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ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI E A ESCOLA: FALAM OS EDUCADORES

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Academic year: 2022

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ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI E A ESCOLA:

FALAM OS EDUCADORES

Aluna: Leticia Meorlluw Mello Orientador: Maria Helena Zamora

Introdução

A presente pesquisa denominada “Adolescente em conflito com a lei e a escola: falam os educadores”, ocorreu no período de 2011 a 2012, atualmente já finalizada sob a coordenação da professora Maria Helena Zamora, através do convênio de cooperação de pesquisa, estabelecido em 2010, entre a universidade e as instituições financiadoras. O estudo procurou investigar como profissionais da educação têm um olhar sobre os adolescentes em conflito com a lei que estavam cumprindo medida socioeducativa de Liberdade Assistida e frequentavam a escola.

Para tal, participaram um total de 1.158 educadores atuantes em escolas públicas regulares de Ensino Fundamental de diversos estados brasileiros. Os mesmos eram participantes de um fórum, no qual eles faziam parte de duas turmas de discussão virtual. Tendo em vista esse fato, o campo estudado foi composto pelas mensagens dos mesmos em um espaço voltado para discussões e dúvidas sobre a temática.

Por meio da análise de conteúdo buscou-se saber como esses jovens eram vistos por esses profissionais, assim como, as dificuldades encontradas pelos mesmos, além de tentar compreender como ocorrem as práticas de inclusão desses adolescentes nas escolas. Sendo assim, essa pesquisa tem como objetivo discutir os resultados obtidos.

Vale lembrar que a Constituição Federal de 1988 (CF/88) e o ECA (Lei 8069, de 13/07/1990), onde o segundo é a ampliação de direitos de um dos artigos do primeiro. O ECA define como prioridade absoluta, sem exceções, todas as crianças e adolescentes, com idade entre zero e dezoito anos. Contudo, quotidianamente têm-se visto diversas violações desses direitos, cometidas também pelo Estado e seus agentes. Não sendo raras as populações mais vulneráveis serem as mais atingidas.

Sobre a pesquisa:

A pesquisa foi realizada a partir de um convênio estabelecido em 2010, no qual foi possível ter acesso aos discursos dos participantes, que foram utilizados. Os educadores participavam de um fórum de discussões virtuais que ocorreram entre 2011 e 2012. O fórum era parte do “ECA na Escola”, um curso online de capacitação sobre direitos humanos das crianças e adolescentes e o papel da escola na rede de garantias, tendo como objetivo qualificar a atuação profissional desses educadores e expandir os conhecimentos sobre o ECA. É importante destacar que a participação nos espaços propostos para dialogo não eram obrigatórios.

Metodologia:

O público selecionado para essa pesquisa eram participantes do fórum de discussão virtual. O fórum era parte do “ECA na Escola”, um curso online de capacitação sobre direitos humanos das crianças e adolescentes e o papel da escola na rede de garantias. Participaram das discussões

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1.158 educadores atuando em escolas públicas regulares de Ensino Fundamental de diversos estados brasileiros. Cabe destacar, que a participação no fórum não era obrigatória, sendo esse número o somatório de participantes efetivos no fórum. O método utilizado foi à análise de conteúdo, tendo em vista, que esse era o mais adequado. A fonte de dados utilizados foram mensagens enviadas pelos participantes em um modulo especifico do curso, no qual era denominado “O adolescente em conflito com a lei e a escola”. A análise do material ocorreu como se o mesmo tivesse sido colhido em entrevistas individuais.

Discussão:

O ECA promulgado em 1990 começou a ser discutido no período que o país estava se redemocratizando, após anos de ditadura militar, no final da década de 1980. Construiu-se em 1988 a nova Constituição Federal do Brasil, também chamada de “Constituição cidadã”. Esse período foi marcado pela busca de direitos de diversos segmentos sociais que necessitavam de melhores condições de atendimento, e as crianças e adolescentes foram inclusas nesse processo.

O mesmo tem como um de seus objetivos romper com diversas barreiras preconceituosas instauradas na sociedade, além de procurar estabelecer bases para um novo contrato social, no qual crianças e adolescentes fossem elevados à condição de sujeitos de direitos. Sem restrição quanto à cor, classe, sexo ou qualquer outro atributo (GONÇALVES E GARCIA, 2007).

O estatuto procura romper com código de menores, no qual apenas marginalizava uma parcela da população que era considerada incômoda para a ordem social. A inadequada categoria

“menor” se referia a crianças e adolescentes, em sua grande maioria, pobres e negros. Ele procura romper legalmente com essa rotulação, de modo a reduzir a diferença entre segmentos sociais e diminuir as discriminações. Promovendo uma alteração do paradigma conceitual e das práticas. Contudo, há de se lembrar que ainda ocorrem muitas práticas que retomam ao conceito de “menor”, segregando ainda uma parcela da população da mesma maneira. De acordo com Baptista (2012) o Sistema de Garantia de Direitos no âmbito de nossa sociedade, é de responsabilidade de diferentes instituições que atuam de acordo com suas competências.

Em seu artigo 1º do Capítulo 1 da Configuração do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, responsabiliza além dos poderes públicos, à sociedade, a promover proteção integral de crianças e adolescentes.

“Art. 1º O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para e efetivação dos direitos humanos da criança e do adolescente, nos níveis, Federal, Estadual, Distrital e Municipal.”

Cabe acrescentar que, de acordo com a Resolução número 113 do Conanda de 2006, criada para o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos, há três eixos estratégicos, são eles: a promoção, defesa e controle da efetivação.

O eixo da promoção está ligado à política de atendimento dos direitos, política de promoção e proteção dos direitos, de caráter transversal e intersetorial. Esse é garantido com a satisfação das necessidades básicas, controle social e institucional, participação popular e descentralização

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política e administrativa. Já o eixo da defesa é referente à garantia de acesso a justiça, recurso às instancias públicas e mecanismos jurídicos de proteção legal e a garantia da exigibilidade dos direitos. Geralmente, nesse eixo a criança já teve seu direito violado. O último eixo é o controle social, esse é responsável pelo controle da defesa dos diretos e das ações de promoções.

Todas essas ações devem ser interdisciplinares, devem funcionar como uma rede. Cabe lembrar que, em uma rede não há uma instituição principal todos os dispositivos são importantes. Além disso, os direitos são indivisíveis, por exemplo, a criança e o adolescente tem uma escola funcionando para frequentar, mas enfrenta situações de risco para chegar à escola. A segurança se torna tão importante quanto o fato de ter que chegar à escola. O trabalho deve ser voltado para a proteção e promoção da qualidade de vida de modo que a multiplicidade de serviços atue positivamente para o desenvolvimento.

De acordo com esse princípio, os profissionais das mais diversas áreas exercem um papel prioritário. Compõe essa rede instituições como as varas de infância, as escolas, os hospitais, dentre tantas outras que devem proporcionar uma proteção integral. As falhas na rede podem prejudicar de forma gravíssima a vida desses adolescentes.

Costa e Brigas (2007), nos lembram que o trabalho intersetorial rompe com a hierarquização e descentralização dos serviços, buscando agregar novas propostas, além de, responder melhor as demandas que surgem.

“Dessa forma, ao se falar do trabalho em “rede de proteção”, compreende-se a noção básica de vinculação em torno de uma causa (fenômeno, evento), atuando de forma dinâmica, agindo e interagindo com esta atuação, construindo possibilidades de melhorias, quanto às condições necessárias ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, principalmente aqueles que convivem com múltiplos fatores de risco nos macro (sistema social e econômico) e micro ambientes (família, escola, amigos, comunidade)” (COSTA E BIGRAS, 2007).

Uma das populações com mais dificuldade de ter seu direito assegurado é a de adolescentes em conflito com a lei, no qual este deve ser privado apenas do direito a liberdade, mas deve ter todos os outros resguardados. Devido ao constante desrespeito a essa lei foi necessário o reordenamento do sistema socioeducativo, no qual o ordenamento, devido à gravidade da situação, foi traduzido em lei (Lei 12.594/2012) que visa às condições mínimas de qualidade para o cumprimento da execução de medidas.

Cabe destacar que o Estatuto define conjunto medidas que podem ser aplicadas de acordo com o ato infracional cometido. Todas as medidas socioeducativas são decididas pelo juiz, executadas pelo sistema socioeducativo e cumpridas por adolescentes (jovens que tem entre doze anos e incompletos dezoito anos de idade), que cometerem ato infracional.

A liberdade assistida (LA) é o foco da pesquisa, é a medida que será adotada sempre que se afigurar mais adequada para o fim de acompanhar e orientar o adolescente; nesse caso, a autoridade designará a pessoa capacitada para acompanhar o adolescente (Brasil, 2013c).

Entende-se essa medida como adequada para fins educativos de responsabilização e garantia de proteção integral do adolescente, no qual o mesmo irá participar das atividades propostas no Plano Individual de Atendimento (PIA), contudo, preservando o convívio familiar e comunitário. Para que haja a consolidação desses direitos é necessário que haja um

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funcionamento da rede e de sua estruturação por eixos, que devem integrar de forma intersetorial as organizações responsáveis pela defesa, promoção dos direitos e controle social.

Feita essa revisão de literatura, buscou-se estruturar uma pesquisa que pretende saber como esses jovens que cometeram atos infracionais são vistos por educadores, que possíveis dificuldades esses profissionais têm e compreender que práticas concretas ocorrem nas escolas, planejadas com fim de favorecer a inclusão dos adolescentes.

O conteúdo foi separado em três categorias:

a) dificuldades na relação entre professor e aluno;

b) demandas de punição;

c) dúvidas e discursos de afirmação do ECA.

Foi possível observar que no cumprimento de liberdade assistida na escola, os professores transmitem em seus discursos dificuldade e despreparo no trato com os (as) meninos (as) em relação a questões disciplinares. Cabe destacar que esse fator não ocorre apenas pela falta de despreparo do profissional, mas, também, por questões afetivas, baixos salários, dentre outras coisas. Quanto às demandas de punição, observou-se uma tendência dos educadores da rede pública de ensino a associar, de modo não crítico, o tema dos adolescentes na escola ao universo dos delitos, de modo que, reforçavam a lógica da penalização. Pode-se também ver no discurso uma relação de punições com propostas de redução da maior idade de responsabilização penal.

Por ultimo, os participantes apresentaram dúvidas frequentes sobre o ECA, inclusive sobre seus conceitos básicos. E também problematizaram o fato de que o professor não tem conhecimento desta legislação e de sua aplicabilidade, apontando para existência de demandas de formação.

Conclusão:

O presente estudo tem como proposta apresentar questões referentes às leis que compõem os direitos das crianças e adolescentes, suscitar questionamentos sobre a atuação dos profissionais de educação, pensar a importância deles enquanto agentes do Sistema de Garantia de Direitos e também na intenção de expandir estudos na área aqui apresentada. Neste sentido a pesquisa passa por um momento de transição temática exigindo atividades diversas que visem compor um panorama atualizado do funcionamento do Sistema de Garantia de Direitos. Para isto há um acompanhamento de processos, e trocas de resultados, entre o grupo de pesquisa e demais pesquisadores e profissionais atores do Sistema de Garantia de Direitos, com foco especial para a atuação do psicólogo neste contexto..

Referências Bibliográficas:

1- BAPTISTA, Myrian Veras. Algumas reflexões sobre o sistema de garantia de direitos – Revista: Serviço Social e Sociedade, nº109, São Paulo. Jan./Mar. 2012 2-COSTA, Maria Conceição; BIGRAS, Marc. Mecanismos pessoais e coletivos de proteção e promoção da qualidade de vida para a infância e adolescência – Revista: Ciência e saúde

coletiva, p:1101-1109, 2007

3-Estatuto da criança e adolescente - Lei 8069, de 13/07/1990 4-GONÇALVES, Hebe Signorini; GARCIA, Joana. Juventude e sistema de direitos no Brasil – Psicologia ciência e profissisão, nº 3, Brasília Set. 2007.

5-Resolução Nº 113 CONANDA, de 16 de abril de 2016.

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6- BAREMBLITT, G. Compêndio de Análise Institucional. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2012. LOURAU, R. Análise Institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993.

Referências

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