AS DUAS FACES DA RELAÇÃO ENTRE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL E A ATIVIDADE TURÍSTICA

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AS DUAS FACES DA RELAÇÃO ENTRE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL E A ATIVIDADE TURÍSTICA

Vivian Madeira Farias

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História PPH/UEM

Silvia Helena Zanirato (Orientadora) O interesse por fatos memoráveis tem se mostrado a cada dia mais freqüente, o que tem fortalecido uma preocupação com a preservação de fatos e acontecimentos, que muitas vezes acabam por se tornar características marcantes de determinados lugares, como por exemplo, manifestações culturais, ritos, festejos etc.

Contudo o interesse pelas manifestações e bens que chamamos de imateriais é algo recente, visto que a princípio os olhares dos estudiosos estavam voltados para os bens materiais, que foi então chamado de patrimônio de pedra e cal, referindo-se a edificações. A preocupação com a preservação do patrimônio material teve início na Revolução Francesa, quando, para evitar a destruição buscou proteger e catalogar as construções remanescentes.

Durante muito tempo foi dado maior importância às grandes edificações, como palácios, igrejas, pontes, buscando desta forma construções que se destacavam por seu valor histórico ou artístico, o que não ocorre com o patrimônio imaterial, que está relacionado a cultura de determinado povo. Mas foi na Revolução Francesa que se estende a concepção de patrimônio a não somente grandes edificações, mas toda arte que pudesse ser considerada como testemunho do saber humano. Surgindo desta forma a idéia de patrimônio nacional, podendo este ser material ou mesmo imaterial.

Porém essa busca pela salvaguarda do que chamamos de patrimônio imaterial, ou seja, das manifestações e saberes popular não foi uma atitude encabeçada por países europeus, mas sim pelos menos desenvolvidos, ou chamados Terceiro Mundo, uma vez que os mesmos não possuíam grandes edificações para serem preservadas. Tal afirmação pode ser confirmada na fala de SANT’ANNA, onde diz que

Essa nova percepção não surgiu contudo, de uma reflexão européia e ocidental, mas da prática de preservação oriunda de países asiáticos e do chamado Terceiro Mundo, cujo patrimônio, em grande parte, é constituído, de criações populares em si por sua materialidade, mas pelo fato de serem expressões de conhecimentos, práticas e processos culturais, bem como de um modo específico de relacionamento com o ambiente (SANT’ANNA, 2003:49).

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Porém é preciso salientar aqui que o processo de reconhecimento de bens culturais sem a presença de objeto só tem início após a Segunda Guerra Mundial, de forma lenta, porém importante, processo este que vem eclodir na década de 1970 quando países do terceiro mundo reivindicam a proteção aos bens imateriais com a aprovação da Convenção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco. E foi em 1989, durante a XXV Conferência da Unesco, em Paris, que o conceito de patrimônio cultural imaterial passou a se referir efetivamente a cultura tradicional e popular.

Inicia-se então o processo de classificação das diversas formações humanas e culturais, tais como as festas, as danças, as comidas típicas de cada região. Opondo-se ao chamado patrimônio de “pedra e cal”, esta concepção passou a visar aspectos da vida social e cultural, e, como sugere o próprio termo, a ênfase agora recai menos nos aspectos materiais e mais nos aspectos ideais e de valor dessas formas de vida. A partir de então, o termo patrimônio cultural passou a ser subdividido então entre material e imaterial, referindo-se e englobando o conceito antropológico de cultura enquanto todo fazer humano, desde objetos, conhecimento, capacidades e valores. (GOMES, 2008: 04)

O patrimônio imaterial está desta forma ligado mais diretamente a valores e sentimento de pertença e menos a valores monetários. Determinada manifestação é considerada patrimônio e memorável a partir do momento que os seus realizadores e participantes tenha uma identificação com ela e sintam que aquela manifestação pertence realmente ao seu mundo, ao seu cotidiano, à sua história.

Uma diferença bastante notável e importante de mencionar no presente artigo é a diferença nos cuidados com o patrimônio material e imaterial. Enquanto no material se fala de tombamento, no imaterial dizemos acompanhamento, registro. Ora, sabemos que bens materiais é possível preservar estático, sem mudança, apenas alguns procedimentos de restauração, contudo ele permanece com a sua “fachada” inalterada. Por outro lado o patrimônio imaterial não é possível de tombar, de manter estático ao longo dos anos, visto que este está diretamente em contato com outras pessoas e mais do que isso, o patrimônio imaterial interage com seus participantes, provocando mudanças neles e sendo modificado por eles.

Neste caso é feito um registro do bem, da manifestação, do saber, para que este não se perca e, ao longo dos anos é preciso acompanhar para registrar quais as modificações que se faz presente e por quais motivos foram apresentado tais modificações.

Para um melhor controle dos bens intangíveis a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, em 2003 estabeleceu na Convenção Para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial um critério para diferenciar as manifestações, e as classificou da seguinte forma:

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a) Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vetor do patrimônio cultural imaterial; b) Artes e espetáculo;

c) Práticas sociais, rituais e eventos festivos;

d) Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza; e) Aptidões ligadas ao artesanato tradicional.

Desta forma é possível classificar o bem intangível de acordo com a categoria em que ele se identifica.

No artigo 2 da mesma convenção é possível encontrar a definição dada pela UNESCO, sendo “patrimônio cultural imaterial”

... as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. (UNESCO, 2006:04)

O crescente reconhecimento do patrimônio cultural imaterial implica na construção de uma nova idéia de nação, não ficando apenas com a cultura homogênea, mas contando com uma grande diversidade da criação material e também imaterial de seu povo.

Atualmente a atividade turística tem se aliado ao patrimônio cultural, por conta de seu valor estético, econômico e também social. Tal união tem despertado estudos, e muitas críticas, no momento em que é possível perceber autores que concordam com tal aproximação, mas há também os que consideram essa atitude um tanto perigosa.

A idéia do turismo apropriando-se do patrimônio cultural, embora venha ganhando adeptos e apoios não é vista sem controvérsias. Para os críticos do uso turístico do patrimônio, não se pode descuidar dos efeitos negativos, nocivos e destrutivos que o uso descontrolado do patrimônio cultural acarreta. (PEDRO e DIAS, 2008:06)

É importante lembrar que a atividade turística é responsável também pela expansão do público que aprecia o patrimônio cultural, não deixando os valores intelectuais restrito, mas tornando possível seu compartilhamento.

Contudo, conforme afirma Margarita Barreto, 2000:48, há os estudiosos que fazem uma crítica ao uso econômico do patrimônio cultural imaterial e, para esta autora, eles partem do pressuposto de que o “legado cultural transformado em produto para o consumo perde seu

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significado. A cultura deixa de ser importante por si mesma e passa a ser importante por suas implicações econômicas”.

Isso pode ter como conseqüência a transformação do patrimônio para agradar os turistas, os consumidores. Por exemplo, se a manifestação cultural tem por princípio ser realizada à beira de um rio, e os turistas começam a “invadir” tal espaço, há a possibilidade de os moradores serem “sufocados” e empurrados para longe do rio, deixando aquele espaço aos visitantes, uma vez que são eles quem dão lucro ao município.

Tais atitudes precisam ser controladas e administrada de forma a não “expulsar” os visitantes, mas fazer com que eles participam das manifestações como elas realmente acontecem, respeitando o espaço dos moradores e os seus ritos.

É claro que como já mencionado acima, o patrimônio cultural imaterial não tem como ser estático, ele sofre interferências e modificações, contudo é preciso tomar o cuidado de não deixar essa interferência ser tamanha que ao final não se sabe mais que tipo de festa ou manifestação está ocorrendo naquele lugar, sendo totalmente descaracterizada e perdendo a essência primeira daquele processo.

Para o antropólogo Carvalho, 2004: 79, as apropriações que o mercado pode fazer do patrimônio cultural imaterial são negativas por colocar em risco tradições sagradas que “podem ser atropeladas por um grupo social [...] desvinculando-as de suas dimensões locais de identidade, pertença, religiosidade, consciência histórica, criação estética, originalidade, fonte de auto-estima e resistência política”, na busca de tornar a manifestação um espetáculo para turistas e visitantes.

Outro fator que o turismo pode influenciar grandemente é a questão dos investimentos em mercados imobiliários, tornando uma localidade com certo patrimônio imaterial um destino turístico, automaticamente o valor de terra na região irá aumentar significativamente, assim como a qualidade das construções e valor de aluguéis, mudanças essas que para o turista só traz pontos positivos, contudo para os moradores pode ser a diferença entre ter ou não onde morar, ou passar ou não fome.

Com a alta nos valores de aluguel e não tendo aumento no ganho, um morador pode não conseguir pagar o novo valor e ter que morar com outra família, ou em bairros afastados. Outro fator é que a construção da casa de turistas, vizinha aos moradores causa uma pressão muito grande devido a diferença de qualidade e padrão de construção, forçando indiretamente ao autóctone se mudar para a periferia deixando o centro da cidade para os turistas.

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Porém em épocas de baixas temporadas há o perigo da cidade se tornar uma cidade fantasma, uma vez que grandes partes das residências vão se tornando 2º residência de turistas, que só aparecem ali nas férias ou feriados.

Para tais críticos, o cuidado e o respeito para com o patrimônio e também a comunidade local, a sua conservação deve estar acima de qualquer questão econômica.

Neste momento nos deparamos com um impasse, qual face desta relação deve ser apoiada e qual deve ser desencorajada? É preciso deixar claro que nenhuma atitude radical é a solução, não é possível fingir que o turismo descontrolado não irá destruir o patrimônio e juntamente a sua comunidade, contudo também não podemos isolar uma comunidade e acreditar que ninguém irá visitar e se interessar por suas manifestações, pois isso acontecendo, pode levar ao fim deste patrimônio, pois ele se torna patrimônio por seu valor memorável, se ninguém pode compartilhar de suas maravilhas quais serão então seu papel social.

A chave para tal mistério está nas mãos dos planejadores do turismo de cada localidade, fazendo com que ele se desenvolva de forma adequada, de acordo com as condições de recebimento de cada população e de cada local, não explorando seus benefícios além daquilo que ele suporta apenas para se conseguir um lucro a curto prazo, pois desta forma, em pouco tempo não haverá mais nada a se “explorar” naquele lugar.

De acordo com Gomes, o turismo com base no patrimônio cultural imaterial

... para que ocorra de maneira a ser uma interferência positiva na dinâmica do evento, o uso turístico deve buscar maneiras para atuar no sentido do fortalecimento das culturas com as quais se envolve. Assim, a relação entre patrimônios culturais e turismo deve fundamentar-se em dois pilares: tanto na existência de pessoas motivadas em conhecer culturas diversas, quanto também na possibilidade de que o turismo sirva como um instrumento de valorização da identidade cultural, através da preservação e conservação do patrimônio em questão. (GOMES, 2008:06)

Tem-se desta forma buscado a cada dia uma aproximação maior entre este público e o desenvolvimento de políticas e atividades que se voltam para a salvaguarda do patrimônio imaterial

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETTO, M. Turismo e Legado Cultural: As possibilidades do planejamento. São Paulo: Papirus, 2000.

CARVALHO, J.J. Metamorfoses das tradições performáticas afro-brasileiras: de patrimônio cultural a indústria do entretenimento In: LONDRES, C. et al. Celebrações e saberes da cultura popular: pesquisa, inventário, crítica, perspectiva. Rio de Janeiro: Funarte/ IPHAN/CNFCP, 2004.

GOMES, Mariana Elias. A Semana Santa em Mariana, MG: estudo da relação entre patrimônio imaterial e turismo. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –

ICOMOS. Carta do Turismo Cultural. Seminário Internacional do Turismo Contemporâneo e Humanismo. Bruxelas, 8-9 nov., 1976.

IPHAN. O registro do patrimônio imaterial. Brasília: Ministério da Cultura, 2000. Nº 15. 2008, Maringá. Disponível em : http://www.urutagua.uem.br/015/15gomes.pdf. Acesso em 13/07/2009.

OMT. Introducción al turismo. Madrid, 1998.

PEDRO, Fábio Costa e DIAS, Reinaldo. Patrimônio Imaterial e turismo: o caso do município de Jequitibá – MG. Caderno Virtual de Turismo, 2008. Disponível em: http://www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/ojs/viewarticle.php?id=350 Acesso em 12/07/2009.

SANT´ANNA, Márcia. A face imaterial do patrimônio cultural: os novos instrumentos de reconhecimento e valorização. In: ABREU, Regina e CHAGAS, Mario (orgs). Memória e patrimônio, ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro, DP&A, 2003.

UNESCO. Convención para La Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial. Actas de la 32ª. Conferencia General. Paris, 29 set.-29 out., 2003. 2006

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