Lógica
e Teoria
da
Linguagem
em
Antístenes
Antístenes
(444-365
a.C.) íoiprimeiramente
discípulo de Górgiase de-poisdeSócrates2. Foi, portanto,contemporâneo
dossofistas,tendo
tra-vado
relaçõescom
um
dos maiores dentreeles,Górgias, tendo seguidoposteriormente a Sócrates, voltando-se então contra Górgias,
atacan-do-o
numa
obrachamada
Archdaus, da qual nos restam apenasfrag-mentos
3 (aliás,não
noschegaram
senão fragmentos e títulos de suasobras).
Há
evidências deque
Antístenes cobrava taxas para a assistên-ciade
seus seminários, oque
oaproxima
do
movimento
sofístico.Além
disto, eraum
feroz oposiior de Platão5. Talvez por causadeste conflitopessoal, Platãosó o
mencione nominalmente
uma
vez,no
Fédon, entreaqueles
que
seencontravam
com
Sócrates na prisão . Outrasalusões aAntístenesnos diálogos platónicossósão encontradas de
modo
implíci-to, portrásde
pseudónimos
e adjetivaçòespouco
elogiosas. Aristóteles,embora
cile-onominalmente
várias vezes,não
lhe é maiscondescen-dente
que
Platão.Enfim,hásériasdúvidassobre
o
conjunto desuas doutrinas: osposici-onamentos
variamconforme
aatitudetomada
quantoàquestãodafunda-ção daEscola Cínica. Porém, graçasa Aristóteles e Platão,
podemos
entre-ver
com
alguma
segurança7quaisseriama lógica e a teoriada linguagem de1 DoutorandoemFilosofiana PUC-Rio.
2 FerraterMora,Diccionario...,p.170,vol.I;vertambémGuthric. Hisloryo/...,pp.304-5.
3 Idem,ibidem,p.308.
4 Idem,ibidem, p.307. 5 Idem, ibidem,p.310. 6 Platão,Fédon59b. 7 Ginhrie.Hisloryo/....p.310.
106 Aldolopes Dinucci
Antístenes.
Como
isto éexatamente oque
nosinteressa, passemosà análi-sedestestemas.1)
A
Teoriada
Linguagem
e a Lógicade
AntístenesUma
tese úum
pensamentoparadoxal, sustentadapor algumfilósofo célebre:porexemplo,queéimpossívelcontradizer,comodisse Antístenes*.
Como
observaGillespie, estapassagem
deAristótelesestabelece"queopa-radoxo oiik
ecmv
dimXéyetu
(é impossível contradizer) estavaespecial-mente
associado aonome
de Antístenes"9.A
doutrina de Antístenestrazem
sioutra peculiaridade: aimpossibili-dade
de contradizer decorreda impossibilidade de dizer o falso (ijjeúôeo-Gai). Aristótelesnos informasobreistoexplicitamente:Um
AóyoçfalsoéoXóyoçdeobjetosnão-existentes[decoisasque nãosão]...Assim, cadaXóyoçé falsoquandoaplicadoaalgumacoisaoutraqueaquela
queéverdadeira,exemplo:o Xóyos'decírculoé falsoquandoaplicadoa
um
triângulo.
Num
sentidoháum
Xóyoç paracadacoisa,i.e.oconceito de sua essência;masnoutrosentidohá muitos,jáqueaprópriacoisaeaprópriacoi-samodificada decertamaneiraedealgum
modo
amesma
coisasão,exemplo: SócrateseSócratesmúsico.O
XóyoçfalsonãoéoXóyoçde nada, excetonum
sentidoqualificado.Assim, Antístenes estupidamente afirmouque nada po-deriaserdescritoexcetoporseu próprioXóyoç
—
um
predicadoparaum
su-jeito;do quesesegueque nãopoderiahaver contradiçãoe,quase,que não
haveriaerro.10
Unioutro comentário de Aristótelesrevelaointeresse deAntístenesa
res-peitodadefinição:
Assim,adificuldade revelada pelos 'AvTiaÔeveLoi" eoutraspessoas
igno-rantesé
em
certamedidaapropriada. Elesafirmavam queoquenão podeserfi Aristóteles,Tópicos104b 21.
9 Gillespie,TheLogicof...I",p.480.
10 Aristóteles.Md.V1024b 27-34.
Lógica eTeoriada Linguagemem Antístenes | 107
definido (poisadefinição assim
chamada
é 'uma formula longa');mas
quetipodecoisaé,por exemplo:prata,elespensavamser possível explicar,não
dizendooqueé,
mas
queécomo
estanho .Foram
descobertos,em
diálogos plalônicos,traçosdedoutrinassimilares aestas,as quais,
segundo
asdeclaraçõesde Aristóteles, seriam deAntístenes.Talvez pelaanimosidadeentre PlatãoeAntístenes, talvez poroutro motivo,
Platãonãoasremeteexplicitamentea Antístenes.
No
entanto,háevidênciasde quePlatãoocritica
no
Crátilo(429A
ss.),no
Eulidemo (283E,285
E),no
Teeteto(201
D
ss.)eno
Sojista(251A,B).Entrecruzando-seas citaçõesdestes diálogoseaspassagensdeAristóteles,podemos
fazerideiado
queseriamate-oriada linguageme a lógicadeAntístenes. Nesteartigo,nos deteremossobre
os seguintestemasprincipais: aconcepção deAntístenessobre (I)
nomes
e proposições,(11)falsidade e contradição,(III)definição, apossibilidadedasconexõesAnlístenes-ProtágoraseAnlístenes-Heráclito(Crálilo),
consequên-cias linguísticas e lógicasdadoutrinadeAntístenes.
(I)
Nomes
e Proposiçõesem
AntístenesO
CrátilodePlatão,cujotemaé a'correçãodos nomes',discute duasteori-asda linguagemopostas.
A
primeira delas afirma que onome
das coisas é de origem divina: ofatode
que
um
grupo dehomens
concordeque
taisequaissejamosnomes
dascoisas(convenção) nãogarantede
modo
algum
queestessejam osno-mes
reaisdascoisas. Haveria, naverdade,um
nome
próprio,de origem di-vina,para cadacoisa. Esta é a tesede'Crâlilo'".Segundo
a tesede'Hermó-genes', os
nomes
são estabelecidos por convenção. Sócrates a princípio sustentaa tesede 'Crátilo':Sócratesargumentaqueasações(irpáÊciç),
como
as coisas(irpá-yperra),temuma
naturezafixa edevem
serexecutadascom
oinstrumentopróprio,como
cortarcom
a faca. Istoincluialinguagem, cujos instrumentos,asaber as pala-vrasounomes
(òi'óuaTa),têma função deensinar sobre,edistinguir, ases-sênciasdascoisasreais .
12 Aristóieles,Mct.1043 b24.
13 Gillespie,
The
LogicOÍ...V,pp. 481-5.14 Platão, Crátilo391d.
108 Aldo Lopes Dinucci
Os nomes
são imitações vocaisdascoisas,isto é,convêm
à natureza destascoisas.
Não
são, portanto, criações arbitrárias.Além
disto,nenhum nome
imitará a coisamelhor
que outro: "ou osnomes
são correiosou
eles nãosão nada, [são| simplesmente sons
sem
significação"16.O
nome
éessenci-almente unido à coisa ; assim, "aquele
que
conhece osnomes
conhecetambém
as coisas" . Estalese, atribuídaa 'Crátilo'no
diálogo,é,
segundo
Gillespiee Guihrie, a teoriadalinguagem deAntístenes19,cujosprincípi-os
enunciamos
aseguir:L
Má
um
úniconome
para cada coisa: estenome
se ligaã naturezadacoisa; é, por assimdizer,
uma
imitação vocaldacoisa.2.
Os nomes
são de origem divina, não são estabelecidos porconven-ção.
Nomes
simplesmente convencionais não imitamas coisase, porcon-seguinte, não
podem
significá-las.3.
Além
disto, sequersãonomes,poisnão hánomes
falsos.Ou
onome
é verdadeiro e imita a coisa
ou
nãoéum
nome, mas
um
simplessom sem
significação.
Passemos
a avaliarcomo
Antístenes conceberia—
a partir desta teoriada linguagem
—
as proposiçõeslógicas:Km
primeiro lugar, aoavaliara doutrina deAntístenes,devemos
afas-tar de nosso
pensamento
aconcepção
aristotélica deproposição,onde
'osujeito e o predicado são termos, correlativos lógicosdosconceitos'20.
A
concepção
de Antístenes ébem
mais primitiva: o sujeitológico é aquilodo
que se fala—
'nãonomes
ou
termosou
conceitos,mas
coisas'21.Antístenes reconhece, portanto, as proposições denominativas21 (ex.: 'Este
é Sócrates' ).
A
predicaçãoé, paraAntístenes,darnome
às coisas.A
termi-nologiaempregada
por ele (deacordocom
os textos referidos) seria a se-guinte24:• rrpdYpa (coisa) e
oúoia
(a natureza da coisa),que
se refeririam aosujeito lógico,que
no
casoéaquilodo
quesefala.16 Idem,tbidem,p.207;i/.Platão, Crátiio430a-438c.
17 Platão. Crdiifo.383a. 18 idem, ibidem,435à.
19 Gillespie,"TheLogicOÍ...I", p.486; vertambémGuihrie.Msioryaf...,p.209. 20 Idem, ibidem,p.488.
21 idem,ibidem.
11 Plaiâo,Tcncml92dss.
23 idem,ibidem,188b.
Lógica eTeOfiada LinguagememAntlstenes | 109
• õvoLia
(nome)
eXó-yoç(uma
fórmulade nomes), que se refeririam àlinguagemqueexpressao
pensamento
sobre as coisas.Haveria doisliposde proposiçõespossíveis para Antísienes:
• a jácitada proposição denominativa.
• e a proposição complexa: "o
complexo
'Sócrates-branco', istoé, osujeitoe o predicado
da
proposição talcomo
é analisadapor Aris-tóteles, é aplicadocomo
um
predicado para oobjeto real . Estecomplexo
éum
Xó^os"
2"ou
um
nome
composto
por muitas pala-vras.Estas considerações nos
levam
a estabeleceruma
crítica à afirmação deAubenque
deque
Antísienes só reconheciaasproposiçõestautológicas .No
Sofista, "os partidáriosdo
julgamento idênticopermitem que
homem
sejapredicadode
homem,
ebom
de
bom, mas negam
que
bom
possa serpredicadode
homem"
28.Mas também
éditoque
nãose pode aplicarmaisde
um
nome
àmesma
coisa(Xéyouev
àvQpumov
ttoXX-òttoè~novo\iá(ov-Tes
251 A,iroXXóis òvó\iaoiXéyouev
251 B).Desta forma, o julgamentoidêntico nãoé oposterior 'A éA, "no qualsujeito e predicadosão
ambos
conceitos,
mas
o simplesjuízodenominativo 'Isto éum
homem';
o sujeitoé o TTpâY^a
ou
oobjetoreal, o predicado éoÒvopa
e sua funçãoprimá-ria é distinguir o objeto de outros objetos"29. Esta observação de
Gilles-pie é confirmada por outras passagens,
como
porexemplo
em
Teeleto201
e ss., Eutidemo283
e ss., Crdíilo429
d.Além
disto,devemos
acres-centar
que
a lógica formalfoi criada porAristóteles30, e apenasnuma
ló-gica abstraia
podemos
falarde proposições tautológicasem
sentido estri-to.Podemos
esquematizar da seguinte forma as proposiçõesque
Antísie-nes conceberia
como
logicamente válidas:1. proposição denominativa
—
Esta coisa (rrpdyua) énome
da coisa (ÒfOLta). Ex: 'Este éSócrates1.
2.proposiçãocomplexa
—
A
natureza (oOoía) desta coisaéfórmula(Xó--yoç). Ex: 'Sócrates é
homem-músico'.
25 Aristóteles,Md., 1024 b31. 26 Gillespie/TheLogic..l.",p.489. 27 Aubenque,LeProblème...,p. 101. 28 Platão, Sofista,251b.
29 Gillespie,"The Logic..1",p.490;vertambémGuthrie, Historyo/...,p.213.
110 AldoLopes Dinucci
Passemos a investigaragora a impossibilidade
em
Antístenes de haverfalsidadeecontradição.
(II) FalsidadeeContradição
em
AntístenesPara
compreendermos
porqueAntfstenes afirmavaque não háproposi-çõesfalsase, logo,
que
nãoé possível contradizer,temos
queacompanhar
sua distinção entre dXXo8o£íaei|íeú8ea0ai.
'AXXo8o£ía significa aplicar
um
nome
ao objeto errado.No
Teeíeío",vemos
aajUodoxivacomo
tomaruma
coisaporoutra.No
Sofista ","aproposi-çãocategórica
'homem
ébom'
é rejeitada porque... 'nomes dediferentes coisassão copulados'"".No
Cráíilo*1
, mais
uma
vezvemos que
é possívelque
um
nome
seja aplicado aum
objeio errado:"mas
'Crátilo'se recusaachamar
estetipodeerrodefalsidade 6|icú6eo6aO"".Vemos, portanto,
que
Antfstenesaceitaa possibilidadede queapredi-caçãoocorrade forma nãoapropriada. Mas,nestecaso, nãose tratade
fal-sidade (4í€Úo€a9ai) esim dedXXo8o£ía
ou
aaplicaçãodeum
nome
aum
objeto errado.
Podemos
apresentara principal razãoquelevaAntístenesaafirmartal coisa:
Em
1024 b
17ss.,Aristótelesdeclaraquea falsidadepode
sereferir: (a)acoisas
ou
fatos, casonãoexistame (b)aosXóyoi:
Aqui
—
observaGuinde*
1—
Aristótelestemem
menteaclássicadificuldade, frequentementereferidaporPlatãoeusada porAntfstenes...em
suporteàsuateseda impossibilidadede contradição:
Todo Xóyoçé
verdadeiro, poisaque-lequefala,falaalgo,aquelequedizalgo diz algoqueé,eaquelequedizalgo
queédizaverdade' (Proclus, /ri.Crátilo37).
Assim, pronunciar
um
Xóyo?
ésempre
dizeralgo.Um
Xóyoç
falsonãose-riaXó-yoç
nenhum, mas
um
mero
ruídosem
qualquersignificação.A
única possibilidadedeerroé,portanto,adXXoôoÇía, queéquando
um
Xó-yoçou
um
òvopa
verdadeiro é aplicado ao TTpá-yua errado.Vemos
assim que a31 Plaião. Tecteto18!?bss.
32 ícítm,So/isia251 a,b.
33 Gillespie,"TheLogicof...11" ,p. 18.
34 Plaião, Crátilo429c.
35 Gillespic,"TheLogicof...IT\p, 18.
Lógicae Teoriada Linguagemem Antístenes | 111
teoria
da linguagem
de Antístenesdetermina
a impossibilidadedo
i|)€Ú8oç37.
A
partir disto,podemos
compreender
porqueAntístenes afirmaque
éimpossível contradizer:A
negação da contradiçãonoEutidcmo285e—
esclarece Gillespie—
implicaamesma
tesede predicaçãoe erro.A
eBsupostamenteestãofalandodamesma
coisa.
A
coisaéuma
coisaem
sentidoamplo...assimelanão temapenasum
óVoua,mas
um
Xóyoç oufórmula...representando suanatureza...A
e Bem
sua discussão fazemváriasasserçõessobreacoisa,que
sem
dúvidaelescha-mam
pelomesmo
nome;mas
elesnãoligam aonome
necessariamenteames-ma
fórmulaou afórmulacertaao nome. Aindaassim,em nenhum
caso po-de-se dizerqueelessecontradizemmutuamente;seambos
tiveremem
menteafórmulacorreia,elesconcordam;se
um
temafórmulacorreiaeoutroaerra-da,elesestãofalandodecoisas diferentes; se
ambos
têmafórmula erradaem
mente,nenhum
delesestáfalandosobrea coisa.Assim, a tesede Antístenes
que
afirmaaimpossibilidadede contradição éderivada
do
princípioque
afirma aimpossibilidadedo
tJjeúSoç.Apenas
a áXXoSoiJLGt é possível.Vamos
esquematizar, exemplificando, as três possi-bilidadesapresentadas no Eutidemo:i)
Num
embate
dialético,A
e B pronunciam-sesobre C, atribuindoaC
a fórmulaX,
que
vem
a ser correia:A:CCnpâYHd)é C(Òi/o|ia)
(ex.:A: Este é Sócrates)
B:É verdade.
A:
A
oúoíadeCCrcpâyua)éXÍXóyoç)(ex.:A: Sócrateséhomem-filósofo)
B:É verdade.
Neste caso obviamente não hácontradição.
ii)
A
e B pronunciam-sesobreC,A
atribui aC
afórmulaZ,B, afórmulaY
—
ambas
as fórmulassão equivocadas: A: C(TTpâyu.a) éC(òVop;a)(ex.:A: EsteéSócrates) B:É verdade.
37 EncontramosrazõessemelhantesemPlatão;Crátilo429c;Tcctcto187d.
112 Aldo Lopes Dinucci
A:
Aoúaía
de CCrcpâyua)éZ(Aóyoç)(ex.:A: Sócratesé
homem-músico)
B:Não,aoúoíade C(rrpâyua)éY(Aóyns)
(ex.: B; Não,Sócratesé
homem-médico)
Em
ambas
asproposiçõescomplexas osinterlocutorespecam
poràXXo8o-£ía.
Os
atributos músicoe médico são òVou.aTa verdadeiros, aplicados ao TTpâyLia errado.Não
hácontradição, poisA
eB
nãoeslãosereferindoa C,jáqueasfórmulas que apresentam
não correspondem
a C,mas
simaalgu-ma
outra coisa.iii)
A
e B pronunciam-sesobre C,A
atribui equivocadamenteafórmulaZ
a C;BatribuiacuradamenteafórmulaX
a C:A:C(npãyua)éC(õi'0|ia)
(ex.:A:EsteéSócrates)
B:É verdade.
A:
Aoúoía
deC(Trpây|ia)éZ(Xóyoç)(ex.:A:Sócratesé
homem-músico)
B:Não,a(maia de C(npâyuci)éX(Xóyoç)
(ex.: B: Não,Sócrateséhomem-filósofo)
Neste caso,
A
comete áXXo&oÇía e B diz a verdade.Não
há contradição, pois nãofalam damesma
coisa.A
fórmulaZ
não correspondea C.No
en-tanto,segue sendo verdade de outro TTpâyLta qualquerou, então,nãopas-sa de barulho
sem
significação.Vemos
assim que, de acordocom
a teoriada linguagem de Antlstenese seu princípio de dXXoSoÇía, a contradição
nãoé possível. Para esclarecermosainda mais este ponto, investigaremos
agoraaposiçãode Antístenesquantoà definição.
(IH)
A
Definiçãoem
AntístenesDe
acordocom
a passagemjáapresentada39, para Antístenes objetossim-ples não
podem
ser definidos. Objetoscompostos
40, por outro lado,po-dem
serdefinidosou
receberum
Xóyos. EsteXóyos
écomposto
pelosno-mes
dos elementos quecompõem
o objeto. Estes elementos, porserem
simples, sãoindefiníveis.
Não
é preciso dizer que, para Antístenes, osujeitoda definiçãonãose distinguedo
objeto empírico: "poisse adefiniçãoéuma
proposição,se a19 Aristóteles,Meí.1043b 23. 40 Guihrie,Hisíorvo/...,p.212.
Lógica eTeoriadaLinguagememAniístenes | 113
proposição significaqueosujeito eo predicado são
nomes
damesma
coi-sa,se afórmula quedefineé
meramente
um
predicado composio; eseto-dasas coisassãoparticulares, segue-se
que
a fórmula dadefinição é,como
qualquer outro
nome,
onome
decoisasparticulares" .Esta informação de Gillespie revela
um
fato importante: paraAniíste-nes tudo
que
háno
mundo
são os seresparticulares. Aniístenesjamaisa-ceitaria a tese de Platão sobre o
mundo
das Ideias Eternas das quais as coisas sensíveis participariam. Guthriecitauma
anedotaque
noschegou
porSimplicius tratandojustamentedesta rivalidade entre Platão e
Antís-tenes:
AniístenesteriaditoaPlatão:'Euvejo
um
cavalo,masnãovejoacavalídade', aoquePlatão replicou: 'Sim, poisvocêtemo
olhopeloqualum
cavaloc visto,mas
vocênãoadquiriuaindaoolhopara veracavalidade."Porém, antesde avaliarmosa razão da oposição deAniístenesà teoriadas
Ideias e das essências unas, falemos
um
pouco
mais sobreopapel da defi-niçãoem
Aniístenes.Tomemos
como
exemplo
de definição de Aniístenesaquele proposto pelo Pseudo-Alexandre45 (que
chegou
até nósem
um
fragmento): consideremos o
nome
'homem';podemos
defini-locomo
ani-mal mortal racional,
obtendo
um
Aóyos\ou
fórmula longa,composto
deõvoLiaTa,quesereferemaoselementos
que
compõem
ohomem
enquanto
TrpâyLia.No
entanto,estes elementos nãopodem
serdefinidos, pois,se o fossem, cairíamosno
supracitadoparadoxo
de Górgias (que Aniístenescertamente conheceeprocura evitar)
do uno
edo
múltiplo,eliminando apossibilidade
de
predicação verdadeira.A
definição é, portanto, paraAntfstenes,
nada
maisqueaenumeração
das partesdeuma
coisa compos-ta, os objetos passíveis de serem definidos são agregados : "a teoria IdeAniístenes]
assume que
um
todocomplexo
nãoémaisquesuas parlespos-tasjuntas
em
um
certomodo"
.Pelo Teeteta"'
(numa
passagem
que
se refereà doutrinade Antíslenes),41 Gillespie,"TheLogicof...i\p.497. 42 Guthrie, Hisíoryo/.., p. 214. 43 Idem, ibidem,p.212.
44 Gillespie,"TheLogicoí.,.1", p.499. 45 Giuhrie, Hisíoryo/...,p.213. 46 Platão, Tcclcto,201clss.
Ill AldoLopes Dinucci
somos
informados de que nãopode
haverXóyoç
dosprimeiros elementos.Embora
constituam todasas coisas, elessópodem
sernomeados; "mas
oscompostos
feitos apartir deles,sendo
complexos...podem
ternomes
per-tencentes a eles |os primeiros elementos]combinados
para fazerum
Xó-705....Os
elementos, portanto, são inexplicáveiseincognoscíveis,mas
po-dem
serpercebidos, enquantooscomplexos
são conhecíveis,explicáveis ecompreensíveis por
uma
opiniãoverdadeira"''7
.
Ora, é evidente que a doutrina de Aniístenes se
opõe
radicalmente às douLrinasde Platão e Aristóteles. Para estes,as coisaspossuem
uma
essên-cia determinada e una. Para Antístenes, as coisas são tão
somente
uma
combinação
de elementos simples,uma
definição nada mais é queuma
enumeração
dosnomes
destes elementos simplesque
são indefiníveis.Desta forma,
uma
definição,no
sentido aristotélicodo
termo, é, paraAntístenes, impossível. Assim,
podemos
compreender
aanedotacitada aci-ma; Antístenesdiznãovera'cavalidade'porque nãoaceita demodo
algum
a possibilidade de
uma
essênciauna
para osobjetosreais. Estasformasou
essênciasnão corresponderiam anada
na realidade"8
.
2) Possibilidadesdas
Conexões
Protágoras-Antístenese Heraclito{Crátilo) -Antístenes
Passemosagoraa avaliar estas conexões
que
foramsugeridas porauto-res modernos. Pode-se dizer queas doutrinas de ProtágoraseAntístenes
possuem
asseguintesafirmaçõesem
comum":
1
.
É impossível falarofalso, poisistocorresponde adizeroque nãoé.
2.
Como
consequênciadisto, éimpossível contradizer.A
partir disto, autorescomo
Kerferd10 tentam reduzir a doutrina deAntístenesàde Protágoras. Há,
no
entanto, evidênciasqueapontam
paraainconveniência desta redução:
•
A
teoria da linguagem de Protágorasé radicalmentedistintadaquela de Antístenes.No
Crátilode Platão, a posição de Protágoras(defen-didaali por 'Hermógenes')éde
que
osnomes
sãodadosàs coisaspor47 Guthric,llistotyof...,p.213. 48 ídan,ibidem,p.2J4, 49 Jdein, ibidem,p.218-9.
Lógica eTeoriada LinguagememAntístenes | 115
convenção.
A
posição sustentadapor'Crálilo'(queseria adeAnlísle-nes)é de queos
nomes
sãode
origemdivina. Para Antístenes, aim-possibilidadededizer o falso sedeve ao fato de que
um
nome
falsonão é
nome
algum. Para Protágoras, esta impossibilidade se remeteao seu relativismo, o qual reza
que
apercepção deA
nãopode
ser corrigida pela percepção de B, assimcomo
as asserções sobre estas percepções.•
A
afirmação daimpossibilidade decontradição deAntístenes "estavafundada
numa
direta e intencionalnegaçãodo
mesmo
ditodeProtá-goras... [o qual]...argumenta a partirda relatividade
do
ser edo
co-nhecimento... Antístenes caracteristicamente refuta o subjetivismodo conhecimento
pela asserçãodeuma
doutrinaobjelivistaaoextre-mo"".
A
impossibilidade de contradição,em
Protágoras, decorre daafirmação de
que
"todasas aparênciaseopiniões são verídicas" ou,como
diz-nos Ross, "todas as vezes queA
aparececomo
sendo B,é B"". Assim,como
todas asaparências são verdadeirasecomo
osho-mens
têm
opiniões contraditórias, "todas as declarações elevem serigualmente verdadeiras e falsas"
14
, pois, se
A
diz que 'S é P', estarácom
a razão,e,do
mesmo
modo,
Bsedizque
'5 inão-?'.No
entanto,A
considerará'5énâo-P'como
falsae vice-versa. Portanto,adoutrinado
'homem
medida
de todas as coisas' (o relativismo) envolve ane-gaçãoimplícita
do
princípio denão-contradição.É
fácilnotarqueestanãoé aposiçãode Antístenes.A
suaafirmaçãodaim-possibilidadeda contradição está fundada,
como
vimos
acima,no
princí-pioda dXXo8oÇía, naimpossibilidadededizer o falsoque, porsuavez,
de-corre da aderência dos ovo\iara às TrpâyLiaTa, o
que conduz
não aum
relativismomas
aum
resoluto objetivismo.Passemos
agora à possibilidade da conexão entre Heraclito, Crátilo e Antístenes:Tantoos heraclíticos quantoAntístenes
afirmam
a impossibilidade decontradição. Heraclito, porém, "nega oprincípiode contradição
com
base na transitividade e relatividade da própria realidade; o cerne de suaposi-çãoé adoutrinade
que
os contráriosnãoseexcluem
um
aooutro.A
partir51 Gillespie."Thc Logicof...r,pp.487-8. 52 Aristóteles,Mel.,IV51009a8-9.
53 Ross.Arisitííeles.p. 167. 54 Aristóteles, Mel..IV51009a 9.
116 [ AldoLopes Diriuccí
disto, tanto Platão
como
Aristótelesdeduzem como
conclusão lógica [da posiçãoberaclítica) aasserçãodeque
todaproposiçãoéverdadeira"""1
".
No
entanto, Antístenesnão
toma
ofluxoheraclíticopara afirmaraimpossibili-dade
de contradição. Pelo contrário, a partir de sua doutrina decorre "apossibilidade da verdadeobjetiva"".
Não
obstante,permanece
aquestão:porque Platão apresentariaa posi-ção de Antístenesno
Crdíiio defendida porum
personagem
chamado
de'Crátilo'?
Não
éjustamente oCrálilo históricoqueéapresentado porAris-tóteles
como
o mais radicalde todososheraclíticos?
-*
O
Crálilo histórico—
sugereGillespie™—
estavaaparentementetãoabsorvi-dopelaideiadofluxoperpétuo daexistênciaqueelenãopoderia sequer
no-mearas coisas,masapenasapontá-las
com
odedo.Como
o'Crátilo'platóni-co faz dos
nomes
o centro de todo conhecimento, devemossupor que elesubstituí [no diálogo]
um
pensador [Antístenes] cujas teorias deveriamserconsideradasdo ponto de vista peculiarde Platão
como
equivalentes aos princípiosheraclíiicos.Apreciando o problema por este ângulo,
dado
o desprezo de Antístenespela teoria das essênciasunase imutáveis,
podemos
considerarquetanto os heraclíticos quanto os seguidores de Antístenes tinhamem
comum
aideia de
que
todasasexistênciasestão condicionadasem
sériestemporais.Outras considerações acerca de
uma
relação mais estreita entre aquelasdoutrinas são inconclusivas.
Assim, Aristóteles
tem bons
motivos para considerar a doutrina deAntístenes
como
uma
concepção
filosóficasuigencris.A
teoriadalingua-gem
de Antístenes tem consequências lógicas e ontológicas que ocolo-cam
em
francaoposição aorelativismode Protágoras,à doutrina dos uni-versaisde
Platão e Aristóteles e ao radicalmobilismo
universalde
Crátilo. Por outro lado, teráem
comum
com
Górgias,como
veremos
imediatamente a seguir, o fato de
que
ambas
as teorias da linguagemcompartilham
oque
chamaremos
juntocom
Aubenque
de princípio da55 Platão, Tcctcto18e;Aristóteles,Mct.1012a24.
56 Gillcspic."TheLogicof..
.
II",p. 18-9
57 lílfni,\b\dcm.
58 Aristóteles.Mel. 1010a 12.
Lógicae Teoriada LinguagememAntístenes | 117
aderência total da palavraedoser. Assim,seAnlístenesnãoé
propriamen-te
um
sofista,não
deixará deestarmuito
maispróximo
delesque
dePla-tão eAristóteles.
3)
Consequências
Lógicas e Linguísticasda
Doutrinade
AntístenesAntístenes,
com
sua teoriade
que
os objetoscomplexos
sãocompostos
porobjetossimplese indefiníveis, evitaa dificuldade, proposta por
Gór-gias,acerca da unidadeeda multiplicidade
do
ser, a qual concorre paraa tese de
que
o uso predicativodo
verbo€luca envolve contradição.No
entanto, a posição de Antístenes descarta a possibilidade das essências unas e, assim, encontra-se
em
franca oposição a Platão e Aristóteles.A
doutrinade Antístenes inviabiliza o projeio aristotélico de ciência,
uma
vez que,paraAristóteles,ciênciaé
sempre
ciênciadeum
génerodetermi-nado. Para Antístenes,
não
há géneros: sedizemos que
'Sócrates ého-mem-sóbio',
homem
e sábionada
mais sãoque
osnomes
dos elementos queconcorrem
paraacomposição
deSócrates, e nãoessênciasou
atribu-tos
ou
géneros imutáveis; aindaque
definíssemoshomem como
animalracional, e,
novamente,
esta fórmulacomo
correspondendo
aviventesen-sível raciona], finalmente chegaríamos aos elementos simples
que
com-põem
Sócrates (ex.: 'Sócrates évivente sensível racionalfilósofo ateniense). Seaciênciaé possívelpara Anlístenes,elasóoéenquanto
ciênciadescri-tiva,
ou
atividade pela qualnomeamos
os elementos derradeiros ebási-cos dos objetos complexos, pois os corpos simples não são passíveis de
definição
—
podem
apenassernomeados mas
são,em
últimaanálise, in-cognoscíveis.Poroutro lado,a teoriada linguagem deAntístenes implicaa
inutilida-deeaimpossibilidadede
uma
lógicaformalcomo
adeAristóteles. As pro-posições válidas paraa lógica formaltêm
desercapazesdeserverdadeirase capazesdeser falsas. Para Antístenes, asproposições válidassão
sempre
verdadeiras. Pode-se pecarpor dXXoSofta,
mas
jamais por i|je€Sea6ai.De
seuprincípiodeáXXoÔocjía decorreaimpossibilidadede contradição. Esta violação
do
princípiode não-contradiçãodestrói as condições de verdade dasproposições. Se Antístenesaceitasse—
o que nãoé,porém, verdade—
asproposições apofânticasdalógica aristotélica, estasseriam
sempre
ver-dadeiras, o quesignificariaafirmaraverdade simultâneadas
118 | AldoLopes Dinucci
termosabstraíeis
ou
variáveis,mas
coisasenomes
essencialmente unidosaelas;a ontologiaea lógicadeAniíslenesdecorrem de suateoria da
lingua-gem,e éjustamenteestaqueAristótelesatacará
no
capítulo4do
livroV daMetafísica.
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