UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA MESTRADO EM NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E
COMPORTAMENTO
EFEITO DAIDADE NA MEMÓRIA EPISÓDICA: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DOS PARADIGMAS “QUE-ONDE-QUANDO” E “QUE-ONDE-QUAL CONTEXTO”
JOENILTON SATURNINO CAZÉ DA SILVA
JOENILTON SATURNINO CAZÉ DA SILVA
EFEITO DAIDADE NA MEMÓRIA EPISÓDICA: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DOS PARADIGMAS “QUE-ONDE-QUANDO” E “QUE-ONDE-QUAL CONTEXTO”
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Neurociência Cognitiva e Comportamento da Universidade Federal da Paraíba, nível mestrado, sob à orientação do Prof. Dr. Flávio Freitas Barbosa, como requisito para obtenção do título de Mestre.
S586e Silva, Joenilton Saturnino Cazé da.
Efeito da idade na memória episódica: uma análise através dos paradigmas “que -onde-quando” e “que-onde-qual contexto” / Joenilton Saturnino Cazé da Silva. - João Pessoa/PB, 2016.
142f.: il.
Orientador: Flávio Freitas Barbosa Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCHL 1. Psicologia. 2. Neurociência cognitiva e comportamento. 3. Memória episódica. 4. Memória de integração. 5. Envelhecimento saudável.
EFEITO DA IDADE NA MEMÓRIA EPISÓDICA: UMA ANÁLISE ATRAVÉS DOS PARADIGMAS “QUE-ONDE-QUANDO” E “QUE-ONDE-QUAL CONTEXTO”
JOENILTON SATURNINO CAZÉ DA SILVA
Assinaturas da banca examinadora atestando que a presente dissertação foi defendida e aprovada em 29 de fevereiro de 2016:
Prof.º Dr.º Flávio Freitas Barbosa (UFPB, Orientador)
Profa. Dra. Melyssa Kellyane Cavalcanti Galdino (UFPB, Membro Interno)
Prof.º Dr.º Bernardino Fernández Calvo (UFPB, Membro Interno)
Prof.º Dr.º Israel Contador Castillo
“O tempo não é um rótulo para o universo. Ele é vivenciado individualmente, onde todos tem seu próprio ritmo.”
AGRADECIMENTOS
Antes de tudo, agradeço a Deus por ele ter me dado forças, paciência e conhecimento para superar essa etapa de minha vida. Todo vez que eu me sentia fraco e derrotado, e essa ocasiões foram muitas, ele me fez reerguer, enchendo meu coração de alegria, de um sentimento de que eu era capaz de ultrapassar todas as barreiras.
Aos meus pais Geraldo Saturnino da Silva e Alaide Cazé de Souza. O primeiro foi meu referencial como homem, meu exemplo. Se hoje sou um cidadão de bem devo tudo a ele, por sua índole impecável, seus ensinamentos de vida e acima de tudo amor e carinho de pai. Já minha mãe, praticamente não tenho palavras para descrevê-la. Ela é a pessoa que mais me ama nesse mundo, amor esse que é incondicional e acolhedor. Apesar de amá-la incalculavelmente, não consigo se quer me igualar a menor porção do seu amor por mim. Ambos sempre acreditaram em mim, mesmos nos momentos em que nem mesmo eu acreditei. No mais só tenho que dizer que amo de mais os dois.
A Joelma Cazé da Silva. Se não fosse por ela não teria sequer começado a estudar em uma universidade. Ela sempre me apoiou e me ajudou em tudo, colocando, muitas vezes, minhas necessidades antes das dela. Te amo muito minha baixinha, apesar de não dizer com frequência.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Flávio Freitas Barbosa, que abriu meus olhos para observar as neurociências, e principalmente o estudo da memória, de uma forma diferente. Sinto-me um estudante de sorte, pois encontrar um orientador tão dedicado e atencioso é algo raro.
Ao Prof. Dr. Bernadino Fernández Calvo, um pesquisador fantástico, que trabalha com amor pelo que ciência. Ele me ensinou a ser criterioso e objetivo, me incentivando a estudar cada vez mais. Agradeço por inúmeras gargalhadas que compartilhamos e extensas discussões sobre a pesquisa. Tal mistura me fez crescer como pessoa e pesquisador.
A todos os amigos da turma 2014 do Mestrado Acadêmico do Programa de Pós-graduação em Neurociência Cognitiva e Comportamento da Universidade Federal da Paraíba. Vocês são os melhores companheiros que podia encontrar para fazer parte desta etapa de minha vida.
A todos os colegas e amigos que conquistei no Laboratório de Estudos da Memória e Cognição (LEMCOG), em especial a Davi Drieskens, pelos cafés, gargalhados, loucuras e discussões sobre memória. E ao Bruno e a Flávio, alunos de Iniciação Científica, que me ajudaram durante a realização desta pesquisa.
Aos colegas e vizinhos do Laboratório de Ciências Cognitivas e Percepção (LACOP), principalmente a Cyntia Diógenes Ferreira, pela ajuda, e a Egina Karoline pelo auxílio na coleta. Saibam que suas contribuições não serão esquecidas ou negligenciadas.
A todos os adultos e, principalmente, os idosos que participaram desta pesquisa, pois sem eles esta pesquisa não seria concretizada.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa Tecnológica (CNPq), pelo apoio financeiro e técnico.
SUMÁRIO
Índices de Figuras ... xi
Índices de Tabelas ... xiii
Lista de Siglas e Abreviaturas ... xv
Resumo ... xvi
Abstract ... xvii
APRESENTAÇÃO ... 1
1.MEMÓRIA ... 2
1.1. Sistema de memória ... 3
1.2. Memória episódica ... 8
1.3. Diferentes métodos de avaliação da memória episódica ... 10
1.3.1. Memória episódica e testes de reconhecimento: Paradigma de lembrança e familiaridade ... 10
1.3.2. Memória episódica associada a tarefas de recordação livre (Free Recall) ... 13
1.3.3. Memória episódica associada a questões inesperadas e não focais ... 14
1.3.4. Memória episódica associada ao contexto espaço-temporal dos eventos: Testes “Que – Onde – Quando”. ... 15
1.3.5. Teste “Que – Onde – Qual contexto”: Substituição do elemento temporal pelo contextual. ... 18
2.ENVELHECIMENTO ... 20
2.1. Envelhecimento: aspectos sociais ... 20
2.2. Envelhecimento: alterações biológicos ... 21
2.3. Envelhecimento e memória... 23
2.4. Envelhecimento e memória episódica ... 26
2.5. Justificativa ... 32
2.6. Objetivos ... 33
2.6.1. Objetivos Gerais ... 33
2.7. Hipóteses ... 34
3.MÉTODO ... 35
3.1. Local de estudo ... 35
3.2. Ética ... 35
3.3. Delineamento da pesquisa... 35
3.4. Participantes ... 36
3.4.1. Critérios de inclusão ... 36
3.4.2. Critério de exclusão ... 36
3.5. Material ... 37
3.5.1. Instrumentos para caracterização e homogeneização da amostra ... 37
3.5.2. Avaliação neuropsicológica ... 37
3.5.3. Teste de memória episódica "Que-Onde-Quando" ... 39
3.5.4. Teste de memória episódica "Que-Onde-Qual contexto" ... 41
3.5.5. Medidas clássicas de memória episódica ... 42
3.6. Procedimento ... 44
3.7. Análises dos dados ... 45
4.RESULTADOS ... 48
4.1. Caracterização da amostra ... 48
4.2. Caracterização das pontuações obtidas nos diferentes testes de memória episódica utilizados ... 49
4.3. Correlatos entre os componentes das tarefas do teste “Que-Onde-Quando” ... ... 53
4.4. Associação entre diferentes medidas episódicas... 56
4.5. Correlação entre testes neuropsicológicos e medidas episódicas ... 57
4.6. Diferenças entre grupos para os componentes da tarefa F da prova "Que-Onde-Quando" ... 59
4.8. Diferenças entre grupos para as medidas da tarefa “Que-Onde-Qual
Contexto” ... 61
5.DISCUSSÃO ... 67
6.CONCLUSÃO ... 77
7.REFERÊNCIAS ... 78
8.APÊNDICES ... 87
xi 0.1.Índices de Figuras
Figura 1: Estruturação taxonômica dos sistemas da Memória de Longo Prazo e seus respectivos substratos neurais proposto por Squire e Zola-Morgan. ... 4 Figura 2: Sistemas de memória baseado no modo de processamento proposto por Henke (2010). ... 6 Figura 3: (A) Proporção de pessoas com 60 anos ou mais, por pais, em 2015; (B) Proporção de pessoas com 60 anos ou mais, por pais, estimativas para 2050. ... 21 Figura 4: Conjunto de dados transversais sobre a influência do envelhecimento nos diferentes tipos de medidas de memória ... 24 Figura 5: Instruções e fase de esconder objetos do testes de memória episódica "Que-Onde-Quando". ... 40 Figura 6: Tipos de questões do teste de memória episódica "Que-Onde-Quando". ... 40 Figura 7: Dinâmica de realização do teste “Que-Onde-Qual contexto”. ... 41 Figura 8: Descrição dos tipos de questão, experiência da resposta e grau de confiança contidos da folha de resposta do teste “Que-Onde-Qual contexto”. ... 42
Figura 9: Frequência de acertos totais na tarefa "Que- Onde- Qual contexto”, e por tipo de questão. ... 52 Figura 10: Frequência das experiências associadas as respostas corretas do teste “Que-Onde-Qual contexto”. ... 53
Figura 11: Comparação do desempenho de adultos e idosos na tarefa F do teste “Que-Onde-Quando”. ... 59
Figura 12: Comparação entre adultos e idosos nas diferentes tarefas clássicas de memória episódica. ... 60 Figura 13: Taxa de experiências subjetivas associadas aos tipos de questão da tarefa "Que-Onde-Qual contexto", por grupo. ... 61
xiii 0.2.Índices de Tabelas
Tabela 1: Conjunto de provas utilizadas para avaliar memória episódica. ... 36
Tabela 2: Frequência das variáveis sexo e escolaridade em ambos os grupos do estudo. ... 36
Tabela 3: Ordem de realização, por dia, das tarefas do estudo no grupo de idosos (GI). ... 44
Tabela 4: Sequência de realização da tarefas do estudo no grupo de adultos (GA). ... 45
Tabela 5: Distribuição de frequência das variáveis utilizadas no questionário de caracterização socio-demográfica da amostra. ... 48
Tabela 6: Média e Desvio Padrão, de ambos os grupos, para as variáveis: Idade, Escalas Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD), Escala de Doenças Acumuladas (CIRS) e, apenas para GI, das provas da bateria neuropsicológica. ... 49
Tabela 7: Média e Desvio Padrão, de ambos os grupos, nos testes clássicos de memória episódica. ... 50
Tabela 8: Média e Desvio Padrão das taxas de acertos de adultos e idosos nos componentes "Integração", "Que", "Onde", "Quando" das provas A e B, baixa complexidade (com 2 itens para esconder); C e D, média complexidade (com 4 itens para esconder) e; E e F, alta complexidade (com 6 itens para esconder)... 50
Tabela 9: Correlação de Spearman (ρ) entre as taxas de acerto dos componentes “integração” das 6 tarefas "Que-Onde-Quando", para o grupo de adultos (superior direto – cinza claro) e idosos (inferior esquerdo – cinza escuro). ... 53
Tabela 10: Correlação de Spearman (ρ) entre as taxas de acerto dos componentes “Onde” das 6 tarefas "Que-Onde-Quando", para o grupo de adultos (superior direto – cinza claro) e idosos (inferior esquerdo – cinza escuro). ... 54
Tabela 11: Correlação de Spearman (ρ) entre as taxas de acerto dos componentes “Que” das 6 tarefas "Que-Onde-Quando", para o grupo de adultos (superior direto – cinza claro) e idosos (inferior esquerdo – cinza escuro). ... 54
xiv Tabela 12: Correlação de Spearman (ρ) entre as taxas de acerto dos componentes “Quando” das 6 tarefas "Que-Onde-Quando", para o grupo de adultos (superior direto – cinza claro) e idosos (inferior esquerdo – cinza escuro). ... 55
Tabela 13: Correlação de Pearson entre as taxas de acerto dos componentes da tarefas F do teste "Que-Onde-Quando", para o grupo de adultos (superior direto – cinza claro) e idosos (inferior esquerdo – cinza escuro). ... 55 Tabela 14:Correlação de Pearson entre as taxas de acerto dos componentes da tarefas F do teste QOQ, as médicas clássicas de memória episódica (I- Recordação Livre Imediata, II- Recordação Livre Tardia e III- Questões Inesperadas), as questões do teste QOC e as experiências subjetivas “lembrar” e “saber”, divididos por grupo. ... 56
xv 0.3.Lista de Siglas e Abreviaturas
LTM Lobo Temporal Medial.
H.M. Paciente H. M.
ME Memória Episódica.
L/S Lembrar/Saber.
ROC Análise das características operacionais do receptor (Receiver Operating Characteristic).
QOQ “Que-Onde-Quando”.
QOC “Que-Onde-Qual Contexto”.
QI Questões inesperadas.
TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
MMSE Mini Exame do Estado Mental – MEEM.
RLI Teste de Recordação Livre Imediata.
RLT Teste de Recordação Livre Tardia.
QSD Questionário Sócio Demográfico.
CIRS Escala de Classificação de Doenças Cumulativas. HAD Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão.
QAF Questionário de Atividades Funcionais de PFEFFER.
TMT Trail Making Test.
SNL Subteste de Sequência de Número e Letras – WAIS III. DD Subteste de Dígitos (Ordem Direta) – WAIS III.
PS Procurar Símbolo – WAIS III.
xvi 0.4.Resumo
Resumo
O envelhecimento humano provoca declínios em diversas funções cognitivas. O processamento episódico, dentro todos os sistemas de memória, demonstra ser um dos mais afetados durante a velhice. A memória episódica é um subsistema mnemônico responsável por receber e armazenar informações sobre determinados episódios ou eventos temporalmente datados, existindo uma relação espaço-temporal entre eles. Uma forma de avaliação desse construto seria através de critérios comportamentais para identificação de informações sobre o que aconteceu, onde e quando, sendo esses os componentes básicos do paradigma “Que -Onde-Quando”, ou então, por meio de outra proposta que substitui o componente temporal pelo contextual “Que-Onde-Qual contexto”. Diante disso, o presente trabalho objetivou analisar o efeito da idade sobre a memória de integração, mensurada por dois paradigmas experimentais, e estudar os correlatos destas tarefas com medidas clássicas de memória episódica. Para tal utilizou-se uma amostra de 70 voluntários, dividida em dois grupos: Adultos jovens - GA (N = 35, M = 22,74; DP= 2,99) e Idosos – GI (N = 35, M = 62,54; DP = 4,82). O protocolo de avaliação utilizado foi composto por: (i) Teste baseado no paradigma “Que-Onde-Quando”; (ii) Teste baseado no paradigma “Que-Onde-Qual contexto”; (iii) Testes clássicos de memória episódica; e (iv) uma bateria neuropsicológica, sendo essa última aplicada apenas ao grupo de idosos. Os resultados mostraram que as diferentes medidas de memória episódica utilizadas aparentemente estão medindo algo em comum. As comparações efetivamente mostraram haver comprometimento, associado ao envelhecimento, de todos os aspectos avaliados pelo teste baseado no paradigma “Que-Onde-Quando”, sendo a “integração” o componente que sofreu maior declínio proporcional associado ao aumento da idade [F(1, 68)= 53,86; p < .001; η² = .442]. Achados similares a esse também foram verificados para tarefa de Recordação Livre Imediata (testes clássico de memória episódica) [F(1, 68)= 18,60; p < .001; η² = .215]. Entretanto, não foi registrada diferença significativa entre os grupos para a tarefa baseada no paradigma “Que-Onde-Qual contexto”. Os achados do presente estudo evidenciaram que tarefas baseadas no paradigma “Que-Onde-Quando” e “Que-Onde-Qual contexto” são promissores instrumentos válidos de mensuração da memória episódica. Porém, aparentemente a proposta relacionada ao aspecto temporal mostrou-se mais sensível para detecção de possíveis alterações relacionadas à idade.
Palavras-chave: Memória episódica; memória de integração; paradigma “que-onde-quando”; paradigma “que-onde-qual contexto”; envelhecimento saudável.
xvii 0.5.Abstract
Abstract
Human aging causes different decline in many cognitive function. Episodic processing, among all memory systems, shows to be the most affected along aging. The episodic memory is a subsystem of memory responsible for receiving and storing information about certain episodes or events, temporally dated, high lighting a spatiotemporal relationship between them. One way of assessing this construct would be using behavioral criteria for identifying information about what happening, where and when, which are the basic components of “What-Where-When” paradigm, or else, by proposing to replace the temporal component by context, “What-Where-Which” paradigm. Thus, the objective of this research was to analyze the effect of aging on episodic memory, assessed by two experimental paradigms, to study the correlation of these tests with classic measures of episodic memory. We used a sample with 70 volunteers, divided in two group: younger (N = 35, M = 22,74; SD= 2,99) and older (N = 35, M = 62,54; SD = 4,82) adults. The evaluation protocol was composed of: (i) test based on the paradigm "What-Where-When"; (ii) test based on the paradigm "What-Where-Which"; (iii) classic episodic memory tests; and (iv) a neuropsychological battery, the latter being applied only to the elderly group. The results showed that different episodic memory task apparently measuring something in common. Comparisons between group showed effective impairment associated with aging for all aspects evaluated by the test "What-Where-When", and the integration aspect was the component that suffered the greatest decline associated with age [F(1, 68)= 53,86; p < .001; η² = .442]. Other results showed that Free Recall also presented decline [F(1, 68)= 18,60; p < .001; η² = .215]. However, it was not found significant differences between groups for the task based on the paradigm "What-Where-Which". The findings of this study show that task-based paradigm Where-When" and "What-Where-Which" are promising instruments for measurement of episodic memory. However, apparently the temporal aspect was more sensitive to detect possible changes related to age.
Keywords: Episodic memory, memory binding; "what-where-when" paradigm; “what -where-which” paradigm; healthy aging.
1 0. APRESENTAÇÃO
A memória é um dos processos cognitivos mais estudados e revisados na literatura. Ela pode ser descrita como um processo que trata da recepção, codificação, estocagem e evocação de informações (Ardila & Ostroky, 2012). A memória pode ser classificada, de acordo com seu conteúdo, em declarativa e não declarativa. O sistema de memória declarativa por sua vez pode ser subdivido em: (i) memória semântica, que se refere a conhecimentos do mundo externo, de objetos, de linguagem, dentre outros, dissociado de informações contextuais específicas e; (ii) memória episódica, que processa informações associadas a eventos da vida pessoal, referenciando-os espaço e temporalmente (Baddeley, Eysenck, & Anderson, 2010). Uma forma de avaliação da memória episódica seria através de critérios comportamentais para identificação de informações sobre o que aconteceu, onde e quando, sendo esses os componentes básicos do paradigma “Que-Onde-Quando” (Clayton, Bussey, & Dickinson, 2003; Clayton & Dickinson, 1998), ou então por meio de outra proposta que substitui o componente temporal pelo contextual “Que-Onde-Qual contexto” (Eacott & Norman, 2004; Easton, Webster, & Eacott, 2012).
As pesquisas sobre o envelhecimento demonstram que a memória episódica é um dos processos cognitivos mais comprometidos, sendo também um dos primeiros (Mazurek, Bhoopathy, Read, Gallagher, & Smulders, 2015). Apesar de existir uma quantidade elevada de estudos que buscam verificar a associação entre envelhecimento humano e o processamento episódico, os que fazem uso de provas baseadas no paradigma “Que -Onde-Quando” são escassos, e os que usam o paradigma “Que-Onde-Qual contexto” inexistente. Com base no exposto o objetivo do presente trabalho é analisar o efeito do envelhecimento sobre o desempenho em provas baseadas nos dois paradigmas experimentais apresentados, além de estudar os correlatos destas tarefas com medidas clássicas de memória episódica.
A presente dissertação aborda esse tema, sendo constituída por nove sessões. A Primeira Seção aborda os aspectos gerais da memória, dando ênfase à memória episódica. A Segunda Seção apresenta princípios gerais sobre o processo de envelhecimento normal, destacando estudos que avaliaram os múltiplos componentes da memória episódica. O método aplicado ao delineamento é destacado na Terceira Seção. Na Quarta Seção são apresentados os dados obtidos. A Quinta Seção discute os resultados encontrados. As considerações finais sobre o estudo são destacadas na Sexta Seção. A Sétima Seção expõem as referências utilizadas. Por fim, a Oitava e Nona Seções apresentam os Apêndices e Anexos, respectivamente.
2
1. MEMÓRIA
A memória é um processo cognitivo complexo, por meio do qual o indivíduo adquire, forma, conserva e recupera (evoca) informações. A aquisição também é conhecida como aprendizagem, pois só se grava aquelas informações que se aprende. Durante esse processo as novas informações são convertidas em uma linguagem específica, impulsos nervosos, que são transmitidos pelo cérebro até chegarem à específicas zonas do hipocampo, causando modificações morfológicas que formam as novas memórias. Conforme a importância e a utilização das novas informações, estas poderão, ou não, ser conservadas, sendo consequentemente armazenadas em estruturas corticais especializadas, como neocórtex. A recuperação é a capacidade que permite à invocação das informações previamente armazenadas, dando assim utilidade à memória (Banich, 2004; Izquierdo, 2011).
Estudos com pessoas sem patologias e com pacientes que sofreram algum tipo de amnésia mostraram que a memória não é um processo unitário, pelo contrário, trata-se de uma função cognitiva de múltiplas formas. Estes diferentes processos apresentam diversos componentes básicos, sendo auxiliados por substratos neurais distintos (Moscovitch, 2004).
Nesse ínterim, um dos trabalhos que mais contribuiu para o entendimento da memória foi o realizado com o paciente H.M. O estudo focou basicamente na descoberta dos efeitos negativos sobre a memória associados à retirada do Lobo Temporal Medial (LTM) bilateral. A retirada desta região foi uma alternativa de tratamento proposta para a redução dos quadros epiléticos, recorrentes em H.M. (Scoville & Milner, 1957). A lesão decorrente da cirurgia resultou na secção de uma área de aproximadamente 8 cm do LTM, estendendo-se a regiões do hipocampo anterior, giro hipocampal, uncus e amígdala (Annese et al., 2014). Após a realização das operações os ataques epiléticos reduziram consideravelmente, preservando e até mesmo promovendo melhoras nas capacidades cognitivas, como atenção e inteligência. Entretanto, evidenciou-se também uma profunda amnésia anterógrada (incapacidade total ou parcial de formação de novas memórias) e uma amnésia retrograda (incapacidade de recordar informação já consolidadas) parcial para memórias adquiridas até, aproximadamente, 1 ano e meio que antecederam a cirurgia (Scoville & Milner, 1957). A partir disto pode-se inferir e, através de pesquisas subsequentes, confirmar que o hipocampo, e áreas adjacentes, como o córtex entorrinal, eram cruciais para a formação da memória. Quanto maior fosse a lesão, estendendo-se a formações bilaterais, mais severos eram os comprometimentos (Squire & Wixted, 2011).
3 As descobertas decorrentes das pesquisas realizadas com H.M. forneceram um conjunto de dados que subsidiaram o desenvolvimento de modelos sobre como são formadas as memórias, sua classificação e áreas corticais associadas. Izquierdo (2011) argumenta que existem diversas classificações das memórias, as quais variam conforme sua função, seu conteúdo ou pelo tempo que duram.
Os estudos clássicos sobre memória fazem menção a uma divisão desta em diferentes sistemas. Os processos mnemônicos relacionados ao tipo de estímulo codificado, dizem respeito à memória sensorial, que pode ser: visual, auditivo, tátil, gustativo ou olfativo. Por sua vez, o armazenamento de informações durante determinado intervalo de tempo, antes de serem recuperadas, remete-nos a memória de curto prazo e de longo prazo. Em relação a maneira com a qual a aprendizagem acontece podemos mencionar a memória implícita, que ocorre inconsciente e sem intencionalidade, e memória explícita, que é construída conscientemente e com intencionalidade. A memória explícita, por sua vez, pode ser subdividida em duas outras categorias, referentes ao tipo de conteúdo armazenado, memória semântica e episódica (Baddeley, 2010; Izquierdo, 2011).
1.1.Sistemas de memória
4 Figura 1: Estruturação taxonômica dos sistemas da Memória de Longo Prazo e seus respectivos substratos neurais propostos por Squire e Zola-Morgan. Adaptada a partir de “A model for memory systems based on processing modes rather than consciousness”, Henke, K., 2010, Nature Reviews Neuroscience, 11(7), 523–532.
5 esqueléticas; e por fim, nas vias reflexas para o processamento da aprendizagem não-associativa (Squire, Stark, & Clark, 2004).
A memória declarativa pode ser subdivida em dois subsistemas: o episódico e o semântico. O primeiro deles é a memória para os eventos específicos que fazem parte da história pessoal de cada indivíduo. Por sua vez, a memória semântica é composta pelo conhecimento conceitual e factual que não está vinculado conscientemente aos eventos pessoais (Rains, 2004).
O modelo de Squire e Zola-Morgan (1996) é bastante aceito e está fundamentado em alguns pressupostos basilares: (i) o de que existe uma dissociação da arquitetura neural envolvida, na qual uma lesão (por exemplo, causada por um traumatismo) que afeta os substratos neurais da memória declarativa, sendo limitadas as suas estruturas (Lobo Temporal Medial e Diencéfalo), não provoca um comprometimento do funcionamento da memória não-declarativa; (ii) o tipo de informação processada, e por fim (iii) o nível de consciência envolvido na recuperação das informações. Tal modelo é bastante difundido no campo, apresentando dados empíricos em estudos com animais humanos e não-humanos (Squire & Zola, 1996).
Outra perspectiva, mais atual, é a proposta por Henke (2010), que expõem um modelo no qual os tipos de memória não podem ser classificados de acordo com a consciência da codificação e recordação das informações, mais sim por outros fatores como: (i) a quantidade de séries necessárias para a aquisição da informação; (ii) a complexidade cognitiva do estímulo e; (iii) a natureza da representação mental. Por essa perspectiva, o modo de processamento requerido por uma determinada situação de aprendizagem seleciona os circuitos cerebrais associados, que por sua vez geram memórias qualitativamente distintas, as quais podem ser classificadas nos termos descritos na Figura 2.
É importante destacar novamente que o nível de consciência da codificação e recuperação das informações é uma variável irrelevante para essa perspectiva. Por exemplo, por esse modelo é plenamente aceitável a suposição da existência de memória episódicas conscientes e inconscientes. O fator determinante para a classificação das memórias seriam os modos de processamento utilizado para os diferentes tipos de informação (Henke, 2010).
6 relaçãoàs suascapacidades de processamentoe sãorecrutados em conformidade comsua especialização, tendo como referencia as demandasimpostas pela situaçãode aprendizagem (ver Figura 2).
Figura 2: Sistemas de memória baseado no modo de processamento proposto por Henke (2010). Adaptada à partir de “A model for memory systems based on processing modes rather than consciousness”, Henke, K., 2010, Nature Reviews Neuroscience, 11(7), 523– 532.
A codificação rápida de associações flexíveis tem seu início a partir de um único e simples ensaio de codificação, que permitea formação de representações do evento aprendido, além de representações alocêntricas (usa como referências pistas espaciais externas ao observador) que fornecem o esboço espacial da memória episódica. Esse nível de processamento é dependente de estruturas como hipocampo e neocórtex (Henke, 2010).
7 O conhecimento semântico consoante com esse modelo seria formado por meio de duas vias: (i) através do hipocampo, estando associado à formação de memórias episódicas, pois no decorrer do tempo informações episódicas vão perdendo detalhes, assim passando por um processo de semantização; (ii) mediado por estruturas extra hipocampais, como córtex parahipocampal e perirrinal (O’Kane, Kensinger, & Corkin, 2004), fazendo uso de ensaios repetitivos de aprendizagem. Esta repetição de treinos de codificação em paralelo reativa e reconsolida ciclos de memória episódica, semantizando e neocortizando tais informações (Henke, 2010).
Por fim, a autora apresenta o nível de codificação rápida de itens únicos. As memórias resultantes deste modo de processamento podem ser evocadas pela apresentação de um sinal idêntica ou semelhante ao estímulo original. Os itens são classificados de acordo com categorias unificadas e inflexível, sendo representadas perceptual e espacialmente. A apresentação de uma combinação de itens pertencentes a uma mesma categoria pode dar origem a manifestação do priming (forma inconsciente de memória que envolve uma mudança na capacidade de uma pessoa para identificar, produzir ou classificar determinado estímulo como resultado de um encontro prévio com o referente estímulo ou um relacionado) ou ao sentimento de familiaridade para aspectos perceptivos, espaciais, e/ou conceituais dos itens. Uma característica importante deste nível de processamento seria a busca por uma maior eficiência e menor requisição de atividades corticais para que seus processos sejam desempenhados corretamente, possibilitando a evocação de determinado tipo de informação com o menor gasto possível de energia (Henke, 2010).
8 sensoriais, espaciais, temporaise conceituais formadas por cada um dos três modos de processamento. Essa estrutura tem plena capacidade de armazenamento de informações sobre itens e seu contexto espaço-temporal, necessitando, entretanto, de um maior número de treinos para efetivação da aprendizagem.
1.2.Memória episódica
A memória episódica (ME) recebe e armazena informações sobre eventos datados temporalmente, e a relação espaço-temporal entre eles. É um subsistema declarativo que, diferente do semântico, é composta apenas por informações sobre acontecimentos pessoais, ou seja, experiências particulares que foramincorporados emuma matriz deoutros eventos associados a sua linha de tempo subjetivo (Tulving, 1984, 1985, 2001, 2002). Em decorrência de seu conceito ter sido inicialmente estudado pela psicologia cognitiva, umas das formas usuais de observação deste construto é por meio das experiência subjetivaassociada com a recordação episódica (Allen & Fortin, 2013).
Através da recordação episódica é permitido ao sujeito registrar e lembrar-se de informações enquadradas em um contexto espacial e temporal, possibilitando que o mesmo se recorde de fatos de sua história pessoal, familiar ou social. Em suma, trata-se de uma memória de acontecimentos, por meio da qual o sujeito pode acessar conscientemente lembranças idiossincráticas de experiências passadas (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013; Rains, 2004; Izquierdo, 2011; Baddeley, Eysenck, & Anderson, 2010). Em outras palavras, a memória episódica faz menção a processos mnemônicos relacionados a acontecimentos em lugares e horários específicos, ou sobre, os componentes "Que", "Onde" e "Quando" das representações mnemônicas (Clayton & Dickinson, 1998).
Em suma, a memória episódica pode ser acessada através de critérios comportamentais e fenomenológicos, associados à experiência subjetiva relatada. Os critérios comportamentais manifestam-se por através do conteúdo, da estrutura e da flexibilidade, características da memória episódica em todos os animais. Já o critério fenomenológico é algo presente apenas nos animais humanos, pois necessita de formas verbais de comunicação para ser acessado (Clayton et al., 2003; Tulving, 2001, 2002).
9 relevantes, tendo poder de discriminação, visto que dois acontecimentos podem compartilhar as mesmas informações de “Que” e “Onde”, mas não de “Quando”. A estrutura da memória episódica está associada à concepção de que os componentes “Que”, “Onde” e “Quando” devem se manifestar de forma integrada para que assim possa representar um determinado evento idiossincrático. Sendo assim, a recuperação de qualquer um dos componentes de uma memória episódica deve ser capaz evocar os demais. Já a flexibilização trata sobre a capacidade de manipulação das informações mediante a exposição a novas situações, sendo essa uma característica global da memória declarativa (Clayton et al., 2003).
O critério fenomenológico pode ser descrito em termo das experiências subjetivas que acompanham a recuperação episódica. São as lembranças conscientes ou experiências de um evento passado (Crystal, 2009). Para Tulving (2001), a experiência subjetiva da memória episódica depende de uma concepção de self (consciência da própria existência), da consciência autonoética (descrita como uma sensação de “viagem no tempo”, onde o indivíduo tem consciência de que determinadas experiências pessoais tenham acontecido consigo anteriormente, portanto, fazendo parte de sua história individual). Além disso, foi proposto que os seres humanos têm um sentido de tempo subjetivo que permite distinguir entre as representações mentais de si no passado, presente e futuro (Pause et al., 2013; Tulving, 2001).
A experiência subjetiva é uma rica fonte de informações para a geração de hipóteses sobre a memória episódica em humanos. Em contrapartida, torna-se uma barreira difícil de ser superada para verificação de que os animais não humanos possam vir a possuir esse construto, isto porque não se pode ter acesso ao conteúdo fenomenológico deles, já que não possuem a capacidade de expressão verbal (Tulving, 2001).
Sendo a memória episódica uma estrutura cognitiva complexa, diversas foram as metodologias e técnicas utilizadas para acessá-la (Cheke & Clayton, 2015). O processamento episódico tem sido investigado dentro de uma série de literaturas sobre memórias distintas, porém sobrepostas, como por exemplo, “memória de fonte”, “memória autobiográfica”, entre outras. As pequenas diferenças em sua definição tem resultado em distintos critérios usados para estudar essa função cognitiva (Cheke & Clayton, 2013).
10 baseadas nos critérios comportamentais, foram propostas, tendo sido desenvolvidas para investigar este processo em animais não-humanos (Clayton & Dickinson, 1998; Eacott & Norman, 2004), passando posteriormente por adaptações para que pudessem ser aplicadas em população de humanos (Cheke & Clayton, 2013, 2015; Easton et al., 2012).
1.3.Diferentes métodos de avaliação da memória episódica
Humanos são capazes de relatar verbalmente suas experiências pessoais, contemplando assim o critério fenomenológico da memória episódica (Cheke & Clayton, 2013; Schacter & Addis, 2007). Também estão aptos a realizarem provas que possibilitem ter acesso ao conteúdo, estrutura e flexibilidade (Holland & Smulders, 2011; Mazurek et al., 2015; Plancher, Gyselinck, Nicolas, & Piolino, 2010). Logo abaixo são expostos alguns métodos de avaliação de memória episódica desenvolvidos ao longo dos anos, baseados nos pressupostos teóricos que fundamentam esse construto.
1.3.1. Memória episódica e testes de reconhecimento: Paradigma de recordação e familiaridade
A capacidade de reconhecer se determinado item ou acontecimento já foi ou não apresentado é conhecido como “memória de reconhecimento” (Squire & Wixted, 2011). Essa característica mnemônica se fundamenta em dois processos distintos, recordação e familiaridade (Yonelinas, 2001, 2002). Recordação envolve relembrar detalhes contextuais específicos sobre determinados eventos anteriormente aprendidos. A exposição prévia a um item deixa lembrança associadas a uma série de informações contextuais e temporais. Em razão disso, acredita-se que tal processo esteja mais associado à memória episódica (Carlesimo et al., 2015; Squire & Wixted, 2011). Já a familiaridadeenvolvesimplesmente saber que um item foi previamente apresentado, sem dispor de informaçãoes adicionais, como contexto, sobre o episódio vivenciado. Tal definição fundamenta a ideia de que esse processo esteja relacionado predominantemente aos componentes da memória semântica (Yonelinas, 2001).
11 de que recordação e familiaridade são processos independentes foi desenvolvido o chamado modelo de Processamento Dualista da memória de reconhecimento (Carlesimo et al., 2015; Yonelinas, 2001, 2002; Yonelinas & Jacoby, 2012).
Outromodelo, o do Processamento Unitário assume que a memória de reconhecimento reflete apenas um simples processo de familiariedade. Por sua vez, o papel do reconhecimento estaria associado a uma teoria de detecção de sinal, onde os itens aprendidos são em média mais familiar do que os novos itens, mas apenas porque a distribuição da familiariedade de itens novos e antigos se sobrepõem, necessitando com isso apresentar uma resposta critério, aceitando assim apenas os itens que fiquem acima do nível “teto” de familiaridade, como tendo sido apresentados anteriormente, podendo então dizer que se trata de um processo de recordação (Yonelinas, 2001, 2002).
Na Teoria do Processamento Unitário, a recordação e a familiaridade são expressões subjetivas da memória de reconhecimento, sendo estes processos resultantes a partir de traços de memória que variam em itensidade. A familiaridade resultaria de registros de memória fracas,como tal, não seria capaz de ativar a informaçãoassociativa que caracteriza a sensação de recordação. Já a recordação é oproduto de representações de memórias fortes, relacionadas com informações contextuais, que por sua vez, são capazes de ativar informações associativa globais (Carlesimo et al., 2015).
Diversas foram às metodologias de avaliação da memória de reconhecimento desenvolvidas ao longo dos anos, devendo destarcar-se três delas: (i) Processamento Dissociativo; (ii) Paradigma Lembrar/Saber; (iii) Análises das Caracteristicas Operacionais do Receptor (Curva ROCs).
12 desempenho nas medidas de inclusão e exclusão, baseando-se na premissa de que, se um sujeito pode recordar um item, e em seguida, for capaz de determinar quando e comoele aprendeu tal informação corretamente recordada, pode-se dizer que ele “Lembrou” do estímulo.Enquanto que participantes que apenas estão familiarizados com o item não possuem a capacidade de discriminar por qual forma de aquisição o mesmo foi aprendido (Carlesimo et al., 2015).
Outro método utilizado para investigar os processos de recordação e familiaridade é o procedimento Lembrar/Saber (L/S), que se baseia em relatos subjetivos associadosao reconhecimento de um item previamente apresentado (Yonelinas, Aly, Wang, & Koen, 2010; Yonelinas, 2001, 2002; Yonelinas, Kroll, Dobbins, Lazzara, & Knight, 1998). Os participantes relatam “Lembrar” de algo, quando eles podem recordar informações adicionais adquiridas durante a exposição ao estímulo, como por exemplo, seu contexto ou os pensamentos que estava tendo durante. Por sua vez eles relatam “Saber” de algo, quando o seu julgamento sobre a experiência com os itens é apenas familiar, dissociada de informações adicionais sobre o evento de exposição ao estímulo.
Os julgamentos Lembrar/Saber são utilizados em amostras clínicas e controle, sendo convertidos em estimativas (taxa de frequência) de recordação e de familiaridade, adotando como base o modelo amplamente utilizado, mas controverso, da memória de reconhecimento de Yonelinas (1994). Os dados de amostras clínicas utilizando esse modelo de avaliação são inconclusivos. Achados como o de Yonelinas (2002), com pacientes com lesões hipocampais, mostraram que experiências do tipo “Lembrar” mostrou-se comprometida para essa amostra. Já Manns e colaboradores (2003) apresentaram dados que indicam que ambos os processos (recordação e familiaridade) são prejudicados em sujeitos com danos no hipocampo (Squire & Wixted, 2011). Em particular, o julgamento “Saber” reflete uma memória mais fraca do que a experiência “Lembrar” (Squire, Wixted, & Clark, 2007).
13 Por fim, temos que destacar o procedimento de Análise das Caracteristicas Operacionais do Receptor, ou simplesmente Curva ROC (Receiver Operating Characteristic). Esse método busca verificar a proporção de acertos e falso alarmes em testes de reconhecimento, baseando-se no níveis de confiança ou críterios de resposta. A análise ROC revelam um padrão global de reconhecimento com dois processo independentes. O primeiro deles,a simetria, revela o componente curvilinear que reflete na familiaridade. Já o segundo, a assimetria da curva, evidencia o componente linear relacionado a recordação (Carlesimo et al., 2015). Em termos gerais podemos dizer que uma curva ROC simétrica demonstra que não houve contribuição do componente Lembrar para o desempenhos dos participantes no teste de reconhecimento, enquanto que um comportamento linear da distribuição da curva ROC indica que o componente familiaridade não contribuiu significativamente na performance dos avaliados na tarefa de reconhecimento (Yonelinas & Parks, 2007).
1.3.2. Memória episódica associada a tarefas de recordação livre (Free Recall)
O paradigma de Recordação Livre e com pistas está relacionado à aprendizagem de uma série de itens (palavras ou imagens) e, posteriormente, ser convidado a recordá-las. A evocação das informações pode ocorrer por meio de pistas internas (Recordação Livre) ou por pistas externas (Recordação com pistas), tais como categoria palavras ou imagens que devem ser lembradas (Cheke & Clayton, 2015).
Em seu artigo “Memória e Consciência”, Tulving (1985) expõem um conjunto de experimentos, no qual um deles tratou de verificar a taxa de recordação de palavras de uma lista. A recordação se deu de três formas: (i) Recordação Livre, onde os sujeitos lembravam livremente os itens que haviam escutado; (ii) Recordação com Pistas categóricas e (iii) Recordação com Pistas de Letras, onde era pronunciado as primeiras letras e os sujeitos deveriam recordar as palavras. Associado ao teste de palavras, foi verificado a experiência subjetiva de lembrar ou saber para a recordação dos itens, por meio das três modalidades. Os achados da pesquisa mostraram que os sujeitos atribuíam mais experiência de “lembrar” (experiência associada ao processamento de memória episódica) as palavras livremente recordadas, do que aquelas que tiveram o auxílio de pistas externas.
14 comparado a recordação imediata e a realizada após se passar uma semana. As conclusões foram as de que itens livremente e imediatamente recordados são mais propensos a serem associados com a experiência de lembrança e, portanto, são considerados mais dependentes de memória episódica (Tulving, 1985).
1.3.3. Memória episódica associada a questões inesperadas e não focais
Tradicionalmente, nas pesquisas envolvendo avaliação da memória episódica em humanos, os testes utilizados, que supostamente avaliam este construto, são associados à recordação de elementos focais, como palavras ou imagens de uma lista, de forma deliberada (Allen & Fortin, 2013; Cheke & Clayton, 2013, 2015; Lundervold, Wollschläger, & Wehling, 2014; Tulving, 1985). Na maioria das vezes estes tipos de tarefas ignoram os elementos não focais da avaliação, além de explicitar aos avaliados que se lembrem dos itens apresentados, distorcendo assim da forma como a memória episódica se manifesta no cotidiano. As memórias na maioria das vezes são codificadas de forma incidental, necessitando eventuais recuperações dependendo da necessidade. Morris e Frey (1997) argumentaram que a memória episódica é o processo mnemônico responsável pela gravação de eventos inteiros da vida do indivíduo, ocorrendo na maioria das vezes de forma não deliberada e não se atentando aos elementos centrais da situação (Cheke & Clayton, 2013).
A codificação automática da memória episódica foi investigada ao longo dos anos por meio de duas vias. A primeira delas atenta-se ao fato de que a codificação das informações sobre eventos particulares deve ocorrer de forma não deliberada. A maioria das avaliações que usam tal critério não alertam aos participantes de que terão sua memória testada. A segunda via destacada, bastante comum na avaliação com humanos, investiga memórias para informações contextuais de um evento aprendido, não se detendo muito aos elementos focais da tarefa (Cheke & Clayton, 2013).
15 semântico, enquanto memórias para elementos do contexto das experiências estão mais relacionadas com um processamento episódico. A diferença entre memória para elementos focais e contextuais estaria relacionada à intencionalidade da codificação, onde os itens focais são deliberadamente codificados, enquanto os de contexto não são (Cheke & Clayton, 2013; Holland & Smulders, 2011).
Tarefas que utilizam perguntas inesperadas para avaliação da memória episódica fazem uso do pressuposto de que durante a fase de codificação, por exemplo, no momento em que se está lendo uma lista de palavras para o participante, não pode ser gerada nenhuma expectativa de que o sujeito está passando por um teste de memória e que será solicitada posteriormente a recuperação das informações apresentadas (Cheke & Clayton, 2013; Holland & Smulders, 2011; Plancher et al., 2010). A codificação deliberada reduz a contribuição da memória episódica, portanto, apenas questões inesperadas possibilitam uma reexperiência episódica de um evento (Zentall, Singer, & Stagner, 2008).
1.3.4. Memória episódica associada ao contexto espaço-temporal dos eventos: Testes “Que – Onde –Quando”.
16 Um dos primeiros trabalhos com humanos que fizeram uso dos critério “Que”, “Onde” e “Quando” teve como principal objetivo avaliar a influência do sono na formação da memória episódica (Rauchs et al., 2004). Para avaliar o processo cognitivo de interesse a equipe de pesquisadores fez uso de cartões brancos, nos quais estavam impressos palavras (substantivos). A localização das palavras variava, podendo ser apresentadas na parte superior, central ou inferior dos cartões. Após 14 exposições, divididas em 2 listas era solicitado que os avaliados lembrassem de determinada palavra (critério “Que”) em qual localização ela estava no cartão (critério “Onde”) e se pertencia a primeira ou segunda lista (critério “Quando”). Apesar das contribuições metodológicas do trabalho de Rauchs e colaboradores (2004), sua pesquisa não objetivou verificar se testes de memória episódica “Que – Onde – Quando” realmente avaliam o processo cognitivo a que se pretende.
Pesquisas com a finalidade de averiguar a eficácia das provas “Que – Onde – Quando” foram feitas por Holland e Smulders (2011), e por Cheke e Clayton (2013). Na primeira delas, os pesquisadores criaram uma tarefa que consistia em esconder diferentes moedas, de valores baixos e outros mais elevados. O ambiente onde a prova ocorria era um cômodo de uma residência. As moedas eram escondidas em dois dias diferentes. Ao término do procedimento era solicitado aos participantes que lembrassem perfeitamente onde e quando esconderam determinado tipo de moeda. A motivação foi uma variável importante no estudo, tendo em vista que, os participantes foram informados que ficariam com as 5 primeiras moedas que informassem corretamente o tipo, a localização e o momento em que esconderam. Os resultados do estudo mostraram que as pontuações na prova “Que – Onde – Quando” correlacionaram com uma prova tradicional de memória episódica, dando indícios que os seres humanos utilizaram tal processo cognitivo para resolverem testes neuropsicológicos baseados nos critérios comportamentais descritos por Tulving. Já Cheke e Clayton (2013) não encontraram resultados conclusivos, isto porque as análises envolvendo diferentes provas de memória episódica, dentre elas uma baseada nos parâmetros “Que – Onde – Quando”, mostraram que a natureza dos testes não necessariamente avaliam o mesmo processo. Essas constatações sinalizam que as provas neuropsicológicas utilizadas apresentam a capacidade de avaliação de multíplos domínios.
17 experimento consistiu em não avisar ao participantes que realizariam um teste de memória, onde, supostamente, deles seria verificado o quão bem poderiam repetir verbalmente determinada sentença (Essa etapa foi essencia para preservar o componente incidental da memória avaliada pelo teste). Posteriormente, os participantes foram inseridos na primeiro sessão do teste, onde aos mesmo foi solicitado que escondessem oito itens em locais predeterminados de uma sala de escritório desordenado. Os objetoseram dados aosparticipantes, um de cada vez, eforam identificadosos locaisdurante a tarefa, pelo experimentador, apontandoonde osvoluntários deveriam colocaros itens. Os locaisforam os mesmos paratodos os participantes, etinham sido escolhidos paraserem distribuídospor toda a sala, de modo que a informação temporalnãofosse confundidacom ainformação espacial. Em uma posterior segunda sessão, transcorrido 2 horas após a primeira,foi solicitado o mesmo procedimento, só que com novos objetos e locais para esconder os itens. Depois desta fase, os participantes eram convidados a regressarem em outra ocasião, com o objetivo de revelar onde esconderam determinado item e em qual das sessões. Os resultados encontrados mostraram que tarefas “Que – Onde – Quando” do mundo real é uma mensuração valida de memória episódica, com alta validade ecológica, podendo ser útil como preditor de habilidade de memórias diárias (Mazurek et al., 2015).
18 1.3.5. Teste “Que – Onde – Qual contexto”: Substituição do elemento temporal
pelo contextual.
Com o passar do tempo críticas foram elaboradas sobre o paradigma fundamentado pelo trabalho da Clayton e Dickinson (1998), questionando a replicabilidade dos critérios comportamentais “Que – Onde – Quando” de avaliação da memória episódica. O problema identificado nessa perspectiva metodológica de avaliação é que a mesma utilizou-se de um comportamento institivo do Scrub Jay, caracterisca não presente em outros animais de testes (Eacott & Norman, 2004).
Além do modelo “Que – Onde – Quando” apresentar complicações quanto a capacidade de replicabilidade em outras espécies, Eacott e Norman (2004) observaram que área corticais já consolidadas como relacionadas com o processamento da memória episódica, no caso hipocampo e córtex perirrinal, ao serem lesionadas provocavam um comprometimento na execução de tarefas “contextuais” por parte dos animais. Além disso, fundamentados pelos estudos de Gaffan (1994), os autores consideraram que as cenas de fundo (backgrounds) definem o elemento contextual, fazendo até mesmo o uso do termo “memória de cena”. Para Gaffan (1994) esse tipo de memória é uma análoga a memória episódica. Fundamentados nesses pressupostos e estimulados pela possibilidade de apresentar um protocolo de avaliação de memória episódica capaz de ser executado por roedores e/ou primatas,Eacott e Norman (2004) propuseram uma tarefa simples que buscou examinar a capacidade de ratos em recordar objetos, posição espacial e o contexto em que eles estavam inseridos, sendo denominada de tarefa “Que – Onde –Qual Contexto”.
O componente temporal foi substituido pelo contextual. Com essa alteração o conceito de memória episódca se tornou mais abrangente, permitindo que, quando necessários os elementos temporais façam parte deste tipo de codificação, sem é claro se restringir a apenas esse. Esta remodelagem teórica permiteu a realização de uma série de estudos com roedores (Eacott & Easton, 2010; Eacott & Norman, 2004), nos quais os animais demonstraram plena capacidade de recordar memórias associadas a combinação contida nas provas “Que – Onde – Qual contexto”. Com essa alteração foi proporcionado a oportunidade para a exploração de bases neurais associadas a memória episódica (Easton & Eacott, 2008).
19 relacionadas ao componente contextual (Eacott & Norman, 2004) e perguntas fundamentadas na definição de memória episódica em termos dos componentes “Que”, “Onde” e “Quando” (Clayton & Dickinson, 1998). Os dados mostraram que a experiência “Lembrar”, teoricamente relacionado com a memória episodica, mostrou estar associada significativamente com ambos o tipos dequestão, tanto aquelas baseadas no contexto quanto no tempo. Entretanto, a experiência “Saber”, mais semântica dependente, relacionou significativamente apenas para as questões fundamentadas no paradigma “Que – Onde – Quando”.
20
2. ENVELHECIMENTO
2.1.Envelhecimento: aspectos sociais
Uma das razões que tem tornado o envelhecimento uma temática presente nas políticas sociais é que tanto a proporção quanto o número absoluto de pessoas idosas está aumentando notavelmente em todas as populações do mundo. Na figura 3 é apresentada a proporção, por país, de pessoas com 60 anos ou mais em 2015 e as projeções para o ano de 2050. Atualmente, somente o Japão apresenta uma proporção de idosos superior a 30% de sua população. Já na segunda metade do presente século países com essa quantidade de idosos estarão presentes em boa parte dos continentes (Organização Mundial da Saúde – OMS, 2015).
Em meados do ano 2013 o mundo apresentava uma população idosa (> 60 anos) de aproximadamente 840 milhões de pessoas. As projeções da Organização Mundial da Saúde indicam que em 2025 a população idosa será composta por 1,2 bilhões de sujeitos, aumentando para 2 bilhões em 2050 (OMS, 2015). Dois importantes fatores influenciam o envelhecimento da população mundial. O primeiro deles é o aumento da expectativa de vida. Em média, as pessoas de todo o mundo estão vivendo mais, tanto adultos quanto idosos. O segundo fator é a diminuição das taxas de fecundidade. Uma provável explicação para esse comportamento seja a de que os pais constatem que, devido aos avanços da medicina, ter filhos com idade mais avançada está se tornando cada vez menos perigoso, além de se ter um maior acesso aos meios contraceptivos e, uma mudança nas relações de gênero, onde as mulheres cada vez mais optam pela vida profissional em vez da familiar (OMS, 2015).
Em todo o mundo, o número de pessoas idosas está crescendo mais rapidamente do que o de qualquer outra faixa etária. De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) o Brasil está seguindo essa tendência. Os dados mostram que houve um incremento da população idosa no período de 1999-2009. Em 1999, a PNAD apontou para um total de 6,4 milhões de pessoas nessa faixa etária (3,9% da população total), enquanto para 2009 a população atingiu um efetivo de 9,7 milhões de idosos, correspondendo a 5,1% da população brasileira. Os principais fatores explicativos desse fenômeno foram à queda continuada dos níveis de fecundidade e o aumento da esperança de vida dos brasileiros (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2010). Estimativas para o Brasil indicam que, em 2025, o país deverá ser o sexto maior em número de idosos no mundo, com aproximadamente 30 milhões de sujeitos inseridos nessa faixa etária (OMS, 2015).
21 Compreender melhor o campo de estudo do envelhecimento é primordial para o desenvolvimento de novas ideias, formas de atendimento e políticas públicas para lidar com essa faixa etária que cada vez mais cresce, demandando diversos desafios para a solução de múltiplos problemas médicos, psicossociais e econômicos (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
Figura 3: (A) Proporção de pessoas com 60 anos ou mais, por pais, em 2015; (B) Proporção de pessoas com 60 anos ou mais, por pais, estimativas para 2050. Adaptado de “Informe Mundial sobre o Envelhecimento e Saúde”, Organização Mundial da Saúde – OMS, 2015, Retirado a partir de: http://www.who.int/en/.
2.2.Envelhecimento: alterações biológicas
22 tendo início logo depois da maturidade sexual, acelerando, nos seres humanos, a partir da quinta década de vida, marcado pela diminuição da capacidade reprodutiva e por alterações fisiológicas e morfológicas típicas (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
As alterações resultantes do envelhecimento acometem diversas estruturas no Sistema Nervoso Central (SNC) e Periférico (SNP), refletindo no funcionamento dos sistemas sensoriais, motores, emocionais e cognitivo. Os órgãos do sentido, por si só, também sofrem comprometimento, determinando privações sensoriais que contribuem ainda mais para o declínio cognitivo característico desta faixa etária (Bishop, Lu, & Yankner, 2010).
Envelhecer é um processo multideterminado, sendo reflexo de um acúmulo de danos celulares, que acabam resultando, na maioria das vezes, em um declínio no funcionamento dos sistemas biológicos em geral. O Sistema Nervoso mostra ser um dos mais comprometidos, apresentando uma série de alterações morfológicas e funcionais (Peters, 2006).
Estudos indicam que o volume e o peso do cérebro se alteram pouco com o passar dos anos, intensificando-se por volta dos 60 anos. Até os 50 anos de idade os volume cerebral encolhe de 0,1 a 0,2% ao ano. Em pessoas acima de 70 anos, estudos com ressonância magnética mostraram que a diminuição se intensifica, chegando ao patamar de 0,3 a 0,5 % de perda anual (Esiri, 2007).
Durante o envelhecimento também são registradas perda neurais significativas, sendo o hipocampo (Fraser, Shaw, & Cherbuin, 2015) e o córtex pré-frontal (Freeman et al., 2008) áreas bastante afetadas. O volumehipocampalcontinua a ser relativamenteestável,combaixos níveis deatrofiaaté meados da idade adulta, e então,à medida quea idade aumenta, progressivamente maior se torna a diminuição desta região (Fraser et al., 2015).
Há relatos de redução no tamanho dos neurônios (Esiri, 2007) e na quantidade de ramificações dendríticas (Yankner, Lu, & Loerch, 2008) associadas ao envelhecimento saudável. O número de sinapses modifica-se de forma distinta em diferentes regiões do córtex ou do hipocampo, havendo redução significativa em ambas as regiões (Fraser et al., 2015).
23 da Doença de Alzheimer. A deposição destas subtâncias pode tornar o ambiente extracelular tóxico para os neurônios, provocando consequentemente a morte de mesmos. Com o tempo as células mortas vão se acumulando em agregados fibrilares, formando com isso as chamadas placas senis por todas as áreas corticais, interferindo consequentemente em seu funcionamento (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
Outros estudos evidenciam alterações bioquímicas que acometem a região intracelular dos neurônios, originando os emaranhados neurofibrilares. Estes são constiuidos por fosfoproteínas alteradas associadas aos microtúbulos (estruturas de sustentação das células), denominadas proteína TAU. A funcionamento anormal da TAU faz com que os neurônios com o tempo entrem em colapso e morram, formando assim os emaranhados neurofibrilares. Comparado com as placas senis, cuja distribuição no SNC é mais heterogênea e aleatória, iniciando-se nas regiões neocorticais antes de afetar estruturas diencefálicas, as regiões cerebrais acometidas pelos emaranhados neurofibrilares são bem mais específicas, começando no córtex entorrinal e progredindo para estruturas como hipocampo, sistema límbico e neocórtex, respectivamente. O comprometimento destas estruturas acaba acometendo uma série de prejuízos na funcionalidade de diversos processos cognitivos, dentre eles a memória (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
2.3.Envelhecimento e memória
O envelhecimento acarreta grandes alterações nos sistema corticais. Tais mudanças podem afetar o funcionamento geral do Sistema Nervoso Central (SNC) e outras produzem declínio localizado em estruturas neuronais específicas (Park & Schwarz, 2002). Essas modificações trazem consigo preocupações, entre as quais as mais frequentes são as queixas dos idosos sobre o seu funcionamento cognitivo, que na maioria das vezes sofre declínio, tanto no envelhecimento normal quanto no patológico (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
24 Em estudos mais recentes, Park e colaboradores (1996), com uma amostra de 301 adultos com idades entre 20 e 90 anos, avaliaram o rendimento para ampla gama de tarefas cognitivas. Estas tarefas buscavam avaliar velocidade de processamento, memória operacional, entre outras dimensões cognitivas. Os resultados do estudo evidenciaram que há um declínio sistemático no rendimento ao longo da vida para algumas das dimensões cognitivas estudadas, a exemplo da velocidade de processamento e memória. Ainda enfatizando o estudo de Park et al. (1996), observou-se que algumas capacidades cognitivas se mantiveram relativamente inalteradas durante o processo de envelhecimento. As provas de vocabulário obtiveram pontuações que não elucidaram tanta diferença entre adultos jovens e idosos, demonstrando que este se trata de um construto mais estável ao longo da vida.
Os pesquisadores do envelhecimento cognitivo realizaram distintas avaliações objetivando verificar quais funções cognitivas sofriam ou não alterações decorrentes do processo de envelhecimento. Dentre as funções mais enfatizadas destaca-se os diferentes tipos de memória, tendo em vista que estes demonstram ser particularmenteafetados pelo envelhecimento saudável e patológico.
Figura 4: Conjunto de dados transversais sobre a influência do envelhecimento nos diferentes tipos de medidas de memória. Adaptada a partir de “Envejecimento Cognitivo”, Park, D., & Schwarz, N., 2002, Madrid: Médica Panamericana.
25 curto e longo prazo. Os dados expõem relativa ineficiência no processo de codificação, armazenagem e recuperação, além de distinção quanto ao comprometimento que acomete o processamento visuo-espacial e o verbal (Birren & Schaie, 2006).
Estudos realizados ao longo dos anos demonstraram diversos padrões de mudanças no funcionamento da memória em idosos, revelando que nem todos os sistemas são igualmente afetados com o avanço da idade. De maneira geral, as memórias implícitas são menos susceptíveis a influência negativa do envelhecimento. Em contrapartida, as memórias explicitas, consideradas de longa duração, são as que apresentam maior grau de comprometimento com o passar dos anos (Nyberg, Lövdén, Riklund, Lindenberger, & Bäckman, 2012).
Idosos demonstram ter mais dificuldades do que os adultos jovens em tarefas de recordação livre e recordação de dados muitos concretos, como nomes e locais (Craik & Rose, 2012). Porém, as distinções entre esse grupos são menores em tarefas de memória que envolva reconhecimento e conhecimento dos significados das palavras, indicando que esses processos sofrem menor comprometimento ao passar dos anos (Salthouse, 1991; Baddeley, Eysenck, & Anderson, 2010; Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
A memória sensorial não apresenta evidências científicas que caracterizam modificação severas associadas ao envelhecimento, mostrando assim ser um processo relativamente estável ao longo do tempo (Craik & Jennings, 1992). A memória de curto prazo é uma capacidade cognitiva que também aparenta não apresentar grandes diferenças nas pontuações das provas realizadas por adultos jovens e idosos, demonstrando que ela é um tipo de memória pouco influenciada pelo processo de envelhecimento normal. Estudos mais atuais corroboram que estes achados, porém evidenciam que a estabilidade deste processo só se mantem para provas verbais (por exemplo, recordação de uma lista de digitos), já que são observados diminuição das pontuações, associadas ao envelhecimento, de provas de memória de curto prazo com contéudo retido visualmente (Floden, 2000).
26 Extensa revisão da literatura apresentada em Park e Schwarz (2002) revela que a memória de longo prazo é a mais afetada pelo envelhecimento normal. São registradosdéficits relacionados à idade na memória declarativa mais severos do que os relatados na memória não-declarativa. Uma possível explicação para isso, pode ser o fato de que o envelhecimento afeta de forma desigual os distintos substratos neurais característicos de cada uma. No caso da memória declarativa, diversas regiões essenciais ao seu processamento são mais sensíveis ao envelhecimento normal e patológico do que outras áreas neuroanatômicas, principalmente as subcorticais, associadas com o processamento implícito (Birren & Schaie, 2006). Um exemplo de estrutura bastante vulnerável ao envelhecimento e que está relacionado a memória declarativa é a região do LTM, que engloba o hipocampo e áreas adjacentes como o córtex perirrinal, entorrinal, e parahipocampal (Dickerson & Eichenbaum, 2010; Wilson, Gallagher, Eichenbaum, & Tanila, 2006).
O LTM contribui no processamento da memória declarativa para fatos e eventos, sendo amplamente difundido o conceito de que déficits relacionados ao envelhecimento são mais acentuados para recordação de eventos e fatos particulares, processamento episódico, do que para recordação de eventos e fatos gerais, memória semântica (Craik & Rose, 2012). Inclusive, a memória semântica está entre os sistemas mais estáveis, podendo ser mantida por toda a vida, uma vez que é considerada um tipo de inteligência “cristalizada”, pois reflete o acúmulo de informações adquiridas ao longo do tempo, sendo relativamente impermeável aos efeitos negativos do envelhecimento normal ou patológico leve (Malloy-Diniz, Fuentes, & Cosenza, 2013).
Sendo o hipocampo uma estrutura que dá suporte para a formação, organização, integração e recordação de informações ricas em detalhes e seus distintos contextos, é provável que tais processos sofram comprometimento, isso porque essa estrutura corticalatrofia com o passar dos anos (Bishop et al., 2010; Craik & Rose, 2012; Dickerson & Eichenbaum, 2010; Fraser et al., 2015; Wilson et al., 2006). Além disso, sabe-se que outra estrutura severamente afetada pelo envelhecimento é o córtex frontal, que está associado a aspectos mais estratégicos envolvidos na codificação e recuperação das memórias, principalmente, episódicas (Craik & Rose, 2012; Isingrini & Taconnat, 2008; Piolino et al., 2010).
2.4.Envelhecimento e memória episódica