Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro
Mulheres empreendedoras: a produção de artesanato típico do Ceará
Dissertação de Mestrado em Gestão
Hortência Maria Cavalcante Pinto
Professora Doutora Carla Susana da Encarnação Marques
Professor Doutor Francisco José Lopes de Souza Diniz
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UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Escola de Ciências Sociais e Humanas Departamento de Economia, Sociologia e Gestão
Dissertação de Mestrado em Gestão
Mulheres empreendedoras: a produção de artesanato típico do Ceará
Hortência Maria Cavalcante Pinto
Professora Dra. Carla Susana da Encarnação Marques
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Dissertação submetida para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Gestão na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, pela aluna Hortência Maria Cavalcante Pinto, sob a orientação da Professora Doutora Carla Susana da Encarnação Marques e coorientação do Professor Doutor Francisco José Lopes de Sousa Diniz
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DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a minha mãe, Laurelice Cavalcante Pinto; aos meus irmãos Francisco Sálvio, Angélica e Orquídea, pelo incentivo e por acreditarem que, quando se trabalha, todo o sonho se pode tornar realidade.
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AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Carla Susana da Encarnação Marques, e ao coorientador, Professor Doutor Francisco Diniz, pela amizade, pelo apoio e incentivo para a conclusão deste estudo.
Aos meus amigos da SEPLAG, Wagner, Nelson, Gonzalez, Arnaldo, Ricardo, minha chefe Karine e demais amigas, por toda a dedicação e paciência na construção deste trabalho.
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"Inovação é a ferramenta específica do empreendedor, o meio através do qual ele explora a mudança como uma oportunidade para um negócio ou serviço diferente. Isso é capaz de ser apresentado como uma disciplina, capaz de ser aprendido, capaz de ser praticado"
VII ÍNDICE GERAL Índice de Quadros………x Índice de Tabelas……….……….xi Índice de Abreviaturas………..xiii Resumo……….…….xv Abstract……….xvi CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO 1 1.1 Formulação do problema………..2 1.2 Relevância do estudo………...3 1.3 Objetivo………...4 1.4 Estrutura da dissertação ………..5 CAPÍTULO 2 – ARTESANATO ………..6 2.1 Conceitos……….6
2.2 Origem e características gerais do artesanato……….…….8
2.3 Artesanato em números do Brasil ao Ceará………10
2.4 Artesanato no Ceará………10
2.5 Artesanato de renda de bilros no Ceará………...12
CAPITULO 3 - O TRABALHO DAS MULHERES ARTESÃS….………..14
3.1 Caracterização da área geográfica de estudo……….…14
VIII
CAPÍTULO 4 – EMPREENDEDORISMO……….17
4.1 História, origem e conceitos………17
4.2 Características do/a empreendedor/a………...22
4.3 Empreendedorismo no Brasil………...26
4.4 Empreendedorismo feminino………...33
CAPÍTULO 5 – METODOLOGIA………...…41
5.1 Abordagem metodológica……….….41
5.2 População e amostra………...46
CAPÍTULO 6 - RESULTADOS DO ESTUDO EMPÍRICO………47
6.1 Características socioeconómicas das mulheres rendeiras do Centro de Rendeiras de Aquiraz………47
6.2 Características empreendedorísticas das mulheres rendeiras do Centro de Rendeiras de Aquiraz………....53
6.3 Correlação entre o perfil das mulheres rendeiras do Centro de Rendeiras de Aquiraz e o perfil do empreendedorismo feminino……….………..60
6.3.1 Nível de instrução versus razão da associação……….…………..60
6.3.2 Rendimento mensal versus razão da associação…………...…………....62
6.3.3 Nível de instrução versus atitude perante os obstáculos………62
6.3.4 Nível de instrução versus igualdade com o homem para trabalhar fora de casa……….….63
IX
CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
7.1 Características socioeconómicas das mulheres do Centro de Rendeiras
de Aquiraz………..64
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS………66
APÊNDICE I………....73
APÊNDICE II………..82
ANEXO I– Mapa de Localização do Município de Aquiraz-Ceará………...93
ANEXO II– Mapa da Vulnerabilidade Ambiental da Região……….94 Metropolitana de Fortaleza
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ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1 – População por Género……….. 14 Quadro 2 – Caracterização da Pesquisa ………..45
XI
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1– Rendeiras segundo o nível de instrução……….…48
Tabela 2– Rendeiras segundo a faixa etária………... 48
Tabela 3 – Rendeiras segundo o estado civil………...49
Tabela 4 – Distribuição de frequência do número de filhos……….. 49
Tabela 5 – Rendeiras segundo a relação com o mercado formal de emprego…………50
Tabela 6 – Rendeiras segundo o desempenho de atividades fora da associação………50
Tabela 7 – Rendeiras segundo o tipo de atividade exercida fora da associação…..…..51
Tabela 8 – Rendeiras segundo a situação antes de ingressar no grupo………..51
Tabela 9 – Rendeiras segundo o rendimento mensal……….…52
Tabela 10 – Rendeiras segundo o rendimento familiar mensal……….52
Tabela 11 – Rendeiras segundo os principais motivos para se organizarem……… em associação……….53
Tabela 12 – Caracterização do grupo de trabalho………53
Tabela 13 – O que pode melhorar na associação……….54
Tabela 14 – Rendeiras segundo a contribuição para o orçamento doméstico……….54
Tabela 15 – Rendeiras segundo a atitude perante os obstáculos……….55 Tabela 16 – Rendeiras segundo o número de horas de trabalho renumerado………….
XII
por dia………..55
Tabela 17 – Rendeiras segundo o principal motivo de exercer a atividade………….56
Tabela 18 – Opinião quanto à mulher estar ou não em condições de ………. igualdade com o homem para trabalhar fora de casa……….56
Tabela 19 – Rendeiras segundo as vantagens de trabalhar na associação………57
Tabela 20 – Caracterização do trabalho de dona de casa……….57
Tabela 21 – Rendeiras segundo a opinião sobre o trabalho fora de casa………..58
Tabela 22 – Rendeiras segundo a importância do trabalho produzido……….58
Tabela 23 – Rendeiras segundo a imagem que as pessoas fazem do seu trabalho……59
Tabela 24 – Rendeiras segundo a opinião acerca da importância da família………….59
Tabela 25 – Rendeiras segundo as atividades de lazer………..60
Tabela 26 – Nível de instrução versus motivo da associação………61
Tabela 27 – Rendimento mensal como razão da associação………..62
Tabela 28 – Nível de instrução versus atitude perante os obstáculos………63
Tabela 29 – Nível de instrução versus a opinião de que a mulher está em……… situação de igualdade com o homem para trabalhar fora de casa…………64
XIII
LISTA DE ABREVIATURAS
ABN & Trading – Empresa Especializada em Comércio Exterior ADES – Agência de Desenvolvimento Económico e Social
ANPROTEC – Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos e
Tecnologias Avançadas
BNB – Banco do Nordeste e do Brasil
CEAG – Curso de Especialização em Administração para Graduados
CEART – Central de Artesanato do Ceará
CEFEI – Centro Empresarial de Formação Empreendedora de Itajubá
CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife
CNI – Confederação nacional das Indústrias
DESCRIPTIVES – Estatísticas de Disciplina em Quantidade
EFEI – Escola Federal de Engenharia de Itajubá
EI – Empreendedorismo Individual
EUA – Estados Unidos da América
FEA – Faculdade de Economia Administrativa FREQUENCIES – Tabela de Frequências
GEM – Global Entrepreneurship Monitor
GEPE – Grupo de Estudos da Pequena Empresa
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IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBOP – Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade
MDIC – Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior MPEs – Micro e Pequenas Empresas
OSCIP – Organização da Sociedade Civil e Interesse Público
PAB – Programa de Artesanato Brasileiro PIB – Produto Interno Bruto
PSMN – Premio SEBRAE Mulher de Negócios
SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SOFTEX – Sociedade Brasileira para Exportação de Software
SPSS – Programa Essencial para Trabalhar com Estatística
STDS – Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social
SUNMARIES – Resumo Estatístico
SWOT – Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças TAE – Taxa de Atividade Empreendedora
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
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RESUMO
A presente dissertação teve como objetivo investigar o perfil das mulheres rendeiras associadas ao Centro de Rendeiras de Aquiraz, na perspetiva do empreendedorismo feminino, levando em consideração as características socioeconómicas destas mulheres. Para tanto, foi feita uma pesquisa bibliográfica e documental sobre os conceitos, a origem e características gerais do artesanato no Ceará, com destaque para a renda de bilros, a par de uma investigação sobre a origem, história, conceitos e características do empreendedorismo no Brasil, de um modo geral, e do empreendedorismo feminino, em particular. Foram investigadas 50 rendeiras dos distritos do Iguape e da Prainha, todas associadas ao Centro de Rendeiras de Aquiraz, no município do Ceará. Tratou-se de um estudo de natureza quantitativa e qualitativa, no que diz respeito à abordagem do problema, e descritivo e exploratório quanto aos objetivos. Em termos da abordagem técnica, este é um estudo de caso. Os dados foram recolhidos através de um roteiro de entrevistas estruturadas, com 25 questões cada, que foram posteriormente analisadas através de técnicas estatísticas descritivas. Em relação às características socioeconómicas, os resultados da pesquisa indicam que, em média, as rendeiras têm o ensino fundamental completo e idade compreendida entre 48 a 64 anos; são casadas, com filhos, e auferem um rendimento mensal entre R$ 1201,00 e R$1600,00. Em relação às características empreendedorísticas destas mulheres, observou-se que o principal motivo para se organizarem em atividades associativas foi a complementação dos seus rendimentos. No geral, são otimistas em relação ao sucesso da associação, trabalham entre 6 a 8 horas por dia, consideram-se em condições de igualdade com o homem para trabalhar fora de casa, dão igual valor ao trabalho doméstico e ao trabalho fora de casa, valorizam o trabalho produzido, destacam a importância da família e têm como principal atividade de lazer visitar amigos e familiares. No que se refere à correlação entre as características socioeconómicas e o empreendedorismo, foram encontradas evidências de que existe uma relação entre o nível de instrução e os motivos para serem associadas, como a flexibilidade de horário, a superação das dificuldades com a ajuda dos amigos e a igualdade de condições de trabalho com o homem.
Palavras-chave: artesanato; empreendedorismo; empreendedorismo feminino;
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ABSTRACT
The current study looked into the profile of the female lace makers and weavers belonging to the Aquiraz Female Artisans Weaving Centre taking into account their socioeconomic characteristics in a female entrepreneurship perspective. Therefore, a bibliographic and documentary research was conducted on the concepts, origin and general characteristics of Ceará handicraft, namely of the bilros lace, as well as on the history, origin, concepts and characteristics of Brazilian entrepreneurship in general and female entrepreneurship in particular. Fifty women lace makers and weavers from Iguape and Prainha districts were interviewed, all of them members of the Aquiraz Female Artisans Weaving Centre in Ceará state. A qualitative and quantitative analysis was used to address the problem; as regards the goals of the study, a descriptive and exploratory research was conducted; finally, the technical approach was done in the form of a case study. Data were collected through structured interviews based on a guide consisting of 25 questions that were analysed using descriptive statistical techniques. In terms of the socio-economic characteristics, results indicate that the average of the artisans have a basic school degree, are between 48 and 64 years old, married, with children and earn between R$ 1,201.00 and R$ 1,600.00 a month. As to their entrepreneurial characteristics, it was observed that the main reason why they joined the Centre was to supplement their income. In general, they are optimistic about the success of the Centre, work 6 to 8 hours a day, consider themselves in a position of equality with men to work outside the home, view both the domestic and the outside work as equally important, value the work they produce, highlight the importance of the family and have as their main leisure activity visiting friends and family. As regards the correlation between socio-economic characteristics and entrepreneurship, there was evidence of a relationship between the level of education and the reasons for being associated like flexible hours, overcoming difficulties with the help of friends and having the same working conditions as men.
Keywords: handicraft; entrepreneurship; female entrepreneurship; socioeconomic characteristics
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CAPÍTULO 1 -- INTRODUÇÃO
As transformações sociais e económicas decorrentes da globalização refletiram-se na realidade brasileira, provocando mudanças tanto nas organizações corporativas, como na sociedade e nas famílias. Para atender às exigências do novo mundo do trabalho e à ênfase colocada na inovação tecnológica, na competitividade e no empreendedorismo, as organizações tiveram de passar por mudanças estruturais, tecnológicas, produtivas e gerenciais. As mudanças ocorridas no âmbito social, político, cultural e económico, levaram a alguns avanços sociais, como a conquista da cidadania por parte da mulher.
Neste novo cenário, a autonomia pessoal e económica da mulher é condição indispensável para o exercício de sua cidadania. Soares (2006, p.120) admite que “a falta de autonomia económica, expressa na capacidade de gerar renda própria, coloca as mulheres em uma situação mais vulnerável e aumenta a possibilidade de que […] mulheres caiam na pobreza”.
Com base no pensamento deste autor, entende-se que o empreendedorismo e o desenvolvimento da cidadania caminham juntos no alcance da autonomia pessoal e económica da mulher. Corroborando, esta visão, Vinicius Lummertz, então presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas/SEBRAE, afirmava, em 2001, que o empreendedorismo não pode preceder a cidadania e que no Brasil precisamos de educação, amplo apoio financeiro e uma noção de legitimidade social do empreendedorismo.
É neste contexto de desenvolvimento que surge a necessidade de criação de emprego e renda para as mulheres, facto que pode ser explicado pela necessidade económica, pela oportunidade de trabalho, ou pela redução do número de filhos, razões que permitem às mulheres uma maior disponibilidade de tempo até para alargarem o seu nível de escolaridade. Foi, também, neste cenário que, em 1991, surgiu no Ceará o Movimento de Mulheres Empreendedoras.
Esta dissertação teve como tema o empreendedorismo feminino no contexto socioeconómico em que mulheres rendeiras associadas ao Centro de Rendeiras de Aquiraz, no município do Ceará, desenvolvem uma atividades produtiva artesanal com geração de renda.
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Para tanto, realizou-se uma pesquisa documental e bibliográfica sobre os seguintes temas: conceito, origem e características gerais do artesanato no Ceará, com destaque para a renda de bilros; origem, conceitos e características gerais do empreendedorismo no Brasil; e empreendedorismo feminino. Serviram de referência os estudos de teóricos como Dolabela, Dornelas, Jonathan, Filion e Drucker
A pesquisa empírica centrou-se no artesanato do Ceará, desenvolvido pelas mulheres rendeiras, nativas dos distritos de Prainha e Iguape, pertencentes ao município de Aquiraz e associadas ao Centro das Rendeiras de Aquiraz.
Definido o referencial teórico, estabeleceram-se os procedimentos metodológicos da pesquisa, classificada como qualitativa/quantitativa quanto à abordagem do problema; descritiva e exploratória quanto aos objetivos; e estudo de caso quanto a abordagem técnica.
Este capítulo, além da abordagem introdutória e da contextualização do tema mulheres empreendedoras, apresenta, ainda, a formulação do problema, a relevância do estudo, os objetivos e a estrutura do trabalho.
1.1 Formulação do problema
A evolução da economia que teve lugar a partir da década de 1990 trouxe, ao longo do tempo, consequências positivas e negativas. A desregulação do mundo do trabalho, a flexibilização e as alterações aos direitos trabalhistas são algumas dessas consequências. A partir daí, diferentes atividades suscetíveis de criarem trabalho emergiram como alternativas ao desemprego, com destaque para o emprego flexível e o trabalho informal. Para contrabalançar os efeitos negativos deste cenário, o governo do estado do Ceará definiu políticas e programas sociais de geração de emprego e renda, para segmentos específicos do mercado, concretamente, pessoas portadoras de deficiência, jovens e mulheres.
Godinho (2004) explica que é fundamental a implementação de ações que permitam às mulheres reverter situação de desigualdade, principalmente a promoção de propostas que
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possibilitem a ampliação das condições de autonomia pessoal e autossustentação, de forma a favorecer o rompimento com os tradicionais ciclos de dependência e subordinação da mulher. Barbosa, (2001, p. 96) acredita que tal realidade se configura com:
a valorização da auto-estima, na medida em que essas experiências (empreendedoristas) recolocam os trabalhadores em atividade para sustento próprio e da família […] conseguindo associar com a vida familiar, mediação para maior autonomia pessoal – diminuição da dependência financeira.
Desta forma, o presente trabalho pretende contribuir para uma melhor compreensão do empreendedorismo feminino no contexto local, analisando diferentes aspetos que compõem a experiência das mulheres rendeiras, tendo por base a seguinte questão:
Que características suscetíveis de se enquadrarem no perfil de empreendedorismo feminino evidenciam as mulheres rendeiras associadas ao Centro de Rendeiras de Aquiraz, tendo em conta as suas características socioeconómicas, e a sua condição de mulheres oriundas de uma vila de pescadores, localizada nas praias de Iguape e Prainha?
1.2 Relevância do estudo
Com a globalização da economia, muitas empresas brasileiras tiveram de procurar alternativas para manter-se no mercado (Dornelas, 2008). Consequências imediatas desse cenário foram o aumento do desemprego, a criação de novos negócios, a mudança de status - patrão e não mais empregado - e, ainda, o crescimento da economia informal, entre outras. Daí, segundo Dorneles (2008), o interesse despertado pelo tema empreendedorismo, tanto no meio acadêmico como no governo, que, em 1999, criou o Programa Brasil Empreendedor cuja meta inicial era a de capacitar mais de um milhão de empreendedores brasileiros. Timmons (1990, apud Dornelas, 2008, p. 8) acredita que o “empreendedorismo é uma revolução silenciosa, que será para o século XXI mais do que a Revolução Industrial foi para o século XX” e Damasceno (2010) lembra que a participação feminina no mercado de trabalho cresceu significativamente nas últimas décadas e
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que as mulheres estão presentes em todos os segmentos e classes empresariais, não obstante ainda existirem desigualdades de oportunidades no mundo do trabalho, diferenças de rendimentos entre os géneros e obstáculos aos planos de ascensão a cargos de chefia.
Segundo uma pesquisa realizada pelo SEBRAE (2010), os negócios geridos pelas mulheres, no mercado formal e informal, constituem quase metade do universo da pesquisa; os resultados revelam que, entre os empreendedores iniciais, 50,7% são homens e 49,3% mulheres. De acordo com outra pesquisa, publicada pelo Global Entrepreneurship Monitor – GEM (2010), dos 21,1 milhões de empreendedores brasileiros, 10,7 milhões pertencem ao género masculino e 10,4 milhões ao feminino. Os dados apresentados tanto pelo SEBRAE (2010) como pelo GEM (2010) confirmam a significativa participação das mulheres no empreendedorismo e a sua contribuição económica para o desenvolvimento do Brasil.
1.3 Objetivos
O presente trabalho tem por objetivo investigar o perfil das mulheres rendeiras associadas ao Centro de Rendeiras de Aquiraz, verificando em que medida podem ser designadas como empreendedoras, levando em consideração as suas características socioeconómicas.
De modo a melhor alcançar este objetivo, definiram-se os seguintes objetivos específicos: identificar as características socioeconómicas das mulheres do Centro de Rendeiras de Aquiraz; investigar a relação entre as características socioeconómicas e o perfil das mulheres
5 1.4 Estrutura da dissertação
O presente trabalho está estruturado em sete capítulos, incluindo este, de caráter introdutório. O capítulo II apresenta o conceito do artesanato cearense à luz da legislação federal; em seguida, discorre sobre a origem e as características gerais do artesanato. Na sequência, analisa o tema em números, com base em dados estatísticos resultantes de pesquisa realizada pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Por fim, apresenta um breve histórico do artesanato no Ceará, destacando a renda de bilros. O capítulo III trata do fundamento teórico da pesquisa, apresentando aspetos relacionados com a origem, história, conceitos e principais características do empreendedorismo, numa visão geral e no Brasil. Na seção final, aborda o empreendedorismo feminino, tema central da pesquisa. No capítulo IV, traça-se o perfil geral do município de Aquiraz, incluindo a caracterização geográfica e os aspetos demográficos do município. Em seguida, apresenta-se o Centro de Rendeiras de Aquiraz. A base metodológica da pesquisa é detalhada no capítulo V, desde o processo de definição da população e da amostra até à discussão do instrumento, dos métodos e do procedimento de recolha de dados. O capítulo VI apresenta a análise dos resultados da aplicação da pesquisa.
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CAPÍTULO 2-- ARTESANATO
Neste capítulo, procurou-se contextualizar o artesanato brasileiro, por meio de uma breve retrospetiva da sua origem e características gerais, bem como estatísticas de pesquisas elaboradas por vários órgãos (SEBRAE, Vox Populi e BNB) a nível nacional e regional, especificamente na região do Nordeste, no Ceará e em Aquiraz, este último sendo o município sobre o qual incide o presente estudo.
2.1 Conceitos
Com a finalidade de estabelecer os parâmetros de atuação do Programa do Artesanato Brasileiro - PAB em todo o território nacional, bem como de regulamentar a profissão de artesão a Secretária de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), emitiu a Portaria nº 29 de 5 de outubro de 2010, definindo que:
Art. 2º ARTESÃO é o trabalhador que de forma individual exerce um ofício manual, transformando a matéria-prima bruta ou manufaturada em produto acabado. Tem o domínio técnico sobre materiais, ferramentas e processos de produção artesanal na sua especialidade, criando ou produzindo trabalhos que tenham dimensão cultural, utilizando técnica predominantemente manual, podendo contar com o auxílio de equipamentos, desde que não sejam automáticos ou duplicadores de peças.
Art. 4º ARTESANATO compreende toda a produção resultante da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas, aliando criatividade, habilidade e valor cultural (possui valor simbólico e identidade cultural), podendo no processo de sua atividade ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios.
7 § 1º Não é ARTESANATO:
I. trabalho realizado a partir de simples montagem, com peças industrializadas e/ou produzidas por outras pessoas;
II. lapidação de pedras preciosas;
III. fabricação de sabonetes, perfumarias e sais de banho, com exceção daqueles produzidos com essências extraídas de folhas, flores, raízes, frutos e flora nacional.
IV. habilidades aprendidas através de revistas, livros, programas de TV, dentre outros, sem identidade cultural.
§ 2º no artesanato, mesmo que as obras sejam criadas com instrumentos e máquinas, a destreza manual do homem é que dará ao objeto uma característica própria e criativa, refletindo a personalidade do artesão e a relação deste, com o contexto sociocultural do qual emerge (Brasil 2010c).
A base concetual do artesanato expressa pelo MDIC deixa claro que o produto artesanal depende essencialmente da habilidade exercida pelo trabalhador, ao contrário do produto industrializado, que, de certa forma, é impessoal. O produto artesanal expressa a personificação, a sensibilidade do artesão e a identidade da cultura local como valores agregados ao produto final.
A Copa do Mundo, em 2014, transformará o país - e especificamente o Ceará, que sediará alguns jogos da Copa - numa vitrina para o mundo e poderá deixar um legado na área do desenvolvimento económico e social. A Copa contribuirá grandemente para a economia no estado, uma vez que este tipo de eventos desportivos atrai o turismo e novos investimentos. Logo, este é o momento oportuno e deve-se aproveitar essa visibilidade para ampliar a inovação, disseminação e desenvolvimento de novos negócios na área do artesanato, já que se estima que o Ceará tenha à volta de 120 mil artesãos e que 300 mil pessoas participem da cadeia produtiva do artesanato (CEART, 2011). A possibilidade de trabalho com artesanato é enorme, e, hoje, o crescimento que se verifica no setor fez com que o Estado do Ceará também aí visse uma fonte geradora de empregos e promovesse ações estruturantes capazes de possibilitar um efetivo combate à pobreza, criando condições para que essa população migrasse da condição de pobre para não pobre.
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Surgiu, assim, o Projeto Art Copa que representa um novo patamar, uma requalificação do artesanato, expondo a qualidade com design e contemporaneidade. A ideia é que se produzam produtos que exponham a alma do povo cearense, que expressem a identidade cultural e territorial, refletindo a diversidade de estilos do artesanato cearense. A presente proposta tem como território de abrangência municípios pertencentes às oito macrorregiões do Estado, selecionadas a partir do potencial artesanal e do registo de maior número de artesãos cujas ações visam contribuir para o desenvolvimento, fortalecimento e promoção do segmento artesanal cearense em articulação com os demais projetos desenvolvidos no âmbito da Coordenadoria de Desenvolvimento do Artesanato e Economia Solidária da STDS – Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social. A STDS, reúne o perfil técnico, gerencial e administrativo para executar este projeto, pois possui capacidade instalada e conta com profissionais com experiência no recrutamento e seleção de pessoal e na gestão e execução de políticas públicas na área do trabalho e assistência social, além de experiência na área proposta.
2.2 Origem e características gerais do artesanato
A palavra artesanato tem origem no termo francês artisanat e está relacionado e identificado com expressões culturais e manifestações populares. Compreende a criação, produção, distribuição e consumo de bens e serviços caracterizados pelo predomínio de uma dimensão simbólica (Brasil, 2011).
No trabalho realizado de maneira artesanal, insere-se uma das formas mais ricas de expressão cultural e do poder criativo de um povo. Na maioria das vezes, compreende a história da comunidade através da representação e a reafirmação de sua autoestima. Atualmente, agrega-se ao caráter cultural o viés económica, na perspetiva de propiciar impacto na inclusão social, criação de trabalho e renda e potencialização de vocações regionais (Brasil, 2012a).
Pereira (1979) entende que a produção artesanal está inserida na origem do trabalho. O autor argumenta que todas as manifestações artísticas dos povos primitivos eram definidas como artes industriais. Servindo-se da inteligência, desenvolviam, com os recursos disponíveis e as habilidades intrínsecas, o que era preciso para prover às necessidades de sobrevivência e de comodidade, criando um substrato tecnológico cujas raízes estão na base da existência humana.
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Historicamente, no Brasil, a influência colonizadora europeia deu origem a uma sociedade rural, geralmente dominada por latifundiários donos de engenhos e fazendas de gado, em que coexistiam pequenas propriedades apoiadas numa economia de subsistência. A partir dessa realidade, desenvolveu-se a “indústria doméstica,” tendo como base a produção manufatureira. A mão-de-obra existente era basicamente constituída por escravos negros, oriundos de África, que eram explorados no cultivo das terras dos senhores de engenho. No seu quotidiano, ao desenvolver as atividades, aprendiam e utilizavam técnicas de trabalho artesanal. Esta realidade abalou o prestígio dos trabalhos manuais, desencadeando uma forma de preconceito contra quem realizava trabalho artesanal, já que a riqueza estava na exploração da terra e dos minerais.
Com efeito, o trabalho de artesanato era desvalorizado e considerado uma atividade secundária, exercida basicamente por escravos. No entanto, foi o trabalho artesanal que possibilitou o desenvolvimento industrial no mundo moderno. No Brasil, atividades manuais pioneiras como as de carpinteiro, ferreiro, caiador, telheiro, tanoeiro, oleiro, cavador, caldeireiros, carreiro e canteiro, eram exercidas por gente vinda, por exemplo, de Portugal com o objetivo de adquirir riqueza e retornar à sua terra natal (Pereira,1979).
Ao longo do tempo, o processo de trabalho foi-se transformando, as peças artesanais sofreram alterações quanto às suas características, tornando-se competitivas em relação aos seus similares industriais, não perdendo, no entanto, a personalização, o aspeto artístico e cultural intrínseco ao processo de produção (Filgueiras, 2005). Corroborando a noção de pessoalidade expressa por Filgueiras (2005), Santos (2007) entende que o produto artesanal depende da habilidade exercida pelo artesão, expressa a personificação das diferenças culturais capazes de imprimir a sensibilidade e o carinho como valores agregados ao produto final.
O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo. Revela usos, costumes e características de cada região; pode ser erudito, popular e folclórico, manifestado de várias formas, como, por exemplo, nas cerâmicas utilitárias, na funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais (sedenho), no fabrico de farinha de mandioca, nos monjolos de pé de água1, engenhocas, instrumentos de música, tintura popular. E também se encontra nas pinturas e desenhos (primitivos), esculturas, trabalhos em madeira, pedra de guaraná, cera, miolo de pão, massa de açúcar, bijuteria, renda, filé, croché, papel recortado para enfeite.
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Embora se reconheça a importância do artesanato, enquanto atividade informal para a economia de um Estado, no Ceará, esta é, ainda uma atividade marginal com pouco impacto no PIB (Oliveira, C.; Neto, A., 2008). O mesmo não acontece, porém, relativamente à sua importância social, já que é crescente o número de famílias que sobrevivem com o trabalho artesanal, uma realidade particularmente evidente no caso das rendeiras. Não obstante, existem vários entraves ao trabalho dos artesãos – e não apenas das rendeiras – como a fraca qualidade das matérias-primas utilizadas, motivada por razões económicas; os trâmites burocráticos que ainda constituem uma barreira, embora tenha sido criado o Programa Exporta Fácil; a falta de uma rede de contatos a nível internacional; o baixo nível de escolaridade dos artesãos que os deixa sem preparação para responder às exigências dos mercados, principalmente dos mercados estrangeiros; a falta de recursos financeiros que dificulta a aquisição de matérias-primas de qualidade; e as carências no que diz respeito ao transporte das mercadorias (Oliveira, C.; Neto, A., 2008).
Daí que seja imperativo que o governo crie programas voltados, essencialmente, para as mulheres artesãs, fomentando uma política pública de incentivos à atividade, como a dotação de equipamentos e estruturas físicas adequadas, financiamento e capacitação, através, nomeadamente, de cursos com a chancela do SEBRAE.
2.3 Artesanato em números do Brasil ao Ceará
No Brasil, segundo Djau (2012), o artesanato movimenta a economia com um encaixe de 52 biliões por ano, estimando-se que haja 8,5 milhões de artesãos em atividade no país, com um faturamento médio mensal de um salário mínimo, de acordo com dados retirados da pesquisa do Vox Populi. Ainda de acordo com a referida pesquisa, as mulheres predominam no universo artesanal brasileiro, situando-se a idade média dos artesãos acima dos 40 anos.
Em termos nacionais, o artesanato brasileiro tem conquistado espaço e adquirido importância no resgate e na preservação da cultura popular, principalmente no que toca aos incentivos ao desenvolvimento económico
2.4 Artesanato no Ceará
No Nordeste, o artesanato está presente em mais de 600 municípios. O estado do Ceará ocupa o 2º lugar em termos de percentagem de municípios com atividade artesanal, em torno de 76,1%, perdendo apenas para Sergipe, que conta com 86,7% dos municípios com atividade
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artesanal (SEBRAE, 2011). Dos 184 municípios do estado do Ceará, o artesanato das rendas está presente em 31 municípios, o que representa 16,85% da totalidade (Brasil, 2010b).
No Ceará, o artesanato não se fica apenas pela produção rendeira. Estende-se até, aos trabalhos em madeira, argila, couro, pedra, entre outras matérias-primas. Os artesãos/artesãs, aqui, e um pouco por todo o Brasil, são, na sua maioria, pessoas de poucos recursos económicos, com baixa escolaridade e que, para além disso, ignoram as regras de funcionamento dos mercados o que, cria obstáculos á comercialização dos seus produtos, nomeadamente a nível de exportação. Nesta conjuntura, aceitam o escoamento dos seus produtos pela mão de intermediários que, naturalmente, tiram vantagem da sua falta de informação e retêm para si mesmos a maior percentagem dos lucros.
Nos últimos tempos, alguns destes artesãos têm-se unido em associações de modo a proteger os seus interesses e agilizar a comercialização dos seus produtos. Porém, isso é feito ainda de forma isolada e não existe comercialização direta do artesanato no mercado externo. De resto, os artesão enfrentam, ainda, inúmeros entraves de natureza burocrática o que, aliado à falta de uma rede de contatos e á falta de recursos financeiros, torna o escoamento dos produtos e o reconhecimento da sua atividade que daí advém numa barreira que urge transpor. De assinalar, no entanto, que alguma coisa tem vindo a ser feita, como o Programa Exporta Fácil que, como o nome indica, se destina a agilizar a venda ao exterior do artesanato local.
Como já foi referido, a imagem do Ceará está ligada à mulher rendeira e este trabalho ocupa um lugar de destaque nas vidas destas artesãs. Contudo, merecem, igualmente, destaque as peças de cerâmica em barro para uso doméstico ou decorativo. O trabalho com o barro no Ceará é tão presente que proporcionou o maior número de Mestras da Cultura Tradicional do Estado na área de artesanato.
Segundo o SEBRAE (2011), a atividade de artesanato no Nordeste classifica-se em 11 tipologias e inclui 57 segmentações. As tipologias mais frequentes no Ceará são: a renda e o bordado, a tecelagem e a cerâmica. Estima-se que existam na região a aproximadamente 3,3 milhões de artesãos. Dentre outros órgãos, o BNB, destaca-se como parceiro dos programas de desenvolvimento do artesanato.
12 2.5 Artesanato de renda de bilros no Ceará
A renda é uma modalidade de artesanato têxtil que surgiu no fim da Idade Média, entre os séculos XV e XVI. A criação da renda é reivindicada pela Flandres e pela Itália. Os flamengos reivindicam para si a invenção da renda de bilros e a Itália exige a patente da renda de agulhas, de onde nasceu a renda renascença (SEBRAE, 2011, b).
No Brasil, segundo Soares (2013), a origem da atividade de renda de bilros remonta às portuguesas chegadas no período colonial, facto considerado relevante na medida em que existem rendeiras em diversas regiões do país, particularmente na região onde se fixaram os portugueses originários dos Açores, isto é, nos estados do Ceará e Santa Catarina. No início, era um trabalho desempenhado pelas mulheres mais pobres, geralmente esposas de pescadores, jangadeiros ou de trabalhadores braçais que viviam em comunidades onde não havia indústrias instaladas ou ocupação na lavoura. A mulher rendeira faz parte do imaginário popular brasileiro; é transmissora de um conhecimento que permeia a história de muitas famílias que ainda hoje tentam transmitir para as novas gerações um quotidiano que, além de tradicional, se adapta às necessidades do mundo do trabalho.
As rendas classificam-se em duas categorias distintas de acordo com a forma como são produzidas e as características dos materiais utilizados no processo de produção. Nóbrega (2005, p. 35) define-as da seguinte maneira:
Na primeira classe encontram-se aquelas produzidas com auxílio de bilros. O bilro é um pequeno instrumento constituído de uma curta haste em que uma das pontas apresenta uma terminação esférica. Na ponta oposta enrola-se uma quantidade de linha que é presa a um padrão que contém o desenho de renda a ser executada. Para se produzir um renda desse tipo se faz necessário trabalhar com vários bilros simultaneamente, que vão sendo embaralhados em um dado sentido e com isso vão se cruzando os fios presos a eles, fazendo a renda surgir gradativamente. A quantidade de bilros empregados varia de acordo com a complexidade da renda a ser confeccionada.
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À segunda classe pertencem as rendas confecionadas com agulhas.
As agulhas empregadas para a execução de alguma dessas peças artesanais são as mesmas utilizadas para a costura doméstica em geral, e são com elas produzidas a renda de renascença, o filé e o labirinto. Em outros casos utilizam agulhas especiais, como para a produção do tricô e crochê. Nóbrega (2005, p. 35)
O bilro é colhido a partir de árvores. O enchimento da almofada que dá suporte aos fios é feito de folhas secas de bananeira. Os alfinetes que prendem os fios e o molde à almofada são espinhos de catos de diferentes tamanhos. Os nomes dados aos diferentes tipos de renda são definidos de acordo com os instrumentos utilizados para sua confeção, pois são eles que conferem ao tecido um ou outro desenho. O labirinto consiste numa renda criada a partir da desfiadura do linho corrido com a ajuda de uma agulha. O paletão2 é o bordado criado sobre o tecido vazado. Segundo Zanella, Balbinot e Renata (2000), no decorrer dos anos, o processo histórico modificou a atividade de tecelagem da renda de bilros. Anteriormente, a renda de bilros destinava-se a ornamentar casas e igrejas; mas, com o passar do tempo e a realidade fragilizada da situação económica das localidades, passou a ser encarada como alternativa para complementação do orçamento familiar. Daí que este tipo de artesanato, atualmente, supere as tradições e se integre na cadeia de atividades económicas das comunidades.
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CAPÍTULO 3 – O TRABALHO DAS MULHERES ARTESÃS
3.1 Caracterização da área geográfica do estudo
O estado do Ceará, que tem como capital a cidade de Fortaleza, está localizado na região Nordeste do Brasil. Tem uma área de 148 920,538km², dividida por 184 municípios, e uma população de 8 452 381 habitantes, 6 346 557 dos quais residem em áreas urbanas e 2 105 824 em áreas rurais, com uma densidade demográfica de 56,76 hab/km² (BRASIL, 2010a). Dos 184 municípios do estado, o de Aquiraz foi escolhido para a realização da pesquisa empírica.
A cidade de Aquiraz está localizada na costa leste do litoral, a 27 km de Fortaleza, e tem uma população de 72 628 mil habitantes distribuídos por uma área de 480,976 km² (IBGE, 2010).
Quadro 1 – População por género
Género Número %
Homens 37 130 51,12%
Mulheres 35 498 48,88%
Total 72 628 100,00%
Fonte: IBGE (2010)
Aquiraz é um topónimo em língua tupi-guarani e significa "água logo adiante". A, então, vila de Aquiraz surgiu no final do século XVII, sendo sede administrativa da capitania do Siará Grande, (Ceará) até 1726. Por volta de 1710, começou a ser designada por “São José de Ribamar do Aquiraz”, mas, a partir de 1915, o seu nome fixou-se, definitivamente, em Aquiraz. A história de Aquiraz é o produto da fusão dos primeiros habitantes dessa terra, os índios potiguaras e outras tribos tupis, com os portugueses, nomeadamente os religiosos e os militares, que vieram para o Brasil com o objetivo de catequizar os índios e proteger o território brasileiro contra a invasão de outros povos europeus.
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Aquiraz ficou conhecida como “a primeira capital do Ceará”. No seu perímetro central, em torno da praça Cônego Araripe, com características da missão jesuítica, localizam-se as principais construções de interesse histórico e arquitetónico. Destacam-se, sobretudo, a Igreja Matriz de São José de Ribamar, construída no século XVIII, com predominância de traços barrocos e neoclássicos, tendo, no altar a imagem do padroeiro da cidade, São José de Botas; a antiga Casa da Câmara e Cadeia, construída no início do século XVIII e concluída em 1877, atualmente sede do Museu Sacro São José de Ribamar, contendo um acervo de mais de 600 peças de caráter religioso dos séculos XVII, XVIII e XIX; o Mercado da Carne, atualmente Mercado das Artes, datado do século XIX, impressionante pela técnica da construção com recurso à carnaúba e ao tijolo adobe; a Casa do Capitão- Mor, conhecida como casa da Ouvidoria, nome do primeiro núcleo judiciário do Ceará, rica em detalhes, e com uma atmosfera nostálgica marcada pelas botijas3, fugas de escravos e pela bravura e sagacidade do temido capitão-mor; e o Sítio Colégio, conhecido como “Hospício dos Jesuítas”, que no linguajar da época, significava “posto de hospedagem”. Ainda existem nas ruas do centro de Aquiraz vestígios do passado de riqueza da aristocracia portuguesa da época, patente nos sumptuosos casarões de arquitetura típica de Portugal e do sertão.
Importa destacar que as rendeiras, objeto do presente estudo, concentram-se nas praias do Iguape e da Prainha ambas no município de Aquiraz. A praia do Iguape, localizada a 38 km da cidade de Fortaleza, é constituída por uma vila de pescadores e tem como principais atividades económicas o turismo, a pesca e o artesanato. Já a Prainha, situada na foz do rio Catu, é famosa pelo artesanato local, especialmente as rendas. Está localizada a 26 km de Fortaleza e possui uma ampla infraestrutura turística.
3.2 Centro das Rendeiras de Aquiraz
No Brasil, a maior concentração de rendeiras situa-se nos municípios de Aquiraz, Aracati, Beberibe, Itapipoca, Acaraú e Trairi (Lemos, 2011)
O artesanato das rendeiras no município de Aquiraz é uma atividade económica de tradição no Brasil, atraindo turistas de todas as regiões. Aquiraz concentra a produção e comercialização de artesanato nos distritos da Prainha e Iguape, vilarejos do litoral onde existe
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uma concentração de pescadores. A tipologia do artesanato em renda é a mais tradicional e difundida nesses dois vilarejos, tanto a renda de bilros como o paletão de labirinto, conhecido em Portugal como ponto de crivo. A produção de rendas alcança a excelência nos pequenos vilarejos do litoral do estado do Ceará. O ofício de rendeira é praticado em casa, de forma não assalariada, concentrando mulheres associadas na arte de fazer renda dentro dos espaços da comunidade, acompanhadas de vizinhas ou parentes que se unem com o propósito de distração e no exercício ocupacional da atividade (Maynard, 1967).
Na Prainha e no Iguape, uma parcela significativa de rendeiras está organizada em associações, de forma cooperada, com vista a melhorar as vendas e o rendimento mensal, como é o caso de 148 mulheres rendeiras, associadas aos centros de rendas localizados nessas praias. Outras rendeiras desenvolvem as suas atividades de forma isolada, individualmente, em suas casas e comercializam a produção de forma dispersa pela praia ou de porta em porta nas casas e pousadas. O trabalho desenvolvido pelas mulheres rendeiras é um daqueles ofícios tradicionais e hereditários passados de mãe para filha, de geração em geração. Assim, na sua maioria, as rendeiras são filhas de pescadores e mães de rendeiras (Schmidt, 2010). O trabalho desenvolvido nos dois centros de rendas é similar, distinguindo-se, apenas, na linha utilizada, a mais fina pelas rendeiras da Prainha e a mais grossa, como a do croché, pelas rendeiras do Iguape (Schmidt, 2010).
O Centro das Rendeiras Miriam Mota, no Iguape, construído à beira-mar, conta, atualmente, com 70 rendeiras associadas. A Associação de Rendeiras da Prainha foi criada há 30 anos pela então primeira-dama do estado do Ceará, D. Luíza Távora, para centralizar o comércio do artesanato regional. Atualmente, o Centro de Rendeiras da Prainha conta com 54 rendeiras associadas.
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CAPÍTULO 4 -- EMPREENDEDORISMO
Com base no trabalho de autores como Dornelas (2008), Dolabela (2009), e Filion (1999), segue-se uma análise sobre empreendedorismo, visando aspetos relacionados com a sua origem, história e conceitos fundamentais, seguida de uma abordagem relativa ao empreendedorismo no Brasil, às características que definem um/a empreendedor/a e por fim, ao empreendedorismo feminino, foco central deste estudo.
4.1 Origem, história e conceitos
O termo empreendedorismo deriva do verbo empreender – do latim prehendere – que significa resolver, praticar, contornar dificuldades. Surge, normalmente, no contexto do mundo empresarial e está associado à criação de empresas ou de novos produtos. Frequentemente, manifesta-se na capacidade dos indivíduos de identificar oportunidades de negócio e de as concretizar de forma a obter lucro. Por meio do empreendedorismo, é possível gerar riqueza através da criação de novos produtos, da utilização de métodos inovadoras de produção e de novas formas de organização, numa dinâmica que impulsiona o conhecimento ao mesmo tempo que dele faz uso.
O termo empreendedor teve origem em França, tendo sido utilizada pela primeira vez no início do século XVI para designar os homens envolvidos na coordenação de operações militares. Por volta dos séculos XVII e XVIII, passou a significar aquele que assume riscos e começa algo novo. Um dos primeiros a utilizar o termo entrepreneur foi o economista francês Jean Baptiste Say para designar indivíduos capazes de proporcionar valor ao estimular o progresso económico através de novas e melhores maneiras de fazer as coisas (Alves, 2008). Por volta de 1765, o termo passou a aplicar-se às pessoas que se associavam com proprietários de terras e trabalhadores assalariados. Nessa mesma época, era também utilizado para denominar pessoas com espírito aventureiro como construtores de pontes, empreiteiros de estradas e arquitetos.
Dornelas (2008) considera importante fazer uma análise histórica do processo de desenvolvimento da teoria do empreendedorismo. Para o autor, pode-se dizer que o primeiro
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empreendedor foi Marco Pólo ao tentar estabelecer uma rota comercial para o Oriente, após concordar em vender as mercadorias de um homem que possuía dinheiro. Assim, enquanto o capitalista assumia os riscos de forma passiva, o empreendedor aventureiro assumia o papel ativo, correndo riscos físicos e emocionais.
O irlandês Richard Cantillon, importante escritor e economista dos finais do século XVII, foi considerado por muitos um dos criadores do termo empreendedorismo, tendo sido um dos primeiros a diferenciar o empreendedor – aquele que assumia riscos – do capitalista – aquele que fornecia o capital (Dornelas, 2008).
Em Inglaterra, em 1776, Adam Smith caracterizava o empreendedor como um capitalista, aquele que detinha o capital capital e, ao mesmo tempo, o administrava, mediando as relações entre o trabalhador e o consumidor. O conceito de Adam Smith refletia a tendência da época de considerar o empreendedor como alguém que visava apenas o lucro e consequente acumulação de riqueza.
No final do século XIX, início do século XX, de acordo com Dornelas (2008), os empreendedores foram confundidos com gerentes ou administradores, conceção que, sob o ponto de vista económico, vigora até aos nossos dias, sendo os empreendedores definidos como aqueles que organizam a empresa, pagam aos empregados, planeiam, dirigem e controlam as ações desenvolvidas na organização, mas sempre ao serviço do capitalismo.
Alfred Marshall, em Principles of Economics (1890), afirmava que a terra, o trabalho, o capital e a organização constituíam os quatro fatores de produção e o empreendedorismo o cimento que os ligava.
Somente em 1911, com a publicação da obra Teoria do Desenvolvimento Económico, de Joseph A. Schumpeter, o termo empreendedor adquiriu um novo significado. Para Schumpeter, o empreendedor e a sua função não são difíceis de conceptualizar; a característica que define ambos é simplesmente a de fazer novas coisas ou fazer algo que já foi feito anteriormente mas de uma maneira, essa sim, nunca antes experimentada (citado por Michael, 2007, p. 288).
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Na opinião de Cleeg e Hardy (1998) novas perspetivas, novos debates têm contribuído para maior diversidade, mais discordância, mas, também, mais motivos para o diálogo e o debate. Com efeito, os conceitos de inovação e empreendedorismo mudaram, da mesma forma que mudaram os modos de encarar, executar e praticar estes conceitos em todo o mundo, uma ideia veiculada por Dolabela (1999).
Cantillon descreveu o empreendedor como alguém que corria riscos, através da observação dos comerciantes, fazendeiros, artesãos e outros proprietários individuais que “compram a um preço certo e vendem a um preço incerto, portanto operam com risco” (apud Hisrich, 2004, p. 28). Na Idade Média, o termo empreendedor era utilizado para designar aquele que gerenciava os recursos, quase sempre oriundos do poder central, que eram empregues nas grandes obras e sem assumir grandes riscos. Um típico empreendedor nessa altura era o clérigo que estava encarregado de levar a cabo obras arquitetônicas, como castelos e fortificações, prédios públicos, abadias e catedrais. No final do século XVII, empreender era tomar a firme resolução de fazer alguma coisa e, já no fim do século XIX, meados do século XX, empreendedor aplicava-se aos “capitães da indústria”, como Ford, nos Estados Unidos, Peugeot, em França e Toyota no Japão.
Menezes (2007, p. 72) afirma que “empreendedorismo é uma aprendizagem pessoal, que, impulsionada pela motivação, criatividade e iniciativa, procura a descoberta vocacional, a perceção de oportunidades e a construção de um projeto de vida ideal”.
No final da década de 1980, segundo Filion (1999, p. 42) “o empreendedorismo se torna tema de estudo em quase todas as áreas de conhecimento”, uma perspetiva voltada para o aspeto “visionário”, em que o empreendedor surge como alguém que imagina, desenvolve e realiza uma visão. O’Donnell (2008) corrobora a ideia de Filion quando afirma que o ingrediente fundamental para o empreendedor é a inspiração, enquanto Bibby (2012) argumenta que o que o distingue é ter um “espírito independente”.
O empreendedorismo é, também, a habilidade de se estabelecer algo partindo de muito pouco ou quase nada, o que significa, na prática, pouco capital disponível, um nível educacional precário, tecnologia insuficiente, dificuldade de acesso a crédito e poucos estímulos para
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empreender. O ato de empreender caracteriza-se como uma atividade distinta de empresariar; a primeira consiste em iniciar, criar, inovar, mudar, desenvolver novas empresas, negócios e organizações; enquanto a segunda significa dirigir ou comandar uma empresa ou uma organização produtiva qualquer (Cabido, 2007).
Drucker (2001) encara a a inovação como a ferramenta utilizada pelos empreendedores para explorar a mudança enquanto oportunidade. No contexto do que designava por “nova economia empreendedora”, inovação e empreendedorismo eram práticas decisivas que eram mais facilmente controláveis num contexto laboral sistemático (Drucher, 2001). “O que todos os empreendedores de sucesso revelam não é qualquer personalidade especial, mas um empenho pessoal numa prática sistemática de inovação” (2001, p. 28). Na sua perspetiva, a inovação sistemática consiste na procura deliberada e organizada de mudanças e na análise sistematizada das oportunidades que essas mudanças podem representar para a inovação social e económica. Consequentemente, salienta Drucker (2001) a inovação nos anos oitenta acontecia, sobretudo, ao nível das grandes empresas e instituições académicas.
As ideias de Drucker constituíram a base de uma cultura empresarial inspirada na inovação e no empreendedorismo, numa América do final do século XX, onde cada vez mais gente estava disposta a assumir riscos e a aproveitar oportunidades que se lhes afigurassem suscetíveis de acarretar sucesso.
Como refere Dolabela (1999), o empreendedorismo tem conotações práticas, mas também envolve atitudes e ideias. Como refere Mckeown (2008), significa, de uma forma simplista, fazer o mesmo de modo diferente. De resto, o autor distingue claramente invenção – manifestação de uma ideia – de inovação – aplicação bem-sucedida dessa ideia.
Mas empreendedorismo significa, também, auto-aprendizagem, aquisição de know-how, através das vivências e da prática. Segundo Dolabela (1999), pesquisar sobre empreendedorismo é objetivar o estudo do ser humano e dos comportamentos que podem levar ao sucesso.
A noção de empreendedorismo possui uma grande abrangência; além da criação de empresas, engloba aspetos como a criação de auto emprego - trabalho autónomo;
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empreendedorismo comunitário – o modo como as comunidades empreendem; intraempreendedorismo - o empregado empreendedor; e as políticas públicas - políticas governa mentais para o setor. Ainda segundo Dolabela (1999),o empreendedorismo é um fenómeno cultural, quer dizer, é fruto de hábitos, práticas e valores das pessoas. Existem famílias mais empreendedoras do que outras, assim como cidades, regiões, países. Na verdade, aprende-se a ser empreendedor através da convivência com outros empreendedores. Empresários de sucesso são influenciados por empreendedores do seu círculo de relações, seja a família ou os amigos, por líderes ou figuras importantes que são tomados como modelo. Na opinião de Filion (1999) as famílias de empreendedores têm maior probabilidade de gerar novos empreendedores e os empreendedores de sucesso quase sempre têm um modelo que admiram e imitam.
Existe, nos estudos sobre empreendedorismo, uma ausência de consenso a respeito do empreendedor e das fronteiras do paradigma. Os economistas tendem a concordar que os empreendedores estão associados à inovação e são vistos como forças que direcionam o desenvolvimento, enquanto os comportamentalistas atribuem aos empreendedores as características de criatividade, persistência, internalidade e liderança. Para os indivíduos interessados no estudo da criação de novos empreendimentos, os melhores elementos para prever o sucesso de um/a empreendedor/a são o valor, a diversidade e a profundidade da experiência e das qualificações por ele/a adquiridas no setor em que pretende atuar (Filion, 1999).
Em relação a este aspeto, Nayab (2011) chama a atenção para o facto de que o sucesso de um empreendedor não depende, apenas, de possuir as competências consensualmente aceites como fundamentais, mas da situação económica no contexto da qual opera. Daí que, recentemente os economistas tenham revisto a teoria de Marshall, considerando que o quarto fator de produção não é a organização mas o empreendedor, ele próprio, que coordena os outros tês fatores.
Na economia global, as empresas enfrentam novos desafios e ameaças, ao mesmo tempo que novas oportunidades vão surgindo. As novas gerações de empreendedores confiam mais nas suas capacidades e exigem o reconhecimento imediato em termos de carreira mais do que a
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maximização de lucros. (Michael, 2007). Hoje em dia, são as pessoas que querem ser inovadoras e empreender, tomando elas a iniciativa de se estabelecerem por si próprias.
Neste trabalho, tentou-se seguir a linha de pensamento proposto, entre outros, por Dolabela (1999) e Diniz (2010), segundo a qual o empreendedorismo resulta da conjugação de vários fatores como criar inovando, ousar arriscar e agarrar as oportunidades que se apresentam, tornando-as produtivas. A nível empresarial implica adaptar a gestão organizacional aos novos desafios que os novos tempos vão representando; criar novos produtos para novos mercados sem, contudo negligenciar os tradicionais; explorar novos materiais; diminuir custos de produção; motivar os trabalhadores; tirar partido do conhecimento e da tecnologia.
4.2 Características do/a empreendedor/a
Ao mesmo tempo que os teóricos se empenham em definir empreendedorismo, procuram traçar o perfil do/a empreendedor/a. Autores como Cabido (2007), Damasceno (2010) e Cruz (2005), entre outros, referem o papel preponderante da cultura empreendedora no processo de desenvolvimento económico de uma sociedade e demonstram que, quanto maior for a parcela de uma população com perfil empreendedor, maiores são as hipóteses da nação ou sociedade a que pertencem se tornar desenvolvida.
O empreendedor definido por Drucker (1987, p.28) é responsável por “reunir todos os fatores de produção e descobrir no valor dos produtos a reorganização de todo capital que ele emprega, o valor dos salários, o juro, o aluguel que ele paga, bem como os lucros que lhe pertencem”. O autor apresentou como requisitos necessários para se ser empreendedor o discernimento, a perseverança e um conhecimento sobre o mundo e os negócios, além da arte da superintendência e da administração.
Para Brooks, Forbath e Kalaher, (2007), o/a empreendedor/a apresenta determinadas habilidades e competência para criar, abrir, inovar um negócio, gerando resultados positivos. Com efeito, trata-se de uma atividade essencial para o desenvolvimento económico de um país e influi na melhoria da qualidade de vida do seu povo, pois não se pode ignorar que
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empreendedorismo constitui um fator de criação de empregos e de obtenção de rendimento. Daí que, atualmente, as organizações procurem empreendedores para garantir o sucesso e o desempenho inovador dos seus negócios, através de um conjunto de estratégias e práticas que lhes permitam alcançar esse objetivo.
De acordo com Menezes (2007, p.73):
Ser empreendedor é preparar-se emocionalmente para o cultivo de atividades positivas no planejamento da vida. É buscar o equilíbrio nas realizações considerando as possibilidades de erros como um processo de aprendizado e melhoramento. Ser empreendedor é criar ambientes mentais criativos, transformando sonhos em riqueza.
Para Dolabela (1999, p. 67), empreendedor/a é “ toda pessoa que está na base de uma empresa, desde o franqueado, um dono de oficina mecânica, e aquele que desenvolve uma multinacional”. Assim, segundo o autor (1999, p. 44) empreendedorismo significa “[...] a introjeção de valores, atitudes, comportamentos, formas de percepção do mundo e de si mesmo voltados para atividades em que o risco, a capacidade de inovar, perseverar e de conviver com a incerteza são elementos indispensáveis.” Do mesmo modo, [...] o empreendedor é alguém que acredita que pode colocar a sorte a seu favor, por entender que ela é produto de trabalho duro.”
Na mesma linha de pensamento de Dolabela (1999), Diniz (2010, p 376),afirma que o/a empreendedor/a é uma pessoa que inova.
O empreendedor vê as oportunidades de introduzir um novo produto, Mudar a gestão organizacional da empresa, explorar novos mercados, encontrar novas fontes de matéria-prima, diminuir os custos de produção ou encontrar uma melhor forma de motivar a força de trabalho como uma forma de estar. Os empreendedores são frequentemente mais gestores do que investidores; eles são aqueles que conseguem ver o potencial económico das invenções.
Na opinião de Marshall (1890), para se ser um empreendedor de sucesso, era necessário compreender a indústria, ter capacidade de liderança e possuir a visão suficiente para perceber as
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mudanças ao nível da oferta e da procura, além da capacidade de ousar agir enfrentando riscos. Uma ideia corroborada por Cabido (2007) que, volvido mais de um século, chama a atenção para o facto de nem todos os empresários serem empreendedores e nem todos os empreendedores serem empresários. No entanto, muitos empresários também são empreendedores e fazem das suas organizações exemplos de inovação, criatividade e competência.
Também Damasceno (2010) aponta diferenças entre ser administrador e empreendedor; enquanto o primeiro se enquadra no mundo corporativo e está mais relacionado com processos gerenciais e solução de conflitos e de circunstâncias desfavoráveis à empresa, o segundo nem sempre se faz presente nas corporações, uma vez que, na maior parte do tempo, está atento aos mercados, às oportunidades, produtos, inovação, em suma, ao negócio presente e futuro.
Na visão de Cruz (2005), o/a empreendedor/a foi-se tornando, ao longo do tempo, numa figura essencial e imprescindível à evolução da humanidade, ao questionar paradigmas, produzir revoluções, criar novos conceitos, novas formas de fazer as coisas e novas respostas para questões antigas, assumindo-se, enfim, como incessante e incansável agente de mudanças. De acordo com o autor, o/a empreendedor/a está sempre disposto/a a aprender, a romper barreiras, a criar, a inovar, a enfrentar desafios e a superar dificuldades
Rwigema e Venter (2004) consideram que o empreendedor é alguém que é propenso à inovação, tornando-se, assim, um agente de mudança, capaz de criar riqueza e acrescentar valor aos recursos e outros bens, ao mesmo tempo que introduz mudanças na economia.
Como se pode constatar, quase todas as definições sobre empreendedor convergem no consenso relativamente a um padrão de comportamento típico: o de tomar decisões, organizar e reorganizar mecanismos sociais e económicos a fim de transformar recursos e situações para proveito próprio, aceitar o risco ou o fracasso (Shapiro apud Hisrich, Peters, 2004).
Veronesi (2012) elenca oito características principais que, na sua opinião, definem um perfil empreendedor:
iniciativa e pró-atividade;
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conexões e criatividade; aprendizagem contínua; controle e liderança
Os empresários nascem com aptidão para o empreendedorismo? São criados para empreender? Ou aprendem essa capacidade? Muitos não sabem dizer por que há empresários bem-sucedidos e outros não. Contudo, segundo Veronesi (2012), os investigadores afirmam ter encontrado as qualidades que definem uma pessoa empreendedora, que fazem parte de um estudo recente.
Com o objetivo de identificar traços de personalidades comuns aos empreendedores, investigadores da Target Training International realizaram um estudo que comparou novos empreendedores com histórias de sucesso e fracasso. Depois de avaliadas as habilidades de cada um, foi comparado seu desempenho com o de um grupo de controlo. O resultado revela a existência de um conjunto de habilidades em comum entre os indivíduos com tendência para o empreendedorismo. “Fomos capazes de prever com precisão de mais de 90% quais pessoas se tornariam empresárias de sucesso” comentou Bill J. Bonnstetter (apud Veronesi 2012, s/n.).
Segundo a pesquisa, são características fundamentais para um/a empreendedor/a a persuasão -- para Bonnstetter, os empresários que possuem essa qualidade se destacam dos demais pela sua capacidade de convencimento, pois conseguem mudar a opinião, crença ou comportamento dos outros; a liderança -- segundo o estudo, os bons líderes são aqueles que têm visão de futuro e sabem o que fazer para chegar ao sucesso; a responsabilidade pessoal – “as pessoas que são responsáveis olham os obstáculos como parte do processo e, em vez de desistirem, elas são motivadas pelos desafios”, Veronesi (2012, s/n.); o foco definido – os empreendedores precisam de perseguir os seus objetivos mas sem deixar de lado a missão e os valores da empresa; e as competências interpessoais --essas competências são “a cola que mantém as outras quatro em conjunto”, explica Bonnstetter (apud Veronesi 2012, s/n.). "Ela[s] inclu[em] a comunicação eficaz, a construção de contatos profissionais e um bom relacionamento com pessoas de todas as origens, religiões e estilos" Luiza Belloni Veronesi (2012, s/n.).