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S. Romão de Mesão Frio
Guimarães — Inquérito paroquial de 1842
Revista de Guimarães, n.º 108, 1998, pp. 403-409
1º Esta freguesia está situada na distância pouco mais ou menos
de um quarto de légua da vila de Guimarães, fica ao Nascente da mesma vila, tem situação alta e baixa, avista-se desta freguesia, ao Norte, um pinhal que divide esta freguesia da de São Mamede de Aldão; avista-se ao Nascente a Portela de Arões e o monte de Santo Antonino, avista-se ao Sul a Serra da Senhora da Penha, e ao Poente a vila de Guimarães, até ao alto da Serra do Fojo, estrada para Porto. Esta freguesia está situada em um monte chamado Mesão Frio, é alta e baixa em lugares campestres em roda do mesmo monte.
2º O seu clima é frio por cauda dos ventos e neves, que de todos
os lados a cometem, e nada mais há neste quesito digno de se notar.
3º A maior extensão que é do lugar de Margaride, que fica ao
Poente, ao lugar do Borralheiro que fica ao Nascente que fará pouco mais ou menos à distância de uma légua, caminhando sempre por monte, e a largura que é do lugar de Pousada, que fica ao Norte, até ao lugar de Serviães, que fica ao Sul, que fará distância de meia légua, e desta sorte faz o espaço de duas léguas.
4º Confina esta freguesia da parte do Nascente com o monte de
Santo Antonino, pela parte do Sul com a Serra da Senhora da Penha e Convento da Costa, pela parte do Poente com terras lavradias pertencentes às casas do visconde da Azenha e casa da viúva do rio, pela parte do Norte com a freguesia de S. Mamede de Aldão.
5º Nesta freguesia não há vila alguma, tem alguns lugares que
fazem corpo colectivo como são o lugar da Cruz de Argola que trás a sua etimologia de haver nele uma cruz e ao pé dela virem antigamente os cavaleiros de Guimarães tocar os cavalos, a Argolinha em um terreiro que ao pé dela há, o lugar de Arieiro que traz a sua etimologia por ser bastante areento, o lugar da Ribeira cuja etimologia trás a sua origem de estar em um lugar ameno e fresco, o lugar das Encadas
© Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 2 cuja etimologia é desconhecida. Há mais casas dispersas por toda a freguesia, como a residência por nela existir o pároco, Pousada cuja etimologia é diferente de seu significado, Mortório que traz a sua de etimologia de em outro tempo ter servido só de vinhas e olivais, Adeganha cuja etimologia é desconhecida, Paçô, palavra corrupta de Passo, cuja etimologia não diz o que significa e das mais casas nada se pode inferir da origem dos seus nomes.
6º A povoação geral desta freguesia se mostra pelo mapa apenso
e nada mais há digno de classificar-se.
7º E quanto aos animais quadrúpedes, há bois, cavalos e bestas
mulares, porcos, cães, gatos, coelhos, ratos, lebres, raposas, doninhas, sacarrabos, furões, toupeiras, fuinhas, martas, carneiros e ovelhas, cabras, texugos, ouriços-cacheiros, cobras, sardões e toupeiras.
Aves: perdizes, gansos, melros, estorninhos, galinholas, codornizes, cotovias, pardais, pintasssilgos, cerezinos, rouxinóis pimpalhões, taralhões, sombrias, felosas, pintarroxos, piscos, carriças, toutinegras, narcejas, corvos, andorinhas, galinhas, pintos, patos, perus, pombos, rolas, gaios, tordeias, pegas, lavercas, morcegos, corujas, mochos, noitibós, cucos, chascos, poupas e sapos leves, etc.
E quanto a peixes não os há por não haver rios.
Répteis: sapos, rãs, saramelas, lagartos e licranços. Insectos: grilos, ralos, moscas, mosquitos, abelhas, besouros, borboletas e saltões.
Vermes: minhocas, morcões e lombrigas e cabeludos.
Vegetais: couve-galega, couve-flor, couve-nabo, couve- -penca, repolho, sabóia, nabiça-couve, nabiça galega, brócolos, tronchuda, favas, ervilhas, batatas, selgas, cebolas, alfaces, pepinos, abóboras, côroa de rei, germus redondos e compridos, cabaças e calondros e morangos.
Plantas frutíferas: laranjeiras, pereiras, macieiras, limoeiros, ameixoeiras, pessegueiros, damasqueiros, cerejeiras, nespereiras, oliveiras, marmeleiros, gamboeiras, nogueiras, figueiras, aveleiras, castanheiros, moreiras, medronheiros. Ordinárias: carvalhos cerquinhos e ordinários, canas, giestas, pinheiros, salgueiros, amieiros, choupos, loureiros, sabugueiros, sobreiros e vides.
Flores: cravos vermelhos e brancos e roxos e variados, singelos e dobrados, rosas brancas, vermelhas e amarelas, singelas e dobradas, de musgo e de todo o ano em touladeiras amarelas e brancas, gaponheiros brancos e vermelhos, romãzeiras vermelhas, ranúnculos vermelhos e amarelos, tulipas, singelas e dobradas, rosas de Alexandria, goivos amarelos e vermelhos, singelos e dobrados,
© Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 3 girassóis, cravos girofles amarelos, amores-perfeitos, margaridas brancas e vermelhas, perpétuas.
Ervas medicinais: marcela, hera terrestre, cidreiras, fel da terra, flor de violeta, flor de sabugo, bordana, abotegas, hortelã, malvas, alecrim, salva , arruda, bálsamo, diabelha, avenca, botoral, alfazema, mortinhos e pojos e molarinha. Ervas odoríferas: serpão, salsa, alfádega, orégãos, malva, mentrastos e lestras. Ervas ordinárias: labaça, timbó, perrexil, manteigueira, língua de ovelha e língua de vaca, cardos, dedaleira, jarros, molar, castelhana, moura, doce e azeda, serteira, ceruda, canavedo, labrestos, urtigas, parasitas, tortulhos da terra e ditos das árvores, míscaros que se comem e que são musgos das árvores, fontes e penedos, hera e norça.
Produz este terreno: milho grosso, e é no que mais abunda, também produz trigo, centeio e cevada, milho alvo, painço, feijão, vinho, azeite, mel e linho.
Alimentos usuais: carne de porco e de boi, peixe vindo do mar, caldo de feijão, de untos e azeite, pão de milhão, e vinho mais verde do que maduro por serem pobres.
Vestuário ordinário: palmilha, saragoça, pano grosso e também algum fino, linho, estopa e algodão, chita, e alguma seda, socos, sapatos, botas e meias e muitos descalços; lenços, chapéus finos e grossos e de palha.
Consumo: regula pela produção. Peste nenhuma.
Caça: coelhos, lebres, perdizes, galinholas, codornizes, tordos, melros e gaios e tudo livre.
Minerografia das minas não consta, penedos bastantes e grossos que servem para casas, paredes, socalcos, dita fina quase nenhuma.
8º Divisão civil na forma antiga, isto é, a civil à vila de
Guimarães, por estar dentro do termo, a eclesiástica, visita do cabido de Braga e militar, administração de Guimarães desde 1834 até à dita deste e antigamente à capitania-mor da mesma vila; mudanças notáveis nenhuma, impostos da côroa e décima.
9º Edifícios notáveis nenhum, morgados nenhum, fidalgos
nenhum, pessoas distintas nenhuma, bacharéis nenhum, nem doutores.
10º Pontes nenhuma, nem bosques, o terreno cultivado será
igual ao que é por cultivar. Não tem vales compridos, tem outeiros pequenos, campos ordinários, terras maninhas nenhuma, matos ordinários, lenhas também ordinárias, águas poucas.
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11º Não há rios, nem moinhos, nem engenhos. Águas minerais
não constam. Não há lagos, nem pântanos, nem cheias, há uma fonte pública de que se serve o povo do lugar da Cruz de Argola, e algumas mais particulares pela freguesia.
12º A cultura mais adoptada é milhão grosso, o trabalho é lavrar,
cavar, sachar, podar, mergulhar e enxertar.
Instrumentos de que se usa na lavoura são: jugo, carro, arado, seitoira, grade e enxada, sachola, engaço, foice, foicinha, gadanho e alvião.
Animais empregados: bois, estrume natural junto com o artificial que se compõe de tojos, fetos, torga, saganhos, palha, erva e silvas.
Geonomia da terra: é areenta, barrenta, pedregosa e terra preta, esta fértil que toda a mais é estéril; jornais em todo o tempo do ano, oitenta réis e comer e beber.
13º Feiras nesta freguesia, nenhuma, as mais próximas são em
Guimarães em um dia cada semana; vendem-se nela objectos de toda a qualidade, e quanto aos preços é pelo que cada um pode ajustar e portanto não preço certo.
14º Há nesta freguesia: carpinteiros três, alfaiates cinco,
sapateiros dois, estanqueiros dois, um de tabaco e outro de sabão e ferreiros um, barbeiros um, sacerdotes dois, o pároco e um paroquiano egresso, proprietários trinta e nove, caseiros dos mesmos trinta e cinco.
15º Princípio e origem da freguesia ignora-se, é da Apresentação
do padroado real e consta, por tradição muito antiga, fora da colegiada de Guimarães. De costumes notáveis, nada. Romarias a que vão os povos desta freguesia são a Senhora da Madre Deus no primeiro Domingo depois da Páscoa, a Santa Marinha da Costa a dezoito de Julho, a S. Torcato no primeiro Domingo depois do dia de S. Pedro em distância de uma quarto de légua.
Divertimentos favoritos: tocar, cantar e dançar, ir aos serões, espadeladas e esfolhadas nocturnas. Vícios dominantes, nenhum, virtudes: são religiosos e tementes a Deus.
Abundância desta freguesia: é pobre, a população tem crescido a causa é incógnita.
Doenças ordinárias: defluxos, catarrais, constipações, sua cura é sangrias, sanguessugas, remédios peitorais e cáusticos. As extraordinárias são pleurizes, beliosas e gástricas. Seus remédios são os antiséptícos. Doenças dos gados são gapeiras e formigueiros, seus remédios são sangrias; extraordinárias são dores de que morrem sem remédio.
© Sociedade Martins Sarmento | Casa de Sarmento 5 Estatura dos homens de cinquenta e sete até sessenta e três polegadas, fisionomia é natural, duração de sessenta até setenta anos de idade, centenários nenhuns.
Melhoramentos ou fábricas; podem haver muitos, comércio nenhum, costumes pode haver melhoramentos com ensino público moral, literal e religioso, em romarias nada pode haver. Em agricultura, pode haver melhoramento.
16º A igreja é velha, grandeza ordinária, foi fundada, ignora-se
quando e por quem, seu nome é S. Romão de Mesão Frio. Não consta que tenha havido mudança no lugar; padroeiro a coroa. Rendeu, no tempo, dois dízimos trezentos mil réis e agora cem mil réis, residência perto da igreja, indulgências e jubileus, nenhum.
Há uma irmandade de Nossa Senhora do Rosário, Irmãos vinte, seu fundo cento e cinquenta e cinco mil réis, sufrágios, trinta missas por cada Irmão quando morre, e doze cada ano. Influência na irmandade nenhuma, pratas nenhumas, não há painéis, nem sepulcros singulares.
Altares cinco: altar-mor com o Santíssimo Sacramento e com as imagens de S. Romão e Santa Maria Madalena e a Senhora das Dores e o Menino Jesus. Há mais quatro colaterais, um da Senhora do Rosário, com sua imagem, e S. José, outro do Senhor das Chagas com a dita imagem e S. Sebastião e a Senhora da Soledade e outro de Santo António com a dita imagem e S. Roque e Santa Clara, outro de S. Gonçalo com a dita imagem.
É o que posso informar pelo conhecimento tenho o que vai na verdade e juro in sacris.
S. Romão de Mesão Frio, 9 de Maio de 1842 O abade Joaquim de Souza Queiroz