A INTERCULTURALIDADE COMO PERSPECTIVA NA
FORMAÇÃO DO ENFERMEIRO
Adriane Aparecida de Freitas Silva-PPGE/UFMT [email protected]
Resumo
O governo federal criou dispositivos legais para certificar ao indígena a oportunidade de acesso ao atendimento integral à saúde. Este se constitui num subsistema de atenção à saúde no qual um fluxo de atendimento ao indígena proveniente das aldeias foi engendrado para que este possa ter acesso ao atendimento de saúde nos níveis de complexidade secundário e terciário. Para tanto os recursos humanos, dentre eles os enfermeiros e técnicos de enfermagem, que fazem parte deste sistema deparam-se com o desafio de realizar um atendimento que atenda as especificidades das culturas indígenas. O presente estudo tem por objetivo descobrir se o enfermeiro recebe em sua formação acadêmica, conhecimentos dentro da perspectiva da interculturalidade, que o auxiliem no atendimento e no cuidar da saúde indígena, e para o curso técnico de enfermagem no qual atua diretamente como agente multiplicador e formador de profissionais de nível médio, que irão compor equipes de enfermagem. Pretende ao mesmo tempo subsidiar discussões sobre a matriz curricular e práticas pedagógicas, que possam atender a crescente demanda pelo cuidar intercultural. A presente pesquisa encontra-se em desenvolvimento, atualmente na fase de coleta de dados. Caracteriza-se como de cunho qualitativo do tipo etnográfico. Os procedimentos metodológicos adotados foram observação não-participativa, entrevistas gravadas direcionadas por questionários semi-estruturados, diário de campo e análise de dados, com base no conteúdo. Os sujeitos da pesquisa foram 10 profissionais da enfermagem, entre eles enfermeiros e técnicos de enfermagem, que atendem o indígena em alguns dos serviços saúde da rede SUS/ Cuiabá-MT. O lócus será uma Policlínica e um Hospital Universitário de Cuiabá-MT.
INTRODUÇÃO
Por se tratar de um país com pluralidade étnica incontestável, o Brasil abriga em seu território um grande contingente de cidadãos com história sócio cultural peculiar, provenientes de outras partes do continente, exterior a este ou nativos desta região. Não podemos desconsiderar como que os habitantes nativos, da terra Brasil, contribuíram para a formação do que hoje é chamado de nação.
Mas o contato dos nativos com o homem dito civilizado acarretou em diversas transformações no seu modo de vida. Um dos grandes impactos que foram sentidos por estas populações foi o contágio com doenças que seus corpos desconheciam. A título de exemplo, citamos a autora Berta Ribeiro, que em sua obra O índio na história do Brasil, traz a preocupante estatística de 1981, realizada com a etnia Assurini. Em resultado de 11 anos de contato, houve uma redução populacional em 69%. Após investigação sobre qual o motivo deste decréscimo, descobriu-se que dos “70 casos dos quais obtivemos a informações, 42, ou seja, 60% se deviam a moléstias transmitidas pelos brancos (malária, gripe, broncopneumonia, etc).” (2001, p.80)
Passados mais de três décadas desde que este estudo foi realizado, a situação da saúde indígena tem se agravado pelas diversas incursões de brancos nas aldeias resultando em drásticas modificações no modo de viver indígena. Doenças sociais e sexualmente transmissíveis têm sido introduzidas, sorrateiramente, nas comunidades indígenas. O manejo inadequado das questões culturais e a ausência de políticas públicas efetivas apresentam-se como um entrave ao tratamento e prognóstico dos problemas de saúde apresentados por estas populações.
Levando-se em conta a precariedade da saúde indígena foi engendrado um Projeto de Lei que visava à criação de um Subsistema de Atenção à Saúde Indígena. Este foi incorporado na Lei 8.080, que dispõe da criação do Sistema Único de Saúde. Este projeto tornou-se conhecido como Lei Arouca, em homenagem ao seu idealizador, Sérgio Arouca.
Pela proposta o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, deveria promover um atendimento integral e intercultural à saúde indígena, conforme afirmação do Ministro da Saúde em exercício, José Gomes Temporão, ao referir-se a Lei Arouca: “destaco a preocupação, no texto da lei, em explicitar a necessidade de que o modelo de atenção à saúde indígena leve em consideração a realidade local e as especificidades da cultura desses povos.” (BRASIL, 2009, p.8)
A configuração do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena previu o recrutamento de profissionais da área da saúde para assistência em comunidades indígenas. Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSIs) foram compostas por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionistas, odontologistas, técnicos de consultório dentário, técnicos de higiene dental, técnicos em saneamentos, agentes de endemias e microscopistas. Para estes profissionais uma capacitação com vistas à interculturalidade no atendimento seria indispensável, levando-se em conta que este tema não é contemplado pelas diretrizes curriculares nos cursos da área da saúde.
Para descobrir se, especificamente, os profissionais da enfermagem, sentiam-se preparadas pela academia para prestar atendimento à saúde indígena, fizemos entrevistas com 04 enfermeiras que trabalham na Casa do Índio de Cuiabá. Após analisarmos o conteúdo destas, verificamos um ponto em comum a todas as falas: o seu treinamento vinha do cotidiano.
Entendendo que no exercício da profissão o enfermeiro se depare com a possibilidade de realizar um atendimento ao indígena adoecido, independentemente de ele estar em uma aldeia ou não, este profissional precisa ser habilitado para prestar um atendimento intercultural, caso contrário poderá estar infringindo o Código de Deontologia da Enfermagem.
O código de ética dos profissionais de enfermagem no capítulo 1 artigo 3º enuncia como princípio legal do exercício profissional, o “respeito à vida, a dignidade e os direitos da pessoa humana, em todo o seu ciclo vital, sem discriminação de qualquer natureza.”
As rotinas hospitalares estão impregnadas com a cultura da medicina ocidental contemporânea, ou biomedicina. Esta prática tem em uma das suas raízes a proposição de caráter generalizante. Ou seja, generalizar as leis “não se ocupando” dos casos individuais. (CAMARGO JR., 2005, p.178).
O tratamento de saúde indicado ao indígena na maioria das vezes possui uma abordagem generalista na aplicabilidade terapêutica e do cuidar. A sua especificidade, não raro é despercebida. Este manejo torna-se conflitante com a cultura indígena, pois o modo desta encarar o corpo e a doença difere da percepção biomédica. O ditado “mente sã em corpo são” é entendido numa outra perspectiva para o indígena: “o corpo é são quando a mente é sã”. (MURA, SIVLA, 2012, p.143)
O indígena ao sentir que seus valores culturais não são levados em conta ou não compreende o que se espera dele como ator coadjuvante do seu processo de
melhora/cura, ou ao compreender discorda da forma como o tratamento lhe é apresentado, dificilmente, poderá cooperar com a equipe multiprofissional do hospital ou ambulatorial, comprometendo a eficácia terapêutica adotada. Neste aspecto as instituições de saúde devem estar preparadas para fazer uma acolhida que atenda este usuário em suas dimensões biopsicosocioculturais, que compreenda a importância da interculturalidade, nos tratos com o outro.
Tendo isso em mente questiona-se como o cuidado do enfermeiro pode contribuir para que o indígena sinta-se acolhido no estabelecimento de saúde e os objetivos pelos quais ele buscou o serviço possam ser alcançados? Quais os reflexos da formação acadêmica na prática profissional do enfermeiro ao deparar-se com o outro etnicamente diferente?
Neste contexto a possibilidade de uma formação pautada na educação intercultural deve ser amplamente discutida e incorporada como prática pedagógica na formação de profissionais da saúde, dentre eles, o enfermeiro.
Tal educação revela o seu valor, pois “passa pela necessidade de desnudar e explicitar as ações preconceituosas e revelar, desmistificar as intencionalidades.” (GRANDO 2004, p.32)
Tendo como finalidade o cuidado holístico oferecido, imparcialmente, recrudescem as discussões quanto à formação intercultural do enfermeiro.
METODOLOGIA
Após a fase exploratória de levantamento bibliográfico sobre formação do enfermeiro, interculturalidade e entrevistas realizadas no Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá-Mt, delineamos a trajetória da pesquisa. A metodologia escolhida foi à pesquisa qualitativa do tipo etnográfica. Como recursos metodológicos, utilizamos a observação não-participante, diário de campo, entrevistas direcionadas por um questionário não-estruturado, gravadas com subseqüentes transcrições das falas. Faremos a análise pelo método do conteúdo. Os locais de pesquisa foram 01 Hospital Universitário e 01 Policlínica de Cuiabá-Mt. O local foi escolhido visando atender os níveis de complexidade de atenção à saúde, realizados fora da aldeia. Os sujeitos foram 10 profissionais da enfermagem que realizam, habitualmente, o atendimento ao indígena nos locais supracitados. O período estimado para a pesquisa em campo é de 2 meses e se encontra em andamento. Espera-se que esta pesquisa possa fornecer um arcabouço para discussões sobre o currículo de formação do enfermeiro
CONSIDERAÇÕES
Por observações realizadas, transcrição e análise de algumas das entrevistas gravadas, é possível observar ser ubíquo o reconhecimento de se reavaliar as práticas pedagógicas que irão constituir o enfermeiro, por se explorar a cosmologia de outras culturas, ou ao menos estimular o movimento que alerta quanto à importância da concessão de autonomia ao outro, para que este sinta a liberdade de manifestar sua cultura, em espaços que lhe são estranhos e desta maneira poder participar do processo de convalescença.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Congresso. Lei nº 8080 de 19 de setembro de 1990 que dispõe sobreas condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasília- DF
Disponível:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm> Acesso 04 de mar. 2014.
BRASIL. Código de ética dos profissionais da enfermagem. Disponível:
<http://novo.portalcofen.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/resolucao_311_anexo.pdf> Acesso 10 de abr. 2014.
BRASIL. Fundação Nacional de Saúde. Lei Arouca: a Funasa nos 10 anos de saúde indígena /Fundação Nacional Saúde. Brasília: Funasa, 2009.
CAMARGO JÚNIOR, K. R. A biomedicina. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, v.15, p.177- 201, 2005.
GRANDO, B. S. Corpo e educação: as relações interculturais nas práticas
corporais Bororo em Meruri-Mt. 2004. 335p. Tese. (Doutorado em Educação)-
Centro de Ciências da Educação Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. MURA, F. ; SIVLA, A. B. Tradição de conhecimento, processos experienciais e
práticas de cura entre os Kaiowa. In: GARNELO, L.; PONTES, A.L. (Org). Saúde
indígena: uma introdução ao tema. Brasilía: Unesco, 2012. Cap.4, p. 128-155.
RIBEIRO, B. G. O índio na história do Brasil. 10ª Ed.- São Paulo: Global Ed., 2001.