GT 03 – Ruralidades e Meio Ambiente
A construção de um rural ressignificado por meio do sistema de produção agroflorestal e da participação da mulher camponesa
Regiane Fonini Fluck
1Alfio Brandenburg
2Resumo
O artigo trata do mundo rural e os sujeitos que têm atuado em propostas ecológicas de transformação e ressignificação do rural. Assim, faz um diálogo entre a literatura e uma experiência de pesquisa com os sistemas agroflorestais. Inicia introduzindo a questão do rural moderno e do rural socioambiental; faz um apanhado do contexto socioambiental da região pesquisada; em seguida trata da agrofloresta e a questão alimentar; e por fim mostra o papel da mulher como sujeito da transformação do rural.
Palavras-chaves: Agroecologia; Agrofloresta; Mulheres camponesas.
INTRODUÇÃO
O objeto de análise deste texto são as mudanças que o rural tem passado num processo de ressignificação em que há o acentuado papel de atores dedicados à questão ecológica/ ambiental. Aqui destaca-se a produção de alimentos no sistema agroflorestal.
Problematiza-se sobre como a introdução desse sistema tem acentuada importância na transformação das relações com o ambiente e entre as pessoas. Desta maneira, o presente artigo busca fazer uma discussão com a literatura dos principais achados de pesquisa realizada em 2012
3, destacando a discussão entre conservação e preservação ambiental, a relação das pessoas com a natureza e com o alimento, as estratégias adotadas que marcam uma mistura entre moderno e tradicional e, o papel das mulheres na construção de um projeto de futuro ecológico.
1Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR (2012). Doutoranda em Sociologia/UFPR.
2 Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP (1997) e Pós-doutor pela Universidade de Paris X.
Professor titular do Departamento de Ciências Sociais da UFPR. [email protected]
3 Este artigo parte de um olhar revisitado à pesquisa de dissertação de mestrado defendida pela autora no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Meio Ambiente da Universidade Federal do Paraná, em 2012, sob o título: Agrofloresta e Alimentação: estratégias de adaptação de um grupo quilombola em Barra do Turvo-SP.
Passagem do rural moderno ao rural ressignificado
Retomando Karl Marx, ele dizia que “o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza [...] Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza”
(MARX, 1987, p.202). Assim, o trabalho é a atividade pela qual o ser humano transforma a si próprio e ao mundo, ligado diretamente às forças produtivas, aos objetos de trabalhos e aos meios de produção, formando assim a conexão entre homem e natureza. No caso aqui apresentado, o trabalho na terra, na agricultura ou extrativismo, confere esta relação do ser humano com o ambiente natural de onde também saíam os seus meios de produção. De acordo com Foladori (1997) a teoria marxiana atribuía às relações de produção no capitalismo a causa principal do distanciamento do ser humano da natureza, o que por sua vez implicava uma utilização classista dos recursos naturais e um esbanjamento irracional do mundo natural. Beck (2011) corrobora essa explicação, pois afirma que a natureza foi absorvida pelo sistema industrial e sua transformação em algo objetivado teve com o propósito de subjuga-la e explora- la. No meio rural, a industrialização e a modernização no campo, assim como a influência da sociedade globalizada e da modernidade, são as principais questões relacionadas à separação entre ser humano e natureza.
Em função de uma lógica de desenvolvimento voltada a uma minoria, de acordo com Polanyi (1980) houve a destruição de sistemas sociais e culturais enraizados em várias comunidades camponesas. Neste sentido, há um confronto entre duas racionalidades, a hegemônica que é a voltada para o mercado e que desmantela as formas genuínas de viver e se relacionar com o ambiente, e outra, não hegemônica, baseada numa racionalidade substantiva que visava proteger os grupos sociais.
No Brasil, o modelo de produção baseado na Revolução Verde tornou-se instrumento de fragilização e expropriação do meio rural e da agricultura familiar, de acordo com Almeida (2002), por meio de um processo de desqualificação das formas tradicionais de manejo dos recursos naturais, que passaram a ser associadas ao atraso, à improdutividade, à indolência, ao parasitismo e à falta de conhecimentos, desintegrando o tecido social (POLANYI, 1980).
Mais recentemente houve uma inversão dessa lógica, em que o mundo rural tem sido associado à manutenção das tradições e da cultura genuína, ao mesmo tempo que vem recebendo novas atribuições, como espaço de preservação da natureza e da paisagem natural, passando para um rural socioambiental. Também é o local onde resistem os laços sociais e a manutenção do tecido social.
Este rural socioambiental retoma a importância da questão ambiental e a valorização da natureza como patrimônio da sociedade, fazendo a crítica aos processos de modernização da agricultura. Desta forma, a sociedade passa a repensar o lugar que o rural possui, em que determinados aspectos do tradicional são resgatados e valorizados no sentido de buscar uma relação com a natureza. Assim também, neste rural procura-se produzir os alimentos de outra forma, dentro de uma perspectiva que associa técnicas modernas e estilos de vida tradicional. A saúde passa a ser central nessa reconstituição do rural; não apenas nas escolhas alimentares, mas também a saúde do ambiente em que se vive (água limpa, ar limpo, etc.), donde se articulam as questões ambientais, com o cuidado com a água, a preservação de áreas, que cada vez mais toma importância para a sociedade.
Assim, há uma percepção positiva sobre o rural como detentor de uma melhor
qualidade de vida devido a intensa relação com o ambiente e pelo aprofundamento de relações
sociais mais pessoais, tidas como predominantes entre os habitantes do campo (WANDERLEY,
2001). Nesta nova visão de rural, percebe-se que são os agricultores e agricultoras familiares
que dão vida às áreas rurais e estão no centro de questões fundamentais postas para a sociedade
brasileira atualmente, como a preservação do ambiente natural, a manutenção da quantidade e
qualidade dos alimentos, entre outros aspectos relacionados à qualidade de vida (WANDERLEY, 2009). Nesse sentido, as figuras do agricultor e da agricultora são centrais na constituição do rural socioambiental, pois são eles que estão, vivem e produzem no rural. A eles é associada a ideia de rural e não ao grande proprietário que é visto como o empreendedor e que apenas gerencia a terra.
Wanderley (2001) descreve o rural como aquele que não está isolado, mas que mantém particularidades históricas, sociais, culturais e ecológicas, integrado ao conjunto da sociedade brasileira, mas que não pode ser generalizado. De acordo com a autora, existe uma inter-relação entre o rural e o urbano. No entanto o rural continua sendo um espaço específico e diferenciado, entendimento reforçado pelas diferenças significativas nas representações sociais dos espaços rurais e urbanos, que têm repercussão direta sobre as identidades sociais, os direitos e as posições sociais de indivíduos e grupos (WANDERLEY, 2001). O rural estão é visto como um sistema vivo que passa por um processo de recomposição no qual a fronteira entre rural- urbano é cada vez mais tênue e o componente socioambiental torna-se mais relevante. Além disso, é também o espaço onde resistem as singularidades de modos de vida das populações rurais (WANDERLEY, 2001).
Neste processo de ressignificação do rural e em resposta ao neoliberalismo, à transformação da terra e do alimento em mercadorias e à racionalidade econômica estrita, começaram a surgir diversos contra movimentos de oposição à lógica hegemônica de produção e consumo de alimentos. Esses movimentos contra-hegemônicos surgiram com propostas alternativas de recuperar formas de produção e de relação com a natureza, num processo de revalorização o rural associado ao bem-viver, ao lazer, a um novo estilo de vida voltado para a sustentabilidade, bem como um rural patrimônio da sociedade e sinônimo de preservação dos recursos naturais e da paisagem natural. Esses movimentos contra-hegemônicos também marcam um reencontro com o rural camponês em que, segundo Chayanov, o objetivo da unidade camponesa era orientado por um equilíbrio entre produção e consumo voltado ao atendimento das necessidades familiares.
A agroecologia enquanto ciência, prática, movimento social e projeto político atende às demandas de um rural socioambiental ao se configurar enquanto um projeto de futuro ecológico. Trata-se de um projeto de contraposição ao modelo hegemônico modernizador do mundo rural formulado para o agronegócio, visto como detentor do progresso e primordial para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil (WANDERLEY, 2009). Mas também é um projeto que busca reafirmar a importância do protagonismo dos agricultores e agricultoras numa proposta de diálogo de saberes técnicos-científicos e genuínos-populares. A construção deste projeto a partir dos princípios da agroecologia inclui a busca por autonomia por meio da resistência à dominação do modo hegemônico de produção e da ampliação do domínio geral sobre as suas atividades, bem como a produção para o autoconsumo e das relações de troca e reciprocidade.
Contexto socioambiental e as transformações do rural na região do estudo
O universo da pesquisa usada como base para a discussão deste artigo foi o bairro de remanescentes de quilombos Terra Seca, situado em Barra do Turvo, São Paulo, sudeste brasileiro, com mulheres associadas à Cooperafloresta
4conhecida por trabalhar com o sistema agroflorestal com mais de 100 famílias há cerca de 20 anos. A entrada no projeto ecológico da agroecologia na comunidade estudada se deu por meio do sistema agroflorestal desde a década de 1990, por meio da Cooperafloresta que tem por objetivo promover a multiplicação dos sistemas agroflorestais baseados na estrutura, dinâmica e biodiversidade dos sistemas naturais já presentes na região (COOPERAFLORESTA, 2011).
4 Associação de Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo e Adrianópolis
As famílias desta comunidade viviam há poucos anos atrás apenas com os mínimos vitais (satisfação das necessidades básicas, como a alimentação, apenas para sustentar a vida) e mínimo sociais (desenvolvimento de relações culturais com o meio, técnicas, organização para obter os itens básicos limitada à sobrevivência do grupo), em que com menos recursos de subsistência e de organização social a vida não seria possível (CÂNDIDO, 2010).
Foi por meio de áreas conquistadas em meio à floresta que essas populações sobreviveram ao longo do tempo, extraindo os produtos da floresta e praticando a agricultura tradicional, de tal forma que havia um ajuste ecológico, havia a complementação das atividades do agricultor em relação à natureza, não predatória, para a garantia dos mínimos vitais e sociais (CÂNDIDO, 2010).
A pesquisa realizada por Fonini (2012) mostra que por meio da apresentação do contexto em que está inserido o universo da pesquisa já é possível perceber um repertório de obstáculos à reprodução social dos grupos que vivem na região do Vale do Ribeira. As condições histórico-sociais e naturais do Vale do Ribeira possibilitam compreender as formas de apropriação da natureza e o desenvolvimento de técnicas e práticas como estratégias que permitiram a sobrevivência e adaptação das famílias de agricultores às condições do meio.
Observada sob o ponto de vista da paisagem natural, a região do Vale do Ribeira caracteriza-se por uma grande riqueza natural contrastada às áreas devastadas pela extração de calcário, pelas monoculturas de Pinus sp, Eucalyptus sp, e de banana, além de áreas de pastagem de gado que tomam conta da paisagem. Do ponto de vista sociocultural, a região possui grande riqueza, pois habitam o Vale do Ribeira homens e mulheres agricultores familiares, camponeses, remanescentes de quilombos, comunidades de pescadores artesanais, caiçaras, assentados da reforma agrária, povos indígenas entre outros que sobrevivem do extrativismo ou da agricultura, constituindo uma diversidade cultural raramente encontrada em locais tão próximos de regiões desenvolvidas (LINO, 1992 apud ALVES, 2007). Por outro lado, o Vale do Ribeira também é conhecido pelos baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e pelos parâmetros socioeconômicos e demográficos bem distantes da realidade de outros municípios mais desenvolvidos.
Disso resulta que há atualmente nessa região um rural heterogêneo em que coexistem o capitalista representado principalmente pelas grandes indústrias e pelo agronegócio e os agricultores e agricultoras familiares e camponeses, em geral do rural profundo.
A diversidade cultural do Vale do Ribeira guarda profunda interligação com a diversidade ecológica relacionada à necessidade de adaptação do ser humano aos diferentes ecossistemas, assim como afirma Cândido (2010, p.28) ”de tal forma vai o meio se tornando cada vez mais reflexo da ação do homem na dimensão do tempo”. Ao longo do tempo as comunidades tradicionais que ali viveram ajudaram a preservar a Mata Atlântica. Com recursos baseados nas tecnologias sociais que desenvolveram para manutenção da vida, esses grupos aprenderam a se relacionar com a natureza, estabelecendo uma intensa ligação com o ambiente natural. Os recursos técnicos utilizados por estas populações não se aproximavam em nada às modernas tecnologias utilizadas em outras áreas onde a agricultura capitalista se configurou.
A modernização da agricultura, no entanto, não obteve o mesmo alcance no Vale do Ribeira como em outras regiões do país. A introdução da mecanização e uso intensivo de agrotóxicos, no processo conhecido como Revolução Verde, introduzida na década de 1970 no Brasil, transformou o modelo de produção, orientado à produção em larga escala por uma racionalidade instrumental com acentuada valorização dos aspectos econômicos de curto prazo.
Dependente de um aparato industrial, essa racionalidade instrumental não leva em consideração os saberes genuínos produzidos pelos agricultores camponeses. De acordo com Navarro este processo de mudança vivido mundialmente “rompeu radicalmente com o passado ao integrar fortemente as famílias rurais a novas formas de racionalidade produtiva, mercantilizando gradualmente a vida social e, em lento processo histórico, quebrando a relativa autonomia setorial que em outros tempos a agricultura teria experimentado” (NAVARRO, 2001, p.84).
Com a modernização da agricultura a relação com a natureza passa para um
padrão não apenas de exploração, mas de intervenção na natureza, caminhando no sentido de
controlar, dominar, reproduzir e substituir a natureza. Na medida em que se dá a modernização há um processo de mudança técnica e cultural e o esvaziamento do rural e exclusão da pequena propriedade. É a emergência de um rural moderno.
No entanto, razões históricas, dificuldades de acesso e condições naturais adversas às atividades econômicas garantiram um relativo isolamento do Vale do Ribeira e a preservação dos seus recursos naturais (HOGAN et.al., 1999), em que as comunidades do Vale do Ribeira passaram ao largo do intensivo processo de modernização ocorrido no país, particularmente em São Paulo. Estas são algumas das razões pelas quais essa região conseguiu preservar grande parte do seu patrimônio natural e social. Igualmente, o relevo bastante acentuado desta região favoreceu a preservação dos remanescentes florestais, pois ali se desenvolveu um tipo de agricultura que visava principalmente à produção para subsistência.
Estas influências sofridas no Vale do Ribeira, refletidos no bairro Terra Seca, demarcam o histórico de invisibilidade perante o Estado que também restringia a vida das famílias. O isolamento geográfico por sua vez influenciava no acesso a itens básicos, como roupas, calçados, mantimentos em geral e também no acesso aos serviços públicos, como saúde e assistência social. Por outro lado, a formação dos quilombos e a cultura prevalecida ali fortaleciam os laços e as relações de entreajuda que figuram até hoje. Antonio Cândido (2010) afirma que graças ao povoamento disperso, em que as moradias principais eram no sertão, houve a manutenção de uma economia de subsistência, conforme também observamos na comunidade Terra Seca.
Além disso, a região do Vale do Ribeira, especialmente a porção paulista, despertou a atenção nacional e internacional desencadeada na criação de Unidades de Conservação (UCs), pois concentra o maior remanescente de Mata Atlântica do país e abriga inúmeras espécies vegetais e animais algumas em processo de extinção. A criação das UCs visava preservar a diversidade ecológica da região, no entanto, deflagrou inúmeros conflitos entre a população tradicional e as leis ambientais. De acordo com Brandenburg, Ferreira e Santos (2004), estas áreas de preservação ambiental afetam diretamente os interesses da população nelas inserida, em especial a reprodução social dos agricultores e agricultoras familiares. Em contraposição ao desenvolvimento rural que contemple as necessidades das populações locais, as UCs acabaram gerando conflitos de uso dos recursos e de significados sobre o que é a preservação da natureza, além de se tornar um ambiente rural gerido por mecanismos de fiscalização e repressão (BRANDENBURG, FERREIRA e SANTOS, 2004).
Ademais, forçam as famílias a buscarem alternativas de sobrevivência, que nos casos mais graves, acabam optando por deixar suas propriedades e de viver da agricultura, gerando um contingente de pessoas vivendo nas periferias das grandes cidades.
Desta forma, com a criação das UCs, a preservação ambiental contrapôs-se às práticas tradicionais de agricultura, o que impactou profundamente no modo de vida das comunidades rurais do Vale do Ribeira ao gerar um conflito entre desenvolvimento e preservação ambiental. De acordo com Hogan et.al. (1999, p.388) a situação expressa no estado de São Paulo “o típico confronto Norte-Sul em torno da questão do desenvolvimento sustentável”, pois a discussão sobre preservação ambiental surge posteriormente ao desenvolvimento industrial baseado na extração e devastação ambiental de outras regiões, sucumbindo todo o discurso de preservação ambiental a uma região menos desenvolvida.
A Cooperafloresta, segundo contam as agricultoras entrevistadas, participou
ativamente das mediações dos conflitos entre os órgãos ambientais e as comunidades de
agricultores, visto que era imperativo que houvesse uma alternativa de produção frente às
imposições ambientais. Com o passar dos anos e por meio de muita discussão com os órgãos
ambientais, juntamente com o reconhecimento dos povos tradicionais quilombolas, houve a
passagem da área de Parque Estadual da UC para Reserva de Desenvolvimento Sustentável
(RDS), que permite a agricultura junto às áreas de preservação ambiental, e assim a agrofloresta
passou a ser vista como benéfica às áreas de preservação.
A produção agroflorestal e a questão alimentar
Na agrofloresta, a partir da natureza sabiamente manejada pelos conhecimentos genuínos dos agricultores e agricultoras aliado ao conhecimento técnico científico sobre o plantio estratificado e outras técnicas, realiza-se um verdadeiro processo de diálogo de saberes.
Esse diálogo de saberes limita o domínio da racionalidade instrumental e valoriza o conhecimento ecológico (BRANDENBURG, LAMINE e DAROLT, 2015). De acordo com Steenbock e Vezzani:
Fazer agrofloresta é manter um diálogo constante com o ambiente natural, conversando com seus processos e relações, perguntando o que é mais adequado ao seu fluxo e, ao trazer sua contribuição a este fluxo, receber dele a produção de alimentos. Assim, fazer agrofloresta é, também, educar-se ambientalmente (STEENBOCK e VEZZANI, 2013, p.09).
Para Götsch (1995 apud STEENBOCK e VEZZANI, 2013, p.08), “os sistemas agroflorestais, conduzidos sob o fundamento agroecológico, transcendem qualquer modelo pronto e sugerem sustentabilidade por partir de conceitos básicos fundamentais, aproveitando os conhecimentos locais e desenhando sistemas adaptados para o potencial natural do lugar”.
Com o sistema agroflorestal coordenado pela Cooperafloresta na comunidade foram introduzidas mudanças na forma de produzir, de se relacionar em grupo e de se relacionar com o ambiente natural, como estratégia e alternativa de produção e como forma de resistência, de organização, cooperação e solidariedade. A influência da produção agroflorestal retrata bem a multifuncionalidade da agricultura familiar e do rural (MALUF, 2003), visto que permitiu a reprodução socioeconômica das famílias, ao gerar renda por meio da comercialização dos produtos em circuitos curtos e em programas governamentais, bem como por iniciativas que integram o jovem e a mulher na atividade agroflorestal, por exemplo, por meio de cursos para os jovens mudando a concepção sobre o rural como meio de vida; permitiu também a manutenção do tecido social ao incorporar os mutirões como parte da prática agroflorestal, prática esta que tem origem antiga nas comunidades quilombolas onde a ajuda mútua é essencial para a manutenção dos laços comunitários, reforçando as relações de solidariedade e também a permanência da família no meio rural, além de fazer o enfrentamento dos imperativos da legislação ambiental; e contribuiu para a segurança alimentar e nutricional ao oferecer para as famílias e para os consumidores alimentos seguros, livres de agrotóxicos, saudáveis que revelam a diversidade cultural e ecológica que é possível obter por meio das agroflorestas, além de resgatar hábitos e práticas alimentares antigas e a relação entre ser humano e natureza.
A preservação do ambiente natural e da paisagem é um destaque da produção agroflorestal, à medida que o sistema é pensado para incorporar as especificidades do local e integrar a ele árvores e plantas alimentícias, resultando em grande diversidade de plantas.
Os mutirões em especial são vistos como uma das expressões de solidariedade de grande importância caracterizada pela construção de redes comunitárias, potencializando essas relações não somente entre as pessoas e grupos, mas também a relação ser humano e natureza (RODRIGUES; FERREIRA, 2010).
A manutenção do tecido social também é perceptível no meio rural por meio da importância dada às trocas e dádivas, especialmente de alimentos, entre a comunidade.
Expressam-se desde estratégias adaptativas de sobrevivência à relação de cuidado com o outro.
Assim, as relações em comunidade têm em sua base a ajuda mútua, a solidariedade e a amizade,
reforçada pelos laços de parentesco e compadrio. Estes sentimentos também estão presentes no
uso compartilhado de equipamentos, instrumentos e locais de preparo, bem como na
distribuição de alimentos que são regidos por relações, normas e valores sociais (CAMBUY,
2011). As trocas e reciprocidade em torno do alimento foram frequentemente observadas na
comunidade Terra Seca e vão desde as sementes e mudas ao prato pronto. A comida nesses
casos se confunde entre meio e fim, ou seja, ao mesmo tempo em que surge para nutrir o corpo,
ela exalta os laços sociais como elemento edificante das relações de parentesco, compadrio e amizade.
A vinculação com a Cooperafloresta está relacionada a múltiplos fatores, ao permitir que as agricultoras e os agricultores reconstruam suas vidas nos seus diversos aspectos – econômicos, políticos, sociais, culturais, ambientais, adquirindo uma lógica que não se restringe à dimensão econômica da produção (RODRIGUES; FERREIRA, 2010). De acordo com Poubel (2006), há uma mudança na percepção ambiental da produção após a entrada na associação Cooperafloresta. Na pesquisa de Fonini (2012) e de Silva (2011), várias falas das agricultoras e dos agricultores mostraram que ao longo do tempo a produção agroflorestal adquiriu outra conotação, além da econômica, como a de reconexão com a natureza e com o divino. A agrofloresta além de uma alternativa de produção e geração de renda que conserva o meio ambiente se tornou “uma nova razão e sentido para a vida” (COOPERAFLORESTA, 2011).
Especificamente o estudo das práticas alimentares realizada no estudo (FONINI, 2012), possibilitam visualizar transformações na comunidade que podem ser extrapoladas para a compreensão da miscigenação entre ambiente rural e urbano, entre o tradicional e o moderno. A alimentação permite destacar identidades sociais e envolve sociabilidades que demarcam relações de gênero, hierarquias e status social, circuitos de reciprocidade e solidariedade.
Parte-se do entendimento que o ato de comer expressa as diversas representações em torno do alimento, mas também em torno das relações do ser humano entre si e com o ambiente. Cândido (2010) afirma que em nenhuma outra necessidade básica é possível visualizar tão bem a relação entre os meios de subsistência e as reações culturais desenvolvidas, visto que a fome se caracteriza por exigir continuidade e satisfação constante, além de requerer uma organização social mínima. Assim afirma o autor,
A alimentação ilustra o caráter de sequência ininterrupta, de continuidade, que há nas relações de grupo com o meio. Ela é de certo modo um vínculo entre ambos, um dos fatores da sua solidariedade profunda e, na medida em que consiste em uma incorporação ao homem dos elementos extraídos da natureza, é o seu primeiro e mais constante mediador, lógica e por certo historicamente anterior à técnica (CÂNDIDO, 2010, p. 33, grifo nosso).
Os relatos feitos do passado se não eram de fome e de insegurança alimentar, eram sobre os mínimos vitais. A partir da introdução da agrofloresta as famílias estudadas começaram a ter acesso a uma maior variedade de alimentos. A diversidade de produção nas agroflorestas tem sido o grande atrativo e de segurança alimentar e nutricional das famílias em relação ao autoconsumo, mas também à comercialização de seus produtos. Para estas famílias, a produção para o autoconsumo era entendida como mais importante que a comercialização, pois possibilita a manutenção social, cultural e física dos indivíduos (FONINI, 2012).
Constantin (2005), afirma que o autoconsumo foi o principal fator apontado para a ocorrência e permanência dos quintais agroflorestais por um grupo de agricultores de Santa Catarina. Ademais o interesse pela atividade, como parte de suas tradições culturais, com base no conhecimento local e a qualidade dos alimentos da mesma forma estimularam a permanência das famílias neste sistema produtivo. Como afirmam Gazolla e Schneider (2007), a produção voltada para o consumo familiar é relevante na autonomia dos grupos, na sociabilidade comunitária e familiar e nas trocas de conhecimentos entre as famílias, contribuindo para o alcance da segurança alimentar e nutricional das famílias. Por outro lado, não se pode deixar de considerar a importância da comercialização dos alimentos como fonte de renda.
Em se tratando das estratégias utilizadas na alimentação, evidencia-se um
hibridismo entre moderno e antigo, o alimento da roça em contraposição ao industrializado,
percebeu-se na comunidade estudada uma mistura entre o que se produz e o que se compra,
entre o alimento fresco e o industrializado, entre comidas novas e outras antigas.
Observou-se na comunidade estudada que a tendência ao maior o consumo de alimentos industrializados está relacionado ao seu menor preço. O aumento da renda, a maior frequência de recebimento do pagamento (mensal) e a proximidade ao mercado local também influenciaram no acesso aos alimentos industrializados. A menor produção dos alimentos caseiros também recebeu influência da facilidade de compra oposta a dificuldade de produção.
Em alguns casos os alimentos industrializados são preferidos aos alimentos caseiros, como é o caso do arroz, ao qual além da questão do custo de produção é preciso tomar em conta as mudanças nas preferências do paladar. O componente do gosto pode ser associado à mudança de hábitos alimentares visto à maior palatabilidade dos alimentos industrializados, geralmente refinados, descascados ou com maior teor de gordura e açúcar que vão aos poucos tomando conta do paladar dos indivíduos, fazendo-os rejeitar os alimentos tradicionais, caseiros.
Percebeu-se assim que ao incorporar outros alimentos vindos do mercado as famílias tentavam se adaptar frente às dificuldades econômicas e produtivas. Essa discussão está contida no debate mais amplo sobre direito humano a alimentação adequada, no seu componente de acessibilidade física e financeira e da qualidade dos alimentos. Por outro lado, as famílias buscavam também um maior contato com a modernidade, influência da sociedade englobante. De acordo com Amon e Menasche (2008), a adoção ao produto industrializado, símbolo de modernidade, revela o desejo de estabelecer relações de identidade com uma nova época.
Além disso, a incorporação de produtos industrializados mostra que houve mudança no meio rural, em que se mantêm as singularidades do rural, mas agora adaptado e integrado ao urbano. De acordo com Cambuy (2011), a introdução de alimentos industrializados também representa também um distanciamento simbólico do meio rural preferido pelos mais novos, mas negado pelos mais velhos, demonstrando um conflito entre as gerações.
Desse diálogo entre saber técnico e saber genuíno no sistema agroflorestal, entre moderno e tradicional pelo contato com outras culturas e influências e, entre os jovens e os mais antigos, se originam e se ressignificam os diferentes alimentos, preparações e sabores que compõem o laço cultural e histórico construído entre o ser humano e o ambiente natural com o qual se relaciona.
Além disso, Brandenburg (2011) afirma que com a recomposição do rural voltado para a questão ambiental, começam a surgir novos sujeitos que questionam o paradigma dominante e “constroem relações sociais a partir de um projeto de vida em que natureza e cultura não se opõem” (BRANDENBURG, 2011, p. 128).
Os sujeitos do rural: destaque à contribuição da mulher
Na pesquisa realizada por Fonini (2012), observou-se que o sistema agroflorestal oferece maior visibilidade ao papel representado pelas mulheres camponesas nas transformações ocorridas no rural. A entrada das mulheres enquanto responsáveis pela agrofloresta e pela família se revela como estratégia de adaptação e de sobrevivência, mas também de busca por autonomia e transformação, principalmente porque em vários relatos foi constatado a falta de apoio dos homens da família e da comunidade. Desta forma, estas mulheres constroem a si mesmas e se reafirmam enquanto detentoras do processo de transformação do alimento em comida, evidenciando seu papel central na perpetuação social e biológica da família.
Como no sistema agroflorestal há pouca dependência de tecnologias e o
trabalho na agrofloresta é voltado ao cuidado, ao manejo intensivo, à percepção do ambiente e
das necessidades deste, as mulheres têm papel fundamental na manutenção das agroflorestas e
estas na construção de autonomia dessas mulheres. O acesso a renda, sem ter que depender do
marido, e a escolha do que vai ser comprado, revela um maior grau de independência
econômica dessas mulheres, que se reflete positivamente sobre a vida das famílias.
São as mulheres que estão à frente das ações de trocas, doações e produção para o autoconsumo (FONINI, 2012), que são algumas atividades corriqueiras das mulheres rurais, cujo significado econômico nem sempre é levado em conta (SOF, 2016) . Elas são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, um trabalho invisível, gratuito e repetitivo, mas fundamental para o bem-estar das pessoas.
Vários trabalhos evidenciam que em sua maioria o espaço da mulher é tido como dentro da casa, e suas tarefas são associadas a serviços leves, como cuidar dos animais do terreiro, limpar a casa, cuidar da horta, dos filhos, da família. O espaço do homem já é tido como mais duro e por isso mais pesado. É a roça o lugar prioritariamente masculino. Mesmo que as mulheres atuem em ambos os espaços, seu serviço é visto como minoritário ao do homem. Mesmo os alimentos, quando produzidos pelo homem ou pela mulher tem seu valor associado a esta hierarquização do trabalho. As mulheres da pesquisa buscam romper com essa lógica, mesmo que inseridas em um contexto em que a lógica masculina predomina (FONINI, 2012).
Nesse sentido, infelizmente, só é possível dizer que a entrada da agroecologia e seus princípios de cuidado com a natureza e com outro tenham mudado em parte as relações de poder e a divisão sexual do trabalho dentro da comunidade estudada. A mulher continua responsável pelas tarefas doméstica, pela alimentação da família, pelo cuidado com os filhos, mas divide com o marido a organização do plantio agroflorestal.
Por outro lado, é importante destacar que, conforme afirma Ramos (2007), o predomínio feminino no âmbito da cozinha faz preservar os saberes e as práticas alimentares, dos quais a mulher é tida como guardiã. Os estudos que tem tocado a temática das mulheres têm demonstrado que as mulheres camponesas possuem papéis importantes como guardiãs dos sistemas culinários, da cultura alimentar, dos recursos naturais, das relações sociais necessárias à manutenção do tecido social e possuem um papel ativo na reprodução social de si e do grupo a que se integram.
Elas estão mais presentes nas discussões que envolvem as questões de alimentação, saúde, biodiversidade e segurança alimentar, temas historicamente atribuídos às mulheres (SILIPRANDI, 2015). As relações sociais em que a mulher está envolvida demonstram, por assim dizer, uma maior preocupação com a família, com as pessoas queridas, com a comunidade e com os laços estabelecidos onde há troca, cuidado mútuo, relações de proximidade, de parentesco e/ou de compadrio, no sentido de uma ética do cuidado. Além disso, elas possuem conhecimento prático aliado aos saberes tradicionais, genuínos, conhecem as potencialidades produtivas, a capacidade de preservação do ambiente natural e dos recursos naturais e as formas de fazer a organização da produção; assim, elas exercem importante papel na reprodução socioeconômica, na manutenção do tecido social, na preservação do ambiente natural e da paisagem, na promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional, ou seja, na construção de um futuro sustentável.
De acordo com Siliprandi (2016), as questões que mobilizam as mulheres “são questões de ordem pessoal, familiar, assim como econômicas, políticas e ideológicas. Não são apenas de curto prazo, mas também de projeção de um futuro melhor para todas e todos”.
As mulheres são e querem ser titulares de empreendimentos, presidentes de associações e cooperativas rurais. Participam de feiras, vendem para o poder público, para os programas sociais e para a alimentação escolar. São, como Emma Siliprandi (2015) afirma, sujeitos políticos, atuando nos movimentos, em marchas e em lutas pela terra, pela soberania e segurança alimentar e nutricional, pela questão ambiental e pela saúde.
As mulheres entrevistadas na pesquisa de Fonini (2012), além de exercer seu
trabalho produtivo e reprodutivo, fazem parte das decisões no âmbito das suas agroflorestas, da
associação Cooperafloresta e seu conselho de representantes, da associação de quilombolas, do
comitê da RDS do quilombo Terra Seca e Ribeirão Grande, são líderes de mutirões, são líderes
em igrejas e em comissões pastorais e ainda são educadoras ambientais, ensinando como
funciona o sistema agroflorestal e falando sobre as mudanças na suas vidas e sobre o amor que
desenvolveram em trabalhar debaixo das agroflorestas.
Enquanto para a transformação de ator em sujeito é preciso romper com a dominação, para a mulher transformar-se em sujeito acrescenta-se que esta dominação tem raízes no sistema patriarcal e se reproduz diariamente dentro de casa, nas relações com os filhos, marido, compadres, técnicos, a partir das quais a mulher tem sido frequentemente silenciada, deixada à margem ou tornada invisível. A ideologia patriarcal, a violência de gênero, as relações desiguais de poder e as funções sociais atribuídas somente à mulher vão interferir na construção do projeto de vida das mulheres e no desejo por maior autonomia e pela sua emancipação.
Neste sentido, a necessidade de transpor os conflitos que permeiam a vida das mulheres e assim construir um projeto de vida se inicia com o desejo de serem ouvidas, serem vistas e serem consideradas importantes no processo de resistência e transformação do mundo rural. De acordo com Siliprandi (2015),
Os movimentos agroecológicos brasileiros se colocam hoje num “espectro ideológico” de transformação social, aproximando-se das propostas dos movimentos por ecojustiça. Propõem-se a construir um outro “modo de vida”
em que ganham relevo valores éticos de justiça e equidade social. Por isso são destacadas como importantes as mudanças no relacionamento entre as pessoas não apenas no relacionamento dos seres humanos com o meio natural. É aí que se abre espaço para o questionamento, dentro do ideário agroecológico, das desigualdades de poder existentes entre homens e mulheres no meio rural [...] (SILIPRANDI, 2015, p. 143).
Assim, o projeto de vida agroecológico precisa ser antes de mais nada um projeto de vida emancipador, diferenciado, em que há uma busca pela formulação de alternativas ao sistema hegemônico e no qual os indivíduos sejam sujeitos desse movimento, no qual há um espaço dedicado para a questão da mulher.
A construção da mulher como sujeito de um projeto de vida agroecológico envolve, primeiramente, o reconhecimento e a visibilidade das mulheres e os diversos papéis exercidos por elas. A mulher-sujeito desse projeto ecológico atua a partir de novos modos de pensar em propostas de transformação que abarcam o trabalho, as relações com o homem e com a natureza, a sustentabilidade na agricultura, etc. (SILIPRANDI, 2015).
A emancipação da mulher camponesa por meio de um projeto ecológico requer o compromisso da agroecologia, enquanto movimento social, na obtenção de direitos à mulher, como acesso à educação, saúde, etc.; na libertação das opressões causadas pelas relações de poder, disputa por recursos naturais e meios de produção; na revisão da divisão sexual do trabalho e na criação de relações não autoritárias e de interdependência, pela garantia de maior igualdade nas relações; e na garantia de maior visibilidade, autonomia e valorização da participação das mulheres nas diversas instâncias do movimento. Elas almejam realizar projetos autônomos de vida e desejam que seu trabalho seja reconhecido, assim como afirmam as autoras:
Ao levar em conta todos os componentes do sistema de produção, a Agroecologia tem o potencial de contribuir para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pelas mulheres, considerando-o fundamental para a sustentabilidade do sistema e para a reprodução familiar. Elas reivindicam contribuição para a Agroecologia não configura uma mera ajuda e que, portanto, precisa ser reconhecida e valorizada como trabalho (SCHOTTZ, MARINHAS e CARDOSO, 2015).
Por fim, Emma Siliprandi (2009) é categórica ao afirmar que a Agroecologia
não fará parte de um projeto emancipador se não se ocupar das questões de subordinação das
mulheres agricultoras e, acrescento, se não romper com a linguagem e a cultura
predominantemente masculina no rural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo buscou trazer uma série de mudanças ocorridas no rural em geral e no rural pesquisado em específico, em que se pode afirmar a passagem para a ressignificação do rural e o acentuado papel de sujeitos homens e mulheres dedicados à questão ambiental dentro de um projeto coletivo agroecológico. O sistema agroflorestal apresenta acentuada importância na transformação das relações com o ambiente e entre as pessoas, mas assim como nos demais projetos agroecológicos (e no meio rural em geral), ainda precisa romper com as relações de poder que envolvem homem e mulher.
Ficou evidente que as mulheres têm relevante importância na participação em projetos de longo prazo como na agroecologia e em especial na agrofloresta. Existem diversos estudos que têm demonstrado que o projeto ecológico possibilita maior visibilidade às mulheres, colocando-as em posições de liderança e como guardiãs de sementes, da biodiversidade e do patrimônio alimentar. É preciso reconhecer o papel das mulheres enquanto sujeitos na construção do conhecimento, na prática agroecológica, nos movimentos sociais e de luta e na construção e realização de um projeto de futuro ecológico.
Para finalizar, defende-se que as propostas agroecológicas coloquem em prática
mudanças no relacionamento entre homem e mulher, partindo para relações de
interdependência, não autoritárias, de igualdade e de reconhecimento da importância da
participação das mulheres na transformação do rural.
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