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MANIPULAÇÃO DE RESULTADOS CONTABILÍSTICOS

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Academic year: 2021

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MANIPULAÇÃO DE RESULTADOS CONTABILÍSTICOS

Luís Viana

Mestre em Ciências Empresariais

1. INTRODUÇÃO

Como ponto prévio, importa desde já referir que no presente artigo utilizamos a expressão “Gestão de Resultados” com o sentido e o alcance que a literatura atribui ao termo “Earnings Management”.

Em Portugal, na abordagem desta problemática, é comum utilizar-se a expressão “Contabilidade Criativa”. Nós entendemos que o termo “Gestão” traduz melhor o aproveitamento da flexibilidade existente nos princípios e normas contabilísticas com vista a alterar a informação divulgada, realçando melhor o impacto dos métodos utilizados para alterar a percepção sobre o desempenho da entidade que relata do que o termo “criativa”, uma vez que este último não tem nenhum especial juízo de valor. Iremos também ver que essa “gestão” pode ter conteúdo informativo, na medida em que através das opções contabilísticas se procura reduzir a assimetria de informação entre a gestão da empresa e os utentes da informação contabilística.

Podem existir situações (e.g., os resultados estarem aquém de determinado objectivo) que criam um incentivo para utilizar a flexibilidade existente nos princípios e normas contabilísticas para alterar as demonstrações financeiras no sentido desejado. Conforme veremos a seguir, a gestão de resultados ocorre dentro dos PCGA, podendo as empresas ter uma contabilidade “agressiva/liberal1” ou “conservadora2”, em contraponto à contabilidade “neutral”. Em sentido contrário, quando os PCGA são violados podemos estar na presença de contabilidade fraudulenta. Para se classificar uma prática contabilística como fraudulenta tem que se demonstrar que houve uma intenção pré-determinada para distorcer a imagem da empresa de uma forma materialmente relevante (Mulford e Comiskey, 2002). Sem essa intenção, podemos estar simplesmente na

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presença de erros contabilísticos e não de irregularidades. De acordo com Mulford e Comiskey (2002), as demonstrações financeiras de determinada entidade só devem ser consideradas fraudulentas quando uma entidade com poderes de supervisão (e.g., CMVM), uma entidade administrativa (e.g., Direcção Geral dos Impostos) ou um tribunal as tenha decretado como tal e essa decisão já tenha transitado em julgado.

A manipulação de resultados engloba práticas dentro dos PCGA e práticas em desobediência aos PCGA, enquanto que o uso da flexibilidade existente nas normas contabilísticas só será manipulação de resultados se for essa a intenção (Dechow et al., 1996; Dechow e Skinner, 2000). Daqui em diante, sempre que usarmos a expressão “manipulação de resultados”, significa que nos estamos a referir a práticas que podem estar em conformidade com os PCGA ou não (e.g., reservas por desacordo do auditor externo), cujo objectivo é distorcer materialmente as demonstrações financeiras3.

É de vital importância que os investidores, credores, analistas, reguladores e outros utentes das demonstrações financeiras detectem as práticas de manipulação de resultados o mais cedo possível, isto é, antes da tomada de decisões, de forma a evitar surpresas negativas ao nível da substância económica subjacente da entidade que relata, com consequências ao nível das cotações, no caso de a entidade ter os seus títulos cotados num mercado organizado.

Sendo as demonstrações financeiras uma fonte de informação essencial, mas não a única4, a partir da qual os investidores formulam as suas decisões de investimento/financiamento, a qualidade das mesmas é fundamental para que se proceda a uma correcta alocação de recursos na Economia.

Da literatura existente sobre a problemática (e.g., Dechow et al., 1996; Healy e Wahlen, 1999; Leuz et al., 2003), ressalta a ideia de que a qualidade do relato financeiro depende da redução da manipulação de resultados.

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Contabilidade que subavalia os activos e/ou sobreavalia os passivos. Leva à criação das chamadas “reservas ocultas”.

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Esta definição coincide também com a adoptada por Bedard e Johnstone (2004).

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Antes de passarmos ao ponto seguinte, convém destacar que a componente contabilística dos resultados (accruals5) envolve o exercício de poder discricionário por parte dos gestores, sendo necessários pressupostos e estimativas para o seu cálculo. Os accruals são mais fáceis de manipular do que os cash flows, uma vez que uma alteração do nível dos accruals é uma decisão meramente contabilística, isto é, sem impacto sobre o valor da empresa. Os cash flows só podem ser manipulados com base em decisões “reais”, o que não quer dizer que essas decisões não possam traduzir elas próprias um comportamento oportunista resultante do poder discricionário (e.g., Bartov, 1993)6. Ora, é neste poder discricionário que podem surgir problemas, na medida em que o gestor pode actuar tendo em conta os seus interesses e não os dos accionistas, num contexto de separação entre a propriedade e o controlo.

Segundo Dechow e Skinner (2000) a manipulação de resultados só será efectiva se distorcer a avaliação que os investidores fazem da empresa e essa distorção só é possível porque existe assimetria de informação, porque se existissem mercados completos e perfeitos não era necessário a existência de informação contabilística (e.g., Holthausen e Leftwich, 1983; Fields et al., 2001). Uma vez que existe assimetria de informação é criada uma relação de agência entre a gestão e os utentes da informação financeira7, em que os gestores através das opções contabilísticas omitem ou distorcem informação sobre a qualidade dos resultados apresentados, podendo ser o caso de, desta forma, ocultarem a ineficiência da sua própria gestão. Se não existisse assimetria de informação, a gestão de resultados não teria qualquer eficácia ao nível da imagem percebida da empresa. Sem essa desigualdade informativa, os utentes da informação financeira não seriam iludidos pela existência daquela gestão.

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O resultado contabilístico corresponde à soma do cash flow operacional com os accruals. No nosso estudo utilizaremos a expressão “accruals” à falta de outra que não encontramos na língua portuguesa com o mesmo significado. Ponderamos a hipótese de usar a expressão “ajustamentos contabilísticos” ou “acréscimos”, mas decidimos manter a expressão original. Os accruals consistem normalmente em estimativas ou previsões, cujo objectivo é tornar o resultado contabilístico uma medida aproximada do resultado económico (não observável) e resultam do regime de acréscimo ou princípio da especialização de exercícios na elaboração das demonstrações financeiras (Dechow e Dichev, 2002).

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Por exemplo, adiar decisões de investimento com o intuito de maximizar o free cash flow actual, mas prejudicando o crescimento futuro da empresa.

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Neste capítulo, iremos num primeiro ponto concretizar o conceito de gestão de resultados, de seguida iremos ver que esta não é necessariamente um factor de distorção e depois centraremos a nossa atenção nos incentivos que levam os gestores a usar de forma oportunista o seu poder discricionário no processo de relato financeiro.

2. CONCEITO

A gestão de resultados ocorre porque existe nos PCGA8 flexibilidade que permite à gestão fazer opções, estimativas e juízos na contabilização de realidades susceptíveis de terem tradução contabilística (reconhecimento e mensuração). Essa flexibilidade pode ser utilizada como mecanismo de melhorar a comunicação com os utentes da informação financeira ou pode ser utilizada como forma de ocultar o desempenho económico da entidade que relata.

Assim, por vezes argumenta-se que uma das formas de melhorar o sistema de relato financeiro seria diminuir a flexibilidade existente nas normas através da definição precisa da forma de contabilização de operações que até aqui requerem um juízo por parte da gestão9. Trabalhar no sentido de eliminar a existência de juízos ou estimativas nas normas não é o caminho correcto para melhorar o sistema de relato financeiro (Parfet, 2000, p. 487). Healy e Wahlen (1999) sustentam que a eliminação de flexibilidade nas normas não é óptimo (nem mesmo possível) mas também que uma flexibilidade ilimitada não é praticável, dada a necessidade de um certo grau de certeza e segurança. Até dentro do mesmo sector de actividade as empresas têm características operacionais diferentes e a sua acomodação no relato financeiro é feita usando a flexibilidade das normas. Um sistema de relato financeiro que seja inteiramente baseado em normas prescritivas, onde não haja espaço para o exercício de juízos ou estimativas, também terá a dificuldade de não se conseguir prever todas as contingências. Existirá

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De acordo com a Directriz Contabilística n.º 18 da CNC por Princípios Contabilísticos Geralmente Aceites deve entender-se a “adopção de um corpo de princípios, normas e procedimentos. . . . A expressão “geralmente aceites” significa que um organismo contabilístico normalizador, com autoridade e de larga representatividade, estabeleceu um princípio contabilístico numa dada área ou aceitou como apropriado determinado procedimento ou prática, atendendo à sua aplicação universalmente generalizada e ao seu enquadramento na estrutura conceptual.”

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neste caso sempre o problema de os contratos serem incompletos devido à racionalidade limitada.

Para existir gestão de resultados tem que existir uma intenção por parte da gestão de alterar a percepção sobre a empresa. O uso de juízos no relato financeiro é legítimo e acrescenta valor à informação desde que o objectivo seja de facto informar. O problema existe quando esses juízos são utilizados para enganar, fazendo com que as empresas tenham um valor percebido superior.

Existem na literatura várias definições, normalmente todas elas relacionadas com a perspectiva oportunista da gestão de resultados. Assim, vamos ver nos parágrafos seguintes algumas definições.

Schipper (1989) refere que a gestão de resultados implica uma intervenção propositada no processo de relato financeiro com o objectivo de obtenção de um ganho privado por parte dos gestores ou dos actuais accionistas.

Para Healy e Wahlen (1999) a gestão de resultados ocorre quando a gestão usa o seu poder discricionário no relato financeiro10 e na estrutura das transacções11 para alterar as demonstrações financeiras com vista a enviesar a percepção dos stakeholders sobre a desempenho económico subjacente, ou quando tem em vista influenciar os resultados de determinados contratos que dependem dos números contabilísticos relatados.

Mulford e Comiskey (2002) definem a gestão de resultados como a manipulação activa em direcção a um objectivo pré-determinado. Esse objectivo pode ter sido fixado pela gestão, pode consistir em satisfazer as previsões dos analistas, ou promover um alisamento de resultados (earnings smoothing). O alisamento de resultados é um caso particular de gestão de resultados cujo objectivo consiste em diminuir a variabilidade dos resultados relatados para que a empresa seja percebida como de menor risco. O alisamento pode ser feito importando para o período corrente resultados de períodos futuros ou exportar para o futuro resultados do período corrente (DeFond e Park, 1997).

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Estão aqui em causa situações como, por exemplo, mudança na política de amortizações ou de reconhecimento de provisões.

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O alisamento pode consistir em, por exemplo, relatar uma rentabilidade dos capitais próprios constante ou com pequenas variações de período para período. A hipótese de alisamento de resultados sugere que os resultados são manipulados de forma a reduzir as flutuações em torno do nível considerado normal para a empresa (e.g., Bartov, 1993).

Leuz et al. (2003) destacam o facto de através de gestão de resultados se ofuscar as demonstrações financeiras apresentadas aos stakeholders “externos” fazendo com que estes não se apercebam dos ganhos privados por parte dos “internos” (gestores ou accionistas maioritários), diminuindo deste modo a probabilidade de intervenção dos “externos”.

Destes conceitos conclui-se que para existir gestão de resultados têm de existir incentivos e que se referem a práticas dentro dos PCGA, enquanto a manipulação de resultados é um conceito mais extenso, na medida em que engloba a gestão de resultados e práticas em desobediência aos PCGA, cujo objectivo é alterar materialmente a percepção dos utentes da informação contabilística, afectando negativamente a qualidade da informação.

Assim, no ponto 4. vamos analisar quais os incentivos que levam a gestão a distorcer a imagem da empresa. Mas antes, vamos ver no ponto seguinte que o uso da flexibilidade existente nos PCGA não tem um impacto necessariamente negativo sobre a qualidade da informação.

3. ILUSÃO OU INFORMAÇÃO

Segundo Beneish (2001), a gestão de resultados pode ser vista sob duas perspectivas: a perspectiva oportunista, em que os gestores distorcem materialmente a informação financeira prestada, saindo os investidores prejudicados devido à ilusão provocada; a perspectiva informativa, em que a gestão revela aos investidores as suas expectativas sobre os cash flows futuros da empresa. De acordo com o autor, esta perspectiva informativa não tem sido testada na literatura.

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aumentar o conteúdo informativo dos resultados contabilísticos, sendo uma forma de a gestão da entidade que relata revelar informação privada, reduzindo a assimetria de informação, ao ser um sinal credível (Dechow, 1994; Subramanyam, 1996). Schipper (1989) argumenta que a gestão de resultados pode ser um meio para a gestão revelar a sua informação privada, ou seja, ser usada como um mecanismo de redução da assimetria de informação entre “internos” e “externos”, acrescentando valor ao relato financeiro. Por exemplo, numa empresa com verdadeiras perspectivas de crescimento e estando com dificuldades de curto prazo, é defensável que use técnicas de gestão de resultados para que os utentes não façam uma avaliação errada sobre o seu desempenho futuro.

Chegamos então a uma questão central. Um determinado procedimento contabilístico pode ser considerado como tendo conteúdo informativo ou como sendo gestão de resultados. Essa classificação depende da intenção da gestão. Ora, o problema é que a intenção da gestão não é observável, o que traz dificuldades à investigação empírica.

Idealmente, o sistema de relato financeiro deverá permitir que as empresas com melhor desempenho se distingam das empresas menos eficientes, acrescentando as normas contabilísticas valor se fizerem com que as demonstrações financeiras traduzam posições financeiras e resultados das operações que reflictam o desempenho económico subjacente (Healy e Wahlen, 1999, p. 366). Devido à presença de assimetria de informação entre “internos” e “externos”, a flexibilidade existente no sistema de relato financeiro proporciona um poder discricionário à gestão que pode ser usado de forma oportunista ou como forma de melhorar a comunicação através da revelação de informação privada.

4. INCENTIVOS

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Os estudos sobre a problemática—que adiante serão referidos—têm procurado demonstrar que se tomaram determinadas opções contabilísticas (income-increasing ou income-decreasing) devido à presença de determinados incentivos. Assim, deve-se falar em gestão positiva (negativa) dos resultados quando a intervenção activa no processo de relato financeiro for feita com o objectivo de aumentar (diminuir) os resultados divulgados, por referência aos resultados pré-gestão.

O problema é que as intenções da gestão não são observáveis, sendo na literatura levantadas hipóteses quanto aos motivos que levam à existência de evidência que é interpretada como gestão de resultados (e.g., accruals discricionários estimados por um qualquer modelo).

De acordo com Healy e Wahlen (1999) existem variados incentivos, designadamente incentivos provocados pelo mercado de capitais, derivados de contratos e resultantes da regulação. Vamos então nos pontos seguintes efectuar uma breve análise desses incentivos e da evidência empírica associada. Tal como Dechow et al. (1996) vamos assumir que os incentivos abaixo indicados também podem levar a situações de manipulação de resultados, tendo em conta o conceito de manipulação de resultados por nós adoptado.

4.1. INCENTIVOS PROVOCADOS PELO MERCADO DE CAPITAIS

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No entanto, o facto de a empresa ser cotada pode ter como efeito de primeira ordem uma menor actividade de gestão de resultados, isto é, as empresas não cotadas poderão ter um maior nível dessa actividade em relação às cotadas. Burgstahler et al. (2004) encontraram evidência a confirmar esta hipótese, numa amostra com empresas europeias cotadas e não cotadas, concluindo que as empresas cotadas divulgam resultados com maior conteúdo informativo, sugerindo que o mercado de capitais fornece incentivos para reportar resultados de melhor qualidade (Schipper e Vincent, 2003).

4.1.1. Consequências nas cotações

Os resultados podem ser vistos como uma medida de síntese da informação disponível sobre a empresa, pelo que é razoável que as empresas que apresentem resultados negativos ou quedas nos mesmos vejam a cotação das suas acções afectada negativamente, existindo evidência na literatura de que os investidores não avaliam correctamente a qualidade dos resultados actuais como indicadora dos resultados futuros, sugerindo a existência de fixação nos resultados (Sloan, 1996).

Com vista a satisfazer ou exceder ligeiramente as previsões dos analistas também pode ocorrer gestão de resultados (e.g., Degeorge et al., 1999; Matsumoto, 2002), uma vez que se os resultados ficarem aquém das previsões a empresa veria a cotação dos seus títulos descer. Também poderá ocorrer gestão negativa de resultados (em que o resultado pós-gestão é inferior ao pré-gestão) no caso de os resultados pré-gestão excederem substancialmente as expectativas dos analistas e, não se efectuando aquela gestão negativa, as expectativas serem revistas em alta, trazendo dificuldades futuras para atingir essas previsões, pelo que as previsões dos analistas serão influenciadas pela própria gestão de resultados.

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emissão de previsões fiáveis, pode ser a consequência que tem em termos de mercado de capitais o reportar um resultado que esteja abaixo das previsões da própria gestão, podendo levar a que a empresa seja percebida como de maior risco e por isso a cotação das acções ser afectada negativamente.

Antes de emissão de acções para novos accionistas, alguns gestores poderão efectuar uma gestão de resultados no sentido de melhorar as expectativas dos investidores sobre a empresa. Resultados elevados ou em crescimento poderão potenciar um aumento das cotações, sendo esta situação desejável uma vez que o encaixe de capital será superior nestas circunstâncias. Partindo da hipótese de que existe um incentivo para a gestão relatar, de uma forma oportunista, resultados superiores, Teoh et al. (1998) encontraram evidência de gestão de resultados na altura da oferta pública inicial em que os investidores não “descontam” essas práticas, sendo iludidos sobre as verdadeiras perspectivas da emitente. O objectivo dessa gestão é que a cotação seja elevada no momento da oferta de acções. Nos períodos seguintes, devido à reversão dos accruals positivos que fizeram aumentar os resultados no momento da oferta, os resultados reportados serão inferiores aos esperados, sendo assim corrigidas em baixa as expectativas sobre a empresa, com as correspondentes quedas nas cotações.

No contexto de aumentos de capital, Teoh et al. (1998a) encontraram também evidência consistente com a hipótese de gestão de resultados, obtendo resultados de uma relação negativa entre os accruals e os retornos de longo prazo.

Contrariando a hipótese de comportamento oportunista, Shivakumar (2000) encontrou resultados consistentes com uma gestão de resultados antes da emissão de acções, mas não com o intuito de iludir os investidores, reflectindo antes um comportamento racional por parte dos emitentes, uma vez que estes anteciparão o facto de os investidores irem descontar uma componente associada à gestão de resultados na formação do preço.

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Com o objectivo de reduzir o preço de aquisição, Perry e Williams (1994) encontraram evidência de manipulação negativa de resultados num contexto de management buyout, sugerindo os resultados encontrados por Marquardt e Wiedman (2004) que a manipulação ocorre através do diferimento do reconhecimento de vendas para períodos posteriores ao da concretização da operação (poupando resultados para o futuro).

A evidência acima sugere que o mercado de capitais pode ser uma fonte de incentivos quer para manipulação positiva de resultados, quer negativa, dependendo do contexto.

4.2. INCENTIVOS DERIVADOS DE CONTRATOS

A informação contabilística é frequentemente usada para monitorizar e regular contratos entre a empresa e os interessados (Watts e Zimmerman, 1986).

Com o objectivo de alinhar os interesses dos gestores com os dos accionistas, uma parte da remuneração, a chamada componente variável da remuneração, é frequentemente indexada a medidas de desempenho. Uma dessas medidas de desempenho pode ser, por exemplo, o resultado contabilístico ou a evolução da cotação em bolsa. Quando a remuneração dos gestores está associada a medidas contabilísticas, pode existir um incentivo para manipular a contabilidade com vista à maximização dessa mesma remuneração.

Os contratos de remuneração dos gestores e os contratos de financiamento poderão induzir a gestão de algumas empresas à realização de manipulações com vista a aumentar a remuneração, melhorar a segurança no emprego ou mitigar a potencial violação de cláusulas contratuais com os financiadores.

4.2.1. Pacote remuneratório

Com o objectivo de encontrar evidência de que os gestores manipulam os resultados com o intuito de maximizar a remuneração, foram realizados alguns estudos como aqueles que a seguir faremos uma breve alusão.

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qual se adquire o direito a um bónus ou quando os resultados ultrapassaram o máximo a partir do qual nenhum incremento marginal ocorrerá no bónus, a manipulação de resultados é feita com o objectivo de relatar resultados inferiores após manipulação. Estes resultados são consistentes com a hipótese de maximização de remuneração sendo afastada a hipótese de alisamento de resultados.

No entanto, Holthausen et al. (1995) encontraram evidência que não confirma a de Healy no que diz respeito ao sinal da gestão de resultados (accruals discricionários negativos) quando os resultados se encontram abaixo do limite inferior do bónus remuneratório. Os autores demonstraram que a metodologia de trabalho empírico utilizada por Healy provoca um enviesamento12 no sentido de se concluir pela existência de manipulação negativa de resultados quando se está na região abaixo do limite mínimo do bónus remuneratório. Quanto à existência de manipulação de resultados nas empresas cujos resultados pré-manipulação estão acima do limite máximo a partir do qual não existem incrementos no bónus, Holthausen et al. (1995) encontraram evidência semelhante à de Healy (1985), uma vez que essas empresas exibem manipulação negativa de resultados. No entanto, essa manipulação com vista a “poupar” resultados para o período seguinte pode ser interpretada como alisamento de resultados e não como maximizadora da remuneração (Holthausen et al.,1995, p. 61).

Também Gaver et al. (1995) efectuaram um estudo para testar a hipótese do bónus remuneratório e concluíram que os resultados obtidos são consistentes com a hipótese de alisamento de resultados, uma vez que a evidência encontrada à esquerda do limite inferior do bónus remuneratório é a de que as empresas efectuam manipulação positiva de resultados e não o contrário, como sustentou Healy (1985). Devido a limitações na sua amostra, os autores não analisaram o comportamento dos accruals quando os resultados estão acima do limite superior do bónus.

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O enviesamento deve-se sobretudo ao facto de Healy usar os accruals totais como medida de comportamento oportunista e à forma como imputou as observações às regiões do bónus remuneratório, usando os resultados para imputar as observações à esquerda do limite inferior do bónus e o cash flow operacional para imputar as observações à direita do limite superior. O facto de Healy ter encontrado

accruals negativos que serviram de suporte à hipótese de maximização da remuneração pode dever-se

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Num contexto de empresas acusadas de fraude pela SEC, Erickson et al. (2004b) encontraram evidência de uma associação positiva entre a percentagem da remuneração baseada em acções e a probabilidade de fraude contabilística, sendo os métodos fraudulentos utilizados com o objectivo de uma manipulação positiva de resultados, consistente com a hipótese de, através de manipulações contabilísticas, os gestores aumentarem a sua remuneração.

4.2.2. Cláusulas nos contratos de financiamento

Quando as empresas têm contratos de dívida e se algumas das cláusulas contratuais determinadas de acordo com a Contabilidade forem violadas, a empresa incorrerá em custos13. Então, poderá existir um incentivo para efectuar manipulação de resultados com vista a reportar resultados superiores de forma a não violar essas mesmas cláusulas contratuais. Os contratos de dívida, em que existam penalizações determinadas de acordo com medidas contabilísticas, fornecem incentivos à gestão para escolher procedimentos contabilísticos que minimizem a probabilidade de incumprimento das cláusulas contratuais (Watts e Zimmerman, 1986)14. A gestão da empresa, quando verifica pelos elementos disponíveis que as cláusulas estão próximas de ser violadas, tem incentivos para ter opções contabilísticas que façam com que os resultados reportados sejam superiores, uma vez que existem penalizações associadas à violação das cláusulas contratuais. Os contratos de dívida também poderão constituir um incentivo ex ante para se efectuar uma manipulação positiva de resultados. Como exemplo, Burgstahler e Dichev (1997) argumentam que os financiadores oferecerão melhores termos de crédito, uma vez que a probabilidade de incumprimento ou o atraso no pagamento será menor numa situação de resultados elevados.

A Teoria Positiva da Contabilidade (Watts e Zimmerman, 1986) prevê que, tudo o resto constante, quanto maior for o rácio dívida/capital-próprio mais provável será que a gestão da empresa adopte procedimentos contabilísticos que antecipem resultados que corresponderiam a períodos futuros para o período actual.

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Esses custos poderão consistir em, por exemplo, a exigência imediata da dívida ou o aumento da taxa de juro.

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Defond e Jiambalvo (1994), numa amostra de empresas que violaram cláusulas dos contratos de dívida, encontraram evidência de gestão positiva de resultados no período anterior ao da violação das cláusulas. Esta evidência é consistente com a hipótese de a gestão realizar um esforço, embora sem sucesso na amostra em questão, para não violar as cláusulas, uma vez que essa violação acarreta custos.

No entanto, na revisão da literatura15 feita por Fields et al. (2001) é salientado que a evidência sobre opções contabilísticas determinadas pelos contratos de dívida é inconclusiva uma vez que os resultados obtidos nos estudos empíricos julgados consistentes com a hipótese da dívida são também consistentes com outras hipóteses, como por exemplo o aumento das cotações.

4.3. INCENTIVOS DERIVADOS DA REGULAÇÃO

As manipulações são muitas vezes utilizadas para contornar a legislação específica de determinado sector ou as leis da concorrência, evitando assim a intervenção das autoridades reguladoras, a qual acarretaria os chamados custos políticos16. De acordo com Healy e Wahlen (1999) a literatura tem explorado os efeitos ao nível das opções contabilísticas da legislação específica de determinados sectores e da legislação da concorrência.

4.3.1. Regulação sectorial

Em sectores regulados existem incentivos para adoptar procedimentos contabilísticos com vista ao cumprimento da normalização específica desses sectores. Por exemplo, com vista a garantir a solvabilidade e liquidez das empresas, como é o caso das instituições financeiras e das empresas de seguros, existem incentivos para cumprir os requisitos emanados pelas entidades reguladoras. Em Portugal o Instituto de Seguros de Portugal e o Banco de Portugal têm poderes de supervisão sobre as entidades que

alienar activos, não emitir dívida adicional sem autorização, manter o rácio de autonomia financeira num determinado nível e restrições aos dividendos (negative covenants).

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Fields et al. (2001) analisaram os estudos sobre opções contabilísticas publicados na década de 90 nas revistas Journal of Accounting and Economics, Journal of Accounting Research e The Accounting

Review.

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operam nos respectivos sectores e emanam instruções com carácter vinculativo quanto ao cumprimento de determinados rácios de capital e solvência.

Nos estudos que têm abordado os incentivos para manipular resultados é citada a existência de evidência consistente com a hipótese de se efectuar manipulação de resultados com vista ao cumprimento das exigências do regulador respectivo, uma vez que essas exigências são normalmente expressas com recurso ao uso de informação contabilística (e.g., Healy e Wahlen, 1999; Beneish, 2001).

4.3.2. Leis da concorrência

A informação contabilística é usada como forma de justificar a intervenção das autoridades públicas (Watts e Zimmerman, 1986). Deste modo, com o propósito de tentar evitar a intervenção dessas autoridades, existe um incentivo para efectuar uma manipulação negativa de resultados, evitando custos políticos, uma vez que se assume que quando maiores os resultados reportados maior será a probabilidade de intervenção das autoridades. Nestas situações, os accruals discricionários são negativos, isto é, os resultados pré-manipulação são superiores aos resultados divulgados (pós-manipulação). As empresas têm incentivos para relatar resultados inferiores aos associados ao seu verdadeiro desempenho económico, uma vez que pretendem evitar a intervenção das autoridades ou então obter ajudas públicas (e.g., Jones, 1991).

Em empresas de grande dimensão e, portanto, com maior visibilidade, os incentivos para tornar a empresa aparentemente menos rentável poderão levar à tomada de opções contabilísticas que diminuirão os resultados reportados de forma a evitar que os fluxos de caixa sejam afectados pela intervenção das autoridades, como por exemplo levar a que a empresa baixe os preços (Watts e Zimmerman, 1986, 1990).

4.4. INCENTIVOS COMERCIAIS

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uma imagem de maior credibilidade aos seus clientes e fornecedores e essa credibilidade poderá traduzir-se em ganhos de longo prazo. Para Burgstahler e Dichev (1997), os fornecedores também oferecerão melhores condições de negociação, uma vez que com resultados elevados a empresa pagará com elevada probabilidade os passivos a serem liquidados por compras correntes, como terá capacidade de fazer compras ainda maiores no futuro. Argumentam que as empresas que relatem quebras nos resultados ou resultados negativos terão maiores custos de transacção com os utentes da informação financeira do que empresas que reportem aumentos nos resultados ou resultados positivos, pelo que existem incentivos para evitar maiores custos de transacção recorrendo a práticas de manipulação de resultados.

Bowen et al. (1995) estudaram o impacto destes incentivos e encontraram evidência de que em empresas onde exista uma dependência maior dos, ou de alguns dos seus stakeholders, as suas opções contabilísticas serão mais “liberais”, isto é, os resultados relatados favorecerão uma imagem de prosperidade, de saúde financeira, sendo essa imagem avaliada positivamente pelos stakeholders.

5. CONSEQUÊNCIAS

Os recentes casos divulgados de irregularidades nas demonstrações financeiras de algumas empresas (e.g., Enron, Worldcom, Tyco, Ahold) provocaram um abalo na credibilidade de todo o sistema de relato financeiro tendo como consequência imediata uma queda abrupta na confiança dos investidores relativamente à informação financeira divulgada. Esta perda de confiança provoca um retraimento dos investidores, o que resulta num aumento do custo de capital, fazendo com que se reduza a produtividade da economia como um todo (IFAC, 2003, p. 5). A manipulação de resultados pode ter consequências económicas nefastas como uma ineficiente afectação de recursos uma vez que, ao ofuscar o desempenho económico das empresas, pode levar a que se financiem empresas com problemas de sustentabilidade no longo prazo, sendo deste modo feita uma ineficiente afectação de recursos.

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com os autores, uma empresa que seja identificada como manipuladora verá o seu custo de capital subir, uma vez que os investidores irão rever em baixa as estimativas do valor da empresa e ficarão renitentes quanto à credibilidade do relato financeiro e à reputação da gestão. Os autores argumentam que as manipulações positivas de resultados são realizadas com o objectivo de baixar o custo de capital, tendo encontrado evidência dessa hipótese, uma vez que as empresas têm um valor percebido superior devido a essas manipulações.

Se determinada empresa for conotada com a realização de práticas enganadoras, o mercado irá penalizá-la severamente. A revelação de manipulação de resultados sinaliza aos investidores que o desempenho económico da empresa é mais pobre do que previamente se admitiu e a credibilidade da informação financeira fornecida pela empresa “manipuladora” sai seriamente abalada. Esta evidência é difícil de compatibilizar com a visão tradicional de que os mercados são eficientes e os investidores processam de uma forma racional toda a informação disponível (Dechow e Skinner, 2000).

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6. RESUMO

Neste trabalho aproximamos o conceito de gestão de resultados, assumindo que esta ocorre dentro dos PCGA, ao contrário da manipulação de resultados que engloba práticas dentro dos PCGA e violadoras desses princípios, e que depende da motivação ex ante por parte da gestão. A ocorrência de manipulação de resultados depende das condições e incentivos para a mesma, pelo que a gestão fará uma análise dos custos associados à não realização das manipulações e dos benefícios que poderão aportar para a empresa ou gestão da empresa manipuladora.

Segundo Dechow e Skinner (2000, p. 236), a pesquisa académica sobre gestão de resultados deve centrar a sua atenção nos incentivos provocados pelo mercado de capitais, uma vez que existe uma forte ligação entre os resultados contabilísticos reportados e a cotação dos títulos das empresas, tendo também em consideração a importância acrescida da remuneração baseada em acções que é atribuída aos gestores (Murphy, 2003). A confirmar esta prevalência actual nos incentivos provocados pelo mercado de capitais, Matsumoto (2002) apresenta evidência em que a percentagem de períodos contabilísticos em que os resultados são iguais ou excedem as expectativas dos analistas tem aumentado ao longo do tempo. Esta evidência é consistente com a hipótese de se pretender evitar surpresas negativas nos resultados, com as inerentes consequências ao nível das cotações.

Relativamente aos incentivos, estes não são mutuamente exclusivos podendo existir vários incentivos no mesmo período contabilístico e, porventura, sendo estes mesmo conflituantes17. Nelson et al. (2002) encontraram evidência de que existe uma combinação de incentivos, designadamente incentivos ligados à remuneração da gestão e incentivos associados ao mercado de capitais.

Neste capítulo demos um especial relevo aos incentivos que poderão despoletar a execução de manipulação de resultados. Da análise dos estudos efectuados verifica-se que se tem vindo a atribuir a evidência encontrada a determinado incentivo. No entanto

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pode ter sido outro ou outros incentivos que terão induzido a gestão a adoptar um comportamento oportunista. Por exemplo, Kasznik (1999) atribuiu a evidência encontrada ao facto de os gestores não quererem falhar as suas próprias previsões. No entanto, a evidência encontrada também é consistente com os incentivos associados ao pacote remuneratório e aos contratos de dívida (Fields et al., 2001, p. 277).

Num ponto final deste trabalho vimos as consequências para as empresas que são identificadas como manipuladoras, normalmente empresas que foram para além da flexibilidade existente nos PCGA. Fortes quedas nas cotações, aumento do custo de capital, um menor interesse sobre a empresa são, do nosso ponto de vista, consequências que afectarão o financiamento da empresa e as suas perspectivas de crescimento, uma vez que, como é referido em Dechow et al. (1996), passa a haver uma disparidade muito grande nas avaliações que os investidores fazem da empresa, passam a existir mais posições vendedoras, uma maior dispersão nas previsões dos analistas e um menor acompanhamento da empresa por parte dos participantes no mercado.

Muita da evidência onde a pesquisa académica concluiu como sendo de gestão de resultados baseou-se na análise de estatística de grandes amostras, usando modelos de detecção conforme os descritos no capítulo seguinte, designadamente modelos baseados em accruals. No entanto é preciso alguma prudência na análise das conclusões a que os diferentes estudos chegaram, uma vez que os modelos estão, na sua generalidade, sujeitos a severas críticas como iremos ver adiante, particularmente incidentes sobre uma possível fragilidade metodológica desses estudos.

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