SERRA DA PIEDADE
Ivo Porto de Menezes *
As tradições escritas ou orais constituem, muitas vezes, o fundamento de uma verdade histórica, quando devidamente comprovadas por documentos. Recebidas com a devida reserva, podem indicar fontes onde se deva procurar a documentação histórica que lhes dêm respaldo. Muitas vezes, no entanto, a busca de uma documentação leva-nos ao encontro de outra de grande valor no que se refere à verdade histórica.
Buscando, nos preciosos arquivos existentes em Portugal, documentação referente a Minas Gerais, em especial no aspecto de seu passado artístico, quando de bolsa de estudos ali realizada, fomos encontrando documentos de valor histórico, quer seja sobre o passado político, social ou religioso. Assim, entre documentos inúmeros referentes a Minas Gerais, encontramos documentação específica sobre a Serra da Piedade que, confirmando assertivas anteriormente feitas sobre a origem da devoção à Senhora da Piedade, no alcantilado da Serra, junto a Caeté, traz-nos, através de documentação devidamente autenticada, documentações estas oriundas de autoridades da época, cientes pelo ver e saber, dos fatos narrados ou originários das tradições, já agora realidade.
Também no nosso precioso Arquivo Público Mineiro, já havíamos encontrado ou fomos encontrar novos documentos referentes à mesma Serra da Piedade. Outros documentos, anteriormente encontrados e pesquisados, trazem também preciosos informes. Pode-se, então, separar o que de fato é verdadeiro dos acrescentamentos ocorridos ao correr dos tempos.
Vindo a Minas do século XVIII, para “fazer América” como então se dizia, isto é, arrecadar um vasto “cabedal”, para depois voltar à sua terra, um certo Antônio da Silva, mestre canteiro, ou seja, artista na execução de obras de pedra bem trabalhada (cantaria), nascido na cidade de Bracarena, vizinha de Lisboa, por isso mesmo conhecido aqui por Antônio da Silva Bracarena, de fato com seus trabalhos conseguiu ganhar algum “cabedal”, como ele mesmo declara (1 - Documento nº 1).
Arrematando as obras de pedra da Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, Matriz da Vila do Caeté, para ali se muda, executando com perfeição as obras que tinha tomado sob sua direção, iniciando os trabalhos em 1756 (2).
Vem a saber da novidade que corria, por volta de 1767, de que a Senhora da Piedade havia aparecido a duas moças, no alto da Serra que fica vizinha à vila (1). Procura certificar-se da verdade do que ouvia dizer e, convencido da veracidade dos fatos, como ele mesmo escreve ao Rei, resolve, já que ninguém a isso se dispunha, a fazer acesso mais fácil ao local da aparição da Senhora, e ali fazer construir uma ermida. Executa o caminho, dá início às obras da capela, executa-as, enquanto suas reservas monetárias o permitem. Quando tal já não é possível, apela ao Rei para que lhe conceda ajuda (1 - Documento nº 1).
Solicita à autoridade eclesiástica, ao Bispo de Mariana, a devida licença para erigir, no local mesmo da aparição da Senhora da Piedade, uma ermida, o que lhe é concedida pelo Dor Ignacio Corrêa de Sá, Cônego Doutoral da Catedral de Mariana, em despacho de 30 de setembro de 1767(3)
Procura munir-se de documentos que mostram a veracidade das assertivas que faz ao relatar o acontecido, quer através de atestação da Câmara Municipal da vizinha Caeté, quer através de atestação de vigários idôneos (Documento nº 2) e mesmo de uma justificação judicial, para o que testemunhas são inquiridas pelo Juiz Ordinário Antônio de Sequeira (4 - Documento nº 3).
Eis, pois, uma documentação, constituída de uma narrativa da veracidade dos fatos ali ocorridos, além de documentação comprobatória, que deve ser recebida como transcrição da verdade ocorrida, já que, contemporânea dos
fatos, autenticada por documentos da época, era endereçada ao Rei por quem toda a verdade poderia ser facilmente constatada pelos seus agentes mais diretos, seja o Governador, seja seus prepostos na própria vila do Caeté.
A provisão necessária para a construção da Capela foi obtida em 1767, já o vimos acima. A capela-mor já “está feita” em 1773, assim como a casa para os eremitas e romeiros, como declaram várias testemunhas do Auto de Justificação (4). Daí para a frente, vão escasseando os recursos, torna-se necessário obter licença para que ermitães corram a comarca do Sabará e mesmo mais além, em busca dos recursos para continuação da obra (1). Continuam as obras, enquanto obtém recursos e suas forças o permitem. Em 1784, elabora seu testamento, falecendo antes de 13 de abril do mesmo ano (2).
Já então ali residiam alguns eremitas, dedicando-se somente ao serviço da Virgem da Piedade: Manoel Afonso Gonçalves, “per si e pelas pessoas de seus ermitães” vai pedir esmolas para o término da capela, José dos Santos da Piedade, Theodoro de Jesus Maria, Antônio Marques da Piedade, Faustino Vieira da Piedade, Luiz Moreira,(2) e José Antônio da Nobrega, que também recorre ao Rei (5 - Documento nº 4). O Desembargador Ouvidor Geral da Comarca declara, em 1804, que a capela “decentemente ornada” e “pronta para o culto divino é freqüentada, quando o tempo permite, por muitas pessoas do mesmo termo e ainda de fora dele, umas por promessas e motivos de piedade, outras para admirarem tanta elevação e gozarem o maravilhoso espetáculo e belo golpe de vista que aquele sítio oferece”. “As casas destinadas para os romeiros e outras oficinas que devem formar parte daquele todo se acham por acabar”.
O pequeno santuário, fruto do esforço pessoal e da devoção de Antônio da Silva Bracarena, lá está, no cume da serra, “a qual segundo algumas observações geográficas é a mais elevada das muitas que se conhecem nesta Capitania”.
Embora até hoje não se tenha encontrado qualquer documento que identifique o autor da preciosa imagem da Senhora da Piedade, ali exposta, no entanto, estudos realizados, atribuem a autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. De fato, Antônio Francisco inicia seus trabalhos de talha com o mestre José Coelho de Noronha, que arremata a fatura da talha e douramento do altar mor da Matriz da Senhora do Bom Sucesso de Caeté, em 1758 (6), realizando seus trabalhos entre 1760 e 1765. Antônio Francisco Lisboa, por outro lado, tem a ele atribuída a execução de projeto de dois altares colaterais, executando um do lado da epístola (7). Ainda é de se consultar o trabalho minucioso do Professor Edmundo Fontenelle (8).
CITAÇÕES
(1) Minas Gerais - Caixa 21 DO (maço 104) - Arquivo Histórico Ultramarino Lisboa, Portugal - Pesquisa de Ivo Porto de Menezes, 1970.
(2) D. Carlos Carmelo de V. Mota - Testamento do fundador da Capela de Nossa Senhora da Piedade - in Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - vol. VII, Belo Horizonte, 1960 - pág. 364.
(3) Cônego Raimundo O. Trindade - Ereção da Serra da Piedade - Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - vol. II, Belo Horizonte, 1946 - pág. 196.
(4) Minas Gerais - Caixa 21 DO (Maço 104 - Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa, Portugal - Pesquisa de Ivo Porto de Menezes, 1970.
(5) Minas Gerais - Caixa 20 DO (Maço 103) e Minas Gerais - Caixa 41 (1753-1807) - Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa, Portugal - Pesquisa de Ivo Porto de Menezes, 1970.
(6) Códice 75 SC DF - fls. 104 - Arquivo Público Mineiro - in Ivo Porto de Menezes - José Coelho de Noronha e Francisco Vieira Servas - II Congresso do Barroco no Brasil - Ouro Preto, 1989.
(7) Lúcio Costa - Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho - Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nº 18 , pág. 78 - Rio de Janeiro, 1978.
(8) Prof. Edmundo Fontenelle - O Aleijadinho na Serra da Piedade - Escola de Arquitetura da UFMG - Belo Horizonte, 1970.
* Historiador. Ex-Professor da Escola de Arquitetura da UFMG e da Escola de Minas da UFOP.
DOCUMENTAÇÃO Documento nº 1
Senhor. Diz Antônio da Silva Bracarena, morador na Comarca de Sabará, Minas Gerais, que ausentando-se deste Reino e sua Pátria para a América, Domínios de Vossa Majestade exercitou neles o ofício de cantaria no qual ganhou cabedal grande e com ele se fez abastado de bens, porem sempre com o desígnio de se passar a este Reino e sua Pátria, cujo projeto inteiramente se escureceu da sua idéia depois que, na serra do Caeté, da mesma Comarca, apareceu uma Venerável Imagem da Senhora da Piedade a umas donzelas, que por ali andavam, porquanto preocupado o Suplican5e do espírito de devoção, depois que teve certeza daquela aparição, e vendo que nenhuma pessoa das que podiam concorrer para se obsequiar a Mãe de Deus, se dispunha a isso, entrou o Suplicante a fazer comunicável o alto daquela Serra, abrindo para isso a custa de grande trabalho, caminho suficiente para as pessoas que lá quisessem ir, e da mesma sorte deu principio no Lugar da aparição, a uma Capela, dedicada à mesma Senhora, cujo edifício teve adiantamento grande enquanto o suplicante pode a custa de sua Fazenda comprar os materiais precisos; porem como se lhe tem dificultado a continuação da obra, que não se acha completa, por estar o suplicante bastantemente fatigado, e falto de bens, pois assim dos que despendeu para a mesma obra, recusou adquirir outros preferindo a todas as conveniências, o servir à Mãe de Deus; por este motivo, e por não se esfriar a devoção e culto, que diariamente vão inumeridade de Povo daquela Comarca e outras, tributar naquela eminentíssima serra à Virgem Senhora se não se consumar a dita obra, requer a V. Majestade se sirva, a vista da verdade que tem representado que se justifica da atestação da Câmara daquela Vila e da Justificação junta, mandar passar provisão para haver na dita Capela um Ermitão, que saia a pedir Esmolas pelos fieis daquela Comarca e Capitania para conclusão da dita obra, sua conservação e paramentos necessários, sendo livre ao suplicante a eleição do Eremita, e por sua morte ao Procurador, ou Zelador, que ficar encarregado da administração da dita Capela. Pede a Vossa Majestade se sirva mandar passas provisão para o que se representa. E Receberá Mercê.
O juiz Presidente e mais oficiais da Câmara de Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará.
Atestamos e Fazemos certo, debaixo de juramento com que servimos, que Antônio da Silva Bracarena, a custa da sua fazenda, tem dado princípio a sua Capela da Senhora da Piedade no alto da Serra do Caeté, onde concorre número grande de gente a Louvar a dita Senhora pelos contínuos milagres que faz e pelo seu grande zelo procedimento e devoção tem sido bem louvada a eficácia com que provendo do Temporal se aplicara todo a mesma Senhora e por verdade (ilegível) e que nos assinamos e Selada com o Selo deste Conselho Sabará em Câmara aos 10 de julho de 1773. Custodio dos Anjos Primes. (ilegível) Câmara (Ilegível) Lourenço (ilegível) José Teixeira de Queiroga Luiz de Souza Pinto João Alves Pereira.
Reconheço a letra e as forma das firmas retro ser dos oficiais da Câmara da vila de Sabará por semelhantes que deles tenho visto Vila 18 de Dezembro de 1775 Em testemunho da verdade Domingos Coelho Brandão
O dr. João Antônio Salter de Mendonça do Desembargo de Sua Majestade seu Desembargador da Relação desta cidade e nela juiz das justificações Ultramarina, etc.
Faço saber que a mim me constou por fé do Escrivão que essa subscreve seo o sinal público e letra supra do Tabelião Domingos Coelho Brandão o que hei por justa Rio Em 18 de Dezembro de 1775 e eu Antônio Machado Freire o subscrevi João Antônio Salter de Mendonça.
(Minas Gerais - Caixa 21 DO (maço 104) Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa, Portugal - Pesquisa de Ivo Porto de Menezes, 1970)
Documento nº 2
Joam Baptista de Figueiredo Vigário confirmado nesta Paroquial Igreja de N. S. Da Conceição das Catas altas. Atesto, que na distância de légua, e meia da Vila Nova da Rainha, vulgo, Caeté, se acha edificada uma Capela de pedra, que tem por orago Nossa Senhora da Piedade, cuja Imagem é de suma veneração, e a Capela se acha decentemente ornada, e em torno da mesma tem dormitórios, e pelo retiro e situação julgo lugar bem proporcionado para uma Congregação Monacal, e por ter sido eu testemunha ocular, e esta me ser pedida a passo, e sendo necessário afirmo in fide Parochi. Catas Altas 10 de Fevereiro de 1818. Joam Baptista de Figueiredo.
Reconheço de verdadeira a letra, e assinatura da atestação supra. Em fé do que faço a presente. Vila Nova da Rainha 4 de fevereiro de 1819. Em testemunho da verdade Pedro Lino da Silva Lopes.
O Juiz Presidente, e mais Oficiais da Câmara que servimos o presente ano nesta Vila nova da Rainha e seu Termo por Eleição na forma da Lei, etc.
Atestamos que distante desta Vila duas léguas, em uma alta Serra, que daqui e de muito mais longe se avista, acha-se edificada uma Capela com o título de Nossa Senhora da Piedade, à custa dos fieis, que para isso concorreram com fervor, tanto que tem um bom patrimônio em terras de cultura, nas quais, promovendo-se a indústria, se pode tirar o sustento, para uma boa Comunidade monacal, e sem a maior fadiga; o lugar ;e próprio à vida contemplativa; nele tem residido e falecido algumas pessoas em boa opinião: nele é que se viu as primeiras vezes a prodigiosa Crucifixão da inocente Germana em todas as sextas feiras, cuja ação ainda continua com circunstâncias estupendas, e dignas da atenção dos fieis católicos: tem o dito edifício a Real Aprovação, mas se não houver nele alguma congregação vai a perder-se. O referido é verdade, o que afirmamos com juramento dos nossos Cargos; e por nos ser pedida a presente a mandamos passar, que vai por nós assinada e Selada com o Selo das Armas Reais, que neste Senado serve. Dita Vila em Câmara de 31 de Dezembro de 1819 e eu Quintiliano Justino de Oliveira Horta, Escrivão da Câmara que a Escrevi. Manoel Teixeira da Silva. João José Ferreira de Abreu. Antônio José Ribeiro da Costa. Pedro Lino da Silva Lopes. José d’Anchieta Teixeira.
Manoel Carvalho de Moraes, Professo na Ordem de Cristo, e Vigário Confirmado nesta Freguesia da Senhora do Bom Sucesso de Vila nova da Rainha do Caeté, por S. Majestade Fidelíssima, que Deus guarde, etc.
Atesto que em uma Serra desta Freguesia está ereta uma Capela de Nossa Senhora da Piedade, muito bem adornada com Dormitórios em torno, patrimônio, e por conseqüência o lugar mais próprio para um recolhimento, ou Congregação, em que pessoas de um, ou outro sexo possam empregar-se nos Louvores de Deus, e de sua Santíssima Mãe. Passa o referido na verdade, que afirmo in fide Parochi. Vila nova da Rainha do Caeté 15 de Setembro de 1819. Manoel Carvalho de Moraes.
Reconheço verdadeira a assinatura supra ser do próprio punho do Reverendo Vigário Manoel Carvalho de Moraes de que dou fé e paço o presente. Vila Nova da Rainha 15 de Setembro de 1819. Em testemunho de verdade. Severino Soares Ferreira.
Documento nº 3 1773.
1774. Justificação.
Antônio da Silva Bracarena - justificante. Justificação cível.
Escrivão Vieira Carneiro.
Ano do Nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e setenta e três anos aos seis dias do mês de julho do dito ano, nesta vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, Comarca do Rio das Velhas em o cartório de mim Escrivão ao diante nomeado, sendo aí apareceu o justificante Antônio da Silva Bracarena me foi apresentada uma sua petição de Itens, despachada por Lourenço de Siqueira, Juiz Ordinário o presente ano nesta dita Vila e seu Termo por Eleição na forma da Lei e distribuída pelo distribuidor do juízo, Antônio Fernandes Gil, pedindo com a dita petição e despacho lha tomasse ainda se autuasse onde (ilegível) neste juízo justificar por testemunhas o deduzido em seus artigos, ao que satisfiz tomando o auto onde achei o que se segue que de tudo para constar faço este termo de autuação eu Antônio Jorge de Almeida Basto, Escrivão do judicial que no impedimento do atual José Vieira Correa que o Escrevi. A vr.a 6 de julho de 1773. Gil.
Diz Antônio da Silva Bracarena que para requerimentos que tem que fazer a Sua Majestade Fidelíssima precisa justificar o seguinte:
Que a Serra do Caeté é a mais alta que há em Minas, muito agreste e cheia de penedias por cuja causa é dificultosíssima a subida nela, ainda para aquelas pessoas que andam de pé.
Que havendo certeza de ter aparecido a Virgem Santíssima a umas donzelas que andavam naqueles contornos se afervorou a devoção dos fieis desta Comarca para lhes servirem culto.
Que em razão do agreste da penedia quase se fazia impraticável o exercício da devoção naquela paragem, por cujo motivo se dispôs o justificante com despesa de sua fazenda a fazer caminho para o alto da dita Serra, onde se deu princípio impetradas as licenças precisas, a ereção de uma Capela de Nossa Senhora da Piedade Aparecida.
Que o justificante foi o próprio que concorreu e tem concorrido com a despesa necessária para a ereção da Capela Mor que está feita, casas para hospedagem dos contínuos romeiros e devotos que a Virgem Senhora vão dedicar cultos.
Que na dita paragem se acha colocada uma devota Imagem da Senhora da Piedade, e que continuamente vão em romaria a ela número grande de povo porque são contínuos os milagres que faz a dita Senhora.
Que o justificante até o tempo da colocação da dita Imagem naquela Serra vivia de seu ofício de pedreiro, pelo qual ganhava cabedal nas obras de custo, que fazia, cujos interesses abandonou, e se foi morar na dita paragem com o desígnio de servir a Virgem Senhora em cujo (ilegível) igualmente ocupa os escravos que tem.
Que a dita obra não tem tido outro protetor, que para ela concorra senão o justificante que na fatura dela tem despendido cabedal que possua, não lhe restando dele senão uns escravos.
Pede a V. Mercê se sirva admitir ao suplicante juntar o deduzido e fazer que se lhe entregue a própria justificação. E receberá Mercê.
Justifique como requer. Sequeira.
Assentada.
Aos sete dias do mês de julho de mil setecentos e setenta três anos nesta Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, Comarca do Rio das Velhas, em casa de morada de Lourenço de Sequeira, Juiz ordinário o presente ano nesta vila e seu termo por Eleição na forma da Lei e sendo aí por ele comigo escrivão foram inquiridas e perguntadas as testemunhas que por parte do justificante Antônio da Silva Bracarena lhe foram apresentadas (ilegível) naturalidades, víveres, idades, e costumes, tudo é (ilegível) eu Antônio José de Almeida Basto, Escrivão do judicial o escrevi.
Francisco Gomes Velho Gaio, homem branco, natural da freguesia de Santa Maria a nova, bispado da cidade do Porto e de presente morador nesta vila do Sabará, comarca do Rio das Velhas, que vive de minerar, de idade que disse ser de sessenta e sete anos, testemunha a quem o dito juiz ordinário deferiu juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, em que pôs sua mão direita (ilegível) do qual lhe encarregou jurasse a verdade do que soubesse e lhe foi perguntado e recebido por ele o dito juramento, assim o prometeu fazer e ao costume disse nada.
Ao primeiro item dos que foi perguntado disse que sabe pelo ver e pelo largo conhecimento que tem destas Minas que a Serra do Caeté é a mais alta que há por todas estas Minas e muito agreste e cheia de penedias e dificultosa a subida a ela ainda aquelas pessoas que andam a pé.
E prosseguindo disse que sabe por ser público e notório houvera cinco para seis anos aparecera a Virgem Nossa Senhora a umas donzelas que andavam naqueles contornos da Serra do Caeté e havendo certeza disto pelas pessoas desta Comarca se afervorou a devoção para lhe oferecerem cultos e mais não disse deste.
E do terceiro disse que sabe pelo ver que em razão do agreste da penedia daquela serra quase se fazia impraticável o exercício da devoção naquela paragem por cujo motivo se dispôs o justificante com despesa da sua fazenda a fazer caminho para o alto da dita serra, onde se deu princípio, impetradas as licenças precisas, a ereção de uma capela de Nossa Senhora da Piedade Aparecida e mais não disse desta.
E do quarto disse que sabe pela mesma razão de neste que o justificante é o próprio que concorreu e tem concorrido com a despesa necessária para a ereção da Capela Mor que está feita e casas para hospedagem dos contínuos romeiros e devotos que à Virgem Senhora vão dedicar cultos e mais não disse deste.
E do quinto disse que sabe pelo ver que na dita paragem se acha colocada uma devota Imagem da Senhora da Piedade e que continuamente vão em romaria a ela numero grande de povo porque são contínuos os milagres que faz a dita Senhora e ele testemunha o tem experimentado em alguns que lhe tem feito e mais não disse deste.
E do sexto disse que sabe pelo ver que o justificante até o tempo da colocação da dita Imagem naquela serra do Caeté sempre vivia do seu ofício de pedreiro pelo qual ganhava cabedal nas obras do custo que fazia e todos os interesses abandonou e se foi morar a dita paragem com o desígnio de servir a dita Senhora em cujo exercício ocupa os escravos que tem, e mais não disse deste.
E do sétimo disse que sabe pel mesma razão que a dita obra não tem tido outro Protetor que para ela concorra senão o justificante e na fatura dela tem despendido o cabedal que possuía não lhe restando dele senão uns escravos e mais não disse deste último dos apontados que todos lhe foram lidos e declarados pelo dito juiz ordinário, com quem assinou, sendo-lhe lido seu juramento por mim Antônio José de Almeida Basto, Escrivão judicial que o escrevi. Sequeira. Francisco Gomes Bello Gaio.
Luiz José Serqueira, homem branco, natural da freguesia de Meinedo, bispado da cidade do Porto e de presente morador nesta vila, que vive de sua venda de molhados, de idade que disse ter de trinta e dois anos, testemunha a quem o dito juiz ordinário deferiu o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, do cargo do que lhe encarregou dissesse a verdade do que soubesse e lhe foi perguntado e recebido por ele o dito juramento assim o prometeu fazer e aos costumes disse nada. E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo na petição e itens do justificante.
Ao primeiro item disse que sabe pelo ver que a Serra do Caeté é a mais alta que há por todas estas Minas com muitas penedias e por isso dificultosa a subida dela ainda por aquelas pessoa que andam a pé e mais não disse deste.
E do segundo disse que sob aquela mesma razão, que a uns dois terá aparecido a Virgem Senhora a umas donzelas que andavam naqueles contornos se aumentou a devoção dos fieis desta Comarca para lhe oferecerem cultos e mais não disse deste. E do terceiro disse que sabe pelo ver que em razão do agreste e penedia daquela serra se fazia impraticável o exercício de devoção naquela paragem por cujo motivo se dispôs o justificante com despesa de sua fazenda a fazer caminho para o alto da dita Serra, onde se deu princípio, impetradas as licenças precisas a execução de uma Capela de Nossa Senhora da Piedade Aparecida e mais não disse deste.
E do quarto disse que sabe pela mesma razão de o ver que o justificante foi o próprio que concorreu e tem concorrido com a despesa necessária para ereção da Capela Mor que está feita e casas para hospedagem dos contínuos romeiros e devotos que à Virgem Senhora vão dedicar cultos e mais não disse deste.
E do quinto Item disse que sabe pelo ver que na dita paragem se acha colocada uma devota Imagem da Senhora da Piedade e que continuamente vão em romaria, a ela, número grande de povo, por serem contínuos os milagres, e mais não disse deste. E do sexto disse que sabe pela mesma razão que o justificante, até o tempo da colocação da dita imagem naquela serra, vivia de seu ofício de pedreiro pelo qual ganhou o cabedal nas obras de custo que fazia, cujos interesses abandonou e foi morar na paragem com o desígnio de servir a mesma Senhora em cujo exercício atualmente ocupa os escravos que tem e mais não disse deste.
E do sétimo disse que sabe pelo ver que a dita obra não tem tido outro protetor que para ela concorra senão o justificante, na fatura da Capela Mor tem gasto todo o cabedal que possuía, não lhe restando dele senão uns escravos e mais não disse deste último que todos lhe foram lidos e declarados pelo dito juiz ordinário com que assinou sendo-lhe lido seu juramento por mim Antônio José de Almeida Basto, Escrivão do judicial que o escrevi.
Sequeira. Luiz José Serqueira.
Antônio Gomes Melgaço, homem branco, natural da freguesia de São Cosme de Melgaço, Arcebispado da cidade de Braga e de presente morador nesta vila do Sabará, que vive do seu ofício de pedreiro, de idade que disse ser de sessenta anos pouco mais ou menos, testemunha, a quem o dito juiz ordinário deferiu o juramento dos santos Evangelhos, em um livro deles, sob carga do qual lhe encarregou jurasse a verdade do que soubesse e lhe for perguntado e recebido por ele testemunha o dito juramento assim o prometeu fazer e ao costume disse nada.
E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo na petição de itens do justificante. Ao primeiro item disse que sabe pelo ver que a Serra do Caeté é a mais alta e elevada que há por todas estas Minas, monte agreste e cheia de penedias e por isso muito dificultosa a sua subida inda para aquelas pessoas que andam a pé e mais não disse desta.
E do segundo disse que sabe pelo ver que a cinco anos pouco mais ou menos, fora público nesta Comarca ter aparecida a Virgem Senhora a umas donzelas que andavam naqueles contornos de sorte que se afervorou a devoção dos fieis oferecendo-lhe cultos e mais não disse deste.
E do terceiro disse que sabe pelo ver que em razão do agreste da penedia quase se fazia impraticável o exercício da devoção naquela paragem por cujo motivo se dispôs o justificante com despesa de sua fazenda a fazer caminho para o alto da dita serra onde se deu princípio, impetradas as licenças precisas a ereção de uma capela de Nossa Senhora da Piedade Aparecida e mais não disse deste.
E do quarto disse que sabe pelo ver que o justificante foi o próprio que concorreu e tem concorrido com a despesa necessária para a ereção da Capela Mor que está feita e casas para hospedagem dos contínuos romeiros e devotos que à Virgem Senhora vão dedicar cultos e mais não disse deste.
E do quinto disse que sabe pela mesma razão que na dita paragem se acha colocada uma devota imagem da Senhora da Piedade e que continuamente vão os romeiros em grande número por serem contínuos os milagres e mais não disse deste. E do sexto disse que sabe pelo ver que o justificante até o tempo da colocação da dita imagem naquela serra, vivia de seu ofício de pedreiro fazendo avultadas conveniências em grande obras que ajustava e tudo abandonou só por ir morar na dita paragem e servir a dita Senhora em cujo exercício se tem ocupado até o presente e também seus escravos e mais não disse deste.
E do sétimo disse que sabe pela mesma razão que a dita obra não tem tido outro protetor que o justificante gastando na dita obra todo o seu cabedal não lhe ficando de resto senão escravos e mais não disse deste ultimo que todos lhe foram lidos e declarados pelo dito juiz ordinário com quem assinou sendo-lhe lido seu juramento por mim Antônio José de Almeida Basto, Escrivão do judicial que o escrevi. Antônio Gomes Melgaço. Sequeira.
Francisco Dias Ribeiro, homem branco, natural da vila de Guimarães, freguesia de Sam Paio e de presente morador nesta vila, que vive de ser agregado do Reverendo Vigário da vila e morador, de idade que disse ser de quarenta e nove anos pouco mais ou menos, testemunha a quem o dito juiz ordinário deferiu o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, em que por sua mão direita sob cargo do qual lhe encarregou jurasse a verdade do que soubesse e lhe foi perguntada e recebido por ele o dito juramento assim o prometeu fazer e aos costumes disse nada.
E perguntado a ele testemunha pelo conteúdo na petição de itens do justificante: Ao primeiro disse que sabe pelo ver que a serra do Caeté é a mais alta que há nestas Minas muito cheia de penedios e agreste e por isso dificultosa a sua subida ainda daquelas pessoas que andam a pé e mais não disse deste.
E do segundo disse que sabe por ser público e notório que aparecendo a mesma Senhora nos contornos daquela serra a umas donzelas se afervorou a devoção dos fieis desta Comarca para lhe oferecerem cultos e mais não disse deste.
E do terceiro disse que sabe pelo ver que em razão do agreste da penedia daquela serra quase se fazia impraticável o exercício da devoção naquela paragem e por isso se dispôs o justificante com despesa de sua fazenda fazendo o caminho para o alto da serra onde se deu princípio, impetradas as licenças precisas, a ereção de uma capela de Nossa Senhora da Piedade Aparecida e mais não disse deste.
E do quarto disse que o justificante foi o próprio que concorreu e tem concorrido com a despesa necessária para a ereção da Capela Mor que está feita e casas para a hospedagem dos romeiros que vão em romaria por serem contínuos os milagres da dita Senhora e mais não disse deste nem do quinto por ter dito.
E do sexto disse que sabe pelo ver que o justificante até o tempo da colocação daquela dita Imagem se ocupava no seu ofício de pedreiro em que fazia avultadas conveniências em grandes obras que ajustava e tudo deixou por ir servir a dita Senhora em o dito exercício se tem ocupado e seus escravos até o presente e mais não disse deste.
E do sétimo disse que sabe pelo ver que o justificante tem sido o Protetor daquela obra e nunca tivera outro e na fatura dela tem despendido todo o cabedal que possuia não lhe restando dela senão uns escravos e mais não disse deste último dos apontados que todos lhe foram lidos e declarados pelo dito juiz ordinário com que assinou sendo-lhe lido seu juramento por mim Antônio José de Almeida Basto, Escrivão do judicial que o Escrevi. Sequeira. Francisco Dias Ribeiro.
Declaração.
Aos sete dias do mês de julho de mil setecentos e setenta e três anos, nesta vila Real do Sabará, comarca do Rio das Velhas, em casas de morada de Lourenço de Sequeira, juiz ordinário o presente ano nesta dita vila e seu termo, faço ao dito juiz estes autos conclusos para o seu Remate, como lhe parecer de justiça de que faço este termo eu Antônio José de Almeida Basto, escrivão do judicial que escrevi.
Entregue-se ao justificante a própria justificação ficando o traslado nos Autos, digo no Cartório Sabará, julho 7 de 1773.
Lourenço de Sequeira. Data
Aos sete dias do mês de julho de mil setecentos e setenta e três anos, na vila Real de nossa senhora da Conceição do Sabará, comarca do Rio das Velhas, em casas de morada de Lourenço de Sequeira, juiz ordinário o presente ano nesta vila e seu termo, por eleição, na forma da Lei e sendo aí (ilegível) que para minha, me foram dados estes autos com a sua sentença supra, que houve por publicada (ilegível) escrivão a qual mandou se cumprisse e que o desse como nela se contém de tudo para constar de todo o referido mandou fazer este termo que eu, Antônio José de Almeida Basto, Escrivão do judicial que no impedimento do atual José Vieira Correa que o escrevi. Conta
A Razão 2$604
As def $245 Traslado deste autos 2$832
Soma 5$681 pg. Basto Conta 150
Vila Real do Sabará, 8 de julho de 1773. Sequeira.
Reconheço a letra e firma deste processo do juiz e escrivão neles conhecendo por semelhantes que tenho visto Rio 18 de Dezembro de 1775. Em testemunho da verdade Domingos Coelho Brandão.
O dr. João Antônio Salter de Mendonça do Desembargo de Sua Majestade e seu Desembargador na Relação desta cidade e nela juiz das justificações de ultramarinas, etc.
Faço saber que a mim me constou por fé do Escrivão que esta subscreve ser oficial público (ilegível) supra do Tabelião Domingos coelho Brandão o que hei por justiça. Rio 18 de Dezembro de 1775 e eu Antônio Machado Freire subscrevi. João Antônio Salter de Mendonça.
(Minas Gerais - Caixa 21 DO (Maço 104) - Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa - Pesquisa de Ivo Porto de Menezes, 1970)
Documento nº 4