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Regência 15 John Rawls e um Estado justo

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Academic year: 2021

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Regência 15

John Rawls e um Estado justo

Professora-Estagiária:

Débora Rana

Orientadora Cooperante:

Dr.ª Blandina Lopes

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2

Índice

Caracterização da turma………..3

Fundamentação científica ………..4

Fundamentação Pedagógico-Didática………12

Bibliografia……….19

Anexos………21

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3

Caracterização da turma

A turma 10º A é uma turma que frequenta o Curso Científico-Humanístico de

Ciências e Tecnologias. É constituída por 12 raparigas e 13 rapazes, ou seja, por um total

de 25 alunos, cuja média de idades é de 15 anos. Num universo de 25 alunos, 2 são repetentes e apenas 1 aluno se encontra a fazer melhoria à disciplina de Filosofia.

Trata-se de uma turma heterógena, quer em termos de comportamento, quer em termos de aproveitamento. Existindo, porém, alguns estudantes que se destacam no interesse demonstrado e na sua participação.

No que diz respeito aos resultados do 1º período, registam-se 88% de positivas e 12% de negativas. Quanto aos resultados do 2º período, registam-se 84% de positivas e 16% de negativas, o que significa que, comparativamente ao primeiro momento de avaliação, o número de negativas subiu. Importa referir, ainda neste contexto, que as negativas não são muito baixas.

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4 Professora-Estagiária: Débora Filipe Rana

Disciplina: Filosofia Ano de Escolaridade: 10º Turma: A

Módulo II: «A Ação Humana e os Valores»

Unidade 3.1: «A dimensão ético-política - Análise e compreensão da

experiência convivencial»

Subunidade 3.1.4: «Ética, direito e política - liberdade e justiça social;

igualdade e diferenças; justiça e equidade»

Sumário: Introdução ao estudo: a teoria da justiça de John Rawls.

Explicitação de alguns dos pressupostos fundamentais, a partir da leitura e análise de textos.

Data: 24/05/2019 Duração: 100 minutos Regência Nº 15

Objetivos:

Gerais:

 Conhecer a teoria do contrato social acerca da origem do Estado proposta por John Locke.

 Compreender o problema da justiça social.

 Compreender o conceito de justiça como equidade.  Reconhecer o contributo original de John Rawls à teoria do

contrato social.

Específicos:

 Caracterizar o conceito de justiça como equidade.

 Esclarecer a diferença existente entre a ordem natural e a ordem social.  Identificar o processo racional da escolha dos princípios da justiça.  Explicar a relação entre o processo da escolha e a imparcialidade dos

princípios.

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5 Regência Nº 15

TEMA CONTEÚDOS ESTRATÉGIAS/

ATIVIDADE COMPETÊNCIAS/ OBJETIVOS RECURSOS AVALIAÇÃO - DISCENTES A teoria contratualista de John Locke O problema da justiça social O problema da origem e da legitimidade do poder político.

O problema da justiça social e qual o papel do Estado perante tais desigualdades.

Correção do trabalho de casa, atividade 2, página 153 – manual adotado.

Exploração de uma situação problema.

Análise em conjunto de um quadro da artista Rachel Perry Welty.

Análise em conjunto de uma tira de banda desenhada.

Consolidar os conteúdos anteriormente lecionados.

Compreender no que consiste a justiça social. Avaliar o papel do Estado perante as desigualdades sociais e económicas. Compreender a diferença entre um Estado liberal de direito e um Estado social de direito.

Manual adotado: Alves, F., Arêdes, J. & Bastos, P. (2013). Pensar. Lisboa: Texto Editores

Diálogo orientado. Diapositivo II, Presente no PowerPoint.

Diapositivo III, presente no PowerPoint.

Diapositivo IV, presente no PowerPoint. Pontualidade; Material; - Observação direta, atenta e sistematizada; - Participação ativa e democrática; - Qualidade e precisão conceptual e clareza discursiva. - Participação ativa nas tarefas propostas.

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6 A teoria da

justiça de John Rawls

«O que é uma sociedade justa?»

A justiça como equidade

Diferenças entre a ordem natural e a ordem social.

Leitura orientada do diapositivo VI, VII -

PowerPoint

Leitura orientada de um excerto retirado da obra Uma

Teoria da Justiça de John

Rawls.

Leitura orientada de um mapa conceptual, presente no diapositivo III – PowerPoint.

Compreender a

importância de se dar uma resposta quanto ao que é, ou não é, uma sociedade justa.

Conhecer a resposta de John Rawls quanto à questão «O que é uma sociedade justa?». Compreender a justiça como equidade.

Caracterizar o conceito de justiça como equidade.

Distinguir a «ordem natural» da «ordem social» Compreender no que consiste uma sociedade justa. PowerPoint Trabalho de texto – Rawls, J. (2017). Uma Teoria da Justiça. Queluz de Baixo: Editorial Presença. Anexo III Anexo III.

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7 A escolha racional dos

princípios da justiça: «posição original» e «véu de ignorância».

Realização da atividade proposta no anexo III.

Leitura orientada de um excerto retirado da obra Uma

Teoria da Justiça de John

Rawls. Visualização orientada de um vídeo. Consolidar os conteúdos anteriormente lecionados. Compreender as diferenças existentes entre a teoria contratualista de John Locke e John Rawls. Explicitar no que consiste a «posição original»

Compreender o papel central que a ideia de contrato social desempenha na definição dos princípios de justiça, pelos quais uma sociedade se deve reger. Sistematizar alguns dos conteúdos anteriormente lecionados.

Explicitar no que consiste a experiência mental que John Rawls propõe.

Trabalho de texto – Rawls, J. (2017). Uma Teoria da Justiça. Queluz de Baixo: Editorial Presença. Anexo III Experiência mental. PowerPoint. Vídeo

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8 Princípios de justiça:

princípio da liberdade e princípio da diferença.

Análise do quadro de René Magritte, presente no diapositivo VIII. Construção em conjunto de um esquema-síntese, presente no diapositivo X. Leitura orientada de um excerto retirado da obra Uma

Teoria da Justiça de John

Rawls.

Leitura orientada do diapositivo XI, presente no

PowerPoint.

Reconhecer a importância da regra maximin na escolha desses princípios.

Fazer uma breve analogia entre o «véu de

ignorância» com a pomba presente no quadro de Magritte, enquanto símbolo da paz.

Sistematizar os conteúdos lecionados.

Expor os requisitos necessários para se poder falar em princípios de justiça: gerais (formais) e universais. Conhecer os princípios de justiça. Diapositivo VIII, presente no PowerPoint. Diapositivo X, presente no PowerPoint. Diapositivo XI e XII, presente no PowerPoint.

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9 Análise em conjunto de um

esquema-síntese.

Avaliar os princípios de justiça.

Conhecer a ordem lexical dos princípios de justiça. Sistematizar os conteúdos lecionados.

Diapositivo XIII,

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10

Fundamentação Científica – John Rawls e um Estado justo.

“A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento. Uma teoria, por mais elegante ou parcimoniosa que seja, deve ser rejeitada ou alterada se não for verdadeira; da mesma forma, as leis e as instituições, não obstante o serem eficazes e bem concebidas, devem ser reformadas ou abolidas se forem injustas.”

(John Rawls, 2017, p. 27)

Tomando como referência o programa oficial de Filosofia, proposto pelo Ministério da Educação para o 10º e 11º ano de escolaridade do Ensino Secundário, esta aula contempla a abordagem do ponto 3.1, «A dimensão ético-política – Análise e compreensão da experiência convivencial» (especificamente o ponto 3.1.4, «Ética, direito e política – liberdade e justiça social; igualdade e diferença; justiça e equidade), referente ao segundo módulo «A ação Humana e os Valores», proposto para o 10º ano de escolaridade.

A questão base em torno da qual esta aula circulará prende-se com a possibilidade de formular os princípios de justiça que devem presidir à configuração de uma sociedade bem ordenada. De facto, o desafio mais importante da filosofia política, hoje, é o de tentar apresentar uma conceção política de justiça para um regime democrático, conciliando assim as pretensões da liberdade individual com as pretensões da igualdade. À luz das palavras de John Rawls1 (1921-2002), é nosso objetivo responder às seguintes questões: o que é uma sociedade justa? Porque devemos procurar construí-la? Como proceder para a alcançar? Nesse sentido, concentrar-nos-emos na sua Teoria da Justiça e, dentro desta, apenas no seu aspeto mais inovador – o tema da «justiça social» como problema político. Posto isto, e uma vez que o nosso objetivo passa por explorar os pressupostos fundamentais da Teoria da Justiça de John Rawls, os conteúdos programáticos para a presente aula encontram-se divididos em três pontos centrais. Em primeiro lugar, dedicar-nos-emos a explorar o problema da justiça social, salientando, é claro, aquilo que para o autor é uma sociedade justa. Em segundo lugar, dedicar-nos-emos a duas noções fundamentais: a «posição original» e o «véu de ignorância». É fundamental, nesta fase do processo, que os estudantes compreendam a tese contratualista de John Rawls, bem como

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11 a sua conceção de pessoa, isto é, o Homem enquanto ser racional e razoável2. Finalmente, dedicar-nos-emos ao princípio económico da maximização do mínimo3 e à formulação dos dois princípios da justiça. São eles: o princípio da liberdade e o princípio da diferença. A procura da sociedade justa é endógena à filosofia política e tem em John Rawls, filósofo moral e político norte-americano, um dos seus maiores impulsionadores. Com Rawls estamos perante uma visão ultra-iluminista e ultra-otimista sobre os destinos dos seres humanos, sendo que tudo é iluminável pela razão. (Alves, 1990). O seu projeto visa essencialmente “(…) definir os princípios de uma sociedade democrática justa, concebida para a nossa época e para as que imediatamente se lhe seguirem” (Amaral, 2018, p. 717). Com efeito, pensarmos e discutirmos sobre os problemas que Rawls evidência equivale a pensar e a discutir sobre algo que nos concerne vitalmente, isto é, a cooperação social entre indivíduos e instituições, regulada por normas e procedimentos publicamente aceites e capazes de estabelecer os laços da amizade cívica e da

solidariedade social4. Algo que só é possível, diz-nos Rawls, a partir de uma conceção comum da justiça. “Pode considerar-se que uma conceção pública da justiça constitui a regra fundamental de qualquer associação humana bem ordenada” (Rawls, 2017, p. 28). De facto, é ela quem fornece a única base para a apreensão sistemática das questões mais urgentes e, portanto, é dela que devemos, antes de tudo o mais, partir.

A ideia de Rawls é simples e consiste no seguinte: ainda que o mundo natural seja um mistério para todos (exceto para o seu Criador), nós – seres humanos – somos os autores do nosso mundo social e, como tal, temos nas nossas mãos a possibilidade de mudar e manipular os acordos institucionais por forma a “(…) a aproveitar os incidentes da natureza e as circunstâncias sociais apenas quando tal resulta em benefício de todos" (Rawls, 2017, p. 96). Se, porventura, o que acaba de ser afirmado parece a nível teórico exibir o que poderíamos ser no nosso melhor, na prática ficamos perante o seguinte impasse: entre sujeitos com objetivos e fins díspares, como conseguir que todos aceitem um modelo de justiça social que seja altruísta e não egoísta? É precisamente a isso que Rawls nos responde, tendo por base uma narrativa que entrelaça o exequível e o não existente (um ideal a aspirar).

Importa sublinhar que o estudo relativo à teoria política de John Rawls é proposto depois de um número importante de aulas dedicadas à teoria consequencialista de John Stuart Mill, bem como ao problema da origem e da legitimidade do poder político. Isto significa, pelo menos, três coisas: em primeiro lugar, que os alunos conhecem e

2 “O Homem é um ser dotado de Razão e, portanto, igualmente capaz de aceitar o que é racional e o que

é razoável – sendo que racional é tudo o que é normal cada um pretender para si próprio; e razoável é tudo o que é normal cada um aceitar como justo para os outros” (Amaral, 2018, p. 718).

3 Regra maximin.

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12 compreendem os pressupostos fundamentais do utilitarismo proposto por Stuart Mill. Em segundo lugar, que os alunos já compreendem o vínculo inextricável entre Ética, Direito e Política. Finalmente, que os alunos dispõem de um conjunto de noções que consideramos fundamentais para o estudo que se pretende desenvolver. Falamos, por exemplo, de noções como estado de natureza, direitos naturais e, não menos importante,

contrato social; ou seja, possuem conhecimentos sólidos sobre a conceção contratualista5. A nosso ver, são justamente esses conhecimentos que possibilitam uma apreensão mais consistente dos pressupostos fundamentais da teoria política de John Rawls, uma vez que esta se define, por um lado, como oposta à tradição utilitarista e, por outro, como uma reelaboração da teoria do contrato social.

Uma das principais originalidades do pensamento político do famoso filósofo de Harvard consiste, não apenas em ir buscar aos Iluministas a ideia de contrato social, mas também, e sobretudo, na vontade de conferir à teoria contratualista um conteúdo e um alcance atuais. De facto a sua ligação à teoria do contrato social não significa uma simples inspiração doutrinal, mas antes uma linha de pensamento que atua constitutivamente no âmago da sua Teoria da Justiça. (Alves, 1990) Com efeito, vimos em Hobbes um contrato social justificativo da monarquia absoluta; em Locke, como fundamento do primeiro

liberalismo; em Rousseau, como fundamento de uma democracia republicana e igualitária. Porém, em Rawls, “(…) vamos encontrar o contrato político conducente ao Estado Social (…)” (Amaral, 2018, p. 719). Enquanto em Locke o Estado é concebido

como uma sociedade de responsabilidade limitada, que em nada deve interferir com a vida privada dos indivíduos, seja familiar ou económica6; em Rawls assistimos a um Estado com preocupações sociais, isto é, preocupado em corrigir as desigualdades sociais e económicas. Para Rawls não basta o Estado «ficar à porta» do círculo reservado à autonomia do indivíduo, o Estado deve, pelo contrário, garantir as condições mínimas para uma vida digna7 e, nesse sentido, procurar minorar as desigualdades entre as classes sociais. Em resumo: entre Locke e Rawls assistimos à passagem de um Estado mínimo a um Estado interventivo.

5 Fundamentação do poder legal e político na ideia de contrato, isto é, na união voluntária e no acordo

mútuo entre os homens na escolha dos seus governantes e das suas formas as de governo. Segundo esta lógica contratual, “(…) os indivíduos pré-existem à constituição dos Estados e (…), portanto, os Estados surgem e se perpetuam como como criação voluntária de indivíduos” (Alves, 1990, p. 54).

6 Pensamento que acabou por deixar grandes marcas na primeira geração dos direitos humanos (séc. XVIII)

– ligada ao conceito de liberdade individual e concentrada nos direitos civis e políticos. Tomados globalmente, “(…) os direitos do homem da primeira geração caracterizam-se por um traço comum: são liberdades reivindicadas «contra» ou «face» ao Estado (…) [poder-se-á dizer, que num certo sentido] se pede ao Estado que limite o seu poder (…)” (Haarscher, 1993, p. 47).

7 Falamos por exemplo do direito à saúde, à educação, ao trabalho, à segurança social, a um nível de vida

decente, etc. Todos eles presentes na segunda geração dos direitos humanos e que tem por base o ideal da igualdade.

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13 Como se viu nas aulas precedentes, Locke defende que o homem nasce com um

título à liberdade perfeita, em igualdade com qualquer outro homem. Ou seja, o homem

é detentor de direitos individuais naturais que ele considera serem os seguintes: o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Também vimos que “o grande fim que os homens prosseguem quando se juntam a uma sociedade é o usufruto das suas propriedades em paz e segurança (…)” (Locke, 2017, p. 215). Tal significa que cabe ao Estado preservar e cuidar desses direitos, o que denota preocupações de justiça social – quer cidadãos livres mas também iguais em direitos. Por outro lado, pressupõe que “(…) um poder será legítimo, uma autoridade terá pretensões de ser «obedecida» se, e unicamente se, ele ou ela respeitarem os direitos do homem (…)” (Haarscher, 1993, p. 15). Claro está que um Estado que não garanta estes direitos fundamentais não é, de modo algum, um Estado Justo. Todavia, se excluirmos a justificação que Locke propôs – que os direitos naturais são atribuídos por Deus –, não é claro como se poderá explicar de onde vêm estes direitos e por que razão os possuímos. Além do mais, entre liberdade e igualdade parece existir uma certa tensão e mesmo um certo antagonismo: se, por um lado, a liberdade aspira à igualdade, por outro, a propriedade gera desigualdades. Como resolver este conflito de interesses? Dito de outro modo: qual o valor prioritário que deve ter por base a sociedade, liberdade ou igualdade?8

John Rawls oferece uma resposta para este problema e diz-nos que saber que direitos as pessoas efetivamente têm implica determinar os princípios em que se baseia uma sociedade justa. Neste sentido, Rawls parte da seguinte hipótese inerente ao conceito de justiça: na sociedade existe um conflito de interesses e existe, também, a necessidade de encontrar um consenso relativamente aos princípios que devem orientar a ação humana e as instituições. Logo, da mesma forma que cada pessoa decide, através de uma análise racional, o que é que constitui o seu bem, (…) também um conjunto de pessoas deve decidir, de uma vez por todas, o que é para elas considerado justo ou injusto” (Rawls, 2017, p. 33). É, pois, na busca desse consenso que Rawls retoma a ideia de contrato social, demonstrando que os princípios de justiça aceites por pessoas livres e racionais conduzem a uma sociedade na qual se vê combinado o máximo de liberdade com o máximo de igualdade.

Em 1971, John Rawls publica a sua obra intitulada Uma Teoria da Justiça, na qual propõe uma conceção de justiça que denomina, precisamente, de “justiça como

8 A tal questão podemos encontrar duas respostas de sentido diferente. São elas: a posição liberal e a

posição igualitária.Do ponto de vista liberal, a liberdade é o valor prioritário. Tal perspetiva defende um Estado minimalista, isto é, um Estado que garante a liberdade máxima ao indivíduo e que apenas a limita quanto esta atenta contra a liberdade dos outros. Do ponto de vista igualitário, a igualdade é o valor prioritário. Deste ponto de vista, o bem comum é mais importante do que os interesses pessoais. Tal posição defende que as desigualdades sociais põem em causa o bem comum e são uma fonte de injustiças que o Estado tem a obrigação de combater. (Almeida & Murcho, 2015).

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14 equidade”. A justiça como equidade é uma conceção política baseada numa das interpretações específicas das ideias de equidade, liberdade e igualdade e diz respeito à adequação das leis às necessidades e às circunstâncias singulares. Numa só palavra: é a justiça do caso concreto. A equidade exprime a intuição moral básica de que todos os seres humanos merecem igual consideração. “Isto significa que o bem-estar de qualquer ser humano, independentemente das suas características e condição, tem, à partida, a mesma importância que o bem-estar de qualquer outro ser humano” (Almeida, 2016). Isto basta para compreendermos o porquê de John Rawls afirmar que o seu objetivo passa por produzir uma teoria da justiça que represente uma alternativa ao pensamento utilitário em geral. Para Rawls, tal como para Kant, a pessoa é um fim em si mesmo e, portanto, não deve estar subordinada a interesses sociais. Entender a justiça como equidade é entender que a justiça não é cega9, uma vez que implica tratar igualmente o que é igual e desigualmente o que é desigual. Em resumo: exige ser aplicada de olhos bem abertos de modo a atender às circunstâncias reais em que cada indivíduo se encontra. Eis o que John Rawls nos propõe, isto é, um olhar atento sobre aqueles que nos rodeiam.

John Rawls consciente de que as arbitrariedades da natureza ou da vida social não são, em si mesmas, justas ou injustas, diz-nos que se queremos uma sociedade justa devemos lidar com essas diferenças de modo a não permitir que elas se tornem a base de privilégios e o meio para oprimir os que não tiveram a mesma sorte. Tais contingências devem, pelo contrário, redundar em benefício de todos. É, pois, o modo como as instituições lidam com a arbitrariedade que encontramos na natureza que pode ser justo ou injusto. Entenda-se por justo uma distribuição razoável10 dos bens, direitos e honras entre os homens. Como afirma Rawls: “Considero, assim, que o conceito de justiça é definido pelo papel dos respetivos princípios na atribuição de direitos e deveres e na definição adequada das vantagens sociais” (Rawls, 1993, p. 32). Assim, o principal conflito «entre as pretensões da liberdade individual e as pretensões da igualdade» deve ser resolvido por meio de regras e procedimentos que todos possam aceitar. Falamos, portanto, dos princípios da justiça. Convém precisar que Rawls não tem por objetivo estabelecer prontamente esses princípios, mas, pelo contrário, visa descobrir uma maneira de os escolher, isto é, um critério que implique como consequência lógica e racional que sejam justos e, por conseguinte, aceites por todos. É precisamente na busca desse critério que vemos substituído o estado de natureza por uma posição original.

Da mesma forma que os filósofos políticos da época moderna procuraram imaginar as origens da sociedade politicamente organizada, criando a hipótese de um estado de natureza, também Rawls, retomando a tese contratualista, propõe uma

9 Como simbolicamente tem sido representada. 10 O que Aristóteles chamava «a justiça distributiva».

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15 experiência mental: imaginar que nos encontramos numa situação inicial hipotética, na qual os indivíduos terão de escolher os princípios da sociedade em que querem viver. Já não se trata do problema da origem do Estado, mas chegar a acordo sobre os «princípios da justiça» pelos quais a sociedade se deve reger. John Rawls pretende, deste modo, fazer um exercício intelectual no plano da teoria pura sobre como seria possível que os indivíduos, no momento dessa escolha, se deixassem guiar pelos sãos critérios da justiça. Nesse sentido, aponta para a necessidade de anular os efeitos das contingências que levam os indivíduos a oporem-se uns aos outros e fala-nos de um véu de ignorância.

A ideia é simples: os deputados constituintes11 desconhecem, por completo, a sua classe social ou estatuto social, a sua raça ou género, os talentos naturais de que dispõem, as suas conceções de bem, a geração a que pertencem e, por conseguinte, também ignoram o que o futuro lhes reserva em termos económicos e sociais, não podendo calcular ou intuir probabilidades ou expectativas. Sabem, no entanto, aquilo que uma boa vida exige, isto é, direitos, liberdades e oportunidades, rendimento e riquezas e o respeito por si próprio/auto estima. Para além disso, um outro aspeto deve ser tomado em conta: as suas escolhas devem parecer razoáveis aos outros, “(…) em especial aos seus descendentes cujos direitos serão profundamente afetados por ela” (Rawls, 2017, p. 134).

Mas o que se sabe até aqui? Sabe-se que as partes estão colocadas numa situação equitativa sendo tratadas como sujeitos morais iguais. Despojados de quaisquer interesses materiais, e como seres racionais e razoáveis que são, estes só têm uma solução: definir princípios de justiça que garantam, a todos, a sociedade mais justa que for possível, independentemente do nascimento, da sorte ou do azar e da condição social. John Rawls entende, assim, que, sob o véu de ignorância da situação económica e social de cada um, todos serão levados, racional e razoavelmente, a celebrar um contrato social que assegure uma sociedade justa para todos; ou, pelo menos, uma sociedade que se vá tornando cada vez mais justa para todos. Trata-se, portanto, de jogar pelo seguro. “Ou seja, adotar princípios segundo os quais o pior que nos possa acontecer seja o melhor possível [regra

maximin]; uma estratégia de decisão que, numa condição de incerteza, permita maximizar

o mínimo” (Almeida & Murcho, 2015, p. 93)12. Em resumo: desconhecendo o nosso lugar

11 “Embora Rawls não o diga explicitamente, tudo se passa, de facto, como se estivéssemos numa

assembleia constituinte, eleita por sufrágio universal, que já tivesse optado pela democracia pluralista e que, quando o livro começa, estivesse a chegar ao momento de discutir qual o modelo económico e social mais justo em democracia” (Amaral, 2017, p. 720).

12 Para Rawls esta regra é muito diferente do que defendem os utilitaristas. A distribuição de bens é

considerada pelo utilitarismo como um problema de administração eficiente. É justa a distribuição de bens que produz a maior felicidade possível ao maior número possível de pessoas. Contudo, tal posição contém ou implica o seguinte perigo: deixar uma minoria de pessoas a viver muito mal, isto é, em condições sub-humanas, para que a maior parte delas viva muito bem. Ora, Rawls, tal como Kant, considera a pessoa como simultaneamente livre, igual e um fim em si mesmo. Logo, cada pessoa, tomada em si mesma, merece consideração.

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16 atual na sociedade, bem como aquilo que o futuro nos reserva, o mais racional é optar por uma sociedade em que o pior que nos possa acontecer seja, com efeito, o melhor possível.

O conceito de escolha sob um véu de ignorância é o contributo original de Rawls para a teoria do contrato social, é este o critério que cria as condições para uma escolha racional, imparcial e consequentemente justa, pois é ele que possibilita a escolha unânime de uma conceção particular da justiça. Não menos importante, Rawls deixa bem claro que a posição original deve ser interpretada de modo a que se possa, em qualquer altura, adotar a sua perspetiva. “O momento em que ela é adotada, ou a pessoa que a adota, não deve provocar qualquer diferença: as restrições devem ser tais que os mesmos princípios sejam sempre escolhidos” (Rawls, 1993, p. 122). Posto isto, John Rawls considera que o sob este véu as partes tenderão a escolher (livre e racionalmente, bem como em condições equitativas) dois princípios básicos da justiça. São eles: o princípio da liberdade e o princípio da diferença. Tais princípios são vistos em conjunto, como princípios gerais na sua formulação, de aplicação universal e de carácter definitivo, isto é, como a instância suprema nas questões de ordenação das exigências conflituais de sujeitos morais13.

O princípio da liberdade significa que a sociedade deve a cada pessoa um esquema completo e adequado de liberdades básicas, que seja compatível com o mesmo esquema de liberdades básicas para todos (Amaral, 2018). Destacam-se as seguintes: a liberdade política (direito de votar e de ocupar uma função pública), a liberdade de expressão e de reunião. De acordo com este primeiro princípio, estas liberdades devem ser iguais para todos14. Por sua vez, o princípio da diferença estipula que as diferenças económicas e sociais só serão aceitáveis se preencherem dois requisitos. Em primeiro lugar, só são admissíveis desigualdades económicas e sociais que se traduzam em maiores vantagens para todos15, o que pode ser conseguido, por exemplo, através de um sistema de impostos mais exigente para contribuintes com rendimentos superiores16. A ideia passa por evitar a concentração excessiva de riqueza nas mãos de uns poucos e, por conseguinte, no seu poder indevido face aos mais necessitados. Em segundo lugar, só podem ser aceites quaisquer desigualdades económicas e sociais que correspondam a cargos ou posições abertos a todos em condições de justa igualdade de oportunidades (princípio da igualdade de oportunidades). A ideia é que nenhuma desigualdade é aceitável se resultar de uns

13 É precisamente neste carácter formal e universal que se vê bem a influência kantiana no pensamento

de Rawls.

14 Isto basta para mostrar que Rawls é um liberal. Mas é um liberal moderado, tanto que é classificado

como um liberal igualitário.

15 “Assim, a injustiça é simplesmente a desigualdade que não resulta em benefício de todos” (Rawls, 1993,

p. 69).

16 Ao contrário de Locke, Rawls não considera o direito à propriedade um direito absoluto. O Estado, para

garantir a distribuição justa dos bens sociais, deverá garantir, através de impostos, que aqueles que usufruem de maior riqueza contribuam para beneficiar todos os outros.

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17 terem oportunidades que estão vedadas a outros tantos, seja porque são pobres e não têm acesso à educação, seja por outra qualquer desvantagem de ordem natural. Por forma a evitar estas situações o Estado tem o dever de garantir «direitos para todos», isto é, acesso à educação, à cultura ou à saúde.

“Estes princípios devem ser dispostos numa ordenação serial, tendo o primeiro prioridade sobre o segundo” (Rawls, 2017, p. 68). Isto quer dizer que as violações das liberdades básicas e iguais para todos, protegidas pelo primeiro princípio, não podem ser justificadas ou compensadas por maiores vantagens económicas e sociais. Estas só podem ser limitadas quando entram em conflito com outras liberdades básicas. Porém, diz-nos Rawls, embora nenhuma destas liberdades seja absoluta, qualquer ajustamento que sofram na formação de um sistema será o mesmo para todos. Já o princípio da igualdade de oportunidades tem prioridade sobre o princípio da diferença. Com isto, Rawls pretende sublinhar o seguinte: os indivíduos serão sempre diferentes, mas que não o sejam por não terem tido as mesmas oportunidades. A igualdade de oportunidades possibilita assim que os indivíduos possam melhorar as condições de vida em que se encontram, criando novos horizontes para si e para os seus.

Em jeito de conclusão, há pelo menos uma coisa que não se pode deixar de reconhecer ao falar de John Rawls: o humanismo altruísta do seu pensamento político. De facto, Rawls passou a vida inteira a procurar justificar, no plano das ideias, a necessidade de colocar o Estado democrático a eliminar a concentração da riqueza nas mãos de uns poucos, defendendo que é obrigação do Estado prestar apoio e proteção aos mais desfavorecidos.

(18)

18

Fundamentação Pedagógico-didática – John Rawls e um Estado justo

A escolha dos recursos, estratégias e atividades pensadas e aplicadas nesta aula têm em consideração a especificidade da turma, os conteúdos programáticos a abordar e os objetivos propostos. Pretende-se, deste modo, criar situações favoráveis à motivação dos discentes, garantindo da sua parte uma maior participação e empenho nos exercícios propostos em contexto de sala de aula. Estamos conscientes de que “O perguntar filosófico é (…) o elemento constitutivo fundamental do filosofar e, portanto, do «ensinar filosofia»” (Cerletti, 2009, p. 21). Justamente por isso esta aula está pensada de maneira a proporcionar condições favoráveis à formulação de questões filosóficas, bem como o local certo para começar a encontrar algumas respostas. Pois, o que nos parece de carácter obrigatório não é tanto o recorte ocasional de um conhecimento a ser transmitido17, mas, pelo contrário, a instauração de uma atividade que se apoia na inquietude. Numa só palavra: no desejo de saber.

Nesta aula procura-se, sobretudo, analisar a teoria política de John Rawls a partir da obra Uma Teoria da Justiça (1971), razão pela qual a dinâmica adotada se baseará no estudo individual e pormenorizado de alguns conceitos. São eles: o conceito de justiça social, equidade, posição original, véu de ignorância e princípios de justiça. Esta opção justifica-se pelo simples facto de permitir ao aluno acompanhar de perto a coerência que se verifica na obra do autor, bem como possibilitar oportunidades favoráveis de os alunos, no decorrer deste estudo, poderem entender, sistematizar e problematizar cada noção acima mencionada.

Os princípios subjacentes às sugestões metodológicas que irão ser propostas implicam um tipo de aula centrada não apenas no trabalho do grupo-turma, mas também no papel ativo do docente. Em contextos de aprendizagem que se pretendem dinâmicos, os alunos devem aprender a problematizar, a refletir e a relacionar. Nesse sentido, recorreremos a diferentes estratégias e recursos18 de modo a garantir a materialização desses objetivos. A sua utilização, em diferentes momentos da aula, pressupõe diferentes propósitos. Em alguns casos como forma de introduzir novos conteúdos, noutros como

17 Sobre esse assunto diz-nos Boavida o seguinte: “(…) talvez não esteja na comunicação da filosofia, e na

assimilação pelos alunos, o mais importante da filosofia, ou a razão principal pela qual se deve ensinar e aprender. Há em tudo uma matriz educativa muito para lá da questão comunicacional, e é nela que se joga o filosófico que a filosofia pode possibilitar, que terá que fazer se quiser ser filosófica” (Boavida, 2010, p. 111). De facto, no termo transmissão reconhecemos um certo perigo: transformar o saber numa coisa inerte e o discente num recetor passivo.

18 Algo que é referido no próprio Programa da disciplina de Filosofia: princípio da diferenciação de

estratégias (segundo uma lógica de aprendizagem que tenha em conta os diferentes estilos de

aprendizagem próprios de cada estudante) e princípio da diversidade de recursos (a sua suposição implica que as aulas devem assentar na variedade de recursos que cada situação possibilitar)

(19)

19 forma de consolidar e sistematizar os mesmos. Contudo, em todos eles há algo que está sempre implícito: manter os alunos empenhados e motivados no estudo. Pois, “O que é a aprendizagem senão apropriação, pelo aluno, de novos conhecimentos, e o domínio de novas metas?” (Boavida, 1998, p. 134). A ser assim, pretende-se que no final deste estudo se vejam realizadas as aprendizagens consideradas indispensáveis e se dominem as competências correspondentes, tendo por base condições de aprendizagem que viabilizam “(...) uma autonomia do pensar, indissociável de uma apropriação e posicionamento crítico face à realidade (...)” (Henriques, 2001, p. 5). Ou seja, pressupõe-se um pensar

por si mesmo19.

A operacionalização dos novos conteúdos ligar-se-á, inicialmente, à recapitulação oral dos conteúdos lecionados nas aulas precedentes, sendo que esta será uma exposição intercalada com questões dirigidas aos estudantes, quer no sentido de motivá-los e de reter a sua atenção, quer no sentido de nos certificarmos das suas efetivas aprendizagens. Tornar ativa e dinâmica a participação de todos os alunos é um fator pedagógico-didático elementar, não podendo, por isso, ser esquecido. De facto, cada questão configura-se como um espaço em aberto que se pretende ver preenchido com o contributo dos estudantes. É esta dialética questão-resposta que funde professor e alunos num ato comum, isto é, de quem aprende e apreende e de quem partilha e fomenta o interesse do aprendiz. Recordando Kohan, um professor de filosofia não se cala, desafia, pergunta.

De seguida, daremos início à correção do trabalho de casa20. Esta atividade implica, antes de tudo o mais, uma análise de texto. Trata-se de um excerto de Mendo Castro Henriques, no qual é explicado, de forma bastante sucinta, a passagem do estado de natureza à sociedade civil. Claro está, que tal excerto serve apenas como forma de consolidar os conteúdos anteriormente lecionados, pelo que se justifica que seja um texto sucinto e no qual ficam em falta algumas noções e ou ideias basilares. É, pois, com base neste texto que os alunos deverão selecionar, de entre um conjunto de afirmações, as opções corretas. Trata-se de um exercício simples, que não requer muito tempo, mas que nos permite aferir de forma eficaz se os alunos compreenderam os conteúdos até então lecionados, recapitulando sempre que necessário aquilo ficou menos claro.

Dando como concluído o estudo relativo ao problema da origem e da legitimidade

do poder político, dedicar-nos-emos à teoria da justiça como equidade proposta por John

Rawls. No programa de Filosofia encontramos o seguinte: “(…) deve haver o cuidado pedagógico de definir precedências nas aprendizagens, não só em termos dos núcleos temáticos a abordar como das actividades a desenvolver nessa abordagem e dos recursos

19 Como Olivier Reboul salientara, “(…) é para si que [o aluno trabalha], é a sua própria autonomia que ele

aprende [ou deve aprender]” (Reboul, 2017, p. 45).

(20)

20 documentais a serem utilizados” (Henriques, 2001, p. 16). Isto pressupõe, por um lado, a necessidade de se ter ideias claras sobre o que se vai lecionar; por outro, impõe-se que elas sejam expostas de um modo igualmente claro. Para que o discurso do professor possa ser captado pelos alunos é preciso que seja, antes de tudo o mais, inteligível e isso só é possível quando este sabe com exatidão aquilo a que se propõe, isto é, adequar-se tanto quanto possível à estrutura cognitiva dos discentes21. “De facto, os jovens são tanto mais recetivos à matéria quanto mais esta se revestir de familiaridade, de inteligibilidade e de interesse. (…) Ninguém se interessa por aquilo que não percebe” (Ferreira, 1995, p. 370).

Por outro lado, também estamos conscientes da necessidade de aproximar os problemas constitutivos da Filosofia à realidade dos alunos. Ou seja, apesar de a Filosofia lidar com conceitos que são essencialmente abstratos, os conceitos procedem de problemas que são sentidos na nossa relação com o mundo e a tarefa do professor passa essencialmente por mostrar esse contorno, essa tonalidade, isto é, essa verdadeira proximidade. Uma das propostas didáticas que vem ao encontro daquilo que se acabou de afirmar é a de Sílvio Gallo, que propõe uma etapa de sensibilização anterior à da problematização (Gallo, 2006). Ou seja, o tema deve afetar os alunos. Seguindo de perto esta ideia, este momento introdutório está pensado como um momento de motivação, em que gradualmente e em conjunto se vai configurando o verdadeiro problema que pretendemos tratar. Nesse sentido, serão analisados três casos hipotéticos (o caso da Maria, do Mateus e da Pilar). Todos eles com especificidades que lhes são próprias, mas que nos conduzem a uma só questão: o que é uma sociedade justa? Ou melhor, qual o papel do Estado perante as desigualdades sociais e económicas a que diariamente assistimos? Deve o Estado intervir? Não? Sim? Porquê? Eis algumas das questões que pretendemos ver desenvolvidas com os estudantes.

A escolha deste recurso justifica-se por nos permitir, por um lado, distinguir um Estado liberal de direito de um Estado Social de direito; por outro, o que cada um pressupõe e implica. Não menos importante, acreditamos que ao partir de problemas reais e concretos, evita-se por parte dos alunos uma prestação que se reduz à memorização e à reprodução de conhecimentos sem sentido ou significado algum. Antes pelo contrário, pretende-se que o aluno se veja envolvido, isto é, forçado a procurar uma resposta. Todavia, estamos conscientes de que este tipo de estratégias envolve um certo risco: a possibilidade de uma maior conversa entre os diferentes elementos da turma. Porém, também sabemos que alunos mudos e quietos não é sinónimo de interesse ou, quiçá, atenção. Recordando Olivier Reboul, a aprendizagem só é eficaz quando é completamente ativa por parte daqueles a quem pretendemos ensinar. Pois, “(…) aquele

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21 a quem se mostra o bom caminho nunca o aprenderá. Do mesmo modo, uma criança não aprende a escrever se lhe segurarmos na mão” (Reboul, 1971, p. 12). É na esteira deste princípio que pretendemos dar início a esta discussão, possibilitando assim uma aprendizagem espontânea e, por conseguinte, ativa. Importa referir que, no decorrer desta análise, recorreremos, sempre que possível, ao uso do diálogo orientado.

Neste momento de maior discussão, no qual serão expostos diferentes pontos de vista, optámos por recorrer a duas imagens. A primeira consiste numa obra da artista Rachel Perry Welty e que tem como título Perdida na minha vida. Nesta obra vemos a artista repleta de recibos, o que conduz, inevitavelmente, à seguinte questão: é ou não é o dinheiro uma condicionante da ação humana? De facto, numa sociedade que se rege pelo dinheiro, tudo indica que sem ele pouco ou nada poderemos fazer. A segunda obra, também por nós selecionada, consiste numa tira de banda desenhada. A nosso ver, o humor é uma ferramenta poderosa nas mãos do artista e tem um forte impacto no seu observador. Dá ao artista o poder de criticar através da ironia e de denunciar certos males a partir da sátira. Já a nós, que a observamos, dá-nos tempo e lugar para a reflexão. Para além de terem como principal função orientar este momento de discussão, acreditamos “(…) que a faculdade de visualização pode ter uma função auxiliar no processo de pensamento – as imagens são «ajudas visuais» para o pensamento” (Read, 2018, p. 71).

Posto isto, e uma vez formulado o problema «Mas afinal, o que é uma sociedade justa?», dedicar-nos-emos à resposta apresentada pelo filósofo John Rawls. O percurso que pretendemos seguir resume-se em três grandes questões: «O que é uma sociedade justa?», «Porque devemos procurar construí-la?»; «De que modo podemos alcançá-la?». A dinâmica adotada consistirá, essencialmente, na leitura e análise de textos e na desconstrução rigorosa de alguns conceitos e/ou ideias fundamentais. O primeiro ponto a explorar consistirá, sobretudo, na distinção que o autor estabelece entre a «ordem natural» e a «ordem social». De seguida, trataremos da noção de contrato social. Neste exato momento, é fundamental que os alunos compreendam o contributo inovador de Rawls à conceção contratualista, bem como a necessidade de uma conceção comum de justiça.

No programa da disciplina de Filosofia é explícito que “Os textos filosóficos devem constituir os mais importantes materiais para o ensino e a aprendizagem do filosofar” (Henriques, 2001, p. 17). O texto filosófico é, assim, visto como um lugar da procura de informações e o ponto de partida da análise crítica, mostrando ao aluno como,

quando e onde se coloca um problema. Nesse sentido, a análise a que nos propomos será

desenvolvida tendo por base dois excertos retirados da obra Uma Teoria da Justiça de John Rawls. O nosso objetivo é só um: garantir um maior contacto entre o aluno e a obra

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22 descentração, da totalidade da aula, nos conhecimentos do professor, permitindo ao aluno convocar diferentes sentidos para a realização da sua análise e, neste caso em específico, estabelecer uma ponte entre os diferentes conteúdos a serem estudados.

Já no que diz respeito ao modo como iremos trabalhar os dois excertos e recorrendo a Sacristan Gómez, teremos em conta dois aspetos. Em primeiro lugar, procurar-se-á detetar, em conjunto, a ideia fundamental do texto, distinguindo o essencial do acessório. Em segundo lugar, procurar-se-á destacar os conceitos ou noções que mais nos chamam a atenção22. Assim, a partir destes dois excertos pretende-se que os alunos respondam a algumas questões que consideramos fundamentais e a partir das quais nos será possível averiguar se os alunos fizeram uma boa interpretação dos mesmos.

O primeiro excerto a ser analisado visa, essencialmente, esclarecer a distinção que Jonh Rawls estabelece entre a «ordem natural» e a «ordem social», bem como o que deve ser feito para que possamos falar de uma sociedade justa. Trata-se de um texto de leitura simples, mas absolutamente rico a nível conceptual. Além do mais, reconhecemos nas palavras do autor uma possível resposta aos problemas colocados e discutidos no início da aula23. Posteriormente, será proposta a realização de uma atividade. Trata-se de uma atividade simples, que mais uma vez não requer muito tempo, mas que nos permite aferir de forma eficaz se os alunos compreenderam, na verdadeira aceção da palavra, os conteúdos programáticos até então lecionados. Estamos conscientes de que deve haver o cuidado pedagógico de garantir uma compreensão consistente de um determinado assunto antes da passagem para a próxima temática, só assim se garante um ensino coeso e, sobretudo, eficaz. Além do mais, cumpre observar que algumas das afirmações por nós selecionadas permitem-nos aprofundar e fazer pontos de ligação com outras temáticas já analisadas.

O segundo texto permite-nos de uma forma eficaz explicar no que consiste o projeto de Rawls e, não menos importante, na recuperação que o autor contemporâneo faz à ideia de contrato social. No decorrer desta leitura, é de fundamental importância que os alunos compreendam os pontos de aproximação e de maior afastamento entre John Locke e John Rawls. O nosso objetivo é só um: deixar bem claro que, embora inspirada no conceito de contrato social, a teoria de Rawls (ao contrário de Locke que tem como ponto de partida o conceito de direito natural) tem como ideia-chave a justiça social. Ou

22 Pretende-se que o aluno seja capaz de responder a três questões: I) o que diz o texto?; II) como diz?;

III) por que o diz? Estas três perguntas exigem do aluno uma maior atenção e possibilitam-lhe uma melhor interpretação do texto, passando pelas três fases que consideramos fundamentais. A saber: identificação, explicitação e crítica.

(23)

23 seja, determinar quais os princípios de justiça, que de forma livre e em comum acordo, os cidadãos desejam ver implementados e respeitados na sociedade em que vivem.

Chegado este momento, importa, então, dar a conhecer o conceito de véu de

ignorância, isto é, o critério que implica, como consequência lógica e racional, a sua

adoção e o mútuo respeito. Nesse sentido, e por forma a evitar momentos de maior exposição, recorreremos à visualização de um vídeo. Trata-se de um vídeo com uma linguagem acessível e que explicita de uma forma eficaz e apelativa no que consiste a experiência mental proposta por John Rawls. De facto, é inegável o papel dominante que a tecnologia desempenha atualmente e, portanto, resta-nos aproveitá-la em nosso proveito. Tal como podemos encontrar no Programa da disciplina de Filosofia, o

computador adquiriu definitivamente um lugar privilegiado entre os recursos de aprendizagem e “O visionamento de documentos ou filmes pode tornar-se relevante, se

não mesmo imprescindível, para motivar e operacionalizar a abordagem de desafios actuais”. (Henriques, 2001, p. 18). Todavia, para que a sua exibição se torne mais formativa, parece-nos necessário que seja acompanhada de critérios específicos. Nesse sentido, serão lançadas algumas perguntas aos alunos por forma a monitorizar a sua compreensão24.

O momento de motivação conduz, progressivamente, ao momento seguinte da aula, onde se procurará fazer uma análise detalhada da noção de véu de ignorância. Num dos diapositivos encontramos um quadro do pintor francês René Magritte (1898-1967). Com este quadro pretendemos fazer uma analogia entre o véu de ignorância e o valor simbólico que a pomba representa, ou seja, a simbolização da paz. É nosso intuito sublinhar que aquilo que nos aparenta é também aquilo que nos opõe, a saber, os nossos interesses. Logo, a única forma de garantir a imparcialidade que tanto se reclama, e por sinal tão necessária, é vermo-nos despojados de quem somos ou desejamos ser.

O momento final da aula será dedicado, em exclusivo, aos princípios de justiça que Rawls propõe. No decorrer dessa análise, teremos como o apoio um conjunto de diapositivos que servem, sobretudo, como forma de esquematizar as ideias principais. Estamos conscientes de que a projeção dos conteúdos em diapositivos é, sem dúvida, uma mais-valia no processo de ensino aprendizagem; pois, para além de concentrar a atenção da turma num único ponto, evita divagações e garante que o essencial é, efetivamente, transmitido. Contudo, por si só, não basta; isto é, em si mesmo não garante uma

24 “Para que a exibição de documentos audiovisuais se torne mais formativa, parece necessário que seja

acompanhada de critérios ou guiões de análise, evitando a recepção passiva, desenvolvendo hábitos de leitura activa, desencadeando atitudes de distanciamento e análise crítica” (Henriques, 2001, p. 18).

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24 aprendizagem sólida e eficaz. Assim sendo, a clareza na exposição dos conteúdos, por parte do docente, é, sem dúvida, o elemento pedagógico-didático por excelência. Mas se, porventura, o uso do método expositivo exige do professor uma grande clareza de linguagem e o conhecimento preciso dos conceitos a explorar, implica igualmente, tal como Isabel Marnoto salientara, uma apurada sensibilidade aos interesses e dificuldades

dos alunos. Mas acrescenta: “(...) o que constitui normalmente o figurino do método

expositivo é, não a lição, mas a exposição dialetizada na aula sob a forma de diálogo” (Marnoto, 1989, p. 19). De facto, a exposição enquanto exposição não é verdadeiramente ensino. Por tudo isto, recorreremos sempre, que possível, ao diálogo orientado, pois estamos conscientes de que no processo de ensino-aprendizagem é fundamental, senão determinante, deixar o aluno ouvir-se.

Encerraremos a aula com um esquema-conceptual que ilustra o percurso até então efetuado, salientando igualmente as noções basilares da teoria política de John Rawls. A sua utilização justifica-se por nele reconhecermos uma ajuda pictórica que, para além de facilitar os alunos a reter as ideias principais, permite-nos a nós, enquanto docentes, garantir uma exposição mais clara e, por conseguinte, mais rigorosa. No fundo, pretende-se aprepretende-sentar uma visão global da teoria política de John Rawls, destacando os conceitos fundamentais e salientando o modo como estes se vão ligando. Tal como Arends afirmara, “(…) os mapas conceptuais são como os mapas das estradas, só que dizem respeito à ligação entre ideias e não entre locais” (Arends, 1995, p. 282).

Importa salientar que o PowerPoint surge nesta planificação como uma das ferramentas essenciais, cumprindo, no nosso entender, a função de problematizar e esquematizar a informação transmitida visto que, concretiza de forma satisfatória a esquematização e o desenvolvimento progressivo dos conteúdos que serão lecionados. O uso do PowerPoint justifica-se por nos permitir permanecer voltados para a turma, podendo à medida que vamos expondo a matéria averiguar se há sinais de dúvidas por parte dos alunos.

No que diz respeito à avaliação dos discentes, utilizar-se-á uma grelha de observação formal na qual serão avaliados os seguintes aspetos: pontualidade, material, comportamento adequado à sala de aula, realização das tarefas propostas, rigor e qualidade de argumentação e, por fim, qualidade e pertinência nas respostas solicitadas. Tudo isto será devidamente apontado de maneira a conferir rigor e precisão na nossa avaliação.

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25

Bibliografia:

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Blackburn, S. (2007). Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva.

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Webgrafia:

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Ferreira, M. L. R. (1995). “A propósito da formação de professores – propostas para um

debate”. Acedido a 01 de maio de 2019, disponível em:

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ANEXOS

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Anexo I - PowerPoint

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Anexo III – Textos a trabalhar, mais atividade.

Texto A

De que forma devemos responder às arbitrariedades da natureza?

“A distribuição natural [dos talentos] não é justa nem injusta, tal como não é injusto que se nasça numa determinada posição social. Trata-se de simples factos naturais.

A forma como as instituições lidam com estes factos é que pode ser justa ou injusta. As sociedades aristocráticas ou de castas são injustas porque fazem desta circunstância a base que determina as classes sociais mais ou menos fechadas e privilegiadas. A estrutura básica destas sociedades incorpora a arbitrariedade que encontramos na natureza.

Mas não é necessário que os indivíduos se resignem a tais contingências. O sistema social não é uma ordem imutável, para lá do controlo humano, mas um padrão da ação humana.

Na teoria da justiça como equidade, os Homens acordam em aproveitar os incidentes da natureza e as circunstâncias sociais apenas quando tal resulta em benefício de todos.”

(Rawls, Uma Teoria da Justiça, p. 96)

Atividade:

A partir da leitura do texto, classifique as seguintes afirmações como verdadeiras (V) ou falsas (F).

Afirmações V/F

1. Nascer numa família abastada, ser mais inteligente e dotado de talentos artísticos, é justo porque resulta de uma decisão consciente e voluntária.

F

2. A ordem natural é aleatória. Pelo contrário, a ordem social resulta da ação humana e, como tal, esta pode ser alterada e modificada.

V

3. Cada pessoa nasce com o seu destino traçado, quer pelos incidentes da natureza, quer pelas circunstâncias sociais em que nasce, e o Estado nada pode fazer para o corrigir.

F

4. Na teoria da justiça como equidade, os homens acordam em aceitar os incidentes da natureza quando estes resultam em benefício para o maior número de pessoas possível.

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37 Texto B

Uma reinterpretação da ideia de contrato social

“O meu objetivo é apresentar uma conceção da justiça que generaliza e eleva a um nível superior a conhecida teoria do contrato social (…). Para o fazer, não vamos conceber o contrato original como aquele que permita a adesão a uma sociedade determinada ou que estabelece uma determinada forma de governo. A ideia condutora é antes a de que os princípios da justiça aplicáveis à estrutura básica formam o objeto do acordo original. Esses princípios são os que seriam aceites por pessoas livres e racionais, colocadas numa situação inicial de igualdade e interessadas em prosseguir os seus próprios objetivos, para definir os termos fundamentais da sua associação. (…)

Da mesma forma que cada pessoa deve decidir, através de uma análise racional, o que é que constitui o seu bem, isto é, o sistema de objetivos que lhe é racional prosseguir, também um conjunto de pessoas deve decidir, de uma vez por todas, o que é para elas considerado justo ou injusto. É a escolha que será feita por sujeitos racionais nesta situação hipotética em que todos beneficiam de igual liberdade (…) que determina os princípios da justiça.

Na teoria da justiça como equidade, a posição da igualdade original corresponde ao estado natural na teoria tradicional do contrato social. Esta posição original não é, evidentemente, concebida como uma situação histórica concreta, muito menos como um estado cultural primitivo. Deve ser vista como uma situação puramente hipotética, caracterizada de forma a conduzir a uma certa conceção da justiça.”

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38 Anexo IV – página do manual

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39

Reflexão – Regência 15

Reflete-se, de seguida, o aproveitamento ocorrido na sequência da regência 15, com o 10º A, supervisionada pela Dr.ª Lídia Pires e pela Dr.ª Maria João Couto, no passado dia 24 de maio de 2019, na Escola Secundária Aurélia de Sousa.

É próprio às funções do professor-estagiário esta atitude de abertura à reflexão, em vista de um aperfeiçoamento contínuo e progressivo. É, pois, no próprio processo, isto é, no desenvolvimento da ação, que reconheço o significado do pensamento sobre a prática, pensamento esse que mune este texto de sentido e utilidade. De facto, não parecem restar dúvidas: toda a reflexão pressupõe uma atitude, ou seja, um fazer sobre o

terreno. Recordando Cerletti, toda a formação docente implica uma constante autoformação. E toda a autoformação supõe, em última instância, uma trans-formação de si. A ser assim, esta reflexão surge como um meio para analisar e/ou avaliar as

competências profissionais que estiveram presentes aquando desta regência, bem como aquelas que estiveram em falta. Nesse sentido, o texto que se segue será organizado (não de forma sequencial) segundo cinco momentos fundamentais. São eles: o melhor, o pior, a modificar, a retirar e a introduzir.

A regência nº 15 deu como concluído este processo, sendo encarada por mim com alguma nostalgia. Porém, e uma vez que se tratou de uma aula que contou com a presença da Dr.ª Lídia Pires e da Dr.ª Maria João Couto, foi pautada por um certo nervosismo, quer no que diz respeito à sua preparação, quer no que diz respeito à sua execução. Acredito que essa ansiedade acabou por me prejudicar, não me despedindo da melhor forma dos estudantes. Queria ter dado mais de mim, queria ter sido mais eu com eles. No fundo, queria que tivesse sido uma aula, verdadeiramente, genuína e em que todos estivéssemos reunidos pelo mesmo desejo – aprender, ampliar conhecimentos, relacionar, questionar e procurar respostas.

Do meu ponto de vista, houve um aspeto que foi extremamente positivo e que deve, por isso, ser destacado: houve, na verdadeira aceção da palavra, uma aprendizagem espontânea e ativa por parte dos discentes. Houve problematização e, não menos importante, houve partilha e confronto de diferentes pontos de vista. E, portanto, julgo ter cumprido aquilo a que me propus: proporcionar condições favoráveis ao desenvolvimento

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40 de espíritos críticos e autónomos. Mas, se por um lado, isso demonstra uma certa sensibilidade pedagógica da minha parte; por outro, acaba por me penalizar na gestão de tempo de que disponho em sala de aula. Tenho a plena consciência de que esse é um aspeto que devo procurar melhorar, procurando cumprir os objetivos a que me proponho. Todavia, julgo que apresento uma certa tendência em desenvolver planos demasiado ambiciosos, não sendo, de todo, conciliável com a minha forma de trabalho nem com o próprio tempo que compõe uma regência.

Já no que diz respeito à organização dos conteúdos a serem trabalhados, a minha opção foi a seguinte: explicitar passo a passo a teoria política de John Rawls. Todavia, acabei por não permitir uma visão global da mesma, ficando-me somente pela distinção entre «ordem natural» e «ordem social», bem como pela recuperação da ideia de contrato

social. A meu ver, estas eram duas ideias fundamentais e que eu queria realmente

trabalhar com os estudantes. Em primeiro lugar, para que os estudantes percebessem o ponto de partida da teoria de Rawls. Em segundo lugar, para que ficassem claros os pontos de aproximação e de maior afastamento entre Locke (autor ao qual nos dedicámos nas aulas precedentes) e John Rawls. Hoje, tenho algumas dúvidas quanto a esta escolha, pois impossibilitou-me de trabalhar algumas noções igualmente importantes. Por ser assim, saí da aula um pouco desanimada com o meu trabalho, considerando que ficou em falta alguma explicitação.

Quanto aos recursos que utilizei, posso dizer que fiquei satisfeita. Acho que houve uma boa dinâmica entre professor-alunos, que os consegui cativar e envolver no processo de ensino-aprendizagem. Julgo que consegui captar a atenção dos estudantes, criando uma relação mais motivada, dinâmica e pessoal com o problema a ser trabalhado – o problema da justiça social. De facto, não se tratou de uma aula de despejo de conteúdos

programáticos; pelo contrário, houve a preocupação de levar os alunos a sentir, a

problematizar e a relacionar com o seu quotidiano o que estava a ser avaliado. Perante a impossibilidade de analisar com os estudantes o vídeo que selecionara, por forma a introduzir a noção de véu de ignorância, optei por fazer, com a colaboração dos estudantes, uma sistematização das ideias principais até então trabalhadas. Julgo que esse foi um aspeto a meu favor, pois ajudou os alunos a clarificar algumas ideias e/ou noções basilares da teoria política de John Rawls e, não menos importante, a perceber como as várias partes se vão ligando.

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41 Em modo de conclusão, julgo que a minha ansiedade foi evidente, o que resultou num discurso mais tenso. Não menos importante, e visto se tratar da minha último aula, julgo que poderia ter feito um trabalho muito melhor.

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