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VIVIANE SIMAS DA SILVA

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Academic year: 2022

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COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS NA CIDADE DE MANAUS COMO MEIO DE PRESERVAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS PARA GARANTIA DE UM MEIO AMBIENTE SUSTENTÁVEL.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas, como requisito para obtenção do grau de Mestre em Direito Ambiental.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho.

Manaus – Amazonas Novembro, 2020

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Ficha Catalográfica

Ficha catalográfica elaborada automaticamente de acordo com os dados fornecidos pelo (a) autor (a). Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade do Estado do Amazonas.

S586c SILVA, VIVIANE SIMAS DA

COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA

PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS NA CIDADE DE MANAUS COMO MEIO DE PRESERVAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS PARA GARANTIA DE UM MEIO AMBIENTE SUSTENTÁVEL / VIVIANE SIMAS DA SILVA. Manaus: [s.n], 2020.

76 f.: color.; 29 cm.

Dissertação - Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental - Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, 2020.

Inclui bibliografia

Orientador: Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho

1. Água. 2. Poço Artesiano. 3. Recursos Hídricos.

4. Cobrança. 5. Sustentabilidade.

I. Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho (Orient.). II. Universidade do Estado do Amazonas. III. COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS NA CIDADE DE MANAUS COMO MEIO DE PRESERVAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS PARA GARANTIA DE UM MEIO AMBIENTE SUSTENTÁVEL.

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VIVIANE SIMAS DA SILVA

COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS NA CIDADE DE MANAUS COMO MEIO DE PRESERVAÇÃO DOS

RECURSOS HÍDRICOS PARA GARANTIA DE UM MEIO AMBIENTE SUSTENTÁVEL.

Dissertação aprovada pelo Programa de Pós-graduação em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas, pela Comissão Julgadora abaixo identificada.

Manaus, 30 de Outubro de 2020.

Presidente: Prof. Dr. Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho Universidade do Estado do Amazonas

Membro Interno: Prof. Dr. Mauro Augusto Ponce de Leão Braga Universidade do Estado do Amazonas

Membro Externo: Prof. Dr. Allan Carlos Moreira Magalhães Universidade Federal de Fortaleza

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Esta pesquisa é dedicada à Gracely Simas de Lima, minha mãe, que muitas vezes fez o impossível para investir em educação e se tornar uma atuante incentivadora dos estudos.

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Sou grata a Deus por todos e tantos benefícios que me tem feito desde o início desta jornada. E que apesar de não ser merecedora, continua me constrangendo com seu amor.

Aos meus pais (Sr. Divino e Dona Gracely) que de maneira singular contribuíram emocionalmente e financeiramente em toda jornada acadêmica. Em meio a erros e acertos forjaram a profissional que me tornei.

Ao meu esposo que suportou as cargas com seu foco e determinação.

Aos meus filhos (Marcello Miguel e Marcello Gabriel) que a cada dia me motivam a ser um ser humano melhor e a lutar por meus sonhos através do amor dispensado.

A tia Eridan (Dan) e a tia Mirtes por todos cuidado e preocupação.

Ao meu tio José Jorge de Melo (In memoriam) pelo legado deixado na academia e na pesquisa.

Exemplo de educador. Um eterno incentivador dos estudos.

Aos meus irmãos Vanessa e Jonathas pelas brigas e gargalhadas, pelos pensamentos e opiniões divergentes que nos unem e nos motivam a ajudar um ao outro em tudo que é preciso.

Ao meu orientador, Dr. Erivaldo Cavalcanti e Silva Filho por seu exemplo e amor pelos recursos hídricos. Um verdadeiro papa do direito de águas no Brasil que cativa a todos que o cercam com sua simplicidade e grandeza.

Ao Deputado Sinésio Campos, presidente da Presidente da Comissão de Geodiversidade e Recursos Hídricos, Minas, Gás, Energia e Saneamento da ALEAM que disponibilizou o Relatório do Grupo De Trabalho do Saneamento Básico.

Ao Sr. Sthanley Bastos que intermediou todo contato com a Comissão de Recursos Hídricos, mesmo sem me conhecer, atuou como auxiliador e motivador da pesquisa acadêmica.

Ao Dr. Robério dos Santos Pereira Braga que planta no coração dos que o conhecem a busca pela cultura e pelo saber.

Aos professores e amigos de longe ou de perto que contribuíram para que este sonho se tornasse possível. Para que a busca pelo conhecimento e sabedoria continuem a cada dia.

Vinde, ouvi, e eu contarei o que Deus tem feito por mim.

(Salmos 66.16)

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“Você só sente falta da água quando o poço seca”

(Antigo provérbio da gente do campo)

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Manaus, capital do Estado do Amazonas, faz parte do país do país rico em biodiversidade, cuja relevância é reconhecida em nível mundial, sobretudo, quando o tema é recursos hídricos. Tema este que desperta interesse global, especialmente num século, como o hodierno, tão marcado pela necessidade imperiosa da preservação do meio ambiente, principalmente, na reparação/preservação da água, recurso natural finito, limitado e em alguns lugares do mundo, escasso. Tema de interesse global, especialmente num século tão marcado escassez. Não obstante, apesar dos constantes discursos acerca da preservação ambiental, a cidade de Manaus convive com a cultura, já ultrapassada, da perenidade dos recursos hídricos, de modo que, não é raro, ao andar pela cidade e se deparar com atitudes de desperdício e uso indiscriminado da água. Neste contexto, urge a necessidade de uma análise sobre a cobrança pelo consumo de água proveniente dos poços artesianos na cidade de Manaus como meio de preservação dos recursos hídricos para garantia de um meio ambiente sustentável. Enredando esta linha de ideias, tem o presente trabalho utilizará o método de abordagem qualitativa de cunho bibliográfico e documental, a pesquisa seguirá fase meticulosa, com formulação de hipóteses, consistentes com o que foi observado. A pesquisa terá como base as normas jurídicas em vigor, sendo classificadas de acordo com seus níveis hierárquicos (constitucional, legais e infra legais) e alcance jurisdicional (normas nacionais, estaduais e municipais). O estudo qualificará as normas específicas ao tema. Após, serão realizadas pesquisas bibliográficas, incluindo livros, periódicos, artigos em revistas especializadas, documentos de órgãos e entidades da administração pública e demais documentos, no sentido de analisar a relevância de tal medida, e sua implicação na preservação dos recursos hídricos, demonstrando de forma sucinta o embasamento legal e a evolução histórica da cobrança pela água no Brasil, a importância de se proteger o meio ambiente de uma geração que valoriza o desperdício, que deixa água limpa jorrar por vazamentos nas vias públicas, que lavam os carros com as mangueiras de pressão ligadas continuamente e que varrem suas calçadas não com vassouras, mas com água.

Palavras-chave: Água. Poço Artesiano. Recursos Hídricos. Cobrança. Sustentabilidade.

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Manaus, capital of the State of Amazonas, is part of the country of the country rich in biodiversity, whose relevance is recognized worldwide, especially when the theme is water resources. This theme arouses global interest, especially in a century, marked by the imperative need to preserve the environment, especially in the repair / preservation of water, a finite, limited natural resource and in some parts of the world, scarce. It is a global interest, especially in a scarcity century. Nevertheless, despite the constant discourses about environmental preservation, but Manaus coexists with the culture, already outdated, of the permanence of water resources, so that it is not uncommon, when walking around the city and encountering attitudes of waste and indiscriminate use of water. In this context, there is an urgent need for an analysis on charging for the consumption of water from artesian wells in the city of Manaus as a means of preserving water resources to guarantee a sustainable environment. Entangling this line of ideas, the present work will use the method of qualitative approach of bibliographic and documentary nature, the research will follow a meticulous phase, with the formulation of hypotheses, consistent with what was observed. The research will be based on the legal rules in force, being classified according to their hierarchical levels (constitutional, legal and infra legal) and jurisdictional scope (national, state and municipal rules). The study will qualify the specific rules for the theme. Afterwards, bibliographic searches will be carried out, including books, periodicals, articles in specialized magazines, documents from public administration bodies and entities and other documents, in order to analyze the relevance of such measure, and its implication in the preservation of water resources, demonstrating succinctly the legal basis and the historical evolution of charging for water in Brazil, the importance of protecting the environment of a generation that values waste, which lets clean water flow through leaks on public roads, which wash cars with hoses pressure switching on continuously and sweeping your sidewalks not with brooms, but with water.

Keywords: Water. Water resources. Collection. Sustainability.

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1. INTRODUÇÃO ... 11

2. ÁGUAS SUBETERRÊNEAS: DAS ÁGUAS PROVENIENTES DOS POÇOS ARTESIANOS ... 15

2.1. DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS ... 16

2.1.1. Da Classificação das Águas Subterrâneas ... 17

2.1.2. Relevância Dos Estudos da Qualidade da Água Subterrânea no Brasil ... 20

2.1.3. A Importância da Água Subterrânea para o Abastecimento de Água ... 20

2.1.4. A Utilização das Águas Subterrâneas no Amazonas ... 21

2.1.5. Dos Órgãos Gestores da Água Subterrânea ... 22

2.1.6. Captação não controlada de Águas proveniente dos Poços Artesianos e o Risco de Dano Irreparável ao Meio Ambiente ... 23

2.1.7. Distribuição de Águas na Cidade De Manaus ... 24

2.1.8. O Uso Das Águas Subterrâneas na Cidade de Manaus ... 25

3. DAS NORMAS REGULAMENTADORAS DA COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS ... 27

3.1. DOS PRINCÍPIOS ... 27

3.1.1. Panorama dos Princípios Internacionais Ambientais ... 29

3.1.2. Princípio do Usuário-Pagador ... 30

3.1.3. Princípio do Poluidor-Pagador ... 35

3.1.4. Princípio do Desenvolvimento Sustentável ... 38

3.1.5. Princípio Da Prevenção ... 39

3.1.6. Princípio da Precaução ... 39

3.2. DA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA APLICÁVEL ... 41

3.2.1. Aspectos Constitucionais do Direito de Águas ... 41

3.2.2. Da Legislação Federal ... 45

3.2.3. Da Legislação Estadual ... 47

3.2.4. Da Legislação Municipal ... 50

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ARTESIANOS E SUA NATUREZA JURÍDICA ... 51

4.1. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA COBRANÇA PELA ÁGUA NO BRASIL ... 52

4.2. SITUAÇÃO DA COBRANÇA PELA ÁGUA NO BRASIL ... 53

4.3. SITUAÇÃO DA COBRANÇA PELA ÁGUA EM MANAUS ... 55

4.4. NATUREZA JURÍDICA DA COBRANÇA ... 56

4.5. USOS SUJEITOS À COBRANÇA ... 62

5. DO FUTURO DA COBRANÇA E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ... 64

5.1. POLITICAS PÚBLICAS ... 64

5.2. COBRANÇA PELO USO DA ÁGUA E UM FUTURO SUSTENTÁVEL ... 65

CONCLUSÃO ... 67

REFERÊNCIAS ... 69

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1. INTRODUÇÃO

Manaus, capital do Estado do Amazonas, faz parte do país do país rico em biodiversidade, cuja relevância é reconhecida em nível mundial, sobretudo, quando o tema é recursos hídricos. Tema este que desperta interesse global, especialmente num século, como o hodierno, tão marcado pela necessidade imperiosa da preservação do meio ambiente, principalmente, na reparação/preservação da água, recurso natural finito, limitado e em alguns lugares do mundo, escasso.

Á água, elemento essencial à vida no planeta e em quase todos os processos produtivos do indivíduo, sempre foi vista pelo homem como fonte inesgotável da natureza. Tem seu amparo e proteção na Constituição Federal, no art. 225 que determina que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para às presentes e futuras gerações”.

Com o passar do tempo e a degradação ambiental, passou-se a observar a vulnerabilidade dos recursos hídricos existentes no planeta. Surge então a preocupação com o controle da água para consumo humano, da manutenção e da preservação do meio ambiente como um todo, para as próximas gerações.

Borsoi e Torres (1998) afirmam ter um aspecto alarmador a demanda do consumo de água que depende dos padrões e costumes da comunidade, da renda e da localização (se urbana ou rural). Estudos da Organização Mundial de Saúde mostram que a população rural em países desenvolvidos consome de 35 a 90 litros de água habitante/dia. Em contrapartida, em países subdesenvolvidos o consumo chega a ser mínimo, de até 5 litros habitante/dia. Já a demanda de água em zonas urbanas varia de 150 litros habitante/dia em áreas desprovidas de esgoto e até 1.500 litros por habitante/dia em zonas urbanas de edifícios e apartamentos.

Na indústria, uma fábrica de cerveja, por exemplo, utiliza em média 20m³ de água para produzir 1m³ de cerveja, sem contar com o utilizado para manutenção dos prédios. Outros dados alarmantes quanto à quantidade de água utilizada na produção de produtos são apresentados por Silva Filho em palestras apresentadas para o 8º Fórum Mundial da Água, onde para a produção de 1 kg de carne bovina são utilizados 16 mil litros de água.

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O Estado Brasileiro preocupado com a preservação ambiental, especialmente da água, editou a Lei nº 9.433/1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos baseando-se nos seguintes princípios: a água é um bem de domínio público, recurso natural limitado, dotado de valor econômico e com vistas aos objetivos de assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos.

Essas terras abrigam a maior parte da Amazônia, a qual se constitui como a maior reserva de água doce e potável existente no planeta. Manaus situa-se no coração da Amazônia, reduto de grande parte de sua rica biodiversidade, inclusive a hídrica. Para os historiadores é conhecida como a “Paris dos Trópicos”. Segundo PIB/IBGE de 2017, Manaus era a oitava1 cidade mais rica do Brasil devido à Zona Franca de Manaus, que concentra mais de 50% da arrecadação de impostos de toda a região Norte do país.

Não obstante sejam constantes os discursos acerca da preservação ambiental, a cidade de Manaus ainda convive com a cultura, já muito ultrapassada, da crença na perenidade dos recursos hídricos, de modo que, não é raro, ao andar pela cidade, deparar-se com atitudes de desperdício e uso indiscriminado da água.

Tal situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa que é comum aos manauaras a captação de água proveniente de poços artesianos no ambiente doméstico.

Construídos, em sua maioria, sem nenhum controle e fiscalização, o que além de fomentar a sensação de inesgotabilidade de tal bem, agrava, sobremaneira, a salubridade e a preservação dos recursos hídricos locais.

Neste contexto, urge a necessidade de um estudo acurado sobre a questão da efetividade do cumprimento das leis de regência, sobretudo no que diz respeito à cobrança pelo consumo de água de poços artesianos, regulamentada a Política Estadual de Recursos Hídricos2, que apresenta a cobrança pelo consumo de recursos hídricos a fim de “reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor3”.

O enfoque no consumo da água de poços artesianos detém-se à cidade de Manaus e parte do pressuposto de que, atualmente a capital amazonense não possui uma fiscalização rigorosa, e levantamento concreto da quantidade de poços perfurados no município, o que somado à espoliação urbana e distribuição discriminatória da água na cidade tem crescido de maneira vertiginosa.

1 Produto Interno Bruto dos Municípios. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Consultado em 5 de março de 2020

2 Lei nº 3.167, de 28 de agosto de 2007.

3 Art. 24 da Lei nº 3.167, de 28 de agosto de 2007.

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Sabe-se, de forma empírica, que o número de poços, cisternas ou bicas clandestinas, perfurados sem o cuidado necessário à preservação dos aquíferos subterrâneos, tem crescido exponencialmente, em razão das invasões espalhadas por toda a cidade e pelo precário serviço prestado pela concessionária no abastecimento de água, de modo que os órgãos de controle não conseguem acompanhar as informações na mesma velocidade, colocando em risco toda rede subterrânea de água que pode sofrer contaminação dos lençóis freáticos.

Desta feita, é mister uma análise das águas subterrâneas e suas peculiaridades, bem como a apresentação das normas regulamentadoras, incluindo leis e princípios que servem de arcabouço a cobrança pelo consumo de águas, para fins de definição da natureza jurídica da referida cobrança. Por fim, uma análise do futuro desta cobrança e sua implicação na preservação dos recursos hídricos para a garantia de um meio ambiente sustentável.

Em relação à cobrança pelo consumo da água temos incorporada na mente da população, pelo princípio do Usuário-Pagador, que se deve pagar para utilizar a água (no caso específico), e consequentemente a aceitação do princípio do poluidor-pagador, que visa evitar a ocorrência de dano ambiental de forma preventiva, o que não implica em “pagar para poluir”,

“poluir mediante pagamento”, no entanto, se ocorrido o dano, atua repressivamente na reparação do mesmo (POMPEU, 2006).

Cobrar pelo consumo da água, segundo Rodrigues (2005) é um mecanismo simplesmente, educador, utilizado entre tantos para preservar a água, bem econômico e coibir desperdícios, tendo a educação ambiental como instrumento de preservação, ideia corroborada por Eid Badr que leciona o entendimento de que a educação ambiental, seja ela formal ou não, ganha importância por “promover no educando a conscientização crítica da importância do meio ambiente para a vida no planeta e da utilização dos recursos naturais com responsabilidade” (2017, p. 150).

É interessante observar que, em regra, o único requisito para a cobrança pela água seria o simples consumo; no entanto, a Lei nº. 9.433/1997, no artigo 12, §1º, faz questão de eximir da outorga pelo poder público, e consequentemente, do pagamento os usos para satisfação de necessidades básicas.

Enredando esta linha de ideias, tem o presente trabalho o intento de contribuir para a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, visando apresentar a estratégia da cobrança pelo uso da água como meio de preservação dos recursos hídricos para garantia de um meio ambiente sustentável, protegendo o meio ambiente de geração que valoriza o desperdício.

Uma sociedade que permite que água limpa jorre por vazamentos nas vias públicas, onde lavam os carros com as mangueiras de pressão ligadas continuamente, e calçadas são

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varridas não com vassouras, mas com jatos de água em nome da qualidade de vida e do benefício social necessita de uma gestão eficaz e eficiente de seus recursos hídricos disponíveis, através da utilização de tecnologia de ponta, recursos humanos qualificados e um amparo legal que sirva de meio inibidor e coercitivo (o pagamento pelo uso da água) aos desperdícios encontrados.

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2. ÁGUAS SUBETERRÊNEAS: DAS ÁGUAS PROVENIENTES DOS POÇOS ARTESIANOS

Apesar da grande disponibilidade do recurso hídrico existente no mundo, apenas uma mínima parte está disponível para consumo humano. Se considerarmos que aproximadamente dois terços da superfície do planeta são cobertos por água4. Dos quais 97,5% compõe oceanos e mares, restando apenas 2,5% de toda a água existente no planeta, classificada como doce e possível de utilização para o consumo humano.

A água doce é a menor e mais importante porção de água que compõe o chamado plante azul (AMORIM, 2015), como de demonstra na imagem abaixo.

Figura 1 – Distribuição de água no planeta5

É imprescindível analisar que desta pequena porção de 2,5% de água doce existente no planeta, acessível ao consumo humano, a Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano no âmbito das Águas Subterrâneas indica que 96% são encontradas na esfera subterrânea, restando apenas 4% de águas superficiais.

O Brasil, país de dimensões continentais, segundo Amorim, possui em seu território aproximadamente 12% de toda água doce disponível no planeta (AMORIM, 2015). Se delimitarmos, o foco em relação à Amazônia, teremos 1/5 de toda a água doce do planeta (FONSECA, 2011) somente nesta região do globo.

Para fins desta pesquisa faz-se necessário a qualificação e especificação de alguns aspectos importantes da água, bem tão valioso, que conforme a jornalista Juliana Tozzi está

4 Conforme site oficial da Agencia Nacional de Águas e Saneamento Básico – ANA, acessível através do link https://www.ana.gov.br/textos-das-paginas-do-portal/agua-no-mundo/agua-no-mundo.

5 Fonte: MMA-SRHU, 2007 (http://fontehidrica.blogspot.com/2011/11/distribuicao-da-agua-na-terra.html)

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entre os ativos mais valiosos do mundo, e uma das principais apostas do mercado financeiro para a nova década, principalmente para as empresas de cosméticos, de modo que na Bolsa de Nova York, por exemplo, o índice que reúne as empresas que trabalham exclusivamente na extração e no tratamento de água dobrou de valor nos últimos cinco anos. (TOZZI, 2020).

2.1.DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

As águas subterrâneas são invisíveis à primeira vista, e representam 96% da água doce líquida disponível no planeta para consumo humano. É considerada água subterrânea toda aquela que é ocorre no subsolo, independentemente do tipo de solo ou da camada da hidrosfera que ela se encontra, sempre estiveram presentes nos primórdios da história humana.

Em nível de contextualização histórica, Aldo Rebouças (REBOUÇAS et al.,) apresenta relatos de extração de águas subterrâneas através de poços desde 8.000 a.C. na cidade de Jericó (o “cacimbão” mais antigo até agora descoberto). Relata ainda poços profundos em carca de 5.000 a.C. na China, além de registros arqueológicos de água capitada por um sistema de galerias na cidade de Nínive em 800 a.C.

Inúmeros relatos bíblicos são encontrados em relação e existência de poços, como em Genesis 25.11 “... depois da morte de Abraão, que Deus abençoou a Isaque seu filho; e habitava Isaque junto ao poço...”, além de contendas pela propriedade de poços de água, como em Genesis 26, no relato de que “tornou Isaque e cavou os poços de água que cavaram nos dias de Abraão seu pai, [...], e acharam ali um poço de águas vivas. E os pastores de Gerar contenderam com os pastores de Isaque, dizendo: Esta água é nossa”.

Assim, em toda história humana as águas subterrâneas captadas de poços escavados ou nascentes fazem parte do cotidiano e trazem consigo um misto de superstição e simbolismos.

Sinônimo de prosperidade. Fonte de abastecimento das famílias e comunidades.

No Brasil, a captação de águas de poços e cacimbas é utilizada desde a colonização, no entanto, considerando o fato de abundância de recursos hídricos no Brasil, inicialmente pouco houve de investimento em águas subterrâneas. Somente com o crescimento populacional, a espoliação urbana e a impossibilidade de captação por rios, surge a preocupação com o uso e proteção das águas subterrâneas, a fim de impedir focos de contaminação dos aquíferos.

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2.1.1. Da Classificação das Águas Subterrâneas

A classificação das águas subterrâneas é distribuída em classes pela Resolução nº 396/2018 em função de padrões de qualidade que possibilite o seu enquadramento e dar-se-á de acordo com as normas e procedimentos definidos pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH e Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, observadas as diretrizes ambientais. Para fins didáticos, apresentaremos alguns critérios que inferem diretamente nas águas subterrâneas.

2.1.1.1.Das Águas Doces

É considerada como água doce, a água com salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰. Como esclarece Rebouças é aquela que apresenta teor sólidos dissolvidos (STD) inferior a mil mg/L (REBOUÇAS et al., 2015), sendo a forma mais compreensível de descrever salinidade, que influencia as propriedades biológicas, químicas e físicas em ambientes aquáticos alterando diretamente a densidade e saturação da água, o que influencia a fauna e flora locais.

Conforme Resolução n. 357/2005 - CONAMA que trata da classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes; as águas são classificadas quanto a seus usos, dentre eles o abastecimento para consumo humano, à preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas, recreação, irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, pesca, dessedentarão de animais, dentre outros usos.

É imperioso observar que mesmo em relação às águas doces o legislador fez questão de observar a necessidade de tratamento, simplificado ou convencional, para o consumo humano, a fim de considerá-la potável, o que implica obrigatoriamente na intermediação de uma empresa (estatal ou privada) que realize o tratamento adequado.

Figura 2 – Distribuição de água no planeta6

6 Fonte: Plataforma de Conhecimento: Agricultura e Alimento, acessível em:

(http://www.plataformadoconhecimento.com/usos-multiplos-da-agua-desafios-e-negociacoes-permanentes/)

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Estão entre as principais fontes de água doce os rios, geleiras e águas subterrâneas, das quais 80% da água doce do Brasil encontram-se na região amazônica, conforme dados da Agência Nacional de águas.

2.1.1.2. Das Águas Para Consumo Humano

A água para consumo humano está vinculada a sua potabilidade. É potável a água em condições apropriadas para o consumo humano, livre de contaminações, que em muitos casos são perceptíveis à olho nu (além de não ter sabor, cheiro e cor, as águas consumíveis devem estar enquadradas em parâmetros mais específicos de qualidade, que são determinados pelo Ministério da Saúde) e consequentemente sem apresentar riscos à saúde.

Existe água potável disponível na natureza, mas, em geral, o consumo só é seguro após passar por algum tipo de tratamento. O tratamento é importante para que as substâncias e micro- organismos capazes de causar danos à saúde sejam devidamente eliminados.

Diversos testes são realizados para análise de potabilidade de água e adequação ao consumo humano. Procedimentos de controle e de vigilância estabelecidos pelo Ministério da Saúde, com base em parâmetros físicos, químicos e biológicos preestabelecidos no Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 05/2017.

Mais de 90 parâmetros de pesquisa indicados na Portaria de Consolidação nº 05/2017, monitoramento semestral dos parâmetros estabelecidos na Resolução CONAMA 357/05 nos mananciais de captação de água para tratamento e na Resolução CONAMA 396/08 para as captações subterrâneas. Além de dos indicadores como Turbidez, que mede a propriedade óptica de absorção e reflexão da luz. Parâmetro de fácil análise e se traduz na redução da transparência da água.

Outra característica é a colocação, considerando que em geral a água potável deve ser incolor a olho nu. Via de regra, quando a água apresenta alguma coloração é decorrente da existência de substâncias dissolvidas no líquido. A presença de ferro ou manganês, ou de algas pode alterar a coloração da água.

A presença de micro-organismos como coliformes totais são micro-organismos presentes naturalmente na água, no solo e na vegetação. A presença deles na água não significa risco imediato à saúde, porém é um sinal de contaminação, ou seja, que a água não está potável.

O que não ocorre quando há a presença da bactéria Escherichia coli (E. coli) na água, pois representa a presença de micro-organismos patogênicos, logo, imprópria para o consumo.

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A presença de cloro na água, em regra significa que a água passou pelos processos de desinfecção e está própria para ser distribuída à população. Em quantidades seguras, cloro é uma substância utilizada para oxidar a matéria orgânica proveniente dos mananciais e que possam aparecer na rede de distribuição, eliminando e impedindo que bactérias, vírus e protozoários causadores de doenças surjam e se multipliquem no percurso da estação de tratamento até as residências.

2.1.1.3. Das Águas Interiores

As águas subterrâneas se enquadram na classificação de águas interiores, que em uma visão geral é apresentada pelo o Ministério do Meio Ambiente como a parcela mais lenta do ciclo hidrológico, constituindo a principal reserva de água do país, oriunda de uma parcela da chuva que se infiltra no subsolo e migram continuamente em direção às nascentes, leitos de rios, lagos e oceanos; ocorrendo em volumes muito superiores aos disponíveis na superfície e preenchendo espaços formados entre os grânulos minerais e nas fissuras das rochas, que se denominam aquíferos.

Ilustração - Ciclo Hidrológico das Águas7

Os aquíferos, ao reterem as águas das chuvas, desempenham papel fundamental no controle das cheias; onde as águas encontram proteção natural contra agentes poluidores ou perdas por evaporação. No Brasil, em geral, as águas subterrâneas abastecem rios e lagos. Por isso, mesmo na época seca, a maioria dos nossos rios é perene.

7 Fonte: Ministério do Meio Ambiente

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Assim, os aquíferos têm importância estratégica e suas funções são ainda pouco exploradas, tais como: produção, armazenamento, transporte, regularização, filtragem e autodepuração, além da função energética, quando as águas saem naturalmente quentes do subsolo.

2.1.2. Relevância Dos Estudos da Qualidade da Água Subterrânea no Brasil

Devido à grande quantidade de água subterrânea no Brasil, vários estudos foram impulsionados visando conhecer a qualidade e quantidade dos principais aquíferos brasileiros.

Um deles é o trabalho Dias et al. (2002), o qual obtiveram resultados através do monitoramento de 38 poços tubulares que captam água do Aquífero Guarani.

Os resultados químicos foram comparados com os padrões de potabilidade da época, indicando uma excelente qualidade dessas águas para consumo humano, com concentrações de metais alumínio, arsênio, bário, cádmio, chumbo, cromo total, ferro total, manganês e mercúrio abaixo do limite de detecção do método analítico para a maioria das amostras.

Esse estudo classificou dois tipos de famílias de águas através do diagrama de Piper, visto que este aquífero se apresenta confinado e livre em determinadas regiões da área de estudo. No aquífero confinado, apresentou-se uma predominantemente bicabornatadas cálcicas ou magnesianas e outra bicabornatadas sódicas; já no aquífero livre, caracterizou-se a família das águas cloro-sulfatadas cálcicas ou magnesianas.

2.1.3. A Importância da Água Subterrânea para o Abastecimento de Água

Os usos múltiplos das águas subterrâneas são crescentes: abastecimento, irrigação, calefação, balneoterapia, engarrafamento de águas minerais e potáveis de mesa e outros, que para Rebouças em uma abordagem hidrológica evolui do poço ao sistema de fluxos subterrâneos, servindo de base ao sistema de gerenciamento integrado de bacias hidrográficas.

(REBOUÇAS et al., 2015).

Segundo os estudos de água subterrânea do Instituto Trata Brasil, 52% dos 5.570 municípios brasileiros são abastecidos total (36%) ou parcialmente (16%) por águas subterrâneas. A exploração desse recurso hídrico é inversamente proporcional ao tamanho das cidades. As águas subterrâneas são a opção exclusiva para 48% dos municípios com população menor que 10 mil habitantes e para 30% daqueles com 10 a 50 mil habitantes (HIRATA et al., 2016).

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Para Everton de Oliveira (2016), objetivando o estudo das águas subterrâneas, da qualidade, da preservação e da recuperação dos recursos hídricos subterrâneos observamos a interação da hidrogeologia, da química, das engenharias química, de reservatórios, sanitária, agronômica da geologia de reservatórios; da microbiologia, da hidrologia, da hidro química, da geotécnica permitiu o surgimento de um profissional especializado, com uma visão multidisciplinar.

Nas últimas décadas, sua importância foi evidenciada em vários países e são utilizadas tanto para o abastecimento das populações como também para outros fins (MILLON, 2004). A UNEP/WHO (1996) estimou que foram perfurados cerca de 300 milhões de poços no período de 1970-1995. Esta água subterrânea abastece mais da metade da população mundial e irriga aproximadamente 90 milhões de hectares. Os sistemas de abastecimento público de água na União Europeia que utilizam águas subterrâneas correspondem a 75%. Sendo que os sistemas públicos de água na Dinamarca, Bélgica, Alemanha e Áustria esse percentual é superior a 90%

(OECD, 2000). A Agência Nacional de Águas – ANA, em 2001 estimou cerca de um milhão de poços profundos, só no Brasil.

O Brasil é um país privilegiado quando se refere a recursos hídricos, de acordo com os estudos de ANA (2002), isto se dá porque possui 12% das reservas mundiais de água doce e 53% das reservas da América do Sul, apresentando uma disponibilidade hídrica de 40.732 m³/hab./ano, aproximadamente 80% das águas brasileiras estão na Bacia Amazônica. É detentor também de dois terços de um manancial subterrâneo que passa pelos países do Mercosul, o Aquífero Guarani, com extensão superior à área da Inglaterra, França e Espanha juntos. Mais da metade da água de abastecimento público no Brasil provém das reservas subterrâneas.

Embora o Brasil disponha de grande quantidade de recursos hídricos, ressalta-se que a distribuição natural ocorre de forma desigual e apresenta maior concentração na região norte, justamente a região menos povoada. E é justamente na região norte que se encontra o maior aquífero mundial, o sistema de aquífero Alter do Chão que possui uma área estimada pela Agência Nacional de água (ANA, 2005) de 312.574 Km2 na Bacia sedimentar do Amazonas.

2.1.4. A Utilização das Águas Subterrâneas no Amazonas

Apesar do Estado do Amazonas ser favorecido em grandes quantidades de águas superficiais, a captação subterrânea através de poços tubulares é amplamente utilizada, correspondendo a um total aproximado de 71% entre todos os municípios do estado (WAHNFRIED; SOARES, 2012).

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A Companhia de Pesquisa em Recurso Minerais (CPRM) em 2012 estimou a existência aproximada de 15.000 poços com profundidades variando entre 10 e 240 metros somente na capital amazonense, e este número tem crescido tanto nos núcleos urbanos amazonenses, quanto em comunidades rurais e indígenas. Isso se dá pela excelente qualidade e por sua construção ser considerada simples, de baixo custo e execução rápida.

Além disso, apresentam um menor custo operacional em virtude da menor complexidade do sistema de produção de água. Dessa forma, podem ser construídos de acordo com a demanda de consumo.

2.1.5. Dos Órgãos Gestores da Água Subterrânea

Os estados brasileiros possuem órgãos específicos para a gestão da água, sendo o gerenciamento é realizado por meio da emissão da autorização de uso dos recursos hídricos de domínio dos Estados e através da fiscalização dos usos da água. Ademais, são responsáveis por planejar e promover ações direcionadas à preservação da quantidade e da qualidade das águas.

E fazem parte da estrutura do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e atuam de forma integrada e articulada com os demais entes do Sistema.

No âmbito estadual, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), órgão gestor e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), órgão executivo da Política Estadual de Recursos Hídricos não possuem informações consistentes quanto à totalidade do número de poços artesianos na cidade de Manaus.

O IPAAM, através da Gerência de Recursos Hídricos, possui informação somente dos poços com requisição de outorga de uso, não possuindo qualquer controle dos poços clandestinos. Ao passo que as informações coletadas são disponibilizadas pelo próprio requisitante, através de cadastro preenchido, para solicitação de outorga. A SEMA utiliza as informações coletadas do IPAAM e da CPRN para desenvolvimento de seu trabalho.

O que podemos observar é que os órgãos estaduais responsáveis pela fiscalização e monitoramento quando se trata de águas subterrâneas, ainda estão engatinhando no processo.

Os dados ainda são obtidos e elaborados de forma arcaica e sem muita consistência, visto que este órgão, na maioria das vezes, conta com o bom senso e responsabilidade ambiental do usuário do poço. Há insuficiência de material humano e técnico para obtenção de informações, e ainda, falta por parte dos governantes locais um maior investimento para que órgãos com objetivos de preservação ambiental possam trabalhar com eficiência.

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2.1.6. Captação não controlada de Águas proveniente dos Poços Artesianos e o Risco de Dano Irreparável ao Meio Ambiente

Até alguns anos atrás, acreditava-se que as águas subterrâneas estavam naturalmente protegidas da contaminação pelas camadas dos solos e das rochas. Entretanto, a partir de então, passaram a serem detectados traços da presença de contaminantes em águas subterrâneas, e diversos estudos têm sido conduzidos no sentido de avaliar a sua qualidade (SILVA et al., 2014).

Com o crescimento das cidades e espoliação urbana apresentada por Erivaldo Silva Filho e Carla Torquato (SILVA FILHO; TORQUATO, 2016) observa-se a crescente utilização da água subterrânea através de captação não controlada e o avanço no número de poços artesianos como mecanismo de obtenção de água. No entanto, tais perfurações são realizadas sem qualquer critério de segurança e cuidados básicos. E considerando que os lençóis freáticos estão próximos à superfície, estão extremamente suscetíveis à contaminação.

A contaminação dos lençóis freáticos pode ser dá em razão da utilização de agrotóxicos e fertilizantes que provocam a contaminação do solo, lixões e aterros irregulares, cemitérios, e perfuração de poços de maneira irregular que contaminam as águas subterrâneas, especialmente os aquíferos rasos (freáticos), possibilitando consequências drásticas na saúde coletiva.

Vazamento de combustíveis é a forma mais disseminada de contaminação de solos e água subterrânea que existe. Isso pela grande distribuição espacial de postos de gasolina e pela grande produção e utilização destes combustíveis. Com isso, toda uma área da hidrogeologia de contaminação está dedicada aos hidrocarbonetos de petróleo.

Um dos resultados deste processo lento é a lixiviação de sais, alguns metais, matéria orgânica e microrganismos, transferindo-os para o solo e água subterrânea. Portanto, analisando-se pelo aspecto técnico, um cemitério é uma fonte potencial de contaminação de solo e água subterrânea.

A decomposição da matéria orgânica pela ação dos microrganismos provoca o consumo de oxigênio da água subterrânea, além do consumo de outros aceptores de elétrons responsáveis pela reação química da decomposição. O resultado disso é a criação de um ambiente subterrâneo redutor e mais ácido do que o ambiente natural. Essa alteração das condições provoca a dissolução de metais em água subterrânea, tanto metais provenientes dos nossos corpos quanto aqueles que se encontravam fixados no próprio solo e que foram mobilizados pela alteração ocorrida. Aumentando-se o tamanho da necrópole, facilmente se

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compreende a potencialização do problema pelo aumento de matéria orgânica e pelo potencial de contaminação que pode ser gerada.

Na contaminação de águas subterrâneas por compostos orgânicos, os combustíveis e os defensivos agrícolas apresentam comportamentos que podem ser considerados praticamente antípodas. Os principais compostos formadores dos defensivos agrícolas são pouquíssimos móveis e muito persistentes. Por isso são contaminantes de solo e não de água subterrânea.

Para Oliveira (2016) a atuação dos órgãos oficiais de meio ambiente é decisiva na existência de ações preventivas e corretivas. Meio ambiente ainda é visto como gasto para a maioria das empresas, cultura que é responsável pela limitação das atividades preventivas. De uma forma clara, quanto mais atuante o poder público melhor os efeitos no meio ambiente.

2.1.7. Distribuição de Águas na Cidade De Manaus

A ocupação da cidade se deu de maneira gradativa, com ápice no período da borracha.

Incialmente a captação e transporte de água se dava através dos “aguadeiros”, responsáveis por retirar água dos rios entregar nas residências, recebendo uma contraprestação pecuniária pelo serviço. Profissão que foi regulamentada, posteriormente, com critérios a serem obedecidos, regulamentados no código de postura do município de Manaus.

Conforme apresenta Mário Ypiranga Monteiro (1977), cacimbas, bicas e fontes públicas foram ganhando espaço e colocando no ócio a função do aguadeiro. Investimentos em saneamento básico e rede de abastecimento de água tomam conta da cidade pelos idos de 1890.

Surge a cobrança pelo serviço de transporte da água gerando uma “revolta” em 1913 no governo de Jonathas Pedrosa, onde o povo protestava pelo aumento da tarifa de água, e pela qualidade na prestação do serviço.

A cidade cresce, como capital do Estado, e em ocupação desordenada de moradores advindo de vários municípios do Amazonas causando uma série de desconforto aos órgãos públicos na questão dos serviços prestados à população (saneamento básico, moradia e implantação do desenvolvimento urbano) com planejamento através das Leis que tratam sobre Gestão de Recursos Hídricos, Plano Diretor da Cidade, Legislação sobre Área de Preservação Permanente entre outros.

A evolução urbana de Manaus pode ser dividida em quatro etapas (BITTENCOURT, 2012). A primeira caracterizou-se pela ocupação da parte fronteira do Rio Negro. A Segunda, na época áurea da borracha, no governo de Eduardo Ribeiro, em 1892, definida por um plano de ocupação que abandonou os condicionantes estabelecidos pela paisagem e contemplou a

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construção de largas avenidas arborizadas, aterro de Igarapés, pontes metálicas e de pedras, etc.

Na terceira etapa, surgem os bairros de Cachoeirinha, Vila Municipal em Adrianópolis, ocupando os Igarapés do Quarenta e Mindu. Para Bentes (2012), a última etapa, após o estabelecimento da Zona Franca de Manaus, é caracterizada pela expansão da Cidade em semicírculos, intercalando loteamentos, conjuntos residenciais e vazios urbanos, normalmente, com cobertura florestal.

O crescimento urbano rápido e desordenado que norteou esta última etapa, culminou na degradação dos Igarapés, os quais, antes desta etapa serviam concomitantemente como via de locomoção, fonte de alimentos, fornecimento de água de boa qualidade e lazer a população.

Entre as décadas de 1970 e 2000, houve um crescimento desordenado gerado pela implantação da Zona Franca, com invasões de áreas protegidas, áreas institucionais, quando muitas nascentes foram dizimadas e muitas áreas verdes foram derrubadas para a elevação de edifícios e bairros.

Manaus foi classificada, entre as capitais brasileiras, como a cidade que teve o crescimento mais acelerado dos últimos anos. Em 1965, Manaus tinha 200 mil habitantes. Em 2000, esse número aumentou para 1.403.796 habitantes, o que significa um aumento de praticamente 700%, conforme sensos realizados pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Enquanto as áreas destinadas à implantação das indústrias foram planejadas para prover infraestrutura e serviços adequados para seu funcionamento, as moradias dos trabalhadores foram sendo construídas na parte periférica da cidade através de invasões clandestinas, sem planejamento. A classe desfavorecida financeiramente estabeleceu-se em sua grande maioria nas margens dos igarapés. Além de serem utilizados como moradias da população de baixa renda, os igarapés de Manaus se constituem em lixeiras, receptores de esgotos sanitários e industriais na sua maioria.

2.1.8. O Uso Das Águas Subterrâneas na Cidade de Manaus

Segundo o pesquisador Hilton de Souza Diógenes8, integrante da equipe de projetos da Gerência de Hidrologia e Gestão Territorial do Serviço Geológico do Brasil (CPRM),

8 O pesquisador Hilton de Souza Diógenes é integrante da equipe de projetos da Gerência de Hidrologia e Gestão Territorial do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Superintendência Regional de Manaus, coordenador para atualização de dados do PAGAS – Programa de Apoio à Gestão de Águas Subterrâneas e do SIAGAS – Sistema de Informação de Águas Subterrâneas.

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atualmente na cidade de Manaus, conforme dados do CPRM, a utilização da água subterrânea através da captação por poços artesianos tem crescido para o abastecimento urbano e para irrigação de lavouras na cidade de Manaus, mas também nas cidades do interior do Estado, com concentração do maior volume na cidade de Manaus e adjacências.

Situada na Bacia Sedimentar do Amazonas, Manaus conta com volume de água na ordem de 32.500 m³, apresentando boa qualidade de água entre 10 e 200m de profundidade, distribuída horizontalmente. Após essa profundidade somente é possível encontra água somente após 1.600m, conforme dados do CPRN, regional de Manaus, que através do Projeto SIAGAS armazena informações sobre poços perfurados em Manaus, realizando a coleta de dados através de visitas de campo e informações fornecidas por pessoas interessadas na preservação da água na cidade.

Até novembro/2007, o sistema contava com 1.740 poços efetivamente cadastrados na cidade de Manaus. Atualmente computa-se 9.394 poços cadastrados no Estado do Amazonas, sendo 4.719 poços somente na cidade de Manaus, conforme pesquisa realizada no SIAGAS9 - Sistema de Informações de Águas Subterrâneas com informações consistentes. Estão entre os usuários urbanos, órgãos públicos e particulares, domésticos, comerciais e industriais.

Importante é observar que de toda água subterrânea captada a Concessionária de Serviço Público, Águas do Amazonas, empresa responsável pelo abastecimento de água na cidade de Manaus é responsável por 63% do total de captação realizada em Manaus, 20% pelas empresas do Distrito Industrial de Manaus e apenas 17% captado por órgãos públicos, residências e comerciais. O que já tem rebaixado o volume de águas no lençol freáticos da região.

9 O SIAGAS é um sistema de informações de águas subterrâneas desenvolvido pelo Serviço Geológico do Brasil - SGB, que é composto por uma base de dados de poços permanentemente atualizada, e de módulos capazes de realizar consulta, pesquisa, extração e geração relatórios. Desenvolvido e mantido pelo Serviço Geológico do Brasil, a partir do mapeamento e pesquisa hidrogeológica em todo o país, permite a gestão adequada da informação hidrogeológica e a sua integração com outros sistemas. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH, através da Moção n. 038, de 7 de dezembro de 2006, recomendou a adoção do SIAGAS, pelos órgãos gestores estaduais, Secretarias dos Governos Estaduais, Agência Nacional de Águas - ANA e Usuários dos Recursos Hídricos Subterrâneos, como base nacional compartilhada para armazenagem, manuseio, intercâmbio e difusão de informações sobre águas subterrâneas.

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3. DAS NORMAS REGULAMENTADORAS DA COBRANÇA PELO CONSUMO DE ÁGUA PROVENIENTE DOS POÇOS ARTESIANOS

Após a chegada dos portugueses no Brasil, durante cerca de 400 anos, as águas tiveram basicamente cinco usos fundamentais: água para consumo, pesca, extração de ouro e pedras preciosas, transporte hidroviário e beleza cênica. Não havia qualquer preocupação com preservação ambiental, expressão desconhecida à época10.

Não havia desta forma, necessidade de qualquer preocupação com a escassez de tais recursos. Por isso, observa-se não ter sido a questão do uso racional da água abordada claramente na Constituição do Império de 1824. Somente 67 anos depois, na República, com a Constituição de 1891, observa-se a primeira menção de proteção à água, não com fim de preservação ambiental, mas visando a proteção do território político, momento em que foi concedido ao Congresso Nacional competência para legislar sobre navegação de rios cuja extensão se prolongasse entre Estados ou territórios estrangeiros.

Em 1934, passados 110 anos da elaboração da primeira Constituição Brasileira, são definidos os bens da União, de igual modo como regula a Constituição atual, incluindo os lagos ou quaisquer correntes de águas em terrenos de seu domínio, fazendo separação também entre os bens dos Estados e dos Municípios.

A partir desse momento, as constituições seguintes repetem, algumas com pequenas variações, o disposto na Constituição de 1934. Somente com a Carta Magna Vigente, de 1988, conhecida como Constituição cidadã, houve uma mudança, até radical, na valoração dos direitos e garantias fundamentais.

3.1. DOS PRINCÍPIOS

Dentre os princípios que norteiam o direto ambiental em âmbito geral podemos destacar os seguintes: do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental; da solidariedade intergeracional; da natureza pública da proteção ambiental; do desenvolvimento sustentável; poluidor pagador; usuário pagador; prevenção e precaução; participação;

10 YASSUDA, Eduardo Riomey. GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS: FUNDAMENTOS E ASPECTOS INSTITUCIONAIS in Revista de Administração Pública. Vol 27, nº 2, p.5-18. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1993. p. 6

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ubiquidade ou transversalidade; cooperação internacional; da função socioambiental da propriedade, além de outros que variam de acordo com o doutrinador.

Explícitos, ou não, no texto constitucional buscam aplicar e efetivar o “meio ambiente ecologicamente equilibrado” objeto basilar da proteção, considerando que para Paulo Affonso Leme Machado “cada ser humano só fluirá plenamente de um estado de bem-estar e equidade se lhe for assegurado o direito fundamental de viver num meio ambiente ecologicamente equilibrado” (MACHADO, 2009, p. 59).

Na busca de proteger o meio ambiente de uma geração que valoriza o desperdício, deixando água limpa jorrar por vazamentos nas vias públicas, que lavam os carros com as mangueiras de pressão ligadas continuamente e que varrem suas calçadas não com vassouras, mas com água faz-se necessária a análise dos princípios norteadores pertinentes.

Para Canotilho (2003, p. 1165) os princípios jurídicos fundamentais são aqueles historicamente e progressivamente introduzidos na consciência jurídica, que encontram uma recepção expressa ou implícita no texto constitucional. Daí a importância de abordar, neste estudo, uma visão panorâmica dos princípios jurídicos ambientais, a fim de facilitar a interpretação e aplicação do direito positivo, enfatizando especialmente o Princípio do Usuário Pagador.

Vale recordar Norberto Bobbio (2004, p. 26), em sua afirmativa que “o direito de viver num ambiente não poluído representa um direito de terceira geração”, uma ação positiva do Estado, sucedendo a liberdade e os direitos sociais.

No que tange a cobrança pelo consumo da água, já se tem por pacificada na mente da população, pelo princípio do Usuário-Pagador que se paga para utilizar a água. Por esse motivo, a aceitação do princípio do poluidor-pagador, que visa evitar a ocorrência de dano ambiental de forma preventiva, está em utilização a cada dia, no entanto, se ocorrido o dano, atua repressivamente na reparação do mesmo (POMPEU, 2006, p. 271).

Muitos doutrinadores ao analisar os princípios norteadores do direito ambiental, costumam vincular o princípio do poluidor pagador e do usuário pagador, pautando -se na ideia de reparação pelo dano causado ou pela mera utilização, pressupondo uso e dano obrigatório.

Cobrar pelo consumo da água, segundo Rodrigues (2005, p.73) é um mecanismo simplesmente, educador, utilizado entre tantos outros, para preservar a água, bem econômico, e coibir desperdícios, tendo a educação ambiental como instrumento de preservação, ideia corroborada por Eid Badr (2017, p. 150) o qual leciona que a educação ambiental ganha importância por “promover no educando a conscientização crítica da importância do meio

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ambiente para a vida no planeta e da utilização dos recursos naturais com responsabilidade”, servindo de princípio norteador à preservação.

Para tanto, é mister compreender que as novas gerações (crianças) precisam ser educadas, pois segundo leciona Lanfredi (2002, p.205) “É preciso educar hoje a criança com respeito à natureza, para não ser necessário punir, amanhã, o homem adulto do infrator dos princípios ambientais”.

3.1.1. Panorama dos Princípios Internacionais Ambientais

Ao longo dos anos, muitas foram as tentativas de chegar a um acordo e entendimento global no que tange a preservação do meio ambiente através de conferências organizadas pelas Nações Unidas. A influência de tais discussões é tão relevante, que o capitulo do meio ambiente da atual Constituição Brasileira foi diretamente influenciada pelos princípios da Declaração de Estocolmo/7211.

Neste primeiro documento observa-se a responsabilização do homem em preservar e administrar o patrimônio natural, proclamando o seguinte:

“Chegamos a um momento da história em que devemos orientar nossos atos em todo o mundo com particular atenção às consequências que podem ter para o meio ambiente. Por ignorância ou indiferença, podemos causar danos imensos e irreparáveis ao meio ambiente da terra do qual dependem nossa vida e nosso bem- estar. Ao contrário, com um conhecimento mais profundo e uma ação mais prudente, podemos conseguir para nós mesmos e para nossa posteridade, condições melhores de vida, em um meio ambiente mais de acordo com as necessidades e aspirações do homem. As perspectivas de elevar a qualidade do meio ambiente e de criar uma vida satisfatória são grandes. É preciso entusiasmo, mas, por outro lado, serenidade de ânimo, trabalho duro e sistemático. Para chegar à plenitude de sua liberdade dentro da natureza, e, em harmonia com ela, o homem deve aplicar seus conhecimentos para criar um meio ambiente melhor. A defesa e o melhoramento do meio ambiente humano para as gerações presentes e futuras se converteu na meta imperiosa da humanidade, que se deve perseguir, ao mesmo tempo em que se mantém as metas fundamentais já estabelecidas, da paz e do desenvolvimento econômico e social em todo o mundo, e em conformidade com elas”.

No que tange especificamente ao objeto deste trabalho, a preservação dos recursos hídricos, o Princípio 2 da Declaração de Estocolmo indica que a água deve ser preservada em

11 Documento oriundo da Conferência de Estocolmo ou Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano ocorreu entre 5 e 16 de junho de 1972, em Estocolmo, na Suécia. Foi o primeiro evento organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir de maneira global sobre as questões ambientais.

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benefício das gerações presentes e futuras. No transcorrer dos anos verifica-se a evolução e aumento do interesse na preservação do ambiente, inclusive no que concerne a água.

Em 1983, é publicado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento o relatório “Nosso Futuro Comum12”, trazendo o conceito de desenvolvimento sustentável para o discurso público, afirmando que “muitos de nós vivemos além dos recursos ecológicos, por exemplo, em nossos padrões de consumo de energia. No mínimo, o desenvolvimento sustentável não deve pôr em risco os sistemas naturais que sustentam a vida na Terra: a atmosfera, as águas, os solos e os seres vivos”.

No Rio de Janeiro, em 1992, é formulado um plano de ação internacionalmente para ser adotado em escala global, nacional e localmente por organizações do sistema das Nações Unidas (Agenda 21) que dentre as ações prioritárias visa prevenir a poluição das águas é ação prioritária. Em muitas das conferências13 da ONU pode-se verificar os princípios do desenvolvimento sustentável implícito.

Em escala global, urge a necessidade de norteadores do uso dos recursos naturais em linguagem e atitudes unas, na busca da manutenção da vida.

3.1.2. Princípio do Usuário-Pagador

Prevê o princípio do usuário-pagador que quem demanda ou utiliza recursos ambientais devem pagar por essa utilização. Sobre a função ou objetivo do princípio do usuário-pagador, Marcelo Abelha Rodrigues discorre que “o princípio do usuário-pagador é voltado à tutela da qualidade do meio ambiente (bastante aplicado em regiões com abundância de recursos), visa proteger a quantidade dos bens ambientais, estabelecendo uma consciência ambiental de uso racional dos mesmos, permitindo uma socialização justa e igualitária de seu uso”

(RODRIGUES, 2005, p. 225).

Para Paulo Leme Machado “princípio usuário-pagador contém também o princípio poluidor-pagador, isto é, aquele que obriga o poluidor a pagar a poluição que pode ser causada ou que já foi causada” (MACHADO o, 2009, p.66), pois o pagamento pela utilização de recursos ambientais devendo possuir o uso racional e adequado, evitando-se desperdícios por

12 Relatório emitido em abril de 1987, pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, coordenado pela médica Gro Harlem Brundtland, mestre em saúde pública e ex-Primeira Ministra da Noruega

13 Sentre as quais podemos indicar: a Segunda Conferência da ONU sobre Assentamentos Humanos (Istambul,1999); a Sessão Especial da Assembleia Geral sobre Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (Nova York, 1999); a Cúpula do Milênio (Nova York, 2000) e seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (cujo sétimo objetivo procura “Garantir a sustentabilidade ambiental”) e a Reunião Mundial de 2005.

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parte dos usuários individuais, intimidando a utilização indiscriminada dos recursos naturais, considerando que os de uso irracional terão dispêndio financeiro pelo consumo e uso, desestimulando-se a degradação da qualidade ambiental.

Nessa linha de entendimento preventivo dos danos ambientais abrangido pelo princípio do usuário-pagador e sua vocação de direcionar o aproveitamento dos recursos naturais em benefício da coletividade encontramos o seguinte:

“A ideia [do princípio do usuário-pagador] é de definição de valor econômico ao bem natural com intuito de racionalizar o seu uso e evitar o seu desperdício. A apropriação desses recursos por parte de um ou de vários indivíduos, públicos ou privados, devem proporcionar à coletividade o direito a uma compensação financeira pela utilização de recursos naturais, bens de uso comum. Os recursos naturais são bens da coletividade e o seu uso garante uma compensação financeira para a mesma, não importando se houve ou não dano ao meio ambiente. Aqui, o indivíduo estará pagando pela utilização de recursos naturais escassos, e não necessariamente pelo dano causado ao meio ambiente. (GARCIA, 2010, p. 45-46).

Assim, Garcia demonstra que a prevenção de danos ambientais característico do princípio do usuário-pagador, bem como informa que a sua aplicação não depende da existência de danos efetivos ao meio ambiente ou da existência de poluição. O pagamento é efetuado pelo consumo do bem, independentemente de dano ou degradação.

Aqui, nota-se um traço distintivo entre o princípio do usuário-pagador e o princípio do poluidor-pagador, eis que quanto ao primeiro, “as pessoas que utilizam recursos naturais devem pagar pela sua utilização, mesmo que não haja poluição” (AMADO, 2014, p. 97-98), e em relação ao último exige-se a poluição, sendo que “a quantia paga pelo empreendedor funciona também como sanção social, além de indenização” (AMADO, 2014, p. 98).

Nessa esteira, considerando o princípio do usuário-pagador como a cobrança de valores economicamente mensuráveis em razão da utilização dos bens ambientais, Antônio Beltrão também menciona a diferença em relação ao princípio do poluidor-pagador da forma seguinte:

“Diferentemente do princípio do poluidor-pagador, que tem uma natureza reparatória e punitiva, o princípio do usuário-pagador possui uma natureza meramente remuneratória pela outorga do direito de uso de um recurso natural. Não há ilicitude, infração. No princípio do usuário-pagador há uma relação contratual, sinalagmática, em que o usuário paga para ter uma contraprestação, correspondente ao direito de exploração de um determinado recurso natural, conforme o instrumento de outorga do Poder Público competente” (BELTRÃO, 200, p. 50.)

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Descreve Marcelo Abelha Rodrigues, também sobre a diferença entre os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador:

“Sendo os bens ambientais de natureza difusa e sendo o seu titular a coletividade indeterminada, aquele que usa o bem em prejuízo dos demais titulares passa a ser devedor desse ‘empréstimo’, além de ser responsável pela sua eventual degradação.

É nesse sentido e alcance que deve ser diferenciado do poluidor-pagador. A expressão é diversa porque se todo poluidor é um usuário (direto ou indireto) do bem ambiental, nem todo usuário é poluidor. O primeiro, tutela a qualidade do bem ambiental e o segundo a sua quantidade. Na verdade, o usuário-pagador obriga a arcar com os custos do ‘empréstimo’ ambiental, aquele que beneficia do ambiente (econômica ou moralmente), mesmo que esse uso não cause qualquer degradação. Em havendo degradação, deve arcar também com a respectiva reparação. Nesta última hipótese, diz-se que o usuário foi poluidor” (RODRIGUES, 2005, p. 227).

Assim, tal princípio visa à cobrança pelo uso dos recursos naturais, não mera compra dos recursos naturais pelos usuários, considerando a inalienabilidade, mas tão-somente outorga do direito de uso.

Apresentado de forma implícita na Constituição Federal, o princípio do usuário- pagador, protege o bem de uso comum do povo, o meio ambiente, de titularidade difusa, indisponível e inalienável, de modo que não se admitem usos individuais que impliquem o sacrifício coletivo, sendo o caput do art. 225 da CF/88 o fundamento constitucional do princípio do usuário-pagador, funcionando como vetor para que o bem ambiental seja utilizado em benefício da coletividade, sendo este um bem, “essencial à qualidade de vida”.

Alerta ainda, Paulo Affonso Leme Machado que o “uso gratuito dos recursos naturais tem representado um enriquecimento ilegítimo do usuário, pois a comunidade que não usa do recurso ou que o utiliza em menor escala fica onerada” (MACHADO, 2009, p.66), desta feita, temos prestigiada a equidade no acesso e utilização dos recursos naturais.

No campo infraconstitucional, a Lei 6.938/8114 possui diversos dispositivos que trazem o espírito do princípio do usuário pagador, in verbis:

“Art. 2º - A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes princípios:

(...)

II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar;

III - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais;

14 Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências.

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