EFEITO DA SALINIDADE NOS PARÂMETROS HEMATOLÓGICOS DO JUNDIÁ
(Rhamdia quelen – Quoy & Gaimard, 1824)
HEMATOLOGICAL PARAMETERS OF JUNDIÁ (Rhamdia quelen) AS AFFECTED BY SALINITY
Sabrina Geane Ortiz de Camargo1; Juvêncio Luis Osório Fernandes Pouey2; Bernardo dos Santos Vaz3
1
Médica Veterinária, Doutora. [email protected] 2
Médico Veterinário, Doutor, Professor do Departamento de Zootecnia, FAEM-UFPel. Caixa Postal 354, CEP 96001-970, Pelotas. Campus Universitário/FAEM/DZ. [email protected]
3
Oceonólogo, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia. [email protected] RESUMO
O jundiá (Rhamdia quelen) é uma espécie de interesse econômico para região sul do RS, devido à aceitação comercial e fácil manejo, sendo uma das espécies nativas mais promissoras para o cultivo intensivo. O cloreto de sódio (NaCl) é amplamente usado em cultivo de peixes de água doce, seja para reduzir a diferença osmótica entre o plasma do peixe e o ambiente, ou para impedir o estresse de manejo e de transporte e algumas doenças. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da salinidade nos parâmetros hematológicos do jundiá. Foram utilizados 120 peixes, provenientes de cultivo, com
comprimento padrão médio de 20,4±1,5 cm e peso médio de
137,3±29,9 g. Os animais foram distribuídos em cinco caixas, com três cestos cada, com concentrações de sal de 0, 2, 4, 6 e 8 g L-1, durante 30 dias. A coleta de sangue foi realizada através de punção caudal, utilizando-se agulha e seringa contendo EDTA a 10%. As análises sangüíneas da série eritrocitária foram realizadas através de contador automatizado e as da série leucocitária em câmara de Neubauer e esfregaços sangüíneos. A salinidade não influenciou nos parâmetros hematológicos do jundiá, após 15 e 30 dias de exposição. O jundiá não sofreu estresse osmótico, durante o período de avaliação, pois não houve variação significativa da hemoglobina e do hematócrito.
Palavras-chave: hematologia, leucócitos, sangue. ABSTRACT
Silver catfish (Rhamdia quelen) is a species of economic interest for the south region of Rio Grande do Sul, due to its commercial acceptance and easy management, being one of the most promising native species for intensive cultivation. Sodium chloride (NaCl) is widely used in fresh-water fish cultivation either to reduce osmotic difference between fish plasma and environmental or prevent stress from management and transportation and a few diseases. The objective of this study was to evaluate the effect of salinity on hematological parameters of silver catfish. Hundred and twenty (120) fishes were used, originating from cultivation, with an average standard length of 20.4±1.5 cm and average weight of 137.6±29.9 g. Animals were distributed in five tanks, with three baskets each, with salinity levels of 0, 2, 4, 6, and 8 g L-1, during 30 days. Blood collection was made through caudal puncture with needle and syringe containing EDTA at 10%. Blood analyses of the erythrocyte series were performed through automatic counter and for the leucocyte series through Neubauer chamber and blood smears. Salinity did not influence hematologic parameters of silver catfish, after 15 and 30 days of exposure. This fish did not suffer osmotic stress during the evaluation period, since there was no significant variation of hemoglobin and hematocrit.
Key words: hematology, leucocytes, blood.
INTRODUÇÃO
Os animais aquáticos possuem um meio interno que é hipo ou hipertônico em relação ao ambiente, sofrendo modificações de osmorregulação, sendo que as espécies eurialinas possuem melhor capacidade de adaptação. A
maioria dos trabalhos com variação da salinidade, diz respeito às modificações hormonais (NICHOLS & WEISBART, 1985), às trocas metabólicas (ROCHE & PÉRÈS, 1983), às modificações estruturais (ZWINGELSTEIN et al., 1980) e às trocas biométricas (ALLIOT, 1982). Os peixes teleósteos de água doce mantém seus fluídos corporais hiperosmóticos, em relação ao meio externo. Para solucionar esta diferença de concentração osmótica, ocorre uma entrada de água por osmose e perda passiva de íons, produzindo urina diluída e absorção de íons monovalentes através das brânquias (EVANS, 1993). Os principais órgãos que participam desta regulação são as brânquias, o rim e o intestino. Durante a adaptação do peixe marinho ao ambiente hipotônico, o nível de íons no sangue deve ser mantido em uma maior concentração. O sal é ativamente transportado através das brânquias e ao mesmo tempo há uma pequena permeabilidade na superfície corporal. O rim tem participação através da manutenção de uma alta filtração glomerular, com reabsorção tubular dos íons filtrados, desta maneira, a produção abundante é diluída na urina. A taxa de ingestão bem como a absorção intestinal de água e sódio é menor em peixes de água doce do que os de água salgada. Contudo, permanecem dependentes da concentração salina do meio.
Os efeitos do estresse resultantes das práticas utilizadas em piscicultura e os métodos para minimizá-los têm recebido considerável atenção através dos anos (BARTON & IWAMA, 1991; CECH JUNIOR et al., 1996). A indução do estresse por práticas comuns como manuseio, alta densidade, transporte ou má qualidade da água pode incrementar a incidência de doenças e mortalidades, sendo um importante fator que afeta a economia da atividade. A inclusão de sais, particularmente, cloreto de sódio (NaCl), pode aliviar a severidade da resposta ao estresse e aumentar a sobrevivência durante o manuseio, transporte e recuperação pós-estresse nos peixes. A presença de sais, aparentemente, ajuda a reduzir a disfunção osmorreguladora (MAZIK et al., 1991; BARTON & ZITZOW, 1995).
O jundiá (Rhamdia quelen) possui uma distribuição neotropical, sendo encontrada desde o sudeste do México até o sul da Argentina, bem como na região sul do Rio Grande do Sul (SILFVERGRIP, 1996). O jundiá tem-se apresentado como a melhor espécie nativa para cultivo intensivo, por sua grande adaptação a ambientes fechados, rusticidade e facilidade de manejo (GOMES et al., 2000). Além do interesse científico pela espécie, ela contribui economicamente para região, sendo uma das mais capturadas e tendo boa aceitação no mercado consumidor (ULIANA, 1997). A utilização de sal no cultivo de jundiá é eficiente tanto no tratamento, quanto na prevenção de doenças, como a ictiofitiríase, bem como para controlar o estresse de manejo. Segundo MARCHIORO (1997), alevinos de R. quelen suportam a transferência de água de 0 a 10% (água do mar), o que indica que essa
espécie é estenoalina, e suporta até 9,0 g de NaCl L-1 por 96 horas.
TORRES et al. (1986) estudando o estresse em peixes, observaram que ocorre uma variação na estrutura, no número e nas características dos elementos sangüíneos, como: capacidade de mudança de morfologia dos eritrócitos, percentual do hematócrito e concentração de hemoglobina, dependendo do tipo de estresse sofrido, sendo que os dois últimos são indicadores clássicos de estresse (KUMSCHNABEL & LACKNER, 1993). O sal comum é amplamente usado em cultivo de peixes de água doce para reduzir a diferença osmótica entre o plasma do peixe e o ambiente, para impedir o estresse de manejo e de transporte e algumas doenças, mas seu efeito sobre o crescimento é desconhecido para a maioria das espécies (WURTS, 1995), bem como sobre os parâmetros sangüíneos. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de diferentes salinidades sobre os parâmetros hematológicos do jundiá (R. quelen).
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizados 120 peixes da espécie Rhamdia quelen,
com comprimento padrão médio de 20,4±1,5 cm e peso médio
de 137,3±29,9 g, provenientes de tanques de cultivo da estação de Piscicultura da Universidade Federal de Pelotas – Arroio Grande – RS. Os animais foram acondicionados em cinco caixas com capacidade para 1000 litros e distribuídos em três cestos por caixa, totalizando oito animais por cesto.
Após uma semana de aclimatação a 0 g de NaCl L-1, foram
aplicados os tratamentos. Cada uma das caixas recebeu as
seguintes concentrações de sal: 0, 2, 4, 6, e 8 g L-1.
Os animais foram alimentados com ração comercial com 36% PB (Umidade Max.: 12%; Energia digestível: 3.100 Kcal
kg-1; Extrato etéreo (Min.): 6%; Cálcio (Max.): 3,2%; Fósforo
(Min.): 1,5%; Vitamina C: 250 mg*), ad libidum e os parâmetros
de qualidade de água (temperatura, pH, oxigênio dissolvido e condutividade) foram monitorados, diariamente, no período da manhã. A renovação de 50% da água foi feita diariamente, mantendo-se as diferentes concentrações de sal. O experimento foi realizado no Laboratório de Ictiologia do Departamento de Zootecnia/ FAEM/UFPEL, por um período de 30 dias (novembro/dezembro de 2002), tendo amostragens em intervalo de 15 dias. Para a realização da coleta de sangue, os animais foram anestesiados (benzocaína 3 g por 20 ml álcool por 20 L de água) e seis animais de cada tratamento (2 por cesto) foram amostrados. Os principais dados biométricos (peso total, comprimento total e comprimento padrão) foram anotados e a coleta de sangue foi através da punção caudal, com auxílio de seringas (3 ml) e agulhas (25x0,7 mm) descartáveis, contendo EDTA a 10 %.
Para determinação do número total de eritrócitos (RBC
106 µL-1), do hematócrito (HCT %), da taxa de hemoglobina
(HGB g dL-1) e dos índices eritrocitários absolutos (volume
corpuscular médio (VCM fl), hemoglobina corpuscular média (HCM pg) e concentração de hemoglobina corpuscular (CHCH
g dL-1) foi utilizado contador automatizado (Cobas micros). O
número total de leucócitos (WBC 103 µL-1) foi obtido através da
contagem realizada em câmara de Neubauer, utilizando-se o diluente de NATT & HERRICK (1952) e para descrição do tipo celular e contagem diferencial foram feitos esfregaços, imediatamente após a coleta do sangue de cada exemplar. Após a secagem à temperatura ambiente, os esfregaços foram corados com May-Grünwald-Giemsa e empregados na contagem diferencial de leucócitos (linfócitos, neutrófilos, monócitos, eosinófilos, incluindo trombócitos) (ELLIS, 1977). O percentual dos diferentes leucócitos foi determinado através da contagem de 100 células para cada indivíduo.
O delineamento experimental utilizado foi completamente casualizado, com cinco tratamentos e três repetições para cada tratamento. Os resultados obtidos foram analisados estatisticamente pela análise de variância, usando-se o teste de Tukey para comparar as médias (p<0,05) e a relação entre os níveis de salinidade e os parâmetros sangüíneos foi descrita pela análise de regressão, através do programa STATISTICA (1998).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os parâmetros físicos e químicos da água (Tabela 1) monitorados durante o experimento, à exceção da condutividade, não apresentaram diferença entre os tratamentos e, mantiveram-se dentro dos padrões aceitáveis para a espécie (BALDISSEROTTO, 2003; MELO et al., 2002).
Durante o experimento a sobrevivência foi de 100%. As características biométricas médias (peso, comprimento total e comprimento padrão) dos animais utilizados em cada coleta estão descritas na Tabela 2, não sendo detectadas diferenças entre os tratamentos, nem entre os intervalos de tempo.
As diferentes salinidades não influenciaram significativamente os parâmetros eritrocitários do jundiá (Tabela 3). Alguns autores sugerem que os peixes se aclimatam a variação de salinidade, depois de um certo tempo de exposição (ROCHE et al.,1989), talvez com intervalos menores de observação, pudesse ter sido evidenciada alguma diferença.
O número total de eritrócitos (RBC) apresentou uma pequena tendência a elevação aos 15 dias, mas aos 30 dias houve uma clara tendência ao decréscimo, com a elevação da salinidade (Figuras 1 e 2). O mecanismo que regula a produção de eritrócitos em peixes é pouco estudado, mas de acordo com HOUSTON (1980), o processo é aparentemente influenciado por uma série de fatores intrínsecos e ambientais.
Tabela 1 – Média e desvio padrão dos parâmetros de qualidade da água observados durante o experimento. Tratamentos (g NaCl L-1) Condutividade (µS cm-1 ) Temperatura (ºC) Concent.O2 (mg L -1 ) % O2 pH 0 0,3±0,2e 21,5±1,4 7,6±1,0 87,8±10,7 7,1±0,3 2 4,1±0,4d 21,3±1,3 7,4±1,1 86,3±11,7 7,4±0,4 4 7,1±1,4c 21,5±1,5 8,1±1,2 93,0±11,7 6,9±0,3 6 9,7±2,3b 21,4±1,4 7,9±1,2 91,3±13,8 6,9±0,3 8 12,8±2,9a 21,4±1,4 7,5±1,0 87,0±11,7 6,9±0,3
Letras distintas na coluna indicam diferença significativa pelo teste de Tukey (p<0,05).
Tabela 2 – Média e desvio padrão das principais medidas biométricas do jundiá (R. quelen) submetido a diferentes salinidades. Salinidade (g NaCl L-1) Parâmetro Dias 0 2 4 6 8 Peso 0 162,7±28,5 135,2±19,5 132,5±30,8 129,7±46,4 126,0±15,7 15 161,7±26,3 124,0±16,5 136,7±31,5 146,0±42,5 125,2±13,5 30 123,3±20,0 131,6±13,6 141,0±13,1 109,2±9,9 116,7±16,1 Comprimento Total 0 25,8±1,4 24,7±0,9 23,6±1,9 23,3±2,5 24,1±1,1 15 25,9±1,4 24,5±1,2 24,2±1,6 24,7±1,9 24,2±1,2 30 24,0±1,4 25,0±0,9 25,0±0,8 23,1±0,9 24,1±1,3 0 21,4±1,3 20,7±0,9 19,7±1,8 19,7±2,3 20,1±0,7 15 21,7±1,3 20,9±0,7 20,3±1,4 21,3±1,8 20,8±1,4 30 20,3±0,5 21,0±0,4 21,5±0,6 19,8±0,9 20,0±1,0
Tabela 3 – Média e desvio padrão da série eritrocitária do jundiá (R. quelen) submetido a diferentes salinidades.
Salinidade (g NaCl L-1) Parâmetro Dia 0 2 4 6 8 RBC (106 µL-1) 0 2,6±0,40 2,43±0,2 2,3±0,1 2,3±0,1 2,5±0,1 15 2,2±0,22 2,48±0,4 2,4±0,1 2,4±0,3 2,3±0,3 30 2,6±0,03 2,70±0,2 2,5±0,1 2,6±0,1 2,3±0,2 HGB (g dL-1) 0 9,6±2,2 9,5±0,9 9,2±0,7 9,1±0,8 10,5±0,9 15 9,8±1,7 9,9±1,9 9,8±0,7 10,2±1,5 9,1±1,5 30 11,3±0,5 10,5±0,4 10,0±0,4 11,3±0,7 9,2±1,3 HCT (%) 0 37,1±8,1 33,3±2,0 31,6±2,4 31,0±2,3 35,5±3,3 15 31,1±4,8 32,7±6,5 31,7±0,9 34,0±4,4 30,2±4,7 30 35,9±2,7 35,2±2,1 34,0±1,5 37,7±1,6 31,9±3,0 VCM (fL) 0 141,2±9,6 137,2±7,4 135,7±2,5 134,5±2,6 140,2±6,9 15 138,5±9,5 132,0±1,7 132,5±4,1 136,6±4,0 127,7±7,7 30 137,3±9,0 130,6±9,0 135,3±4,5 140,7±5,9 137,0±10,1 HCM (pg) 0 36,8±3,8 39,1±1,2 39,6±1,1 39,6±1,7 41,6±1,6 15 43,4±3,6 39,9±0,9 40,8±1,7 41,1±2,6 38,4±3,1 30 43,2±1,5 38,9±1,3 39,9±1,5 42,1±2,8 39,3±5,2 CHCM (g dL-1) 0 26,0±1,9 28,5±1,4 29,1±0,4 29,4±1,2 29,6±1,4 15 31,3±0,9 30,2±0,4 30,8±1,4 30,0±0,9 30,0±0,7 30 31,5±1,3 29,8±1,3 29,5±0,2 29,9±0,8 28,7±2,2
RBC=número total de eritrócitos; HGB=hemoglobina; HCT=hematócrito; VCM=volume corpuscular médio; HCM=hemoglobina corpuscular média; CHCM=concentração de hemoglobina corpuscular média.
A hemoglobina (HGB) e o hematócrito (HCT) apresentaram-se praticamente estáveis aos 15 dias, mas aos 30 houve uma tendência ao decréscimo, com a elevação da salinidade (Figuras 3 e 4). TSUZUKI et al. (2001), trabalhando com peixe-rei (Odontesthes bonariensis), utilizaram por uma
semana 0, 5 e 20 g de NaCl L-1, para observar a recuperação
dos animais pós-estresse, causado pelo transporte e manejo e verificaram que o valor do hematócrito diminuiu com o aumento da salinidade, sendo a variação atribuída à mudanças na água livre do plasma. Seus resultados demonstraram que salinidades moderadas reduzem a resposta ao estresse e o balanço iônico-osmótico, reduzindo a mortalidade.
A variação no valor do hematócrito também foi verificada em salmão (Oncorhynchus tshawytscha) por MORGAN & IWAMA (1991) e esturjão (Acipenser oxyrinchus de sotoi) por ALTINOK et al. (1998). No caso do esturjão, foram observados aumento na osmolaridade do plasma, sendo que a concentração de íons e a perda de peso, sugeriram que a
mudança no valor do hematócrito, foi causada por deslocamento do conteúdo de água do tecido muscular. KIKUCHI et al. (1985) estudando a variação de salinidade no cultivo de salmão do Pacífico, observaram que a mudança de água salgada para doce, ocasionou o aumento de volume das células vermelhas, bem como alteração da sua forma. MAZUR & IWAMA (1993), trabalhando com Oncorhynchus tshawytscha submetido à baixa salinidade (água doce), verificaram que o aumento no número de células vermelhas na circulação, ou de seu volume ou movimentação da água dentro dos tecidos, foram as possíveis causas do aumento do valor do hematócrito.
ROCHE et al. (1989) submeteram a espécie Dicentrarchus labrax à redução gradual de salinidade (37, 17 e 5‰) em diferentes períodos de tempo e observaram um aumento da hemoglobina na primeira semana, com salinidade de 17‰ e uma queda com posterior estabilização na salinidade de 5‰, após cinco semanas. O hematócrito aumentou na salinidade de 17‰ e estabilizou-se com 5‰.
Também foi observada uma hemoconcentração, indicando aumento nos dois parâmetros, quando a água salgada foi diluída pela metade (de 37 para 17‰). ROCHE & BOGÉ (1996), ao submeterem esta mesma espécie a uma baixa salinidade (de 37 para 5‰), durante 2 horas, observaram que houve um aumento significativo da hemoglobina, mas o hematócrito não variou. Segundo WEDEMEYER (1972) e
SOIVIO et al. (1973), o aumento da hemoglobina e do hematócrito é devido à hiper atividade dos órgãos hematopoiéticos, que reagem à agressão de um modo não específico, aumentando a produção de eritrócitos, sendo o hematócrito um bom indicador de estresse (SOIVIO & OIKARI, 1976; WILSON & TAILOR, 1993).
Figura 1 – Influência da salinidade no número total de eritrócitos (RBC 106 µL-1) e de leucócitos (WBC 103 µL-1) de jundiá (R.
quelen), após 15 dias de exposição.
Figura 2 - Influência da salinidade no número total de eritrócitos (RBC 106 µL-1) e de leucócitos (WBC 103 µL-1) de jundiá (R.
quelen), após 30 dias de exposição.
RBC WBC Eritrócitos = 2,3285 + 0,01342 X (R = 0,14) Leucócitos = 4045 + 452,63 X (R = 0,39) Salinidade (g NaCl) Er itr ó ci tos Leucóci tos -2000 2000 6000 10000 14000 18000 22000 26000 30000 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 2,8 3,0 3,2 -2 0 2 4 6 8 10 RBC WBC Eritrócitos = 2,6978 - 0,03 X (R = 0,48) Leucócitos = 3823,2 + 740,61 X (R = 0,47) Salinidade (g NaCl) Eri tróc itos Leucócitos -2000 2000 6000 10000 14000 18000 22000 26000 30000 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 2,8 3,0 3,2 -2 0 2 4 6 8 10
Figura 3 – Influência da salinidade no hematócrito (HCT %) e na hemoglobina (HGB g dL-1) de jundiá (R. quelen), após 15 dias de exposição.
Figura 4 – Influência da salinidade no hematócrito (HCT %) e na hemoglobina (HGB g dL-1) de jundiá (R. quelen), após 30 dias de
exposição.
Na observação dos parâmetros leucocitários (Tabela 4), não foi detectada diferença entre os níveis de salinidade nos diferentes períodos avaliados, à exceção do neutrófilo aos 30 dias. A incidência de células imaturas pode ser um indicativo da maior atividade dos órgãos hematopoiéticos.
Foi verificada uma tendência à elevação do número de leucócitos com o aumento da salinidade, nos intervalos de 15
tendência à elevação e os linfócitos ao decréscimo, aos 30 dias de exposição (Figura 5).
Analisando a correlação entre os parâmetros leucocitários, observou-se uma tendência negativa entre os linfócitos e os trombócitos, com um alto índice de correlação (Figura 6). As demais correlações significativas (p<0,05) apresentaram um R muito baixo.
HGB HCT HGB = 9,981 - 0,0605 X (R = 0,13) HCT = 32,001 - 0,461 X (R = 0,13) Salinidade (g NaCl) Hemoglobina (HGB g/dl) Hematócr ito ( HCT % ) 20 26 32 38 44 50 6 7 8 9 10 11 12 13 -2 0 2 4 6 8 10 HGB HCT HGB = 11,195 - 0,1706 X (R = 0,44) HCT = 36,222 - 0,2874 X (R = 0,29) Salinidade (g NaCl) Hemoglobina (HGB g/dl) Hematócr ito ( HCT % ) 20 26 32 38 44 50 6 7 8 9 10 11 12 13 -2 0 2 4 6 8 10 Hemoglobin a ( H GB g dl -1) Hemoglobin a ( H GB g d L -1)
Tabela 4 - Média e desvio padrão da série leucocitária do jundiá (R. quelen) submetido a diferentes salinidades. Salinidade (g NaCl L-1) Parâmetro(%) Dia 0 2 4 6 8 WBC 0 12,5±9,9 17,2±0,9 8,2±6,1 7,6±3,3 9,4±2,8 15 4,7±3,1 5,3±5,4 4,1±1,7 6,6±0,8 8,5±4,4 30 2,0±1,2 8,0±2,1 4,4±1,1 10,9±2,4 8,1±6,9 Trombócito 0 51,5±5,9 55,7±9,1 48,5±17,4 31,2±11,5 36,0±13,3 15 54,0±12,1 68,6±8,5 53,2±12,1 62,3±5,5 44,5±17,6 30 61,3±17,4 25,6±20,8 67,3±5,0 44,2±26,8 41,0±20,1 Linfócito 0 43,5±5,9 34,0±5,3 47,0±16,3 61,7±13,0 57,0±12,5 15 40,2±12,6 25,3±8,9 39,5±10,7 25,0±9,8 41,5±16,3 30 31,3±15,3 59,6±19,7 26,0±1,7 29,0±17,2 40,0±13,3 Neutrófilo 0 4,7±6,8 9,7±5,0 3,7±4,1 5,7±3,5 6,5±1,9 15 3,5±1,7 6,5±2,1 2,3±1,5 7,6±1,5 8,0±5,1
30 4,3±3,0b 10,3±6,6ab 6,0±4,3b 22,5±8,1a 12,7±9,4ab
Monócito 0 1,0±0,0 2,0±0,0 - 2,0±1,4 - 15 3,5±3,5 1,0±0,0 3,3±0,5 3,0±2,8 2,5±0,5 30 2,0±1,0 1,5±0,7 1,0±0,0 3,0±2,8 7,0±6,0 C. Imatura 0 1,6±1,1 - 3,0±0,0 2,0±0,0 2,0±0,0 15 1,0±0,0 2,0±1,4 4,0±2,6 3,0±3,4 3,2±1,7 30 1,0±0,0 - - 3,3±1,1 2,0±1,4
Letras distintas na linha indicam diferença significativa pelo teste de Tukey (p<0,05).
WBC = número total de leucócitos (1000 x 103 µL-1)
Figura 5 – Influência da salinidade sobre o linfócito e neutrófilo de jundiá (R. quelen), após 30 dias de exposição.
Linf Neut Linf = 39,512 - 0,604 X (R = 0,11) Neut = 5,679 + 1,439 X (R = 0,46) Salinidade (g NaCl/L) Linf óc it o (Linf % ) N eut róf ilo (N eut % ) -2 4 10 16 22 28 34 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 -2 0 2 4 6 8 10
Figura 6 – Correlação entre linfócitos e trombócitos de jundiá (R. quelen), exposto a diferentes salinidades.
CONCLUSÕES
O jundiá (Rhamdia quelen) adaptou-se bem a
concentração de 0 a 8 g de NaCl L-1, até 30 dias de exposição.
A salinidade não influenciou nos parâmetros hematológicos do jundiá, após 15 e 30 dias de exposição, mas provavelmente, ocorreram alterações destes parâmetros num menor período de exposição, quando os peixes ainda não estavam adaptados.
O jundiá não sofreu estresse osmótico, durante o período de avaliação, pois não houve variação significativa da hemoglobina e do hematócrito.
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