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Gauleses Irredutíveis causos e atitudes do rock gaúcho

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Academic year: 2021

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CAPA E PROJETO GRÁFICO Nik FOTOS DA CAPA Marina Camargo EDIÇÃO DE FOTOGRAFIAS Guilherme Imhoff

Suporte técnico: Índice Fotojornalismo

EQUIPE DE PRODUÇÃO Sarah Bernardes Goulart Daniele Alves

Pedro Marques do Nascimento Marcelo Esperança Xavier Sergio Deboni

Francisco Bretanha Juliano Meira Guilherme Behs Angelo Kirst Adami Talitha Freitas

Tiago Lobennwein Lazeri

CRÉDITO DAS FOTOS André Furtado Assis Hoffmann Carlos Gerbase Carlos Tatsch Clóvis Dariano Denise Gadelha Dulce Helfer Eurico Salis Everton Ballardin Fernanda Chemale Fernando Seixas

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Giovanna Tonello Joselito Araújo Juliana Morais

Manuel Acosta Junior Marcelo Nunes Paulo Ricardo Rafael Chaves Ruy de Campos Tamires Kopp Talitha Freitas Vinicius Silva

E arquivos pessoais dos entrevistados

CRÉDITO DA SEÇÃO: AINDA IRREDUTÍVEIS Concepção: Daniela Ribeiro

Projeto Gráfico: Juliano Medina

ATIVAÇÃO DIGITAL Agência Preza

facebook.com/gaulesesirredutiveis twitter.com/gauleses

CRÉDITO DA SEÇÃO: RETRATOS CLÁSSICOS DO ROCK GAÚCHO Fernanda Chemale

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NOTA DOS AUTORES

As falas deste livro, obtidas através de entrevistas exclusivas, foram editadas a fim de proporcionar maior clareza ao leitor

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© 2012 de Alisson Avila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller

Editor: Rafael Martins Trombetta Produção eletrônica: Maurício Blum

Livro Eletrônico: novembro 2012. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Avila, Alisson

Gauleses Irredutíveis: causos e atitúdes do rock gaúcho / Alisson Avila, Cristiano Bastos, Eduardo Müller. - Porto Alegre : Editora Buqui

Inclui imagens

Tamanho: 22,70 MB; Formato: ePub

Requisitos do Sistema: Adobe Digital Editions 1. Músicos de rock - Rio Grande do Sul - História

2. Rock - Rio Grande do Sul - História I. Bastos, Cristiano. II Müller, Eduardo. III. Título.

01-5084 CDD-781.66098165

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SUMÁRIO

PREFÁCIO APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1 Big-Bang! Modulando a Frequencia CAPÍTULO 2 Entrando Na Raia Toca Aquela Tipologias Descrições Deu Pra Ti Anos 80 CAPÍTULO 3

Minha Vida É Um Palco Iluminado Jailhouse Rock

CAPÍTULO 4

Continuous Play

A Grande Engrenagem CAPÍTULO 5

Morte Por Tesão Estupefações CAPÍTULO 6

Sentimento Rock

Hippie, Punk, Rajneesh Brinquedinhos Barulhentos Simplesmente Fã

Um Lugar do Caralho CAPÍTULO 7

O Dia Que Fui Contaminado Décadafonias

Gauleses e Romanos INDEX!

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CADERNO DE FOTOS

Ainda Irredutíveis

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PREFÁCIO

Não me mate, por favor, enquanto houver uma banda de rock tocando num bar de Porto Alegre para meia dúzia de bêbados solitários. E não me peça, em respeito à alma de Sid Vicious, que eu avalie racionalmente o que significam para a cultura do Rio Grande do Sul os gauleses irredutíveis retratados neste livro. Ninguém ouve rock com o cérebro. Para medir o que fizeram essas bandas – capturadas neste livro com precisão e honestidade incomuns – sugiro a mesma atitude de quem entra num bar quase vazio para assistir ao show mais importante da história do rock’n’roll, que está rolando neste momento, sob a responsabilidade de quatro guris que massacram seus instrumentos e os microfones com a raiva que só os absolutos desconhecidos conseguem transmitir.

É preciso mais que abrir os ouvidos pra compreender esses instantes mágicos: é preciso abrir a garganta para um gole generoso de Jack Daniel’s e escancarar o coração para a dor e o prazer da única música que sobreviverá ao final dos tempos, porque ela acompanha seus fiéis até o túmulo. A leitura destes “causos e atitudes do rock gaúcho” merece uma talagada de bourbon, o que certamente ajudará a compreender as mágicas executadas nas páginas a seguir, que incluem a transformação de bumbos legueros em baterias pinguim, gaitas-ponto em guitarras elétricas e cavalos crioulos em bestas de quatro rodas. Isso sem falar da trans-substanciação da erva mate numa erva galhuda, de origem misteriosa e efeito um pouco diferente do chimarrão.

Este livro também tem algumas verdades sobre a nostalgia. Como Raul Seixas, eu não nego que o sentimento dos anos 70 é bonito, mas toda poesia dos 80 e começo dos 90 onde é que fica? Fica registrada nos depoimentos antológicos que o Alisson, o Cristiano e o Eduardo conseguiram extrair dos músicos, que destilaram essa poesia do pó da estrada, com um alambique suspeito importado do Paraguai. Não espere documentação acima de qualquer suspeita, ordenação cronológica rigorosa e respeitabilidade acadêmica. Isso seria um sacrilégio contra o rock. O que esperar de um livro que tem, entre suas fontes principais, nomes como Gordo Miranda, Edu K. e Júpiter Maçã? Esses caras não inspiram respeito nem no bar da esquina. Os autores de “Gauleses irredutíveis” fizeram a coisa certa: ouviram todos os malucos que encontraram, pagaram algumas cervejas (o que sempre facilita o bom trabalho jornalístico) e fizeram de conta que estavam acreditando nas histórias que surgiam. É claro que uma mentira confirmada por três fontes de confiança – isto é, capazes de ficar de pé – é muito mais interessante que qualquer verdade.

Mas não pensem que eu acuso o livro de fabricar mitos ou criar fantasias. Acredito que tudo o que está escrito é verdade. Acredito que Syd Barret não morreu, se mudou pra Porto Alegre e hoje atende pela alcunha de Plato Dvorak. Acredito que Wander Wildner – até 1983 fã de Ednardo e Alceu Valença - aprendeu a ser punk em duas semanas, imitando Johnny Rotten nos clips dos Sex

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Pistols. Acredito que hoje o Gordo Miranda é júri de calouros num programa de TV chamado “Ídolos”. Acredito que o fantasma de Syd Vicious estava presente no primeiro show dos Replicantes, assim como a alma de John Lennon possuiu o corpo de Flávio Basso no primeiro show dos Cascavelettes e não largou o osso até hoje. O resto pode ser mentira, mas quem se importa?

E agora falando sério: Porto Alegre é um lugar do caralho pra se fazer rock, porque – ao contrário de Londres, Nova Iorque e outros lugares chinelos, em que músicos podem ficar famosos e milionários da noite pro dia - aqui o sujeito vai ralar a vida inteira, vai entrar num monte de roubadas, ser enganado por empresários calhordas, brigar com programadores de rádio que só tocam jabá, vai vomitar no colo da fã mucra demais, vai tocar em amplificadores queimados, escapar de fininho de muitos atraques da polícia e, finalmente, vai descobrir que não ganhou nada além de divertimento e histórias para contar depois.

Graças aos gauleses irredutíveis, aqui estão as histórias. Divirtam-se.

Carlos Gerbase Porto Alegre, 25 de outubro de 2006

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APRESENTAÇÃO

Estimado leitor,

“Gauleses Irredutíveis” é consequência direta de alguns frenéticos, por vezes árduos, mas sobretudo divertidos meses de labuta jornalística... E, mais do que explicar “a grande verdade” sobre o rock gaúcho, entendemos seu conteúdo como um tributo àquilo que julgamos ser o mais importante neste estilo de fazer música e de viver: a diversão, a busca pelo inusitado, pelo lúdico e o juvenil, no melhor sentido que possa ser atribuído a estas palavras.

Nos concentramos em reunir histórias e impressões sobre a música jovem do Rio Grande do Sul, ao invés de tentarmos explicar esta música. Acreditamos que o rock se traduz nas pequenas coisas, e não nos grandes conceitos. Antes de ter virado “arte”, peça de museu ou até mesmo enciclopédia, o rock para nós não é nada além de uma atitude transformadora. É esse status quo que estamos propondo.

As 167 entrevistas que realizamos com músicos, produtores, jornalistas, agitadores e agregados em geral sempre tiveram este viés: mais do que explicar, estamos propondo uma grande fotografia, uma reunião de instantâneos que permitam ao leitor construir seu imaginário sobre o rock e assemelhados na música produzida no Rio Grande do Sul. Essas premissas nos levaram a montar o livro como uma compilação temática de cutups do universo rock. Assim, o que você vai encontrar são relatos e versões sobre a origem de cena, de bandas e músicas, shows, sexo e drogas, discos, mercado fonográfico, imprensa, a relação com a estética do rock...

Se o Rock Gaúcho é efetivamente “diferente” ou “melhor”, também não estamos aqui para provar. Optamos em não nos colocarmos no papel de avaliadores de qualquer incidente que possa ser lido nesse volume. Estamos, sobretudo, fazendo uma referência a todo o imaginário que circunda esse universo, não emitindo julgamentos de cunho pessoal nem moral sobre os fatos narrados.

Todos têm incontáveis histórias para contar. Resolvemos reunir algumas dessas situações e informações, às quais o Rock Gaúcho é bastante prolífico em oferecer, e transformá-las numa boa leitura. Os causos e atitudes que descrevemos aqui são consequência dessa faceta original da cultura rock que tanto interessa a nós e, obviamente a muitos apreciadores, espalhados por todos os cantos. Antes ainda da montoeira de estilos e conceitos, das tralhas enciclopédicas e das verdades absolutistas, o que reunimos é um apanhado de impressões, versões e visões diversas sobre os mesmos assuntos. Talvez porque, muito mais que explicar, queremos sugerir – e talvez aí esteja nossa única pretensão – que os “gauleses” não precisam de uma única verdade. Até porque tudo o que realmente interessa é a experiência pessoal com a música. E é a experiência dessas pessoas que fizeram o Rock Gaúcho que estamos levando até você.

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BIG-BANG!

Glênio Reis: Meu programa na rádio já estava no ar desde os anos 50. E o Enquanto Roda o Disco, nome do meu programa na TV Piratini, foi uma consequência do rádio, onde me comunicava muito com o pessoal universitário. Adaptei minha linguagem pra televisão, fazendo um bloco musical dentro de um programa de variedades. Acho que os anos 60 já estavam começando...

O cenário simulava uma lojinha de discos. Lá, pude entrevistar bandas como Os Gaudérios, um grupo com cantor, acordeão, violão e violino. Eles foram os criadores, os intérpretes da primeira gravação de “Homens de Preto”. E era um grupo que não se vestia de gaudério: usavam as roupas do povoeiro mesmo. Os Gaudérios já tinham uma coisa mais projetada.

Todas as bandas tocavam ao vivo. Só eu dublava, quando me mascarava pra ficar parecido com os criadores das músicas de sucesso.

Julio Furst: Me apresentei com a minha banda, Os Rockets, no programa do Glênio Reis. Eu tocava bateria. Ele foi o primeiro apresentador que reuniu bandas musicais jovens em Porto Alegre, em rádio e televisão, lá por 57. Era transmitido em preto-e-branco, uma coisa meio Ed Sullivan...

Zé do Trompete : Eu comecei no rock. Sempre: rock, jazz... A primeira vez foi em 58, tocando piano. Depois foi percussão, violino... E daí peguei o trompete. E deu pra minha vida.

Sempre fui apaixonado pelo trompete. Tocava tudo. Mas as primeiras músicas que aprendi eram rock. Depois é que veio o jazz, por influência dos meus professores, mestres. Eram todos coroas, jazzistas. Eu os acompanhei porque eram os únicos caras que poderiam me dar algumas dicas de instrumentos de sopro.

Mutuca: Eu tinha nove anos quando vi as pessoas mais velhas dançarem “Rock Around the Clock” na minha casa. A parada do rádio ainda era de música popular, mas, junto a isso, estava acontecendo o primeiro disco de rock: o 78 rotações do Bill Halley.

Eu ouvia em ondas curtas o “Hoje é Dia de Rock”, e ele era o sucesso. No final dos anos 50, o que fazia sucesso era o disco “Tutti Frutti” com o Elvis Presley. Era o que todo mundo tinha.

Mas o rock’n’roll começou por aqui quando o pessoal aprendeu a tocar guitarra... Isso foi lá por 60, 61 com o Zé Roberto, guitarrista dos Cleans... Ele foi o primeiro guitarrista profissional da cidade. Foram os anos das bandas instrumentais de guitarra, estilo Ventures.

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cantava em inglês, era aquela coisa: tirava mais ou menos as letras e mandava ver, porque não tínhamos muito domínio.

Julio Furst: Os conjuntos melódicos eram moda no começo dos anos 60. E os Rockets tinham percussão, vibrafone, guitarra e piano. Tocamos na Sogipa, no tempo em que a sede social era na Alberto Bins... Também fazia parte desse momento gente como Renato e Seu Conjunto, Flamingo, Stardust, Flamboyant, Melódico Mocambo, Norberto Baudaulf... Todas eram bandas de reuniões dançantes.

Mutuca: Já a Jovem Guarda mudou a febre do instrumental pelo cantado: cantar falando de rock. De 60 pra 64, depois do surgimento da Bossa Nova, aconteceu a passagem pra Beatlemania. Foi quando começaram a surgir mais adolescentes fazendo música.

Julio Furst: Nosso conjunto tocava coisas como Bill Halley, Elvis e rocks românticos... Até que estouraram os Beatles – e tudo começou a mudar. A partir daí, as pessoas queriam ouvir coisas mais pesadas.

Glênio Reis: Já o GR Show foi um programa transmitido pela TV Gaúcha. E eu tinha que fazer uma coisa diferente nele. Então, montei o primeiro conjunto daqui a tocar rock misturado com instrumentos de sopro. O nome da banda também era GR Show. Juntava guitarra, teclado, baixo e bateria com um trombone, um sax tenor e um trompete – pra dar o peso. A banda começou servindo de apoio ao programa, mas acabou virando atração.

Na realidade, o conjunto só ficou realmente como eu desejava quando eu consegui trazer o Hermes Aquino e o Cláudio Vera Cruz. Botei os dois a cantar – porque na banda todo mundo cantava. E eles começaram a fazer os arranjos: o Hermes era base e o Cláudio fazia a guitarra solo.

Claudio Levitan: A minha história com a música começou em 65. Nesse ano tive uma banda de rock que se chamava The Bachfools. Faziam parte o Beto e o Vítor Meines, o Juarez Verba e o Marco Aurélio. Tocávamos em bailes... Depois, participamos de um programa da época, na TV Piratini.

Mutuca: Eram mais de duzentas bandas em bailes e reuniões dançantes, com cinco, seis grupos tocando. Bandas como Os Incendiários, Bulls, Os Monges, Thunderballs, Os Morcegos, Os Jetsons, Os Minis... A minha se chamava Alphagroup. Também tinha o Liverpool, Handsomes, Hooligans,

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Boinas Azuis, The Old Stoned...

Claudio Levitan: A gente tocava músicas próprias e covers dos Beatles. Eu me lembro de algumas canções: “Go”, dos Beatles, que o Ronnie Von cantava na época; “Bamba La Bamba”. Tudo de Beatles e Rolling Stones, que eram as bandas preferidas. Ainda não tinha pintado Jimi Hendrix, Janis Joplin e todos eles...

Gilmar Eitelvein: O rock no Rio Grande do Sul se formou por via direta. Foi o rock inglês que pesou muito aqui. Uma série de bandas como Rolling Stones, Kinks, Beatles influenciaram mais o nosso rock do que outras manifestações.

A Jovem Guarda foi quase uma resposta bem comportada ao rock internacional, que era visto como uma coisa marginal e rebelde... E os roqueiros gaúchos dos anos 60 nunca foram com a cara da Jovem Guarda. Sempre buscavam tocar de forma mais radical. Os conjuntos de Jovem Guarda acabaram virando bandas de baile.

Mutuca: Como aqui não tinha uma indústria fonográfica que atendesse a novidade dessas bandas, só aquelas que fossem até São Paulo, já com um contrato com um produtor, conseguiam alguma coisa.

Quem fez isso foram Os Cleans: eles tiraram primeiro lugar num concurso de Jovem Guarda. Depois foram Os Brasas e Os Jetsons.

Luís Wagner: Nos Brasas aconteceu uma coisa interessante... Chegamos em 66 em São Paulo. E, passados três, quatro meses, a gente se tornou uma banda contratada por uma emissora de televisão! Logo depois nos tornamos um grupo de estúdio, de gravação com todo mundo.

Mas, nessa época, éramos um tanto relapsos e relaxados pra com o nosso próprio trabalho. Tínhamos saído do Rio Grande do Sul, chegado em São Paulo e tudo era muito simples... Não tínhamos conhecimento de quase nada. A gente chegou meio puro demais, sem noção de nada... Sem uma malícia de como lidar com as coisas.

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Glênio Reis, animador de auditório, radialista e apresentador de TV voltado à cultura musical em Porto Alegre, foi uma das personalidades mais importantes pro início do rock gaúcho no início da década de 60

Diego Medina: Os Brasas eram os músicos que acompanhavam o Ronnie Von, no disco que ele gravou “Sílvia 20 horas Domingo”. Músicos dos anos 60 e poucos, final dos 60. Tem o Luís Wagner, o Tom Gomes...

Glênio Reis: O Luís Wagner, que era dos Brasas, tocou muito no meu programa. Começaram a aparecer muitas bandas nos anos 60 – e eles não tinham empresários.

Quando vi que a movimentação da gurizada estava aumentando e eu assumia um compromisso tão grande, me tornei empresário da gurizada. Os clubes contratavam os conjuntos de rock por hora de apresentação: botavam uns sete ou oito conjuntos, a cada noite.

Eu nunca vi tanta gente na minha vida. Foi isso que me despertou a curiosidade pelo rock.

Luís Wagner: A gente se reunia todos os finais de tarde pra fazer som na casa do seu Luis Carlos Guimarães. Ele é pai do guitarrista dos Jetsons, o Luís Ernani. Era uma oficina, uma garagem mesmo... O seu Luís nos ajudou a comprar os primeiros instrumentos.

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Chaminé: Em 67, guitarrista era marginal, coisa de vileiro cabeludo. Tínhamos uma banda chamada Bestial Project, que tocava umas versões de The Who – mas ninguém conhecia Who, porque eles tinham lançado só um disco... Nem nós conhecíamos direito!

Copiamos o disco todo. Era um berreiro dos infernos. Tocávamos na periferia: Cachoeirinha, Gravataí... Eram cinco ou seis lugares diferentes numa noite só, num sábado. E nosso guitarrista era o Beto. Ele tocava à moda diabo... Os equipamentos eram todos primitivos, nacionais. Não tinha essas molezas de instrumento importado que tem hoje.

Claudinho Pereira: Eu morava na Thomaz Flores na década de 60, quando rolavam umas festas de garagem. Os caras faziam as reuniões dançantes em casa, e cada vez mais elas iam se apurando, melhorando...

Por causa disso, o que acontecia? Alguém tinha que cuidar do som – mas ninguém queria! Aí, com catorze anos, fui ser DJ. Nem sabiam o que era um DJ... Chamavam de discotecário.

Gelson Schneider: Comecei em 67, quando só tinham bandas de baile. E fizemos uma coisa diferente pra época: a banda Prosexo.

Já em 70, começamos a Byzzarro. Eu, o Carlinhos e o Mário Monteiro, influenciados pelo Jimi Hendrix.

Claudinho Pereira: Operei som de muita banda na noite em Porto Alegre. Uma foi o Herman’s Hermits, no bar Locomotiva... Outra casa era o Encouraçado Butikin, na Independência. E também tinha, na mesma rua, o Whisky a Go-Go. Foi o primeiro lugar a começar às duas da madrugada e seguir aberto até às dez da manhã. Era uma casa pra esses caras que trabalham na noite.

Mutuca: O primeiro show internacional que eu assisti em Porto Alegre foi os Herman’s Hermits, em 1967.

Fernando Pezão: Eu comecei em 68. Já existia uma turma de rock’n’roll na rua Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre. Montei minha primeira banda, de covers dos Rolling Stones, com uns amigos de lá. Um lance de rock de garagem: ninguém conhecia música – muito menos rock’ n’roll. As informações que chegavam eram as que um amigo nosso havia trazido da Inglaterra. Histórias londrinas de 67, 68... Então, um lance pancada começava naquele momento. Eu tinha 15 anos quando fui ver Woodstock no cinema, no Baltimore.

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Fughetti Luz: Nasci em São Francisco de Paula. Mas sou mesmo é do IAPI – me criei em Porto Alegre, desde os seis anos. Assim como toda a galera que armou o Liverpool: o Mimi, o Marcos Lessa, o Edinho Espíndola... Muitos passaram pela banda, mas o básico era esse time aí. Assim como eu, eles ainda estão tocando, fazendo música.

Glênio Reis: A grande força do rock em Porto Alegre começou nos anos 60, mesmo. Na época que isso aconteceu, minha faixa de rock passava por Led Zeppelin, Steppenwolf, Crosby Stills Nash and Young, Beatles...

Aquelas coisas água-com-açúcar que tocavam não batiam muito comigo. Enquanto as outras rádios entravam com tangos e boleros, eu botava rock pauleira mesmo. Umas faixas de seis, sete minutos... Umas coisas enormes, comparadas com as faixas de dois minutos e meio que todos estavam acostumados a tocar.

Gelson Schneider: Tinha o programa do Julio Rosemberg no Canal 10. Ele foi o primeiro a dar uma chance pra minha banda, a Prosexo, se apresentar na TV. Mais tarde, conheci o Carlinhos Tatsch, com quem eu fui pro meio da rapaziada. Eu era um cara mais da vila.

Fughetti Luz: O Liverpool foi parar no Rio de Janeiro – uma banda de rock de Porto Alegre, em 1969 – porque ganhamos o Festival Universitário na reitoria da UFRGS. Quem tirasse o primeiro lugar iria participar do Festival Internacional da Canção, que rolava no Rio. Tocamos “Por Favor Sucesso”, do Carlinhos Hartlieb: ele que tinha pedido pra gente defender a música. No mesmo festival, também tiramos o décimo primeiro lugar com “Olhai os Lírios do Campo”, uma música linda.

Mas, como vencemos, no outro dia já estávamos pegando o avião... E, na semana seguinte, entramos no Maracanãzinho: nós, Jorge Ben, Gilberto Gil, participando do festival... Sucesso nacional, direto do bairro Sarandi pro Maracanãzinho! A gente tinha uma casa no Sarandi pra ensaiar e fazíamos muita festa lá: os instrumentos ficavam na sala, a gente dormia nos quartos e acordava tocando... Era tri louco! Muita buceta, muito legal...

Glênio Reis: Conheci uns caras e gostei muito da qualidade deles. E eles vieram falar comigo pra trabalhar. Depois de analisá-los, ordenei: “olha, só tenho uma coisa pra vocês fazerem...” Dei o disco do Led I pra eles e marquei umas faixas. Falei: “vocês copiem integralmente o que está tocado aqui, e só voltem quando os arranjos estiverem prontos pra eu ouvir”.

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Dava pena ver os guris tocando: uma chiadera, um ronco...

Mas eram muito bons: eles tinham duas baterias, excelentes. Batizei a banda de Mao Mao. Eles foram o primeiro e mais moderno grupo que apareceu por aqui.

Claudio Levitan: Porto Alegre tinha uma forte escola de tropicalismo, ou de uma música moderna brasileira ligada à linguagem modernista. Vários grupos, inclusive Os Mutantes e Tom Zé, vieram a Porto Alegre bem no começo da carreira.

Chaminé: No Festival Universitário de 69, na reitoria da UFRGS, aconteceu uma espécie de pulo do gato pra essa história de guitarristas tirados pra marginais. Eu tocava no Succo, com o Mutuca, o Cláudio Vera Cruz... E levamos a guitarra elétrica pro meio dos violões. Mas também levamos galinhas pro palco, demos um banho de talco na Orquestra Sinfônica da Ospa, que estava por lá na mesma noite... Foi um escarcéu dos diabos. Tinha gente de longo preto e smoking na plateia, e nós usando ceroula, de penico na cabeça...

Claudio Levitan: Lembro que alguns grupos faziam umas coisas muito loucas. Por exemplo: lembro de um grupo que o Chaminé participou em que eles cantaram uma música e jogaram talco na plateia e na orquestra também... Então, os músicos da Ospa se levantaram e disseram que não iam mais tocar.

Chaminé: Acabou dando a maior pauleira. No meio do bafafá, tudo acontecendo, um cara da banda pegou o contrabaixo e bateu com as chaves da afinação na cabeça do Geraldo Flach! E eu fui o pivô dessa briga, porque a esposa do Geraldo meio que não gostou do que eu estava fazendo... E ele parou no Pronto Socorro. Mas não fui eu quem bati nele!

Enquanto isso, acabamos indo, toda a banda, pra polícia – e o delegado era o irmão do Geraldo! Mas ele foi um cara gente fina: nos liberou.

Cascalho: Comecei o programa Biershow na rádio Continental, em 1970, num momento em que só tinham emissoras AM. Eu era um apresentador totalmente anarquista... Pelo meu feeling, selecionava as músicas e fazia daquele horário um espetáculo.

Ainda não existia a irreverência dos comunicadores de hoje. Criei esse estilo observando algumas coisas americanas, da Argentina e do Rio de Janeiro.

Glênio Reis: Quem descobriu o Cascalho fui eu. Ele me telefonava, na rádio Gaúcha, dizendo que estava ouvindo o meu programa. Até que um dia eu pedi pra ele dar uma chegadinha lá na rádio.

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Como eu já era um homem de muito mais idade pra falar o linguajar da garotada, resolvi dizer pra ele o seguinte: “vem cá, porque tu não lança um programa igual ao meu?”.

Dois dias se passaram e ele voltou, me perguntando: “ô Glênio, em que horas tu lançaria um programa desses?”. Eu disse: “ou à noite, ou às seis da tarde”. Pouco tempo depois surgiu ele, com o patrocínio de um refrigerante famoso.

Cascalho: “Hello! Crazy people!” e “Hello! Tô chegando! Isso é uma loucura!” Eu fazia essas frases de efeito.

Claudio Levitan: Depois do espetáculo Amelita, Cabeça, Corpo e Membros, mais no início dos anos 70, começamos a montar o Em Palpos de Aranha – que vai do final de 74 até 76. Os dois foram espetáculos que aca-baram virando bandas. Eram shows grandes, um pouco na linha do Hair. Grupos que surgiam com a ideia de shows multimídia.

Chaminé: Depois daquela participação do Succo na UFRGS e de shows como o Amelita, Cabeça, Corpo e Membros é que os guitarristas deixaram mesmo de ser bandidos. Foi assim que as guitarras foram pros teatros...

Zé do Trompete : Em 70, eu estava com vinte e dois anos. Toquei com diversas bandas, chinelas pra caralho! Toquei com bandas covers, de baile... O Caravelle, que foi uma banda premiada. Outra deu origem ao Sul Bossa Jazz. Muita pauleira no som!

Kledir: A ideia dos Almôndegas surgiu no início dos anos 70. Havia em Porto Alegre uma cena com aquele clima pós-Woodstock... Algo importante, e que trouxe um momento de mudança de comportamento e postura no mundo.

Estávamos muito fora do que acontecia no Brasil e no mundo em termos musicais. Não havia uma produção musical popular no Rio Grande do Sul. Tínhamos poucos artistas: eram pessoas com músicas selecionadas em festivais aqui e ali, na maioria dos casos. O forte da cena brasileira era a Tropicália e o pessoal dos festivais – que hoje são os grandes medalhões da nossa música.

Alemão Ronaldo: Tinham várias bandas de baile nos anos 70. A minha era o Supersound. Tocávamos Led Zepellin, Jethro Tull...

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universitário que acontecia por lá – e ganhamos, com a música “Vento Negro”, que entrou no primeiro disco dos Almôndegas. Em 72, voltamos ao festival e ficamos em segundo lugar.

Nessa época, éramos uma turma. Estes festivais foram as sementes pro surgimento dos Almôndegas, que depois gravou quatro discos. Já faziam parte, além de mim e do Kleiton, o Kiko Castro Neves e o Peri Souza. Só faltava o Gilnei pra acontecer a primeira formação da banda.

Na realidade, quando fizemos esta outra apresentação no Fucaca, havia 24 pessoas no palco... Aquela coisa de coletividade, paz e amor... Havia uma característica muito forte, nesse início de década de 70, que era a vida em comunidades: nas repúblicas, com seus grupos de amigos... uma coisa meio hippie. Um tempo de experimentação de tudo, tanto de sexo quanto de drogas, de música ou uma vida nova mesmo, diferente.

Foi sintomático estarmos em cima de um palco com tanta gente em 72. Nossa vida era uma grande celebração, o tempo todo. Vivíamos numa grande turma em Porto Alegre, nos encontrávamos todas as noites... Os pais da Liane Klein, uma amiga nossa, eram muito receptivos e estávamos sempre na casa dela.

Foi a partir disso tudo que vislumbramos a possibilidade de fazermos música de uma maneira séria. Até então, estávamos na universidade.

Fughetti Luz: Aconteceram várias coisas entre o fim do Liverpool, em 73, e o início do Bixo da Seda, que era uma banda mais rock’n’roll.

Fiquei um ano e dois meses fora, na Europa, depois do Liverpool. Quando voltei pra Porto Alegre, fiz a Laranja Mecânica, a Trilha do Sol... E depois uma banda chamada Bobo da Corte. Mas o Bixo da Seda já estava rolando – e com o mesmo time do Liverpool: o Mimi, o Edinho, também o Cláudio Vera Cruz e o Peko Santana. Só eu que não estava junto.

Kledir: A 1ª Mostra de Música de Porto Alegre aconteceu em 72. Uma coisa basicamente organizada pelo Fogaça, que fazia parte da nossa turma. Ele era o cara que mais tinha o espírito pra organização daquela loucura toda... E a ideia dessa mostra ia bem ao encontro daquilo que queríamos: algo que não tivesse caráter de competição entre os grupos. As pessoas iam apenas pra se apresentar... Ser parecido com Woodstock era fundamental.

Ao mesmo tempo que gritávamos contra o regime militar violento, a ideia de um festival sem competição era tudo que queríamos. Um tempo de pensar em solidariedade, criar um mundo novo, com paz e amor... Todas estas coisas fervilhavam na nossa cabeça. Muitas pessoas se juntaram à ideia: o Zé Flávio, com um grupo bem anterior ao Saracura, o Fernando Ribeiro... Foram três grandes grupos que se conheceram e se reuniram.

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Juarez Fonseca: Quando comecei a escrever sobre música, em 73, não havia quase nada em Porto Alegre. As coisas começam a surgir no ano seguinte, com as Rodas de Som. Tinha os Almôndegas, Hermes Aquino... Tinham três ou quatro bandas de rock e o Hermes Aquino, que era pop. A primeira roda foi com o Bixo da Seda, uma rearticulação do Liverpool. E as coisas eram emboladas mesmo: todo mundo tocava junto.

As Rodas de Som marcaram época. Todas as sextas-feiras, à meia noite, no Teatro de Arena. Superlotava. Era uma coisa da cidade se descobrindo. O Bixo da Seda fez uma apresentação que estourou mesmo. Até que, um ano depois, foi gravar um disco em São Paulo. A partir daí as coisas começaram a crescer.

Julio Furst: Meu programa na rádio Continental ia ao ar todos os dias, às dez da noite. Eu me identificava como Julius Brown, um DJ especializado em música negra. Um roteiro de soul e funk que estava começando a entrar no início dos anos setenta... Um piloto da Varig me trazia os discos importados – aquelas bolachinhas de quarenta e cinco rotações. Nas festas do clube Floresta Aurora, eu era acompanhado por cinco garotas black power – as Juliettes.

Mas, em 1975, houve a oportunidade de um patrocínio da Lee norte-americana, através da Renner, pra um programa jovem de rádio. A ideia deles era fazer algo específico pra Lee. E, em primeiro de abril de 75, entrou no ar o programa “Mr. Lee In Concert”. Eles sugeriram que eu criasse um personagem, e criei o Mr. Lee. Me vestia com calça de vaqueiro, bota e chapéu.

O programa começou com música country... Era a intenção da empresa mostrar que estavam chegando no Brasil, porque aqui só havia contrabando e imitação da Lee.

Nelson Coelho de Castro: Mas o Julio Furst foi um divisor de águas da música popular gaúcha, em termos de rádio. Ele teve coragem de rodar música gaúcha na década de 70, na rádio Continental. E dizia: “na Porto Alegre de Mário Quintana, são dezesseis horas”. Sem medo.

Julio Furst: O meu programa virou pra música local porque fui convidado pra fazer parte do festival da PUC, o Musipuc, logo depois que o “Mr. Lee In Concert” começou. E aquilo foi a gota d’água pra mim. Vi coisas incríveis no palco.

Me deu um brilho: “eu, com um espaço de uma hora no rádio, e esse trabalho magnífico aqui?!” Eram músicos como o Nelson Coelho de Castro, o Fernando Ribeiro e o Inconsciente Coletivo, uma banda de folk, formada pelo Alexandre Vieira, o João Antônio e a Ângela: uma espécie de Peter, Paul and Mary.

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seria convencer o patrocinador.

Fizemos uma reunião, e eu disse: “o negócio é a música local, de Porto Alegre...” Eles responderam: “tudo bem, está contigo. Mas, se não der certo, acaba o patrocínio!”

E deu certo. As pessoas começaram a ligar. Eu saía pra noite e conversava com os caras. Alguns me traziam sua produção artesanal, de estúdio, outros gravavam na Continental mesmo.

Kledir: O Fogaça era comentarista da Rádio Continental – o grande barato da cidade, com locutores como o Cascalho... E foi a partir dele que gravamos a primeira fita dos Almôndegas. Isso foi um pouco antes, em 74... O Fogaça conseguiu liberar o estúdio da própria rádio. Fizemos tudo com apenas um microfone – não havia nenhum estúdio especializado pra este tipo de coisa. Em um take só gravamos, entre outras coisas, a primeira versão registrada de “Vento Negro” e “Rock no Quintal”.

E a Continental, a rádio quente de Porto Alegre e que toda a garotada ouvia, começou a tocar as nossas músicas: “uma fita de gente da cidade!”. Quando isso aconteceu, as músicas viraram sucessos.

Julio Furst: O estúdio tinha um gravador Ampex de dois canais e apenas um microfone. O que a gente fazia era colocar o vocal mais pra frente do microfone, as violas mais ao lado, e atrás a percussão, porque não havia mixagem. Tínhamos que gravar tudo numa tacada só. Era algo artesanal – mas as coisas se facilitavam porque a maioria das músicas eram acústicas.

Claro que, quando a banda era de rock, a gente envenenava um pouquinho. Eliminávamos um dos canais da mesa pra colocar outro microfone, e assim íamos completando a gravação...

Nelson Coelho de Castro: Ainda não existiam várias indústrias, com os meios de comunicação usando a arte pra vender coisas... O Júlio gostava de música regional e queria apostar nesse segmento jovem. A Continental gravava esses shows – de festivais, como o Musipuc – e punha no ar, independente da colocação da música, de ser gaúcha ou não.

Julio Furst: Então eu passei a produzir alguns concertos patrocinados pela Lee no Rio Grande do Sul, que se chamavam “Vivendo a Vida de Lee”.

Durante três anos, fizemos doze concertos. O primeiro foi no dia treze de agosto de 75, no teatro Presidente. Tinham três mil pessoas – sendo que a capacidade era pra mil e quinhentas... A Brigada Militar teve que fechar a Benjamin Constant pra desviar o trânsito. Foi uma loucura.

Tocaram no “Vivendo a Vida de Lee” o Bobo da Corte, do Zé Vicente Brizola, o Byzzarro, do Gelson Schneider – uma das bandas mais pesadas da época, e que apareceu com a primeira guitarra de dois braços da cidade... Tinha também os Em Palpos de Aranha, o Cálculo 4 e o Inconsciente

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Coletivo.

O Hermes Aquino lançou “Nuvem Passageira” naquela noite. E ele tinha feito a música dois dias antes.

Chaminé: Tinha o programa do Mr. Lee, onde muita gente apareceu. E uma música de sucesso da época foi “Nuvem Passageira” – foi quando a Continental estava mudando de AM pra FM. Era eu, o Hermes e o Laurinho. Dois violões e uma espécie de bateria.

Chegamos a fazer turnê por causa disso. Viajamos pra um monte de lugares. Tempos de Kombi, porque não tinha van. Aliás, eu prefiro Kombi do que van. Van foi feita pra levar japonês em aeroporto!

Fughetti Luz: O Bobo da Corte acabou abrindo um show do Bixo da Seda, na Assembleia Legislativa. E nós cagamos a pau pra cima do Bixo da Seda. A gente cagou tanto a pau que o Mimi Lessa chegou pra mim e disse: “Vamos pra estrada com a gente de novo, Luzinha!” Ele me chamava de Luzinha.

E não adianta: a gente era foda mesmo. Aí, eu saí do Bobo da Corte. Mas não ia deixar os caras na mão... Ficou um time montado pra eles continuarem. O Chaminé, o Celso... Um monte de gente passou pelo Bobo da Corte.

Gelson Schneider: Em 74, eu tocava bateria na Byzzarro. E abrimos o show do Bill Halley em Porto Alegre, junto com o Utopia e Inconsciente Coletivo.

Mitch Marini: O baterista do Bill Halley tocou com a bateria do Schneider. E o cara estava muito louco durante o show deles. Ele começou a bater com a mão no prato, errava o prato com a baqueta, batia com a mão... Quando fazia o rolo na bateria, salpicava sangue nas peles...

O Schneider dizia que nunca mais ia lavar a bateria!

Cláudio Vera Cruz: Bill Halley em Porto Alegre era a vinda do ícone branco do rock!

Gelson Schneider: Também foi nesse show que o Cláudio Vera Cruz tirou uma foto meio que à força com o Bill...

Mitch Marini: O Cláudio queria tirar uma foto junto com ele. E armou um esquema com um fotógrafo: “tu fica com a máquina na mão, que eu vou me grudar nele quando ele sair do camarim!”

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Na hora que o Bill Halley saiu, o Cláudio se avançou no pescoço dele. O cara pensou que estava sendo assaltado, e pulou pra trás!

Cláudio Vera Cruz: O fotógrafo era uma pessoa que volta e meia encontrávamos nos shows... Programamos tudo: ele ficaria com a câmera engatilhada e eu, postado na porta, esperaria o Bill Halley sair do camarim.

Tudo foi muito rápido. Quando o velho Bill saiu, lá estava eu – um garoto irresponsável que poderia ser espancado pelos seguranças. Afinal, vivíamos em uma ditadura. Mas nunca mais localizei essa foto.

Kledir: Não existiam condições técnicas de nada. Não havia estúdios – muito menos a aparelhagem necessária pra fazer um show. Quando os Almôndegas começaram a tocar e apareceram oportunidades de apresentação, não havia microfone em Porto Alegre, caixa de som...

Fomos tocar no Encouraçado Butikin e resolvemos procurar equipamento na lista telefônica. E a única empresa que encontramos foi a Cotempo – que era especializada em colocar som em igrejas...

Chegamos lá e conhecemos o Egon Alsher, pai do Renato Alsher, que era um dos donos da empresa. Ele passou a ser uma figura fundamental na nossa história, porque achava maravilhosa a ideia de um grupo querer montar show na cidade: “eu coloco som em igreja, mas posso tentar adaptar algumas coisas...” Como ele era um cara muito motivado, começou a construir e criar equipamentos de som pra espetáculos. Acho que ele teve o primeiro equipamento de som para locação de Porto Alegre.

Claudio Levitan: Em 76, participei de um movimento no Clube de Cultura, na rua Ramiro Barcelos, onde, aí sim, tinham bandas de rock – um movimento acontecendo. Era um clube de esquerda... Uma confusão. Era o momento forte da repressão.

Fughetti Luz: Foi com o Bixo da Seda que pegamos o estradão todo de novo. Uma história que foi até 80. Viajei com o Liverpool, com o Bixo e depois com a Bandaliera. O Bixo fez uns shows do caralho: no Circo Voador, no teatro Teresa Rachel, no Rio, em um estádio de futebol lotado...

Cláudio Levitan: Foi mais ou menos quando o Em Palpos acabou que eu apresentei o Chaminé, que tocava comigo, pro Nico Nicolaiewski. Ambos andavam procurando alguma coisa. Foi o que provocou o surgimento do Saracura, mais ou menos em 77.

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Kledir: Os Almôndegas tiveram diversas fases em função da troca dos componentes. E também porque estávamos morando no Rio de Janeiro, entre 77 e 78. A característica da banda mudou de uma estrutura acústica e de vocal pra algo bem mais roqueiro, com baixo, guitarra e bateria.

Sempre houve a busca por este equilíbrio. Curtíamos o pop e o rock internacional e, ao mesmo tempo, todos tinham uma formação gaúcha, de música do interior. Então havia a intenção de pegar as raízes e fazer da música do Rio Grande do Sul algo que pudesse soar como a música pop internacional. Um espírito que, de certa forma, também se passou pra dupla Kleiton & Kledir, que formamos no final de 1979.

Cida Pimentel: Tinham vários núcleos de loucos pela cidade em meados dos anos 70. Os caras violentos do Petrópolis, os caras do IAPI... Dessa época até os anos oitenta, são quase dez anos de rock obscuros em Porto Alegre.

Fiapo Barth: A vida noturna que a gente frequentava era mais relacionada à vida estudantil no Bom Fim. O Alaska, em 1977, 78, que era perto da faculdade...

Depois, isso começou a morrer. Mudou um pouco o nosso interesse na noite – não era mais uma coisa tão política e cultural como antes. Estava terminando a ditadura, as coisas estavam acabando por si mesmas... E, principalmente o pessoal com que eu me envolvia, andava alterando um pouco mais o foco: uma coisa mais pra cima, mais divertida.

Cida Pimentel: Até que um dia surgiu o Cau Hafner. A mãe dele tinha uma loja de calça Lee importada de Nova Iorque, e ele era amigo do Alemão Ronaldo. Quem fez essa ponte entre o rock dos anos 70 com o dos anos 80 foram esses dois. Perdi o melhor namorado que eu já tive, porque o Alemão Ronaldo ficava me cantando músicas.

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MODULANDO A FREQUÊNCIA

Ricardo Barão: O Cascalho me levou pra trabalhar na Cultura Pop. Ele era o diretor da rádio, e o Megatom era o diretor de programação.E comecei com um programa só de rock na Cultura Pop, que foi a primeira FM porrada: tocava Pink Floyd, Led Zeppelin...

O problema é que a rádio tinha uma potência pequena: durou um ano. Foi vendida numa época de discoteca, Donna Summer... Estávamos tendo audiência, e o dono da empresa até ia comprar transmissores pra aumentar a potência. Só que veio o Jornal do Brasil – que era dono da rádio Cidade – e comprou a emissora. Pagou uma fortuna pro cara pela rádio – que se transformou e trouxe pra Porto Alegre esse sistema de locutor meio jogador de futebol, cheio de vinhetas.

Claudinho Pereira: Na época, tinha o Pedrinho Sirotsky com o Transasom, um programa que fazia as festas jovens e depois começou a levar as bandas pros bailes. Assim começou a ter o que a gente chama de festa-show, e um envolvimento em torno das bandas também.

Nilton Fernando: A rádio Bandeirantes FM começou em Porto Alegre no comecinho de 80, com três kilowatts, enquanto que as outras rádios tinham trinta, cinquenta kilowatts...

E o que era uma rádio diferente na época? A que tocasse as faixas mais alternativas dos discos de vinil, com uma sonoridade diferente... O que, na verdade, não era uma coisa tão rock’n’roll ainda. Era mais uma coisa bicho-grilo mesmo, um resquício dos anos 70. Tocava-se Egberto Gismonti, som latino-americano, Mercedes Sosa, Violeta Parra...

Ricardo Barão: A Bandeirantes FM tinha sido feita pelo Mauro e o Nilton, que veio de São Paulo com a missão de montar a rádio em Porto Alegre. Também tinha a Beth Portugal na locução... Ela vinha da Continental – a primeira e a melhor rádio alternativa: uma emissora jovem em ondas médias. O Cascalho era um dos comunicadores, junto com o Júlio Furst e o Beto Roncaferro.

A Continental tinha um contexto tremendamente político. Era uma rádio de esquerda: ela foi invadida várias vezes pela Polícia do Exército – a gente estava em plena ditadura. Chegamos a sofrer ameaça de bomba, da extrema-direita: a gente tinha chamado a medalha que um militar ia receber de tampinha... Foi a primeira emissora a tocar talentos locais, quando lançou os Almôndegas, Gilberto Travi, o Hermes Aquino e o Bixo da Seda.

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Carlos Eduardo Miranda: Eu ouvia sempre o programa do Barão na Bandeirantes FM, que tinha o estúdio ali na José Bonifácio. E eu pensava: “bah! Um dia eu vou bater aí e vou dar ‘oi’ pra esse cara!” Dito e feito: passei e deixei uma fita do Taranatiriça com ele. O Barão sempre foi o cara que apoiava as coisas.

E me lembro do dia em que o Mauro Borba chegou pra trabalhar na Bandeirantes. Eu já era um pentelho dentro da rádio: ficava por ali, meio que coringando pra pegar uma boquinha pra fazer alguma coisa...

Nilton Fernando: Essa rádio foi o tubo de ensaio pro que viria depois – a Ipanema FM. A Rede Bandeirantes de São Paulo tinha adquirido a Difusora, de Porto Alegre. E, por uma questão comercial da nova diretoria, vinda de São Paulo, eles acharam tudo bem em ter uma rádio alternativa por aqui – que seria mais tarde a “rádio dos loucos”... Enfim, conceitos de rádio.

Assim, a Difusora FM foi transformada em Ipanema FM. Veio o presidente da Bandeirantes, o Johnny Saad, e disse que teríamos que trocar de rádio: sair da Bandeirantes. E toda aquela equipe de malucos foi pra uma rádio nova... Na realidade, uma das FMs mais antigas de Porto Alegre que tinha acabado de ser vendida.

Nei Lisboa: A Ipanema começou como Bandeirantes FM em uma casa na José Bonifácio. Um estúdio bem pequeno, com três malucos de Cachoeira do Sul. O Isaías Porto e a Mary Mezzari estavam desde aquela época. Eles foram autorizados a começar uma rádio com perfil diferenciado e ninguém imaginou que pudesse tomar o corpo que tomou. Eles abriram a rádio pra gente daqui.

Mary Mezzari: Nos tempos da casinha da Bandeirantes na José Bonifácio, as pessoas paravam suas bicicletas na janela e gritavam pro locutor: “toca aquela!” Era uma interação que não existia daquela maneira.

Teve um sábado ou domingo em que estava acontecendo uma feirinha na rua, não lembro se já era o Brique. E tinha um cara tocando um instrumento boliviano bem na frente da rádio. Levamos o cara pro estúdio e o Mauro Borba colocou ele pra tocar no ar...

Mauro Borba: A Bandeirantes e depois a Ipanema FM foram fundamentais pra lançar as bandas gaúchas. Já há algum tempo nenhuma rádio tocava música local, música urbana. O parâmetro que a gente tinha ainda era a Continental AM, uma emissora que marcou época: rodava Hermes Aquino, o pessoal da cena urbana... Havia os shows no teatro Presidente...

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o primeiro som de músico gaúcho transmitido pela Bandeirantes. Depois apareceu o Bebeto Alves, o Saracura... É por isso que essa filosofia de tocar os músicos daqui já existia quando nos mudamos pra Ipanema, que surgiu em 83.

Só que, a essa altura, o rock já tinha chegado pra valer... E o Replicantes foi a primeira banda a aparecer na rádio com uma gravação: “Nicotina”.

A Ipanema rodava as músicas das bandas até que elas fizessem sucesso – e passassem a rodar também nas outras rádios... Acho que o primeiro caso desse tipo foram os Engenheiros, com “Segurança”.

Ricardo Barão: Eu, o Mauro Borba, o Nilton Fernando e a Mary Mezzari – esse foi o quarteto que bolou a Ipanema FM. Junto com mais todo o pessoal, criamos uma situação em que dávamos a maior força pros músicos e pros barzinhos que botavam música ao vivo. Assim, os músicos começaram a ganhar público. A gente tocava a música deles e criavam-se locais, expectativas... Nasceu uma cultura com o músico local em Porto Alegre que antes não existia. Nós mostramos isso pros empresários.

Isso quer dizer que o nosso trabalho – dos produtores, músicos e de todos os loucos que queriam curtir rock – era uma coisa legal. O pessoal queria, por exemplo, ouvir os Cascavelletes falando da mina menstruada. No momento em que fizemos isso e botamos na roda, todos puderam escutar as coisas que eram nossas, os nossos códigos: as gírias, a maneira de tocar rock no inverno, com as luvas de lã cortadas na ponta dos dedos pelas mães dos guris, pra eles poderem tocar guitarra direito... Esse era o lance do caralho. E depois que foi pintando gente interessada, como gravadoras e estúdios.

Nilton Fernando: Ipanema FM era um nome amaldiçoado, porque foi São Paulo que escolheu... Não tinha nada a ver com a tal proposta alternativa. Era, simplesmente, um nome de butique carioca pra uma rádio feita por paulistas em Porto Alegre!

Daí, queríamos criar um nome mais moderno. Até porque a gente tinha esse estigma de que o nome Bandeirantes era muito paulista – embora a Bandeirantes fosse a cara do Bom Fim, no seu auge.

Pensei então em homenagear uma coisa que fosse a cara de Porto Alegre: o Mário Quintana, que ainda estava vivo na época. “Vamos homenagear o poeta”. Fui pra casa, fiz todo um plano do que seria. Então achei assim, que eu estava vendendo um peixe muito lindo... Mas aí os executivos de São Paulo acharam que a piração já era grande demais.

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reunimos, discutimos o nome, e ele veio com essa ideia. E ficou.

O logotipo era um garoto com um windsurfe. Eu achei idiota na época, mas eu não estava ligando pro nome... Estava mais preocupado era em tocar rock! Na época, era uma coisa muito rebelde. A gente se reunia no Alaska, e a polícia nos botava na parede...

Katia Suman: Entrei na rádio com um programa de música brasileira. E o Ricardo Barão era o cara que botava a pilha do rock’n’roll na Ipanema. Foi nessa pilha dele que eu descobri o rock... Mergulhei nessa e chegou uma hora que eu parecia ser a rainha dos metaleiros, num certo sentido. A rádio tocava muito. Trouxe vários grupos pra cá, e tal... Hoje eu ainda acho bacana – mas de longe.

Mary Mezzari: As informações que a gente passava pros ouvintes chegavam na Ipanema por telex ou rádio-escuta – numa época em que ainda não tinha internet, TV a cabo no estúdio ou coisas assim... Eu estava no ar, numa daquelas tardes, e já tinha ouvido falar que o Freddie Mercury estava muito doente, que era aids e tal.

Foi quando tocou o telefone do estúdio. E um ouvinte, falando super sério, me disse que tinha visto em uma TV mexicana que o Freddie Mercury tinha morrido!

A-cre-di-tei no moço... E dei a notícia no ar, já providenciando um bloquinho com músicas do Queen. Logo em seguida, outras emissoras entraram na onda, e começaram a homenagear o “morto”...

Mas, no dia seguinte, soubemos que nada daquilo era verdade. Ele não tinha morrido... Um baita mico: um King Kong!

Ricardo Barão: Dificilmente as gravadoras lançavam algo mais importante no Brasil. Em compensação, se tu ia a Buenos Aires, tinha de tudo. Quando a Ipanema surgiu, os discos foram todos mandados pra Porto Alegre via Buenos Aires. Esse era o problema de tu fazer um programa alternativo, com outras opções: tinha que buscar material na Europa, na Argentina... Hoje, tu senta no computador, pega música de todas as partes do mundo, baixa em estéreo, passa pra CD e roda direto!

Katia Suman: A rádio promoveu um show do Camisa de Vênus que lotou o Gigantinho, logo no início da carreira dos caras – e ninguém tinha ouvido falar deles direito, ainda. Realmente, se caminhava na contramão – mas essa contramão já virou meio que mainstream. Todo mundo faz o que a Ipanema fazia, até porque todo mundo agora é rádio rock.

As transmissões ao vivo que a Ipanema fazia eram uma delícia. A gente transmitia por linha telefônica os shows mais absurdos. E nosso público era bem a fim daquilo. As pessoas adoravam. Era uma atitude absolutamente porra louca, de levar de alguma maneira uma informação que estava

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acontecendo naquele momento mesmo. Transmitimos de Luís Melodia a Deep Purple, Raul Seixas... A rádio tinha uma contribuição: não só de divulgar e tornar popular o rock, como de criar uma geração de roqueiros.

Nilton Fernando: O conceito de alternativo é uma coisa muito desgastada atualmente. Mas, quando a Ipanema começou, isso era algo interessante, novo... Pudemos fazer na Ipanema algo totalmente diferente do que o mercado vinha fazendo: “as dez mais”, listão...

Mauro Borba: Muita gente achava que tínhamos nos inspirado na Fluminense FM, do Rio de Janeiro, pra fazermos a Ipanema – o que não é a realidade.

Quando a Ipanema entrou no ar, nós nem sabíamos da existência da Fluminense. Um ano depois é que ficamos sabendo da tal rádio rock do Rio, que também marcava 94.9 no dial. Por ser a mesma frequência, muita gente achava que havia alguma ligação. Mas não havia nenhuma.

Nilton Fernando: A linguagem da rádio também era inovadora: uma coisa mais leve, notícias faladas... Tanto é que os comunicadores da Ipanema e da Bandeirantes não eram os típicos locutores. Eram pessoas que falavam normalmente. Estavam mais pra colunistas e cronistas, na linguagem da rádio: o Mauro, o Jimi Joe, a Katia...

O fato é que a Ipanema não era tão louquinha de pedra e inconsequente assim, como se poderia pensar. Muito pelo contrário: a rádio era bem consequente em termos de postura literária – além da política. Essas posturas musicais do Jimi Hendrix, The Doors, isso tudo a gente passava através da palavra. Não era simplesmente rodar.

Mary Mezzari: Sempre rolaram algumas situações meio absurdas nas transmissões da Ipanema. Uma, mais recente, foi a seguinte: eu sou muito fã de programas tipo Arquivo X... E vivia falando isso no ar. Até que um uma senhora me ligou, dizendo assim: “eu não sou ouvinte da Ipanema, mas meu filho é... E eu gostaria muito que tu falasses com ele... É que ele abre a janela do quarto dele e começa a gritar: ‘me levem, me levem, por favor!’ Diz aí no ar, por favor, que não é bem assim ser levado pelos extraterrestres...”

Aí eu disse: “não, minha senhora... É coisa de garoto... Claro que ele não quer ser levado!” E a senhora: “mas quando o meu filho briga comigo, ele vai pra janela e grita pros ETs levarem ele!”

Então, falei no ar: “Fulano, não fica pedindo pros ETs te levarem... Nem sempre pode ser legal, eles podem fazer experiências...” Dediquei depois a música do Arquivo X pro guri. Essa coisa de CVV acontece, acontecia muito...

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ENTRANDO NA RAIA

Kledir: A gente já estava no Rio de Janeiro desde 77 com os Almôndegas. Depois que a banda acabou, eu viajei pela América Latina e acabei indo pra Nova Iorque um tempo. Então voltei pro Rio, de onde não saí mais.

A música “Deu pra ti” foi criada em 81 e gravada em 82. Ela remete a uma situação de exílio: eu morando fora e vendo Porto Alegre de longe. Essa música consegue tocar os gaúchos, principalmente aqueles que vivem fora. As pessoas que querem matar a saudade de Porto Alegre cantam “Deu pra ti”, e se emocionam. Ela virou uma música emblemática por esse caráter de exílio, e porque canta as coisas legais que aconteciam em Porto Alegre na época.

Nesse momento foi quando muitos compositores e músicos de Porto Alegre foram viver no Rio. O Brasil estava num processo de abertura e descobrindo que o Rio Grande do Sul também podia fazer música popular.

Júlio Reny: Quando saí do hospital psiquiátrico, meados dos anos 70, falei pros velhos o seguinte: “bah, quero tocar. Montar uma banda de rock. Aí está a solução de todos os problemas”.

Eles perguntaram: “tu tem os caras pra tocar?” E eu respondi: “isso aí a gente arranja”.

Ganhei uma guitarra bem baratinha, tudo bem varzeano, e comecei.

Julio Furst: O Discocuecas foi um grupo de humor, sátiras musicais, que fizemos em 77: eu, o João Antônio, o Beto Roncaferro e o Gilberto Travi – que depois, inclusive, montou a banda Cálculo 4. O nome era por causa do ódio às cadeiras de cálculo na faculdade...

Da cintura pra cima, era tudo formal nos Discocuecas. Mas da cintura pra baixo, era só de cuecão. Nós também fizemos dance music, porque era a época da discoteca.

Careca da Silva: Trabalhei com o João Antônio, dos Discocuecas, o Toninho Badaró... A gente montou a banda Kafka Bar, e ele era o guitarrista. Depois, eles montaram o Sgt. Peppers, e eu também toquei um tempinho bateria. Nos Irmãos Brothers, eu também tocava bateria. Depois disso vieram os Totais. Isso foi em 84.

Paulo Audi: Eu fui produtor do Raiz de Pedra, comecei em 1979. Nós formamos o grupo na mesma época do Cheiro de Vida e o Nei Lisboa, que também estava iniciando. Foi o início de muita coisa, de muita efervescência, de shows no Araújo Vianna, todos lotados. Nós mesmos colávamos os

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cartazes nas ruas. Fazíamos todo um trabalho de base.

Carlos Eduardo Miranda: Teve um festival no Anchieta, ainda nos 70, que o Cau Hafner me convidou pra tocar junto com ele. O Cau: “porra! A gente precisa tocar nesse festival”. E eu, meio assim, pensava: “pô, mas esse cara é de outra turma...” Juntamos mais uns amigos e fomos fazer loucuradas no festival. Nem lembro qual música tocamos, esqueci completamente porque estava muito bêbado naquele dia. Eu devia ter uns quatorze anos, e fiquei bebendo um garrafão de vinho com uns moleques...

Paulo Mello: O Taranatiriça começou em 79, mas eu não tocava com eles nessa época. Então, depois de ficarem um tempo sem tocar, decidiram ser power trio – aí eu entrei e começamos a cantar, em 83. Foi o Cau Hafner quem me chamou pra tocar baixo. E no final de 83, o Alemão Ronaldo entrou.

Carlos Eduardo Miranda: E então o Cau começou a armar altos shows: no Americano, Sevigné. Projetava slides, soltava balão, fazia efeitos de fumaça. Já no primeiro show do Taranatiriça, que foi junto com Raiz de Pedra e Cheiro de Vida, o Marcelo Truda inventou de trazer um pó daqueles de preto velho, com dois pregos e um bombril numa tábua, pra fazer uns efeitos especiais. Fomos detonar aquela coisa na hora do show e só sei que queimou o amplificador, explodiu!

Acabei tocando sem microfonação, sem nada no piano. Depois todo mundo veio me elogiar, dizendo que eu tinha tocado pra caralho... Mas ninguém ouviu porra nenhuma! Eu tocava com os pés, com a cabeça em cima do piano, e fazia uma cena do caralho. E o show era todo era assim, enfumaçado. Era pirotécnico.

Pra época, era o máximo. Era coisa que o Cau gostava, ele adorava essa firula. Curtia pra caralho. Ele sempre tinha um recurso novo, óculos com luz, e coisas do tipo.

Flávio Santos: A ideia do Taranatiriça era fazer coisas mais pra atingir os amigos, nossa turma. Logo que entrei na banda, montamos um show no colégio Americano. Fizemos uns cartazinhos que não eram nem A4 – eram umas coisas vagabundas, mimeografadas. Mas que adiantaram: lotou o colégio. E o som, era instrumental. Só pra ver como as pessoas queriam escutar coisas diferentes: porque rolava muita MPB, violãozinho, protesto e engajamento. Mas aquele engajamento já pobre, meio cansado. E nós não reclamávamos de nada, mas fazíamos barulho. Pra nós era perfeito.

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Ivo Eduardo: No início do meu envolvimento com a música, fiquei amigo de um colega do meu irmão, o Augusto Maurer, e tocávamos lá em casa: guitarra e bateria. Quando fomos num show do Hálito de Funcho, conhecemos o Bolão, guitarrista, que em seguida trouxe um flautista. O Augusto passou a tocar baixo. Éramos então um quarteto de bossa e jazz.

Já na Escola da Ospa, conheci três caras que tinham uma banda sem baterista: o Adolfo Almeida Jr, o Edson Michels e o Rogério. Os três também cantavam e compunham. Formamos o Bosque das Bruxas, com um repertório que incluía desde rock leve a pesado, baião, qualquer coisa. Eu inventava uma levada diferente pra cada música. E todas as letras falavam de criaturas ou acontecimentos em um bosque encantado.

Kledir: Não havia a intenção explícita de formarmos a dupla Kleiton & Kledir. Mas o sucesso que “Maria Fumaça” acabou fazendo, depois de termos participado com ela de um festival no final de 1979 em São Paulo, nos levou a uma assinatura com a Ariola – que estava entrando com força no Brasil e contratando muitos artistas.

Júlio Reny: Gravei “Cine Marabá”, e a música estourou de uma maneira insólita. Eu larguei a fita pro Mauro Borba tocar na rádio, mas não tocou. Depois ele me disse que havia perdido a fita. Mas eu tinha outra cópia, e entreguei pra ele de novo. A música estourou, mas ao mesmo tempo, a banda começou a se desmanchar. Eu pensei em gravar uma fita-cassete, e o meu projeto era fazer uma gravadora de fitas. Era 1980, e a minha mulher na época, a Elvira Machado, montou com uns amigos uma loja de artigos alternativos de música, a Armação – bem na frente do que depois veio a ser o Garagem Hermética. Consegui lançar a fita, mas vendi só meia-dúzia de cópias.

No final de 83, eu acabei quebrado: tinha imposto de tudo, todo mundo me cobrando, e eu fiquei à deriva. Eu tinha mandado a fita pra umas rádios do Rio de Janeiro, e fiquei sabendo que a música estava tocando muito por lá, junto com uma banda chamada Paralamas do Sucesso!

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"A ideia do Taranatiriça era fazer coisas mais para atingir os amigos." A banda na sua formação de 81: M arcelo Truda, Cau Hafner, Carlos Eduardo M iranda, Flávio Santos e Rodrigo Correa

Mauro Borba: Quando o Júlio Reny gravou “Cine Marabá”, a Bandeirantes FM tinha o estúdio na José Bonifácio e o Júlio morava na Santana, bem pertinho. Ele foi lá e me deixou a fita, achei bem interessante. Aí rodei a música e comentei no ar que tinha achado muito legal, que gostaria de ter um contato com o autor. E dez minutos depois o Júlio Reny chegou, porque ele morava ali na esquina. Ficamos amigos.

Bebeco Garcia: Eu toquei com Bixo da Seda, Liverpool, mas vim um pouquinho depois deles. Quando cheguei na parada, eles já estavam, já eram os caras. Toquei com todos eles, mas num esquema tipo “o garotão que está chegando”. Aquele lance: “pô, legal, vamos convidá-lo pra tocar com a gente!”, coisas assim.

Carlo Pianta: No início dos anos 80, Porto Alegre ficou sem nenhuma referência musical. Tipo música popular gaúcha: Jerônimo Jardim, os Almôndegas também tinham baixado a poeira... A sensação geral do país era de que nada dava em nada. Um ostracismo absurdo.

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Então, teve um novo projeto, o Explode 80, em que tocou o Bixo da Seda, o Mutuca, bandas instrumentais que ainda estão em atividade... A banda Semente, o Cezinha Eutanásia, que depois virou Joe Eutanásia e fez parceria com a Neuzinha Brizola com a música “Mintchura”. Outra coisa que testemunhei foi o show Deu pra ti anos 70, do Nei Lisboa, no Teatro Renascença, em 81, 82...

King Jim: Algumas bandas gaúchas fizeram sucesso no Rio de Janeiro nos anos 80. Os Garotos da Rua, o TNT, os Engenheiros, o De Falla e os Replicantes fizeram um show no Canecão. Mas os caras resolveram dar apenas meia hora pra cada uma das bandas. Quando o pessoal começava a se empolgar, os caras desligavam o equipamento no meio da música! Uma coisa horrível.

Carlos Branco: Fiz um trabalho com o Jimi Joe em 81, 82, chamado Quem tem QI vai. Um espetáculo com a participação do Paulo Leminski e com a montagem do Luiz Carlos Retamoso. Teve uma vez que nós distribuímos lanternas pras pessoas na entrada – então o público fazia a iluminação. O show estreou no IAB, e foi pro teatro Presidente, onde o Nei Lisboa participava.

Carlos Eduardo Miranda: Tocamos no Araújo Vianna em 1982, num concurso de halterofilismo: eu no sintetizador e o Marcelo Truda na guitarra. O King Jim estava junto nessa, também. O King sempre foi parceiro das aventuras.

Teve um momento em que as pessoas começaram a ir embora do show. No meio da plateia só ficaram os loucos. Entre eles o Jimi Joe – que tinha um negócio chamado Quem tem QI vai.

Ivo Eduardo: Logo que abri meu estúdio, as bandas cediam equipamentos em troca de períodos de ensaios, até que eu pudesse comprar o meu próprio equipamento. Alguns desses parceiros foram o Renato Mujeiko, o Saracura e o Garotos da Rua. Peguei o começo de Garotos da Rua, Os Eles, Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, TNT, Nenhum de Nós. Trabalhava direto com algumas bandas, fazendo shows ocasionais com outras.

Alemão Ronaldo: Em 82 encontrei o João Guedes, meu parceiro dos tempos de baile. E de brincadeira a gente começou a Bandaliera. Naquele fatídico três a dois pra Itália, que eliminou o Brasil na Copa do Mundo de 82. O Marcinho Ramos entrou na banda um ano depois.

Paulo Mello: A Bandaliera já existia, tocava num bar, e o Alemão Ronaldo era o baterista. Mas era a fim de cantar. E viu que estávamos sem cantor, e começou a botar umas músicas do Fughetti na roda. Nós tirávamos elas juntos e, dali um pouco, a gente já estava tocando “Rockinho”. O Alemão

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contava umas histórias do Bixo da Seda, que ele conhecia, porque também era do IAPI.

Fughetti Luz: O Alemão Ronaldo, o João Guedes e o Otavinho andavam sempre juntos. Eles nos acompanhavam desde guris, eram nossos fãs no IAPI: começaram a ouvir rock’n’roll pelo Bixo da Seda. E a Bandaliera ficou forte quando eu encontrei eles tocando num bar na Protásio Alves. Eles já tinham esse nome. O Marcinho Ramos estava junto. Ele tocava muito!

E aí montei um time pra jogar. Caímos na estrada: abríamos os shows juntos e depois eu deixava eles na raia. Meu papel era mais compor e levar os guris pra tocar em lugares: cantar algumas músicas com eles. Compus um monte de músicas. “Campo minado” é uma delas. Depois de “Rockinho”, do Taranatiriça, ela virou o hino da outra geração.

Juarez Fonseca: As coisas mudaram em 83, com o disco Rock Garagem. O rock, como movimento, como uma coisa coletiva. Foi a partida do estouro do rock nacional, de Blitz, que veio pra cá e aconteceu aqui também. Até a década de 80, a música brasileira era meio paradona. Então o rock entrou com uma linguagem brasileira, mesmo que influenciada pelo rock internacional. O Rio Grande do Sul teve sorte por ter acontecido o festival Rock Unificado.

Solon Fishbone: Tenho dois irmãos mais velhos que sempre fizeram um som em casa, quando eu ainda morava em Caxias. Eu estava sempre ali, dando um bico nos ensaios dos caras, e aprendi a tocar bateria. Em 82, viemos morar em Porto Alegre, perto do Teatro Presidente. Conheci um pessoal, e formamos uma banda que se chamava Nó na Traqueia. Existe uma gravação em que eu toco no violão uma música chamada “Rollzinho”. Tipo, “Rockinho” do Taranatiriça.

Até que um dia uns caras me ligaram, e me disseram: “estamos precisando de um baixista pra tocar numa banda e fazer um show lá no IPA”. Então eu fui. Não era um festival, apenas um show, e a banda ainda nem tinha nome. Foi quando eu conheci o KCláudio. Ele era o baterista. Eu entrei na banda, que passou a se chamar Prize.

Bebeco Garcia: Os Garotos da Rua começaram como um trio, se apresentando, durante todo o inverno de 83, no Rocket 88, o bar que era do Mutuca. Era eu, o Mitch e o Edinho.

Mitch Marini: Eu montei os Garotos da Rua. Começamos a tocar na minha casa: eu, o Bebeco e o Edinho Galhardi. Toquei um ano com eles e fui convidado pra entrar no El Dragón, uma banda de Buenos Aires. No fim, não consegui nada e a banda faliu. Fiquei meio de bobeira e então montei o Câmbio Negro.

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Bebeco Garcia: Tinha um cara que ia todas as noites no Rocket 88 ver os Garotos. Ele gostava da gente. Só que durante esse período ele foi se transformando, enlouquecendo – chegava com presentes, sempre gastando muito.

Foi quando começamos a perceber que ele estava esquisito. O cara dizia: “a partir de agora tu não precisa te preocupar com mais nada: eu vou cuidar da tua vida, vou te dar dinheiro...” Ninguém levava aquilo a sério. “Onde você quer morar, vou te arrumar um apartamento. Eu sou seu pai, e tudo que tu precisar eu vou te dar!” E assim foi...

King Jim: No início do Garotos, os shows eram no bar do Mutuca, o Rocket 88. E tinha um cara do interior, plantador de arroz, que adotou a banda. O cara era endinheirado, mas mandava toda grana pro espaço, queria construir um prédio pra toda banda morar junto... A música “Levaram Ele”, que está na coletânea Rock Garagem, é sobre esse cara: ele foi preso, e nos ligou pedindo socorro, porque a Polícia o tinha pego com drogas...

Bebeco Garcia: Ele tinha grana – a família tinha. Numa tarde nós estávamos ensaiando e ele passou no ensaio. E disse: “Vou comprar umas roupas pra vocês!”. E foi pro Iguatemi – e invadiu o shopping de carro. Invadiu com o carro adentro!

Ele prometia: “eu sou Deus, eu vou te dar tudo, casa pra morar, cocaína pra cheirar... mulher pra comer. Quer dinheiro? Toma! Esse dinheiro é teu, meu filho!”. Me deu um cheque em branco uma vez. O cara era louco, maluco. E foi internado. “Levaram Ele” foi feita pra esse cara. Parece que hoje ele está plantando arroz por aí.

Carlos Branco: Eu participei de algumas coisas interessantes, como o Atahualpa y us Pânques. Era o Miranda, eu, o Paulo Mello e o Jimi Joe. Fizemos um primeiro ensaio, e eu disse: “isso não é muito a minha praia!”. Eu estava querendo fazer algo diferente, mas a banda era mais rock.

Júlio Reny: Montei uma banda chamada Os Topetes. Fomos tocar no Ocidente e tivemos o azar de que, no mesmo dia, era o aniversário da Biba, e estava vazio o bar. Precisávamos de um guitarrista e chamamos o Edu K. Depois, fizemos um show lá na garagem da minha casa na Santana. Lotou. Foi nos fundos, abrimos a casa e lotou de galera. O Edu estava tocando na Fluxo, e entrou na nossa banda.

Carlos Eduardo Miranda: Na verdade, eu fui meio que expulso do Tara. O Cau estava indo pra um lado, querendo fazer rock’n’ roll, hard rock. O Truda, como um bom guitarrista disso, estava com

Referências

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