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A PALAVRA E O DISCURSO: O LÉXICO COMO CONECTOR DAS RELAÇÕES DISCURSIVAS

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Academic year: 2021

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A PALAVRA E O DISCURSO:

O LÉXICO COMO CONECTOR DAS RELAÇÕES DISCURSIVAS

Álvaro Antônio Caretta Universidade de São Paulo Resumo: Neste trabalho, tratamos o elemento lexical como um conector discursivo que relaciona a enunciação e o interdiscurso. Tomando o princípio da escolha lexical como uma atitude enunciativa, observaremos que o enunciador seleciona as palavras tendo em vista um repertório oferecido pelas relações dialógicas determinadas pelo gênero, pelo estilo e pelo posicionamento discursivo do enunciado.

Palavras-chave: Análise do Discurso, léxico, samba-canção, relações dialógicas

Abstract: In this work, we treat the lexical element as a discursive connector that relates the enunciation and interdiscourse. Taking the principle of the lexical choice as an enunciative attitude, we will observe that the enunciador selects the words in view of a repertoire offered for the dialogics relations determined by the genre, the style and the discursive positioning of the utterance.

Keywords: Analysis of discourse, lexicon, song-samba, dialogics relations 1. Introdução

Sabe-se que a escolha lexical é um procedimento enunciativo determinante para a configuração do estilo e, conseqüentemente, responsável pela constituição da imagem do enunciador - o ethos. A seleção lexical, vista como atitude de um enunciador, também responde pela constituição da cena enunciativa, particularmente das cenas validadas. Pressupondo que o enunciador não realiza as suas escolhas diretamente em um sistema lingüístico abstrato e virgem, mas em um interdiscurso delimitado pela esfera e pelo gênero discursivos, tanto o ethos do enunciador, quanto as cenas validadas estabelecem relações interdiscursivas num processo dialógico em que o elemento lexical exerce a função de conector.

Para estudarmos esses aspectos, perseguiremos inicialmente as propostas de Mikhail Bakhtin sobre os gêneros discursivos, enfocando as questões sobre dialogismo e estilo. A partir desses conceitos, abordaremos as teorias de Dominique Maingueneau a respeito da cena de enunciação, dando ênfase à constituição do ethos e às cenas validadas.

Tomando como corpus o samba-canção “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, observaremos como a seleção das cenas validadas tem um compromisso com as coerções determinadas pelo estilo, pelo ethos, e pela posição ideológico-discursiva desse gênero musical que se caracteriza por explorar o sofrimento amoroso como seu principal tema. Por meio de uma análise discursiva do enunciado, pretendemos demonstrar de que forma essa concepção disfórica do amor constitui-se por meio de relações interdiscursivas estabelecidas já na escolha lexical.

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2. Análise da letra Chão de Estrelas

(Sílvio Caldas e Orestes Barbosa)- (1951) Minha vida era um palco iluminado

Eu vivia vestido de dourado Palhaço das perdidas ilusões... Cheio dos guizos falsos da alegria Andei cantando a minha fantasia Entre as palmas febris dos corações. Meu barracão no morro do Salgueiro Tinha o cantar alegre de um viveiro Foste a sonoridade que acabou... E, hoje, quando do sol a claridade Forra o meu barracão, sinto saudade Da mulher - pomba-rola que voou. Nossas roupas comuns dependuradas Na corda, qual bandeiras agitadas, Pareciam um estranho festival: Festa dos nossos trapos coloridos, A mostrar que nos morros mal vestidos É sempre feriado nacional!

A porta do barraco era sem trinco Mas a lua, furando o nosso zinco, Salpicava de estrelas nosso chão... Tu pisavas nos astros distraída Sem saber que a ventura desta vida É a cabrocha, o luar e o violão...

Na primeira estrofe, a metáfora “palhaço” compõe, juntamente com as expressões “guizos falsos da alegria” e “fantasia”, o universo semântico da desilusão.

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“Minha vida era um palco iluminado Eu vivia vestido de dourado

Palhaço das perdidas ilusões... Cheio dos guizos falsos da alegria Andei cantando a minha fantasia Entre as palmas febris dos corações.”

Essa lexia adquire a função de cena validada que, segundo Dominique Maingueneau (2000:92), é um estereótipo instalado na memória coletiva, representante de modelos enunciativos valorizados ou rejeitados pela sociedade. Ao assumir o papel de palhaço que cantava as suas fantasias amorosas, o enunciador instala-se em um lugar típico do universo do samba-canção. Essa posição enunciativa - daquele que reconhece estar sendo iludido pelas fantasias do amor – é encontrada, por exemplo, em canções de outro grande representante do samba-canção, Nelson Cavaquinho.

Em “Luz Negra”, temos os seguintes versos: “A luz negra de um destino cruel

ilumina o teatro sem cor

onde estou desempenhando o papel de palhaço do amor”

Em “Palhaço”, o sambista canta: “Sei que é doloroso um palhaço se afastar do palco por alguém volta que a platéia te reclama sei que choras palhaço por alguém que não te ama”

A lexia palhaço, empregada em “Chão de Estrelas”, assume um caráter dialógico e adquire a função de conector discursivo ao relacionar esse enunciado com o interdiscurso do samba-canção.

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Na segunda estrofe, o enunciador utiliza outro estereótipo discursivo na construção de seu enunciado. A mulher amada é representada pela metáfora mulher pomba-rola, a sua partida como voou e o lar de ambos como viveiro.

“Meu barracão no morro do Salgueiro Tinha o cantar alegre de um viveiro Foste a sonoridade que acabou... E, hoje, quando do sol a claridade Forra o meu barracão, sinto saudade Da mulher - pomba-rola que voou.”

Essas lexias assumem a função de conectores discursivos ao relacionarem essa canção com o universo da poesia romântica. Essas metáforas estão presentes no poema “Horas de Saudade”, de Castro Alves, que também trata da desilusão amorosa devido à partida da amada.

“No ramo curvo o ninho abandonado Relembra o pipilar do passarinho. Foi-se a festa de amores e de afagos... Eras - ave do céu... minh’alma - o ninho!”

Dessa forma, essa canção dialoga por meio da interdiscursividade com o universo da desilusão amorosa. Notamos que essa relação estabelece-se tanto com o universo da canção quanto com o da poesia. Isso se deve ao fato de a canção, por ser constituída pelo sincretismo entre a linguagem verbal e a musical, estabelecer relações interdiscursivas com as esferas musical e poética. Aliás, Orestes Barbosa era visto como um poeta da canção, pois suas letras primavam pelo rebuscamento poético. Para percebermos isso, basta observar que todos os versos de “Chão de Estrelas” são decassílabos, assim como os de “Horas de Saudade”.

Apesar de essa canção estabelecer uma relação interdiscursiva com o discurso poético, tanto no estilo quanto nos temas, a presença do discurso prosaico é uma de suas características. Na terceira estrofe, o enunciador, inaugura uma nova cena validada que abre espaço para a presença de elementos que remetem ao universo dos morros cariocas e das pessoas humildes.

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“Nossas roupas comuns dependuradas Na corda, qual bandeiras agitadas, Pareciam um estranho festival: Festa dos nossos trapos coloridos, A mostrar que nos morros mal vestidos É sempre feriado nacional!”

Na última estrofe, a relação entre o poético e o prosaico é sintetizada pela imagem “Tu pisavas nos astros distraída”, na qual ocorre a aproximação entre o sublime - “lua” e “astros” – e o prosaico – “nosso zinco” e “nosso chão”.

“A porta do barraco era sem trinco Mas a lua, furando o nosso zinco, Salpicava de estrelas nosso chão... Tu pisavas nos astros distraída Sem saber que a ventura desta vida É a cabrocha, o luar e o violão...”

Aqui é interessante enfatizar que o verso Tu pisavas nos astros distraída - que Manuel Bandeira invejava por não ser seu - foi classificado pelo poeta como “talvez o mais bonito de nossa língua” (BANDEIRA apud RENNÓ, 2003:58), o que corrobora as relações dialógicas dessa canção com o interdiscurso da poesia.

No verso final, temos a presença de três elementos que sintetizam o conceito de felicidade: a cabrocha, o luar e o violão. A cabrocha representa o amor de uma mulher; o luar, a boêmia; e o violão, a música. Essas três imagens são estereótipos do universo discursivo do samba, e a escolha delas demonstra o compromisso do enunciador com o discurso desse gênero musical.

Letra e melodia

Pelo fato de estarmos trabalhando com um gênero sincrético, cuja característica fundamental é a relação entre o componente lingüístico e o musical, não podemos ignorar o aspecto melódico dessa canção, ou melhor, é imprescindível observarmos os significados constituídos na fusão entre a letra e a melodia.

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Para estudarmos esse aspecto, lançaremos mão das propostas de Luiz Tatit sobre a significação na canção. Segundo o autor, entre as três estratégias de persuasão melódica, a passionalização é aquela que estabelece os conteúdos referentes aos estados passionais do sujeito, particularmente os que tratam das separações amorosas. Segundo Tatit (1996:10), a passionalização melódica caracteriza-se pela duração dos sons vocálicos, pelos saltos intervalares e pelo investimento no percurso melódico, o que enfatiza os estados passionais apresentados pela letra. Estratégia muito utilizada na composição de canções que têm como tema o sofrimento amoroso, a passionalização é marca registrada do samba-canção.

Essa relação entre a letra e a melodia também é responsável pela imagem que o enunciador assume para si. Nessa canção, o ethos do enunciador é saudoso, nostálgico, romântico e desiludido. Além disso, a tensividade presente no componente melódico enfatiza esse ethos, tornando-o exageradamente passional. Esse estilo presente no modo de dizer, ou melhor, de cantar, do enunciador, vincula o seu discurso com o universo do samba-canção.

4. Considerações finais

Vimos que, nessa canção, o elemento lexical assume a função de conector discursivo. Por meio da escolha lexical e do tratamento melódico dado aos elementos lingüísticos que constituem as cenas validadas, o estilo e o ethos do enunciador, esse enunciado vincula-se dialogicamente ao universo do samba-canção, onde o amor é tratado de forma disfórica.

5. Referências Bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. DISCINI, Norma.O estilo nos textos. São Paulo: Contexto, 2003.

CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU, D. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 1997.

__________O contexto da obra literária: Enunciação, escritor, sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

__________Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez Editora, 2001. __________Gênese do discurso. São Paulo: Criar Edições, 2005.

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RENNÓ, Carlos. Poesia literária e poesia de musica: convergências. In: OLIVEIRA, Solange Ribeiro de ...(et al.). Literatura e música. São Paulo: Editora Senac São Paulo: Instituto Itaú Cultural, 2003.

SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras . São Paulo: Editora 34, 1997.

__________ O Cancionista. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular. São Paulo, Círculo do livro.s/d.

Referências

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