• Nenhum resultado encontrado

Praça do Skate: ato subversivo no cenário urbano

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Praça do Skate: ato subversivo no cenário urbano"

Copied!
62
0
0

Texto

(1)

Universidade Federal Fluminense  Instituto de Ciências Humanas e Filosofia  Curso de Graduação em Sociologia       

 

 

 EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS

       

 

 

Praça do Skate: 

Ato subversivo no cenário urbano 

                      Niterói  2016 

(2)

  Universidade Federal Fluminense  Instituto de Ciências Humanas e Filosofia  Curso de Graduação em Sociologia   

 

 

 EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS

     

 

 

Praça do Skate: 

Ato subversivo no cenário urbano 

       

Monografia apresentada ao Curso de Sociologia        da  Universidade  Federal  Fluminense, como    requisito parcial para a obtenção do título de        Bacharel em Sociologia.      Orientador: Prof. Dr. Jorge La Barre      Niterói  2016 

(3)

Universidade Federal Fluminense  Instituto de Ciências Humanas e Filosofia  Curso de Graduação em Sociologia       

EVELYN CHRISTINE DA SILVA MATOS

     

Praça do Skate: Ato subversivo no cenário urbano 

      BANCA EXAMINADORA      Prof. Dr. Jorge de La Barre  Universidade Federal Fluminense        Prof. Dr. Nilton Santos  Universidade Federal Fluminense        Prof. Dr. Daniel Bitter  Universidade Federal Fluminense          Apresentado em: ___________________  Conceito: _____________________    Niterói  2016 

(4)

 

 

 

 

 

 

 

Dedico à ela, que aturou bravamente e              até mesmo se adaptou à essa não­fase;              que foi a percursora inicial da minha              evolução crítica: Mãe. 

Ao Bruno, que esteve comigo em todas              as etapas desse projeto; essencial para            meus links de memória e para entender o                que se passava comigo mesma e em meu                entorno; 

À todos os colegas de Praça, à quase                todas as coisas boas e ruins que              formularam não só esse trabalho, mas            também parte de quem sou agora; 

À espreita de todos os rolés presentes e                futuros,  que  nunca  serão  somente  diversão, mas sempre aprendizado. 

(5)

RESUMO 

Este estudo tem como objetivo a análise comparada dos cenários urbanos da        zona metropolitana carioca a partir de um foco principal, a Praça do Skate de Nova        Iguaçu ­ Baixada Fluminense. Dá­se por meio de uma série de relatos vivenciados        ao longo de quatro a cinco anos, e que exprimem uma rede entre subculturas,        aspectos da estrutura social carioca, e formação identitária individual. Resulta na        leitura dispositiva dos espaços urbanos no tocante       ​centro e periferia, e no retrato da          apropriação de áreas públicas e particulares para a constituição de uma cena punk        Underground. Conclui­se que os espaços subversivos e a cena      ​Underground  carioca admitem signo revolucionário de ordem rebelde, e que, apesar das        periódicas investidas de englobamento, mantêm­se às margens do socialmente        adequado. 

Palavras­chave: Praça do Skate, Nova Iguaçu, subcultura, subversão,        movimento punk. 

 

ABSTRACT 

This study aims at a comparative analysis of urban settings in Rio de Janeiro’s        metropolitan area from a main focus on       ​Praça do Skate, in the city of Nova Iguaçu          (Baixada Fluminense). It consists in a series of accounts experienced over the last        four to five years, that express a network between subcultures, aspects of Rio’s        social structure, and individual identity formation. It results in an argumentation over        urban spaces in terms of center and periphery, and the portrait of an appropriation of        public and private areas for the establishment of an Underground punk scene. We        conclude that the subversive spaces and Rio’s Underground scene allow for the        revolutionary sign of a rebel kind, and that despite the periodic onslaughts of        aggregation, these spaces remain at the fringes of the socially appropriate. 

Keywords: Praça do Skate, Nova Iguaçu, subculture, subversion, punk        movement. 

   

(6)

SUMÁRIO  

  INTRODUÇÃO  1 A PRAÇA DO SKATE COMO ÓTICA INICIAL  1.1 Da distância percorrida  Tomando conhecimento de outros espaços  1.2 Disposição e ordem  Diversidade e procedência  Das preposições antes de efetivar­me na Praça  1.3 Do compartilhamento de experiências  1.4 Nem toda experiência é construtiva  1.5 Violência e apatia  1.6 Ritos corrosivos  1.7 Skate como elo fundamental  Sentimentos e memórias  Em cima do skate  Tombo direto para o futuro  1.8 Álcool e outras peripécias  1.9 Revolução musical  Fases iniciais para a descoberta do meu próprio estilo  1.10 Treta e outras instituições subversivas  O bar Subúrbio Alternativo, Brás de Pina (subúrbio do Rio de Janeiro)  Comparações imediatas  De volta à Praça do Skate  2 DA PRAÇA DO SKATE PARA FORA  2.1 A construção dos espaços  Bar do Garage, Rua Ceará, Centro RJ  2.2 A subcultura como motor de sentido  2.3 Algumas vias da articulação contracultural  O Movimento Roque Pense  A União Headbanger  2.4 A caminho do fim  CONCLUSÃO  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  ANEXOS  Imagem 1 Foto  Anexo 2 Imagem  Anexo 3 PUNK ROCK DO SUBÚRBIO ­ Banda PÉ SUJUS  Anexo 4: Print UH  Anexo 5 Experiência do dia 31 de dezembro de 2014  Anexo 6: Disposição geográfica do Bar Subúrbio Alternativo  Anexo 7: Disposição geográfica da Praça do Skate de Nova Iguaçu       

(7)

             

“Todas as vezes que se pretende explicar uma coisa humana (...) é preciso        começar por remontar até sua forma mais simples, procurar descobrir os        caráteres pelos quais ela se define nesse período de sua existência, para        depois ver como se desenvolveu e se complicou [...]”. 

Émile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa, 1912. 

 

INTRODUÇÃO 

 

Se nós pudéssemos voltar no tempo, o que seria de nós, no amplo sentido de        ser

​ ? Em um tempo crucial onde todas as experimentações são ludicamente muito       

sérias, a ponto de moldar caráter e os formatos da razão, quem se permitiria à sorte        da subversão? Subverter significa emergir e, ao mesmo tempo, destruir, destituir.        Emergir das profundidades da mansa aceitação, destruir preceitos; destituir        domínios sobre o sujeito. 

Quando Hebdige (1979) evoca ​subcultura

​         , ele suscita a desafiadora tarefa de       

se estabelecer uma nova ordem organizativa, uma estrutura de ideias. Quando        surge uma subcultura, ela vem acompanhada de uma histeria causada pelo       ​“medo e    a fascinação, entre o escândalo e o entretenimento.”

​  (op. cit., p.128). 

Em seguida, teremos a árdua missão de conectar os espaços através da        oposição centro/periferia. Trata­se, pois dos tipos de relações concretas ­ laborais,        de acesso à informação, cultura e lazer, bem como a qualidade dos serviços de        base –, que demandam investimento e fiscalização governamental. 

Mas só essas não bastam. Nossa compreensão precisa dos aspectos        simbólicos, que até seriam abstratos se não fosse por nossa capacidade        interpretativa. A estrutura social carioca, este balão invisível de ideais que rege a       

(8)

vida de todo mundo nessa sociedade, pode ser compreendida pela ótica marxista        como uma ​eterna luta de classes

​           . E as classes estão presentes na cidade de forma       

marcante. 

Os preceitos que movem a cidade ­ o dinheiro, o tempo e o senso do uso        objetivo das coisas e pessoas indistinguivelmente ­ somados a um organismo        sistêmico de massas esquematizado entre quem serve e quem é servido; a        avaliação do contexto local e da posição e disposição social de cada um são        questões fundamentais para o exercício que se segue.                                                 

(9)

   

 

“(...) Encostados nos carros ou de pé. Muitos sentam­se ao longo do pequeno                          muro da praça e outros se agacham diante deles ao risco de serem                          empurrados pelas costas a qualquer momento por pura brincadeira. Quando                    ao sair da Senador Dantas chego à entrada do metrô, já diviso as botas e os                                cabelos arrepiados, uma gestuação e um movimento ostensivos.” (CAIAFA,                  1985, p. 32). 

 

1 A PRAÇA DO SKATE COMO ÓTICA INICIAL 

A Praça do Skate, localizada nas proximidades do centro da cidade de Nova        Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi escolhida para ilustrar a relação entre os        espaços urbanos através da carga de sentidos adquiridos durante a vivência. Nossa        questão se baseia nos formatos peculiares que os relatos de experiência vivida        podem transmitir, respondendo pela identidade e conjuntura sociais nas subculturas        e  demais cenários da interação presentes na cidade. 

Dessa maneira, os relatos de experiência, que também são confissões,        corroboram a construção de uma lógica de pensamento capaz de estruturar as        maneiras de ser que os indivíduos eventualmente atraem para si. Isto porque se        trata do que enche­lhes a vida de sentido, ou a vida na Praça. 

Interessam também as relações que serão formadas com outros espaços, à        medida que interagem, que vão sendo convidados ou seduzidos para outras áreas        do espaço urbano. A descrição da maneira como essas áreas ou cenários serão        percorridos traduz características marcantes para uma evolução (e revolução)        pessoal. O que segue é um relato de juízo íntimo ou contraste ocasional com as        significações implícitas e explícitas da razão de grupo, ou para efeitos de        ordenamento ambiental e social. 

 

(10)

1.1 Da distância percorrida 

 

A Praça do Skate está localizada a dez minutos de distância da Estação        Ferroviária de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense); cinco minutos da Estação        Rodoviária; e quinze minutos de distância do Top Shopping. Isso significa que a        Praça está alocada numa área que privilegia o encontro de gente de várias partes        do município e adjacências. 

Ao mesmo tempo, frequentar a Praça pode ser complicado por conta da        distância de casa e da dificuldade de conseguir um ônibus com o passar de certo        horário. Para alguns bairros do município vizinho de Belford Roxo como Heliópolis,        Areia Branca, Barro Vermelho, já acompanhei muita gente numa caminhada de        vinte minutos ­ que acabava por se tornar meia hora ou mais, por conta das        brincadeiras ou dificuldades mesmo de caminhar de cansaço ou bebedeira. 

Para chegar ao bairro que eu morava naquele tempo, Parque das Palmeiras,        em Nova Iguaçu mesmo, tardava normalmente de quarenta e cinco minutos até uma        hora dentro do transporte coletivo; isso adicionado ao tempo de espera, que era de        mais de meia hora por conta de haver somente uma linha que fizesse o percurso.        Para outros bairros como Palhada, Jardim Roma, Jardim Tropical, Nova Era, que        ficavam na mesma direção, a dificuldade era parecida. 

Em compensação e por outro lado, os esforços medidos para frequentar a        Praça já remetem ao significado que ela passou a ter para todos nós. Quer dizer,        sabíamos que seria difícil voltar para casa, a maioria de nós tinha pai, mãe ou avó        esperando: frequentemente ouvíamos de um e de outro que       ​teria que ir embora        mais cedo hoje

     (sexta­feira em questão)     ​porque a mãe/pai/tio havia trancado o           

portão e o feito “dormir na rua” na semana anterior

​ . 

Na Praça do Skate, grande parte das pessoas se esvaem às dez horas da        noite. Isto é, pouco antes da hora em que os ônibus municipais reduzem a frota.        Assim, mesmo as pessoas que moram mais distantes na cidade chegarão por volta        das onze. Para outros, e muitas vezes para mim também, o percurso de volta para        casa era feito a pé. Então, às 21h30, tentávamos reunir o pessoal que voltaria junto,        porque todos tardávamos muito nos despedindo. 

(11)

Inclusive, esta é outra tipicidade da Praça: todo mundo sempre tinha uma        coisa muito urgente para falar, e geralmente esses assuntos só apareciam no        momento da despedida. Tinha dias que o ambiente da Praça ​estava sem graça

​          

quer dizer, o não estava agitado, ninguém tinha muito o que acrescentar nos        grupos. E, quando acontecia, era de forma generalizada. Então, alguns amigos da        Praça brincavam dizendo que iam começar a fingir que vão embora, para que algo                            acontecesse. 

Eu conheci muitas pessoas de Heliópolis, bairro no limite de Belford Roxo        com Nova Iguaçu. Eles formaram previamente seu grupo de amigos, advindos antes        da Praça de Heliópolis, que também tinha uma rampa de skate. Assim como a        Praça do Skate, a Praça de Heliópolis formava um aglomerado de alternativos que        se destacava. Tratava­se de um         ​point no centro mais urbanizado dos arredores, isto        é, onde tinham lojas e lanchonetes. Estive lá umas duas quintas­feiras e, de fato, se        assemelha um pouco ao ambiente da Praça do Skate. Algumas pessoas que        compunham esse espaço em Heliópolis combinavam de irem juntas, geralmente        caminhando, até a àquela outra Praça em Nova Iguaçu. 

Na direção contrária a Heliópolis, que era para onde eu deveria ir, variava de        acordo com nossa capacidade física para andar. Porque, passado algum tempo, já        não íamos direto para casa, mas ficávamos parando para descansar de vinte em        vinte minutos. Houveram dias em que eu cheguei em casa às três da manhã por        preguiça e exaustão mental. 

Em contrapartida, quem não tem limitações no horário depois da Praça se        encaminha para o Bar do Ananias, que fica de dez a quinze minutos de distância da        Praça, depois da Estação Ferroviária, onde às vezes tem shows. E se não tiver        nenhuma apresentação, a     ​jukebox está lá à disposição dos que tiverem moedas e        paciência de esperar sua música tocar. 

​jukebox do Bar do Ananias é alterada, isto é, não tem somente as músicas        básicas que já vem nas         ​jukeboxes comuns. Nela estão catalogadas raridades, os        discos antigos e o rock e Metal mais sombrio. Discografias completas dos grandes        nomes do   ​Underground internacional, CDs das bandas da cena carioca e paulista.        Inclusive, está salvo o disco único do grupo ​punk

(12)

Tomando conhecimento de outros espaços 

Também, após o horário de maior movimentação na Praça, uns grupos        manifestavam­se publicamente e de forma convidativa, que estariam dirigindo­se ou        ao Garage, na Rua Ceará (que mais a posteriori falaremos sobre), ou à Lapa, no        centro do Rio de Janeiro. Nesse tempo eu ainda não tinha ido tão longe na noite, só        conhecia esses espaços de nome, sabia que existiam. 

Era também na Praça que tomávamos conhecimento de muitos eventos que        aconteceriam tanto nas redondezas como nas áreas mais afastadas: começando        pelo Studio B, no bairro da Posse, o espaço que acontecia em Mesquita (município        adjacente) aos domingos, eventos na Lira de Ouro ou Recreativo Caxiense, em        Duque de Caxias, a Planet Music em Cascadura, que trazia grandes nomes e bons        eventos para a cena ​Underground

​         , a boate/bar HeavyDuty, que assim como o Bar       

do Garage, se localiza na famosa Rua Ceará.  Um outro ​point

​     , este mais ao interior, levava muitos bêbados à Rua do       

Chuchu, em Austin. Na Praça do Skate, muitas pessoas vinham da direção dos        bairros Comendador Soares, Cacuia, Austin e Queimados, e eram principalmente        esses que se dirigiam para lá. 

Todas essas opções de rumo, fui conhecendo ao longo do tempo e não de        uma só vez, como era de costume entre meus colegas. Aquela foi uma fase de        maior inconsequência que agora, mas até hoje ainda me arrisco. Estamos passíveis        dos reflexos da decisão errada e cada qual sofre à sua medida.                 

(13)

1.2 Disposição e ordem 

 

“La estructura interna de toda subcultura se caracteriza por un orden        extremo: cada parte se relaciona orgánicamente con el resto y su        correspondencia sirve al miembro de la subcultura para interpretar el mundo.” 

(HEBDIGE, 1989, p. 138). 

 

Metade do tempo em que eu estive na Praça existia uma figura de        “organizador”, para quem os conflitos eram levados. Era identificado com o        codinome “Aranha”, e se aproveitava da regalia de ser visto pelos adolescentes        como figura de autoridade, recebendo e se apropriando de muitos artigos,        principalmente álcool e cigarros. Algumas vezes ele       ​brincava que era um pedágio,          porque geralmente sentava nos bancos próximos ao portão de trás da Praça, que        dava acesso à​Bowl

      1. E ele contava antes com um gigante de codinome “Soldado”,                     

que dizia ser o seu ​braço

​       , mas logo se formou uma tropa que o seguia, composta       

por adolescentes grandes e inseguros que se acreditavam influentes sobre outros        grupos ali presentes, e dos quais Aranha tinha pouca entrada. 

Eu me recordo claramente dele, quase como uma sequência de fotos,        sentado de pernas cruzadas e meio de lado, um pouco à esquerda do centro do        banco, usando muitas correntes no pescoço e nos braços, apoiado em um cajado        com uma caveira Metalica na ponta e usando um chapéu. Com sua cara de nojo        olhava as movimentações e escutava aquele monte de gente vestida de preto. Às        vezes ao lado, às vezes nas proximidades sempre bebendo muito (a bebida dos        outros, obviamente). 

Eu, já naquela época, achava aquilo tudo muito cômico. A maioria se parecia        de um esforço enorme para afigurar­se em um ​algo mais

​         , inclusive eu. Todos       

estávamos ali vivendo sob o vigiar algoz de todos os outros, fiscalizando a        “poseragem”. Mas esse tipo de verificação não estava a cabo do tal Aranha, era       

1 Trata­se da bacia onde as manobras de skate são desenvolvidas como dentro de uma                           

piscina ou como uma cuia gigante. Nas bordas da ​bowl

​       , além da prática do skate, as pessoas se       

sentam. No canto dela, encostados na parede, fica uma galera que está sempre fumando maconha.        Dali se twm passagem por trás das quadras para chegar ao lado oposto, ao lado da entrada. Na frente        desse pessoal e atravessando a         ​bowl existe um gramado onde tanto os skatistas se aglomeram quanto        se cria uma roda gigante onde conversam e tocam violão, se cantam músicas do alternativo popular        (pop rock e alternativo, do grunge e de um “pop punk”). 

(14)

algo mais das massas. Era uma forma de segregar para se autoafirmar. Porque        você é muito mais ​true se combate os ​posers

        2        3. Era preferível aparentar força e         

influência; era preciso que todos te conhecessem e alguns ali do meu meio se        importavam muito com sua reputação no próprio lugar. 

Recentemente escutei as memórias de um amigo próximo de que eram os        punks que instauravam certas regras, ou que policiavam. O grupo exato que agia        em zelo das “normas” eu não lembro, mas eu recordo bem dos ​mandamentos

​        da 

Praça: não podia quebrar garrafas na       ​bowl nem na outra área de skate ou gramado;        não podia danificar o patrimônio da Praça (árvores, postes de iluminação, grades e        mesas); não podia bater em mulher e nem se aproveitar das bêbadas; briga de gays        e travestis só poderia ser com outros gays e travestis; havia quem gestionassem        acerca dos bêbados problemáticos (aqueles que ficavam agressivos e insultando        aleatoriamente), que eram geralmente “desligados”        4​, a não ser que tivesse algum             

amigo que o levasse embora. E também não podia roubar, a não ser que fosse o        próprio grupo de zelo da Praça que indevidamente se apropriava de certas coisas        de pessoas específicas segundo seu julgamento.  5

Diversidade e procedência 

Na Praça se reúne gente com gostos diversos, que vão interagindo com as        pessoas que já estão ali, se inserindo nos grupos por afinidade ou formando o        próprio grupo. Pessoas também chegam aos pares, um apoiando o outro. Ou então        aparecem como grupos, por exemplo, pessoas que se conheceram na escola e têm        ou não têm gostos similares na música, no esporte, em qualquer forma de lazer e        relacionamento afetuoso. 

É comum que estudantes saídos da escola (tanto por burlar aula como após        horário normal da saída) se encontrem nesse espaço ao ar livre, que tem sombra e        lugar para sentar, jogar, livres para falarem alto, com poucas restrições. Inclusive        nota­se uniforme de escolas não só dos arredores como de longe, sendo eles       

2 Verdadeiro, se diz do que leva como estilo de vida. 

3 Se diz dos falsos, aquele que se monta somente para se inserir nos grupos, propriamente                             

para tirar fotos, mas que não gosta da música e nem leva o estilo para a vida. 

4 Usavam um golpe chamado “       ​mata­leão”, que consiste em interromper o fluxo de oxigênio                 

no cérebro

​ , causando um desmaio. 

5 ​Apropriações indevidas

(15)

estudantes que vinham de ônibus e que, caso fossem da Rede Pública de Ensino,        contariam ainda com a facilidade de não pagarem passagem. Pode ser que        pratiquem algum esporte, que com o contato com a Praça (e pessoas que já        frequentam aquele local) aprendam a andar de skate, que se reúnam para jogarem        bola nas quadras, etc. E até mesmo se encontrem ali para conversar, namorar ou        discutir algum trabalho escolar. 

Talvez seja assim mesmo que a Praça esteja ciclicamente alimentada. Uns        deixam de ir lá pelos vários motivos da vida adulta, das responsabilidades que às        vezes a Praça mesmo ensina ­ digo isso no sentido de comunicar­se e abrir­se aos        conselhos e colocações alheios, recorrente da ação na Praça. Assim como eles se        vão, outros se achegam. E fazem isso por ver aquela movimentação, ou então pela        introdução feita por outras pessoas. Gente que vai de dia, que se reúne com        colegas em qualquer dia da semana pode acabar conversando com quem está        sempre na Praça e serem indicadas do espaço que ocorre na sexta­feira à noite. 

Das preposições antes de efetivar­me na Praça 

Particularmente, notei a Praça quando tinha treze anos. Já tinha percebido        que se tratava de gente diferente e certo dia, enquanto passávamos meu pai e eu,        ele, que trabalha ali próximo, percebeu que eu olhava muito e me alertou que ali        acontecia muitos assaltos e que era muito perigoso. Mas eu não sabia do que se        tratava aquele local, não tinha ideia que se reuniam à noite nem mesmo que haviam        tantos skatistas; só percebia que era muito diferente do que eu conhecia da cidade.  No ano seguinte minha prima, que estudava na mesma escola que eu, me        chamou para ir com ela encontrar o namorado depois da aula. Andamos muito,        desde quase o outro lado da parte central da cidade, eu não aguentava mais        quando enfim chegamos. Primeira vez que eu realmente pisava naquele lugar. Não        ficamos nem meia hora, o namorado esquisito não deu bola para ela, estava        jogando baralho com um outro cara mais esquisito ainda. Era por volta de meio dia        e meia. Eu pensei o porquê de um cara daquela idade (aparentava uns 28 a 30        anos) estar no meio do dia sem fazer nada, no centro de Nova Iguaçu, de chinelo        surrado e bermuda de       ​tactel e cara de maluco. Estranhei também que minha prima6       

(16)

tenha se referido a ele como “namorado”, ele naquela idade; não reparei nos olhos        vermelhíssimos, apesar dela ter comentado enquanto saíamos, eu não entendi        nada. Dias depois ela me falou que a mãe dele gostava dela, chamava ela de nora e        dizendo que ele tinha diminuído o uso da maconha por causa dela. 

Eu não tinha entendido nada da história da relação da minha prima, mas        levanta questões sobre a forma com que eu fui apresentada à Praça. Primeiro que        era perigoso, que eu não deveria ir; segundo, que havia gente que não fazia nada,        que só ficava lá o dia inteiro; terceiro, o maconheiro. E junto com isso, todas as        indagações que ficavam na minha cabeça. Eu passei a reparar mais no local, meu        ônibus passava em frente quando voltava para casa, eu passava aqueles seis        segundos em que o ônibus descia o viaduto e fazia a curva encarando o tal lugar.        Eu passei a planejar o lado do ônibus que eu ia sentar.  

Fiquei nesse “chove não molha” durante muito tempo até passar a levar        minha melhor amiga no ponto do ônibus dela, que era mais próximo à Praça do        Skate. Em diante, passamos esperar justamente no ponto de costas para a Praça.        Ela e eu reparamos que naquele horário de meio­dia e meia ficavam muitos        estudantes e adolescentes aleatórios. Então nos sentamos nos bancos para        conversar e passamos a ficar ali mesmo. E quando íamos para o Top Shopping,        passávamos por ali para dar uma conferida. Minha amiga ficou sabendo que        conhecidos da internet iam ali de vez em quando, passamos ir vez ou outra, muito        timidamente. 

Atividade maior eu tive na faixa dos quinze aos dezoito anos. Meu dia era        cheio, com intervalos que permitiam vagar pela cidade. Saía de casa para a escola        às 06h. Na escola das 07h até 12h. Das 12 às 14h eu não fazia nada, às vezes        almoçava com meu pai, mas geralmente fazia um lanche. Das 14h20 às 16h30 eu        estava no curso de idiomas. Dali, até as 19h30 eu não teria o que fazer, mas        também não poderia ir para casa pois não daria tempo de chegar ao pré­vestibular à        noite. Na escola, muitas vezes saía mais cedo: mais tempo à toa no centro de Nova        Iguaçu. 

Nessa época eu andei muito, fiquei muito à toa. Andava que nem uma louca.        Passei a refletir sobre a vida, as coisas, reparar nas gentes… E comecei a achar        que eu vivia na rua, passei a falar para as pessoas que eu ia para casa só para       

(17)

dormir. Nessa idade a gente não regula bem com quem fala, mas eu aprendi a        discernir e confiar na minha intuição e sensação sobre as coisas, lugares e pessoas.        E aí, quando eu cansava de andar e quando me irritava todo o barulho, a agitação e        a fumaça, eu atravessava o viaduto e sentava na Praça. 

Tinha também a Casa de Cultura Sylvio Monteiro, de frente com a estação        ferroviária, onde eu passava o tempo entre exposições; se houvesse sorte assistia a        alguma mostra de filmes independentes ou ensaios teatrais. Ou voltava para a        escola, ou chegava mais cedo nos cursos; às vezes conversava com as pessoas.        Senti uma conexão com a cidade que era como se eu fosse tudo aquilo, que eu        fizesse parte e sentia como se tudo ali me pertencesse. Ao mesmo tempo, fui        ficando mais calada e observadora. Por vezes creio que eu tenha sido bastante        introspectiva, mas haviam explosões em que eu desatava em interações. 

Esse era o sentimento enquanto passei a lidar com a liberdade de não        justificar o meu tempo, de quando pude chegar em casa na hora que fosse, o que        permitiu estar na Praça até a hora que       ​ela se põe. Esse tempo eu não passava          inteiramente ali, mas fazia sondas, percebi rotinas. 

Percebi os dias que tinha encontro de skatistas, às quintas­feiras à tarde.        Inclusive fui convidada para o churrasco que eles promoviam nesse dia, só pela        presença mesmo. E quando você vai em um, gente que está ali vão te chamando        para outros. As pessoas começam a conversar contigo porque você está ali, te        convidam a participar. Foram os skatistas que avisaram das noites da sexta, do        movimentado que era. Ao tomarem conhecimento das minhas preferências musicais       

, reafirmaram que seria do meu gosto, que eu deveria conhecer. 

7

Então, essa Praça é dos skatistas, sobretudo. Mas também da equipe de        voleibol que treinava quase todos os dias, dos vagabundos, dos estudantes, dos        adultos que se reuniam para jogar bola, e isso até então8​

 

7 Relatado no item ​Revolução musical. 

8   A Praça do Skate passou por uma revitalização que antecede minha participação naquele                       

lugar. A revitalização é gerada também da reocupação do espaço, amplificado por meio do Orkontro        (encontro das pessoas que se conheceram pela rede social Orkut), que antes acontecia na Praça        Santos Dumon, ao lado do Parque de Diversões, também em Nova Iguaçu. O tipo de sociabilidade que        hoje a Praça do Skate conta já existia nessa outra há muitos anos. 

(18)

1.3 Do compartilhamento de experiências 

Cada um tinha da Praça aquilo que foi ali procurar. Havia, para alguns, um        código de sigilo. Inclusive em algumas vezes escutei, e até mesmo proferi, que “o        que acontece na Praça, fica na Praça”. Penso que seria um pouco como Las Vegas,        o sentido que os filmes passam sobre Las Vegas: faríamos as besteiras que        tivermos que fazer para nos sentir vivos; nos comunicaríamos com poucas        descrições (abandonando a timidez que em qualquer outra parte da cidade        provavelmente assumiríamos) e depois, iríamos embora sem levar nada além de        histórias e umas ressacas bravas. 

Mas na Praça surgiram amores, filhos e amadurecimentos; surgiram também,        para alguns, alguns tipos de libertação, como aconteciam com muitos homossexuais        ou simpatizantes que se assumiram para a sociedade e para si mesmos.        Discutíamos com frequência temas profundos, sobre a vida, o universo, as        dificuldades em casa. Então, proporcionou sim um apoio de desconhecidos que        passaram a se conhecer, e amadurecimentos que a gente passou a ter. Também a        libertação da idade, onde os velhos      ​desembestaram a serem de novo          “malucos­beleza”9​, lidando com os mais jovens e aspirando deles um pouco da                       

loucura e inconsequência ao mesmo tempo que conversavam com eles e os faziam        pensar em assumir responsabilidades em casa e na própria vida, de perceberem        melhor suas escolhas. 

Tínhamos algumas “tias” que faziam isso. Algumas passaram a ir a certos        rolés e voltaram aos shows e eventos comuns da sua juventude; outras disseram        que nunca deixaram de ir, mas passamos a interagir melhor com elas (e a        repará­las) nesses espaços alheios à Praça. 

Algumas tias da Praça, a gente nunca esquece. A gente pode não lembrar o        nome, às vezes nem saber o nome, mas chamar de tia, outros chamar pelo nome,        chamar de amiga… Tem uma em específico que é saudosa em minha memória        agora mesmo que eu não recordo mesmo o apelido; mas ela foi fundamental para        eu me ver no futuro, um ícone, um exemplo. Na Praça, a vimos passar por divórcio,       

(19)

por câncer, por diversos problemas na família, e ela vinha e contava para a gente, e        a gente comentava e era solidário a ela. Em troca, tínhamos dela o zelo e o carinho        de amigos e filhos. 

Ela aparentava ter cinquenta anos, bem jovial, mas sabíamos que ela era        mais velha que isso. Usava muitos brincos,       ​piercings e tinha um estilo que beirava o        gótico. Tinha algumas tatuagens bem antigas e falava das bandas, curtia os shows        até tarde da noite, ia para os rolés de ônibus mesmo, junto com um monte de        gente… Era incrível. Às vezes a vejo quando passo nas proximidades da Praça, ou        em alguns lugares do centro. Nos falamos; ela não lembra meu nome e nem eu o        dela. Mas creio que ambas nos recordamos, nós nos cumprimentamos,        perguntamos umas coisas e outras, e de quando vamos aparecer de novo na Praça        e nos despedimos. 

1.4 Nem toda experiência é construtiva 

Como eu disse, cada um tinha da Praça aquilo que foi ali procurar. O lugar        era muito misto e certos tipos de experiências nem sempre eram das melhores.        Como quando umas conhecidas da escola me abordaram, quase felizes em me ver        quando antes pouco nos falamos, na praça, local que eu já frequentava        assiduamente e nunca as havia visto lá, para perguntar se eu sabia quem vendia        drogas (abertamente disseram da maconha, da cocaína, ecstasy e LSD). Fiquei        profundamente ofendida, dei as costas e fui embora. Outra hora, uma amiga        próxima que conheci na escola perguntou se eu sabia quem tinha maconha e se eu        sabia “apertar”. Só respondi que não. E isso tínhamos eu quinze, ela dezesseis para        dezessete anos. 

Não querendo ser moralista, mas percebendo a gravidade que era tais        práticas para gente tão nova: ali muitos de nós iam mesmo para beber e para fumar        em paz. Para transgredir ao mesmo tempo longe e tão na cara dos nossos        responsáveis, para rebelar e sentir ódio.. É nisso que há quem diga       ​“eramos todos    uns emos

10”. 

10 ​Emo é um estilo dentro do Rock ou do Metal, que tende para o estilo musical melódico ou                                   

screamo*

​ . Tem um visual próprio que as vezes é tristemente confundido com o gótico e se exprime de       

(20)

1.5 Violência e apatia 

A Praça também foi palco de muito desentendimento. Gente que levava        problemas de outros lugares e acabava discutindo ali, gente que propriamente        marcava de “resolver”, gente que bebia e ficava esquisito, e outros, creio que nisto        há maior gravidade, que iam para lá com o intuito de arrumar a confusão. 

Isso porque o que se espera de uma praça é que seja um ambiente não        propriamente harmônico, mas ao menos simpático. Ou seja, as pessoas que se        dispõem a frequentar um espaço no específico dia em que se ambienta desta        maneira afetiva, interativa, descontraída. A conduta antipática de grupos que vão ao        local buscando atrito não favorece a proposta que a Praça está envolta, podendo        inclusive acabar com as relações dali. 

E de fato isso aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Pessoas passaram a        evitar a Praça durante um tempo por conta desses grupos ​terroristas

​       , por assim     

dizer, já que não podiam ali ter a paz e a extroversão como de antes. Gangues ou        pessoas que produzem o ódio e a violência quebram o ciclo extrovertido que a        Praça está acostumada; interrompe toda uma sociabilidade. 

 

1.6 Ritos corrosivos 

Nos três anos que frequentei assiduamente a Praça, também passei por        momentos, eu e meu grupo, de afastamento da Praça por conta de um problema        que afetada toda a atmosfera do local. Teve uma época que a onda era mexer com        energias, com magia. O goticismo e pseudo­goticismo ganharam adeptos em peso        na Praça. Magos, bruxas, feiticeiras “surgiram”; quer dizer, muita gente interessada        começou a estudar, se filiou a algum​mestre

​       . E logo se criaram clãs e outros grupos       

que se uniam e rivalizavam de acordo com um tal jogo mágico. Então era divertido,        tudo tinha muito sentido, todos eram muito sensíveis. Parecia muito real, mas        também como um jogo, uma brincadeira. Depois ficou estranho, ficou ruim; tudo era        muito pesado, percebemos que não sabíamos com o que e quem estávamos       

cuja música é nervosa e forte, quase raivosa, com vocal que se altera entre melódico e berrante        (gritos). ​Screamo

(21)

lidando. Agora eu noto que era pra mim essa brincadeira, mas na época era muito        real. Daí eu me afastei e fiquei sabendo que muitos se afastaram. 

A Praça era o espaço mor onde esses tipos de interação aconteciam.        Existiam os Lycans, Malkavians e um outro tipo de       ​vampiro rebelde que não admitia          grandes clãs e se associava com quem convivesse em cada situação. 

Antes desses três, haviam já os Wiccanos, mas não se fechavam em um        grupo exclusivo, diferente daqueles. Wiccas eram surgidos, segundo alguns adeptos        com quem mantive contato, do olhar naturalista e do preceito do coexistir        harmoniosamente. Destes, nunca vi um deles se dispondo a ensinar a alguém, com        a comum justificativa do “não sou capaz” ou do “não me habilito”. 

Os outros eram de um espírito mais rebelde mesmo, um pouco da adrenalina        e de conquistar o poder, ser perigoso. Nessa época, essa era uma palavra bem        recorrente: ​poder, e ​administrar potências

​         . Vejo esse período como de uma       

sociabilidade esdrúxula, causada pela minha mágoa pessoal. 

Esse foi um período marcante para a Praça. Surgiam brigas ao aleatório com        um tal motivo de       ​roubo de energias e alguns boatos de morte. É do meu saber que          o grupo dos Lycans, formado majoritariamente por rapazes e liderado por homens,        subia a Serra do Vulcão de Nova Iguaçu, para prática e treinamentos rituais e de        resistência. 

O outro grupo, onde estavam aliciadas muitas meninas, provavelmente        seduzidas pelo estilo e pela constante promessa de que eram       ​especiais e que      tinham muita energia vital

      . Tive muitas conhecidas aliciadas por esses degenerados,       

elas geralmente muito novas e eles, uns charlatões. 

Na verdade, eu fiquei sabendo de somente dois mestres​vampiros

​       , talvez um     

terceiro. Já os adeptos, se espalharam como epidemia pela Praça. Dos Lycan eu sei        que sua abordagem era mais conectada com o corpo, com o mundo físico. Assim,        demonstravam menos perigo em relação aos abalos psicológicos deixados pelo        outro grupo. 

Isso porque na verdade, o mestre       ​vampiro era só um outro aprendiz de        alguém. Lia e estudava muito, mas não tinha domínio sobre o que estava lidando. E,        ao que parece, eles precisavam praticar com a mente de alguém. 

(22)

1.7 Skate como elo fundamental 

A Praça em si só é surgida da vontade do skate. É dizer, na década de 1970,        ali era um espaço aberto e vazio, em que a vontade de uns loucos que aprenderam        o que eram as manobras de skate nas suas viagens de estudo no exterior,        ensinaram aos amigos. Antes disso eles tinham o carrinho de rolimã. E isso através        do contato com a Zona Sul e com a Barra. Era lá onde provavelmente as        informações chegariam primeiro. 

Então esses iguaçuanos planejaram uma pista de skate como as que viam        nas revistas. Fizeram todos os planos de como a Praça deveria ser, com o foco em        uma bowl

   que seria a maior do mundo depois de construída; sendo que no mesmo       

ano que a Praça de Nova Iguaçu ficara pronta (1976), a Califórnia (EUA) inauguraria        a sua poucos meses antes. A Praça passaria ao posto de maior da América Latina      11 . 

 

“A primeira pista de skate da América Latina mudou o comportamento de uma geração inteira        de jovens, aproximou a Zona Norte e a Zona Sul da Baixada Fluminense e revelou as primeiras        lendas do esporte no Brasil.” (Codinome:TITÃO, no site OSkate.com.br, no dia 08 de julho de        2014). 

 

 

Esta Praça recebeu e recebe diversos campeonatos. Definitivamente, os        skatistas, quase como classe, não estão dispostos a deixar a Praça do Skate        morrer. 

Para a pré­estreia do documentário, foi­nos enviado um ônibus para a Praça,        que nos levaria todos para o SESC de Nova Iguaçu. Por conta de o ônibus ter      12        tardado tanto para chegar, muitos foram de skate mesmo, porque não é tão longe.        Chegando lá, o SESC tinha disponibilizado sua quadra para skatistas de todas as        idades fazerem umas brincadeiras com manobras arriscadas, e improvisado umas        rampas móveis e uns obstáculos. 

Inclusive me lembro de terem dado a todos vários adesivos dos        patrocinadores e, no meio deles, ao menos para mim veio um adesivo do Short       

11 O documentário de média­metragem ​Praça do Skate

​           , de Paulo China, contém valiosas       

informações e relatos de como foi o impactante para uma geração inteira. 

12 SESC: “Serviço Social do Comércio”, lugar que funciona como um clube e fornecem diversos                           

(23)

Thrash (banda de Crossover carioca) que tenho até hoje. A composição visual tinha        me agradado muito mas eu nem sabia que se tratava de uma banda. Até que um        dia me vi em um show cuja grupo musical levava um cartaz gigante atrás do        baterista que eu imediatamente associei ao adesivo que eu tinha guardado. 

Nesse dia, tinha muita gente de meia idade andando de skate, ao lado de        uma família grande. Porque o documentário e a Praça em si tocam fundo na vida e        na humanidade dessas pessoas. Está cheia de emoções e memórias. 

Sentimentos e memórias 

Lembro­me, por exemplo, de um dos dias de semana que eu estava à toa na        Praça e surgiu uma mulher loira de uns trinta anos perguntando de um tal       ​fulano  que eu não conhecia. Disse que ele era skatista, e na época que estava por aqui ele        praticamente morava na Praça. A mulher descreveu ele e pediu para avisar e entrar        em contato com os skatistas mais antigos da Praça para pedir para dizê­lo que a        Carla (creio que era esse o nome dela) tinha passado perguntando por ele. 

Sim, foi surreal: uma mulher que eu nunca vi pedindo para dar um recado        para um   ​cara que eu não conheço. Ela me disse que frequentava a Praça quando        tinha quinze anos, mas que tinha sido levada para morar em São Paulo e que agora        ela estava de volta. Parecia estar emocionada em estar ali. Não sei se ela me disse        que era estranho estar ali de novo e que tinha vontade de saber como ele, que fora        um grande amigo, estava ou se essa parte eu fantasiei depois que ela foi embora.  

Passei um tempo encucada com isso até chegarem uns amigos. Contei para        uns skatistas que apareceram minutos depois sobre a tal mulher e se conhecia o        rapaz que ela procurava para que eu desse o recado, mas eles não pareceram se        importar e disseram que ​provavelmente se tratava de alguma maluca 

​ (sic). 

Talvez os filmes de drama romântico tenham corrompido meu cérebro, mas        não acho que ela era      ​só uma maluca. É possível que as pessoas queiram          reencontrar antigos amigos que marcaram sua vida, ou que a vida tenha        interrompido algo que poderia ter sido para a vida toda.  

Assim como ela, hoje, eu também penso assim. Quando entro na Praça        depois de anos afastada, depois de tudo que venho passando, de ter conhecido        outros lugares, andado um pouco pelo mundo, eu me reconecto de alguma forma       

(24)

com ela. Porque me vêm à cabeça todos os aprendizados e lições boas e ruins que        eu tive naquele lugar. Não tem como não lembrar de cada um dos grupos que eu        me inseri, e de pensar que eles também foram para outros lugares e por vias        diferentes da minha. 

Ter vivido a Praça foi, para mim, um divisor de águas que faz perceber o        quão adulta estou agora. Penso que talvez isso tenha acontecido com a suposta        Carla, ou seja lá qual for o nome dela. 

Ver aqueles senhores grisalhos em cima de um skate no SESC faz pensar        em todos sentimentos que não teriam emergido, eles no meio daquela galera jovem,        seus filhos e netos também skatistas. No documentário, alguns expressaram essa        emoção de recordar, de rever pessoas com quem compartilharam valiosos        momentos da juventude. E nessa pré­estreia, eles também estavam presentes:        primeiro na Praça, depois a caminho do SESC. 

Em cima do skate 

Nesse tempo eu já tinha me visto sobre um skate. Eu já tinha adquirido o meu        próprio, muito bom, de segunda mão. Era de um​playboy

​        morador da Barra    ​, primo   

da minha amiga do curso de inglês, que me disse ter montado com as melhores        peças e que tinha tentado andar algumas vezes, mas desistiu por conta dos tombos. 

E eu nessa época não tinha medo de nada. Não pensei duas vezes e pedi        dinheiro adiantado ao meu pai. Nessa época eu trabalhava com ele e ganhava        quinze reais por meio período dia de semana e trinta para trabalhar aos sábados.        Eu tinha cem reais guardados e com mais duzentos e cinquenta adiantados eu        peguei o skate na mesma semana. 

Meados de 2009 e eu saía da Passarela Caracol, onde agora meu pai e eu        trabalhávamos, às seis horas da tarde nos dias de segunda, quarta e sexta (terça e        quinta eu tinha curso) para ir para a Praça, que ficava a oito minutos de distância. A        partir daí o trabalho com meu pai se tornou muito difícil, porque eu não queria mais        estar lá. Terminar de pagar o skate foi uma tortura, mas terminei e enfim estava livre        de novo. 

Eu me entendia muito independente, aprendendo a descer na bacia só do        que tinha observado dos outros. Eu já havia tido um daqueles horríveis skates retos       

(25)

e quadrados, dos que se vendem nas Lojas Americanas, que chorei para ganhar de        aniversário aos doze anos. Então sabia equilibrar­me e locomover­me, fazer curvas,        descer pequenas ladeiras: as coisas mais básicas. Mas estar em uma bacia era        algo inédito e emocionante. 

No meio do dia era melhor, porque a Praça estava quase vazia; se podia cair        com a tranquilidade de não ter passado vergonha. Agora às seis horas aquilo ali        estava lotado… todos os dias. Tinha muito skatista! E eu ficava era no canto, ora na        pista reta, ora na ​bowl

​         , onde tivesse menos gente. Eu não queria ser questionada       

de estar com o skate no canto ao invés de andar, para que não percebessem que        eu não sabia andar direito. Quando uma das pistas esvaziava, eu me levantava e        brincava de abaixar com o skate em movimento, com equilibrar­me apenas nas        rodinhas de trás, fazer ziguezague, descer a pequena rampa. 

Uma dia me distrai tanto brincando que não percebi um grupo de quatro        rapazes skatistas. Foi quando comecei a ser ensinada, partindo do mais simples.        Não é que tenha passado a ser comum que acontecesse de alguém se dispôr a dar        dicas, mas vez ou outra alguma boa alma aparecia. Também é muito do se permitir,        porque a timidez atrapalha. Meus dias oscilavam entre mais extrovertida e aberta, a        mais tímida e retraída. 

Tombo direto para o futuro 

Dezessete anos: agora eu já pagava passagem. Eu tinha me mudado para        um bairro mais próximo ao centro de Nova Iguaçu, onde se tinha mais acesso para        os ônibus. Isso porque, primeiro o antigo lugar que eu morava era perigosíssimo,        segundo pela hora que eu provavelmente retornaria da faculdade, seria muito        complicado chegar em casa. 

Nesse tempo eu já estudava na Universidade Federal Fluminense. Para        chegar na Praça. eu não poderia dar­me o luxo de pagar passagem, então eu ia de        skate. Quando eu digo que eu passei a morar mais próximo do centro, não significa        dizer “ao lado”. Desde a parte mais distante de Comendador Soares, eu        atravessava os bairros Canaã e Ouro Verde, que me davam acesso à extrema parte       

(26)

da Via Light. Nisso eram quarenta minutos “remando” no skate. Antes disso, nos      13        tempos de férias, o percurso era parecido. 

Era muito do chão e muito do sol sobre minha cabeça. Hoje eu não poderia e        nem suportaria mais fazer uma coisa dessas. Esse esforço insano que eu fazia me        rendeu um bom problema no joelho direito, que geralmente me lembra que existe        quando refaço os movimentos de impulso no skate. Por outro lado, apesar de ser        sempre magérrima, me rendeu uns músculos em áreas estratégicas que me        deixavam muito orgulhosa. 

Das coisas que me afetaram, além dos tombos e torções comuns que me        faziam por vezes pedir carona nos ônibus para ir embora; teve uma vez que eu mais        meu grande amigo nos dirigíamos nosso bairro em comum até o município vizinho,        Mesquita, que anualmente faz uma grande festa em comemoração ao Dia Mundial        do Rock. Nesse dia não chegamos lá porque me acidentei no bairro Caonze, no        centro de Nova Iguaçu. 

Íamos até lá brincando muito. Demos uma parada na Praça do Skate, onde        também tinha festa, cumprimentamos alguns colegas e seguimos. Quinze a vinte        minutos a frente, pelo caminho que decidimos fazer, que era o que tinha menor        movimentação de carros, haviam duas ladeiras, que tinham aspecto de bacia (bowl). 

No topo da primeira, pensamos duas vezes se íamos; eu fui e então ele foi.        Um sucesso! Já no topo da segunda, por conta do reflexo da descida da primeira,        cheguei nem na metade. Não medimos que essa era quase o tripo da anterior e        muito mais íngreme. Vi o skate do Bruno bambalear na minha frente, ele abaixando        e equilibrando os pés lado a lado para cortar esse efeito, me bateu o nervosismo e        senti os pés virarem pela alta velocidade. Fui vendo só o Bruno descendo de lado,        em câmara lenta. Daí eu já estava no chão. 

Ele conta que olhou para trás quando parou de ouvir o barulho do meu skate.        Enquanto caia, vi de soslaia um carro passando, justo no momento que eu caía. O        motorista deve ter rido muito, porque eu caí muito feio. Diz que eu fiquei uns trinta        segundos sem responder, de olho aberto. Eu bati a cabeça muito forte no meio­fio,        me ralei toda porque saí arrastando para baixo depois de bater no chão. 

13 Termo utilizado para referir­se ao ato de locomover­se no skate, impulsionado por um dos                           

(27)

Eu tinha uns dois reais no bolso, e sinceramente não lembro como cheguei        no Hospital Geral da Posse (também Nova Iguaçu). Acredito que pedimos carona.        Muitas coisas desse dia eu me esqueci completamente, apesar de aparentar lucidez        e ter saído do local do acidente caminhando. 

Meu skate estava inteiro, mas eu tinha machucado a cabeça e fraturado a        clavícula. Ficamos lá até as três da matina, e era por volta das cindo da tarde        quando chegamos. Para ir para casa, nós fomos de skate mesmo até o Top        Shopping, e de lá um motorista muito gente boa nos deu uma carona. 

 

1.8 Álcool e outras peripécias 

Esta foi a última grande aventura em cima de um skate. As outras vezes que        caí não tinham tanta emoção e nem significavam grandes coisas. Uma coisa que        convém o interesse é que enquanto ​remamos

​        no skate na beira da pista, existem       

algumas complicações que são: areia e pedras que se acumulam nos cantos da        pista e as pessoas dos carros que nos xingam para que saiamos da via apesar de        essa ser a única forma de nos locomovermos de skate (não se pode antar de skate        na calçada e tampouco existem ciclovias para os lados que nos dirigimos). Creio        que por maldade, há quem buzine ao nosso lado enquanto estamos a toda        velocidade, para que nos assustemos e caiamos. 

Também, por andar de skate, aprendi onde arrumar água de graça na cidade.        Os mercados e postos de gasolina que disponibilizavam um bebedouro. E que é        mais fácil conseguir carona quando se está com o skate debaixo do braço. Diversas        vezes enquanto voltava do Rock que acontece em Mesquita, os ônibus das        empresas Nossa Senhora da Penha e Nilopolitana até mesmo ofereciam a porta de        trás do ônibus sem que pedíssemos, ao nos ver caminhando cansados (e bêbados). 

Passei a frequentar Mesquita porque o skate me facilitava ir da Praça do        Skate para a Praça de Mesquita. Também um outro amigo passou a frequentar mais        a Praça quando arrumou um skate. Era seu meio de transporte até lá. Vários outros        skatistas da Praça o usam com mesma finalidade. Conheci outro rapaz que        trabalhava em uma loja de bicicletas ali no centro, e que ia para a Praça depois do       

(28)

trabalho e, dado certo horário, para a casa de skate mesmo. Ele me disse morar na        Posse, o que é bastante longe para um percurso que se tem de fazer todos os dias.  Do antigo bairro que eu morava, também saiam muitas pessoas em skate até        a Praça, e era longe demais! Mais de uma hora, sem dúvidas. Nas sextas­feiras, era        normal que fossemos todos caminhando, os que iam para a mesma direção, porque        se usava o dinheiro de passagem para inteirar na compra da sangria. 

A sangria era a bebida usual, porque era de baixo custo, alto teor alcoólico e        vinha em cinco litros. Embebedava até quem não tinha colaborado com a compra.        Em um grupo de cinco a oito pessoas, se cada um desse um ou dois reais,        tranquilamente se comprava um galão de Cantina da Serra. Também acontecia de        pessoas aleatórias e conhecidos de Praça virem pedir qualquer valor para colaborar        na compra de qualquer tipo de álcool. E todos davam, porque, no fim, a bebida era        socializada. 

Parecia uma festa: uns grupos tinham uma caixa de som portátil ou um        celular com músicas, só para pano de fundo nas conversas; outros se reuniam em        torno de um dos vários violões sendo tocados espalhados pela Praça; e havia um        rodízio constante de gente nos grupos, ampla movimentação da Praça inteira.        Sempre se deslocavam para fazer sondas a gente interessante, fofocas, assuntos        diferentes e até mesmo em busca das discussões e brigas que se formavam de        repente. 

Além da sangria, também existia a mistura de baixa qualidade, muito comum        na Praça e na frente das escolas, se chama “tomba”. A tomba é a mistura de        refrigerante com Caninha da Roça, que custava de dois a três reais. Então, além de        não aparentar o conteúdo alcoólico dentro da roda de amigos que se formava,        porque colocavam a aguardente dentro do refrigerante, era muitíssimo econômico. 

Com o passar do tempo, e como era de se esperar, alguns de nós        começaram a trabalhar, o que fez com que a qualidade da cachaça nos grupos        começassem a evoluir. Isso de tal modo que se formou um problema. Porque,        enquanto todos estão bebendo os mesmos tipos de bebida barata, não temos        problemas:  ​“todos são iguais perante o álcool”          14​. Mas logo que apareceram as           

14 Frase de efeito dentro de um grupo que eu partilhava, de fortes tendências agnósticas e                             

(29)

primeiras garrafas de bebidas mais caras, que também eram usadas com a        finalidade de agregar ​status

​       , uma zona de desconforto pode ter se formado. Big       

Apple, Johnny Walker, e até mesmo as Jack Daniels foram aparecendo, e fizeram o        gosto da tomba amargar ainda mais. 

E atrito estava formado porque elitizava certos grupos em torno do álcool.        Eles se segregaram porque relutavam e até negavam com todas as letras e        desamizades o compartilhamento do seu ​drink real

​         . Nisto, a Praça cria aspecto de       

estar zoneada. Limites que antes já existiam um pouco, aí se intensificam. Existe        receio da repreensão e do embaraço dos olhares pouco amistosos. 

Novas classes se formam até que almas generosas cortem o ciclo da apatia.        Precisou que se liberassem duas caixas de cervejas Heineken quentes quase        vencidas, arranjadas por um colega de grupo que trabalhava no estoque de uma        rede atacadista. Outra vez, foram dois galões de cinco litros da mesma cerveja,        pelos menos motivos. Dois galões de sangria liberados pela boa vontade de um        amigo próximo. São formas que fizeram gerar nossos ciclos de gentileza e bonança        alcoólica que reintegrariam um pouco os grupo e as gentes. 

 

1.9 Revolução musical 

Na Praça em peso, creio que a maioria de nós passamos por renovações no        comportamento, e por vezes esse comportamento está associado ao estilo musical.        Nos dez anos que se passaram desde a definição de um estilo próprio e particular,        não poderia eu, no desabrochar identitário, permanecer em conceito e em espírito        na mesma vertente. 

O Rock e o Metal é um tipo de música que permite e até incentiva seus        desdobramentos, por meio da combinação, por conta de seu espírito subversivo.        Trata­se da tendência em romper com o socialmente aceito, com o adequado e com        o ordinário. 

A combinação de elementos de culturas diversas, os ritmos e as percepções        geram uma inovação da musica que é delirante. E isso dentro do Rock e do Metal é        surpreendente e, definitivamente, agrega valor. De forma análoga com que Hebdige        (1979) descreve, a evolução do reggae jamaicano dentro da Grã Bretanha, e de       

(30)

como a combinação dos elementos do rock fizeram surgir os mods, o ska, até        chegar no punk. 

Na Praça, os círculos musicais existiam, e qualquer um poderia sentar­se na        roda e participar da cantoria. Havia quem levasse violões e percussão e abriam para        as músicas do rock popular, criando novas batidas, colocando um pouco da sua        própria vivência; algo descontraído formava com naturalidade. 

A própria banda iguaçuana que toca Punk Rock já citada, Genômades,        construiu muitas de suas músicas nessas rodas que aconteciam ali, no meio da        praça. Também espaço foi aberto para conhecer músicos de estilo semelhante, com        possibilidade de serem criados novos projetos.    “Você me diz que era um sonho, mas os sonhos são reais  Você me mata de vontade, na verdade não é mais  E me traz os pensamentos que eu já nem uso mais  E quase me tira o firmamento de vida eterna e de paz    O Sol também é  Vazio e sem forma  O som também é  Vazio e sem forma”  (Banda Genômades ­ Hagliés)      De outra forma, a revolução ocorre do conhecimento, do teste de        possibilidades. A roda de música também é momento propício para novas        introduções aos estilos, artistas, às formas de entendimento e interpretação. 

E toda a Praça assim se faz: da interação, da troca, das dicas. E dentro        dessas dicas, existia um outro fator que era o de parecer saber mais, de conhecer        mais as bandas, para durante a conversa poder ser o que sabe mais. Então existe        uma ânsia, uma corrida para estar a par dos estilos, das datas dos álbuns e de cada        formação de banda. 

Esse estudo que é feito sobre o seu próprio estilo, o que dizia ter, acaba        desviando e abrindo para novas vertentes. Passa­se a conhecer bandas que        conversem com o antigo estilo e com o novo estilo que vai passando a gostar. A        partir daí, novos caminhos vão sendo traçados, e talvez novas sociabilidades. As        afluências do estilo mais básico, daquele que se ouvia na rádio, levam cada um de        nós a um novo patamar. 

(31)

Fases iniciais para a descoberta do meu próprio estilo 

“Como cabría esperar, por lo tanto, las transgresiones de las normas                      consensuadas que se emplean para organizar y experimentar el mundo                    tienen una considerable capacidad de provocar e inquietar.” (HEBDIGE,                  1979, p. 127). 

 

Eu nasci no rock com tendências do Grunge e New Metal. Com doze para        treze anos assumi o estilo, herdado do meu pai. Aos quatorze em diante, foi meu        momento de brilhar, sustentando uma combinação de Black Death Metal. Minha        experiência pessoal passou do mais leve, apropriado e caseiro (nem tão apropriado        e caseiro assim), arriscando direto para o Metal Extremo. 

Aos quinze anos (ano de 2010), tive meu primeiro contato com o Punk Rock,        isso dentro da Escola Pública, em uma aula de Sociologia. A banda era a paulista        Cólera, e a música, intitulada “Deixem a terra em paz!”, do álbum de mesmo nome        lançado em 2004. Foi usada como complemento no estudo de consciência        ambiental. Para mim, aquilo foi realmente impactante. Achei sensacional! Estava        chocada porque não esperava um som como aquele, não imaginava alguém        fazendo música para retratar os problemas sociais mais profundos e periféricos, e        tudo isso em português. Me senti contemplada por tal conjunto de letra, ritmo, fúria;        suscitou­me uma potência que eu só sabia que queria para mim. 

Embrenhei­me em estudos, queria tudo a respeito e comecei a perceber que        o estilo proposto se aplicava um pouco à vida que eu levava: não em termos        estéticos mas filosóficos. Não que isso não tenha acabado por refletir­se na imagem        que eu recriei de mim, mas eu acreditei (e acredito) mesmo na anarquia. 

Eu, aos quinze e dezesseis anos, me via a mais       ​punk de todas: desimpedida,        perdida e encontrada, toda de uma subjetividade que não cabia em mim e de uma        rebeldia que só minha mãe pode contar. 

Eu gostava da simplicidade que era ser, de uma liberdade tamanha que não        cabia dentro de mim. Eu brincava com os sentidos das coisas; fazia parte da        transgressão brincar com a capacidade reflexiva das pessoas. Eu gostei de ser        sozinha, eu com os meus botões, a vagar pela cidade com tudo o que eu podia        levar de mais essencial na minha mochila: kit de higiene, uma muda de roupas, um       

(32)

caderno e um livro, um pano para sentar no chão, água, cerca de vinte reais da        emergência escondidos e costurados na mochila e biscoito. Tudo isso porque eu        sempre pensava que tinha o necessário para fugir, ir para bem longe, viver de        liberdade. 

Naquele tempo, minha ideia de liberdade contava com um plano de        segurança. Vinte reais era o dinheiro exato para chegar em Angra dos Reis, na casa        da tia favorita, e de fazer um lanche na pastelaria de frente com o ponto de ônibus        em Conceição de Jacareí. 

Não é que eu fosse realmente, mas era por saber que se eu quisesse, eu        poderia. Agora percebo que provavelmente se tratava de uma brincadeira de testar        limites, e isso me dava muita coragem. Foi nisto que conheci a cidade inteira. e foi        com esta lógica que eu me enfiei em um ônibus que me levou até a Central do        Brasil, só por ir. Eu não precisava pagar passagem por conta da gratuidade escolar,        mas precisava desesperadamente conhecer o mundo, descobrir até onde poderia ir.        Demorei um pouco, mas posteriormente fui a Madureira, Caxias e Japeri. De novo,        só por ir. 

De volta ao mundo real, as situações vão me ensinar que a vida em grupo do        punk pode ser bem ingloriosa. As desilusões aconteceriam muito depois, eu como        pesquisadora, confrontada por uma estupidez. E desgostei. 

Essa vivência não me afastaria do Death Metal (e nem do Grunge), e talvez        bem pouco do Black. Nesse meio tempo, aprendi a combinar os estilos. E nem foi        difícil, porque as bandas parecem ter passado por isso também, já que me dariam        suas músicas já combinadas! Por exemplo a Napalm Death, até hoje icônica para        mim, com as letras do punk e os tons do Death; a banda Doom, que é punk com        estilo puxado para o Black; a Ratos de Porão, que fez entender que o Hard Core é        um punk com Metal.  

 

 

Referências

Documentos relacionados

• Premium 100 +Turbonet Mega Maxx com as velocidades de 3Mb, 5Mb, 10Mb, ou 20Mb nas cidades disponíveis do serviço Turbonet Mega Maxx.. • Economix 800 + Turbonet Power com

A partir da junção da proposta teórica de Frank Esser (ESSER apud ZIPSER, 2002) e Christiane Nord (1991), passamos, então, a considerar o texto jornalístico como

O caso de gestão estudado discutiu as dificuldades de implementação do Projeto Ensino Médio com Mediação Tecnológica (EMMT) nas escolas jurisdicionadas à Coordenadoria

Mais que a manufatura, que tem a possibilidade de estocar seus produtos para se ajustar aos períodos de flutuação da demanda, o estabelecimento hoteleiro sofre constantemente

Por fim, na terceira parte, o artigo se propõe a apresentar uma perspectiva para o ensino de agroecologia, com aporte no marco teórico e epistemológico da abordagem

No município de Nova Iguaçu, há diferentes atrações dentro dessa realidade, a exemplo Centro de Ecoturismo de Tinguá e o Parque Municipal de Nova Iguaçu,

Esta publicação é um guia para o processo de admissão ao Mestrado em Ciências de Segurança e Defesa Interamericana do Colégio Interamericano de Defesa (CID)1. Este documento

Tenista desafiado Tenista desafiado Data limite Data do jogo 1 Data do jogo 2 Vencedor/resultado Dia Mês Horário Dia MêsHorário. ROQUE