Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina
ACORDAO N. £ i l 1 ->RECURSO ELEITORAL (RE) N. 40285.2012.6.24.0066 REPRESENTAÇÃO PROPAGANDA ELEITORAL INTERNET PEDIDO DE APLICAÇÃO DE MULTA -66a ZONA ELEITORAL - PINHALZINHO (NOVA ERECHIM)
Relator: Juiz Luiz Henrique Martins Portelinha
Recorrente: Coligação Renovar para Crescer (PP/PSDB/PSD) Recorrida: Facebook Serviços Online do Brasil Ltda.
ELEIÇÕES 2012 RECURSO REPRESENTAÇÃO -PROPAGANDA ELEITORAL - INTERNET MANIFESTAÇÕES CONTRA CANDIDATO AO CARGO DE PREFEITO - PERFIL ANÔNIMO - CONFIRMAÇÃO DA SENTENÇA - DESPROVIMENTO.
Vistos etc.
A C O R D A M os Juizes do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, à unanimidade, em conhecer do recurso e, no mérito, a ele negar provimento, nos termos do voto do Relator, que integra a decisão.
Sala de Sessões do Tribunal Regional Eleitoral. Florianópolis, 4 de outubro de 2012,
7 n ^
K
üiz LUIZ HENRIQJdÈ MARTINS PORTELINHA / Relator
PUBLICADO
Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina
RECURSO ELEITORAL (RE) N. 40285.2012.6.24.0066 REPRESENTAÇÃO PROPAGANDA ELEITORAL INTERNET PEDIDO DE APLICAÇÃO DE MULTA -66a ZONA ELEITORAL - PINHALZINHO (NOVA ERECHIM)
R E L A T Ó R I O
Trata-se de recurso interposto pela Coligação Renovar para Crescer (PP/PSDB/PSD) contra a sentença do Juízo Eleitoral da 66a Zona Eleitoral de Pinhalzinho (fls. 105-106), que julgou parcialmente procedente o pedido por ela formulado na inicial, para tornar definitiva a exclusão do perfil "Consciente realista", divulgado pela empresa recorrida.
Em suas razões (fls. 104-116), argumenta que:
- é necessária a identificação "do autor e administrador do perfil Consciente Realista, a fim de preparar o direito de resposta tão zelado e garantido pela Constituição Federal e pela Legislação Eleitoral vigente, além de responsabilizar o ofensor pelas manifestações anônimas em desacordo com a legislação vigente" (fl. 113);
- a Magistrada acertou em determinar a exclusão do perfil falso, porém "não se pode concordar com a negativa de seguimento da cautelar preparatória para obtenção de informações acerca do autor e administrador do referido perfil";
- "a sentença indeferiu o pedido de informações à Brasil Telecom ao argumento de que a identificação do usuário criador e administrador acarretaria na quebra de sigilo de dados, aplicando analogicamente a Lei 9.296/96/96 que trata das interceptações telefônicas", "no entanto, a requisição de informações à Brasil Telecom visa tão somente a identificação do criador e administrador do perfil falso [...] Não haverá nenhuma quebra de informações sigilosas com a obtenção de dados junto ao provedor de internet";
- "pensar diferente seria proteger o anonimato, permitindo o envio de correspondências anônimas, ligações anônimas e manifestações anônimas na rede mundial de computadores" (fls. 114-115);
- "a alegação da recorrida no sentido da impossibilidade de prestar as informações em relação à identificação do autor e administrador do perfil falso é totalmente inaceitável, pois como administrador do website, tem o FACEBOOK obrigação de manter os dados dos usuários e plenas condições de prestar as informações solicitadas".
Requer, em arremate, seja conhecido e provido o recurso, para "DETERMINAR ao recorrido a apresentação de informações em relação à identidade física do autor e administrador do perfil denominado Consciente Realista (email do criador, nome, IP's de acesso), tantas informações quantas forem necessárias para a identificação pessoal". Alternativamente, requer "o provimento do recurso para determinar a expedição de ofício à Brasil Telecom solicitando informações acerca do criador e administrador do perfil^Cori^eiente Realista (nomes de usuário, IPs, etc), conforme informações prestadasWío FACfcBOOK".
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A recorrida, nas contrarrazões (fls. 121-125), pugna pela confirmação da sentença, com base nos seguintes argumentos:
- "já forneceu os dados solicitados na ocasião da apresentação da defesa, contendo todos os IP's, emails dos criadores e nome utilizados no cadastro no Site Facebok, não havendo motivos para requerer tais documentos novamente";
- "o usuário criador do perfil "Consciente Realista" se cadastrou por meio do e-mail [email protected].
- "somente o Microsoft é capaz de fornecer os dados de cadastro do citado, pois o Facebook Brasil não tem acesso à base de dados desse provedor de acesso" (fl. 124);
- por amostragem, o Facebook Brasil identificou que um dos acessos "originou-se por meio do provedor de acesso "BRASIL TELECOM S/A";
- "as demais informações [...] deverão ser requeridas ao provedor de acesso à internet e solicitar que indique os dados do cliente responsável pelas conexões destacadas, uma vez que o Facebook Brasil não tem acesso ao banco de dados do "Brasil Telecom S/A";
- "resta evidente a boa-fé do Facebook Brasil que, ciente dos termos da presente Representação, cumpriu integralmente e tempestivamente a liminar deferida, visando atender à determinação deste Juízo, fornecendo todos os dados que possui do referido perfil, não merendo prosperar a reforma da r. sentença proferida".
Pugna, ao final, pelo desprovimento do recurso.
Nesta instância, a Procuradoria Regional Eleitoral manifesta-se pelo conhecimento e provimento do recurso "para que seja viabilizado o direito de resposta pleiteado pela Coligação recorrente", nos termos consignados no parecer (fls. 128-130).
É o relatório.
V O T O
O SENHOR JUIZ LUIZ HENRIQUE MARTINS PORTELINHA (Relator): Senhor Presidente, o recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele conheço.
De início, cumpre registrar que a ilustre Magistrada, ao despachar a inicial (fls. 27-28), a recebeu como cautelar, registrando que, "embora denominada de 'representação', o pleito da aufòja-tem caráter cautelar, já que a pretensão está
Fls.
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Em seguida, por entender não ser possível a identificação do criador e administrador do referido perfil, sendo vedado o anonimato pela Constituição Federal, deferiu a liminar pleiteada determinando que o Facebook Serviços Online do Brasil Ltda. promovesse "a suspensão imediata do acesso e da publicação de todo o conteúdo da página denominada 'Consciente realista'" e fornecesse" no prazo de 48h todas as informações confidenciais e dados técnicos necessários à identificação dos responsáveis pela criação e administração da referida página (nomes de usuários, IPs, etc.)."
A empresa Facebook apresentou defesa (fls. 52-65) e os documentos de fls. 66-85, atendendo a determinação judicial.
Diante do informado pela empresa, ora recorrida, o representante do Ministério Público Eleitoral de primeiro grau manifestou-se no seguinte sentido (fl.
86):
Constata-se pela resposta apresentada pela Requerida a impossibilidade de identificar-se o(s) usuário(s) do perfil denominado "Consciente Realista", sendo possível apenas a localização dos números referentes aos "Ips" das conexões realizadas.
Dessa forma, a fim de buscar a completa identificação do(s) usuário(s) do perfil "Consciente Realista", este órgão Ministerial manifesta-se pela expedição de ofício à empresa Brasil Telecom, representante do provedor de acesso à internet no caso em comento, para que informe todos as informações constantes de seu banco de dados relativas à identificação do(s) cliente(s) responsável(is) pelas conexões efetuadas pelo citado perfil de "Facebook", encaminhando-se juntamente com o ofício os documentos de fls. 66-72, nos quais constam todos os números de IP's relativos às conexões realizadas".
A Magistrada, por sua vez, proferiu decisão às fls. 105-106 julgando parcialmente procedente o pedido exarado na inicial.
Em suas razões, a recorrente refuta as alegações da recorrida e argumenta que, ao contrário do que restou decidido, "a requisição de informações à Brasil Telecom visa tão somente a identificação do criador e administrador do perfil falso [...] Não haverá nenhuma quebra de informações sigilosas com a obtenção de dados junto ao provedor de internet".
A sentença deve ser mantida na íntegra, por seus próprios e jurídicos fundamentos, porquanto, de maneira ponderada, a Magistrada muito bem equacionou a questão.
)logia, a ela reporto-me, verbis:
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Fls,
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A pretensão ministerial não merece prosperar, razão pela qual sentencio de pronto o feito.
Anoto que o encaminhamento de ofício para identificação do responsável pelas conexões implica quebra de dados, o que é vedado pelo art. 5o, inciso XII da Constituição Federal, exceto para investigação criminal ou instrução processual penal (interpretação ampliativa do artigo).
No caso em tela, porém, a irregularidade descrita na inicial é meramente administrativa (art. 57-D da Lei n. 9.504/97), não havendo menção a qualquer conduta criminosa. Assim, embora a Constituição Federal não preveja "direitos absolutos" e nessa seara entra o direito à inviolabilidade, estabelece o rol taxativo das exceções, sendo imprescindível que a "quebra" decorra da suposta ocorrência de crime.
A matéria ainda está regulada na Lei n. 9.296/96 que, embora mencione apenas "interceptação de comunicações telefônicas", tem sido aplicada também para o sigilo de dados. Mas, é imprescindível que a quebra se dê em ação ou inquérito criminal (STJ. HC 15026/SC, HABEAS CORPUS, 2000/0126493-1, Relator(a) Ministro VICENTE LEAL (1103) Órgão Julgador T6 - SEXTA TURMA Data do julgamento 24/09/2002).
Friso também que não restam dúvidas acerca da legitimidade da requerida, haja vista ser a responsável pela divulgação (art. 57-F da Lei n. 9.504/97). Anoto que, mesmo não podendo ser responsabilizada pelo conteúdo, já que tal não passa por seu crivo, é responsável pela divulgação de um perfil anônimo, devendo responder à pretensão da requerente.
Quanto ao mérito, repiso os argumentos expostos quando da concessão da liminar. A questão toda gira em torno do anonimato do perfil, vedado não apenas pelo art. 57-D da Lei das Eleições, como também pelo art. 5o, IV da Constituição Federal. Por conseguinte, verificada a existência de perfil anônimo contendo informações a respeito do candidato da Coligação requerente, impõe-se a manutenção daquela decisão para tornar definitiva a exclusão do "fake".
Entendo, entretanto, pela não incidência da multa. Isso porque não há prova de que a requerida teve prévio conhecimento do conteúdo do perfil. Nesse sentido colaciono o § 1o do art. 57-F da Lei n. 9.504/97:
"O provedor de conteúdo e de serviços multimídia só será considerado responsável pela divulgação da propaganda se a publicação do material for comprovadamente de seu prévio conhecimento".
Ante o exposto, indefiro o pedido ministerial e JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido contido na inicial para TORNAR DEFINITIVA a € te realista" divulgado pela requerida."
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Em reforço ao que foi dito, realço que o pedido de intimação da Brasil Telecom, neste processo, não é possível ser sequer conhecido, pois esta empresa não é parte do feito.
Quanto à manifestação do ilustre Procurador Regional Eleitoral - no sentido de, em que pese a não identificação do responsável direto pela propaganda negativa, seria possível a publicação do direito de resposta na mesma página na qual ocorreram as ofensas narradas na inicial - , a meu juízo, não é cabível no presente feito, pois, conforme se vê dos requerimentos descritos nos itens "a" a "d" da inicial (fl. 12), não houve pedido de direito de resposta.
Diante do exposto, conheço do recurso e a ele nego provimento. É como voto.
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EXTRATO DE ATA
RECURSO ELEITORAL N° 40285.2012.6.24.0066 RECURSO ELEITORAL -REPRESENTAÇÃO - PROPAGANDA POLÍTICA - PROPAGANDA ELEITORAL - INTERNET - PEDIDO DE APLICAÇÃO DE MULTA - 66a ZONA ELEITORAL - PINHALZINHO (NOVA
ERECHIM)
RELATOR: JUIZ LUIZ HENRIQUE MARTINS PORTELINHA
RECORRENTE(S): COLIGAÇÃO RENOVAR PARA CRESCER (PP-PSDB-PSD) ADVOGADO(S): LUAN PEDRO BITTARELLO
RECORRIDO(S): FACEBOOK SERVIÇOS ONLINE DO BRASIL LTDA.
ADVOGADO(S): CELSO DE FARIA MONTEIRO; JANAÍNA CASTRO FÉLIX NUNES; DANIELA PEREIRA; ALINE ANICE DE FREITAS; C ARI NA BABETO; KAREN CRISTINA RUIVO GUEDES; CAMILLE GOEBEL DA SILVA; RODRIGO SARNO GOMES; CAMILLA FERNANDES LOPES; EVELIN CAROLINE SOUSA MARTINS LEMOS; SÍLVIA MARIA CASACA LIMA
PRESIDENTE DA SESSÃO: JUIZ LUIZ CÉZAR MEDEIROS
PROCURADOR REGIONAL ELEITORAL: ANDRÉ STEFANI BERTUOL
Decisão: à unanimidade, conhecer do recurso e, no mérito, a ele negar provimento, nos termos do voto do Relator. Foi assinado e publicado em sessão, às 17h54min, com a intimação pessoal do Procurador Regional Eleitoral, o Acórdão n. 27713. Presentes os Juizes Luiz Cézar Medeiros, Eládio Torret Rocha, Júlio Guilherme Berezoski Schattschneider, Nelson Maia Peixoto, Luiz Henrique Martins Portelinha e Marcelo Ramos Peregrino Ferreira.