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Jorge de Lima & Murilo Mendes - Tempo e Eternidade

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E

JORGE DE LIMA E

(2)

TEMPO

E

ETERNIDADE

POEMAS

JORGE DE LIMA E MURILO MENDES 1935

Edição da Livraria do Globo Porto Alegre

(3)
(4)

A

ISMAEL NERY

NA ETERNIDADE

J. DE L. M. M.

(5)

NOTA PRELIMINAR1

Tristão de Ataíde Exatamente na véspera de Pentecostes Murilo Mendes me entrega o livro de poemas que acaba de publicar com Jorge de Lima: Tempo e Eternidade.

E a despeito de já conhecer algumas dessas páginas, foi tal a impressão recebida que não posso, nesta crônica de exaltação da grande e pura arte cristã, passar em silêncio essa publicação considerável para a história de nossa poesia. Se os poemas de Jorge de Lima refletem na sua graça ou mesmo no seu hermetismo, o sentimento religioso popular, nas suas ondulações, no seu devaneio, através do temperamento tão original e moderno do seu autor – que é um dos maiores intérpretes vivos da alma brasileira; se nêles a poesia sobe como uma seiva da terra – surgem os de Murilo Mendes como uma projeção violenta da poesia mais pura, unida às mais altas manifestações da Verdade, no campo das nossas letras. Raramente, na história delas tem a poesia alcançado horizontes tão largos. Ela aparece, nessas páginas, curtas mas impressionantes, despida de todo pieguismo, vazia de qualquer artifício visível ou de ornato supérfluo, numa revelação puríssima da beleza do mundo tal como a exprime o dogma católico. Porque êsses poemas refletem diretamente a beleza dogmática da Verdade. Suas linhas são lisas, altas, diretas, rudes, como as da própria figura da Igreja tão desfigurada pelo Romantismo devoto ou pela paixão sectária.

Há poemas curtos e fáceis, verdadeiros pontos de exclamação poéticos. E há poemas longos e salmodiados, que nos levam por suas asas possantes, ao longo dos tempos e à luz da eternidade. Poesia objetiva, mas sem sombra de preocupação, de preocupação descritiva ou panteísta. Poesia hierática, mas sem frieza. Poesia católica, essencialmente católica, poesia episcopal, desassombradamente eclesiástica e pontifícia, na mais bela acepção dêsses têrmos – sem qualquer vislumbre de sentimentalismo devoto ou de falso classicismo.

Moderna, extremamente moderna, mas sem qualquer Modernismo artificial. Poesia, enfim, que lida num cenáculo de homens de fé, numa hora de fraternidade e de meditação, nos levantou a todos como uma só alma num sentimento unânime de alegria e de comunhão com o Santo dos Santos.

1 Publicado em O Diário, Belo Horizonte, 23 junho 1935, sob o título "A Desforra do Espírito." Tristão de Ataíde é o pseudônimo

(6)

Murilo Mendes atingiu de chôfre, nessas páginas de convertido, um diapasão poético que me desvaneço profundamente de ter podido pressentir, quando há alguns anos já, longe ainda de qualquer inspiração religiosa, vagueava êle angustiadamente em luta contra anjos de trevas e de luz, escrevendo nas costas de papel de um banco em que era empregado versos de alucinação e de desespêro. Era a procura, a ansiedade, o descontentamento de tudo o que era privado da Luz que nunca se apaga. Era a marcha áspera na encosta, nos arredores do templo, nos caminhos pedregosos para a Cruz, que é o terceiro plano daqueles que a Igreja considera os soldados desconhecidos do Cristo.

Folgo, pois, em poder aproximar nesta crônica páginas, de poesia e de prosa, que marcam, para a literatura brasileira, um dos mais altos cimos de sua grave inspiração moderna, nesta hora em que os ornatos caem; os malabarismos se desmoralizam; volta-se às coisas essenciais e certas almas desenganadas das aventuras intelectuais literárias levantam o véu do mistério e param estupefatas, pressentindo ou descobrindo a Fonte suprema da beleza e da explicação de tôdas as coisas.

Por muitos anos pedi aos modernos não fecharem os olhos ao sobrenatural, lado direito do tecido da vida de que somos apenas o avêsso. Ei-lo aqui, o sobrenatural. Não foram êsses os primeiros, certamente, que o trouxeram às nossas letras modernas. Nestes, porém, nesta prosa nua em tôrno do Cristo e nesses poemas católicos, em tôrno do seu Corpo Místico vemos a reação mais recente e mais impressionante contra os abusos que de novo se iam espalhando em nossas letras, de um naturalismo literário anacrônico ou impregnado de partis pris políticos. Nestas páginas, nada disto. Nenhuma preocupação apologética. Nenhum esfôrço de vencer a retórica. Nenhuma posição interessada. Nenhuma preocupação de agradar.

Êsses dramas e êsses poemas são um alimento forte, ácido mesmo e sêco, que provàvelmente não satisfará a todos os paladares.

Aquêles, porém, que estiverem cansados do convencionalismo literário ou do naturalismo de uma arte pornográfica ou panteísta hão de saudar nessas páginas da nossa mais moderna literatura, uma desforra memorável do Espírito contra a pieguice e a sensualidade. A beleza catedralícia de alguns dêsses poemas e a fôrça impressionante de certos diálogos dêsses dramas mostram, bem ao vivo, como não há mais alta inspiração para a arte do que o verdadeiro cristianismo católico.

(7)

TEMPO

E

ETERNIDADE

POEMAS DE

JORGE DE LIMA

1934

(8)

DISTRIBUIÇÃO DA POESIA Mel silvestre tirei das plantas, sal tirei das aguas, luz tirei do céu.

Escutae meus irmãos: poesia tirei de tudo para oferecer ao Senhor.

Não tirei ouro da terra

nem sangue de meus irmãos. Estalajadeiros não me incomodeis. Bufarinheiros e banqueiros

sei fabricar distancias para vos recuar.

A vida está malograda, creio nas magicas de Deus. Os galos não cantam, a manhã não raiou.

Vi os navios irem e voltarem. Vi os infelizes irem e voltarem. Vi homens obesos dentro do fogo. Vi zigue-zagues na escuridão. Capitão-mor, onde é o Congo? Onde é a Ilha de São Brandão? Capitão-mor que noite escura! Uivam molossos na escuridão. O’ indesejáveis, qual o paiz, qual o paiz que desejais?

(9)

Mel silvestre tirei das plantas, sal tirei das aguas, luz tirei do céu. Só tenho poesia para vos dar. Abancae-vos meus irmãos.

(10)

A NOITE DESABOU SOBRE O CAES A noite desabou sobre o caes, pesada, cor de carvão,

Rangem guindastes na escuridão. Para onde vão essas náus?

Talvez para as Indias. Para onde vão?

Capitão-mor, capitão-mor

quereis me dizer onde é que fica a ilha de São Brandão?

A noite desabou sobre o cáes pesada, cor de carvão.

Rangem guindastes na escuridão. Donde é que veem essas náus? Donde é que veem?

Serão caravelas? Serão negreiros? São caravelas e são negreiros. Ha sujos marujos nas caravelas. Ha estrangeiros que ficaram negros de trabalharem no carvão.

Homens da estiva trabalham, trabalham, sobem e descem nos porões.

(11)

Para onde vão essas náus? Saltam emigrantes embuçados, mulheres, crianças na escuridão. De onde vem essa gente?

Não ha mais terras de Santa-Cruz gente valente! O’ indesejaveis qual o paiz

qual o paiz que desejaes? Como é o nome dessas náus que não se lê na escuridão? Vão descobrir o Preste João? Na minha geografia existe apenas perdido no mar o cabo Não. A noite desabou sobre o cáes pesada, côr de carvão.

Essas náus vão para o Congo? Castelo de Sagres ficou aonde? Capitão-mor onde é o Congo? Será no léste, no mar tenebroso? Capitão-mor perdi-me no mar. Onde é que fica a minha ilha? Para onde vão os degredados,

(12)

Os que vão trabalhar dentro da noite, ouvindo ranger esses guindastes? Capitão-mór que noite escura desabou sobre o cáes,

(13)

O NAVIO VIAJANDO

Entre o mar e a terra viajo ha seculos sem encontrar céu, sem encontrar céu. Mas tenho a ânsia desse paiz.

Minha caravela não póde voar, não póde subir,

não póde subir.

O plano do mar já está dividido.

Ha muitos selvagens nas ilhas famintas, os cáes são escuros, ha muitos escravos nas patrias selvagens.

Os degredados para onde vão? Minha caravela não póde voar, não póde subir,

(14)

A MÃO ENORME

Dentro da noite, da tempestade a náu misteriosa lá vai.

O tempo passa, a maré cresce, o vento uiva.

A náu misteriosa lá vai. Acima dela

que mão é essa maior que o mar? Mão de piloto? Mão de quem é? A náu mergulha, o mar é escuro, o tempo passa. Acima da náu a mão enorme sangrando está. A náu lá vai. O mar transborda, as terras somem, caem estrelas. A náu lá vai. Acima dela a mão eterna lá está.

(15)

PELO VÔO DE DEUS QUERO ME GUIAR Não quero aparelhos

para navegar. Ando naufragado, ando sem destino. Pelo vôo dos passaros quero me guiar.

Quero Tua Mão para me apoiar, pela Tua Mão quero me guiar.

Quero o vôo dos passaros para navegar.

Ando naufragado, ando sem destino, quero Teus Cabelos para me enxugar! Não quero ponteiros para me guiar.

Quero Teus Dois Braços para me abraçar.

Ando naufragado, quero Teus Cabelos para me enxugar. Não quero bussolas

(16)

para navegar,

quero outro caminho para caminhar.

Ando naufragado, ando sem destino, quero Tua Mão para me salvar.

(17)

NA CARREIRA DO VENTO Lá vem o vento correndo montado no seu cavalo. Nas azas do seu cavalo vem um mundo de vassalos, vem a desgraça gemendo, vem a bonança sorrindo, vem um grito reboando, reboando, reboando. Lá vem o vento correndo montado no seu cavalo. Nas azas do seu cavalo vem a tristeza do mundo, vem a camisa molhada de suor dos desgraçados, vem um grito reboando, reboando, reboando. Lá vem o vento correndo montado no seu cavalo. Nas azas do seu cavalo

vem um mundo amanhecendo vem outro mundo morrendo.

(18)

vem um grito reboando, reboando, reboando. Lá vem o vento correndo os seculos correndo atraz. Lá vem um grito de Deus e um grito de Satanaz.

Ligando um grito a outro grito vem a vida, vem a morte

vem o vento reboando, reboando, reboando. Lá vem o vento reboando com seus cavalos motores voando nos aviões.

Lá vem progresso, poeira, carreira, velocidade.

Lá vem nas azas do vento, o lamento da saudade reboando, reboando. Lá vem o vento correndo montado no seu cavalo.

Quem vem agora é um menino montado no seu carneiro.

(19)

repousar o cavaleiro. Mas o vento vem danado reboando, reboando.

(20)

O POETA PERDIDO NA TEMPESTADE Numa noite longinqua eu acordei com o tremendo rumor da ventania. Que é isso meu Deus? Olhei o céu e o vento forte me ensopou de chuva. Vinha com o vento um bruhaha de vozes. Donde vinham essas vozes eu não sei. O meu navio se perdeu e entrei

na mais negra confusão do mundo. A tempestade, Senhor! A tempestade com a vossa força arrebatava o mundo. Eu era pequenino ante a violência

ante o choque brutal da vossa ira. Eu não podia me ajoelhar, Senhor, eu só podia cair e eu caí.

Fui arrastado pela vossa força como aspirado pelo vosso halito. A tempestade, Senhor! A tempestade mais do que a tempestade a vossa ira, a vossa magestade, a vossa face. Eu não podia ver a vossa face!

As trombetas soaram, homens e arvores, bichos e aguas pelos ares densos

foram arrancados pela grande força. No espaço eu divisei o medo bruto

(21)

dos cavalos caídos na voragem, as crinas reluzentes, desgrenhadas e seus torvos relinchos pelos ares. Vi as folhas das plantas como loucas se agarrando nos galhos decepados. Até o proprio vento tinha medo uivando, uivando como um jaguar. Lá em baixo era uma gota, gota apenas o mar, o grande mar, o imenso mar. E toda a humanidade, todas as feras no horror supremo dessa confusão o instinto de viver perdendo então nem homens e nem feras eram mais, Eram qualquer coisa além da vida, além da morte, além da morte.

Eu queria encontrar os meus sentidos eu queria encontrar-me e não podia. Eu não podia me ajoelhar, Senhor. Eu só podia cair. Vós não deixastes.

(22)

O QUE NÃO MUDOU

A noite desabou sobre o cáes pesada, côr de carvão.

Uivam cães na escuridão. Quando o dia se elevar outras sombras cairão. Todas as coisas mudarão. Gloria Áquele que não mudou. As sombras se despenharam pesadas côr de carvão.

A geografia mudou.

Gloria Áquele que não mudou. As estrelas já morreram

O velho tempo secou. Na Gloria eterna caminha Aquele que não mudou.

(23)

TARDE OCULTA NO TEMPO

O andarilho sem destino reparou então que seus sapatos tinham a poeira indiferente de todas as patrias pitorescas;

e que seus olhos conservavam as noites e os dias dos climas mais varios do universo;

e que suas mãos se agitaram em adeuses e milhares de cáes sem saudades e amigos; e que todo o seu corpo tinha conhecido as mil mulheres que Salomão deixou. E o andarilho sem destino viu

que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo sem paisagens terrenas, sem turismos, sem povos, mas com a vastidão infinita onde os horizontes são as nuvens que fogem.

(24)

LUTAMOS MUITO

Lutei comvosco, fiquei cansado, fiquei caído. Quando acordei Tu me ungiste, Tu me elevaste. Tu eras meu pai e eu não sabia. Eu sofri muito. Furei as mãos. Ceguei. Morri. Tu me salvaste. Eu sou teu filho e não sabia. Lutamos muito: eu Te feri. Perdôa Pai, pensai meus olhos: eu era cego e não sabia.

(25)

ACEITO AS GRANDES PALAVRAS Aceito as grandes palavras eficazes

e os caminhos que Deus poz diante de mim. Aceito o sangue derramado se é necessário para levantar o pobre.

(Minha meditação me queima, Senhor! Mas me deixai falar para me desafogar).

Aceito a oração para mim e para distribuí-la como pão. (Minha meditação me queima, dai-me agua

para me dessedentar).

Aceito a não importância da vida.

(Senhor pegai minha mão para não me matar). Aceito os dias com seus cinemas, seus bonds, seus flirts, suas praias de banho, sua atualidade. Mas deixai-me ver no meio dessa conturbação o que está acima do tempo, o que é imutavel. Senhor estou cansado, quero descansar.

(26)

FUJA NO MEU CARNEIRO A noite desabou sobra o cáos. Vão matar as familias reais!

A paisagem é de plantas carnivoras. Vão matar as familias reais.

Os ocasos são sujos? Dizei-me. Cereais ha demais? O’ dizei-me. Fome, fome eu sei que ha demais. A paisagem é de plantas carnivoras. Vão matar as familias reais!

Silêncio! A noite desabou!

Não mateis um menino que eu sei. Não mateis esse Rei.

O’ menino quereis um carneiro? Fugi nele menino pro Egipto

que a paisagem é de plantas carnivoras. Vão matar as familias reais!

(27)

A VOZ ACIMA DAS PORTAS As portas eram imensas.

O bôbo bateu: as portas se abriram. Os reis entraram, os reis sairam. As portas se fecharam,

as portas se abriram. A menina branquinha bateu com uma flor, as portas se abriram os dias passavam, as noites chegavam as portas se abriam, abriam, fechavam. O vento violento as portas abriam, abriam e fechavam. O Ultimo chegou: as portas rangeram, os gonzos gemeram, o oceano passou, os seculos passaram, tudo passou.

E essa voz donde é que vem? – E’ de-cima que a voz vem.

(28)

POETA, POETA, NÃO PODES Desarrumar as terras do mundo. Poeta, podes fazer.

Arrumar sem limites de patria! Poeta, podes fazer.

Derramar azeite no mar,

plantar flores no topo dos montes, plantar trigo nos vales do mundo. Poeta, podes fazer.

Abrandar os tufões dos espaços, acabar com os tiranos do mundo. Poeta, podes fazer.

Extinguir a palavra de Deus, afastar a Verdade da Terra. Poeta não podes fazer.

(29)

O SONO ANTECEDENTE

Parai tudo que me impede de dormir: esses guindastes dentro da noite, esse vento violento,

o ultimo pensamento desses suicidas. Parai tudo o que me impede de dormir:

esses fantasmas interiores que me abrem as palpebras, esse bate-bate de meu coração,

esse ressonar das coisas desertas e mudas.

Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado que Deus me deu

(30)

ESTRELA, Ó ESTRELA! Estrela, estrela morreste ha tempos, porém te vejo na noite escura. Obrigado ó morta. Venta da Africa varreste o oceano, piratas fugiram

pras grandes montanhas. Estrela apagada, vento impotente, tempo implacavel, espaço vasio, leis mentirosas, deuses caidos, nada, nada, nada. Obrigado ó mortos. Da noite que vim pra noite que vou:

(31)

O CLAMOR QUE NÃO PÁRA

– Que clamor é esse que não pára, que vem de-cima,

que não pára?

– Sabei: é o progresso que não pára. – O progresso é lá de baixo,

esse clamor é de-cima.

Que clamor é esse que não pára? – Sabei: – é a muralha do horizonte que se vai desmoronando,

são as piramides do Egito que o mar está solapando. E’ o progresso que não pára. Essas forças veem dos lados o grande clamor é de-cima. – Que clamor é esse que não pára que vem de-cima, que não pára? – Sabei: – é o mar que está retirando os ossos dos santos poetas.

São os homens neles tocando de repente despertando.

(32)

– Que clamor é esse que não pára? – Sabei: são as coisas se formando. – As coisas não são reais

e esse clamor é profundo.

– Sabei: é o Marceneiro trabalhando, é vossa mão escrevendo,

é o sol que está se queimando, os misterios se acabando,

o fim de tudo chegando.

– Que clamor é esse que não pára? E’ a barca de Christo andando.

(33)

SONO E DESPERTAR DO POETA O meu nascimento me acordou, a minha morte me adormecerá.

Tu levas um cadaver para onde, amigo? A vida é cheia de guizos

tapa os ouvidos dorme, dorme. Dorme, dorme, a noite é bôa o dia é ôco como um guizo. A minha morte me adormecerá. O meu nascimento me acordou.

Tu levas um cadaver para onde, amigo?

Sol, sê testemunha que o fim já chegou, que a carne morreu

que a alma está viva.

Antes de tu te extinguires, Sol olha o espirito continuando.

(34)

A PLANICIE E AS FLORES CARNIVORAS

Era uma imensa planicie sem começo, sem fim. Nela corriam rios e cavalos, muitos cavalos brancos, rios murmurejando, cavalos nitrindo doidos.

Uma velha tarde de mil seculos sem ocasos berrantes circundava a planicie.

Que doçura pacifica abrangia a planicie! Que solidão amiga havia entre os ginetes!

Como venciam os milenios essas bestas gigantes! Como nascia o silencio de seus rinchos de fogo! E pairando no tempo uma voz sussurrava.

Que voz era essa tão presente e tão forte? Não desejes saber, a força humana não póde. Mas no além da planicie

uma noite existia abraçando a floresta, a floresta Senhor, uma floresta morna

onde o teu inimigo semeou carnes brancas de princesas banidas, de mulheres rarissimas fechando as palpebras para mim.

Quando deixei a floresta, Senhor,

na planicie só havia grandes flores carnivoras.

Os abutres tinham descido sobre os cavalos brancos. A noite tinha caído sobre o suor dos rios.

(35)

OS IDOLOS SE AFOGANDO

Do Oriente ao Ocidente, perto do sol,

estendamos uma tunica branca de braços abertos

para significar: vinde a mim os que não conhecem patria, os que não sabem geografia nem contas de somar.

E nas ultimas vertentes da terra, para além do Himalaia erijamos uma muralha que toque na aguia mais alta. Em suas pedras encerraremos os mortos do mundo: cada qual com uma ave de altivo vôo

como símbolos que o presente não alcança ainda. Poderemos olhar de cima os tempos em que Jeremias chorou as tardes corrutas e ver os campos de Booz cheios de colheitas e de vozes.

Veremos os raios das estrelas varando os dias de sol e iluminando virgens de tranças.

O canto dos profetas ressoará de baixo

e encherá a noite amiga sem crimes e sem detetives. Não veremos idolos

porque os idolos se afogaram nos rios rasos da planicie. O Homem Publico vai ao albergue de Emaus

vai ás bodas de Caná,

conspira nos lagos com os trabalhadores. O Homem Publico faz a revolução sem odio.

(36)

AMO A SOLIDÃO

Gosto de andar nos desertos imensos pelas sarças sagradas, vendo as tardes cheias de cordeiros e de mulheres morenas que vão buscar agua nas cisternas distantes onde moram as estrelas do ocaso.

Gosto de ir pelos lagos onde a verdade ainda mora e a universal rede de Christo colhe peixes nas aguas. Amo a solidão das montanhas donde a palavra descia e o gesto bom descia para as crianças pobres.

Amo clamar a Deus nessas tardes longinquas cheias de salmos e de camelos mansos.

Amo a velha paisagem biblica

que inda ha de baixar sobre a terra cansada para o sossêgo dos olhos esmagados.

Amo as terras de Deus onde os profetas andaram e onde meu pacto fiz com a suprema Presença e serei holocausto ante a Força das forças.

(37)

QUERO SER ENSINADO POR DEUS

De que ponto sopra o vento da instabilidade? Que cansaço de contemplar as patrias!

Quero o antecedente, quero o fim. Quero ser ensinado por Deus. Ciencia não me satisfaz.

Mundo não me satisfaz. Diabo não me distrai.

Quero ser ensinado por Deus. Os apoios terrestres são frageis. As montanhas são fracas demais.

Dai-me a vossa Mão para sair do vacuo. Deus me degole do mundo.

Carne não me satisfaz.

Não conheço coisas necessarias. Quero ser ensinado por Deus. Tudo é casual nesse charco. Quero ser ensinado por Deus.

(38)

VINDE Ó POBRES

Vinde os possuidores da pobreza, os que não têm nome no seculo, Vinde os homens de contemplação. Vinde os que têm a linguagem mudada. Vinde os forasteiros e vagabundos.

Vinde os homens descalços e os que têm os olhos cheios de espantos.

Jesus Christo – Rei dos reis os vossos pés quer lavar, o filho do marceneiro não vos póde abandonar.

(39)

A DIVISÃO DE CHRISTO

Dividamos o Mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhois: Vêm quinhentos mil escravos no bojo das náus: a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o Mundo entre as patrias.

Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalhas.

Dividamos o mundo entre as maquinas:

vêm quinhentos mil escravos no bojo das fabricas, a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo. Dividamos Christo:

(40)

SOU PARA ME SALVAR SOBRE AS TÁBUAS DA LEI Não sou só para comer trigo.

Sou para cair e para me levantar, para viver e para não ligar á vida nem á morte nem ao tempo nem ás aguas paradas

que apodrecem dentro dele.

A mansão de meu pai tem muitas casas: a nostalgia dessas casas mora em mim. Sou para procurar roteiros no mar, para me arrepender e me salvar, para anunciar como um proféta

e negar tres vezes antes do galo cantar.

Sou para me enlamear no mundo e para me lavar na Luz. Sou para me afundar nos pecados mortais.

(41)

AS GRANDES HORAS E A ANTIGA VIGILIA A multidão era imensa

e a voz começou a dizer

que não podia falar na primeira pessôa, que os poetas eram inumeros na terra.

E todos se entreolharam e viram que eram poetas.

Todos tinham sido humilhados, todos tinham sido roubados, todos tinham setas no lado esquerdo do corpo.

E já era de tarde e todos aqueles poetas cantaram as Vesperas do Senhor.

E a noite chegou e todos aqueles poetas ficaram acordados escutando as grandes horas

e esperando na antiga vigilia.

E o galo cantou: e milhões e milhões de sirenes de fabricas cantaram matinas. E o dia acordou. E todos aqueles poetas viram o Dia subir. E subiram com o Dia.

(42)

AO SOM DA SETIMA TROMBETA E ao som da setima trombeta os tuneis se afundaram.

E as grandes locomotivas gordas e asseiadas

que passeavam

pelas gares maternais

viajando de cidade em cidade rolaram no vale.

E os cruzadores possantes se afundaram para sempre no mar raso.

Os espiritos imundos subiram para o ar semelhantes a rãs martirizando os mercadores que se fizeram onipotentes no excesso de suas iniquidades. E o mar ofereceu ao juiz

todos os seus mortos, todos os seus afogados, todos os seus suicidas, todos os seus herois. E a terra e o inferno

mandaram ao grande juizo todos os seus espiritos.

(43)

Anjos que tendes poder sobre o fogo livrai-me da chuva de cinza e de enxofre. Trompas tocai

para que eu não ouça os perigosos convites. Eu desejo apenas o Grande Espirito

de pés de latão derretido e de cabelos de nuvem. Quero olhos para vê-lo, quer voz para louvá-lo

(44)

O POETA VENCE O TEMPO

Já não vejo mais a paisagem de plantas carnivoras. Levada pelos riachos a agua velha canta de-novo. A relva ignora sua tragedia e alteia as folhas inocentes. Regresso ao teu tempo, David.

Como tu tenho harpa e tenho Deus. E num dia biblico assim

fora dos tempos duros posso voltar ás origens, e sentir como tu

que sou mais forte que o rei, mais forte que todos os Golias. Mas não sei como tu

distinguir se essa estrela clarissima é a estrela da manhã

ou se é mesmo a poesia que nós vemos no céu

(45)

OS QUE VIRÃO NOS CAMELOS

Pobres de espirito os que julgam a Lei pelos homens da lei, a Igreja pelos homens da Igreja,

a eternidade por um trapo de tempo. Pobres os que não têm perspectiva e são fortes de odio para dominar. Pobres os que iluminam os falsos dias e são fugazes como as tempestades. Pobres os que enfraquecem o espirito e não têm joelhos para ajoelhar.

Pobres os que não passarão onde os camelos atravessarão.

Pobres os que não vêm o que ficou atrás e o que ha de vir quando as portas baterem. Pobres os que não conhecem

um minuto sequer de poesia. Pobres esses pobrezinhos.

(46)

O POETA DIANTE DE DEUS

A eterna presença acusou o homem pecador: – Disseste falsidade. A tua lingua mentiu. O pecador disse que não disse tal.

– Blasfemaste. Disseste meu nome em vão. O homem disse que não disse tal.

– Disseste calunias que apodreceram a terra, cismas, revoltas, credos, tudo mal.

– E o pobre disse que não disse tal. Mas a suprema presença vendo o homem a tremer se retratando:

– O pensamento que te dei era muito diferente da voz gritando tanta coisa ruim. Vem.

(47)

CANÇÃO DE DAVID NA JANELA

A mulher de Urias estava tomando banho. Eu vi a mulher de Urias.

Peitos mais belos eu nunca vi. Quebrei a citara, versos não faço, eu vi a mulher de Urias,

peitos mais belos nunca hei de vêr.

A mulher de Urias estava tomando banho em frente de meu palacio.

Quero a mulher de Urias, nunca vi corpo mais belo.

Quebrei a citara, salmos não faço, trono não quero, guerras parai. Só quero a mulher de Urias. Peitos mais belos eu nunca vi. Se olho as nuvens, se desço á terra vejo os dois peitos,

peitos mais belos eu nunca vi.

A mulher de Urias estava tomando banho no riozinho que passa

em frente de meu palacio: eu vi a mulher de Urias. Não sou mais poeta, troco meu trono pelos dois peitos.

(48)

Se olho o mundo vejo os dois peitos. Se olho o céu vejo os dois peitos. Não sou mais rei, versos não faço. Trono não quero.

(49)

DAVID CAINDO

Sequei o mar, matei os peixes, venho do vicio, da lama escura, quero de-bruços cair no chão, tirar meus olhos, deixar que o fogo venha lamber meu coração.

Que valem os olhos na escuridão?

Sequei o mar, matei o mundo, aves do céu

comei meu cranio.

Minha palavra caiu nas pedras. Sou vosso mudo Senhor meu Deus. Vento violento

secai meus timpanos,

eu tenho mêdo da ira santa. Deixai sómente dentro de mim a primitiva Dôr que reinou.

Vento de Deus soprai minha Dôr, as chamas do inferno ardem, Senhor.

(50)

AMADA VEM

Amada, deixai a porta aberta para vires. Plantei arvores longas pra te dar sombra. Apressa-te querida minha,

Fechei os olhos para esperar-te. Só os abrirei quando chegares ó perfeitissima entre as mulheres. Fecharei depois a minha porta

para o silencio de Deus nos envolver.

Amada minha traze a eternidade para nós. Traze a estrela que me prometeste.

Traze tuas sobrancelhas como azas. Perdi o paraiso não t’o posso dar. Dar-te-ei o sonho em que te geraste:

o começo das aguas em que te vi flutuando. Vem como estás, vem molhada das fontes. Vem como estás, recoberta de folhas. Vem do meu barro amada minha, vem. Vem virgem através do tempo, vem. Vem louca através da ordem, vem. Vem cantando através da dor, vem. Vem com o primeiro pecado, vem. Vem que tu fôste gerada para mim. A porta está aberta, amada vem.

(51)

A DISTANCIA DA BEM-AMADA

Do principio do mundo venha a Bem-Amada. Venha humida do primeiro dia, venha.

Venha da vontade Deus a Bem-Amada,

venha do primeiro sono a Bem-Amada, venha. Ela deu agua a um samaritano e sumiu.

Colheu uma tarde de Booz e sumiu.

Atraz da montanha piscou numa estrela e sumiu. A Bem-Amada floriu nas vinhas, floriu nas sarças, floriu nos cedros sagrados e sumiu.

Floriu no templo de Salomão e sumiu. Onde está a Bem-Amada?

Rainha de Sabá lavastes os pés da Bem-Amada? Eu sinto parcelas de sua presença,

eu sinto a sua chegada e a sua fuga, onde é que ela está?

De-baixo da lua entre gelos uivam lobos.

A Bem-Amada passou imensa como um iceberg e sumiu. Atraz da montanha piscou numa estrela e sumiu.

Bebeu em Caná e sumiu.

Desceu no meu sonho e sumiu.

Quero lutar com anjos pela Bem-Amada, quero me salvar pela Bem-Amada.

De-baixo da lua entre gelos uivam lobos.

(52)

vestida de neve com a filha da estrela.

Eu sinto a Bem-Amada, a sua presença, a sua fuga, o seu vestido de nuvens, o seu halito de floresta. De-baixo da lua entre gelos uivam lobos.

Lá anda a louca – a Bem-Amada cantando. A filha da estrela caiu lá no mar.

(53)

O SACRIFICIO DA BEM-AMADA

As tuas terras, deste-as aos publicanos e aos que não foram [ao festim.

Terras boas de olivais, de romeiras e de azeite e mel. Os peitos da Bem-Amada nelas crearam leite

e as suas coxas se arredondaram nas luas novas sob os signais do céu.

Se a quizeres toma-a Senhor. Foste Tu que a creaste

e só Tu a poderás adormecer com o narcotico da morte.

E se quiseres que ela reapareça como uma flor dos teus [montes,

planta-a na encosta sagrada para que de tarde eu a possa [esposar.

E tocando a Tua harpa vença das terras bôas os espiritos [escuros

(54)

CONVITE A SALOMÃO

Apressa-te amiga minha, querida minha e vem para olhar a manhã. A manhã mais do que nunca está de uma vastidão imensa.

E nem sei se o limite dela serão aqueles passaros lá longe, vês querida minha?

Subiremos ao monte da myrrha e ao outeiro do incenso; as sombras não declinarão, a manhã banhará teus peitos de [suavidade.

A manhã está tão vasta que o sol recuou e os montes ficaram [baixos.

Só tu és grande ante a grandeza de Deus.

Que airosos são teus passos amada minha, parecem aquelas avez voando longe nos limites da manhã.

Amada minha, querida minha não procuremos saber o que há atrás [da manhã

porque o tempo de depois é escuro como um poço e não tem [horas

para o amor.

E’s amiga minha, alta como essa manhã, clara como esse momento sem horas, suave como esse outeiro de flores.

A manhã mais do que nunca está de uma vastidão imensa

porque as chuvas desertaram do tempo e o sol recuou para atraz do [monte

de nuvens.

(55)

Nós não sabemos onde é a morada do tempo e o inverno não [existe

nessa manhã imensa.

Essa manhã não conhece a morte, amada minha, e os passaros vão [subindo

para o sol, para alargar a claridade.

Amada minha, querida minha, só tu és grande ante a grandeza de [Deus.

(56)

A POESIA ESTÁ MUITO ACIMA

Quero edificar o templo, o grande templo, quero materiais. Quero fazer o altar para os holocaustos e os incensos. E queimarei os perfumes inuteis nas narinas de Deus, nos cabelos dos arcanjos, no halito de todos os eleitos.

Quero oitenta mil braços para cavar montes e derrubar madeiras e uns trezentos mil para colher agua pura.

Quero um para adivinhar onde tem ouro, onde fica o sol, buscai-me um ladrão para roubar a lua.

Vinde escultor fazer um querubim com dez covados de azas segurando um calice descomunal e uma palma de bronze. E sobre os capiteis haveis de collocar um peixe voador voando para não sei.

Chamai Salomão para varrer o templo com sua sabedoria e com suas mil mulheres, com suas eguas, e com seu cajado. E depois que venha o fogo do céu queimar as oferendas. E tudo cáia com os rostos na terra

porque a poesia está muito alta

(57)

A MORTE DOS REIS

Naquele tempo o rei mandou buscar os vasos sagrados e deu de beber neles ás suas concubinas.

E na parede da sala mão de esqueleto surgiu

vinda de outros planos, de outro tempo, vinda da eternidade e escreveu em palavras de fogo que o rei ia morrer.

E o rei ficou com o rosto mudado tremendo de medo: os joelhos batendo um no outro.

E compreenderam agoureiros e adivinhos da côrte que o espirito de Deus aderia ao amago das taças, das figuras sagradas,

e que as mãos materiais que não sabem orações atraem as danações,

as terriveis danações que habitam outras realidades, outras tiranias muito fortes, muito fortes e eternas.

(58)

O TORMENTO

Na setima lua edifiquei a porta grande da casa do Senhor e mandei traçar nos muros exteriores os exemplos do céu. E ensombrei de nuvens gordas o recinto dos povos.

Quebrei as estatuas de Baal, para evitar as calamidades surdas, equipei as frotas sagradas e mandei partir,

renovei a aliança com a suprema Presença, e ela uma noite me ofereceu um sinal.

Compreendi a grande significação dos misterios para saber que nesse mundo apagado,

as verdades são nulas, o real está além. Mandei buscar num país muito longe o filho dum ourives para gravar silencios. Abri o livro diante do povo

pensando que o povo estava no nivel do Alto.

Mas o povo não poude enxergar os silencios do livro. Nem suportar a claridade exquisita que das paginas saía. Baixei a cabeça no maior dos desanimos.

E o tempo me chamou para morrer. A eternidade me chamou para viver: irei.

(59)

UMA COISA VOS DIGO

Cristo, essa luta pela Bem-Amada, essas fugas tremendas,

essas sêdes de poesia,

essas viagens pela eternidade,

essas descaidas de montanha abaixo, são a via sinuosa para Vós.

Adoremos o Senhor – o Semeador, adoremo-lo. Adoremos o Senhor dono do Tempo, adoremos. Uma só cousa é que digo: Cristo é o primeiro dia. Cristo é além do ultimo dia.

Cristo conservou o meu espirito.

Cristo renovará o meu espirito depois do ultimo dia. Cristo eu vos dou as minhas montanhas,

a minha loucura, as particulas de minha poesia,

a minha imensidade pequena, as minhas estrelas humildes. A vossa lei é de muitas maneiras Cristo e eu não sei.

Andamos ás apalpadelas e desatinados como loucos. Andamos distraidos de Vós.

Andamos fazendo poesia.

Andamos a tôa como visões noturnas.

Uma coisa tenho falado e sei que é Verdade: Cristo caminha por cima do mar,

Cristo nasceu no primeiro dia, Cristo nasceu para reinar.

(60)

SICUT ERAT

Quando se ecoarem sete eras a nossa visão se exterminará.

Depois das sete eras, tu construirás

sete babeis, sete confusões, sete piramides, sete estepes e sete guerras de cem anos.

O teu nome ninguem pronunciará.

Virão sete revoluções, sete sangues, sete cometas sete geleiras, sete desertos.

E sete anjos clamarão

depois da tua mudez que deixou de existir ha muitos milhões de seculos

que a Inteligencia continuará:

Onde estarão os exercitos da patria? A bandeira da patria?

A saudade da patria?

Onde estarão as tendas, os arranha-céus e os icebergs? E a Bem-Amada? E tudo? E tudo? E tudo?

Não precisarás de ponteiros para marcar o tempo nem das noites que te dão o sono.

Nem da morte, nem da morte, nem da morte. Nem dos sacramentos, nem dos arrependimentos. A Luz te iluminará.

(61)

EU VOS ANUNCIO A CONSOLAÇÃO 1 – Os pobres que só têm sua pobreza e nada mais;

os moribundos que contam só com o seu fim e nada mais;

os fracos que só possuem sua fraqueza e nada mais

podem andar sobre as aguas do mar. 2 – Os que têm rebanhos de maquinas,

os que estão pesados de crimes e de ouro ou de odio ou de orgulho;

esses se afundarão.

3 – Chamaremos um que a guerra comeu quasi todo e só deixou os joelhos caidos no chão.

Esse correrá mais depressa que a luz.

4 – Chamaremos um que apagou a vida que Deus lhe entregou e a ruindade da terra estragou com seus vicios.

Esse Deus lhe dará uma vida de-novo.

(62)

6 – Um que queria sorrir e nasceu sem ter labios. 7 – Esses serão consolados.

(63)

ADEUS, MEUS IRMÃOS

Recolhamo-nos meus irmãos que já é tarde e ha lá fóra hienas que gostam de sangue.

Encontraremos a Bem-Amada quando a noite passar. Eu vos anuncio a Bem-Amada.

Até a consumação dos seculos os nossos irmãos que nascerem se reunirão como nós.

Os profétas in illo tempore se reuniram como nós. Nós somos élos apenas.

Eu vos anuncio a consolação.

As nossas vozes intempestivas atraem as hienas lá fóra. Nós não temos armas.

Os uivos aumentam. Adeus meus irmãos.

(64)

ADEUS, POESIA

Senhor Jesus, o seculo está pôdre. Onde é que vou buscar poesia? Devo despir-me de todos os mantos, os belos mantos que o mundo me deu. Devo despir o mando da poesia.

Devo despir o mando mais puro. Senhor Jesus, o seculo está doente, o seculo está rico, o seculo está gordo. Devo despir-me do que é belo,

devo despir-me da poesia,

devo despir-me do mando mais puro que o tempo me deu, que a vida me dá. Quero leveza no vosso caminho.

Até o que é belo me pesa nos ombros, até a poesia acima do mundo,

acima do tempo, acima da vida,

me esmaga na terra, me prende nas coisas. Eu quero uma voz mais forte que o poema, mais forte que o inferno, mais dura que a morte: eu quero uma forço mais perto de Vós.

Eu quero despir-me da voz e dos olhos, dos outros sentidos, das outras prisões, não posso Senhor: o tempo está doente. Os gritos da terra, dos homens sofrendo

(65)

OS VÔOS ERAM FÓRA DO TEMPO

1º – As magicas que a Graça do Senhor faz são Poesia. 2º – Vi dos centauros cairem cascos,

sairem azas.

3º – As magicas que a Graça do Senhor faz são Poesia. Vi o ladrão entrar com o Filho de Deus na Luz.

4º – Um homem ficou cégo, ficou sabio, ficou santo indo para Damasco.

5º – A Graça do Senhor, a Musa do Senhor, a Poesia do Senhor são além do espaço, além do tempo.

Bemdita a eterna Poesia.

6º – A vaga insolente subiu. A Graça do Senhor me defenda. 7º – Vi as praias cheias de ossos estranhos. Ainda estou

de pé pela Graça de Deus. As arvores estão de pé,

as montanhas estão de pé, a igreja do Senhor estará de pé. 8º – Um cégo viu a Luz, um mudo falou Poesia, um surdo ouviu Poesia.

9º – Uma camponeza viu a Virgem. Então nasceu uma fonte. 10º – Espreitemos o movimento das aguas. Eu tenho o gosto da morte na bôca.

Quero dobrar os meus joelhos e o meu espirito.

11º – A Graça me concedeu o gosto da Vida, a vida que nomeio não é daqui.

As magicas que a Graça do Senhor faz são Poesia. 12º – Vi dos centauros cairem cascos, sairem azas.

(66)

13º – Das azas sairem vôos.

(67)

TEMPO

E

ETERNIDADE

POEMAS DE

MURILO MENDES

1934

(68)

NOVISSIMO JOB

– Eu fui creado á Tua imagem e semelhança.

Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre, Não me deixaste a neta de Madalena para me amar,

Não me deixaste a receita que faz andar o morto e faz o cégo vêr. Deixaste-me de Ti sómente o escarneo que Te deram,

Deixaste-me o demonio que Te tentou no deserto, Deixaste-me a fraquesa que sentiste no horto,

Transmitiste até a mim o eco do Teu grito de abandono;

Por isto serei angustiado e só até á consumação dos meus dias! Porque não me fizeste morrer pelo gladio de Herodes?

Eu hoje estaria na gloria dos altares

E muitos homens haveriam de me invocar.

Ou porque não me fizeste morrer no ventre de minha mãi? Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.

Já me julguei antes do Teu julgamento.

E já estou salvo, porque me déste a poeira por herança. Minha familia não passou privações materiais.

Até ha poucos anos atraz no meu paiz

Ninguem sabia que a vida é a luta entre classes E eu já era, desde cedo, inconformado e triste. Antes da separação entre os homens

(69)

E a separação entre o homem e Deus. E’ doce Te encarar como Poeta e Amigo. E’ pavoroso Te encarar como Creador e Juiz! Tu me tens como instrumento de Teus designios. E’s o Grande Inquisidor perante mim.

Porque me queres vivo?! Toma-me morto! Crêa outras almas, outros universos,

Sonda-os, explora-os com Tua lente enorme, Mas faze cessar um instante o meu suplicio. Prefiro o inferno definitivo á duvida provisoria.

Falaste-me pelos Teus profétas e pelo Espirito Santo, Mas a ultima e misteriosa palavra está conTigo.

Tuas obras dão testemunho de Ti.

Mas ninguem sabe o que Tu queres de nós.

(O’ Virgem Maria, levanta-Te da estrela da manhã E faze o sinal da cruz sobre minha alma despedaçada!) Tu tambem não terás Teus filhos renegados?

Aquêles que creaste e entregaste ao demonio Para satisfazer Tua colera tremenda?

O’ Deus, Tua justiça é maior que Tua misericordia! Porque me deixaste sem abrigo no mundo?!

Porque me déste passado, presente e futuro?

(70)

– Estou conTigo mesmo, e não me queres ter. Sou tua herança desde toda a eternidade.

(71)

A GRAÇA

Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estatuas de idolos caindo, manequins descoloridos, figuras vermelhas se

desencarnando dos livros que encerram as acções dos humanos. E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, mas a minha alma se debate porque o tempo róla, róla.

Até que Tu, impaciente, rebentas as grades do sacrario; e me estendes os braços; e posso atravessar conTigo o mundo em panico.

(72)

NATAL

Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros, atravessa os espaços de fogo e beija a orla do manto divino.

E o Sêr dos sêres envia seu Filho para mim, para os outros que O pedem e para os que O esquecem:

Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz equilibrada nela;

Vêm adorá-la brancos, pretos, mulatos, portugueses, turcos, alemãis, russos, chins, polacos, banhistas, beatas, cachorros e gatos.

A presença da criança transmite aos homens uma paz inefavel que êles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.

Anjos serenos sobrevôam o mar, os morros e os arranha-céus, desenrolando, de combinação com a rosa dos ventos, grandes letreiros onde se lê: GLORIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BÔA VONTADE!

(73)

MEU NOVO OLHAR

Meu novo olhar é o de quem já sabe

Que a alegria e a ventura não permanecem.

Meu novo olhar é o de quem desvendou os tempos futuros E viu nêles a separação entre os homens,

O filho contra o pai, a irmã contra o irmão, o amante contra a amante,

As igrejas dinamitadas, depois reconstruidas com maior fervor; Meu novo olhar é o de quem atravessa a massa

E sabe que, depois dela ter obtido pão e cinema, Guerreará outra vez para não se entediar.

Meu novo olhar é o de quem vê um casal belo e forte E sabe que, sósinhos, se olham os dois com nojo.

Meu novo olhar é o de quem vê com tristesa a bailarina Que, para conseguir um movimento gracioso da perna, Durante anos sacrificou o resto do seu sêr.

Meu novo olhar é o de quem vê a criança andando A futura doente, a orfã, a louca, a prostituta.

Meu novo olhar é o de quem transpõe as musas de passagem E não se detém mais nas ancas, nas nucas e nas côxas,

Mas se dilata á vista da Musa bela e serena, A que me conduzirá ao amôr essencial.

Meu novo olhar é o de quem assistiu á paixão e morte do Amigo, Poeta para toda a eternidade segundo a ordem de Jesus Cristo, E aquêle que mudou a direção do meu olhar;

(74)

Meu novo olhar é o de quem já vê se desenrolar sua propria paixão e morte,

E que espera a integração do seu sêr definitivo, Sob o olhar fixo e incompreensivel de Deus.

(75)

MINHA MUSA

Estás sósinha desde o principio.

Fôste imaginada na época da formação das pedras.

Um formidavel temporal lavou a terra antes que nascesses. E muitas estrelas de perfil se inclinaram sobre teu berço. Atravessas desertos de areia e mares vermelhos

Sem que sujes teu corpo,

Sem que ninguem penetre tua essencia.

Os poetas te sacrificam suas amadas retrospectivas, atuais e futuras. Tua cabeça triste e serena recortada eternamente num céu de

convulsões desencadeia os [mitos.

Distribues ao mesmo tempo o consolo e o desespero. Aos olhos dos homens és acima do sexo como uma deusa. Aos olhos das mulheres és masculina como um guerreiro.

Anulas os movimentos de quem chega a adivinhar teus encantos. E não te perturbas nem ao menos diante de Deus.

(76)

EPIFANIA

Eu Te procurei tal qual os tres reis magos

Que caminhavam através de mares e desertos, Até que um dia uma estrela enviada por Ti mesmo Me trouxe até á Tua inefavel presença.

Não posso Te ofertar o ouro, o incenso e a myrrha. Ofereço-Te a minha alma que Tu mesmo creaste, Ofereço-Te a minha miséria e a minha poeira. Suplico-Te que ilumines todos os que Te procuram E todos aquêles que acreditam que morreste.

Ainda ha muita dôr, incompreensão e treva Porque Tu ainda não déste a volta ao mundo.

(77)

VOCAÇÃO DO POETA

Não nasci no começo deste seculo. Nasci no seio do Eterno.

Nasci de mil vidas superpostas. Nasci de mil angustias desdobradas. Vim para conhecer o mal e o bem E para separar o mal do bem. Vim para amar e ser desamado.

Vim para despresar os grandes e consolar os pequenos. Não vim para construir minha propria riquesa

Nem para destruir a riquesa dos outros. Vim para reprimir o chôro formidavel

Que gerações anteriores transmitiram ao meu sêr. Vim para experimentar duvidas e contradições, Vim para sofrer as influencias do tempo

E para afirmar o principio eterno de onde vim. Vim para atirar uma pedra em Mammon. Vim para distribuir inspiração ás musas. Vim para garantir que a voz dos homens Abafará a voz das sirenes das maquinas. E que as palavras substanciais de Jesus Cristo

Dominarão as palavras do capitalista e do operario. Vim para conhecer Deus meu Creador, pouco a pouco, Pois si O visse de repente, sem preparo, ficaria cégo!

(78)

O POETA E A MUSA

Vens da eternidade e voltas para a eternidade. Não tens odio.

Não tens amor. Não tens desejo. Não tens fome. Não tens sêde.

Tens o ar frio de quem ultrapassou o mundo sensivel e resolve lhe dar um sinal da sua condescendência.

A linha das montanhas, a linha do horizonte e a linha da tua alma se desdobram diante de ti como um ante-projeto da

eternidade.

Estás desligada da geração que te trouxe ao mundo. Anulas meu interesse pelo espetaculo da existencia.

E não te perturbas nem um instante á vista da minha exaltação. Olhas-me serenamente, passas a mão pelos meus cabelos e me chamas de tua grande criança.

Esperas que eu diminúa minha humanidade para ficar junto de ti, sem ação, sem impulsos, observando apenas o desenrolar do tempo, o ciclo das estações, o curso dos astros, as cambiantes da côr do céu e do movimento do oceano.

Seremos duas estatuas confabulando.

Estão os acontecimentos não agirão mais sobre mim. E eu sobrevoarei a vida fisica.

(79)

MAGNIFICAT

Meu espirito anceia pela vinda da Esposa, Meu espirito anceia pela gloria da Igreja, Meu espirito anceia pelas nupcias eternas Com a musa preparada por mil gerações. Eu hei de me precipitar em Deus como um rio, Porque não me contenho nos limites do mundo. Dai-me pão em excesso e eu ficarei triste,

Dai-me luxo, palacios, ficarei mais triste. Para que resolver o problema da maquina Si minha alma sobrevôa a propria poesia? Só quero repousar na imensidade de Deus!

(80)

FILIAÇÃO

Eu sou da raça do Eterno. Fui creado no principio

E desdobrado em muitas gerações Através do espaço e do tempo. Estou acima das bandeiras,

Tropéço nas cabeças dos chefes. Caminho no mar, na terra e no ar. Eu sou da raça do Eterno,

Do Amor que une todos os homens. Vinde a mim, orfãos da poesia,

(81)

O PROFETA

a Dante Milano

A Virgem deverá gerar o Filho

Que é seu Pai desde toda a eternidade.

A sombra de Deus se alastrará pelas éras futuras.

Os homens caminharão guiados por uma estrela de fogo. Haverá musica para os pobres e açoite para os ricos. Os poetas celebrarão suas relações com o Eterno. Muitos mecanicos sentirão saudades do Egito. A serpente de azas será desterrada na lua. A ultima mulher será igual a Eva.

E o Julgador, arrastando na sua marcha as constelações, Reverterá todas as coisas ao seu principio.

(82)

ORAÇÃO Meu Deus,

Que tenho feito até hoje neste mundo, Sinão Te invocar para que apareças, Sinão me desesperar porque sou pó? Meu Deus,

Quantas vezes estarás comigo e eu não Te vejo! Dilata minha visão,

Dilata poderosamente minha alma,

Faze-me ligar todas as coisas ao Teu centro, Faze-me amar o que não amo!...

Tudo o que creaste

E’ a divisão de uma vasta unidade Em espaços e épocas diferentes. Une-me a todas as coisas em Ti

E ilumina-nos fóra do tempo, a todos nós, Com Teu perpetuo resplendor, assim seja!

(83)

NOVISSIMO JACOB

Antes de eu nascer Tu velavas sobre mim. Mandaste Teu anjo substituir minha mãi morta. Ele me segurava quando eu corria á beira-mar Ou quando me debruçava sobre os abismos. Ele cantava serestas e valsas

Para suavisar minhas horas de pedra.

A’s vezes uma vasta sombra atravessava os dias; E, de noite, eu ouvia claramente os passos do serafim Perderem-se nas estradas do céu.

Mais tarde uma mulher ao meu lado Tinha um esboço de azas nos hombros.

E na minha alma diminuiam os cuidados do tempo. Manda-me de novo Teu anjo

Afim de lavar as minhas chagas, Afim de refrescar a minha boca.

Meu Deus, o mundo é um deserto interminavel. Ha dias em que nem mesmo Tua palavra convence. Ha dias em que tudo me parece uma invenção. E’ preciso que eu Te veja nos menores detalhes, E’ preciso que eu seja Tu, e não eu.

E que eu encare o sofrimento como um céu aberto E Teu anjo descendo e subindo sobre mim.

(84)

PSALMO

Eu Te proclamo grande, admiravel,

Não porque fizeste o sol para presidir o dia E as estrelas para presidirem a noite;

Não porque fizeste a terra e tudo que se contém nela, Os frutos do campo, as flôres, os cinemas, as locomotivas; Não porque fizeste o mar e tudo que se contém nêle, Seus animais, suas plantas, seus submarinos, suas sereias; Eu Te proclamo grande e admiravel eternamente

Porque Te fazes pequenino na Eucaristia,

(85)

O JUSTIFICADOR

Teu Espirito se dilata para abraçar a creação. Chegam familias das piramides para Te vêrem, Outras chegam dos confins dos mares.

A noite Te anuncia pelos seus astronomos e suas estrelas, O dia Te proclama pelos seus sinos e pelos seus jornais. As gerações inumeraveis crescem á sombra da Tua Igreja. Atravessas cidades, desertos, sobes em arranha-céus, Vôas nos zepelins, desces nos submarinos,

Abalas a alma do cégo, do condenado e da prostituta. Presides aos casamentos, aos nascimentos, ás mortes e ás ressurreições.

Os máus homens Te dividem em mil imagens falsas: Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,

Dás a todos o unico, o insubstituivel consolo.

Tuas parábolas publicadas em edições de engraxate Comovem ao mesmo tempo o moleque e o poeta. Os máus sacerdotes em vão procuram Te ocultar: Tu os convertes á ultima hora, como ao bom ladrão.

Espalhas pela terra Teu Corpo e Tua Alma em pedacinhos, E cada alma, mesmo ruim, é uma reliquia Tua.

Diariamente o mundo Te persegue e Te mata, Diariamente ressuscitas a atraes o mundo a Ti.

(86)

ANGUSTIA E REAÇÃO Ha noites intransponiveis.

Ha dias em que pára nosso movimento em Deus. Ha tardes em que qualquer vagabunda

Parece superior á propria musa. Ha instantes em que um avião

Nos parece mais belo que um misterio de fé, Em que um programa politico

Tem mais realidade que o Evangelho.

Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito! O tempo vence a ideia do eterno.

E’ necessario morrer de tristesa e de nojo

Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus E ressuscitar pela força da oração, da poesia e do amor. E’ necessario multiplicar-se por dez, em cinco mil.

E’ necessario dar um baile aos orfãos e aos sujos E negar cumprimento aos chefes e aos ricaços. E’ necessario chicotear os que sujam as igrejas. E’ necessario caminhar sobre as ondas!

(87)

A’ MUSA

Tu és a relação entre o poeta e Deus. Tu prefiguras o Eterno

Porque a todo o instante retocas o mundo. Sem ti minha poesia se extinguirá,

Sem ti eu ficaria contemplando as construções do tempo. Tu assistes aos movimentos da minha alma,

Tu aumentas minha sêde do ilimitado.

Um dia, quando o Eterno me der o grande poder, Prenderei tua cabeça entre as constelações

(88)

DIANTE DO EVANGELHO Estão encerradas neste livro

Todas as palavras que dissemos e que diremos. Aqui estão nossas ações bôas e más.

Aqui está o germen da poesia,

Aqui estão todos os nossos poemas, até os futuros. Aqui está nossa condenação e nossa salvação. Aqui está o que aconteceu e o que acontecerá. Aqui está contido o misterio de Deus

Que se esclarecerá aos nossos olhos

Quando todas as combinações do universo se fizerem E o Anjo do Grande Conselho desvelar a eternidade. A Igreja foi feita para guardar este livro.

A rotativa foi feita para imprimir este livro. O avião foi feito para transportar este livro. Musa, ajoelha-te.

Poetas, ajoelhai-vos.

Povos sem conta, ajoelhai-vos.

(89)

ANTECIPAÇÃO

Quem quizer que lute para possuir o mundo. Quem quizer que gema para ter automoveis. Eu Te quero, quero Te vêr face a face.

Espero Tua ultima vinda, Minha fórma definitiva,

Minha justificação na Tua unidade. Estás em mim, mas não Te vejo. Vejo com os olhos do sangue.

Cai, mundo que herdei segundo a carne! No fim de tudo abraçarei o Verbo

Que contém minhas formosas ascendentes, Que me contém, contém a musa

(90)

COMMUNICANTES

Eu amo minha familia sobrenatural, Aquela que não herdei,

Aquela que ama o Eterno.

São poetas, são musas, são aprendizes de santos Que vivem tratando de seus fins supremos.

O’ mundo, minha familia sobrenatural não te possuiu! Minha angustia vive nela e com ela.

E eu formarei poetas no futuro A’ sua imagem e semelhança.

E todos ajuntarão novos membros ao corpo De que Jesus Cristo é a Cabeça.

(91)

O MEDIADOR

Eu dormia á sombra dos arranha-céus.

Tu me viste e me chamaste antes de eu Te vêr. E me disseste: “Acorda, vem comigo,

Eu sou a ressurreição e a vida eterna.

Eu te mostrarei o Deus Creador que procuras E farei o Espirito descer sobre tua cabeça”. O’ revelação da Verdade, alimento essencial! O’ Sêr dos sêres, Pai do seculo futuro!

Nunca mais poderei viver sem Ti. Não precisas vir outra vez, já vieste!

(92)

ETERNIDADE DO HOMEM

Abandonarei as fórmas de expressões finitas, Abandonarei a musica dos dias e das noites, Abandonarei os amores improvisados e faceis, Abandonarei a procura da sciencia imediata E ficarei vigiando e orando no mundo que caíu, Até que Te manifestes no Teu julgamento.

Revestir-me-ei da pobresa para que me dês a plenitude, Revestir-me-ei de simplicidade para que me dês a

[multiplicidade,

Descerei até o fundo do inferno do sofrimento Para que um dia me dês o céu da paz.

Minha historia se espalhará em poemas Para que outros homens compreendam Que sou apenas um élo da universal corrente

(93)

ELOAH

O mar, as flôres, as estrelas, não me falam de ti. Nem as manhãs, nem as tardes, nem as noites.

Uma noite sem expressão, sem montanhas, sem estrelas, sem luar, ainda é mais convulsiva do que tua configuração fisica.

Nada que se refere á natureza me fala de ti.

Não sei mais da côr da tua pele, nem do ritmo do teu andar, nem da linha do teu nariz, nem do tom da tua voz, nem do volume dos teus seios.

E’s uma creação que Deus continúa a todo o instante.

Pronuncias ás vezes meu nome ou me escreves uma carta como si fôsses responder a um anuncio ou falar a um estrangeiro

enquanto pensas no capitulo primeiro do Genesis, no temporal que submergiu a raça dos gigantes, ou no fim do mundo pelo

congelamento.

Tens a tristesa de uma sobrevivente que se expande dentro de si mesma com a força que lhe sobrou das catastrofes de uma cidade em chammas.

E, extatica, esperas que o Eterno te arrebate.

Minha essencia imortal refloresce á simples vista dos teus olhos, animada pelo sopro que lhe advem de um principio divino.

(94)

A CEIA DO POETA

Diante do prato em que apenas toquei

Medito no dia em que multiplicaste pães e peixes, Tu que sacias a fome e a sêde do universo.

Aquêle milagre anunciava outro muito maior: Tu Te repartiste em milhões de homens

Que se consolaram e se consolarão em Ti eternamente. Continúas a nascer todo o dia entre os homens,

Em todas as partes do mundo, mal se ergue o sol. E estou unido a Ti pela oração e pelo amor,

(95)

SPERO IN TE

Nem no mundo capitalista Nem no mundo socialista Jamais conseguirei repousar

Porque minha alma é feita para transpôr as éras. Não é de vós que virá minha salvação,

Homens, chefes da maquina, profetas politicos. Minha salvação vem de Ti, grande Deus.

Só me falta aceitá-la totalmente.

Talvez eu me danasse – por preguiça!

Dá-me o fogo, meu Deus, para me abrasar. Torna esta alma um globo de fogo

E eu me consumirei e morrerei e me ressuscitarás Para a vida esperada e definitiva

(96)

PASCOA

Ressuscitas em todas as partes do mundo, Para os que Te amam e os que Te renegam, Para o branco e o preto, o pobre e o rico. Venceste o tempo, aleluia!

Venceste a morte, aleluia! Para o orfão ressuscitas pai, Para a viuva ressuscitas esposo,

Para o poeta ressuscitas creador da musa, Para o bom ressuscitas Amigo,

Para o máu ressuscitas Juiz, Para a Igreja ressuscitas Chefe,

Para o mundo inteiro ressuscitas Deus. Aleluia! Aleluia!

Já que Tu nos dás a graça, Ressuscita-nos conTigo Para a gloria eterna. Aleluia!

(97)

O PAVOR ANTE O ETERNO Meu Deus

Afasta de mim Tua face;

Cobre-Te com as nuvens e o arco-iris, Porque não suporto tão grande esplendor. Não precisas de fazer maiores milagres Do que os desdobramentos da alma imortal E a conservação da nossa vida

Apesar das catastrofes diarias. Para que duvidar de Ti, si Te vejo? Afasta de mim Tua face transluminosa:

Meu sêr temporal só tem coragem de vê-la,

(98)

A IRMÃ SOBRENATURAL Esperei-te desde o principio, Desde antes da vinda do diluvio,

Desde o mundo dos manequins e das petecas. Uma noite o cometa Halley apareceu

E eu pensei que ti viesses nêle.

Os desertos se desdobravam ante meus olhos Até que um Enviado te trouxe a mim.

E eu dou testemunho de ti: E’s bela, sabia e casta.

E’s um mixto de colegial, de madona e de sibila. E’s minha irmã escolhida

Não pela herança do sangue.

E nossas almas se abraçam harmonicamente Sem a sucessão dos tempos.

(99)

ORAÇÃO

Meu Deus, torna-me insaciavel de Ti. Faze da minha fraquesa, força.

Faze do meu nada, tudo.

Perdôa-me pelos erros de meus ascendentes, Pelos meus erros passados, presentes e futuros, Pelos meus erros que conheço,

Pelos meus erros que ignoro

(100)

FIM E PRINCIPIO

Cairá a grande Babilonia, meu corpo. Cairá ao peso de suas taras,

Cairá ao peso de seus erros e suas visões no tempo. Cairá porque Satan soprou sobre êle.

Cairá porque sustentou a esfera sobre si.

Contemplarei ainda um pouco o mundo efemero Até que Deus faça volver tudo á poeira primitiva. E seja renovada a face da creação.

Ouçamos os clarins e os pianos da eterna musica. Entremos na cidade do Amor

Que para nos receber se preparou como uma noiva, Sem a herança das ascendencias carnais e do tempo. Não ha mais lua nem sol.

(101)

PENTECOSTES

Um vento impetuoso que ninguem sabe de onde vem Penetra na sala rustica onde estão os apostolos;

Sopra sobre todos, entra nêles de alto a baixo;

Imediatamente todos se comunicam e se entendem, Ha uma transfusão de almas inesperada.

O vento sopra mais, divide-se em linguas de fogo, O espirito dos homens se abre e a terra se renova. O vento continuará, formidavel, a soprar,

Sai da sala, percorre os montes, as planicies, as cidades, Derruba os idolos, despedaça o Imperio Romano,

Levanta igrejas, conventos, laboratorios, livrarias, hospitais, Cura leprosos, ressuscita agonisantes e mortos,

Inspira aos homens um desejo universal de amor, Atravessa os tempos, continúa, circular, soprando,

Move minha alma que move meu corpo que move minha [penna,

Desnorteia os construtores do mundo material, Impele de novo os homens ao seu Fim supremo

E continuará amanhã e até á consumação das épocas Levando a todos o Espirito consolador e verdadeiro.

(102)

O POETA ETERNO

Meu Deus, Tu és o unico poeta que dura e durará eternamente. Só Tu és o dono da poesia absoluta e total, Tu que restauras nos poetas o que se destruiu nêles por uma questão de naturesa, ou de repouso no tempo.

Tu, a quem se oferecem os homens que estão para nascer, os recem-nascidos, as crianças, os adolescentes, os moços, os velhos, os agonisantes, os mortos e as almas dos mortos.

Tu, a quem se consagram noivas, esposas, mais, santas e pecadoras.

Tu, a quem as mulheres mais belas de Jerusalem dedicaram seus filhos para que Te vissem e contassem essa visão a todos os seus descendentes, até ás mais longinquas éras.

Tu, que instituiste o sacramental da poesia, assegurando a Maria Madalena a eternidade dos seu gesto amoroso e romantico.

Tu, que moves o coração das musas e o amor dos amantes e dos esposos.

Tu, que em Ti mesmo e por Ti mesmo só tens relação com o Pai e com o Espirito Santo, Te constitues a relação entre todas as fórmas e manifestações inumeraveis da vida.

Tu, que sempre exististe e que antes da creação do mundo já tinhas determinado Tua projeção no tempo e Tua morte da qual brotou, por Tua vontade, uma descendencia infindavel de poetas.

(103)

Tu, que pela Eucaristia, testamento de poesia, de misterio e de amor, distribuiste exemplares de Ti mesmo entre todos os homens até á consumação dos seculos.

Ninguem pode ser indiferente a Ti.

Todos Te são tangentes pelo amor, pelo presentimento, pela superstição ou pelo odio.

Só Tua imagem resiste e resistirá ao ridiculo, ela que se desdobra e se multiplica nas igrejas, nos lares, nas fabricas, nos armazens, nos prostibulos, nos tribunais, nos peitos dos fieis, nos livros, nas medalhas, nos jornais, nos teatros, nos quadros, nas esculturas e nos films.

Assim como Tua imagem esteve escondida tres seculos debaixo da terra, ela está hoje patente no alto dos morros e nas azas dos aviões, e sempre o estará nas futuras invenções humanas.

Assim como estiveste presente na sociedade primitiva, pois que Adão, os patriarcas e os grandes sacerdotes são prefigurações de Ti em Tua existencia terrena, assim tambem estiveste presente na sociedade romana, na sociedade barbara, na sociedade feudal, na sociedade burguesa e estarás presente na sociedade operaria e na que lhe suceder.

Meu Deus, eu Te peço que tenhas pena dos homens que na proxima grande revolução irão tentar outra vez destruir Tua imagem; lembra-Te que os filhos dêles hão de restaurá-la com maior fervor.

Peço-te que sacies a fome do pobre, que anules o tedio do rico e que faças o homem voltar á sua vocação inicial.

(104)

E Te peço que consumas o mais breve possivel o miseravel poeta que tenho sido, para que não fique poema sobre poema, pois estou ancioso para me abrigar á luz eterna da Tua imutavel, da Tua definitiva Poesia!...

(105)

DUPLA LOUVAÇÃO Santo, santo, santo é Tu

Que me fizeste para Te conhecer;

Que fizeste minha musa para Te conhecer E para que eu a conhecesse.

As Suas perfeições provam Tua grandesa. Transmites-me a poesia por Seu intermedio. E, louvando minha musa

Que foi creada á Tua imagem, eu Te louvo. Poetas, louvai minha musa.

Descendentes dos poetas, crescei para louvá-la. E, acima de tudo, louvai Seu creador,

Pai de todas as musas que existem e existirão. Aleluia!

Referências

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