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UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

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Academic year: 2018

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Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas

INDICADORES DE QUALIDADE MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DE CONSUMO, FATORES DE VIRULÊNCIA E CONDIÇÕES SANITÁRIAS DOS POVOS INDÍGENAS

MAXAKALI, PATAXÓ E XAKRIABÁ, ALDEADOS EM MINAS GERAIS.

Gabriela Lanna de Carvalho Siqueira

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Gabriela Lanna de Carvalho Siqueira

INDICADORES DE QUALIDADE MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DE CONSUMO, FATORES DE VIRULÊNCIA E CONDIÇÕES SANITÁRIAS DOS POVOS INDÍGENAS

MAXAKALI, PATAXÓ E XAKRIABÁ, ALDEADOS EM MINAS GERAIS.

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Ciências Biológicas. Área de concentração: Imunobiologia de Protozoários Linha de pesquisa: Epidemiologia de Doenças Parasitárias

Orientador: Professor Dr. George Luiz Lins Machado Coelho.

Co-orientação: Professora Dra. Silvana de Queiroz Silva.

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“Quero, um dia, poder dizer às pessoas que

nada foi em vão... que o amor existe, que vale a

pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...

e que valeu a pena!”

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AGRADECIMENTOS

Ao Professor Dr. George Luiz Lins Machado Coelho (UFOP) pelos valiosos ensinamentos que nortearam minha caminhada ao longo da graduação, iniciação científica e do curso de Mestrado, desde 2004. É uma longa caminhada! Como orientador, sua conduta através de palavras de incentivo cativaram uma admiração pessoal e profissional. Sou grata por me apresentar ao universo complexo, porém fascinante que é o da pesquisa, em especial o estudo sobre epidemiologia das doenças parasitárias dos povos indígenas no Brasil.

À Secretaria de Vigilância em Saúde, que propiciou todo o apoio logístico para o desenvolvimento dos trabalhos de campo, com disponibilização de equipe qualificada e veículos. Sem tal auxílio tudo seria muito mais difícil.

Ao “Corpo Docente” do “Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas da Universidade

Federal de Ouro Preto”, pelo apoio e esclarecimentos, em especial aos professores de parasitologia.

À Professora Silvana Queiroz, professora do NUPEB, e que auxiliou nas análises moleculares. Obrigada pela contribuição, interesse e amizade. Sempre transmitindo o conhecimento de forma clara e humana. Profissional exemplar.

Ao Professor Luiz Fernando pela antiga amizade e auxílio na parte microbiológica das análises.

Ao Engenheiro João Luiz Pena pelo apoio durante a execução do trabalho na Terra Indígena Xakriabá.

Ao CNPq, FAPEMIG e CAPES pelo financiamento desta pesquisa. todos fincaram?

À Professora Paula Prazeres da UFMG, que cedeu gentilmente os controles positivos de Escherichia coli.

Aos amigos do Laboratório de Epidemiologia, bolsistas de iniciação, em especial cada um de vocês e os bolsistas que me acompanharam diretamente.

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Aos meus maravilhosos pais (Regina e Geraldo), que sempre acreditaram em mim, tornando os momentos de dificuldade mais amenos, os momentos de dúvida mais equilibrados e os momentos felizes mais felizes ainda... Sou grata por tudo e pelo exemplo grandioso de vida e dedicação!

Ao meu querido irmão e amigo – Guilherme -, agradeço pelos conselhos grandiosos. Sua inteligência e autoconfiança sempre me influenciaram de forma significativa.

Agradeço meu marido Juliano pelo incentivo constante, pelo amor verdadeiro, que se expressa num olhar, na confiança e nos detalhes.

Ao meu Tio Ricardo, Raquel e grande amiga Tetê, pela compreensão, amizade e apoio, que foram meu abrigo em Ouro Preto.

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8 RESUMO

Em Minas Gerais residem sete etnias indígenas. Na região norte, os Xakriabá; na nordeste,

os Maxakali, Pankararu e Aranã; na leste, os Krenak; na central, os Pataxó; na

centro-oeste, os Caxixó; e na sul, os Xuluru-Kariri. A população é estimada em aproximadamente

10 mil indivíduos, vivendo em mais de 2 mil domicílios distribuídos em aproximadamente

70 aldeias. Crianças indígenas com até cinco anos, naturalmente mais sujeitas a agravos,

apresentam risco elevado para doenças diarréicas devido à maior exposição ambiental. Os

coliformes fecais, cujo principal representante é a Escherichia coli, são utilizados no

monitoramento da qualidade da água Objetivo: Este trabalho teve como objetivo

determinar a qualidade microbiológica da água de consumo domiciliar de três etnias

indígenas residentes em Minas Gerais, avaliar a susceptibilidade a antibióticos dessas

linhagens de Escherichia coli, assim como identificar fatores de virulência desses isolados.

Metodologia: O desenho do estudo foi do tipo descritivo, respaldado com exames

laboratoriais e análise molecular. Análise da qualidade microbiológica da água de beber foi

realizada no universo dos domicílios (N=132) das terras indígenas Maxakali, Pataxó e

numa amostra (n=249) dos 1334 domicílios da Terra Indígena Xakriabá, utilizando como

critério ter ou não crianças infectadas por Giardia duodenalis e/ou Entamoeba histolytica.

Para realização das análises microbiológicas, a água de beber foi coletada em sacos

coletores estéreis de 100 ml, e em seguida realizada a filtração em sistema à vácuo em

membrana Millipore®. Tais membranas eram transferidas para placas de petri em meio

específico Coliblue®, com a finalidade de detectar coliformes totais e Escherichia coli.

Nas amostras positivas pelo Coliblue®, ágar McConkey foi utilizado como triagem de

isolados lactose positivo para posterior identificação da Escherichia coli. A identificação

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9

dos meios EPM-MILi. Análise dos fatores de virulência foi realizada nos isolados (n=57)

identificados como E. coli. As amostras positivas para E. coli em meio Coli blue®, e após

confirmação através da série bioquímica, foram cultivadas em meio BHI a 37 ͦC /24 horas.

A caracterização genotípica foi realizada pela técnica da PCR para detecção dos seguintes

genes relacionados a fatores de virulência em E. coli: astA, steA, steB, eae, bfp, stx1, stx2,

INV, aggA. A frequência absoluta e relativa de condições sanitárias segundo positividade

por E.coli e coliformes totais também foi avaliada. As análises estatísticas descritivas

(média, desvio padrão, mediana e percentis) e de associação (qui-quadrado) foram

realizadas no programa SPSS. A frequência global de domicílios com água contaminada

com coliformes totais e E. coli foi respectivamente igual a 80,0% (357/446) e 42,5%

(189/445). Dessas, 147 amostras foram positivas pelo Coli blue, 47 amostras foram

positivas pelo ágar McConkey, sendo 25 confirmadas pela série bioquímica como E. coli.

Dessas, os seguintes fatores de virulência foram positivos: eae (35,29%), astA (52,9%), bfp

(67,6%), INV(85,3%), stx1 (16,7%), stx2 (20,6%), steB (8,8%), aggA (17,6%). Conclusão:

O estudo demonstrou a presença de genes circulantes que codificam para fatores de

virulência de E. coli, nas terras indígenas Maxakali, Xakriabá e Pataxó. Esses resultados

demonstram a necessidade de ampliação do sistema de saneamento básico na nessas terras

indígenas.

Palavras-chave: Fatores de virulência; População indígena; Epidemiologia; Qualidade da

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Abstract

In Minas Gerais reside seven indigenous ethnic groups. In the northern region, Xakriabá;

in the northeast, the Maxakali, Pankararu and Aranã; on the east, the Krenak; in the center,

the Pataxó; in the Midwest, the Caxixó; and in the south, the Xukuru-Kariri. The

population is estimated at about 10.000 individuals living in more than 2.000 households

distributed in approximately 70 villages. The largest populations are Xakriabá with 8000

individuals and Maxakali with 1500 individuals. More than in the general population,

indigenous children under five years, naturally more subject to various diseases, are at

increased risk for diarrhea due to increased environmental exposure. Fecal coliform

bacteria, whose main representative is Escherichia coli, are part of the intestinal tract of

man, and used to monitor water quality, which is an important factor for establishing the

health benefits related to reducing the incidence and prevalence of waterborne diseases.

Objective: This study aimed to determine the microbiological quality of household water

consumption three indigenous ethnic groups living in Minas Gerais, assess the antibiotic

susceptibility of these strains of Escherichia coli, and to identify virulence factors of these

isolates. Methodology: The study design was descriptive, supported with laboratory tests

and molecular biology analyzes. Analysis of the microbiological quality of drinking water

was carried out in the universe of households (N = 196) of indigenous lands Maxakali,

Pataxó and a sample (n = 249) of 1334 households of Indigenous Xakriabá, using as

criteria for this Indigenous Land whether or not children infected with Giardia duodenalis

and / or Entamoeba histolytica. To perform the microbiological analysis, drinking water

was collected in sterile bags collectors of 100 ml, and then held the filtration vacuum

(11)

11

in a specific medium in order to detect total coliforms and Escherichia coli. In the positive

samples the Coliblue®, McConkey agar was used as the screening of isolated positive

lactose for identification of Escherichia coli. The identification of species of

micro-organisms was performed by biochemical tests with the use of the milli-EPM means. These

were maintained on nutrient agar at room temperature. Analysis of virulence factors was

performed on the isolates (n = 57) identified as E. coli. Positive samples for E. coli amid

Coli Blue® and after confirmation by biochemical tests, were grown in BHI at 37 Cº / 24

hours to give sequence to the DNA extraction process by thermal lysis. Genotypic

characterization was performed by PCR for detection of the following genes related to

virulence factors in E. coli: astA, Stea, STEB, eae, bfp, stx1, stx2, INV, Agga. The

absolute frequency and relative sanitary conditions (electricity, kitchen, ground floor, roof,

wattle-and-daub wall, missing coating, another source besides the well, untreated water,

boiled drinking water, uncovered drinking water, lack water tank, toilet, bathroom Funasa,

have spread garbage) under positive for E. coli and total coliforms was also evaluated.

Descriptive statistical analysis (mean, standard deviation, median and percentiles) and

association (chi-square) were performed using SPSS. The overall frequency of households

with water contaminated with total coliforms and E. coli were respectively 80.0%

(357/446) and 42.5% (189/445). Of these, only 47 samples were positive by agar

McConkey, 25 confirmed by biochemical tests as E. coli. Of these, the following virulence

factors were positive: eae (35.29%), astA (52.9%), bfp (67.6%), INV (85.3%), stx1

(16.7%), stx2 (20.6%), STEB (8.8%), agga (17.6%). Conclusion: The study demonstrated

the presence of circulating genes encoding virulence factors of E. coli, on indigenous lands

Maxakali, Xakriabá and Pataxó. These results demonstrate the need to expand the

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12

Keywords: virulence factors; Indigenous peoples; Epidemiology; Water quality. Sumário

1 INTRODUÇÃO ... 20

2 REVISÃO DA LITERATURA ... 23

2.1 SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL ... 23

2.2 SANEAMENTO E SAÚDE ... 26

2.3 ESCHERICHIA COLI E QUALIDADE DA ÁGUA ... 31

2.4 ESCHERICHIA COLI E AS CATEGORIAS DIARREIOGÊNICAS ... 32

2.4.1 Escherichia coli enteropatogênicas (EPEC) ... 36

2.4.2 Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC) ... 38

2.4.3 Escherichia coli enterohemorrágica (EHEC) ... 40

2.4.4 Escherichia coli enteroagregativa (EAEC) ... 42

2.4.5 Escherichia coli enteroinvasiva (EIEC) ... 43

2.4.6 Escherichia coli produtora de Shiga toxina stx (STEC) ... 45

2.4.7 E. coli que Adere Difusamente (DAEC) ... 45

2.5 INTERESSE DO ESTUDO DAS RESISTÊNCIAS AOS ANTIMICROBIANOS EM E. COLI ... 46

3 JUSTIFICATIVA ... 50

4 OBJETIVOS ... 50

4.1 OBJETIVO GERAL ... 50

4.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 50

5 METODOLOGIA ... 52

5.1 COMITÊ DE ÉTICA E BIOSSEGURANÇA ... 52

5.2 DELINEAMENTO DO ESTUDO ... 53

5.3 ÁREA E POPULAÇÃO DO ESTUDO ... 54

5.4 OBTENÇÃO DAS AMOSTRAS DE ÁGUA ... 55

5.5 ANÁLISE MICROBIOLÓGICA ... 56

5.5.1 Processamento das amostras de água ... 56

5.5.2 Crescimento bacteriano em meio ColiBlue® ... 57

5.5.3 Identificação das bactérias isoladas... 57

5.6 ANTIBIOGRAMA ... 59

5.6.1 Preparo das placas com meio de cultura ... 59

5.6.2 Preparo do inóculo ... 59

(13)

13

5.6.4 Escolha dos antibióticos ... 60

5.6.5 Aplicação dos discos/ Incubação ... 60

5.6.6 Leitura ... 61

5.7 CARACTERIZAÇÃO GENOTÍPICA DAS AMOSTRAS DE E. COLI ... 62

5.7.1 Obtenção do DNA para a reação em cadeia da polimerase (PCR) ... 62

5.7.2 Reação em cadeia da polimerase ... 63

5.7.3 Eletroforese em gel de agarose ... 65

5.7.4 Características socioeconômicas ... 66

5.8 PROCESSAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS ... 67

6 RESULTADOS ... 68

6.1 QUALIDADE MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA -COLIBLUE® ... 68

6.1.1 Resultados da série bioquímica - confirmação dos isolados positivos pelo coliBlue®... 69

6.1.2 Terra Indígena Maxakali ... 72

6.1.3 Terra Indígena Pataxó ... 73

6.1.4 Terra Indígena Xakriabá ... 75

6.2 FATORES DE VIRULÊNCIA ... 77

6.3 CARACTERIZAÇÃO DESCRITIVA DOS DOMICÍLIOS INCLUÍDOS NO ESTUDO – ÁGUA DE CONSUMO X CONDIÇÕES SANITÁRIAS ... 81

6.4 ANTIBIOGRAMA ... 85

7 DISCUSSÃO ... 88

7.1.1 Parâmetro microbiológico... 88

7.1.2 Virulência ... 92

7.1.3 Água de consumo x condições sanitárias ... 94

7.1.4 Antibiograma ... 97

8 CONCLUSÃO ... 100

9 RECOMENDAÇÕES ... 101

10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 102

11 ANEXOS ... 124

11.1 AUTORIZAÇÃO DA FUNAI ... 124

(14)

14

LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS

AA - Aderência agregativa

AAF- Aggregative adherence fimbriae (fatores de aderência agregativa)

aap- Anti-aggregation protein (proteína antiagregrativa)

AD - Aderência difusa

A/E - Attaching and effacing (aderência e achatamento)

aggR- Aggregative regulator (regulador de aderência agregativa)

AIS –Agente Indígena de Saúde

AISAN– Agente Indígena de Saneamento

AL- Aderência localizada

DAEC- E. coli de aderência difusa

DAF- Decay acceleretor factor (fator de aceleração de decaimento)

DEC- Escherichia coli diarreiogênica

DESAI –Departamento de Saúde Indígena

DIP– Doenças infecciosas e parasitárias

DSEI– Distrito Sanitário Especial Indígena

eae - EPEC attaching and effacing (EPEC-aderência e achatamento)

EAEC - E. coli enteroagregativa

EAF - EPEC adherence factor (fator de aderência de EPEC)

(15)

15 EHEC- E. coli enterohemorrágica

EIEC- E. coli enteroinvasora

EPEC- E. coli enteropatogênica

aEPEC- E. coli enteropatogênica atípica

tEPEC- E. coli enteropatogênica típica

EspA- EPEC secreted proteins (Proteína secretada pela EPEC)

EspF- EPEC secreted proteins (Proteína secretada pela EPEC)

ETEC- E. coli enterotoxigênica

g- Grama

Lac+ - Fermentadora de lactose

Lac- - Não fermentadora de lactose

LEE- Locus of enterocyte effacement

LT- Enteroxina termolábil

MILi- Motilidade, indol, Lisina descarboxilase

mL- Mililitros

pAA- Plasmid-aggregative adherence (plasmídio de aderência agregativa)

Pb- Pares de base

PBS- Phosphate-buffered saline (salina tampão fosfato)

PCR- Polymerase chain reaction (reação em cadeia pela polimerase)

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16 pInv- Plasmídio de invasividade

PVC- Polyvinyl chloride (cloreto de polivinila)

SISAGUA –Sistema de Informação de Água para Consumo Humano

SISABI –Sistema de Informação de Saneamento em Áreas Indígenas

SIASI– Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena

SLT- Shiga-like toxin (toxina semelhante à de Shiga)

SPI– Serviço de Proteção ao Índio

SPSS– Statistical Package for Social Science

ST- Enterotoxina termoestável

STEC- E. coli produtora de toxina de Shiga

Stx- Toxina de Shiga

SUS– Sistema Único de Saúde

TI– Terra Indígena

TSI- Triple sugar iron (tríplice açúcar com ferro)

UBS- Unidade Básica de Saúde

UFC- Unidade formadora de colônia

(17)

17

LISTA DE TABELAS E QUADROS

Quadro 1: Características fenotípicas e genotípicas que definem as categorias de

Escherichia coli diarreiogênicas...35

Quadro 2: Antibióticos usados em E. coli e respectivo valor dos halos de inibição (CLSI, 2007)...61

Tabela 1: Frequência de domicílios e indivíduos nas terras indígenas Pataxó, Maxakali e

Xakriabá, Minas Gerais, 2012...53

Tabela 2: Sequência de iniciadores usados nos ensaios genotípicos de Escherichia coli com

respectivos genes e tamanhos de fragmentos obtidos...62

Tabela 3: Reagentes e concentrações utilizados nos ensaios de PCR...63

Tabela 4: Atributos das variáveis e características socioeconômicas...65

Tabela 5: Frequência de positividade para Escherichia coli em terras indígenas de Minas

Gerais, 2011...68

Tabela 6: Frequência de parâmetros bioquímicos dos isolados em terras indígenas de Minas Gerais, 2011...68

Tabela 7: Frequência de microorganismos identificados por terra indígena de Minas

Gerais, 2011...69

Tabela 8: Correlação entre a frequência de positividade entre E.coli pelo ColiBlue e Ágar

MacConkey...70

Tabela 9: Frequência de positividade para prova da lactose em ágar MacConkey por terra

(18)

18

Tabela 10: Frequência de positividade por E. coli e coliformes totais através do método de

ColiBlue® em domicílios indígenas segundo polo-base, TI Maxakali, Minas Gerais

2012...73

Tabela 11: Frequência de positividade por E.coli e coliformes totais através do método de

ColiBlue® em domicílios indígenas segundo polo-base, TI Xakriabá, Minas Gerais

2012...76

Tabela 12: Frequência de positividade para fatores de virulência de E. coli nos isolados,

por terra indígena, Minas Gerais, 2012. ...78

Tabela 13: Frequência absoluta e relativa (%) de condições sanitárias segundo positividade

para E.coli e coliformes totais, em 59 domicílios da Terra Indígena Maxakali, 2012...80

Tabela 14: Frequência absoluta e relativa (%) de condições sanitárias segundo positividade

para E. coli e coliformes totais em 24 domicílios, Terra Indígena Pataxó, 2012...82

Tabela 15: Frequência absoluta e relativa (%) de condições sanitárias segundo positividade

para E. coli e coliformes totais em 210 domicílios da Terra Indígena Xakriabá, 2012...83

Tabela 16: Frequência de resistência antimicrobiana por terra indígena, Minas Gerais,

(19)

19

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Mecanismo de ação dos principais grupos de antibióticos (adaptado de Saenz,

2004). ...47

Figura 2: Panorama para resistência à antibióticos ...48

Figura 3: Fluxograma do estudo simplificado...52

Figura 4: Sistema de filtração à vácuo...55

Figura 5: Antibiograma – aplicação dos discos de antibióticos...60

Figura 6: Leitura e interpretação dos resultados – antibiograma...60

Figura 7: Fluxograma ...69

Figura 8: Fluxograma dos resultados obtidos da caracterização da Escherichia coli por polo-base na Terra Indígena Maxakali, Minas Gerais, 2011...72

Figura 9: Fluxograma dos resultados obtidos da caracterização da Escherichia coli na Terra Indígena Pataxó, Minas Gerais, 2011. ...74

Figura 10: Frequência de positividade para fatores de virulência de Escherichia coli na terra indígena Maxakali, Minas Gerais, Brasil, 2012...79

Figura 11: Frequência de positividade para fatores de virulência de Escherichia coli na TI Pataxó, Minas Gerais, Brasil, 2012. ...79

(20)

20

1 INTRODUÇÃO

Em Minas Gerais residem sete etnias indígenas. Na região norte, os Xakriabá; na nordeste,

os Maxakali, Pankararu e Aranã; na leste, os Krenak; na central, os Pataxó; na

centro-oeste, os Caxixó; e na sul, os Xuluru-Kariri. A população é estimada em aproximadamente

10 mil indivíduos, vivendo em mais de 2 mil domicílios distribuídos em aproximadamente

70 aldeias. As maiores populações são a Xakriabá com 8 mil indivíduos e a Maxakali com

1,5 mil indivíduos (SCHETTINO et al., 1999).

As enteroparasitoses são importante componente do perfil epidemiológico dos povos

indígenas do Brasil. Estudos indicam moderada a elevada prevalência, o que se deve a falta

de infraestrutura, água potável e hábitos higiênicos dessas populações (ASSIS et al., 2013;

MOURA et al., 2010; ASA, 2009; BASSO et al., 2008).

A equipe do Laboratório de Epidemiologia das Doenças Parasitárias (LEPI) da UFOP

realizou um amplo inquérito parasitológico e nutricional nas aldeias das terras indígenas

das diferentes etnias residentes em Minas Gerais (ASSIS et al., 2013; CARVALHO, 2011;

SIMOES et al., 2015; DIAS Jr et al., 2013; ASSUNÇÃO, 2012). A prevalência global para

todas as etnias foi: Protozooses intestinais - Entamoeba histolytica (20,8%), Giardia

duodenalis (18%), Entamoeba coli (31,2%), Iodamoeba butschlii (1,7%), Endolimax nana

(4,2%), e Helmintoses - Taenia sp (0,3%), Hymenolepis nana (4,6%), Schistosoma

mansoni (4,0%), Ascaris lumbricoides (1,3%), ancilostomídeos (7,9%), Strongyloides

stercoralis (1,2%), Trichuris trichiura (0,4%) e Enterobius vermicularis (0,7%).

A elevada prevalência de infecção por protozoários intestinais é uma consequência da

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21

especialmente entre as crianças que são o grupo mais vulnerável (TEIXEIRA et al., 2007;

ASSIS et al., 2013).

A água de consumo humano é o principal veículo de transmissão de patógenos capazes de

causar infecções gastrointestinais, sendo vital o seu controle microbiológico. A ingestão de

alimentos contaminados com microrganismos, proveniente de água de má qualidade,

também é capaz de veicular doenças causadas por protozoários patogênicos (ROCHA et

al., 2010; KNIGHT et al., 2012).

Através da análise microbiológica da água é possível a identificação de alguns

microrganismos nocivos à saúde humana, como os coliformes termotolerantes e

Escherichia coli. Essas bactérias são comumente encontradas no trato intestinal de animais

de sangue quente sendo bioindicadores de contaminação fecal. Uma vez encontradas na

água de consumo, demonstram que a higiene desse reservatório pode estar comprometida

(ROCHA et al., 2010)

Na literatura, estudos evidenciam a qualidade e/ou quantidade de água como fator

determinante, ou mesmo como fator de risco, para a doença diarreica aguda (QUEIROZ et

al., 2009). Diversos estudos mostram, também, a importância e os benefícios que as

intervenções ambientais proporcionam para a minimização das doenças diarreicas, e como

os investimentos em saneamento têm consequências positivas na saúde pública

(CATAPRETA et al., 1999)

Mais do que na população geral, crianças indígenas com até cinco anos, naturalmente mais

sujeitas a diversos agravos, apresentam risco elevado para doenças diarreicas devido à

(22)

22

Os coliformes fecais, cujo principal representante é a Escherichia coli, fazem parte da

microbiota intestinal do homem, e são utilizados no monitoramento da qualidade da água

(CABRAL, 2010). Como as linhagens patogênicas de E. coli possuem numerosos fatores

de virulência, localizados em cromossomos, plasmídeos e DNAs de bacteriófagos, esse

estudo justifica-se pela necessidade de avaliar indicadores da qualidade da água e de um

(23)

23

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.1 Saúde Indígena no Brasil

Segundo Coimbra (2001), no presente pode-se dizer que o desafio com relação à saúde dos

povos indígenas incluem doenças crônicas não-transmissíveis, contaminação ambiental e

dificuldades de sustentabilidade alimentar, ao contrário das dificuldades do passado que

relacionavam-se a introdução de novos patógenos, epidemias, perseguição e morte até

mesmo de comunidades como um todo.

Em documento do Mapa da Fome, realizado com a cobertura de 128 terras indígenas

(19,75% em relação ao número oficial de terras indígenas em 1994), Coimbra & Santos

(2000) concluíram que pelo menos 28,27% da população indígena brasileira estava com

dificuldades para garantir com segurança adequado padrão alimentar e de saúde. Situações

críticas foram observadas entre os povos indígenas do Nordeste e Centro-Sul (MT, MS,

PR, SC e RS).

Os principais problemas de saúde de populações indígenas segundo estudos recentes são

elevadas taxas de morbidade e mortalidade em mulheres e crianças, desnutrição e doenças

infecciosas, tais como diarreia, infecção respiratória aguda, tuberculose e malária (SAN

SEBASTIÁN & HURTIG, 2007). Os danos causados por infecções parasitárias em

indivíduos e comunidades dependem de diversos fatores, e dentre os principais pode-se

citar: (a) espécie do parasita; (b) intensidade e o curso da infecção; (c) estado nutricional e

(24)

24

Coimbra Jr & Santos (2001) em um texto que compõe documento de trabalho preparado

para o Livro “Perfil Epidemiológico da População Brasileira” afirma que nas comunidades

indígenas, uma característica marcante é a precariedade das condições de saneamento. O

mais comum é a ausência de infraestrutura adequada para a coleta dos dejetos e a

inexistência de água potável, inclusive nos postos indígenas. Sendo assim, não é de

surpreender a abrangência e disseminação das parasitoses intestinais nessas localidades.

A frequência de infecções por enteroparasitoses é um importante indicador das condições

de saneamento em que vive uma determinada população (FERREIRA & LALA, 2008;

ASSIS et al., 2013). As parasitoses intestinais estão amplamente disseminadas entre os

povos indígenas brasileiros, em função de fatores como condições culturais a que estão

expostos.

Em geral, as espécies mais prevalentes são o A. lumbricoides, Trichuris trichiura,

Strongyloides stercoralis e ancilostomídeos, que são classificados como helmintos

transmitidos pelo solo (STH) e estão incluídas na lista de doenças tropicais negligenciadas

(KIRWAN et al., 2009). Um quadro comum é o de mais de 50% da população indígena

acometida por mais de uma espécie – poliparasitismo (COIMBRA JR & SANTOS, 2001;

ASSIS et al., 2013; DIAS JUNIOR et al., 2013).

Em Minas Gerais, a precariedade das condições de saneamento, associada ao sedentarismo,

a hábitos alimentares e à higiene pessoal, é responsável pela elevada prevalência das

parasitoses intestinais nas comunidades indígenas (MOREIRA, 2008; CARVALHO, 2011;

(25)

25

Moura et al. (2010) apontam o enteroparasitismo como um componente epidemiológico

importante nas populações indígenas do Brasil, e apesar de limitado a poucos grupos

étnicos, estudos que abordam este assunto indicam prevalências moderadas a elevadas o

que reflete a carência em infraestrutura, ausência de água potável, juntamente com hábitos

higiênicos inadequados dessas populações. Por exemplo, a ingestão de ovos através da

água e alimentos contaminados ou o hábito de levar as mãos e objetos sujos à boca são os

principais mecanismos de transmissão de parasitos, tais como, A. lumbricoides, T.

trichiura, Enterobius vermicularis (FERREIRA & LALA, 2008).

As condições sanitárias insatisfatórias, assim como hábitos inadequados de higiene, fazem

parte de uma realidade que prevalece entre os indígenas da Amazônia. Com isso,

observa-se situação propícia à propagação de enteropatógenos bacterianos, viróticos e/ou

parasitários, cujo mecanismo de transmissão acontece pela via fecal-oral (LINHARES,

1992; BÓIA et al., 2009).

A doença diarreica é uma importante causa de morbidade e mortalidade em todas as

regiões do mundo e entre indivíduos de todas as faixas etárias, com especial destaque para

crianças e países em desenvolvimento (WHO, 2008, 2010). Segundo a Organização

Mundial de Saúde (OMS) o total de mortes de crianças menores de cinco anos em 2008

chegou a 8,8 milhões, especialmente em regiões com baixo nível socioeconômico (WHO,

2010).

No Brasil , a mortalidade por diarréia sofreu uma redução significativa durante as últimas

três décadas , principalmente devido à expansão da rede de cuidados de saúde primários , o

uso difundido da terapia de reidratação oral , redução da desnutrição infantil , e melhoria

(26)

26

crianças menores de um ano , a taxa de mortalidade caiu cerca de 90 %, passando de 11,7

mortes por 1.000 nascimentos vidas em 1980 para 1,5 em 2005 (Escobar et al., 2015)

Em 2006 , a prevalência de diarréia entre crianças indígenas brasileiras menores de cinco

anos de acordo com relato dos cuidadores para um período recordatório de 15 dias foi de

9,4%. De acordo com resultados da Primeira Pesquisa de Saúde e Nutrição de Populações

Indígenas, quase um quarto das crianças indígenas do país apresentam diarreia nas

primeiras semanas de vida (Escobar et al., 2015)

Como agentes etiológicos de gastroenterites infecciosas, vírus e bactérias apresentam

destaque nas morbidades. Embora a prevalência dos agentes infecciosos virais nas

gastroenterites seja similar entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, no que diz

respeito aos agentes infecciosos bacterianos, a prevalência e o tipo variam de acordo com o

tipo de saneamento básico, higiene da população e a área geográfica (BÓIA et al., 2006).

Dentre os principais agentes etiológicos bacterianos, os patotipos de Escherichia coli

diarreiogênica (DEC) figuram como problemas de saúde significativos quando se fala em

gastroenterite infantil em países em desenvolvimento (NATARO& KAPER, 1998;

SOUZA et al., 2007).

2.2 Saneamento e saúde

O saneamento é uma condição primordial para a promoção da saúde de uma população e

da qualidade ambiental (WHO-UNEP, 2005). Sabe-se que a qualidade da água consumida

(27)

27

sustentabilidade de uma comunidade, sendo estes, elementos chave na proposta de

desenvolvimento (KAICK, 2007).

O saneamento ambiental constitui-se de um conjunto de ações que visam proporcionar

níveis crescentes de salubridade ambiental em determinado espaço geográfico, em

beneficio da população que o habita. Tais ações podem produzir efeitos positivos sobre o

bem-estar e a saúde das populações. O termo “condição sanitária” expressa o nível de

salubridade ambiental, envolvendo desde as instalações hidráulicas sanitárias domiciliares

aos sistemas públicos de saneamento. Além disso, o saneamento ambiental adequado é

considerado parte constituinte do modo moderno de viver e um dos direitos fundamentais

dos cidadãos das sociedades contemporâneas (MS, 2004).

A quantidade de água necessária para o desenvolvimento das atividades humanas, tanto no

processo de produção de vários tipos de produtos quanto no abastecimento para o consumo

humano, vem aumentando significativamente no Brasil. No entanto, a quantidade de água

potável não aumentou (LEONETI et al., 2011). Pelo impacto na qualidade de vida, na

saúde, na educação, no trabalho e no ambiente, o saneamento básico envolve a atuação de

diversos agentes. O Brasil está marcado por uma grande desigualdade e por um déficit ao

acesso, principalmente em relação à coleta e tratamento de esgoto (LEONETI et al., 2011).

Cada comunidade ou país adota um padrão microbiológico para potabilidade da água. O

padrão microbiológico adotado pela legislação brasileira para água de consumo humano,

incluindo poços, minas, nascentes, é a ausência de coliformes termotolerantes ou

Escherichia coli em 100 mL de água (BRASIL, 2004). O regulamento de características

(28)

28

de água de coliformes totais, E. coli, Enterococcus spp, Pseudomonas aeruginosa e

Clostridium perfringens (BRASIL, 2005).

Heller (1998) relata que 32% da população brasileira não são conectadas à rede coletiva de

água e 68% não são atendidos por sistema coletivo de esgotos. Além disso, parte

considerável da população abastecida por água recebe água intermitentemente e de

questionável qualidade. Sabe-se que quase a totalidade do esgoto coletado é lançada nos

cursos d’água sem tratamento prévio (BALTAZAR et al., 1993).

A ausência de planejamento em saúde pública constitui importante lacuna em programas

governamentais no campo do saneamento no Brasil. Sabe-se que a informação representa a

exigência para o posterior avanço dos setores de saneamento e de saúde, rumo à sua

integração (HELLER, 1997; FUNASA, 2002)

A articulação entre a vigilância epidemiológica, sanitária e da saúde ambiental deveria

interagir com as políticas e ações dos órgãos ambientais, de saneamento e gestores de

recursos hídricos, visando à proteção de mananciais de abastecimento e sua bacia

contribuinte, além de estar articulado com as políticas dos órgãos de defesa do consumidor

(MS, 2006).

No âmbito do Ministério da Saúde, a política de governo recém-definida para a aplicação

dos recursos destinados ao saneamento está voltada para a redução de doenças infecciosas

e parasitárias, e compreende ações de Abastecimento de Água como a implementação,

ampliação e estruturação de sistemas públicos de abastecimento de água); melhorias

Sanitárias Domiciliares que visa controlar doenças evitáveis mediante medidas de

(29)

29

lavatórios, reservatórios de água e filtros; esgotamento Sanitário que visa contribuir para o

controle de doenças parasitárias transmissíveis pelos dejetos humanos e melhoria da

qualidade de vida das populações, mediante a construção, a ampliação e a estruturação de

serviços de coleta e tratamento de esgotos sanitários (MS, 2004).

Os indicadores de saneamento deveriam permitir avaliar de forma quantitativa e qualitativa

os resultados relacionados às ações instituídas, para direcionar adequadamente as políticas

de desenvolvimento local. Atualmente, os indicadores de saneamento estão voltados para

avaliar o aspecto quantitativo, ou seja, a amplitude da ação, mas não conseguem indicar o

efeito qualitativo, conforme indicado pelo Plano Nacional de Saúde e Ambiente no

Desenvolvimento Sustentável (VAN KAICK; MACEDO e PRESZNHUK, 2005).

A água tem influência direta sobre a saúde e qualidade de vida humana. Para a

Organização Mundial da Saúde (OMS, 2001) e seus países membros, “todas as pessoas,

em quaisquer estágios de desenvolvimento e condições sócio-econômicas têm o direito de

ter acesso a um suprimento adequado de água potável e segura”. “Água segura” refere-se à

oferta de água que não represente riscos à saúde, tenha custo acessível, seja em quantidade

suficiente para atender as necessidades domésticas e esteja disponível de forma contínua

(OPAS,2001).

A qualidade microbiológica da água tem grande influência sobre a saúde. Se não for

adequada, pode ocasionar surtos ou epidemias. O perigo de transmissão de doença

infecciosa pelas águas refere-se a doenças infecciosas intestinais (BARROS DE MELO et

(30)

30

A qualidade microbiológica da água tem grande influência sobre a saúde. Se não for

adequada, pode ocasionar surtos ou epidemias. O perigo de transmissão de doença

infecciosa pelas águas refere-se a doenças infecciosas intestinais (BARROS DE MELO et

al.,2004; APHA, 1998).

Sabe-se que as doenças infecciosas têm se associado com menor nível socioeconômico,

aferido através da renda, tipo de habitação, qualidade da água encanada, sendo essas

condições socioeconômicas deficientes facilitadoras de alguns determinantes (FUCHS et

al., 1996). Nas comunidades indígenas, é comum o baixo nível socioeconômico, assim

como as condições inadequadas de higiene, favorecendo a transmissão de parasitoses

intestinais (BÓIA et al., 2006)

Vários autores demonstraram o impacto de medidas de saneamento, inclusive tratamento

da água na redução da mortalidade infantil. Pode-se citar como exemplos, trabalhos de

Deepthi et al. (2013) que avaliaram surto de cólera em aldeias no sul da India e seus

determinante. Neste estudo, os casos foram mais comumente observados em casas que não

se praticava qualquer método de purificação de água. Entretanto, nos países em

desenvolvimento, doenças relacionadas ao saneamento são questões relevantes de saúde

pública, apresentando-se como importantes causas de morbidade e mortalidade,

principalmente entre crianças, em razão da inexistência ou precariedade do esgotamento

sanitário, e a não disponibilidade de água em quantidade suficiente e qualidade adequada

para consumo humano (HUTTLY, 1990; ESREY & HABICHT, 1986). Tudo isto, por sua

vez, contribui para a deposição das excretas nas mãos, na água, alimentos e equipamentos

(31)

31

2.3 Escherichia coli e qualidade da água

E. coli é uma enterobacteria, anaeróbica facultativa que predomina no sistema

gastrintestinal do homem e diversos animais. Em 1885, foi identificada pela primeira vez

pelo pediatra alemão Theodor Escherich (RAMOS, 2002)

A bactéria identifica-se pela forma de bacilos coliformes móveis com flagelos periféricos e

por métodos bioquímicos, sendo oxidase negativa, catalase positiva, além de fermentar a

glucose e a lactose. Coloniza o intestino humano após o nascimento, e encontra-se em

concentrações de 106 a 109 UFC/grama de fezes (CLASEN, 2009).

São constituintes do grupo coliforme os bacilos gram negativos, aeróbios ou anaeróbios

facultativos, não esporulados, oxidase negativos, e capazes de se multiplicar na presença

de sais biliares. Pertencem a esse grupo os gêneros Escherichia, Klebsiella, Enterobacter e

Citrobacter, sendo estes capazes de se desenvolver no trato gastrointestinal dos seres

humanos e animais de sangue quente (EDBERG et al., 2000).

Segundo Brener et al. (1994) distinguem-se dois grupos de coliformes: coliformes totais e

fecais. Os coliformes totais possuem a capacidade de fermentar a lactose produzindo ácido

e gás quando incubados a 35/37°C por 24 a 48 horas (HITCHINS et al., 1992). O grupo

coliforme total, não identifica membros individualmente e tem menor valor interpretativo,

podendo conter bactérias não entéricas. Os coliformes fecais limitam-se a organismos que

crescem no trato gastrointestinal, que são capazes de fermentar a lactose produzindo ácido

(32)

32

E. coli juntamente com bactérias do grupo coliformes é considerada uma das principais

indicadoras da qualidade da água e de contaminação fecal (SWERDLOW et al., 1997;

WHO, 1997).

A espécie E. coli apresenta diversas resistências a fatores ambientais, contaminando água e

alimentos, tornando-se um indicador ideal de contaminação fecal. As estirpes patogênicas

dessa bactéria apresentam comumente uma série de fatores de virulência que, usualmente,

não são encontrados em bactérias comensais (SAENZ, 2004). Sobrevivem na água de

consumo por 4 a 12 semanas, a uma temperatura de 15 – 18 º C (EDBERG et al., 2000).

2.4 Escherichia coli e as categorias diarreiogênicas

As Escherichia coli diarreiogênicas representam importante causa de diarreia endêmica e

epidêmica no mundo (COSTA et al., 2010), sendo a diarreia a principal causa de morte em

crianças menores de 5 anos de idade. O impacto das doenças diarreicas é mais grave nos

primeiros períodos da vida, quando se leva em conta tanto o número de episódios por ano e

frequência de internações (FAGUNDES NETO & SCALETSKY, 2000)

Existem seis espécies descritas de Escherichia: E. coli, E. blattae, E. fergussonii, E.

vulneris, E. albertii e E. hermannii, sendo a E. coli a espécie mais comumente isolada. A

espécie E. coli é um dos principais componentes da família Enterobacteriaceae, presente

na microbiota intestinal de humanos e animais (KUHNERT et al., 2000; HUYS et al.,

2003).

Esta família é constituída por bactérias que não esporulam, são Gram-negativas,

(33)

33

de gás (BOPP et al, 1999). Na década de 1950, o micro-organismo Bacterium coli,

encontrado em altas densidades nas fezes humanas passou a ser denominado Escherichia

coli, e foi escolhida como modelo para estudos de processos biológicos tais como vias

metabólicas, regulação gênica, transdução de sinais, estrutura de parede celular

(KUHNERT et al., 2000).

Escherichia coli é um anaeróbio facultativos da flora humana, que coloniza trato

gastrointestinal, permanecendo inofensiva. No entanto, em hospedeiros imunossuprimidos,

ou quando barreiras gastrointestinais são violadas, E. coli não patogênica pode provocar

infecções que são limitadas a superfície das mucosas, ou podem se disseminar pelo corpo

(NATARO & KAPER, 1998). Tais patógenos têm sido classificados em duas categorias

principais: patógenos entéricos e extra-intestinais, sendo os agentes patogênicos entéricos

relacioandos a quadros de diarreia em humanos e animais (KUHNERT et al., 2000).

Usualmente, E. coli e o hospedeiro humano coexistem em boas condições, e cepas

comensais desta bactéria raramente causam doença, exceto em imunocomprometidos, ou

quando existe alguma anormalidade nas barreiras gastrointestinais, como ocorre por

exemplo em casos de peritonite (KAPER et al., 2004).

Ressalta-se, no entanto, que existem clones descritos de E. coli que adquiriram atributos de

virulência específicos, os quais conferem habilidade maior de adaptação a novos

ambientes, além de permitir que estas causem um espectro mais amplo de doenças

(KAPER et al., 2004), sendo assim, a identificação de E. coli diarreiogênica requer sua

(34)

34

Escherichia coli apresenta-se como um agente etiológico de destaque e representa um dos

maiores problemas de saúde pública em países em desenvolvimento, segundo Toma et al,

(2003). Este mesmo autor destaca que a identificação das cepas diarreiogênicas requer que

as mesmas sejam diferenciadas dos microorganismos não patogênicos da flora normal.

Necessita detectar fatores que determinam a virulência desses microorganismos. As DEC

estão entre os primeiros patógenos para os quais foram desenvolvidos métodos

diagnósticos moleculares (NATARO e KAPER, 1998), permitindo um diagnóstico mais

acurado através da identificação de genes de virulência.

Devido à similaridade com as E. coli não-patogênicas encontradas nas fezes, as E. coli

diarreiogênicas (DEC) não podem ser identificadas somente com base nas características

bioquímicas. A classificação sorológica, que utiliza anticorpos contra os antígenos da

superfície bacteriana, é o método geralmente utilizado nos laboratórios clínicos para

identificar algumas das estirpes de DEC (SILVA, 2006)

Os antígenos de superfície constituem a base para a classificação sorológica, o antígeno

‘O’ - somático que define o sorogrupo, e o antígeno ‘H’ - flagelar. Tais antígenos, O e H,

definem o sorotipo (NATARO e KAPER, 1998). Com o advento da PCR, é possível

detectar genes patogênicos em isolados bacterianos, permitindo o diagnóstico rápido de E.

coli diarreiogênicas (DEC).

Os mecanismos de patogenicidade de E. coli envolvem um grande número de fatores de

virulência, que variam em suas diferentes categorias. Muitos destes parecem ter sido

adquiridos de patógenos entéricos, como Vibrio cholerae e Shigella dysenteriae. Toxinas e

(35)

35

algumas toxinas são intimamente relacionadas com determinadas categorias desta bactéria

(KUHNERT et al., 2000; GILLIGAN, 1999).

As amostras de E. coli associadas à infecção intestinal e causadora de diarreia/disenteria,

são classificadas em seis categorias conforme Quadro 1 (NATARO & KAPER, 1998).

Ao menos seis tipos distintos de Escherichia coli estão relacionados a diarreia em todo o

mundo, e de acordo com seus mecanismos de patogenicidade as DEC podem ser

classificadas em: E. coli enteropatogênica (EPEC); E. coli enterotoxigênica (ETEC); E.

coli enteroinvasora (EIEC); E. coli produtora da toxina de Shiga (STEC); E. coli

enteroagregativa (EAEC) e E. coli difusamente aderente (DAEC). Tais categorias podem

ser identificadas por ensaios sorotípicos, fenotípicos e moleculares (PRESTERL et al.,

2003; COSTA et al., 2010). Destes, enterotoxigênica (ETEC), enterohemorrágica (EHEC)

e sorotipos enteroinvasora (EIEC) são de grande importância médica, e pode ser

transmitida através de água contaminada (CABRAL, 2010)

Quadro 1: Características fenotípicas e genotípicas que definem as categorias de

Escherichia coli diarreiogênicas:

t-EPEC Presença do gene eae e plasmídeo EAF

a- EPEC Presença do gene eae e ausência de genes stx.

EHEC Presença de gene eae e gene stx ou produção de toxinas Stx.

STEC Presença de genes stx ou produção de toxinas Stx.

(36)

36

EAEC Presença de EAEC genes ou expressão da via AA.

DAEC Presença do gene daaC ou expressão da via DA.

EIEC Presença do pINV ou positividade no Teste Serèny.

Adaptado NATARO e KAPER, 1998

2.4.1 Escherichia coli enteropatogênicas (EPEC)

A EPEC - Escherichia coli enteropatogênica foi o primeiro patótipo descrito e associado à

diarreia infantil (LOZER, 2011). As EPEC são uma das principais causadoras de diarreia

infantil nos países em desenvolvimento, e o mecanismo central de patogênese, conforme

citado acima, é a lesão “attaching and effacing” (A / E) em células HEp-2, HeLa e no

epitélio intestinal. A lesão é capaz de destruir as microvilosidades intestinais e rearranjo do

citoesqueleto celular, culminando na formação de uma estrutura onde a bactéria permanece

intimamente ligada (MOON et al., 1983, TRABULSI et al., 2002).

As diarreias causadas por esse grupo caracterizam-se por múltiplos mecanismos, incluindo

secreção de íons, aumento da permeabilidade intestinal, inflamação intestinal e perda

superfície de absorção devido à lesão A/E (KAPER et al., 2004). Em 1987 a Organização

Mundial de Saúde classificou como EPEC amostras pertencentes aos seguintes sorogrupos

de E. coli: O26, O55, O86, O111, O114, O119, O125, O126, O127, O128, O142 e O158

(WHO, 1987).

Em 1995, durante o II Simpósio Internacional sobre EPEC em São Paulo, foi definido por

consenso que "EPEC são Escherichia coli diarreiogênicas que produzem uma característica

(37)

37

verotoxinas. EPEC típica de origem humana possui um plasmídeo de virulência conhecido

como o EAF (fator de aderência de EPEC) o plasmídeo que codifica a aderência localizada

em células epiteliais (TRABULSI et al., 2002). Esse plasmídeo contém um grupamento de

13 genes que são requeridos para a expressão tanto do BFP quanto da intimina (NATARO

e KAPER, 1998).

Em São Paulo, Brasil, EPEC está entre os principais patógenos encontrados em crianças

menores de 1 ano de idade, e a maior prevalência ocorre em menores de 6 meses de idade,

pertencentes a famílias de baixo nível socioeconômico. Este padrão de prevalência tem

sido descrito nos últimos 40 anos (FAGUNDES NETO & SCALETSKY, 2000). Kaper et

al., 2004 ressaltam que a diarréia causada por EPEC resulta de múltiplos mecanismos,

incluindo secreção de íons, aumento da permeabilidade intestinal, inflamação intestinal e

perda superfície de absorção devido à lesão A/E.

Os determinantes genéticos para a produção de lesões A / E localizam-se no locus de

enterócito effacement (LEE), uma ilha de patogenicidade que contém os genes que

codificam a intimina (TRABULSI et al., 2002). Como acontece com outras estirpes de

DEC, a transmissão de EPEC é fecal-oral, através de mãos, alimentos e fômites

contaminados (NATARO e KAPER, 1998).

Intimina é uma proteína de membrana externa necessária para a formação das lesões A/E.

É codificada pelo gene eae presente na LEE (JERSE et al., 1990), sendo responsável pela

adesão íntima da EPEC às células epiteliais através da ligação com o receptor Tir

(translocated intimin receptor) (DONNENBERG e WHITTAM, 2001). O plasmídeo EAF

não é essencial para que as lesões A/E se formem, no entanto, aumenta a eficiência de

(38)

38

As EPEC típicas correspondem aos sorotipos clássicos de EPEC e são causas importantes

de diarréia em países em desenvolvimento (TRABULSI, KELLER e TARDELLI GOMES,

2002; ROBINS-BROWNE et al., 2004). Ressalta-se que as EPEC típicas de origem

humana possuem o plasmídeo de virulência EAF que codifica o bundle-forming pilus

(BFP), necessário para a adesão localizada (LA) em células epiteliais, e um complexo

regulador de vários genes de virulência, enquanto as EPEC atípicas (aEPEC) não possuem

este plasmídeo”. A diferenciação entre aEPEC e tEPEC é realizada através da detecção do

gene bfp, uma vez que este gene está presente somente das estirpes de tEPEC (NATARO e

KAPER, 1998).

Recentemente, foi demonstrado declínio na frequência de EPEC típicas e aumento na

freqüência de atípicas no Brasil, achados estes que coincidem com a redução dos casos de

diarréia em algumas regiões. Esse quadro foi observado também na Europa e nos Estados

Unidos (TRABULSI et al., 2002).

2.4.2 Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC)

A doença causada por ETEC caracteriza-se por diarreia aquosa profusa durante alguns

dias, sendo a causa comum da chamada “diarreia dos viajantes”, que afeta indivíduos de

países industrializados que viajam para países em desenvolvimento (CABRAL, 2010). A

transmissão da ETEC ocorre através do consumo de água e alimentos contaminados

(NATARO e KAPER, 1998).

Os pacientes infectados não apresentam febre. A diarreia é autolimitada, e se a hidratação

(39)

39

mortalidade é menor que 1%. Entretanto, tais infecções são difíceis de diagnosticar, o que

favorece os sub-diagnósticos (QADRI et al., 2005).

Os sorotipos de E. coli enterotoxigênica (ETEC) são responsáveis por quadros de

gastroenterite infantil. Existem poucos relatos de sua ocorrência em países desenvolvidos,

no entanto, é uma causa importante de diarreia nos países em desenvolvimento, onde não

há água potável de boa qualidade e condições de saneamento adequadas (CABRAL, 2010).

Nesses países, esses patógenos são comumente isolados em crianças até 5 anos de idade. A

importância deste grupo como uma das causas de diarreia foi reconhecida na década de

1960 e, a partir aí, acumulou-se relevante número de dados sobre epidemiologia e

patogênese das ETEC (GUTH, 2000).

As ETEC são estirpes de E. coli que produzem toxina termolábil (LT) e/ou termoestável

(ST). Podem expressar LT, somente ST ou ambas. Foram descritas por De e colaboradores

em 1956 quando, ao infectar coelhos com estirpes de E. coli isoladas de crianças e adultos

com sintomas parecidos aos da cólera, observou-se acúmulo de fluidos no intestino dos

animais, efeito semelhante ao provocado pelo Vibrio cholerae (QADRI et al., 2005).

Segundo Wolf (1997), além das enterotoxinas citadas acima, três outros fatores de

virulência são investigados para caracterizar linhagens de ETEC: sorogrupo O, sorogrupo

H e o fator antigênico de colonização (CFAs). Esses são de considerável importância, uma

vez que estão expostos na superfície celular da bactéria, sendo antígenos promissores a

serem testados para síntese de vacinas contra ETEC.

Como fatores de virulência, a toxina LT apresenta-se em duas categorias: LT-I e LT-II.

(40)

40

similaridade com a toxina da cólera, com aproximadamente 80% de identidade na

sequência de aminoácidos da CT. LT-II é encontrada principalmente em E. coli isoladas de

animais e raramente em isolados de humanos (NATARO e KAPER, 1998).

Após a colonização do intestino delgado pela ETEC e a liberação da LT, a toxina liga-se

irreversivelmente aos receptores na superfície dos enterócitos, resultando na ativação

permanente da adenilciclase e no aumento de AMPc intracelular, estimulando secreção de

cloreto e inibição da captação de NaCl. O desequilíbrio iônico favorece a perda de água e

diarreia (SALYERS e WHITT, 2002).

Já as toxinas ST – STa e STb – são toxinas pequenas e diferem em estrutura e mecanismos

de ação (KAPER, NATARO e MOBLEY, 2004). Apenas as toxinas da classe STa estão

associadas com doença em humanos. STb causa dano tecidual no epitélio intestinal, como

perda das vilosidades (NATARO e KAPER, 1998), estimula a secreção de bicarbonato

pelas células intestinais, e não de cloreto como a Sta (SEARS e KAPER, 1996). As ETEC

podem ser detectadas por métodos imunológicos como ELISA (GRAY, 1995), e ensaios

moleculares que detectam genes que codificam LT e ST (LOPEZ-SAUCEDO et al., 2003).

2.4.3 Escherichia coli enterohemorrágica (EHEC)

Sabe-se que em humanos, EHEC é capaz de colonizar o intestino delgado. Shiga toxina

liberada por EHEC se liga a célula endotelial, permitindo a absorção pela corrente

sanguínea e disseminação para outros órgãos (NGUYEN et al., 2012; PHILLIPS et al.,

(41)

41

Surtos notificados dessa categoria foram associados principalmente com o consumo de

alimentos contaminados, tais como carne crua ou mal passada e leite. E. coli sorotipo

O157: H7 provoca dor abdominal, diarreia sanguinolenta. O período de incubação varia de

3-4 dias, e os sintomas ocorrem durante 7-10 dias. (NGUYEN et al., 2012; CAPRIOLI et

al., 2005).

Dentre os isolados de E. coli enterohemorrágica, aqueles pertencentes ao sorogrupo O157

são de destaque ao se considerar episódios de doença em humanos que se manifesta através

da colonização do cólon provocando desequilíbrio eletrolítico. Segundo o principal

componente de virulência desse grupo é a produção de uma toxina que tem atividade

citotóxica sobre as células Vero – verotoxina, que também é denominada de toxina Shiga

(Stx) ou toxina “Shiga-like” (SLT) (CLARCK et al., 1997; CAPRIOLI et al., 2005). No entanto, apenas aquelas que têm sido associadas clinicamente à colite hemorrágica são

designadas como E. coli enterohemorrágica (EHEC) (FENG e WEAGANT, 2002)

As cepas de EHEC são caracterizadas pela presença da região LEE, funcionalmente

idêntica à da EPEC, e pela produção de toxinas que fazem parte da família de toxinas Stx

(Shiga Toxin). Pode expressar Stx1 e/ou Stx2, sendo a Stx1 imunologicamente idêntica a

Stx produzida pela Shigella dysenteriae (NGUYEN, 2012).

Assim como EPEC, as EHEC podem aderir ao epitélio intestinal e produzir uma lesão

denominada A/E. Kaper & Jarvis (1996) demonstraram que estas produzem também

intimina que é codificada pelo gene eae. Acredita-se que os fatores de virulência adicionais

(42)

42 2.4.4 Escherichia coli enteroagregativa (EAEC)

EAEC é reconhecida como causa da diarreia persistente em crianças e adultos de países

desenvolvidos e em desenvolvimento. Até o presente momento, EAEC é definida como E.

coli que não secreta LT e ST, e que é capaz de aderir a células HEp-2 em uma via

conhecida como auto-agregativa (NATARO & KAPER, 2004).

Com o desenvolvimento do ensaio de aderência, in vitro, em células epiteliais humanas

(HEp-2 ou HeLa), observou-se que determinadas cepas E. coli não-EPEC apresentaram

padrão agregativo de adesão (como “pilha de tijolos”), e estas foram reconhecidas

posteriormente como uma categoria de E. coli diarreiogênica (CZECZULIN et al., 1999;

HUANG et al., 2004).

EAEC afeta tanto crianças quanto adultos, e sua importância vem aumentando na saúde

pública (HUANG et al., 2004; NATARO et al., 1998). A estratégia básica de infecção das

EAEC compreende a colonização da mucosa intestinal, mais especificamente do cólon,

com secreção de enterotoxinas e citotoxinas posteriormente, causando danos na mucosa,

estando associada à diarreia persistente (NATARO E KAPER, 1998).

A enfermidade ocasionada por este patógeno é de origem alimentar provavelmente, e tem

como fatores de risco para infecção: refrigeração inadequada, falta de higiene e

contaminação alimentar (ADACHI et al., 2002b; HUANG et al., 2004). Adicionalmente,

fatores como imunossupressão, tal como infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana

também contribuem para risco à infecção (DURRER et al., 2000; HUANG et al., 2004;

(43)

43

Segundo Huang et al., 2004; Nataro et al., 1998, a diversidade e heterogeneidade das cepas

é o maior obstáculo na identificação do mecanismo de patogênese da EAEC. Estudos

sugerem três principais estágios: 1) aderência da EAEC à mucosa intestinal por meio de

fímbrias de aderência agregativa do tipo I e II (AAF I/II), codificadas pelos genes de

virulência aggA e aggfA, respectivamente; 2) aumento da produção de muco, provenientes

da bactéria e da célula hospedeira; 3) E no estágio final, ocorre uma resposta inflamatória

com liberação de citocina, gerando aumento na secreção de fluido intestinal (HUANG et

al., 2004).

2.4.5 Escherichia coli enteroinvasiva (EIEC)

EIEC foi descrita em 1944, quando foi denominada “paracolon bacillus”, mas foi

posteriormente identificada como E. coli O124. As EIEC têm relação bioquímica, genética

e patogênica com Shigella spp (BRENNER et al., 1973; KAPER, NATARO e MOBLEY,

2004). Diferente da E. coli típica, a EIEC é imóvel, não fermenta a lactose (ou fermenta

tardiamente) e não descarboxila a lisina (FENG e WEAGANT, 2002)

A maioria dos estudos epidemiológicos relata a presença de EIEC em surtos. Nos casos

esporádicos, muitas estirpes de EIEC são identificadas erroneamente como Shigella spp.

ou como E. coli não patogênicas. É usualmente transmitida por água e alimentos

(NATARO e KAPER, 1998).

O reservatório desta categoria de E. coli é o próprio ser humano, segundo Feng e Weagant,

(44)

44

maior parte dos enteropatógenos ser mais importante naqueles em desenvolvimento, onde,

de um modo geral, as condições sanitárias e de higiene são precárias (CLARKE, 2001).

Este patótipo é capaz de invadir o epitélio intestinal e suas enterotoxinas são responsáveis

pelo desenvolvimento da doença, compreendendo etapas de (i) penetração nos enterócitos,

(ii) lise do endossomo, (iii) multiplicação intracelular, (iv) movimentação

intracitoplasmática direcionada e, (v) migração basolateral pelas células epiteliais

(NATARO & KAPER, 1998).

A invasão da mucosa por EIEC, como principal mecanismo de virulência da EIEC provoca

intensa reação inflamatória tecidual e disentérica e, embora EIEC seja invasiva, sua

disseminação através da submucosa é rara (KAPER et al., 2004). A expressão de seus

fatores de virulência depende de genes cromossomais e plasmidiais. Os genes necessários

para invasão estão contidos no pInv (BAUDRY et al., 1987).

Este patótipo, semelhante à Shigella, causa disenteria bacilar caracterizada por fezes com

sangue, muco e pus, sinais e sintomas como tenesmo e febre em crianças e adultos

(TAYLOR et al., 1988). No entanto, a maioria dos acometidos apresenta um quadro

caracterizado, com fezes aquosas. Relatos de surtos são comumente relacionados à

transmissão de água e/ou alimentos contaminados (SNYDER et al., 1984; GORDILLO et

al., 1992), embora a transmissão também possa ocorrer pelo contato pessoa a pessoa

(45)

45

2.4.6 Escherichia coli produtora de Shiga toxina stx (STEC)

Doenças causadas por STEC tem se tornado um relevante problema de saúde pública.

Enquanto outras estirpes podem causar surtos, incluindo os que são à base de água. O

sorotipo virulento E. coli O157:H7 está associado a síndrome hemolítico-urêmica (SHU).

A maior incidência de SHU é na Argentina onde a enfermidade é endêmica (OMS, 1998;

SÃO PAULO, 2000; MCCARTHY et al., 2001).

No Brasil, a primeira cepa de E. coli O157:H7 foi isolada e identificada em Parelheiros, no

município de São Paulo, a partir de amostra de água de poço, não tendo sido identificada

em material humano (SÃO PAULO, 2000).

As STEC são caracterizadas pela produção de toxina Shiga e são causa de doença

gastrointestinal em humanos, não só pelos surtos provocados (KARCH et al., 1999; CDC,

2006; CDC, 2007), como por causar complicações como colite hemorrágica (CH),

síndrome hemolítica urêmica (SHU) e púrpura trombocitopênica trombótica (PATON e

PATON, 1998; TARR, GORDON e CHANDLER, 2005).

A maioria das cepas deste organismo produzir Stx2. Algumas produzem tanto Stx1 quanto

Stx2 , e algumas produzem apenas Stx1 (CHALMERS et al., 2000). Escherichia coli O157

: H7, pode ser transmitido por alimentos ou água tanto recreacional quanto de consumo

humano.

2.4.7 E. coli que Adere Difusamente (DAEC)

Apesar de incluída entre as E. coli diarreiogênicas, DAEC é ainda uma categoria

Imagem

Figura  1:  Mecanismo  de  ação  dos  principais  grupos  de  antimicrobianos  (adaptado  de  Saenz, 2004)
Figura 2: Panorama para resistência à antibióticos
Tabela 1: Frequência de domicílios e indivíduos nas  terras indígenas Pataxó, Maxakali e  Xakriabá, Minas Gerais, 2012
Figura 4: Sistema de filtração à vácuo
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Referências

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