Universidade Federal Fluminense Instituto de Ciências Humanas e Filosofia Curso de Graduação em Sociologia
EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS
Praça do Skate:
Ato subversivo no cenário urbano
Niterói 2016Universidade Federal Fluminense Instituto de Ciências Humanas e Filosofia Curso de Graduação em Sociologia
EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS
Praça do Skate:
Ato subversivo no cenário urbano
Monografia apresentada ao Curso de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Sociologia. Orientador: Prof. Dr. Jorge La Barre Niterói 2016
Universidade Federal Fluminense Instituto de Ciências Humanas e Filosofia Curso de Graduação em Sociologia
EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS
Praça do Skate: Ato subversivo no cenário urbano
BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Jorge de La Barre Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. Nilton Santos Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. Daniel Bitter Universidade Federal Fluminense Apresentado em: ___________________ Conceito: _____________________ Niterói 2016
Dedico à ela, que aturou bravamente e até mesmo se adaptou à essa nãofase; que foi a percursora inicial da minha evolução crítica: Mãe.
Ao Bruno, que esteve comigo em todas as etapas desse projeto; essencial para meus links de memória e para entender o que se passava comigo mesma e em meu entorno;
À todos os colegas de Praça, à quase todas as coisas boas e ruins que formularam não só esse trabalho, mas também parte de quem sou agora;
À espreita de todos os rolés presentes e futuros, que nunca serão somente diversão, mas sempre aprendizado.
RESUMO
Este estudo tem como objetivo a análise comparada dos cenários urbanos da zona metropolitana carioca a partir de um foco principal, a Praça do Skate de Nova Iguaçu Baixada Fluminense. Dáse por meio de uma série de relatos vivenciados ao longo de quatro a cinco anos, e que exprimem uma rede entre subculturas, aspectos da estrutura social carioca, e formação identitária individual. Resulta na leitura dispositiva dos espaços urbanos no tocante centro e periferia, e no retrato da apropriação de áreas públicas e particulares para a constituição de uma cena punk Underground. Concluise que os espaços subversivos e a cena Underground carioca admitem signo revolucionário de ordem rebelde, e que, apesar das periódicas investidas de englobamento, mantêmse às margens do socialmente adequado.
Palavraschave: Praça do Skate, Nova Iguaçu, subcultura, subversão, movimento punk.
ABSTRACT
This study aims at a comparative analysis of urban settings in Rio de Janeiro’s metropolitan area from a main focus on Praça do Skate, in the city of Nova Iguaçu (Baixada Fluminense). It consists in a series of accounts experienced over the last four to five years, that express a network between subcultures, aspects of Rio’s social structure, and individual identity formation. It results in an argumentation over urban spaces in terms of center and periphery, and the portrait of an appropriation of public and private areas for the establishment of an Underground punk scene. We conclude that the subversive spaces and Rio’s Underground scene allow for the revolutionary sign of a rebel kind, and that despite the periodic onslaughts of aggregation, these spaces remain at the fringes of the socially appropriate.
Keywords: Praça do Skate, Nova Iguaçu, subculture, subversion, punk movement.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 1 A PRAÇA DO SKATE COMO ÓTICA INICIAL 1.1 Da distância percorrida Tomando conhecimento de outros espaços 1.2 Disposição e ordem Diversidade e procedência Das preposições antes de efetivarme na Praça 1.3 Do compartilhamento de experiências 1.4 Nem toda experiência é construtiva 1.5 Violência e apatia 1.6 Ritos corrosivos 1.7 Skate como elo fundamental Sentimentos e memórias Em cima do skate Tombo direto para o futuro 1.8 Álcool e outras peripécias 1.9 Revolução musical Fases iniciais para a descoberta do meu próprio estilo 1.10 Treta e outras instituições subversivas O bar Subúrbio Alternativo, Brás de Pina (subúrbio do Rio de Janeiro) Comparações imediatas De volta à Praça do Skate 2 DA PRAÇA DO SKATE PARA FORA 2.1 A construção dos espaços Bar do Garage, Rua Ceará, Centro RJ 2.2 A subcultura como motor de sentido 2.3 Algumas vias da articulação contracultural O Movimento Roque Pense A União Headbanger 2.4 A caminho do fim CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXOS Imagem 1 Foto Anexo 2 Imagem Anexo 3 PUNK ROCK DO SUBÚRBIO Banda PÉ SUJUS Anexo 4: Print UH Anexo 5 Experiência do dia 31 de dezembro de 2014 Anexo 6: Disposição geográfica do Bar Subúrbio Alternativo Anexo 7: Disposição geográfica da Praça do Skate de Nova Iguaçu
“Todas as vezes que se pretende explicar uma coisa humana (...) é preciso começar por remontar até sua forma mais simples, procurar descobrir os caráteres pelos quais ela se define nesse período de sua existência, para depois ver como se desenvolveu e se complicou [...]”.
Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, 1912.
INTRODUÇÃO
Se nós pudéssemos voltar no tempo, o que seria de nós, no amplo sentido de ser
? Em um tempo crucial onde todas as experimentações são ludicamente muito
sérias, a ponto de moldar caráter e os formatos da razão, quem se permitiria à sorte da subversão? Subverter significa emergir e, ao mesmo tempo, destruir, destituir. Emergir das profundidades da mansa aceitação, destruir preceitos; destituir domínios sobre o sujeito.
Quando Hebdige (1979) evoca subcultura
, ele suscita a desafiadora tarefa de
se estabelecer uma nova ordem organizativa, uma estrutura de ideias. Quando surge uma subcultura, ela vem acompanhada de uma histeria causada pelo “medo e a fascinação, entre o escândalo e o entretenimento.”
(op. cit., p.128).
Em seguida, teremos a árdua missão de conectar os espaços através da oposição centro/periferia. Tratase, pois dos tipos de relações concretas laborais, de acesso à informação, cultura e lazer, bem como a qualidade dos serviços de base –, que demandam investimento e fiscalização governamental.
Mas só essas não bastam. Nossa compreensão precisa dos aspectos simbólicos, que até seriam abstratos se não fosse por nossa capacidade interpretativa. A estrutura social carioca, este balão invisível de ideais que rege a
vida de todo mundo nessa sociedade, pode ser compreendida pela ótica marxista como uma eterna luta de classes
. E as classes estão presentes na cidade de forma
marcante.
Os preceitos que movem a cidade o dinheiro, o tempo e o senso do uso objetivo das coisas e pessoas indistinguivelmente somados a um organismo sistêmico de massas esquematizado entre quem serve e quem é servido; a avaliação do contexto local e da posição e disposição social de cada um são questões fundamentais para o exercício que se segue.
“(...) Encostados nos carros ou de pé. Muitos sentamse ao longo do pequeno muro da praça e outros se agacham diante deles ao risco de serem empurrados pelas costas a qualquer momento por pura brincadeira. Quando ao sair da Senador Dantas chego à entrada do metrô, já diviso as botas e os cabelos arrepiados, uma gestuação e um movimento ostensivos.” (CAIAFA, 1985, p. 32).
1 A PRAÇA DO SKATE COMO ÓTICA INICIAL
A Praça do Skate, localizada nas proximidades do centro da cidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi escolhida para ilustrar a relação entre os espaços urbanos através da carga de sentidos adquiridos durante a vivência. Nossa questão se baseia nos formatos peculiares que os relatos de experiência vivida podem transmitir, respondendo pela identidade e conjuntura sociais nas subculturas e demais cenários da interação presentes na cidade.
Dessa maneira, os relatos de experiência, que também são confissões, corroboram a construção de uma lógica de pensamento capaz de estruturar as maneiras de ser que os indivíduos eventualmente atraem para si. Isto porque se trata do que enchelhes a vida de sentido, ou a vida na Praça.
Interessam também as relações que serão formadas com outros espaços, à medida que interagem, que vão sendo convidados ou seduzidos para outras áreas do espaço urbano. A descrição da maneira como essas áreas ou cenários serão percorridos traduz características marcantes para uma evolução (e revolução) pessoal. O que segue é um relato de juízo íntimo ou contraste ocasional com as significações implícitas e explícitas da razão de grupo, ou para efeitos de ordenamento ambiental e social.
1.1 Da distância percorrida
A Praça do Skate está localizada a dez minutos de distância da Estação Ferroviária de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense); cinco minutos da Estação Rodoviária; e quinze minutos de distância do Top Shopping. Isso significa que a Praça está alocada numa área que privilegia o encontro de gente de várias partes do município e adjacências.
Ao mesmo tempo, frequentar a Praça pode ser complicado por conta da distância de casa e da dificuldade de conseguir um ônibus com o passar de certo horário. Para alguns bairros do município vizinho de Belford Roxo como Heliópolis, Areia Branca, Barro Vermelho, já acompanhei muita gente numa caminhada de vinte minutos que acabava por se tornar meia hora ou mais, por conta das brincadeiras ou dificuldades mesmo de caminhar de cansaço ou bebedeira.
Para chegar ao bairro que eu morava naquele tempo, Parque das Palmeiras, em Nova Iguaçu mesmo, tardava normalmente de quarenta e cinco minutos até uma hora dentro do transporte coletivo; isso adicionado ao tempo de espera, que era de mais de meia hora por conta de haver somente uma linha que fizesse o percurso. Para outros bairros como Palhada, Jardim Roma, Jardim Tropical, Nova Era, que ficavam na mesma direção, a dificuldade era parecida.
Em compensação e por outro lado, os esforços medidos para frequentar a Praça já remetem ao significado que ela passou a ter para todos nós. Quer dizer, sabíamos que seria difícil voltar para casa, a maioria de nós tinha pai, mãe ou avó esperando: frequentemente ouvíamos de um e de outro que teria que ir embora mais cedo hoje
(sextafeira em questão) porque a mãe/pai/tio havia trancado o
portão e o feito “dormir na rua” na semana anterior
.
Na Praça do Skate, grande parte das pessoas se esvaem às dez horas da noite. Isto é, pouco antes da hora em que os ônibus municipais reduzem a frota. Assim, mesmo as pessoas que moram mais distantes na cidade chegarão por volta das onze. Para outros, e muitas vezes para mim também, o percurso de volta para casa era feito a pé. Então, às 21h30, tentávamos reunir o pessoal que voltaria junto, porque todos tardávamos muito nos despedindo.
Inclusive, esta é outra tipicidade da Praça: todo mundo sempre tinha uma coisa muito urgente para falar, e geralmente esses assuntos só apareciam no momento da despedida. Tinha dias que o ambiente da Praça estava sem graça
,
quer dizer, o não estava agitado, ninguém tinha muito o que acrescentar nos grupos. E, quando acontecia, era de forma generalizada. Então, alguns amigos da Praça brincavam dizendo que iam começar a fingir que vão embora, para que algo acontecesse.
Eu conheci muitas pessoas de Heliópolis, bairro no limite de Belford Roxo com Nova Iguaçu. Eles formaram previamente seu grupo de amigos, advindos antes da Praça de Heliópolis, que também tinha uma rampa de skate. Assim como a Praça do Skate, a Praça de Heliópolis formava um aglomerado de alternativos que se destacava. Tratavase de um point no centro mais urbanizado dos arredores, isto é, onde tinham lojas e lanchonetes. Estive lá umas duas quintasfeiras e, de fato, se assemelha um pouco ao ambiente da Praça do Skate. Algumas pessoas que compunham esse espaço em Heliópolis combinavam de irem juntas, geralmente caminhando, até a àquela outra Praça em Nova Iguaçu.
Na direção contrária a Heliópolis, que era para onde eu deveria ir, variava de acordo com nossa capacidade física para andar. Porque, passado algum tempo, já não íamos direto para casa, mas ficávamos parando para descansar de vinte em vinte minutos. Houveram dias em que eu cheguei em casa às três da manhã por preguiça e exaustão mental.
Em contrapartida, quem não tem limitações no horário depois da Praça se encaminha para o Bar do Ananias, que fica de dez a quinze minutos de distância da Praça, depois da Estação Ferroviária, onde às vezes tem shows. E se não tiver nenhuma apresentação, a jukebox está lá à disposição dos que tiverem moedas e paciência de esperar sua música tocar.
A jukebox do Bar do Ananias é alterada, isto é, não tem somente as músicas básicas que já vem nas jukeboxes comuns. Nela estão catalogadas raridades, os discos antigos e o rock e Metal mais sombrio. Discografias completas dos grandes nomes do Underground internacional, CDs das bandas da cena carioca e paulista. Inclusive, está salvo o disco único do grupo punk
Tomando conhecimento de outros espaços
Também, após o horário de maior movimentação na Praça, uns grupos manifestavamse publicamente e de forma convidativa, que estariam dirigindose ou ao Garage, na Rua Ceará (que mais a posteriori falaremos sobre), ou à Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Nesse tempo eu ainda não tinha ido tão longe na noite, só conhecia esses espaços de nome, sabia que existiam.
Era também na Praça que tomávamos conhecimento de muitos eventos que aconteceriam tanto nas redondezas como nas áreas mais afastadas: começando pelo Studio B, no bairro da Posse, o espaço que acontecia em Mesquita (município adjacente) aos domingos, eventos na Lira de Ouro ou Recreativo Caxiense, em Duque de Caxias, a Planet Music em Cascadura, que trazia grandes nomes e bons eventos para a cena Underground
, a boate/bar HeavyDuty, que assim como o Bar
do Garage, se localiza na famosa Rua Ceará. Um outro point
, este mais ao interior, levava muitos bêbados à Rua do
Chuchu, em Austin. Na Praça do Skate, muitas pessoas vinham da direção dos bairros Comendador Soares, Cacuia, Austin e Queimados, e eram principalmente esses que se dirigiam para lá.
Todas essas opções de rumo, fui conhecendo ao longo do tempo e não de uma só vez, como era de costume entre meus colegas. Aquela foi uma fase de maior inconsequência que agora, mas até hoje ainda me arrisco. Estamos passíveis dos reflexos da decisão errada e cada qual sofre à sua medida.
1.2 Disposição e ordem
“La estructura interna de toda subcultura se caracteriza por un orden extremo: cada parte se relaciona orgánicamente con el resto y su correspondencia sirve al miembro de la subcultura para interpretar el mundo.”
(HEBDIGE, 1989, p. 138).
Metade do tempo em que eu estive na Praça existia uma figura de “organizador”, para quem os conflitos eram levados. Era identificado com o codinome “Aranha”, e se aproveitava da regalia de ser visto pelos adolescentes como figura de autoridade, recebendo e se apropriando de muitos artigos, principalmente álcool e cigarros. Algumas vezes ele brincava que era um pedágio, porque geralmente sentava nos bancos próximos ao portão de trás da Praça, que dava acesso àBowl
1. E ele contava antes com um gigante de codinome “Soldado”,
que dizia ser o seu braço
, mas logo se formou uma tropa que o seguia, composta
por adolescentes grandes e inseguros que se acreditavam influentes sobre outros grupos ali presentes, e dos quais Aranha tinha pouca entrada.
Eu me recordo claramente dele, quase como uma sequência de fotos, sentado de pernas cruzadas e meio de lado, um pouco à esquerda do centro do banco, usando muitas correntes no pescoço e nos braços, apoiado em um cajado com uma caveira Metalica na ponta e usando um chapéu. Com sua cara de nojo olhava as movimentações e escutava aquele monte de gente vestida de preto. Às vezes ao lado, às vezes nas proximidades sempre bebendo muito (a bebida dos outros, obviamente).
Eu, já naquela época, achava aquilo tudo muito cômico. A maioria se parecia de um esforço enorme para afigurarse em um algo mais
, inclusive eu. Todos
estávamos ali vivendo sob o vigiar algoz de todos os outros, fiscalizando a “poseragem”. Mas esse tipo de verificação não estava a cabo do tal Aranha, era
1 Tratase da bacia onde as manobras de skate são desenvolvidas como dentro de uma
piscina ou como uma cuia gigante. Nas bordas da bowl
, além da prática do skate, as pessoas se
sentam. No canto dela, encostados na parede, fica uma galera que está sempre fumando maconha. Dali se twm passagem por trás das quadras para chegar ao lado oposto, ao lado da entrada. Na frente desse pessoal e atravessando a bowl existe um gramado onde tanto os skatistas se aglomeram quanto se cria uma roda gigante onde conversam e tocam violão, se cantam músicas do alternativo popular (pop rock e alternativo, do grunge e de um “pop punk”).
algo mais das massas. Era uma forma de segregar para se autoafirmar. Porque você é muito mais true se combate os posers
2 3. Era preferível aparentar força e
influência; era preciso que todos te conhecessem e alguns ali do meu meio se importavam muito com sua reputação no próprio lugar.
Recentemente escutei as memórias de um amigo próximo de que eram os punks que instauravam certas regras, ou que policiavam. O grupo exato que agia em zelo das “normas” eu não lembro, mas eu recordo bem dos mandamentos
da
Praça: não podia quebrar garrafas na bowl nem na outra área de skate ou gramado; não podia danificar o patrimônio da Praça (árvores, postes de iluminação, grades e mesas); não podia bater em mulher e nem se aproveitar das bêbadas; briga de gays e travestis só poderia ser com outros gays e travestis; havia quem gestionassem acerca dos bêbados problemáticos (aqueles que ficavam agressivos e insultando aleatoriamente), que eram geralmente “desligados” 4, a não ser que tivesse algum
amigo que o levasse embora. E também não podia roubar, a não ser que fosse o próprio grupo de zelo da Praça que indevidamente se apropriava de certas coisas de pessoas específicas segundo seu julgamento. 5
Diversidade e procedência
Na Praça se reúne gente com gostos diversos, que vão interagindo com as pessoas que já estão ali, se inserindo nos grupos por afinidade ou formando o próprio grupo. Pessoas também chegam aos pares, um apoiando o outro. Ou então aparecem como grupos, por exemplo, pessoas que se conheceram na escola e têm ou não têm gostos similares na música, no esporte, em qualquer forma de lazer e relacionamento afetuoso.
É comum que estudantes saídos da escola (tanto por burlar aula como após horário normal da saída) se encontrem nesse espaço ao ar livre, que tem sombra e lugar para sentar, jogar, livres para falarem alto, com poucas restrições. Inclusive notase uniforme de escolas não só dos arredores como de longe, sendo eles
2 Verdadeiro, se diz do que leva como estilo de vida.
3 Se diz dos falsos, aquele que se monta somente para se inserir nos grupos, propriamente
para tirar fotos, mas que não gosta da música e nem leva o estilo para a vida.
4 Usavam um golpe chamado “ mataleão”, que consiste em interromper o fluxo de oxigênio
no cérebro
, causando um desmaio.
5 Apropriações indevidas
estudantes que vinham de ônibus e que, caso fossem da Rede Pública de Ensino, contariam ainda com a facilidade de não pagarem passagem. Pode ser que pratiquem algum esporte, que com o contato com a Praça (e pessoas que já frequentam aquele local) aprendam a andar de skate, que se reúnam para jogarem bola nas quadras, etc. E até mesmo se encontrem ali para conversar, namorar ou discutir algum trabalho escolar.
Talvez seja assim mesmo que a Praça esteja ciclicamente alimentada. Uns deixam de ir lá pelos vários motivos da vida adulta, das responsabilidades que às vezes a Praça mesmo ensina digo isso no sentido de comunicarse e abrirse aos conselhos e colocações alheios, recorrente da ação na Praça. Assim como eles se vão, outros se achegam. E fazem isso por ver aquela movimentação, ou então pela introdução feita por outras pessoas. Gente que vai de dia, que se reúne com colegas em qualquer dia da semana pode acabar conversando com quem está sempre na Praça e serem indicadas do espaço que ocorre na sextafeira à noite.
Das preposições antes de efetivarme na Praça
Particularmente, notei a Praça quando tinha treze anos. Já tinha percebido que se tratava de gente diferente e certo dia, enquanto passávamos meu pai e eu, ele, que trabalha ali próximo, percebeu que eu olhava muito e me alertou que ali acontecia muitos assaltos e que era muito perigoso. Mas eu não sabia do que se tratava aquele local, não tinha ideia que se reuniam à noite nem mesmo que haviam tantos skatistas; só percebia que era muito diferente do que eu conhecia da cidade. No ano seguinte minha prima, que estudava na mesma escola que eu, me chamou para ir com ela encontrar o namorado depois da aula. Andamos muito, desde quase o outro lado da parte central da cidade, eu não aguentava mais quando enfim chegamos. Primeira vez que eu realmente pisava naquele lugar. Não ficamos nem meia hora, o namorado esquisito não deu bola para ela, estava jogando baralho com um outro cara mais esquisito ainda. Era por volta de meio dia e meia. Eu pensei o porquê de um cara daquela idade (aparentava uns 28 a 30 anos) estar no meio do dia sem fazer nada, no centro de Nova Iguaçu, de chinelo surrado e bermuda de tactel e cara de maluco. Estranhei também que minha prima6
tenha se referido a ele como “namorado”, ele naquela idade; não reparei nos olhos vermelhíssimos, apesar dela ter comentado enquanto saíamos, eu não entendi nada. Dias depois ela me falou que a mãe dele gostava dela, chamava ela de nora e dizendo que ele tinha diminuído o uso da maconha por causa dela.
Eu não tinha entendido nada da história da relação da minha prima, mas levanta questões sobre a forma com que eu fui apresentada à Praça. Primeiro que era perigoso, que eu não deveria ir; segundo, que havia gente que não fazia nada, que só ficava lá o dia inteiro; terceiro, o maconheiro. E junto com isso, todas as indagações que ficavam na minha cabeça. Eu passei a reparar mais no local, meu ônibus passava em frente quando voltava para casa, eu passava aqueles seis segundos em que o ônibus descia o viaduto e fazia a curva encarando o tal lugar. Eu passei a planejar o lado do ônibus que eu ia sentar.
Fiquei nesse “chove não molha” durante muito tempo até passar a levar minha melhor amiga no ponto do ônibus dela, que era mais próximo à Praça do Skate. Em diante, passamos esperar justamente no ponto de costas para a Praça. Ela e eu reparamos que naquele horário de meiodia e meia ficavam muitos estudantes e adolescentes aleatórios. Então nos sentamos nos bancos para conversar e passamos a ficar ali mesmo. E quando íamos para o Top Shopping, passávamos por ali para dar uma conferida. Minha amiga ficou sabendo que conhecidos da internet iam ali de vez em quando, passamos ir vez ou outra, muito timidamente.
Atividade maior eu tive na faixa dos quinze aos dezoito anos. Meu dia era cheio, com intervalos que permitiam vagar pela cidade. Saía de casa para a escola às 06h. Na escola das 07h até 12h. Das 12 às 14h eu não fazia nada, às vezes almoçava com meu pai, mas geralmente fazia um lanche. Das 14h20 às 16h30 eu estava no curso de idiomas. Dali, até as 19h30 eu não teria o que fazer, mas também não poderia ir para casa pois não daria tempo de chegar ao prévestibular à noite. Na escola, muitas vezes saía mais cedo: mais tempo à toa no centro de Nova Iguaçu.
Nessa época eu andei muito, fiquei muito à toa. Andava que nem uma louca. Passei a refletir sobre a vida, as coisas, reparar nas gentes… E comecei a achar que eu vivia na rua, passei a falar para as pessoas que eu ia para casa só para
dormir. Nessa idade a gente não regula bem com quem fala, mas eu aprendi a discernir e confiar na minha intuição e sensação sobre as coisas, lugares e pessoas. E aí, quando eu cansava de andar e quando me irritava todo o barulho, a agitação e a fumaça, eu atravessava o viaduto e sentava na Praça.
Tinha também a Casa de Cultura Sylvio Monteiro, de frente com a estação ferroviária, onde eu passava o tempo entre exposições; se houvesse sorte assistia a alguma mostra de filmes independentes ou ensaios teatrais. Ou voltava para a escola, ou chegava mais cedo nos cursos; às vezes conversava com as pessoas. Senti uma conexão com a cidade que era como se eu fosse tudo aquilo, que eu fizesse parte e sentia como se tudo ali me pertencesse. Ao mesmo tempo, fui ficando mais calada e observadora. Por vezes creio que eu tenha sido bastante introspectiva, mas haviam explosões em que eu desatava em interações.
Esse era o sentimento enquanto passei a lidar com a liberdade de não justificar o meu tempo, de quando pude chegar em casa na hora que fosse, o que permitiu estar na Praça até a hora que ela se põe. Esse tempo eu não passava inteiramente ali, mas fazia sondas, percebi rotinas.
Percebi os dias que tinha encontro de skatistas, às quintasfeiras à tarde. Inclusive fui convidada para o churrasco que eles promoviam nesse dia, só pela presença mesmo. E quando você vai em um, gente que está ali vão te chamando para outros. As pessoas começam a conversar contigo porque você está ali, te convidam a participar. Foram os skatistas que avisaram das noites da sexta, do movimentado que era. Ao tomarem conhecimento das minhas preferências musicais
, reafirmaram que seria do meu gosto, que eu deveria conhecer.
7
Então, essa Praça é dos skatistas, sobretudo. Mas também da equipe de voleibol que treinava quase todos os dias, dos vagabundos, dos estudantes, dos adultos que se reuniam para jogar bola, e isso até então8.
7 Relatado no item Revolução musical.
8 A Praça do Skate passou por uma revitalização que antecede minha participação naquele
lugar. A revitalização é gerada também da reocupação do espaço, amplificado por meio do Orkontro (encontro das pessoas que se conheceram pela rede social Orkut), que antes acontecia na Praça Santos Dumon, ao lado do Parque de Diversões, também em Nova Iguaçu. O tipo de sociabilidade que hoje a Praça do Skate conta já existia nessa outra há muitos anos.
1.3 Do compartilhamento de experiências
Cada um tinha da Praça aquilo que foi ali procurar. Havia, para alguns, um código de sigilo. Inclusive em algumas vezes escutei, e até mesmo proferi, que “o que acontece na Praça, fica na Praça”. Penso que seria um pouco como Las Vegas, o sentido que os filmes passam sobre Las Vegas: faríamos as besteiras que tivermos que fazer para nos sentir vivos; nos comunicaríamos com poucas descrições (abandonando a timidez que em qualquer outra parte da cidade provavelmente assumiríamos) e depois, iríamos embora sem levar nada além de histórias e umas ressacas bravas.
Mas na Praça surgiram amores, filhos e amadurecimentos; surgiram também, para alguns, alguns tipos de libertação, como aconteciam com muitos homossexuais ou simpatizantes que se assumiram para a sociedade e para si mesmos. Discutíamos com frequência temas profundos, sobre a vida, o universo, as dificuldades em casa. Então, proporcionou sim um apoio de desconhecidos que passaram a se conhecer, e amadurecimentos que a gente passou a ter. Também a libertação da idade, onde os velhos desembestaram a serem de novo “malucosbeleza”9, lidando com os mais jovens e aspirando deles um pouco da
loucura e inconsequência ao mesmo tempo que conversavam com eles e os faziam pensar em assumir responsabilidades em casa e na própria vida, de perceberem melhor suas escolhas.
Tínhamos algumas “tias” que faziam isso. Algumas passaram a ir a certos rolés e voltaram aos shows e eventos comuns da sua juventude; outras disseram que nunca deixaram de ir, mas passamos a interagir melhor com elas (e a reparálas) nesses espaços alheios à Praça.
Algumas tias da Praça, a gente nunca esquece. A gente pode não lembrar o nome, às vezes nem saber o nome, mas chamar de tia, outros chamar pelo nome, chamar de amiga… Tem uma em específico que é saudosa em minha memória agora mesmo que eu não recordo mesmo o apelido; mas ela foi fundamental para eu me ver no futuro, um ícone, um exemplo. Na Praça, a vimos passar por divórcio,
por câncer, por diversos problemas na família, e ela vinha e contava para a gente, e a gente comentava e era solidário a ela. Em troca, tínhamos dela o zelo e o carinho de amigos e filhos.
Ela aparentava ter cinquenta anos, bem jovial, mas sabíamos que ela era mais velha que isso. Usava muitos brincos, piercings e tinha um estilo que beirava o gótico. Tinha algumas tatuagens bem antigas e falava das bandas, curtia os shows até tarde da noite, ia para os rolés de ônibus mesmo, junto com um monte de gente… Era incrível. Às vezes a vejo quando passo nas proximidades da Praça, ou em alguns lugares do centro. Nos falamos; ela não lembra meu nome e nem eu o dela. Mas creio que ambas nos recordamos, nós nos cumprimentamos, perguntamos umas coisas e outras, e de quando vamos aparecer de novo na Praça e nos despedimos.
1.4 Nem toda experiência é construtiva
Como eu disse, cada um tinha da Praça aquilo que foi ali procurar. O lugar era muito misto e certos tipos de experiências nem sempre eram das melhores. Como quando umas conhecidas da escola me abordaram, quase felizes em me ver quando antes pouco nos falamos, na praça, local que eu já frequentava assiduamente e nunca as havia visto lá, para perguntar se eu sabia quem vendia drogas (abertamente disseram da maconha, da cocaína, ecstasy e LSD). Fiquei profundamente ofendida, dei as costas e fui embora. Outra hora, uma amiga próxima que conheci na escola perguntou se eu sabia quem tinha maconha e se eu sabia “apertar”. Só respondi que não. E isso tínhamos eu quinze, ela dezesseis para dezessete anos.
Não querendo ser moralista, mas percebendo a gravidade que era tais práticas para gente tão nova: ali muitos de nós iam mesmo para beber e para fumar em paz. Para transgredir ao mesmo tempo longe e tão na cara dos nossos responsáveis, para rebelar e sentir ódio.. É nisso que há quem diga “eramos todos uns emos
10”.
10 Emo é um estilo dentro do Rock ou do Metal, que tende para o estilo musical melódico ou
screamo*
. Tem um visual próprio que as vezes é tristemente confundido com o gótico e se exprime de
1.5 Violência e apatia
A Praça também foi palco de muito desentendimento. Gente que levava problemas de outros lugares e acabava discutindo ali, gente que propriamente marcava de “resolver”, gente que bebia e ficava esquisito, e outros, creio que nisto há maior gravidade, que iam para lá com o intuito de arrumar a confusão.
Isso porque o que se espera de uma praça é que seja um ambiente não propriamente harmônico, mas ao menos simpático. Ou seja, as pessoas que se dispõem a frequentar um espaço no específico dia em que se ambienta desta maneira afetiva, interativa, descontraída. A conduta antipática de grupos que vão ao local buscando atrito não favorece a proposta que a Praça está envolta, podendo inclusive acabar com as relações dali.
E de fato isso aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Pessoas passaram a evitar a Praça durante um tempo por conta desses grupos terroristas
, por assim
dizer, já que não podiam ali ter a paz e a extroversão como de antes. Gangues ou pessoas que produzem o ódio e a violência quebram o ciclo extrovertido que a Praça está acostumada; interrompe toda uma sociabilidade.
1.6 Ritos corrosivos
Nos três anos que frequentei assiduamente a Praça, também passei por momentos, eu e meu grupo, de afastamento da Praça por conta de um problema que afetada toda a atmosfera do local. Teve uma época que a onda era mexer com energias, com magia. O goticismo e pseudogoticismo ganharam adeptos em peso na Praça. Magos, bruxas, feiticeiras “surgiram”; quer dizer, muita gente interessada começou a estudar, se filiou a algummestre
. E logo se criaram clãs e outros grupos
que se uniam e rivalizavam de acordo com um tal jogo mágico. Então era divertido, tudo tinha muito sentido, todos eram muito sensíveis. Parecia muito real, mas também como um jogo, uma brincadeira. Depois ficou estranho, ficou ruim; tudo era muito pesado, percebemos que não sabíamos com o que e quem estávamos
cuja música é nervosa e forte, quase raivosa, com vocal que se altera entre melódico e berrante (gritos). Screamo
lidando. Agora eu noto que era pra mim essa brincadeira, mas na época era muito real. Daí eu me afastei e fiquei sabendo que muitos se afastaram.
A Praça era o espaço mor onde esses tipos de interação aconteciam. Existiam os Lycans, Malkavians e um outro tipo de vampiro rebelde que não admitia grandes clãs e se associava com quem convivesse em cada situação.
Antes desses três, haviam já os Wiccanos, mas não se fechavam em um grupo exclusivo, diferente daqueles. Wiccas eram surgidos, segundo alguns adeptos com quem mantive contato, do olhar naturalista e do preceito do coexistir harmoniosamente. Destes, nunca vi um deles se dispondo a ensinar a alguém, com a comum justificativa do “não sou capaz” ou do “não me habilito”.
Os outros eram de um espírito mais rebelde mesmo, um pouco da adrenalina e de conquistar o poder, ser perigoso. Nessa época, essa era uma palavra bem recorrente: poder, e administrar potências
. Vejo esse período como de uma
sociabilidade esdrúxula, causada pela minha mágoa pessoal.
Esse foi um período marcante para a Praça. Surgiam brigas ao aleatório com um tal motivo de roubo de energias e alguns boatos de morte. É do meu saber que o grupo dos Lycans, formado majoritariamente por rapazes e liderado por homens, subia a Serra do Vulcão de Nova Iguaçu, para prática e treinamentos rituais e de resistência.
O outro grupo, onde estavam aliciadas muitas meninas, provavelmente seduzidas pelo estilo e pela constante promessa de que eram especiais e que tinham muita energia vital
. Tive muitas conhecidas aliciadas por esses degenerados,
elas geralmente muito novas e eles, uns charlatões.
Na verdade, eu fiquei sabendo de somente dois mestresvampiros
, talvez um
terceiro. Já os adeptos, se espalharam como epidemia pela Praça. Dos Lycan eu sei que sua abordagem era mais conectada com o corpo, com o mundo físico. Assim, demonstravam menos perigo em relação aos abalos psicológicos deixados pelo outro grupo.
Isso porque na verdade, o mestre vampiro era só um outro aprendiz de alguém. Lia e estudava muito, mas não tinha domínio sobre o que estava lidando. E, ao que parece, eles precisavam praticar com a mente de alguém.
1.7 Skate como elo fundamental
A Praça em si só é surgida da vontade do skate. É dizer, na década de 1970, ali era um espaço aberto e vazio, em que a vontade de uns loucos que aprenderam o que eram as manobras de skate nas suas viagens de estudo no exterior, ensinaram aos amigos. Antes disso eles tinham o carrinho de rolimã. E isso através do contato com a Zona Sul e com a Barra. Era lá onde provavelmente as informações chegariam primeiro.
Então esses iguaçuanos planejaram uma pista de skate como as que viam nas revistas. Fizeram todos os planos de como a Praça deveria ser, com o foco em uma bowl
que seria a maior do mundo depois de construída; sendo que no mesmo
ano que a Praça de Nova Iguaçu ficara pronta (1976), a Califórnia (EUA) inauguraria a sua poucos meses antes. A Praça passaria ao posto de maior da América Latina 11 .
“A primeira pista de skate da América Latina mudou o comportamento de uma geração inteira de jovens, aproximou a Zona Norte e a Zona Sul da Baixada Fluminense e revelou as primeiras lendas do esporte no Brasil.” (Codinome:TITÃO, no site OSkate.com.br, no dia 08 de julho de 2014).
Esta Praça recebeu e recebe diversos campeonatos. Definitivamente, os skatistas, quase como classe, não estão dispostos a deixar a Praça do Skate morrer.
Para a préestreia do documentário, foinos enviado um ônibus para a Praça, que nos levaria todos para o SESC de Nova Iguaçu. Por conta de o ônibus ter 12 tardado tanto para chegar, muitos foram de skate mesmo, porque não é tão longe. Chegando lá, o SESC tinha disponibilizado sua quadra para skatistas de todas as idades fazerem umas brincadeiras com manobras arriscadas, e improvisado umas rampas móveis e uns obstáculos.
Inclusive me lembro de terem dado a todos vários adesivos dos patrocinadores e, no meio deles, ao menos para mim veio um adesivo do Short
11 O documentário de médiametragem Praça do Skate
, de Paulo China, contém valiosas
informações e relatos de como foi o impactante para uma geração inteira.
12 SESC: “Serviço Social do Comércio”, lugar que funciona como um clube e fornecem diversos
Thrash (banda de Crossover carioca) que tenho até hoje. A composição visual tinha me agradado muito mas eu nem sabia que se tratava de uma banda. Até que um dia me vi em um show cuja grupo musical levava um cartaz gigante atrás do baterista que eu imediatamente associei ao adesivo que eu tinha guardado.
Nesse dia, tinha muita gente de meia idade andando de skate, ao lado de uma família grande. Porque o documentário e a Praça em si tocam fundo na vida e na humanidade dessas pessoas. Está cheia de emoções e memórias.
Sentimentos e memórias
Lembrome, por exemplo, de um dos dias de semana que eu estava à toa na Praça e surgiu uma mulher loira de uns trinta anos perguntando de um tal fulano que eu não conhecia. Disse que ele era skatista, e na época que estava por aqui ele praticamente morava na Praça. A mulher descreveu ele e pediu para avisar e entrar em contato com os skatistas mais antigos da Praça para pedir para dizêlo que a Carla (creio que era esse o nome dela) tinha passado perguntando por ele.
Sim, foi surreal: uma mulher que eu nunca vi pedindo para dar um recado para um cara que eu não conheço. Ela me disse que frequentava a Praça quando tinha quinze anos, mas que tinha sido levada para morar em São Paulo e que agora ela estava de volta. Parecia estar emocionada em estar ali. Não sei se ela me disse que era estranho estar ali de novo e que tinha vontade de saber como ele, que fora um grande amigo, estava ou se essa parte eu fantasiei depois que ela foi embora.
Passei um tempo encucada com isso até chegarem uns amigos. Contei para uns skatistas que apareceram minutos depois sobre a tal mulher e se conhecia o rapaz que ela procurava para que eu desse o recado, mas eles não pareceram se importar e disseram que provavelmente se tratava de alguma maluca
(sic).
Talvez os filmes de drama romântico tenham corrompido meu cérebro, mas não acho que ela era só uma maluca. É possível que as pessoas queiram reencontrar antigos amigos que marcaram sua vida, ou que a vida tenha interrompido algo que poderia ter sido para a vida toda.
Assim como ela, hoje, eu também penso assim. Quando entro na Praça depois de anos afastada, depois de tudo que venho passando, de ter conhecido outros lugares, andado um pouco pelo mundo, eu me reconecto de alguma forma
com ela. Porque me vêm à cabeça todos os aprendizados e lições boas e ruins que eu tive naquele lugar. Não tem como não lembrar de cada um dos grupos que eu me inseri, e de pensar que eles também foram para outros lugares e por vias diferentes da minha.
Ter vivido a Praça foi, para mim, um divisor de águas que faz perceber o quão adulta estou agora. Penso que talvez isso tenha acontecido com a suposta Carla, ou seja lá qual for o nome dela.
Ver aqueles senhores grisalhos em cima de um skate no SESC faz pensar em todos sentimentos que não teriam emergido, eles no meio daquela galera jovem, seus filhos e netos também skatistas. No documentário, alguns expressaram essa emoção de recordar, de rever pessoas com quem compartilharam valiosos momentos da juventude. E nessa préestreia, eles também estavam presentes: primeiro na Praça, depois a caminho do SESC.
Em cima do skate
Nesse tempo eu já tinha me visto sobre um skate. Eu já tinha adquirido o meu próprio, muito bom, de segunda mão. Era de umplayboy
morador da Barra , primo
da minha amiga do curso de inglês, que me disse ter montado com as melhores peças e que tinha tentado andar algumas vezes, mas desistiu por conta dos tombos.
E eu nessa época não tinha medo de nada. Não pensei duas vezes e pedi dinheiro adiantado ao meu pai. Nessa época eu trabalhava com ele e ganhava quinze reais por meio período dia de semana e trinta para trabalhar aos sábados. Eu tinha cem reais guardados e com mais duzentos e cinquenta adiantados eu peguei o skate na mesma semana.
Meados de 2009 e eu saía da Passarela Caracol, onde agora meu pai e eu trabalhávamos, às seis horas da tarde nos dias de segunda, quarta e sexta (terça e quinta eu tinha curso) para ir para a Praça, que ficava a oito minutos de distância. A partir daí o trabalho com meu pai se tornou muito difícil, porque eu não queria mais estar lá. Terminar de pagar o skate foi uma tortura, mas terminei e enfim estava livre de novo.
Eu me entendia muito independente, aprendendo a descer na bacia só do que tinha observado dos outros. Eu já havia tido um daqueles horríveis skates retos
e quadrados, dos que se vendem nas Lojas Americanas, que chorei para ganhar de aniversário aos doze anos. Então sabia equilibrarme e locomoverme, fazer curvas, descer pequenas ladeiras: as coisas mais básicas. Mas estar em uma bacia era algo inédito e emocionante.
No meio do dia era melhor, porque a Praça estava quase vazia; se podia cair com a tranquilidade de não ter passado vergonha. Agora às seis horas aquilo ali estava lotado… todos os dias. Tinha muito skatista! E eu ficava era no canto, ora na pista reta, ora na bowl
, onde tivesse menos gente. Eu não queria ser questionada
de estar com o skate no canto ao invés de andar, para que não percebessem que eu não sabia andar direito. Quando uma das pistas esvaziava, eu me levantava e brincava de abaixar com o skate em movimento, com equilibrarme apenas nas rodinhas de trás, fazer ziguezague, descer a pequena rampa.
Uma dia me distrai tanto brincando que não percebi um grupo de quatro rapazes skatistas. Foi quando comecei a ser ensinada, partindo do mais simples. Não é que tenha passado a ser comum que acontecesse de alguém se dispôr a dar dicas, mas vez ou outra alguma boa alma aparecia. Também é muito do se permitir, porque a timidez atrapalha. Meus dias oscilavam entre mais extrovertida e aberta, a mais tímida e retraída.
Tombo direto para o futuro
Dezessete anos: agora eu já pagava passagem. Eu tinha me mudado para um bairro mais próximo ao centro de Nova Iguaçu, onde se tinha mais acesso para os ônibus. Isso porque, primeiro o antigo lugar que eu morava era perigosíssimo, segundo pela hora que eu provavelmente retornaria da faculdade, seria muito complicado chegar em casa.
Nesse tempo eu já estudava na Universidade Federal Fluminense. Para chegar na Praça. eu não poderia darme o luxo de pagar passagem, então eu ia de skate. Quando eu digo que eu passei a morar mais próximo do centro, não significa dizer “ao lado”. Desde a parte mais distante de Comendador Soares, eu atravessava os bairros Canaã e Ouro Verde, que me davam acesso à extrema parte
da Via Light. Nisso eram quarenta minutos “remando” no skate. Antes disso, nos 13 tempos de férias, o percurso era parecido.
Era muito do chão e muito do sol sobre minha cabeça. Hoje eu não poderia e nem suportaria mais fazer uma coisa dessas. Esse esforço insano que eu fazia me rendeu um bom problema no joelho direito, que geralmente me lembra que existe quando refaço os movimentos de impulso no skate. Por outro lado, apesar de ser sempre magérrima, me rendeu uns músculos em áreas estratégicas que me deixavam muito orgulhosa.
Das coisas que me afetaram, além dos tombos e torções comuns que me faziam por vezes pedir carona nos ônibus para ir embora; teve uma vez que eu mais meu grande amigo nos dirigíamos nosso bairro em comum até o município vizinho, Mesquita, que anualmente faz uma grande festa em comemoração ao Dia Mundial do Rock. Nesse dia não chegamos lá porque me acidentei no bairro Caonze, no centro de Nova Iguaçu.
Íamos até lá brincando muito. Demos uma parada na Praça do Skate, onde também tinha festa, cumprimentamos alguns colegas e seguimos. Quinze a vinte minutos a frente, pelo caminho que decidimos fazer, que era o que tinha menor movimentação de carros, haviam duas ladeiras, que tinham aspecto de bacia (bowl).
No topo da primeira, pensamos duas vezes se íamos; eu fui e então ele foi. Um sucesso! Já no topo da segunda, por conta do reflexo da descida da primeira, cheguei nem na metade. Não medimos que essa era quase o tripo da anterior e muito mais íngreme. Vi o skate do Bruno bambalear na minha frente, ele abaixando e equilibrando os pés lado a lado para cortar esse efeito, me bateu o nervosismo e senti os pés virarem pela alta velocidade. Fui vendo só o Bruno descendo de lado, em câmara lenta. Daí eu já estava no chão.
Ele conta que olhou para trás quando parou de ouvir o barulho do meu skate. Enquanto caia, vi de soslaia um carro passando, justo no momento que eu caía. O motorista deve ter rido muito, porque eu caí muito feio. Diz que eu fiquei uns trinta segundos sem responder, de olho aberto. Eu bati a cabeça muito forte no meiofio, me ralei toda porque saí arrastando para baixo depois de bater no chão.
13 Termo utilizado para referirse ao ato de locomoverse no skate, impulsionado por um dos
Eu tinha uns dois reais no bolso, e sinceramente não lembro como cheguei no Hospital Geral da Posse (também Nova Iguaçu). Acredito que pedimos carona. Muitas coisas desse dia eu me esqueci completamente, apesar de aparentar lucidez e ter saído do local do acidente caminhando.
Meu skate estava inteiro, mas eu tinha machucado a cabeça e fraturado a clavícula. Ficamos lá até as três da matina, e era por volta das cindo da tarde quando chegamos. Para ir para casa, nós fomos de skate mesmo até o Top Shopping, e de lá um motorista muito gente boa nos deu uma carona.
1.8 Álcool e outras peripécias
Esta foi a última grande aventura em cima de um skate. As outras vezes que caí não tinham tanta emoção e nem significavam grandes coisas. Uma coisa que convém o interesse é que enquanto remamos
no skate na beira da pista, existem
algumas complicações que são: areia e pedras que se acumulam nos cantos da pista e as pessoas dos carros que nos xingam para que saiamos da via apesar de essa ser a única forma de nos locomovermos de skate (não se pode antar de skate na calçada e tampouco existem ciclovias para os lados que nos dirigimos). Creio que por maldade, há quem buzine ao nosso lado enquanto estamos a toda velocidade, para que nos assustemos e caiamos.
Também, por andar de skate, aprendi onde arrumar água de graça na cidade. Os mercados e postos de gasolina que disponibilizavam um bebedouro. E que é mais fácil conseguir carona quando se está com o skate debaixo do braço. Diversas vezes enquanto voltava do Rock que acontece em Mesquita, os ônibus das empresas Nossa Senhora da Penha e Nilopolitana até mesmo ofereciam a porta de trás do ônibus sem que pedíssemos, ao nos ver caminhando cansados (e bêbados).
Passei a frequentar Mesquita porque o skate me facilitava ir da Praça do Skate para a Praça de Mesquita. Também um outro amigo passou a frequentar mais a Praça quando arrumou um skate. Era seu meio de transporte até lá. Vários outros skatistas da Praça o usam com mesma finalidade. Conheci outro rapaz que trabalhava em uma loja de bicicletas ali no centro, e que ia para a Praça depois do
trabalho e, dado certo horário, para a casa de skate mesmo. Ele me disse morar na Posse, o que é bastante longe para um percurso que se tem de fazer todos os dias. Do antigo bairro que eu morava, também saiam muitas pessoas em skate até a Praça, e era longe demais! Mais de uma hora, sem dúvidas. Nas sextasfeiras, era normal que fossemos todos caminhando, os que iam para a mesma direção, porque se usava o dinheiro de passagem para inteirar na compra da sangria.
A sangria era a bebida usual, porque era de baixo custo, alto teor alcoólico e vinha em cinco litros. Embebedava até quem não tinha colaborado com a compra. Em um grupo de cinco a oito pessoas, se cada um desse um ou dois reais, tranquilamente se comprava um galão de Cantina da Serra. Também acontecia de pessoas aleatórias e conhecidos de Praça virem pedir qualquer valor para colaborar na compra de qualquer tipo de álcool. E todos davam, porque, no fim, a bebida era socializada.
Parecia uma festa: uns grupos tinham uma caixa de som portátil ou um celular com músicas, só para pano de fundo nas conversas; outros se reuniam em torno de um dos vários violões sendo tocados espalhados pela Praça; e havia um rodízio constante de gente nos grupos, ampla movimentação da Praça inteira. Sempre se deslocavam para fazer sondas a gente interessante, fofocas, assuntos diferentes e até mesmo em busca das discussões e brigas que se formavam de repente.
Além da sangria, também existia a mistura de baixa qualidade, muito comum na Praça e na frente das escolas, se chama “tomba”. A tomba é a mistura de refrigerante com Caninha da Roça, que custava de dois a três reais. Então, além de não aparentar o conteúdo alcoólico dentro da roda de amigos que se formava, porque colocavam a aguardente dentro do refrigerante, era muitíssimo econômico.
Com o passar do tempo, e como era de se esperar, alguns de nós começaram a trabalhar, o que fez com que a qualidade da cachaça nos grupos começassem a evoluir. Isso de tal modo que se formou um problema. Porque, enquanto todos estão bebendo os mesmos tipos de bebida barata, não temos problemas: “todos são iguais perante o álcool” 14. Mas logo que apareceram as
14 Frase de efeito dentro de um grupo que eu partilhava, de fortes tendências agnósticas e
primeiras garrafas de bebidas mais caras, que também eram usadas com a finalidade de agregar status
, uma zona de desconforto pode ter se formado. Big
Apple, Johnny Walker, e até mesmo as Jack Daniels foram aparecendo, e fizeram o gosto da tomba amargar ainda mais.
E atrito estava formado porque elitizava certos grupos em torno do álcool. Eles se segregaram porque relutavam e até negavam com todas as letras e desamizades o compartilhamento do seu drink real
. Nisto, a Praça cria aspecto de
estar zoneada. Limites que antes já existiam um pouco, aí se intensificam. Existe receio da repreensão e do embaraço dos olhares pouco amistosos.
Novas classes se formam até que almas generosas cortem o ciclo da apatia. Precisou que se liberassem duas caixas de cervejas Heineken quentes quase vencidas, arranjadas por um colega de grupo que trabalhava no estoque de uma rede atacadista. Outra vez, foram dois galões de cinco litros da mesma cerveja, pelos menos motivos. Dois galões de sangria liberados pela boa vontade de um amigo próximo. São formas que fizeram gerar nossos ciclos de gentileza e bonança alcoólica que reintegrariam um pouco os grupo e as gentes.
1.9 Revolução musical
Na Praça em peso, creio que a maioria de nós passamos por renovações no comportamento, e por vezes esse comportamento está associado ao estilo musical. Nos dez anos que se passaram desde a definição de um estilo próprio e particular, não poderia eu, no desabrochar identitário, permanecer em conceito e em espírito na mesma vertente.
O Rock e o Metal é um tipo de música que permite e até incentiva seus desdobramentos, por meio da combinação, por conta de seu espírito subversivo. Tratase da tendência em romper com o socialmente aceito, com o adequado e com o ordinário.
A combinação de elementos de culturas diversas, os ritmos e as percepções geram uma inovação da musica que é delirante. E isso dentro do Rock e do Metal é surpreendente e, definitivamente, agrega valor. De forma análoga com que Hebdige (1979) descreve, a evolução do reggae jamaicano dentro da Grã Bretanha, e de
como a combinação dos elementos do rock fizeram surgir os mods, o ska, até chegar no punk.
Na Praça, os círculos musicais existiam, e qualquer um poderia sentarse na roda e participar da cantoria. Havia quem levasse violões e percussão e abriam para as músicas do rock popular, criando novas batidas, colocando um pouco da sua própria vivência; algo descontraído formava com naturalidade.
A própria banda iguaçuana que toca Punk Rock já citada, Genômades, construiu muitas de suas músicas nessas rodas que aconteciam ali, no meio da praça. Também espaço foi aberto para conhecer músicos de estilo semelhante, com possibilidade de serem criados novos projetos. “Você me diz que era um sonho, mas os sonhos são reais Você me mata de vontade, na verdade não é mais E me traz os pensamentos que eu já nem uso mais E quase me tira o firmamento de vida eterna e de paz O Sol também é Vazio e sem forma O som também é Vazio e sem forma” (Banda Genômades Hagliés) De outra forma, a revolução ocorre do conhecimento, do teste de possibilidades. A roda de música também é momento propício para novas introduções aos estilos, artistas, às formas de entendimento e interpretação.
E toda a Praça assim se faz: da interação, da troca, das dicas. E dentro dessas dicas, existia um outro fator que era o de parecer saber mais, de conhecer mais as bandas, para durante a conversa poder ser o que sabe mais. Então existe uma ânsia, uma corrida para estar a par dos estilos, das datas dos álbuns e de cada formação de banda.
Esse estudo que é feito sobre o seu próprio estilo, o que dizia ter, acaba desviando e abrindo para novas vertentes. Passase a conhecer bandas que conversem com o antigo estilo e com o novo estilo que vai passando a gostar. A partir daí, novos caminhos vão sendo traçados, e talvez novas sociabilidades. As afluências do estilo mais básico, daquele que se ouvia na rádio, levam cada um de nós a um novo patamar.
Fases iniciais para a descoberta do meu próprio estilo
“Como cabría esperar, por lo tanto, las transgresiones de las normas consensuadas que se emplean para organizar y experimentar el mundo tienen una considerable capacidad de provocar e inquietar.” (HEBDIGE, 1979, p. 127).
Eu nasci no rock com tendências do Grunge e New Metal. Com doze para treze anos assumi o estilo, herdado do meu pai. Aos quatorze em diante, foi meu momento de brilhar, sustentando uma combinação de Black Death Metal. Minha experiência pessoal passou do mais leve, apropriado e caseiro (nem tão apropriado e caseiro assim), arriscando direto para o Metal Extremo.
Aos quinze anos (ano de 2010), tive meu primeiro contato com o Punk Rock, isso dentro da Escola Pública, em uma aula de Sociologia. A banda era a paulista Cólera, e a música, intitulada “Deixem a terra em paz!”, do álbum de mesmo nome lançado em 2004. Foi usada como complemento no estudo de consciência ambiental. Para mim, aquilo foi realmente impactante. Achei sensacional! Estava chocada porque não esperava um som como aquele, não imaginava alguém fazendo música para retratar os problemas sociais mais profundos e periféricos, e tudo isso em português. Me senti contemplada por tal conjunto de letra, ritmo, fúria; suscitoume uma potência que eu só sabia que queria para mim.
Embrenheime em estudos, queria tudo a respeito e comecei a perceber que o estilo proposto se aplicava um pouco à vida que eu levava: não em termos estéticos mas filosóficos. Não que isso não tenha acabado por refletirse na imagem que eu recriei de mim, mas eu acreditei (e acredito) mesmo na anarquia.
Eu, aos quinze e dezesseis anos, me via a mais punk de todas: desimpedida, perdida e encontrada, toda de uma subjetividade que não cabia em mim e de uma rebeldia que só minha mãe pode contar.
Eu gostava da simplicidade que era ser, de uma liberdade tamanha que não cabia dentro de mim. Eu brincava com os sentidos das coisas; fazia parte da transgressão brincar com a capacidade reflexiva das pessoas. Eu gostei de ser sozinha, eu com os meus botões, a vagar pela cidade com tudo o que eu podia levar de mais essencial na minha mochila: kit de higiene, uma muda de roupas, um
caderno e um livro, um pano para sentar no chão, água, cerca de vinte reais da emergência escondidos e costurados na mochila e biscoito. Tudo isso porque eu sempre pensava que tinha o necessário para fugir, ir para bem longe, viver de liberdade.
Naquele tempo, minha ideia de liberdade contava com um plano de segurança. Vinte reais era o dinheiro exato para chegar em Angra dos Reis, na casa da tia favorita, e de fazer um lanche na pastelaria de frente com o ponto de ônibus em Conceição de Jacareí.
Não é que eu fosse realmente, mas era por saber que se eu quisesse, eu poderia. Agora percebo que provavelmente se tratava de uma brincadeira de testar limites, e isso me dava muita coragem. Foi nisto que conheci a cidade inteira. e foi com esta lógica que eu me enfiei em um ônibus que me levou até a Central do Brasil, só por ir. Eu não precisava pagar passagem por conta da gratuidade escolar, mas precisava desesperadamente conhecer o mundo, descobrir até onde poderia ir. Demorei um pouco, mas posteriormente fui a Madureira, Caxias e Japeri. De novo, só por ir.
De volta ao mundo real, as situações vão me ensinar que a vida em grupo do punk pode ser bem ingloriosa. As desilusões aconteceriam muito depois, eu como pesquisadora, confrontada por uma estupidez. E desgostei.
Essa vivência não me afastaria do Death Metal (e nem do Grunge), e talvez bem pouco do Black. Nesse meio tempo, aprendi a combinar os estilos. E nem foi difícil, porque as bandas parecem ter passado por isso também, já que me dariam suas músicas já combinadas! Por exemplo a Napalm Death, até hoje icônica para mim, com as letras do punk e os tons do Death; a banda Doom, que é punk com estilo puxado para o Black; a Ratos de Porão, que fez entender que o Hard Core é um punk com Metal.