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As questões de gênero na educação infantil: o ato de brincar

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA

JACKELINE BARBOZA AYRES AFFONSO

AS QUESTÕES DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Niterói 2019

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JACKELIINE BARBOZA AYRES AFFONSO

AS QUESTÕES DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: O ATO DE BRINCAR

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Licenciatura em Pedagogia, como requisito parcial para conclusão do curso.

Orientadora:

Prof.a Dra. Alessandra Frota Martinez de Schueler

Niterói 2019

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JACKELINE BARBOZA AYRES AFFONSO

GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Licenciatura em Pedagogia, como requisito parcial para conclusão do curso.

Niterói 2019

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A todas as mulheres que lutaram subvertendo o machismo e me possibilitaram chegar aqui. A todas as crianças que se tornarão seres humanos mais livres e independentes.

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente, agradeço a Deus por me manter até aqui, me abençoar com o dom da vida e me permitir a realização do sonho de me formar.

A minha família, por apostar e acreditar em mim quando nem eu acreditava.

Aos meus pais, por tudo o que me proporcionaram, por toda dedicação e por me fazerem acreditar na educação. Sem vocês, nada disso seria possível.

À Thamires Duarte, por tanto. São tantas palavras que não caberiam aqui, mas obrigada por ter acreditado em minha pesquisa, por viver comigo os momentos de angústias e por crer em meu potencial.

As minhas amigas Thaís Aires e Ariane Machado, por nunca me deixarem cair e por terem sido vitais para minha formação, lembrando o quanto é importante a amizade sincera nos dias atuais.

À Alessandra Schueler, minha orientadora, pelo suporte e pelo compartilhamento de bibliografias e conhecimento, me ajudando no processo de construção da pesquisa com um tema tão importante e rico a ser discutido.

À Creche Comunitária Anália Franco, por tantos e tantos anos de parceria e por abrir as portas para que mais um trabalho fosse realizado dentro de suas dependências com tanta presteza e cordialidade.

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Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.

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RESUMO

O trabalho busca analisar a importância do papel dos educadores na construção do gênero — como os professores podem influenciar os alunos em relação à questão apresentada, como seus valores podem invisibilizar a temática na educação infantil e como as questões sexistas são reforçadas nos espaços escolares, produzindo uma sociedade patriarcal e opressora para as mulheres. Além disso, objetiva-se quebrar o estigma entre gênero e sexualidade com as infinitas possibilidades que são criadas pelo ato de brincar e a importância da literatura e contação de histórias, onde a criança pode ser o que quiser preservando o seu direito à liberdade e criatividade. A constatação é que o tema em questão é pouco trabalhado, atualmente, ainda mais na educação infantil. O presente trabalho tem o intuito de instigar o questionamento acerca do tema, para que seja possível o debate e reflexão sobre o assunto, percebendo que pode-se ressignificar os conceitos, muito constantemente equivocados e preconceituosos, para que não seja fomentada a segregação dentro dos espaços escolares. É necessário desmistificar a questão de gênero, de forma contemplativa aos alunos, responsáveis, professores e os demais, para que não ocorra habitualmente o equívoco de relacionar gênero à sexualidade, pois, não é possível pensar as variantes biológicas como as responsáveis para a construção de personalidades. Considera-se, aqui, também, toda a história da luta feminina, importante para a libertação das amarras de uma sociedade extremamente conservadora. Espera-se motivar uma sociedade capaz de reconhecer seu “eu” com toda importância do seu papel sem se sobrepor ou diminuir uns aos outros, de maneira que isso aconteça desde os anos iniciais de vida da criança.

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ABSTRACT

The research paper analyzes the educator’s importance in the construction of gender - how teachers can influence students in relation to publishing publications, as the values that can make the subject of early childhood invisible and as sexist and reinforced issues in school, producing a patriarchal and oppressive society for women. In addition, the aim is to break the stigma between gender and sexuality with infinite possibilities that can cause the act of playing and the importance of literature and storytelling, where the child can be the one who wants to preserve or save his or her right for freedom and creativity. The finding is that the theme in question is not worked as it should be, currently, even more in early childhood education. The present work intends to instigate or question about the subject, so that it is possible to debate and reflect on the subject, realizing that it can resignify the concepts, very misguided and prejudiced, so as not to promote segregation within school spaces. It is necessary to demystify a gender issue in a contemplative way for students, parents, teachers and others who do not habitually occur or misunderstand the relationship of gender with sexuality, because it is not possible to think of biological variants as those used for the construction of personalities. Consider here, too, the whole history of women's struggle, important for freeing the bonds and stereotypes of an extremely conservative society. The exectation is to motivate a society capable of recognizing it self with all the importance of its unimportant role or diminishing or diminishing others so that it can happen from the earliest years of the child's life.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CLT Consolidação das Leis do Trabalho CNDM Conselho Nacional dos Direito da Mulher

DEAM Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher

DOI-CODI Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna

ESP Escola sem Partido

EUA Estados Unidos da América

FHC Fernando Henrique Cardoso

GREI Grupos de Referência da Educação Infantil IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

LGBTQIA+ Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero e mais

MEC Ministério da Educação

MFA Movimento Feminino pela Anistia

NASA National Aeronautics and Space Administration

OMS Organização Mundial da Saúde

ONU Organização das Nações Unidas

PAISM Programa de Atenção Integrada à Saúde da Mulher PCdoB Partido Comunista do Brasil

PCN Parâmetros Curriculares Nacionais

PDT Partido Democrático Trabalhista

PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio PSDB Partido da Social Democracia do Brasileira

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 12

2 METODOLOGIA ... 15

3 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA ... 17

3.1 Gênero x Sexualidade ... 17

3.2 Movimento feminista e o debate de gênero ... 19

3.3 A luta do feminismo na Política atual – Presidentes Ultraconservadores ... 22

3.4 O feminismo e a Desigualdade ... 25

3.5 A interferência da Política brasileira atual na escola ... 26

4 O PAPEL DA MULHER NA EDUCAÇÃO ... 29

4.1 História ... 29

4.2 A mulher docente ... 31

5 GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL ... 32

5.1 A importância do ato de brincar... 35

5.2 Educação como libertação ... 37

5.3 A literatura ... 40

5.4 As revolucionárias: Histórias de mulheres ousadas para o seu tempo... 42

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 46

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1 INTRODUÇÃO

As questões de gênero na educação infantil vêm sendo abordadas de forma mais intensiva atualmente. Isto acontece quando a sociedade começa a entender a diferença entre gênero e sexualidade. A dificuldade na construção do sentido de gênero é devido à subjetividade do ser humano. Não é tão simples, embora seja aceito por grande parte da sociedade, a condição imposta socialmente de “mulher heterossexual” e “homem heterossexual”.

O gênero começou a ser debatido nos movimentos feministas (1980). Segundo a historiadora Joan Scott (1996), “as feministas começaram a utilizar a palavra ‘gênero’ mais seriamente, no sentido mais literal, como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos”. A ditadura militar (1964) durou cerca de 20 anos no Brasil. Ao fim, em 1985, começaram a se intensificar os movimentos das mulheres brasileiras. A mulher já estava se inserindo no mercado de trabalho, se preocupava e sentia a necessidade da inclusão na temática política, além da questão familiar, pois a maioria conciliava o trabalho com a vida doméstica, com isso, houve uma grande mobilização para abertura de vagas em creches.

Como estudante de pedagogia e tendo atuado em diversas escolas durante a graduação, entendo a necessidade da abordagem desse tema e pretendo analisar a forma como isso afeta diretamente a formação do educando. Na educação infantil, a qual pude observar por mais tempo, percebi a carência de uma atenção ao aluno, por parte da instituição de ensino, cuja identidade de gênero foge da socialmente aceita. Meu olhar crítico começou após a cadeira “Atividades Culturais: Gênero e sexualidade” na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Acredito que a ampliação desse tema dentro da Universidade proporciona uma formação de professores mais robusta e preparada para lidar com o assunto da forma correta, com o objetivo de auxiliar o aluno com as suas questões pessoais e ideológicas, e não de pressioná-lo ou de limitar as suas possibilidades por meio do método silenciador ― a saber, conservador e tradicional. Nos séculos passados, essa estratégia já não funcionava, em pleno século XXI, funcionará ainda menos. A comprovação desse fracasso é a forma inadequada com que a temática é abordada em sala de aula e a vinculação social, que considera gênero e sexualidade como sinônimos.

O curso de pedagogia tem, em suas disciplinas, o poder de impactar o olhar “frio” e “cru” sobre o conceito de educar, além da vasta noção de conhecimentos, pluralidade e

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diversidade cultural. Essa ampliação da noção de mundo me mostra a urgência de transportar o debate para a sala de aula. Na educação infantil, a criança, com toda a sua inocência e absorção dos conhecimentos iniciais ― que são marcantes para toda a vida, pode ter a capacidade de compreender que é normal ser da forma que sente, que se vê e que é. Infelizmente, a prática é suprimida pela teoria. O sistema educacional brasileiro, em sua maioria, possui instituições fortes e bem definidas. Os pais, considerando que existem exceções, buscam um local em que seus filhos possam ter um ensino “forte”, ou seja, que possam ter inseridos “na veia” todos os conhecimentos possíveis, a fim de ingressarem na Universidade pública.

Questões de gênero não são consideradas tão relevantes e devem ser reprimidas, a fim de não atrapalharem o caminho para o vestibular. No entanto, o tema emerge com força nos anos de 2017 e 2018, nos quais o debate de gênero foi à TV e aos jornais pelos debates políticos, sendo um dos temas propulsores pelos advogados do Escola sem Partido (ESP) e da luta pela defesa da família tradicional. Hoje, temos uma votação apertada entre os adeptos da ideia e os opositores do projeto de lei Escola Sem Partido. Com isso, nota-se que, em breve, o tema de gênero poderá ser ainda mais excluído da comunidade escolar.

Outro ponto importante e que está sendo bem difundido no dialeto social é o termo Ideologia de Gênero. Um termo equivocado que ganhou espaço nas eleições de 2018, criando na mente conservadora brasileira um monstro que poderia destruir o futuro das crianças. Essa ideia ganhou força e traz à tona a mentalidade conservadora. A “Ideologia de gênero”, além de ser um termo equivocado, se tornou a bandeira de quem prega a teoria da doutrinação em sala de aula.

Gênero é um conceito incorporado na vida do ser humano, porém é tratado como tabu, embora devesse ser visto com naturalidade e simplicidade, que precisa ser colocada em pauta, inclusive dentro da própria Universidade, espaço de debate e democracia. Contudo, considero a quantidade de horas a que se destina o tratamento desse tema bastante insuficiente, o que reflete na falta de conhecimento de educadores quando se deparam com tais questões na prática, fora do espaço universitário.

Baseando-nos nisso, vemos como as questões de gênero e sexualidade são demarcadas tão negativamente que destituímos a legitimidade, confiança, admiração e credibilidade de uma pessoa somente porque, em determinado momento de sua vida, deixou de se reconhecer como homem ou mulher (definido por seu sexo de nascimento), se identificando, então, com um novo gênero. Essa transição deixa de ter um cunho pessoal e passa a ser a definição do fracasso social. De uma pessoa sendo posta à prova por uma

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sociedade majoritariamente preconceituosa. O que resulta em graves e frequentes casos de homofobia, outros tipos de preconceitos e violência contra pessoas LGBTQIA+.

Além do desafio, dentro do espaço acadêmico, de introduzir esse tema no quadro de disciplinas, é fundamental que a escola seja um ambiente aberto para o debate e acolhimento das demandas dos seus alunos. É um desafio, para os anos que se aproximam, trazer essa temática para o espaço escolar com a finalidade de apontar um caminho de compreensão da criança.

A educação que abrange o tema de gênero deve ser democrática e instrumento de transformação das práticas escolares equivocadas que tendem a acusar e estereotipar o aluno. O desafio é pôr em prática um novo projeto pedagógico, cujo andamento será acompanhado, que abra as salas de aula para o debate com a família. Se as escolas e as universidades não estiverem dispostas a ampliar esse tema e tratá-lo, a educação infantil, que refletirá nas próximas séries educacionais, será reprimida por expressões vazias de qualquer entendimento lúcido sobre o assunto de gênero.

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2 METODOLOGIA

Esta pesquisa foi feita a partir da análise bibliográfica descritiva de artigos e livros sobre gênero, brincadeira, feminismo e o papel da escola. Objetivou-se mostrar como esses elementos se mesclam e, futuramente, podem se tornar um problema na construção da sociedade, defende a hipótese sobre a importância de debater essas demandas a fim de diminuir a perpetuação das desigualdades de gênero. Além disso, a pesquisa discute a escola como espaço formador integral de seus alunos, desenvolvendo sua capacidade de construção de conhecimentos próprios através de mecanismos menos formais.

Assim sendo, esta pesquisa se faz necessária para discutir formas alternativas de aprendizagem e construção de diversos conceitos que, muitas vezes, a escola aniquila por não fazerem parte dos conceitos básicos para uma determinada faixa etária. Sendo trabalhado somente os métodos mais tecnicistas e conteudistas. Torna-se necessário um estudo amplo em busca desse conhecimento por meio de estudos científicos e pesquisas em livros, dissertações, artigos, sites e revistas.

Para embasamento teórico, foram utilizados autores como Vygotsky, Silva, Louro, Oliveira, Rojas, entre outros. Estes defendem que o ato de brincar dentro das escolas contribui para a fundamentação das discussões sexistas e de gênero na educação infantil. Quanto à pesquisa, Cervo e Bervian explicitam: “A pesquisa bibliográfica procura explicar um problema a partir de referências teóricas publicadas em documentos, buscando conhecer e analisar as contribuições culturais ou científicas do passado existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema” (CERVO; BERVIAN, 2002, p. 65). Ainda conforme Cervo e Bervian (2007), a pesquisa descritiva acontece quando “se registra, analisa e correlaciona fatos fenômenos sem manipulá-los”. Com a análise de dados bibliográficos e a pesquisa fundamentada teoricamente é possível atingir reflexões sobre as dificuldades de um determinado assunto.

Neste trabalho, será utilizada a pesquisa qualitativa e etnográfica, a fim de fundamentar a base teórica do estudo de gênero em questão. Irei descrever as observações e propostas elaboradas dentro da sala de aula numa Creche Comunitária objetivando a avaliação comportamental dos alunos e professores. Como instrumento de pesquisa, foram utilizadas a observação e as atividades realizadas com os alunos da GREI 4 — Grupos de Referência da Educação Infantil.

A pesquisa qualitativa com abordagem baseada nas questões de gênero é composta por referenciais bibliográficos e da vivência na escola, constituindo-se, assim, a pesquisa de

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campo. A participação da autora observando e trazendo para a produção científica conhecimentos adquiridos por meio da experiência vivida ao longo do projeto da Residência Pedagógica traz ao trabalho de Monografia a pesquisa qualitativa com dados científicos observados da realidade de crianças em situação de vulnerabilidade, lidando com questões de gênero na educação infantil.

Esta monografia tem como objetivo principal evidenciar as questões de gênero na educação infantil, contextualizadas nas brincadeiras e na literatura. O objetivo secundário do trabalho é mostrar a luta histórica da mulher como papel fundamental da construção da educação e da igualdade social e estrutural.

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3 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA 3.1 Gênero x Sexualidade

Antes de levar o tema para a educação em sala de aula, é necessário segregar os conceitos de gênero e sexualidade. A fim de prejudicar a abordagem de gênero com as crianças, muitos fizeram a ligação entre os dois conceitos, como se um não existisse sem o outro. A identificação e reconhecimento de gênero não resultam em uma condição de homossexualidade. O gênero é biologia e sexualidade é construção social.

A sexualidade, segundo a OMS [1], é

uma energia que nos motiva para encontrar amor, contato, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental.

Por outro lado, também segundo a OMS [2], o gênero

refere-se aos conceitos sociais de funções, comportamentos, atividades e atributos que cada sociedade considera apropriados para homens e mulheres. As diferentes funções e comportamentos podem gerar desigualdades de gênero, isto é, diferenças entre homens e mulheres que sistematicamente favorecem um dos dois grupos.

Para Foucault, a sexualidade é o termo utilizado para uma série de crenças, comportamentos, relações e identidades construídas socialmente e modeladas historicamente que se relacionam com “o corpo e seus prazeres”. Em virtude disso, não se pode reprimir o conceito de sexualidade ao conceito natural do ser humano por causa variedade de fatores que o influenciam.

O gênero não é relativo à orientação sexual ou ao desejo sexual. O estigma pragmático social de padronização da relação de gênero é responsável pela criação da dependência psicológica do não poder ser e sentir-se como realmente é, condicionando-nos a uma falha, caso haja erro de identidade. Com isso, a união dos dois termos tomou força ao longo dos anos, e a separação deles vem sendo feita com o debate mais aberto de gênero, feminismo e sexualidade.

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Além disso, o gênero engloba, também, o debate de como o homem e a mulher (transexual1 ou não) se estabelecem nas relações de poder presentes na sociedade, seja no trabalho, nas funções domésticas, em conversas, nas escolas (através de brincadeiras e discursos), entre muitas outras situações, que são fundamentadas na alocução de que as mulheres são inferiores ou menos capacitadas do que os homens — o que reforça a ideia de que essas questões são vinculadas às condições biológicas.

“A palavra “gênero” começa a ser utilizada nos anos 80 do século XX, pelas feministas americanas e inglesas, para explicar a desigualdade entre homens e mulheres concretizada em discriminação e opressão das mulheres. ” (CASTILHO, 2008)

Como resultado dessa construção social, em que gênero e sexualidade caminham lado a lado, temos uma sociedade extremamente preocupada com a orientação sexual da criança, que torna necessária a atenção a todos os movimentos, brinquedos, modo de falar etc., para que em nenhuma hipótese seja fomentado o comportamento “duvidoso”. Este tipo de “cuidado” deixa cada vez mais evidente a falta de conhecimento sobre o tema e a confusão de conceitos (sexualidade e gênero). Com isso, muitas escolas e professores recriminam as atividades e brincadeiras, fragmentando-as em coisas “de meninas” e “de meninos”. Isto faz com que a essência de um ambiente plural e que desenvolve seus alunos a partir de suas experiências se perca, deixando de considerar tudo o que envolve esse processo como significativo e importante para a aprendizagem dos educandos.

Desde seus inícios, a instituição escolar exerceu uma ação distintiva. Ela se incumbiu de separar os sujeitos — tornando aqueles que nela entravam distintos dos outros, os que a ela não tinham acesso. Ela dividiu também, internamente, os que lá estavam, através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento, hierarquização. (LOURO, 1997, p. 57)

Quando a escola se reafirma como um espaço de exclusão, deixa de provocar e despertar em seus alunos o melhor que podem ser, tolhendo das crianças o direito de se tornarem cidadãos críticos, porque ficam pautados pelo aprisionamento das questões de gênero masculino e feminino e da sexualidade, que está sendo cada vez mais anulada. A falta dessa discussão no espaço escolar prejudica um determinado grupo de pessoas que são

1 Segundo a definição adotada pela Conferência Nacional LGBT de 2008, transexual é a pessoa que, por se

sentir pertencente a outro gênero, pode manifestar o desejo de fazer uma cirurgia no seu corpo para mudar de sexo, o que não acontece com as travestis. Muitas travestis modificam seus corpos com ajuda de hormônios, terapias, implantes de silicone e cirurgia plásticas, mas ainda desejam manter o órgão sexual de origem.

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podadas, violentadas (pelo discurso e/ou pela força física) e que não são aceitas. Por outro lado, a escola também é capaz de formar sujeitos intolerantes, que estranham e abominam tudo o que não lhes foi apresentado, simplesmente porque não faz parte do seu universo social. Isto ocorre como uma espécie de etnocentrismo2, capaz de segregar as pessoas e fomentar a discriminação, que tem o caráter de preconceito.

3.2 Movimento feminista e o debate de gênero

Buscando, agora, o contexto histórico e social do debate de gênero, os holofotes são para o movimento feminista. No ocidente, ele teve início entre o século XIX e XX. De acordo com Alves (2013), o movimento feminista pode ser dividido em três momentos: o movimento sufragista foi o foco da primeira tendência. Essa fase era a do feminismo “bem comportado” e sinalizava seu caráter conservador, visto que não colocava em pauta a opressão da mulher. A segunda tendência foi o feminismo “mal comportado”, composto por mulheres intelectuais, operárias e de posicionamento político anarquista, que abordava temas como educação, dominação masculina, sexualidade e divórcio. O terceiro momento é o expresso pelo partido comunista e pelo movimento anarquista, considerado o “menos comportado”.

Ainda segundo Alves (2013), após a publicação da obra O Segundo Sexo, de Simone de Beauvior, em 1949, e o lançamento da mística feminina de Betty Fridman, em 1963, no qual retoma as ideias de Simone e delata a opressão da mulher na sociedade Industrial, as novas ideias do feminismo se expandem pelo mundo, iniciando os movimentos sociais feministas. Um marco desse movimento foi o reconhecimento da ONU, que nomeou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher.

Com a voz feminina nos movimentos ecoando no mundo através da luta, o conceito de gênero começou a ser discutido, tendo sido o protagonista no debate dos papéis sociais e a relação entre a expressão feminino/masculino, evidenciando como a subjetividade do ser é limitada.

Nessa época, o Brasil passava pela ditadura militar (1964–1985). De acordo com Alves (2013),

2 O termo etnocentrismo é formado pela justaposição da palavra de origem grega “etinos”, que significa

nação, tribo ou pessoas que vivem juntas, e “centrismo”, que indica o centro. [...] esta prática prende-se com o facto de acharmos que a nossa étnica e as perspectivas práticas culturais são superiores aos comportamentos de outros grupos (RIBEIRO, 2012).

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O primeiro grupo de mulheres feministas, depois de Simone Beauvoir, surgiu em São Paulo, no ano de 1972. De forma compassada, os temas relacionados ao feminismo passaram a fazer parte dos eventos e fóruns nacionais, como ocorreu na reunião da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), em Belo Horizonte, no ano de 1975. Vale ressaltar que o segundo momento do feminismo, mais comumente chamado de “segunda onda”, estava inserido no período da ditadura.

Além dos movimentos sociais de estudantes e grupos políticos da esquerda, a luta era pela redemocratização do país e pela liberdade de expressão.

Segundo Woitowicz,

para além destes impasses e dificuldades que acompanharam o processo de fortalecimento do feminismo, é preciso reconhecer a atuação de diversos grupos na luta pela superação das desigualdades entre homens e mulheres, que garantiram a legitimidade do movimento. Neste sentido, os anos 1970 registram uma série de conquistas relacionadas à participação das mulheres no meio social e ao comprometimento com as reivindicações e causas feministas.

Nesse contexto, ocorreram reuniões com pauta feminista no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em virtude disso, foram criados Centros voltados para mulheres ― no Rio de Janeiro, o Centro da Mulher Brasileira, que encerrou as atividades no ano de 2000, e, em São Paulo, o Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira. A partir daí, começam a surgir os movimentos locais com espaço de debate e apoio a mulher, como congressos, clubes, eventos e palestras. A pauta principal é o papel social da mulher, que não atende mais (ou nunca atendeu) aos desejos e projetos femininos. O ingresso na Universidade, no mercado de trabalho e na política, a liberdade sexual, a violência doméstica e sexual e o aborto trouxeram ao movimento feminista a questão do gênero, implicando na necessidade de debate do tema. Isto incomodou e continua incomodando até hoje o lado conservador da sociedade brasileira e o machismo, tão naturalizado no dia a dia, já que há muitas mulheres que não aceitam mais o rótulo de fragilidade relacionado ao feminino.

Com a luta pela igualdade de gênero em todos os âmbitos sociais, a mulher começa a ingressar em espaços, até então, pertencentes em toda a sua fisiologia aos homens. A seguir, a linha do tempo dos acontecimentos mais marcantes da luta pela igualdade de gênero em todos os seus âmbitos:

1975: Surge o Movimento Feminino pela Anistia (MFA), que tinha como missão a redemocratização do país.

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1976: Acontece a Convenção Contra Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e Eunice Michilles torna-se a primeira mulher a assumir o cargo de senadora no Brasil. 1980: Pela luta contra a violência doméstica, é realizado o Encontro Feminista de Valinhos em São Paulo.

1981: Cai o veto à prática do futebol feminino no Brasil.

1982: Criação do Alerta Feminista, o movimento de mulheres que elabora uma plataforma feminista submetida aos candidatos nas eleições diretas para os governos estaduais.

1983: Criação, em São Paulo e em Minas Gerais, dos primeiros conselhos estaduais da condição feminina, para traçar políticas públicas para as mulheres. O Ministério da Saúde brasileiro cria o PAISM — Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher.

1985: Criação da primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (DEAM), em São Paulo, e, rapidamente, várias outras são implantadas em outros estados brasileiros. A Câmara dos Deputados aprova o Projeto de Lei n.º 7353, criando o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

1987: Criado o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro — CEDIM/RJ, a partir da reivindicação dos movimentos de mulheres.

1988: É instituída, no Rio Grande do Sul, a primeira Delegacia para a Mulher. Outras se seguiram.

1990: Júnia Marise é a primeira mulher eleita para o cargo de senadora, pelo PDT (MG). 1993: Realiza-se a Conferência de Direitos Humanos de Viena. Na pauta desse encontro, constam o repúdio e a condenação veemente a todas as formas de violência contra as mulheres.

1994: Na cidade do Cairo, no Egito, ocorre a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento. As mulheres participaram ativamente, marcando sua presença em reivindicações nos documentos finais.

1994: É aprovada a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, conhecida como a Convenção de Belém do Pará.

1995: Empossado, o Presidente da República Fernando Henrique Cardoso reativa o CNDM ― Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, vinculado ao Ministério da Justiça, que novamente é esvaziado em estrutura e status nos anos de 97 e 98. Em 1999, começa uma reestruturação resultante de pressões do movimento feminista.

1996: As mulheres se organizam em todo o país e, por meio do movimento Mulher Sem Medo do Poder, aumenta-se o número de vereadoras e prefeitas em todo o território nacional. O Congresso Nacional inclui o sistema de cotas na Legislação Eleitoral,

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obrigando os partidos políticos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres em suas chapas proporcionais (Lei n.º 9.100/95 : § 3.º, art. 11). A Lei 9504/97 eleva esse percentual para 30%,

1998: A senadora Benedita da Silva torna-se a primeira mulher a presidir a sessão do Congresso Nacional.

2000: Ellen Gracie Northfleet, nascida no Rio Grande do Sul, é eleita a primeira mulher ministra do Supremo Tribunal Federal.

2011: Dilma Rousseff é eleita a primeira presidente do Brasil.

2015: Primavera Feminista: protestos contra um projeto de lei que complicaria o acesso à pílula abortiva em caso de estupro.

A história mostra o movimento crescente e as inúmeras conquistas que vêm fortalecendo o feminino na luta de igualdade de gênero. O papel da mulher no mercado de trabalho traz a possibilidade de um novo modelo econômico, promovendo, inclusive, questionamento e reflexão a respeito do modelo cada vez mais desigual entre os ricos e os pobres. Se a mulher tivesse sido inserida há mais tempo no mercado de trabalho, talvez essa pirâmide social fosse invertida. A presença da mulher participando ativamente como mão de obra poderia ter mudado essa forma de economia que não inclui o pobre e a mulher, um método feito majoritariamente por homens que visa à acumulação de capital.

3.3 A luta do feminismo na Política atual – Presidentes Ultraconservadores

Recentemente, o termo feminismo tem sido um dos mais buscado da internet. Isso se dá pelo apelo das redes sociais, filmes/séries e representantes de Estado ultraconservadores. Um destaque para o filme “Mulher-Maravilha”, que foi um dos campeões de bilheteria de 2017. O filme foi o primeiro a trazer um filme-solo com uma heroína. Além disso, o longa-metragem faz questão de evidenciar sem frases ou ações clichês a representatividade feminina.

No âmbito político, a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos levou a Marcha das Mulheres para as ruas. No dia da sua posse como 45° Presidente dos EUA, mais de 3 milhões de mulheres foram às ruas levantar a bandeira contra a agenda ultraconservadora, misógina e autoritária do Presidente. Ele, durante a campanha, desrespeitou jornalistas mulheres, teve casos de assédio explorados pela mídia, declarações machistas e passou o recado que a igualdade de gênero não faria parte da sua agenda conservadora. O movimento nos EUA foi além da igualdade de gênero, abrangeu

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também as questões raciais, étnicas e o movimento LGBT. A mobilização ocorreu pela necessidade de estarem unidos num momento em que era constante a ameaça à segurança e saúde dos grupos citados anteriormente. O movimento feminista incluiu na luta estrelas de Hollywood e trouxe à tona escândalos de assédio sexual no mundo do entretenimento.

No Brasil, o ano do Movimento feminista foi 2018. Após o Impeachment da Presidenta Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores, o até então vice, Michel Temer, assumiu a presidência da República. A ex-presidenta, durante seu mandato, sofreu inúmeros insultos pelo seu gênero. Durante um aumento da gasolina nos postos de distribuição, era fácil encontrar adesivos com a presidenta com as pernas abertas no local dos carros em que é inserido o bico da bomba. Em 2014, durante a Abertura da Copa do Mundo, a presidenta foi xingada das mais diversas formas. Nunca antes na história do Brasil isso tinha acontecido. Quando o Lula ou o FHC apareciam em um evento público, eles eram vaiados e parava por aí. A economista dedicada à questão de gênero, Hildete Pereira de Melo, em entrevista ao jornal O Globo, em 2014, deu a seguinte declaração:

Essa ação está ligada aos valores patriarcais da nossa sociedade. A ideia de que para mulher se pode dizer tudo está por trás do xingamento. Na abertura dos Jogos Pan-Americanos, houve uma vaia. Mas o Lula foi apenas vaiado, não foi xingado, e era um público similar ao que estava ontem no Itaquerão.

Ana Thurler, na mesma entrevista, acrescenta: “Deu para ter uma percepção de quão machista o Brasil ainda é. Não foi feita uma pesquisa de gênero, mas acredito que 3/4 da torcida deveriam ser homens, homens adultos. Não eram meninos e nem adolescentes, eram adultos que acabaram dando um péssimo exemplo”.

Durante a votação do seu Impeachment, o atual Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, discursou enaltecendo o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de repressão da ditadura. Ustra era conhecido, também, por ser o líder das torturas nesse período. Jair disse que o Coronel era “o pavor de Dilma Rousseff”. Além dessa, Dilma foi agredida verbalmente muitas outras vezes. Até mesmo pelo seu jeito sério e rígido ao falar e trabalhar, sua sexualidade foi colocada em pauta em diversas ocasiões.

O ex-presidente Michel Temer, em uma declaração sobre sua esposa, ao assumir o poder, definiu-a em três palavras: “bela, recatada e do lar”. Isto trouxe uma avalanche de comentários e uma infinita criação de memes (ferramenta utilizada na internet com o intuito

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de “viralizar” uma informação utilizando o viés cômico). Ressalta-se que o machismo é impregnado pela ala conservadora política.

A corrida presidencial de 2018 trouxe às ruas do Brasil centenas de milhares de mulheres. O movimento começou com a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro à presidência da República. O ex-deputado é muito conhecido pelas frases e entrevistas em que expõe sua opinião sobre mulheres, negros e homossexuais. Em alguns trechos de seus discursos, Jair defende a tortura que ocorreu na ditadura militar e chega a dar uma declaração dizendo que o Brasil só tomaria o rumo certo através de uma Guerra Civil, fazendo o trabalho que a ditadura militar não terminou, matando umas 30 mil pessoas.

Além dessa declaração, ele é conhecido por pronunciar discursos homofóbicos e protagonizar, junto à deputada federal Maria do Rosário, uma grande discussão. Após o ocorrido, ele virou réu por apologia ao crime e injúria no STF (Supremo Tribunal Federal). Nessa discussão, o ex-deputado diz que não vai estuprar Maria do Rosário porque ela não merece, já que, para ele, ela é feia e não faz seu tipo. Em virtude dos fatos mencionados, as mulheres se uniram nas redes sociais criando o movimento “Mulheres contra Bolsonaro”, que, posteriormente, tornou-se um grande grupo no Facebook. O estopim para essa união de mulheres foi quando o candidato à presidência, durante um evento, disse ao público (completamente masculino) que teve quatro filhos homens, na quinta ele deu uma “fraquejada” e veio mulher.

O grupo supracitado reunia mais de dois milhões de mulheres de todo país que tinham como objetivo mostrar ao candidato a força e a unidade femininas. Os movimentos ocorreram em mais de 65 cidades do país, dando destaque ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Entre esses movimentos, surgiu o “Ele Não”. Para grande parte das mulheres, a eleição do Bolsonaro representa um retrocesso à igualdade de gênero e à democracia do país. Parecido com o movimento dos EUA, a manifestação também levantava a bandeira das minorias. Ao fim de outubro, Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil na disputa do segundo turno contra Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores.

A Folha de São Paulo, em outubro, uma semana antes do fim das eleições, trouxe uma reportagem que declarava que empresários estariam fazendo campanhas por meio de caixa 2 para Bolsonaro através de impulsionamentos de mensagens falsas, conhecidas como

fake news, do aplicativo WhatsApp. A protagonista das fakes foi a candidata a vice,

Manuela d’Ávila, do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), o que só fez mostrar a face misógina da elite brasileira em desmoralizá-la por ser a forma mais fácil de atingir o

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eleitorado. O acontecimento foi parecido com os xingamentos ocorridos contra Dilma Rousseff.

3.4 O feminismo e a Desigualdade

A mulher continua a dedicar mais tempo às atividades domésticas que os homens, ainda que seja maior o número das que concluem o ensino superior. A dedicação da mulher em sua jornada dupla, ou até mesmo tripla, tem como “obrigações” sociais a casa, a família e as tarefas diárias. O Brasil enfrenta, hoje, uma crise econômica que se iniciou no final do ano de 2013, quando o número de desempregados subiu e, consequentemente, houve a diminuição da criação de novas vagas de trabalho formal. Na tentativa de diminuir o número de desempregados, o Governo Michel Temer conseguiu aprovar a Reformar Trabalhista.

A CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), criada em maio de 1943, estava sendo considerada pelo grupo Liberal do Congresso como ultrapassada, porque novas relações de trabalho não estavam sendo contempladas no texto. Os empresários comemoram a medida, já que o custo de manter um empregado trabalhando seria menor e, com isso, o mercado conseguiria destravar a economia. No entanto, na prática, a Reforma não teve o efeito esperado ― com a possibilidade de terceirização da atividade fim das empresas, muitos trabalhadores foram demitidos e recontratados com salários inferiores, agravando ainda mais a crise econômica. Além disso, com o baixo rendimento salarial, o número de pessoas migrando para o mercado informal, ou seja, sem regimento da CLT, aumentou.

Para as mulheres, a nova Lei Trabalhista foi ainda mais rigorosa! O texto diz que as gestantes ou lactantes podem trabalhar em lugar insalubre e que as demitidas precisarão avisar a empresa com até 30 dias sobre a gravidez. A maternidade é, para muitas mulheres, uma realização pessoal, para outras, uma questão social; para o empregador, é ter uma funcionária ausente do trabalho por seis meses, que terá na sua vida particular um motivo para dedicar menos tempo à empresa. Esse conflito traz muitas questões para a vida particular da mulher pelo medo de perder o emprego.

De acordo com Scavone:

A perspectiva de gênero nos possibilitou abordar a maternidade em suas múltiplas facetas. Ela pôde ser abordada tanto como símbolo de um ideal de realização feminina, como também símbolo de opressão das mulheres, ou símbolo de poder das mulheres, e assim por diante, evidenciando as

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inúmeras possibilidades de interpretação de um mesmo símbolo. Além disso, ela pôde ser compreendida como constituinte de um tipo de organização institucional familiar, cujo núcleo central articulador é a família. E, mais ainda, foi possível compreendê-la como um símbolo construído histórico, cultural e politicamente, resultado das relações de poder e dominação de um sexo sobre outro. Esta abordagem contribuiu para a compreensão da maternidade no contexto cada vez mais complexo das sociedades contemporâneas. (2001, p. 142–143)

A dualidade feminina entre o setor privado e público cria e organiza uma esfera social excludente. Resultado disso é a diferença salarial entre homens e mulheres. De acordo com o IBGE, com a pesquisa realizada no dia 8 de março de 2019, baseada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), as mulheres ganham 20,5% a menos que os homens. Um dos fatores que justifica essa diferença é que as mulheres trabalham menos horas que os homens, ainda que isso não signifique que a jornada da mulher seja inferior. Pelo contrário: esse dado exemplifica como a tarefa doméstica e familiar socialmente estruturada como dever feminino comove uma opressão ao mercado de trabalho, agravando-se nos casos de mulheres em situação de maior vulnerabilidade.

A ala religiosa e conservadora do debate público também coloca em questão a vocação da mulher para a maternidade. A não aceitação, ou melhor, o não cumprimento das regras impostas por esses grupos do papel social da mulher a demoniza, porque, para eles, isso põe em risco a família e os valores tradicionais. A educação das crianças é prioridade de debate para o setor religioso, porque defendem a base familiar composta por homem e mulher, com seus papéis bem definidos e estruturados, como princípio de formação dos valores da criança.

3.5 A interferência da Política brasileira atual na escola

Uma das promessas dos partidos conservadores que ganharam as eleições de 2018 era a defesa da “inocência das crianças” ― que, segundo os candidatos, estava sendo destruída pelo Partido dos Trabalhadores com a criação de um kit gay que nunca foi distribuído em sala de aula e que fazia parte de um projeto para a diminuição de casos de homofobia na escola.

Esse tema ganhou repercussão nacional e foi a cereja do bolo que faltava para mostrar como era necessária a intervenção dentro de sala, partindo do princípio de que esse kit seria distribuído para as crianças, incentivando-as ao sexo e à homossexualidade. Com o

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apoio da ala conservadora e da bancada evangélica, tramita, hoje, no Congresso, o projeto Escola sem Partido, criado em 2004, que tinha apenas discussões brandas.

O ESP teve seu início com uma ação judicial na relação entre professores e alunos. O segundo passo foi pressionar as assembleias estaduais e municipais para a criação de projetos de lei que fortalecessem as ideias. Em 2015, tornou-se um projeto de lei proposto pelo Deputado Izalci, do PSDB-DF (Partido Social Democrático Brasileiro). O projeto foi criado por membros da sociedade civil e, segundo um dos coordenadores dessa organização, a ideia surgiu como uma reação contra as práticas no ensino consideradas ilegais. Vale ressaltar que o deputado não é um educador e, sim, advogado. O que é considerado ilegal para os defensores do programa é a “doutrinação política e ideológica” em sala de aula, além do direito a educação moral e religiosa.

O Escola Sem Partido demonstra, pela fala de seus apoiadores e colaboradores, uma preocupação com a suposta doutrinação, por parte dos professores, dos alunos com ideais de “esquerda” ou, em outras palavras, “marxista”. Temas como comunismo são vistos como uma fomentação à ideologia de Karl Marx, não sendo considerado o ensino de cunho sociológico, filosófico, histórico e pedagógico. Outro tema bastante criticado pelo ESP é a “ideologia de gênero”, que pode ser considerada um incentivo às práticas sexuais e homossexuais. Tal “perseguição” torna esse o maior desafio para os professores quando há, dentro da sala de aula, conflitos de seus alunos com a questão de identidade de gênero e isso extrapola para as atividades de educação física, brincadeiras e fantasias. O projeto coloca em risco a formação de professores e a especialização em áreas como a diversidade no contexto escolar.

Há, em todo o Brasil, educadores e profissionais especializados em Gênero e Sexualidade, temas que são impedidos de serem lecionados e discutidos dentro da sala de aula, pois, para o programa, esses temas ameaçam a família. O ESP é apenas mais um obstáculo no debate de gênero nas escolas, principalmente no tratamento da temática na educação infantil.

O receio da discussão sobre os papéis de gênero cresceu com iniciativas para o combate contra a homofobia e o sexismo nas escolas e foram encampados como base prioritária pelos grupos religiosos conservadores (MIGUEL, 2016, p. 595). As questões de gênero tomaram o protagonismo da discussão, deixando a “Doutrinação Marxista” em segundo plano. A imposição de uma educação baseada na família e guiada pelo princípio cristão fomenta o discurso ultraconservador que tomou conta do Brasil em 2018, liderado pelos partidos políticos liberais que surgiram como “salvadores da nação”, contra a

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corrupção apontada pela Operação Lava Jato e o Governo Petista, que, para muitos, foi o nascedouro da doutrinação nas escolas.

As questões de gênero sempre foram conectadas ao movimento LGBT, inserindo na sociedade uma discussão equivocada e sem fundamento. O posicionamento político e a ciência também são alvos do ESP; para a bancada evangélica, a evolução de Darwin deve ser substituída pelo criacionismo. Com todos esses tópicos, os educadores ficam a mercê da invasão autoritária de agentes externos ao que será tratado em sala de aula, sem a liberdade necessária a um espaço democrático escolar.

Um dos projetos do atual Ministério da Educação é a implantação de escolas cívico-militares nos Estados e Municípios do Brasil. A proposta, de acordo com o MEC, é um conceito de gestão nas áreas educacional, didático-pedagógica e administrativa com a participação do corpo docente da escola e apoio dos militares. Como premissas básicas do projeto estão a ordem, a cidadania e a gestão militar. Os professores terão papel secundário, ilustrando uma hierarquia instituída no modelo escolar, em que o que será dito e explicado deverá ser avaliado pela frente militar da escola. A implantação será efetivada após o aceno positivo dos governadores dos Estados. Atualmente, a Região Sul é a que tem o maior número dessas escolas em andamento. O sentimento que se intensifica é o da necessidade do autoritarismo e da censura no ambiente educacional, partindo de profissionais religiosos e de gestão empresarial para garantir a ordem e excluir o debate de temas como gênero.

Ainda no começo do Governo Bolsonaro, o primeiro Ministro da Educação, Ricardo Vélez, por intermédio de um comunicado oficial, solicitou que fossem filmadas as crianças nas escolas cantando o hino nacional. Ele usou como texto o slogan utilizado pelo Presidente na época da campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Essa atitude gerou uma revolta nos profissionais da educação, porque além de ser uma invasão no trabalho e na proposta educacional, fugia dos princípios básicos garantidos pela Constituição e da garantia da laicidade do Estado. É nesse cenário que estão as dificuldades e os desafios de garantir uma educação infantil democrática e libertadora.

O debate do gênero se intensifica, também, no atual Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A Ministra (e pastora) Damares Alves falou ao público que, no Governo Bolsonaro, “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”. Esta declaração trouxe à tona a discussão errônea de ligar cores ao gênero e, mais uma vez, à sexualidade da criança. A família é o principal articulador dos princípios básicos conservadores e religiosos, porém, nesses moldes, também representa um lugar de opressão e violência. A mulher deve silenciar agressões e todos os tipos de vulnerabilidade as quais

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pode ser exposta a fim de preservar a constituição familiar, além disso, a criança não pode ter a liberdade de escolher um brinquedo ou uma forma de se relacionar e interagir com o mundo fora dos conceitos definidos pelo conservadorismo.

4 O PAPEL DA MULHER NA EDUCAÇÃO 4.1 História

A partir do século XIX, com o desenrolar das Revoluções Francesa e Industrial, a população europeia encarou situações socioeconômicas negativas, como a subprodução agrícola, diminuindo safras; miséria dos operários, por conta do subconsumo industrial; insatisfação, devido ao desemprego e salários baixos, o que ocasionou a união entre a burguesia e os operários, visto que, com a diminuição dos salários, aumentou-se o custo de vida. Ambos os grupos se opunham às estruturas do poder vigente e a burguesia também era excluída do poder político.

Nesse contexto, nasce um movimento propício às mulheres, no qual começa a se estruturar uma nova forma de relação entre os sexos. Toma-se a consciência da importância da mulher, mesmo que ainda seja na exaltação da capacidade de criação e educação das crianças, o que se acredita, até hoje, ser a salvação da sociedade.

Ainda no século XIX, fica clara a divisão sexista nas funções sociais, cabendo aos homens a esfera pública e, às mulheres, a esfera privada. Eles desempenham atividades políticas ou ofícios com caráter forte, trabalhando com madeiras e metais; elas desempenham atividades domésticas, como costuras, o cuidado com a alimentação, a limpeza e a manutenção do lar. Apesar de o pai continuar tendo o poder da família, a mulher conquistou a chance de ordenar e administrar esse espaço. Para as mulheres burguesas, surgiu também a oportunidade de praticar a caridade.

Após esse momento, como fruto da revolução industrial, surgiu um novo movimento ― as mulheres começaram a receber salários pelos papeis já desempenhados, como pela costura, pela renda, pela fabricação de botões, entre outros. Isto gerou muito incômodo por parte da sociedade masculina, que pôs em dúvida a função da mulher e afirmou que o trabalho estava afetando o papel feminino e de matriarca da família, pois o sustento era obrigação do homem.

A criação de escolas elementares, normais e liceus ocorreu após essas mudanças do século XIX, que se iniciou na França com a prerrogativa de que as meninas e mulheres deveriam ler a bíblia e, para isso, teriam de ter o mínimo de instrução. A educação passou a

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ser uma ferramenta contra a heresia, por isso as instituições educacionais foram criadas por bispos. Apesar de sua criação, houve resistência por parte da população, que não queria abrir mão de seus hábitos. A escolarização feminina devia “ter um currículo diferente daquele dado aos meninos, já que não se pretendia favorecer a sua inserção no mundo do trabalho” (MONTEIRO; GATI, 2012, p. 3074), principalmente para as camadas mais baixas da sociedade.

Sendo assim, com o novo patamar que as mulheres alcançaram, coube a elas o papel de educar seus filhos, partindo do princípio que elas eram mais dóceis e amáveis e seriam melhores representantes dos costumes, que consistiam em

Amor à Pátria e ao trabalho, a honra, a bravura, o ódio aos tiranos. Sem esquecer, evidentemente, do aprendizado das tarefas domésticas especificamente destinadas às mulheres: em vez das aulas de matemática, geografia ou ciências, todas as atividades feitas com agulhas, tais como costura, bordado e tapeçaria, além de padaria, pastelaria, doçaria, importantes para o bom andamento de uma casa. Isso asseguraria a felicidade comum dos dois sexos. (MONTEIRO; GATI, 2012, p. 3076) No Brasil, “a educação e o comportamento das mulheres, desde o período colonial, variava de acordo com a classe social a que pertenciam” (MONTEIRO; GATI, 2012, p. 3081), mas, de qualquer forma, nenhuma delas tinha acesso à leitura ou à escrita, sendo restritas aos afazeres domésticos. As mais pobres cuidavam do serviço pesado e manual, enquanto as mais abastadas aprendiam regras de boas maneiras e trabalhos manuais mais leves.

Como na França, as mulheres brasileiras começaram a se interessar pela leitura, a fim de lerem livretos religiosos. Como as mulheres europeias, as que manifestassem o interesse eram instruídas a estudar o “abecedário moral” de Gonçalo F. Trancoso:

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Com base nisso, contata-se que a educação da mulher era sob a ótica e o discurso extremamente conservadores, que, além de firmar o caráter religioso, delimita o espaço que a mulher deveria ocupar na sociedade ― o de mãe educadora, mantenedora dos bons costumes e da moral, deixando para os homens os papeis de destaque, o que gera enaltecimento da figura masculina. Até o que as mulheres deveriam aprender era ditado pelo sexo oposto, que não deixava que esses conhecimentos excedessem os limites prescritos pela sociedade.

Reafirmando essa ideia, trago o 1º Discurso de Mirabeau em 1790:

A constituição delicada das mulheres, perfeitamente apropriada à sua destinação principal de perpetuar a espécie, de velar com solicitude nos primeiros tempos perigosos dos primeiros anos [...]; sua constituição as limita aos trabalhos em casa, ao sedentarismo que esses trabalhos exigem. Levar as mulheres ao meio dos homens e seu trabalho é fazer com que eles percam todo o seu império. Sem dúvida, a mulher deve reinar no interior de sua casa, que deve fazer sua felicidade e sua glória. Em qualquer outro lugar ela estaria deslocada. (apud LELIÈVRE, F.; LELIÈVRE, C., 1991, p. 36)

Este excerto corrobora a concepção de que a mulher deveria apenas educar seus filhos, de modo que o lar gerenciado pela matriarca fosse uma extensão da escola, onde a mãe exerceria a tarefa de auxiliar o professor, dando continuidade à educação moral, virtude, bons exemplos e vigilância de suas tarefas, comportamentos, assiduidade escolar, entre outros. No geral, não se via sucesso escolar se a mãe não tivesse instrução o suficiente para tomar conta de seus filhos. Não digo instrução em níveis elevados, mas, sim, a consciência de sua função no lar, e, também, nos âmbitos social e conjugal.

Assim nasceram os primeiros princípios da mulher educadora, que posteriormente foi aprimorado com mais instruções e, consequentemente, com um nível de formação mais elevado. Isso provocou mudanças até mesmo nas professoras de educação infantil, que até hoje carregam estigmas assistencialistas e auxiliadores às crianças.

4.2 A mulher docente

O Brasil adotou o modelo de Escola Normal, como na França, com a ideia de propagar o ensino público, porém não existia infraestrutura no país, principalmente no quesito financeiro, para remunerar os professores. Além disso, existiam poucas escolas, que eram malconservadas. As Escolas Normais tinham um processo de formação lento e eram pouco procuradas, tanto pelos alunos quanto pelos professores, porque o Brasil era um país

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agrário, que não precisava de instruções eruditas para a realização de seu trabalho ― que tinha salários ruins e condições laborais péssimas. Com isso, começaram a surgir as críticas e a pressão nas assembleias provinciais, que julgavam o emprego da verba nessas escolas desnecessário.

A partir de meados de 1870, “transformações de ordem ideológica, política e cultural seriam acompanhadas de intensa movimentação de ideias com profundas repercussões no setor educacional, que passava a assumir uma importância até então não vislumbrada” (TANURI, 2000, p. 66). Ou seja, a sociedade passou a compreender que a educação levaria o país a novos patamares, com isso, os responsáveis reformularam a concepção pedagógica, que seria “moldar, conscientizar, conformar o cidadão para o exercício da cidadania” (VILLELA, p. 116).

Nesse contexto, surge a inserção das mulheres na Escola Normal, que, até então, era moldada para os homens. A introdução feminina teve a finalidade de modernizar a sociedade. Podemos constatar, mesmo que inconscientemente, o subjugar da ideia de natureza da mulher em um discurso naturalista ― Perrot (2001, p. 177) diz: “aos homens, o cérebro, a inteligência, a razão lúcida, a capacidade de decisão. Às mulheres, o coração, a sensibilidade, os sentimentos. ” Mesmo que ainda se tenha a consciência de que a mulher era vista, até então, relacionada à maternidade, a introdução da mulher no mercado de trabalho foi uma conquista.

Ano após ano, cresce a formação de mulheres, superando o número de professores formados, já que a urbanização e a industrialização trouxeram outras oportunidades de trabalho aos homens, sendo possível constatar porque, atualmente, o magistério é majoritariamente feminino. Mais uma vez, reproduz-se a discriminação sexual ― homens e mulheres não estavam no mesmo ambiente profissional, porque sempre que a mulher conseguia conquistar algum espaço, um novo degrau era adicionado para que os homens estivessem acima delas. Para exemplificar, nas escolas, os currículos eram diferentes para meninos e meninas. Criou-se, posteriormente, o critério de ensino de geometria para aumento dos níveis salariais, ensino que não era destinado à educação feminina.

Apesar disso, as mulheres se inseriram no mercado de trabalho como professoras de educação infantil. Como a profissão ficou popular entre as mulheres, era mal remunerada, logo, passou a ser degradante para o homem exercer tal função.

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Gostaria de explicitar que trataremos gênero como um conceito social, não apenas como biológico (masculino e feminino). Para melhor ilustrar a afirmação anterior, podemos verificar que o gênero é demarcado pelas atitudes sociais do indivíduo, como vestimentas, espaços no trabalho, comportamentos etc.

Um gênero (um tipo) “feminino” é culturalmente imposto à fêmea para que se torne uma mulher social, e um gênero “masculino” ao macho, para que se torne um homem social. O gênero se manifesta materialmente em duas áreas fundamentais: 1) na divisão sociossexual do trabalho e dos meios de produção, 2) na organização social do trabalho de procriação, em que as capacidades reprodutivas das mulheres são transformadas e mais frequentemente exacerbadas por diversas intervenções sociais. (MATHIEU, 1985/1998 citado pelos autores, 2009)

Verificamos que ficam muito bem definidos os papéis sociais e, de certa forma, biológicos de cada indivíduo, sendo reservada à mulher a procriação e ao homem, a provisão. Assim, desqualifica-se a posição da mulher como um ser humano capaz de exercer as mesmas funções de outro ser humano, independentemente de seu gênero: “O problema é que a nossa sociedade não permitiu que a mulher ‘chegasse’ psicologicamente e socialmente à sua especificidade.” (HIRATA, 2009, p. 226).

Partindo dos conteúdos previamente apresentados, podemos clarear nosso conhecimento de gênero a respeito de como ele se apresenta para a sociedade, mas não podemos deixar de explorar gênero como constituinte do ser humano, sendo indissolúvel e indispensável para a formação do “eu”.

Ao afirmar que o gênero institui a identidade do sujeito (assim como a etnia, a classe, ou a nacionalidade, por exemplo) pretende-se referir, portanto, a algo que transcende o mero desempenho de papéis, a ideia é perceber o gênero fazendo parte do sujeito, constituindo-o. (LOURO, 1997, p. 25)

Sendo a escola um espaço de formação, tanto educacional quanto social, deve-se tomar o cuidado sobre como as crianças vão ser instruídas a perceber a construção social que há sobre as brincadeiras e relações de todo o tipo. Outro fator de extrema importância é o cuidado com a reprodução de um ambiente sexista, podendo ser reavaliadas as normas escolares, como filas e deveres, afinal, como diz Louro (1997, p. 57), “a escola entende disso. Na verdade, a escola produz isso”. Portanto, é fundamental que os espaços escolares sejam reavaliados para que não haja essa reprodução. É de extrema importância que a compreensão dessas práticas não sejam somente tomadas pela instituição, mas, sim, por

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todo o corpo docente, reavaliando suas práticas pedagógicas, não exprimindo seus valores pessoais e religiosos, abandonando seus parâmetros de (a)normalidade. Mesmo que não propositalmente, a escola reforça toda a forma opressora que constrói a relação menino e menina.

A sociedade crê que a sexualidade está vinculada ao biológico do ser humano e, caso a identidade seja alterada, existe ali uma falha. Sendo assim, somos criados para acreditar que a sexualidade é pré-definida no nascimento, sendo ela imutável pelo resto da vida, descaracterizando completamente o conceito de sexualidade e desconsiderando todos os fatores sociais, históricos, religiosos, entre outros, que influenciam essa formação. Com as crianças, isso é ainda mais perceptível, porque na infância não é considerada a sexualidade, apenas na puberdade. A escola produz/reproduz essas ideologias, já que não está excluída da sociedade.

Entendendo o corpo como construção cultural, sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, grupos sociais, etc., a escola tem funcionado como uma das instâncias autorizadas, em nossa cultura, a educar e, portanto, produzir o corpo “tal como ele deve ser”. De acordo com Louro (2000, p. 60), o corpo, paradoxalmente, também se tornou “central de engendramento dos processos, das estratégias e das práticas pedagógicas”. A educação dos corpos acompanhou (e ainda acompanha), historicamente, o disciplinamento das mentes das crianças nas instituições escolares. Esses espaços estão permeados de estratégias de vigilância, controle, correção e moldagem dos corpos dos indivíduos, tanto de estudantes como de educadores/as. (BERTUOL, 2013, p. 42) Como resultado dessa construção social em que gênero e sexualidade caminham lado a lado, temos uma sociedade extremamente preocupada com a orientação sexual da criança, fazendo necessária a atenção a todos os movimentos, brinquedos, jeito de falar etc., para que, em nenhuma hipótese, seja fomentado o comportamento “duvidoso”. Essa atitude deixa cada vez mais evidente a falta de conhecimento e a confusão de conceitos (sexualidade e gênero). Muitas escolas e professores recriminam as atividades e brincadeiras, fragmentando em coisas de meninas e de meninos, mas se esquecem de que

A criança desenvolve-se pela experiência social nas interações que estabelece, desde cedo, com a experiência sócio-histórica dos adultos e do mundo por eles criado. Dessa forma, a brincadeira é uma atividade humana na qual as crianças são introduzidas constituindo-se um modo de assimilar e recriar a experiência sócio-cultural. (WASJSKOP, 2009, p. 25) Desta forma, não cabe à escola, em sua totalidade, definir o que é certo ou errado em questões de gênero, pois a criança necessita experimentar ― sem amarras ― as

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alternativas que a vida (dentro ou fora do espaço escolar) possibilita. De acordo com Viana e Finco,

Ultrapassar a desigualdade de gênero pressupõe, assim, compreender o caráter social de sua produção, a maneira como nossa sociedade opõe, hierarquiza e naturaliza as diferenças entre os sexos, reduzindo-as às características físicas tidas como naturais e, consequentemente, imutáveis. Implica perceber que esse modo único e difundido de compreensão é reforçado pelas explicações oriundas das ciências biológicas e também pelas instituições sociais, como a família e a escola, que omitem o processo de construção dessas preferências, sempre passíveis de transformação. (VIANA; FINCO, p. 270)

A Constituição de 88 garante o direito da criança de 0 a 6 anos ao acesso a pré-escolas e creches. Esse é o primeiro contato da criança fora do seu ambiente familiar, onde passará meio período ou um período inteiro convivendo com grupos sociais distintos, visto que cada qual leva para o espaço escolar valores e concepções diversos, advindos de suas famílias. A construção da personalidade da criança é baseada nas vivências e interações com outros indivíduos. É dessa forma que a experiência de meninas e meninos na educação infantil pode ser considerada como um rito de passagem contemporâneo que antecipa a escolarização, por meio do qual se produzem habilidades (VIANA; FINCO, p. 272).

A criança, sendo parte ativa de um contexto social escolar e familiar, inicia o seu desenvolvimento de gênero com toda a carga histórico-social e, principalmente, das expectativas criadas em torno da força e do talento para as atividades intelectuais dos meninos e da sutileza e talento para afazeres gerais das meninas.

5.1 A importância do ato de brincar

Brincar, segundo o dicionário online Infopédia, é “divertir-se, recrear-se, entreter-se, distrair-entreter-se, folgar”. Também pode ser “entreter-se com jogos infantis”. O ato de brincar, para o público infantil, é um modo de representação da vida real.

Por meio da brincadeira, é possível acessar conteúdos mais íntimos do cotidiano da vida de uma criança ou intervir em seu processo de aprendizagem ― na sala de ludoterapia, por exemplo, é possível trabalhar disfunções cognitivas, ter acesso a questões emocionais; em sessões de terapia ocupacional, desenvolver mais seu lado psicomotor. Além disso, as crianças retratam situações que marcam suas vidas positiva ou negativamente e descrevem o que lhes falta ou lhes excede, sem que esses retratos sejam definidores de gênero ou, até mesmo, de sexualidade. Zanluchi (2005) afirma: “Quando brinca, a criança prepara-se para

Referências

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