Mumford descreve a cidade medieval como um panorama de perspectivas obstadas, que aumentam o efeito da verticalidade das torres e campanários, atraindo os olhos para o céu; um cenário de estruturas relacionadas entre si, organicamente dispostas, que conformam o movimento do caminhante, que apreende as formas dinâmicas que vão surgindo, “com um sentimento de constrição nas ruas estreitas e de libertação, quando subitamente se saía no adro ou na praça do mercado”. (MUMFORD, 2008, p. 333). A cidade medieval seguia os contornos de seu sítio rochoso, áspero, sendo definida por um planejamento orgânico, que partia de uma vantagem acidental para alcançar, no seu desenho, um elemento forte que uma planta definida a priori não poderia antecipar. Em sua unidade e diversidade, estavam presentes a espontaneidade e os aspectos acidentais, mas também a intenção consciente do planejamento urbano, que combinava o velho com o novo e entendia ser a cidade um receptáculo de tensões e pressões, os mesmos aspectos que estavam simbolizados na estrutura da catedral gótica, que desmaterializava as paredes a fim de deixar o interior aberto a uma torrente de luz 21 . Enfim, uma ordem aristotélica, simultaneamente acidental e consciente, em que a forma não é arbitrariamente imposta (figura 2.3).
20
Ver TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os gentios; tradução L. J. Baraúna. “Os Pensadores”, 2. ed. São Paulo:
Abril Cultural, 1979, Capítulo 1.
21