DESENVOLVIMENTO RURAL: UM OLHAR PELO VIÉS DO REALISMO CRITICO E DA COMPLEXIDADE.

Texto

(1)

Jesildo Moura de Lima Cecilia Smaneoto2

David Basso3 RESUMO

A agricultura moderna, iniciada no século XX, faz parte da evolução das pessoas e dos processos de produção e geração de riquezas. Esta relação dos seres humanos com a agricultura apresenta situações diferenciadas de desenvolvimento. O objetivo deste ensaio teórico é abordar uma metodologia para explicar situações de desenvolvimento rural a partir de contribuições teóricas do realismo crítico e da complexidade. Utiliza-se de pesquisa bibliográfica para identificar elementos teóricos para compreender sistemas complexos a partir do método de abdução proposto pela ontologia do realismo crítico. Os resultados evidenciam a importância de conceitos da complexidade para explicar processos ou situações reais, pressupondo que os sistemas sociais e naturais são evolutivos e abertos. A evolução, por sua vez, não é linear nem determinista e previsível. Irreversibilidade, instabilidade, bifurcações são algumas das noções que a complexidade nos oferece para compreender as distintas dinâmicas de desenvolvimento rural. O entendimento do realismo crítico de que a realidade é estratificada e existe independente do conhecimento que se tenha sobre ela nos indica que, metodologicamente, devemos nos aproximar de forma progressiva da própria realidade a ser explicada. O estudo de processos de desenvolvimento, portanto, deve privilegiar a análise histórica para identificar acontecimentos e relacionamentos com potencial explicativo da diversidade e diferenciação decorrentes de sua evolução.

Palavras-Chave: Complexidade - Realismo crítico - Desenvolvimento local.

INTRODUÇÃO

O objetivo deste ensaio teórico é abordar uma metodologia que considera a busca teórica em enfoques no realismo crítico e na complexidade para explicar situações de desenvolvimento, em especial no meio rural. O ensaio teórico está estruturado em três tópicos:

1 - a análise de situações de desenvolvimento, buscando a proximidade local e específica, com entendimento histórico da evolução da agricultura;

2 - a complexidade como teoria que fundamenta a importância do contexto para compreender e explicar situações reais de desenvolvimento;

3 – o realismo crítico e o método de abdução como procedimento privilegiado para a análise de situações de desenvolvimento.

O estudo de uma situação de desenvolvimento, por meio de análise fundamentada nos sistemas complexos e no uso da abdução recomendada pela ontologia do realismo crítico, tem por objetivo explicar os fatos e não simplesmente estabelecer relações entre eles.

A agricultura no mundo fez a faz parte da evolução das pessoas e dos processos de produção e geração de riquezas, e esta relação dos seres humanos com a agricultura apresenta situações diferenciadas de desenvolvimento. A diversidade e adaptabilidade nas condições de solo, relevo e formação vegetal são alguns aspectos que contribuem para a não existência de uma única “fórmula”

1Mestrando em Desenvolvimento da UNIJUI, Bolsista da Capes, Administrador. Professor da Faculdade Três de Maio - SETREM. jesildo.lima@gmail.com

2Mestra em Desenvolvimento (CAPES – UNIJUI), Especialista em Administração de Recursos Humanos, Administradora, Consultora, Coach e Professora da Faculdade Três de Maio - SETREM.

cissacla12@terra.com.br

3Doutor em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ). Professor do curso de mestrado em Desenvolvimento da UNIJUI. davidbasso@unijui.edu.br

(2)

descrita como resultado ideal de desenvolvimento rural. Outros aspectos importantes provem da interferência humana partindo dos povos já existentes, seus agrupamentos tribais, jesuíticos e a colonização aportada nas terras existentes.

Para a análise de situações de desenvolvimento partindo do entendimento teórico na fundamentação baseada na ontologia do realismo crítico e na teoria da complexidade possui princípios relevantes para a explicação. O primeiro princípio é o estudo da complexidade, destacando as sociedades humanas como sistemas dissipativos, distantes do equilíbrio com bifurcações e propriedade emergentes. Segundo Silva Neto (2007), a presença de bifurcações impede o estabelecimento de relações fixas entre um estado especifico e a sua estrutura. Isso torna imprescindível analisar historicamente para que se possa obter uma compreensão adequada dos processos reais. Assim as variáveis que caracterizam um determinado comportamento situacional de desenvolvimento não podem, sequer hipoteticamente, ser definidas sem levar em conta as transformações globais ao longo do tempo, sendo o contexto histórico importantíssimo para a análise relacionada a este primeiro principio (Silva Neto, 2007, p.49).

O segundo princípio remete para o uso de procedimentos baseados na ontologia como forma mais adequada para apreender a realidade em todo a sua profundidade a partir dela mesma. Para isso é fundamental ter presente que a realidade é estratificada em níveis, sendo necessário ir além do nível empírico, mais fácil de ser captado pelo pesquisador, chegando nos níveis mais profundos para poder captar mecanismos causais e processos subjacentes aos fenômenos e aos fatos empíricos, a partir dos quais pode-se efetivamente explicar a realidade observada (Silva Neto, 2007, p.49).

O trabalho está estruturado em três partes, iniciando pela apresentação de uma proposta metodológica para o estudo de situações de desenvolvimento. Na sequência são explicitados os fundamentos teóricos para esta proposta a partir das contribuições da teoria da complexidade e, por fim, as contribuições da ontologia realista crítica que embasam os procedimentos metodológicos para o desenvolvimento de estudos de situações reais de desenvolvimento.

1 UMA METODOLOGIA PARA ANÁLISE DE SITUAÇÕES DE DESENVOLVIMENTO

A Análise de Situações de Desenvolvimento (ASD) é uma abordagem metodológica concebida para o estudo de linhas estratégicas de desenvolvimento local, a partir de uma compreensão (diagnóstico) coerente da realidade envolvida, tendo sido elaborada especificamente para ser utilizada em países e regiões do terceiro mundo, onde a complexidade dos problemas, normalmente associada a técnicas pouco usuais em relação aos padrões ocidentais e a grandes dificuldades de intervenção do poder público, tornam a elaboração e implantação de projetos de desenvolvimento uma tarefa extremamente difícil (Silva Neto, 2007, p.34).

A fundamentação teórica e epistemológica do método em estudo com base nas contribuições da teoria da complexidade e no realismo crítico se deve, segundo Silva Neto (2007), a dois motivos em especial. O primeiro pelas questões complexas que envolvem os processos reais de desenvolvimento e o segundo motivo pela distinção em relação a outros métodos por priorizar características essencialmente qualitativas e com fortes restrições ao uso de inferências e análises estatísticas (Silva Neto, 2007, p.34). A abordagem da ASD torna possível a busca de explicações para fenômenos singulares que são reveladores de transformações históricas.

Dentre os princípios metodológicos nos quais se baseiam os procedimentos de pesquisa para a Análise de Situações de Desenvolvimento, segundo Silva Neto (2007, p. 36), destaca os seguintes:

- Efetuar as análises partindo dos fenômenos mais gerais para os particulares, utilizando-se de uma abordagem sistêmica em vários níveis;

- Analisar cada nível da realidade separadamente, efetuando-se uma síntese dos níveis de análise mais abrangentes antes de passar a analisar os níveis mais específicos;

- Priorizar a explicação em detrimento da descrição, privilegiando o enfoque histórico;

- Observar e explicitar a heterogeneidade da realidade, evitando interpretações genéricas demais que acabam por dificultar a elucidação de processos de diferenciação.

Estes princípios metodológicos apresentam uma abordagem descendente, com níveis decrescentes de agregação, sem perder de vista as propriedades emergentes do sistema. Apresenta

(3)

também uma síntese a cada nível de análise com hipóteses para a análise na escala inferior, atenção aos processos de diferenciação para evitar o foco em “médias”, ênfase no enfoque histórico para identificar fatos, acontecimentos e relacionamentos que expliquem, e não apenas descrevam, a realidade estudada.

Como enfatiza Silva Neto (2007, p. 36), os estudos envolvendo situações reais devem ser realizados a partir de uma rigorosa hierarquização das análises em função da sua abrangência, concentrando-se inicialmente nos aspectos mais gerais da realidade em estudo, só passando aos aspectos específicos após uma síntese que identifique as variáveis mais importantes para serem avaliadas ou então as questões mais importantes a serem respondidas no nível inferior. Segundo o autor, tal síntese deve ser feita pela organização e análise da coerência das informações obtidas, sendo retidas apenas as informações imprescindíveis para explicar a realidade apresentada.

Nos estudos tradicionais, que se utilizam dos métodos dedutivo e indutivo, os passos realizados normalmente estariam relacionados à elaboração de questionários para captar todas as características possíveis para uma análise estatística. Silva Neto (2007) alerta que estes métodos observam a realidade reduzindo os procedimentos a uma coleta de dados a partir de um planejamento anterior resultando em questionários extremamente detalhados e longos. Segundo este autor, um procedimento baseado na ASD prioriza a análise em cada um dos níveis, separada e progressivamente, do geral para o particular, de forma a obter repostas às principais questões formuladas para cada nível.

Uma vez respondidas as questões em um nível produz-se uma síntese a partir da qual levantam-se novas hipóteses e questionamentos que orientarão o foco da continuidade do estudo nas etapas ou níveis seguintes da análise. (Idem, p. 38).

O procedimento de estudo descrito não se baseia em inferências dedutivas (não parte de leis ou teorias gerais já consagradas para explicar a realidade em estudo) e tampouco se vale de inferências indutivas (dados secundários – banco de dados, censos – ou primários – informações coletadas a partir de questionários) tratadas estatisticamente. Para dar conta dos princípios metodológicos da ASD os procedimentos devem amparar-se em inferências abdutivas, as quais se orientam mais pelo conteúdo do que pela forma das premissas (Chibeni, 1996). Ao contrário das inferências dedutivas e indutivas, que primam pela formalidade, as inferências abdutivas dependem do conteúdo das premissas. O esquema geral dos argumentos abdutivos consiste no enunciado de uma evidência (um fato ou conjunto de fatos), de hipóteses alternativas para explicar tal evidência e de uma apreciação do valor dessas explicações baseada nos seus conteúdos. A conclusão é que a melhor explicação é a que mais provavelmente se aproxime da verdade. Contrastando com os argumentos dedutivos, a conclusão depende de seu conteúdo, sem necessariamente seguir logicamente as premissas. Da mesma forma a conclusão não necessariamente consiste em uma extensão uniforme das evidências, contrastando igualmente com os argumentos indutivos. Essas características tornam as inferências abdutivas particularmente interessantes na busca de explicações causais, especialmente em situações não controladas (RADAELLI; SILVA NETO; BASSO, 2012).

A abdução, neste sentido, propõe algum tipo de conexão entre o poder explicativo de uma teoria e a sua aproximação com a verdade, sendo as conclusões baseadas em inferências abdutivas sustentadas pelo acúmulo e coerência de evidências. A validação do conhecimento, desta forma, deve acontecer de forma progressiva pelo acúmulo de evidências e não por meio de verificações, testes ou demonstrações.

A aplicação de um procedimento abdutivo em um estudo voltado à análise de uma situação de desenvolvimento envolve, consequentemente, o seu desdobramento em etapas ou níveis, atendendo os princípios metodológicos da ASD, iniciando pelas questões mais gerais e passando progressivamente para questões mais específicas, buscando o acúmulo de evidências que forneçam explicações coerentes com a realidade observada. Para estudar dinâmicas locais de desenvolvimento da agricultura, por exemplo, Silva Neto (2007, p. 39-40) propõe o desmembramento do estudo em três etapas fundamentais:

Etapa 01 – Caracterização do processo de Desenvolvimento da Agricultura na região.

Nesta etapa deve ser realizada uma análise geral da região, envolvendo itens como localização, população, setores econômicos, índices de desenvolvimento, renda e grau de desigualdade social e econômica. Delimitam-se igualmente zonas homogêneas em função do clima, solo, infraestrutura e diferentes trajetórias de evolução e diferenciação do setor na região em estudo.

Etapa 02 - Tipologia de agricultores e Sistemas de Produção

(4)

Realiza um agrupamento das unidades de produção agrícola em função das diferentes categorias sociais, das diferentes formas de organização da produção pelos agricultores, descrevendo a caracterização técnica e avaliação econômica dos sistemas de produção analisando a capacidade de reprodução social dos distintos tipos.

Etapa 03 – Definição de Linhas Estratégicas de Desenvolvimento

Avaliam-se as possibilidades de melhoria das condições de reprodução econômica dos diferentes tipos de sistemas de produção, identificando as atividades técnicas que venham a contribuir para o desenvolvimento, definindo alternativas de ação técnica, gerencial, organizacional e de políticas públicas para as diferentes unidades de produção.

Como justificar, teórica e metodologicamente, estudos baseados na Análise de Situações de Desenvolvimento? A teoria da complexidade e a ontologia do realismo crítico, que serão discutidas na sequência, fornecem bases epistemológicas neste sentido.

2 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA COMPLEXIDADE PARA A ASD

A desordem pode ser uma forma de provocar nova ordem. Baseando-se nas contribuições de Ilya Prigogine sobre as “estruturas dissipativas”, Wheatley (2006) destaca uma verdade paradoxal: a confusão e o desequilíbrio não levam à destruição, mas apresentam novas possibilidades de construção de ordem. A criatividade oriunda destas estruturas dissipativas como forma de reorganização produz pontos de bifurcações que resultam em novas situações. Para Wheatley (2006), a mudança acontece em saltos além da capacidade de previsão, onde impossibilita calcular de maneira exata o seu resultado futuro.

Na complexidade apresentada e descrita como partes do mundo quântico, extravasam as crenças científicas embasadas no determinismo, previsibilidade e controle. Para Whetley (2006), a própria física quântica não oferece conceitos que busquem um mundo mais ordenado, mas apresenta a existência de uma interconexidade, onde por mais estranho que seja, aporta uma ordem até na maior desordem. A teoria do caos, por meio dos “atratores estranhos”, apresenta esta ordem mais profunda, porém o sistema nunca se comporta da mesma maneira duas vezes (Wheatley, 2006, p.44). Esta descoberta de um mundo caótico interfere no “pensar complexo”, para tentar explicar a teoria da complexidade.

A mudança através da existência das turbulências vividas naturalmente e criadas pelos seres humanos, fazem questionar nossas interferências e os resultados esperados. Precisa-se trabalhar com a totalidade e não apenas com as partes. Wheatley (2006) enfatiza que nenhuma situação pode ser compreendida isoladamente. Esta compreensão mais ampla eleva ao pensamento da sua totalidade, dada a interdependência entre todas as coisas. Todas as coisas dependem de todas as outras coisas para existir [...]. Todos os seres humanos tem por base a lei do co-surgimento dependente. A fonte de uma coisa são todas as coisas (Wheatley, 2006, p.161). Neste sentido a autora resume a necessidade de perceber que uma situação positiva de desenvolvimento em certo lugar, por exemplo, não terá necessariamente o resultado em outro espaço. São contextos diferentes, oriundos historicamente diferentes e com bifurcações transformadoras e anormais. Portanto o todo não resulta apenas da soma das partes e nem as partes podem compor um todo.

Para Prigogine (2002), as leis de Newton não conseguem explicar a irreversibilidade, onde elas adquirem novo significado não tratando mais de certezas morais, mas sim de novas possibilidades através da inserção do caos.

Na visão clássica, uma lei da natureza estava associada a uma descrição determinista e reversível do tempo, em que o futuro e o passado desempenhavam o mesmo papel. A introdução do caos obriga-nos a generalizar a noção de lei da natureza e nela introduzir os conceitos de probabilidade e de irreversibilidade. Trata- se, nesse caso, de uma mudança radical, pois, se quisermos mesmo seguir essa abordagem, o caos nos obriga a reconsiderar a nossa descrição fundamental da natureza [...] quer microscópico, quer macroscópico, quer cosmológico.”

(PRIGOGINE, 2002, p.11).

(5)

Embasados por Prigogine (2002) chega-se à percepção de que é necessário abandonar a perspectiva de uma natureza fechada e previsível, para tomá-la como um processo aberto, imprevisível e indeterminista. Grandes discussões sobre o desenvolvimento humano buscam explicações seja de existência de um processo de construção do pensamento diante das diversidades existentes, ou pela necessidade da justificativa de uns para com os outros. Inúmeras construções de saberes na teorização de suas posições e justificativas fragmentaram o pensamento e nas suas “partes” perdeu-se a visão não apenas do todo, mas igualmente do todo para com as partes.

Neste contexto Edgar Morin, filósofo contemporâneo francês, problematiza a complexidade do conhecimento e do entendimento da nossa própria existência e formas de organização como comunidade, sociedade, grupo, etc. Este autor propõe apresentar a necessidade de desprender do modelo simplista para o pensamento da Teoria da Complexidade.

Morin (1990), através de pensamento conseguiu “observar” importantes pontos sem ter a possibilidade de enquadramento dentro de apenas uma área específica. Nosso autor em questão “abriu os olhos do mundo” para a reflexão num caráter muito anormal para sua época desta necessidade de analisar as questões de forma complexa através de interferência de inúmeros fatores, posições e resultados obtidos. O autor recorre a inúmeras “ciências” para através delas mesmo justificar e fazer entender a necessidade de expansão de nossos olhos.

Segundo Estrada (2009), Morin destaca o paradigma da complexidade como parte da própria explicação do seu significado. Paradigmas são “princípios supralógicos” na tentativa de organizar o pensamento, levando em conta indícios não visíveis de nossa forma de perceber as coisas. Uma relação lógica como o centro das noções e princípios que comandam os propósitos. Para o filósofo Morin, o afastamento do conflito da simplicidade é necessário para a construção do pensamento complexo como mentor das ideias que antecedem ao pensamento complexo.

A própria construção do pensamento complexo não parte unicamente de Morin, onde ele mesmo reconhece como sua existência no passado por alguns cientistas como Descartes, Newton e Laplace. As tentativas de explicar o surgimento do universo “enrolavam” e instigavam os pesquisadores no Século XX. Como viria a organização de Universo através de uma desorganização, fruto de uma explosão? Na tentativa de construir observa realidade de destruir muito mais para o seu sucesso. A ordem e a desordem vista como rivais cooperam para organizar o Universo. Ou seja, fenômenos desordenados são necessários para produção de fenômenos organizados.

A conceitualização diferenciada para a ordem e a desordem passa pelo pensamento da complexidade. Para Estrada (2009) na análise de complexidade abordada por Morin, dentro deste universo determinista, tais conceitos devem convergir a atuar em conjunto para com o resultado. Esta dificuldade em “aceitar” conceitualizações antagônicas faz-se necessário para o entendimento da complexidade. Na descrição do Tetragrama de Morin observa-se a existência de quatro elementos interativos entre si.

A ordem, desordem, interação e organização possuem um “caminho” a ser percorrido entre ambos num vai e vem de relações conjuntas. Esta organização não é acionada apenas entre si, mas numa influência de fatores internos e externos, expandido através de um sistema. O sistema destaca a complexidade, pois cada parte possui uma interferência no todo e o todo influencia cada parte.

A complexidade faz pensar além do conhecimento normal atribuído e conceitos reducionistas e fragmentados. Como estudar uma parte sem o conhecimento do todo e como conhecer o todo sem conhecer as partes? Parece impossível a análise desta complexidade, mas ao mesmo tempo a intrigante necessidade de evolução do saber. No ambiente atual da mundialização do nosso espaço e novos conceitos de comunidade, pensar a complexidade exige a necessidade de desprendimento das tradicionais formas praticadas.

Na produção do conhecimento não são mais suficientes dados isolados. É preciso situar as informações e dados em seu contexto para que adquiram sentido. A interdisciplinaridade está exposta no contexto, que fala que isolado o conhecimento não produz informações. O global é mais que o contexto, é o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional.

Uma sociedade, neste sentido, é mais que um contexto: é o todo organizador de que se faz parte, assim determinado problema como o meio ambiente do planeta, faz parte do global que é mais que o contexto, é realmente um conjunto de fatores globais.

Para pesquisar é necessário pensar as relações entre identidade, com dedução e com indução, numa caminhada de ir e vir ao campo e do campo as teorias. Enfim fazer pesquisa é interagir com o

(6)

meio, fazer parte de uma realidade com analise de inúmeros fatores que nela intervém. Logo fazer pesquisa é exercer o pensamento complexo. Para Estrada (2009), Morin prega a integração para a compreensão enriquecida. Não é a contrariedade pregada ao pensamento simplificador, mas a necessidade de entender o paradigma da complexidade para interagir no espaço único e ao mesmo tempo global.

Um saber construtivo no entendimento da razão, emoção e perguntas latentes no entendimento do indivíduo e da sociedade. A complexidade como forma de explicação dos acontecimentos da vida, da organização do ser humano, parte para a interface do “ir e voltar” a cada fonte e estabelecer suas relações e os resultados frutos deste movimento. Não é negar a necessidade de entender o simples, o obvio, mas é obrigatoriedade de compreender que as partes são importantes, mas o todo precisa estar relacionado.

Uma condição de cooperação necessária a explicar os acontecimentos. Seria de uma grande desordem o surgimento de nossa existência no universo? Uma explosão gigantesca capaz de destruir tudo foi capaz de construir no espaço temporal uma organização complexa de vivencia de seres.

A complexidade é apontada como uma nova forma de fazer ciência. Silva Neto (2007, p. 41) apresenta a Teoria da Complexidade como um corpo coerente de ideias, teorias e métodos abrangendo todos os campos do saber. A Teoria da Complexidade, para este autor, apresenta uma convergência com abordagens históricas e sociológicas, tendo acima de um novo paradigma, mas uma nova aliança entre ciência e aspirações contemporâneas.

Para Silva Neto (2007) a caracterização dos sistemas complexos apresentam diferentes estruturas. Neste sentido as sociedades humanas se destacam por apresentar certos tipos de relações não lineares. O autor destaca que os métodos reducionistas não se mostram adequados para o estudo no campo das Ciências Sociais, onde tal complexidade outorga uma importância central para as propriedades emergentes dos sistemas sociais (Idem, p.44).

O pensamento complexo se apresenta como resultado de pequenos avanços fracionados de partes envolvidas, mas acima de tudo é seu resultado complexo que relaciona fatos e ações. É complexo pensar a complexidade. Existe a necessidade de desprender apegos metódicos tradicionais saindo de um entendimento de verdades através da explicação por meio de um método pré- determinado. A Complexidade apresenta sua contribuição para com a pesquisa alertando para a necessidade de incluir “variáveis” até então não previstas e questiona e embasa o uso de novos métodos para estudos envolvendo objetos sociais.

3 O REALISMO CRÍTICO COMO SUPORTE METODOLÓGICO PARA A ASD

O realismo critico apresenta um contraponto ao empirismo positivista. Para Bhaskar apud Silva Neto (2007), a ciência é produto cultural da humanidade em constante evolução. Nesta visão a dinâmica das relações presentes na sociedade possuem dimensões transitivas e intransitivas (Silva Neto, 2007, p.44). Para a dimensão transitiva, a realidade já contada, não permite agregar novo conhecimento. Já a dimensão intransitiva permite a busca por algo diferente ainda não descrito, algo novo. Busca então conhecer uma realidade independente do que pensamos e ou julgamos como verdade já determinada, permitindo a possibilidade de gerar novo conhecimento.

Por apresentar uma complexidade ontológica, o melhor caminho para explicar uma realidade é ir até local. Ela está na origem dos diferentes campos da ciência, as quais não podem ser reduzidas umas às outras: Física x Química x Biologia x Psicologia x Ciências Sociais. Também apresenta uma pluralidade de métodos e procedimentos, segundo o campo, a disciplina e, principalmente, o problema em questão com validade da crítica como procedimento científico. Neste sentido faz-se necessário reconhecer a existência de relações entre os vários campos da ciência.

Resende (2009) apresenta o modelo transformacional sendo uma característica ontológica do real onde o domínio do real/potencial é maior do que o efetivo/realizado, que por sua vez é maior que o empírico/observado. O realismo crítico enfatiza a vida social como um sistema não fechado resultado das inúmeras dimensões como a física, química, biológica, econômica e social com estruturas distintas.

Para o realismo crítico a realidade não corresponde apenas ao empírico, mas ao real. A realidade apresenta-se estruturada em três distintos níveis. São eles em ordem de aprofundamento, o empírico (aparência), o efetivo e o real (nível mais profundo do conhecimento). Na abordagem de

(7)

Silva Neto (2007), o realismo crítico afirma que os processos e mecanismo causais subjacentes ao empírico e ao efetivo (factual) constituem em componentes da própria realidade como objeto da atividade cientifica (Idem, p.45). Mesmo tendo uma ênfase no entendimento da atividade cientifica, o realismo crítico apresenta e aborda a não previsibilidade nas ciências sociais como uma capacidade de estabelecimento, onde ontologicamente a sociedade não se distinguiria dos objetos estudados pelas ciências naturais (Idem, p. 45).

O conhecimento não entra como determinante da estrutura social, mas participa da sua reprodução e eventual transformação. O realismo crítico afirma a existência de propriedades emergentes para explicar os fatos. Para o realismo crítico existe uma permeabilidade complexa que possibilita transitar em ciências sociais até a física por exemplo. Segundo Silva Neto (2007) o realismo crítico embasa epistemologicamente como referência para uso sistemático de inferências abdutivas na atividade científica, onde este esquema de argumentos abdutivos é um enunciado de uma evidencia, de hipóteses alternativas, e uma apreciação do valor dessas explicações. (Idem, p. 47).

Para o realismo crítico a conclusão sobre uma análise é a melhor explicação sobre o fato.

Contrariando os métodos dedutivos, no realismo critico as conclusões não seguem as premissas lógicas. Segundo Silva Neto (2007), a abordagem abdutiva também contraria os argumentos indutivos, pois não necessariamente consiste em uma extensão uniforme das evidencias permitindo a utilização em situações não apenas estáveis.

A busca pela cientificidade necessita de critérios para a sua validação. A coerência através da relação entre fatos precisa apresentar significância. O conhecimento científico é objetivo, mas não apresenta neutralidade, pois as “verdades” possuem interesses expressados pelos diferentes grupos sociais envolvidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No mundo complexo com diversidade, aportamos a nós seres humanos dotados de algum caráter investigativo, somos capazes de dominar processos de produção e controles naturais. Somos seres únicos onde dominamos os recursos existentes mediando exploração e produção. Os recursos disponíveis tornam escassos na medida de a ansiedade acumulativa prevalece. Nossa evolução oriunda dos processos agrícolas permeia nas organizações, enfim em nossa vida individual e individual.

Estudar uma situação de desenvolvimento rural, muitas vezes acaba levando pesquisadores a simplificarem suas conclusões não obtendo maior aprofundamento através da aplicação de técnicas capazes de responder aos objetivos propostos. Este formato de analisar e interpretar uma situação de desenvolvimento apresentada, inicia pela interpretação da realidade a partir de entendimento crítico e complexo aos processos de produção e transformação existentes compreendendo a melhor explicação plausível. O estabelecimento de um método para este estudo remete a necessidade de sua especificidade diante das inúmeras variáveis envolvidas e principalmente ao processo histórico de existência.

O método de estudo embasado no Realismo Crítico e na Complexidade, por mais diferencial que seja, apresenta um entendimento viável para as comparações dos estudos locais que, amparando-se na história, possibilita explicar as diferenças de evolução de cada região por exemplo. Entender os atores, a formação, a organização, e as condições existentes explicam tais diferenças como numa comunidade rural, em que desenvolve em velocidade diferente das demais.

A complexidade apresenta as bifurcações como mudanças específicas em cada contexto histórico e em caráter especial, portanto para explicar uma realidade remete a estudar cada situação buscando compreender o seu funcionamento e inserção nos contextos mais amplos. A instabilidade e a imprevisibilidade dos sistemas dissipativos, longe do equilíbrio, indicam a falibilidade e limitação dos estudos baseados em previsões, onde a história e a observação direta das situações são, portanto, caminhos mais seguros para que o investigador compreenda mais profundamente o objeto de estudo e, em função disso, consiga chegar à “melhor explicação”, já que as verdades são sempre relativas.

Como explicar a realidade ou processo real? Através de conhecimento já produzido com a episteme da dedução e indução? Seria importante privilegiar a observação da realidade? A ontologia com o embase realista crítico e complexo permite ir além da aparência, permitindo uma estratificação da realidade, percorrendo os fenômenos não apenas nos seus níveis empírico e efetivo, mas

(8)

aprofundando-se até o real para encontrar mecanismos causais, acontecimentos, relacionamentos que possam, de forma coerente, gerar respostas. Como proposta inicial de navegar nos mares da inferência abdutiva como método de estudo, destaca-se a importância de entender e possibilitar a proposição de contribuições na leitura de situações de desenvolvimento e oferecer contribuições de políticas de promoção do desenvolvimento mais assertivas.

REFERÊNCIAS

[1] SILVA NETO, B. Análise-Diagnóstico de Sistemas Agrários: uma interpretação baseada na Teoria da Complexidade e no Realismo Crítico. Desenvolvimento em Questão, Ijui: Ed. Unijui, n.2, 2003.

[2] CHIBENI, S. S. A inferência abdutiva e o realismo crítico. Campinas: Departamento de Filosofia, Unicamp, 1996. (Publicado em Cadernos de História e Filosofia da Ciência, série 3, 6 (1):

45-73, 1996.)

[3] RADAELLI, T.M.; SILVA NETO, B.; BASSO, D. Áreas de Proteção Ambiental como Estratégia para o Desenvolvimento Regional: Reflexões Teóricas a Partir do Caso de Ipuaçu-SC. Taubaté.

Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, v. 8, n. 3, 2012.

[4] WHEATLEY, M. J. Liderança e nova ciência: descobrindo ordem em um mundo caótico.

Tradução Adail Ubirajara Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Cultrix, 2006.

[5] PRIGOGINE, I. As leis do caos. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: UNESP, 2002. Título original: The leggi del caos.

[6] MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo (resenha). 2ª edição. Lisboa: Instituto Piaget.

2ª ed., 177 p. ISBN: 972-8245-82-3. Do original Introduction à la pensée complexe, Paris: ESF éditeur, 1990.

[7] ______. O Método 3. O conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.

[8] RESENDE, V. M. Análise de discurso crítica e o realismo critico. Campinas: Pontes Editora, 2009.

[9] ESTRADA, A. A. Os fundamentos da teoria da complexidade em Edgar Morin. Akrópolis.

Umuarama, v. 17, n. 2, p. 85-90, abr./jun. 2009.

Imagem

Referências

temas relacionados :