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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.30 número2

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Academic year: 2018

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Rev Bras Psiquiatr. 2008;30(2):177-8 177

Em um único ponto os autores deixam o leitor insatisfeito. A magnitude da obra, sua farta erudição e a linhagem a que pertence permitiriam que os autores pudessem nos brindar com algumas análises aprofundadas de caso, revelando-nos como opera microscopicamente, no cotidiano da clínica, sua visão de psiquiatria.

Enfim, pela maneira brilhante de coordenar tradição e contemporaneidade e pelo alento que traz para as novas gerações de psiquiatrias e psicopatologistas, a contribuição de Sonenreich e Estevão merece ser rubricada como ponto de parada obrigatório na formação do psiquiatra brasileiro.

Guilherme Peres Messas Sociedade Brasileira de Psicopatologia Fenômeno-Estrutural

Ensaios - O que psiquiatras fazem

Sonenreich C, Estevão G. Lemos Casa Editorial; 2007. ISBN: 85-61125-01-1

Trata-se de um truísmo afirmar a copiosa fortuna da Medicina na história das sociedades. Sem dúvida, esta prática sobre o humano sempre ocupou posição de destaque em qualquer cultura, em toda época histórica. Entretanto, uma articulação fértil entre o assimilado pela tradição – sempre se arriscando a ser petrificado em dogma – e o incorporado como novidade – sob constante ameaça da fatuidade dos modismos – não é tarefa fácil. Sobretudo nos tempos contemporâneos, nos quais tudo que é sólido desmancha-se no ar. Haveria ainda espaço para a tradição na Medicina ou esta se antepõe por princípio à velocidade dos ganhos da tecnologia? A obra de Carol Sonenreich e Giordano Estevão fornece um substancial argumento para aqueles que acreditam na resposta afirmativa à questão da importância viva da tradição dentro da Medicina. Seus ensaios simultaneamente rendem preito à caudalosa tradição psiquiátrica e dedicam-se a discutir o temário da contemporaneidade, num amplo arco que vai das neurociências à psicanálise. A estrutura do livro é reveladora da pretensão dos autores.

Já na abertura, a oferta de uma reprodução em grego antigo do Juramento Hipocrático indica a inspiração do trabalho. Em seguida, situam-se respeitosamente os autores dentro de uma tradição psiquiátrica que remonta à Psicopatologia Geral, de Karl Jaspers, mostrando a necessidade da fundamentação epistemológica da psiquiatria. Advertem para a condição essencialmente relativa da psiquiatria, prática social para a qual inexiste uma verdade definitiva.

Uma análise crítica das premissas sobre as quais se desenvolve a psiquiatria contemporânea, com suas fragilidades e aporias, o livro convida o leitor a mergulhar com boa dose de atenção no inevitavelmente escorregadio terreno conceitual em que opera o psiquiatra. Antes de adentrar no campo científico propriamente dito das patologias principais da psiquiatria, os autores, professando modéstia e volumosa erudição, apresentam sua opção epistemológico-ética, a fenomenologia existencial. Alvissareira toda produção na área da medicina mental que mantenha a lucidez de apresentar claramente o incontornável perspectivismo de seus pontos de vista, funcionando como um abrigo contra o vórtice contemporâneo que procura transformar a psiquiatria num bloco de saber único, simplificado, empacotado e de fácil digestão pela cultura.

O próprio título, Ensaios - o que os psiquiatras fazem, sinaliza para esse caráter experimental e limitado da prática psiquiátrica, continuamente aberta à sua renovação pela auto-reflexão e ao seu cotejamento com a produção legada pelos mestres. Mais importante ainda: acentuando o perfil ensaístico da psiquiatra e da psicopatologia, os autores acabam por exortar o leitor à criação de uma psicopatologia autoral. Ao livrá-lo das amarras ocultas de uma opção epistemológica vigente nas últimas décadas, cuja principal característica é um cientificismo operacional obtuso, o livro convida o jovem psiquiatra a permitir-se almejar o desenvolvimento de uma visão particular de psicopatologia e psiquiatria. Essa atitude de invocação à criação crítica, dialogando com a própria herança, foi a responsável por tudo aquilo que, em psiquiatria e psicopatologia, recebe o selo de clássico: Bleuler, Minkowski, Jaspers, Binswanger e tantos outros.

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