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Turma e Ano: Direito Marítimo / 2016 Matéria / Aula: Tribunal Marítimo / 05 Professor: Marcelo David
Monitor: Lívia Dias Bria
Aula 05
Já fechamos o assunto muito importante que diz respeito ao Domínio Marítimo. E agora vamos falar sobre o segundo tema mais relevante de provas de concurso que diz respeito ao Tribunal Marítimo.
Tribunal Marítimo
Se estamos falando de Direito Marítimo, falar do Tribunal é absolutamente indispensável, tendo em vista que o Tribunal que julga as demandas do Direito Marítimo.
Há varias coisas importantes que precisamos saber sobre Tribunal Marítimo, até para corrigir uma falha, uma lacuna que existe no estudo nas faculdades, que não ensinam, em sua maioria, Direito Marítimo.
O Tribunal Marítimo tem como Lei Orgânica a Lei nº 2.180/54. Tudo que diz respeito ao Tribunal Marítimo está em uma lei própria. Essa Lei nº 2.180/54 tem tudo que envolve Tribunal Marítimo. Ela trata da natureza, da composição, explica a jurisdição, competência, processo, recursos, penas, etc.
Em relação ao Tribunal Marítimo, vamos falar de um órgão absolutamente sui generis no âmbito da Administração Pública Federal brasileira. Não há nada sequer parecido com o Tribunal Marítimo, em termos de jurisdição, de competência, de organização, de natureza jurídica, etc. Então, o Tribunal Marítimo é um órgão muito especial, muito diferenciado. É preciso dar uma explicação até no sentido da razão de existência desse Tribunal, para termos uma ideia do “por que é?”, e não só do “o que é?”.
Em relação ao Tribunal Marítimo, a primeira coisa fundamental para criar uma base e compreender corretamente a disciplina, é analisar as razões, as motivações de criação do próprio Tribunal Marítimo. Ou seja, o que fez o legislador brasileiro entender pela necessidade de um Tribunal Marítimo há 80 anos. Por que o Estado brasileiro chegou à conclusão que tinha essa necessidade, quais foram as razões de sua existência?
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1) Razões de ser do Tribunal Marítimo
1.1- Controle da navegação comercialTemos duas marinhas: a Marinha de Guerra e a marinha mercante. A marinha mercante é a navegação comercial, é a responsável pelos navios mercantes. A navegação comercial corresponde a 95% do comércio mundial. 95% de tudo que o mundo produz, importa, ou exporta, é feito através de navios. Aqui no Brasil, esses números chegam a quase 96%, ou seja, 96% de tudo que o Brasil importa ou exporta é feito por navios. Só por meio desses números, temos a ideia da dimensão, da importância da marinha mercante. Ela é a atividade mais importante do ponto de vista econômico do Estado Brasileiro, pois 96% das nossas trocas comerciais internacionais é feita por navios. Há uma absoluta concentração da economia do país e também mundial nas embarcações, na navegação comercial.
A navegação comercial precisa ser, e é, uma atividade estratégica do Estado brasileiro. É uma atividade estratégica do Estado, pois representa a riqueza do Estado, representa a repercussão econômica do Estado. Essa atividade, indiscutivelmente, é uma atividade estratégica do país, sendo assim, nosso Estado resolveu criar um Tribunal específico para o julgamento desta atividade, que é o Tribunal Marítimo. O Tribunal Marítimo foi criado para ser o órgão de controle, de gestão, de fiscalização da navegação comercial. Ele foi criado porque essa navegação é uma atividade estratégica do Estado Brasileiro, portanto, há necessidade de um órgão técnico, específico, especializado e centrado nas questões que envolvem as marinha mercante. Questões que envolvem os marítimos, os profissionais, os armadores, os proprietários, os operadores, as autoridades portuárias, etc, porque isso é uma atividade extremamente peculiar, e ao mesmo tempo, muito importante, fundamental à economia do país.
Então foi criado um tribunal com a atribuição específica de julgar e monitorar essa atividade para que ela não sofra solução de continuidade, para que seja preservada a segurança da navegação, para que essa navegação flua corretamente sem nenhum risco e problema, porque isso significa dizer que a economia brasileira está fluindo adequadamente. E o contrário é absolutamente verdadeiro. Se essa atividade sofre percalços, estará sangrando a economia nacional.
Exemplo: Quando há um acidente envolvendo a marinha mercante, isso vai para a primeira página de jornal. Não há pessoa que não fique impressionada se um navio encalha no acesso do porto de
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Santos. Se um navio encalha no porto de Santos, todos, até os leigos, ao verem aquela manchete no jornal, têm uma noção de que aquele acidente gera uma repercussão econômica de alta escala. Isso se dá porque aquele navio carrega centenas de toneladas de produtos e mantimentos, que podem, inclusive, ser perecíveis. Ademais, no momento que ele encalha, interrompe o movimento dos navios que entram e saem do maior porto do país. Cada navio parado por dia representa algo em torno de 35 a 40 mil dólares de prejuízo por dia. No momento que o navio está encalhado no porto de Santos, muitos navios não podem entrar ou sair, então multiplica-se por 40 mil dólares/dia o prejuízo de cada um desses navios por conta daquele acidente. Fora questões de seguro, atividade portuária, taxas portuárias, que são sempre valores altíssimos.
Todo mundo enxerga que esse tipo de encalhe gera esse tipo de repercussão, mas a grande maioria leva essa repercussão à atividade privada. A grande maioria pensa que o armador do navio está em prejuízo, que o operador portuário está tendo prejuízo, que o segurador da carga está tendo prejuízo. As pessoas imaginam que é uma atividade comercial e aqueles que desenvolvem esta atividade comercial que têm o prejuízo. O que a grande maioria não enxerga é que um navio parado no acesso ao canal do porto de Santos não gera apenas e tão somente esses prejuízos à iniciativa privada. Ele gera, antes de tudo, um enorme prejuízo à economia nacional, ao poder público brasileiro. A balança comercial do Brasil naquele mês do acidente estará afetada. Ou seja, além da repercussão privada, há uma enorme repercussão pública, porque se aquela atividade corresponde a 96% do comércio internacional brasileiro, se um navio está interrompendo o maior porto do país, isso significa dizer que a economia do Estado brasileiro será afetada. Isso significa emprego, imposto, restrição à economia nacional, recessão, etc. Não é apenas um prejuízo particular, há também um enorme prejuízo público.
Então, o poder público criou um Tribunal para que esse Tribunal aprecie qual foi a razão técnica, náutica, marítima que provocou o encalhe daquele navio no porto de Santos. É fundamental ter um Tribunal isento, imparcial, tecnicamente preparado para dizer as razões desse encalhe, para que isso repercuta em várias situações absolutamente essenciais ao Estado brasileiro. A primeira delas: para que novos navios não encalhem. Ou seja, é essencial ter um Tribunal Marítimo que julgue a motivação que gerou o encalhe daquele navio específico para que aquele motivo possa ser corrigido. Se o tribunal disser que há assoreamento no canal do porto de Santos, terá que, obrigatoriamente, ocorrer um serviço de dragagem. Esse serviço é caro, mas absolutamente essencial, pois se o canal continuar assoreado outros navios poderão encalhar, o calado do porto é afetado, isso significa dizer
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que diversas embarcações poderão evitar os portos brasileiros e, numa grande concorrência internacional, o Brasil poderá perder divisas, recursos, impostos, exportação, importação, etc.
Isso gera um reflexo econômico enorme. Então é preciso saber de maneira técnica, imparcial, neutra, por que o navio encalhou no porto de Santos. Criou-se um Tribunal para poder afirmar à Administração Pública a motivação daquele acidente marítimo para que o poder público tome providências para que novos acidentes não ocorram. A primeira repercussão fundamental é uma questão profilática. O Tribunal é técnico, especializado, conhecedor profundo da matéria, é isento, imparcial, e vai apontar com rigor a causa, a responsabilidade para que o Estado possa agir e para que os culpados sejam punidos. O Tribunal gerencia e controla a marinha mercante, então, estão jurisdicionados ao Tribunal Marítimo o comandante de navios, o chefe de máquinas, o marinheiro de convés, o prático da embarcação, o armador, a autoridade portuária, todas as pessoas envolvidas na marinha mercante. O Estado brasileiro, tendo esse Tribunal Marítimo, pega suas decisões, seus Acórdãos e usa para corrigir problemas futuros, e não provocar solução de continuidade nessa atividade tão essencial para o Estado brasileiro.
Fazendo um paralelo, não existe um Tribunal aeronáutico no Brasil. Justamente porque não existe, se perguntarem por que aquele avião que caiu no Aeroporto de Congonhas e gerou o maior acidente aéreo da história do Brasil, ninguém sabe responder. Ninguém sabe quais foram as razões técnicas que geraram aquele acidente, nem as famílias das vitimas sabem. Isso se dá porque não tem um tribunal técnico, pré-estabelecido, imparcial, que admite contraditório, ampla defesa, prova técnica, advogado, etc. Tudo é feito como numa caixa-preta. Técnicos de um departamento específico, sem nenhuma publicidade, vão apurar num inquérito quais foram as causas. Agora, se perguntarem por que a plataforma P-36 da Petrobras explodiu, onde morreram 11 pessoas, gerou o afundamento da plataforma e um prejuízo de mais de 500 milhões de dólares, é só procurar o processo no Tribunal Marítimo. Lá é possível ver provas, perícia, contraditório, ampla defesa, advogados, julgamento, tudo com publicidade, transparência e acessível a todos. Depois desse acidente nenhuma outra plataforma explodiu. Isso se dá porque aprendemos com aquele acidente, porque o Tribunal Marítimo julgou, apontou responsáveis, apontou os erros, e aquela decisão serviu de uma forma profilática para evitar novos acidentes.
A primeira razão de ser essencial é que o poder público entendeu que precisava de um tribunal que julgasse os acidentes que envolvem a principal atividade econômica do país, que são aqueles da navegação comercial. Um tribunal que fosse técnico, ao mesmo tempo, não atrelado a nenhum
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órgão, não subordinado a nenhuma instância, para que ele não tivesse preso a interesses de quem quer que seja. Um Tribunal que pudesse, de uma forma imparcial, apontar a causa determinante do acidente, e aquela sua decisão pune os responsáveis no âmbito da administração Pública e repercute na própria Administração Pública, para que medidas sejam tomadas e novos acidentes não venham a ocorrer.
1.2 – Questões Securitárias
Diferente do que ocorre com aqueles que têm carro, que podem optar entre fazer ou não o seguro, a navegação não tem essa opção, o seguro é obrigatório. Não pode existir navegação comercial sem seguro porque o risco é muito alto, os valores envolvidos são estratosféricos, as repercussões que podem ocorrer são catastróficas. Então, toda atividade da marinha mercante, obrigatoriamente, tem que ser segurada. Quando se fala dos maiores acidentes ambientais do mundo, todos eles foram ocasionados por navios. Os navios transportam toneladas de produtos que podem ser tóxicos, poluentes, então a repercussão que um acidente marítimo pode dar no âmbito da poluição é imenso, de valores incalculáveis, então é preciso ter seguro.
Um navio é um bem que barato custa 60 milhões de dólares, é maior em comprimento do que duas vezes o campo do Maracanã, corresponde a um prédio de 7 andares de altura, é feito e chapa de aço com duplo fundo, que transporta centenas de toneladas de produtos e contêineres. Além de valer 60 milhões de dólares, ele carrega em média, em valor agregado, de 3 a 7 vezes o seu próprio valor, então, estamos falando de 400 milhões de dólares em um navio. Toda essa atividade é feita no mar, nos rios, sujeito a intempéries, maremotos, tufões, maré, variações climáticas, ventos de alta escala, num objeto que não tem freio, que pesa e transporta toneladas, e que, por uma lei da física, só vai parar quando encontrar outro corpo igual ou superior a ele. Então, um navio, se vai fazer uma atracação em um terminal, ou um porto e perde o momento da manobra e se choca com o terminal, essa colisão vai destruir tudo que tem pela frente, até que o navio encontre algo que seja igual ou superior a ele na sua massa ou peso. O prejuízo que isso pode gerar é enorme. Então, toda atividade marítima precisa ter seguro pelo risco da atividade.
Toda vez que há um acidente há sempre uma discussão privada que envolve o seguro. Porque, se houve um acidente, estamos falando de valores muito altos. Se um navio dá uma encostadinha, estamos falando de 10 milhões de dólares. Então, como os valores são muito altos, toda atividade da marinha mercante é segurada, quando há um acidente, há outra discussão fundamental: quem vai
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pagar? Quando vai pagar? Quem é responsável? Aquele que é segurado agiu por imprudência, imperícia e negligência, portanto, fora do risco assumido e a seguradora não vai pagar? A decisão do Tribunal Marítimo é que vai influir nessa resposta. Só para ter uma ideia, a apólice do seguro do casco, tem regra obrigatória da SUSEPE determinando que a liquidação fica condicionada à decisão do Tribunal Marítimo. Então, se o Tribunal Marítimo disse que no afundamento da P-36, que gerou 500 milhões de dólares de prejuízo econômico, a culpa é da própria Petrobras, aquela seguradora pode dizer que não vai pagar, porque a Petrobras agiu provocando o dano e não será indenizada.
Portanto, essa questão de interesse privado no setor do seguro é outra repercussão muito importante, e é uma das razões de ser do Tribunal Marítimo. A decisão do Tribunal Marítimo vai influir em milhares de dólares na questão securitária.
1.3 – Auxiliar o Judiciário
O Tribunal Marítimo não integra o Poder Judiciário, ele pode ser comparado ao TCU. O TCU é um Tribunal, tem juízes que gozam de vedações e garantias da magistratura, ele julga, mas seu julgamento não faz coisa julgada, no sentido de decisões do Poder judiciário, e o TCU não integra o Poder Judiciário, o TCU está para o Poder Legislativo. O Tribunal Marítimo é composto de juízes, toma decisões em jurisdição, tem competência, suas decisões não fazem coisa julgada judicial, apenas administrativa, e o Tribunal está para o Poder Executivo, assim como o TCU está para o Poder Legislativo. O Tribunal Marítimo não integra o Poder Judiciário, não é órgão do Poder Judiciário.
O Tribunal Marítimo é um órgão auxiliar ao Poder Judiciário, a própria lei que criou o Tribunal Marítimo o define assim. Isso significa que, quando há um acidente ou fato da navegação, o Tribunal Marítimo julga esse acidente de maneira técnica, dizendo qual foi a causa deste acidente. Depois que ele julga, ele pega esse Acórdão e remete às instâncias específicas do Poder Judiciário para que aquela decisão dê auxílio técnico ao juiz criminal, cível, do trabalho, porque aquela informação técnica os outros juízes não dominam, quem domina é o Tribunal Marítimo.
Isso ocorre em termos práticos da seguinte forma: como regra, a gente se forma, estuda direito, vira advogado ou faz concurso sem nunca ter estudado uma linha de Direito Marítimo. Recentemente um pesquisador fez uma dissertação de mestrado demonstrando que nos últimos 10 anos não caiu nenhuma questão sobre Direito Marítimo nas provas de juiz federal. Ou seja, as pessoas não sabem e
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não são questionadas sobre Direito Marítimo. E quem vai julgar, por exemplo, um dano ambiental de 2 bilhões de reais causado por um acidente com a operação de um navio é um juiz do Poder Judiciário que não sabe nada de Direito Marítimo. Esse juiz vai ter na sua frente os principais processos envolvendo questões de direito marítimo. Como envolvem muito dinheiro vão ter as maiores bancas de advogados do Brasil e do mundo, os maiores peritos do mundo, empresas de salvatagem do mundo, e o juiz que vai julgar quem tem que reparar 2 bilhões de reais não sabe onde é a proa e onde é a polpa do navio.
Portanto, o legislador criou um órgão técnico, especializado, que sabe tudo sobre Direito Marítimo, e esse órgão vai julgar o que aconteceu e depois vai enviar esse julgamento para o juiz cível, esse juiz vai ler o Acórdão do Tribunal Marítimo e vai passar a entender o processo e poderá dar prosseguimento. Entendendo porque a P-36 explodiu, um juiz criminal que irá julgar as 11 mortes, poderá dizer se é um crime culposo, se há dolo eventual. O juiz cível, que vai julgar a reparação financeira desse acidente, já sabe a quem imputar a condenação. O juiz trabalhista consegue entender por que aconteceu aquele acidente de estiva e passa a ter condições de julgar. O Tribunal Marítimo também foi criado para ser um órgão que auxilia o Poder Judiciário, remetendo às instâncias especializadas do Poder Judiciário a sua decisão, para que aquela decisão repercuta como uma prova técnica, especializada e de alto valor perante os órgãos do poder Judiciário.
Exemplo: acidente do Bateau Mouche. Quando acontece um acidente como esse, pelo menos três instâncias vão funcionar paralelamente, há uma competência concorrente. A primeira instância é a penal, vai ter um processo criminal que vai julgar as 50 mortes; haverá também uma instância cível, há um processo cível para julgar a reparação. Esse processo cível não tem nada a ver com o processo criminal, são instâncias concorrentes, paralelas. Tem também o processo no Tribunal Marítimo. São três processos diferentes. O processo criminal vai julgar o homicídio, o cível julga a reparação, e o processo no Tribunal Marítimo julga as razões técnicas que fizeram o Bateau Mouche naufragar. Depois que ele diz tecnicamente porque o Bateau Mouche naufragou, ele manda essa decisão para o juiz criminal e para o juiz cível. Porque esses vão usar essa informação como prova em seus processos específicos.
Com isso, falamos das três funções essenciais da necessidade da criação do Tribunal. Assim, nos preparamos para, na próxima aula, responder qual a natureza do tribunal e o que ele julga.