O TESTEMUNHO DE UMA PROFESSORA-ESTAGIÁRIA PARA
UM PROFESSOR-ESTAGIÁRIO: UM OLHAR SOBRE O ESTÁGIO
PROFISSIONAL
RELATÓRIO DE ESTÁGIO PROFISSIONAL
Relatório de Estágio Profissional apresentado à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto com vista à obtenção do 2º ciclo de estudos conducente ao grau de Mestre em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário (Decreto-lei nº 74/2006 de 24 de março e Decreto-lei nº 43/2007 de 22 de fevereiro).
Orientadora: Doutora Paula Maria Fazendeiro Batista
Relatório profissional integrado no Projeto Financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT): o papel do estágio profissional na (re)construção da identidade profissional no contexto da Educação Física. (PTDC / DES / 115922 / 2009).
Cátia Patrícia Pereira Ferreira Porto, setembro de 2012
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Ficha de catalogação:
Ferreira, C. (2012). O testemunho de uma professora-estagiária para um professor-estagiário: um olhar sobre o estágio profissional: Relatório de Estágio Profissional. Porto: C. Ferreira. Relatório de Estágio Profissional para obtenção do grau de Mestre em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, apresentado à Faculdade de Desporto, Universidade do Porto.
PALAVRAS-CHAVE: ESTÁGIO PROFISSIONAL, IDENTIDADE
III Sobre mim …
Azul em pessoa
Há dias cinzentos e amores de capuz. Há sóis brancos e amarelos.
Ambos dão luz. Um deles brilha. E o outro, reflete?
Há desejos vermelhos e secretos. Há dias verdes discretos.
A paz é azul. Quem o disse, conhece?
Conheço.
A sério? Mas é só azul? Não, também é rosa efervescente.
Porquê? Vejo. O quê? A cor de pele. Então és água! Sim, sou transparente.
V
DEDICATÓRIA
Ao Daniel,
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AGRADECIMENTOS
À Professora Doutora Ana Luísa Pereira que me falou acerca de “dar o mundo ao outro”. Que me elucidou sobre o azul.
Ao Mestre Paulo Mota e à Professora Doutora Paula Batista, que depois de tudo, me falaram da importância de deixar um testemunho.
Porque partilhámos, À minha primeira turma, 12ºH Aos meus colegas de estágio, Daniela Ferreira e Paulo Farinhas Ao David Amorim.
Pela inspiração partilhada, pelos momentos repletos de um todo que me completa, À Daniela Martins.
Porque me permitiram ser, Aos meus pais.
IX ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS ... VII ÍNDICE GERAL ... IX ÍNDICE DE QUADROS ... XI RESUMO ... XIII ABSTRACT ... XV LISTA DE ABREVIATURAS ...XVII
Preâmbulo ... 1
Capítulo I – Missão ... 7
Capítulo II – Questões e respostas preliminares ... 11
Capítulo III – Conhecer o advir ... 17
Capítulo IV – Entendimento do Estágio Profissional como uma troca equivalente ... 23
Capítulo V – Uma crise existencial: a importância de ser ator ... 27
Capítulo VI – Ensaio sobre uma comunidade de prática: a partilha de ontem, um sentido para hoje, um amanhã (re)construído ... 31
Capítulo VII – Escola e comunidade: uma exigência ... 41
Capítulo VIII – O aprendido ... 47
Capítulo IX – Do estádio para um terço do pavilhão ... 57
Capítulo X – Classificar: uma função “ingrata” do professor ... 61
Capítulo XI – O Modelo de Educação Desportiva como uma forma de organização: Breve consideração ... 65
Capítulo XII – Outros momentos que te fazem sentir menos estagiário ... 69
Capítulo XIII – Um dia vais reparar que foi simplesmente acontecendo ... 73
Capítulo XIV – Os meus pedaços de papel ... 79
Capítulo XV – Nunca é tarde para ser melhor ... 83
Capítulo XVI – A Identidade Profissional do Professor-Estagiário: Um olhar sobre a literatura ... 87
XI
ÍNDICE DE QUADROS
QUADRO 1 - Ficha de pesquisa da Revisão Sistemática acerca da Identidade Profissional do Professor-estagiário ………...92 QUADRO 2 - Sinopse de Estudos relativos à Identidade Profissional do professor-estagiário ………93
XIII
RESUMO
Esta é a narrativa do meu estágio profissional, e é dedicada a ti, que
escolheste o mesmo caminho que eu – ser professor. Falar-te-ei
essencialmente de sentimentos, da minha experiência e do que retirei dela. Recordo-te de que irás ler uma verdade que é a minha, mas uma verdade também refletida. Esta narrativa pretende ser, portanto, um reflexo do caminho percorrido e uma interpretação do processo que me levou à construção da minha identidade profissional. Está inscrita em 16 capítulos, e falar-te-á de um entendimento do estágio profissional, do poder da partilha, do aprendido, e da jornada de ser cada vez mais professor, e menos estagiário. Um dos capítulos corresponde a um estudo de revisão sistemática acerca da identidade profissional do professor-estagiário. O meu estágio profissional foi realizado na Escola Secundária de Almeida Garrett em Vila Nova de Gaia, num núcleo de estágio constituído por mim e mais dois professores-estagiários.
PALAVRAS-CHAVE: ESTÁGIO PROFISSIONAL, IDENTIDADE
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ABSTRACT
This is a narrative of my professional practicum, and is dedicated to you, who have chosen the same path that I - being a teacher. I will talk essentially about feelings, about my experience and what I learned from it. I remind you that you will read a truth that is mine, but also a reflected truth. This narrative is intended to be, therefore, a reflection of the path, and an interpretation of the process that led to the construction of my professional identity. Is fulfilled in 16 chapters, and it will tell you about an understanding of the professional practicum, the power of sharing, what I have learn, and the journey of to be more teacher, and less pre-service teacher. One of the chapters corresponds to a systematic review study about the professional identity of the pre-service teacher. My professional practicum was conducted at the Almeida Garrett School in Vila Nova de Gaia, within a group consisting of myself and two other pre-service teachers.
KEYWORDS: PROFESSIONAL PRACTICUM, PROFESSIONAL IDENTITY,
XVII
LISTA DE ABREVIATURAS
ESAG – Escola Secundária de Almeida Garrett MEC – Modelo de Estrutura do Conhecimento MED – Modelo de Educação Desportiva
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Preâmbulo
Espero que não te importes que te trate por tu. Garanto-te que te direi toda a verdade. A minha verdade. Mas não te prometo que saiba responder a todas as tuas perguntas. Este escrito é dedicado a ti. A ti, que escolheste o mesmo caminho que eu. E porque acredito em ti, e em nós, professores, respeito-te por me ouvires.
O meu nome é Cátia Patrícia Pereira Ferreira, uma aquariana de gema, com uma visão clara(mente) natural. Nasci numa noite de Inverno, no vigésimo oitavo dia do primeiro mês do primeiro ano da minha vida, 1989. Foi também numa noite, que no colo da minha mãe pronunciei a minha primeira palavra: “luz”.
Assim como o escuro me deu à luz, eu devolvi-me à sua fonte, e para mim são muitas as coisas que brilham. Uma dessas é o homem, que por ser racional se deixa ser o mais natural possível – a utopia perfeita – um sentimento imaginário. Qual é o sentido da vida? E qual é o meu? Não sei. O que é o homem? E o que pode ser? Tudo. Tudo, porque pelo menos no imaginário parece-me possível.
Ora esta premissa levou-me desde cedo a dois lemas, “a vida é tua, faz dela o que quiseres” e “faz dos teus sonhos objetivos”. Contudo, eu perdi-me nos meus sonhos. Perdi-me nos trilhos do sentir, do metamorfosear, do idealizar. Parte de mim era, e é, fantasia, era, e é, sonho. Como poderia objetivar uma fantasia? Na verdade, perdi-me naquilo que queria ser, pois, se a possibilidade de ser, para mim, reunia tudo, então eu queria ser tudo.
No entanto, reparei que este meu “tudo”, por ser meu, e fantasiado no belo e no ideal, me encaminhou no sentido da minha existência.
No meu interior ambicionava ser professora (independentemente da matéria), gostava de cuidar do outro fazendo-o crescer, e adorava a sensação de felicidade que o desporto me permitia ascender. Esta tríade fazia todo o sentido.
Lembro-me de pensar que o desporto estava em tudo e em todos os lugares. Todavia, conseguia observar a minha perspetiva a voltar-se
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progressivamente para uma visão romântica e natural, tal como sinto o meu eu, pois acredito que esta nossa área tem um potencial infindável, tal como o homem. Afinal de contas, o que seria o desporto se não existisse a pessoa? Mais, não contribuirá o desporto para a formação do homem enquanto pessoa? Certamente que sim.
Costumo dizer que aprendemos por “modelagem”, isto é, tudo aquilo que observamos e, ou, vivemos, permite-nos edificar aquilo que pensamos que devemos ser, e como eu não sei ser sem pessoas (talvez uma brecha a trabalhar, para não me tornar num handicap de mim própria), faço minhas, palavras de Fernando Pessoa, citando:
“E se sinto quanto estou Verdadeiramente só, Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou, Mas onde vou nada existe.”
Fernando Pessoa. (1993). “Quando estou só reconheço”
Para mim, o coletivo tem um sabor especial, que nos apimenta e apaixona, que nos dececiona ou impressiona e, por isso, é que nos é complementar.
Prontamente, parece-me que o meu maior sonho, tendo em conta a minha tríade e o meu tudo, é “dar o mundo ao outro”. Serão o Desporto, a Educação Física, e a Escola, a nova tríade itinerária para o concretizar? Creio que sim.
Chegou então a hora de vos contar uma história. Pois, estas são suaves memórias. Tão suaves que se deleitam sobre o rosto em forma de gota. Esta é a minha chuva. Nas nuvens pesam o tempo de um presente que termina. Olho para trás e vejo um pequeno excerto de um livro por escrever. Chove torrencialmente. É a saudade. É a nostalgia que sei que vou sentir quando terminar esta narrativa.
Daqui a umas nuvens a etapa estará completa. Passarei ao próximo nível, mas nunca vou esquecer a ânsia que tive em vencer o primeiro. A vontade que
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tinha de explorar este meu jogo novo. O labirinto está cada vez mais apertado, e por isso, penso que encontrarei a saída em breve. Fui recolhendo as pistas, fui observando as pegadas de outros. O terreno ajudou a delinear caminhos. As inúmeras pedras no meio da estrada fizeram-me tropeçar. Não me magoei e levantei-me. Foi aí que o próprio enredo me deu um novo rumo. Parei para pensar. Cheguei até aqui. Chegam-me uma caneta por favor?
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Capítulo I – Missão
Está na hora de transparência e sinceridade. Firmeza, pulso e verdade. Nunca terás um produto acabado. Ser professor é infindável. Ser pessoa não termina num passado. O aluno deixa de ser o teu mercado, Quando percebes que nunca se saberá
Quanto de ti ele percorrerá.
Aos meus olhos, falar-te-ei essencialmente de sentimentos. O que se sente no ano de estágio. Aquele em que pensas que serás posto à prova. Não com outros, mas contigo mesmo. Aquele em que te queres conhecer e saber se estás no caminho certo. Por ti não posso falar, mas pode ser que te ajude se estiveres à espera de uma história como a minha. Falar-te-ei da minha experiência e do que retirei dela, sob a forma de sentimentos, como te disse. Tentarei expor esses sentimentos por fases. Algumas sob a forma de crises existenciais. Um termo que sei que também usas, para explicar tempos de devaneios. Não só no sentido pejorativo, mas também naquele em que nos achamos capazes de… tanta coisa.
Algumas pessoas, que me conhecem, pensam que me é fácil escrever e que por isso escrevo a toda a hora. Tal, não é verdade. Eu escrevo quando algo me inspira, quando paro realmente para pensar, e quando tenho de deitar cá para fora algo que quero partilhar. Normalmente, nunca escrevo só para mim. E se escrevo, a escrita tem de caber nalgum lugar.
Acho que no fundo realiza-me apenas o facto de partilhar contigo. E é essa a minha motivação para fazer deste relatório, algo tão simples como um relato.
Optei por uma narrativa pois gostava de manter a genuinidade da experiência que vivi. Porque o que te vou dizer vem de dentro. Porque acredito em Rodriguez (2002) quando refere: “Narratives are meant to be shared. In our
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narrativeness we find our impulse to share our experiences, our understandings, our meanings, our humanity. No narrative is meant to be kept to ourselves. Narratives make us human by binding and weaving us to each other in unique ways.”
Mais uma vez, recordo-te de que esta é a minha verdade. Mas uma verdade também refletida. Deste jeito, entendo que estarei, igualmente, a produzir sentidos sobre o que é ser professor. Estarei, pois, a atribuir significados às vivências. “A necessidade de narrar advém do desejo de encontrar um sentido para as situações que estão de regresso ao seu raciocínio para descobrir quem são e para onde vão.” (Brooks, 1984, cit por Gomes, 2004, p. 20)
Verás que é, no mínimo, estranha, a dualidade de se ser simultaneamente professor na escola e aluno na faculdade. Ainda mais, quando mesmo na escola, percebes que estás ali para aprender.
Como serei capaz de auxiliar o meu aluno na descoberta de si próprio e das suas potencialidades, se eu, em parte, procuro o mesmo? Não consigo, de momento, lembrar-me de outra sensação, a não ser estranha. E ainda mais, depois de ouvir tantas vezes “não abdico nunca de ser professor”…
Esta narrativa pretende ser, portanto, um reflexo do caminho percorrido e uma interpretação do processo que me levou à construção da minha identidade profissional, de jeito que te falarei abertamente de um entendimento do estágio profissional, do poder da partilha, do aprendido, e da jornada de ser cada vez mais professor, e menos estagiário.
Este documento, que é o meu relatório de estágio profissional, é para mim o meu primeiro livro e, por isso, está inscrito em capítulos.
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Capítulo II – Questões e respostas preliminares
Tudo começa antes de realmente começar. São várias as questões que te farão tropeçar. Não há linha que separe ser professor e ser pessoa. Mas há uma linha que separa ser pessoa e ser professor. Poderás não concordar comigo, Mas não é verdade que bem te soa?
Nas últimas férias de verão estive na Pala. A Pala é uma aldeia da freguesia de Ribadouro, concelho de Baião. Eu e um grupo de amigos fomos aproveitar o tempo de não ter horas para acordar nem deitar.
Num dos primeiros dias, fartos de olhar para a torre de latas de atum, decidimos ir ao hipermercado mais próximo comprar a real carne para a churrascada da semana. Tivemos que ir de carro porque ainda era longe.
Chegados ao mercado, o nosso sotaque pronunciou-se entre as gargalhadas ao encontrar os mais estranhos nomes de vinho.
Uma a uma, íamos colocando no cesto as garrafas de perdição que nas noites frescas da aldeia, nos iam aconchegando. Este era o tempo de falar e desabafar. De imaginar.
Livres, podíamos sonhar bem alto porque ninguém mais nos ouvia. Cada um de nós, ansiosos pelo próximo Setembro, partilhava as suas motivações e expetativas. Falávamos daquilo que tínhamos feito e o que pensávamos que iriamos fazer. As conversas, mais não eram, o último pensamento que levávamos connosco para a almofada - questionários sobre o futuro e interrogações de nós.
Talvez, não fosse o tempo certo para matutar no assunto. Afinal de contas, estava de férias, e o modo como pensava tinha um cheirinho de preocupação.
Uma dessas preocupações, que possivelmente terás é, “será que o que quero é mesmo ser professor?”. Quanto te perguntas sobre isto, imediatamente te perguntas, sobre o que é ser professor. Aqui vais recordar os teus anos de
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escola e os professores que te marcaram, na tentativa de encontrar definições através do concreto. Chegarás à conclusão que vais querer ser como alguns deles foram. Contudo, vais pensar, “não, há coisas que eu quero, e que serão minhas, e serei diferente e melhor”.
E é nesse momento, que estás disposto a descobrir-te, colocando sobre a mesa um monte de expetativas sobre esse ano.
A minha expectativa em relação ao estágio profissional, em primeiro, passava por vivenciar o mais possível, experimentando, no sentido da palavra, para chegar a conclusões. Estava certa que não iria aprender tudo num ano, até porque a nossa jornada nunca é estanque, contudo, esperava conseguir pelo menos um guião acerca daquilo que deve ser o ensino, desmitificado de preconceções. Para isso, sabia que teria de convocar, repito, convocar, o background teórico da etapa inicial da minha formação, associado à reflexão daquilo que a prática me iria dar. Para além disso, entendi que o estágio profissional é uma aproximação à realidade. A este respeito, Piconez (1991, p.25) refere que “A aproximação da realidade possibilitada pelo Estágio Supervisionado e a prática da reflexão sobre essa realidade têm se dado numa solidariedade que se propaga para os demais componentes curriculares do curso, apesar de continuar sendo um mecanismo de ajuste legal usado para solucionar ou acobertar a defasagem existente entre conhecimentos teóricos e atividade prática.” Por sua vez, Pimenta (2005, p. 70) enfatiza, ainda, que “A finalidade do Estágio Supervisionado é proporcionar que o aluno tenha uma aproximação à realidade na qual irá atuar. Portanto, não deve colocar o estágio como pólo prático do curso, mas como uma aproximação à prática, na medida em que será consequente à teoria estudada no curso, que, por sua vez, deverá se constituir numa reflexão sobre e a partir da realidade da escola”.
E porquê esta aproximação à realidade? Quanto mais não seja, porque este ano serás apenas professor (estagiário) de uma turma, ou talvez duas. Terás à tua disposição dois orientadores, um na escola (professor cooperante) e outro na faculdade.
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Cabe-te a ti, seres tão ou mais professor do que aqueles que o são na realidade. Mas verás, não será tarefa fácil deixar de pensar, ou até mesmo deixar de separar, o professor, do estagiário… por um hífen.
Não obstante, eu acreditava que o estágio me iria permitir um tempo para pensar e testar, para construir e reconstruir pensamentos. Ele pode ser o que tu quiseres, mas será sempre mais um lugar de formação. Neste sentido, as palavras de Cunha (2008b) fazem sentido para mim quando refere que “A formação está ao serviço dos indivíduos e das organizações, não podendo ser encarada como uma mera preparação para um posto de trabalho, mas fundamentalmente como uma aquisição de competências de reflexão”. (p. 35)
Irás ter, também, certamente, expetativas em relação ao teu núcleo de estágio. O orientador será bom, mau? Quem será que vai contigo para a escola? Serão os teus amigos? Como será que vai ser trabalhar com eles? Será que irás trabalhar mais contigo, ou mais com eles? Digo-te sinceramente, que isto depende do modo como pensas encarar o estágio. Eu encarei o meu como um palco de partilha, porque acredito que somos mais, partilhando. Mas sobre isto, terei um pouco a dizer-te, mais à frente.
E a turma, será “insurreta”? Será que vai ser diferente por seres professor estagiário?
Vais-te questionar tanto no início. Vais sentir receio e ao mesmo tempo entusiasmo! É um misto de sensações. Foi o que senti quando estava na Pala.
Naquela ida ao hipermercado, acabamos por gastar cem euros em álcool e pão! Até com esta atitude me perguntei, “Meu Deus, que tipo de professora serei?”.
Esquece. Quando se aproximar a tua primeira ida à escola, aí sim, vai-te doer a barriga. Não fiques com medo. É normal. Sabes, a primeira vez que entrei na escola foi uma surpresa! Receberam-nos com um agradável sorriso, literalmente, abrindo-nos as portas da casa (abriram mesmo a sala de professores). Só poderia esperar um honesto apoio a partir desse momento. Sabes porquê? Não és o primeiro nesta situação, nem vais tão pouco ser o último. Eles sabem o que estás lá para fazer, só não sabem o que vais realmente fazer e ser.
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Na aula de apresentação, vais até combinar com cuidado, a roupa que irás vestir. Não vais querer correr o risco de não pareceres professor!
Eu, por vezes, sonhava que poderia fazer mil e uma coisas interessantes com os meus futuros alunos, que poderia envolvê-los e fazermos outras tantas coisas juntos. Percebo agora, que este ano é como viajar de comboio. Quando estamos lá dentro e olhamos para fora, vemos imagens já passadas e desenroladas, quando estamos cá fora e olhamos para o trem em movimento, ele demora um pouco mais a passar e conseguimo-lo ver por mais tempo. O estágio é assim, passa mais depressa quando o vivemos do que quando o recordamos. Quando chegas ao fim, por muito que consideres que fizeste tudo, pensas sempre de como poderia ter sido se fizesses melhor.
E aí, percebes que tens o resto da vida para resolver o assunto, pois já não o podes remediar. Tal como nós, na Pala, que mesmo dando tudo o que tínhamos, os cem euros, no meio de tanto pensar o que faríamos com mais de vinte garrafas de álcool, nos esquecemos da carne. Aquele que foi o nosso propósito. Ainda bem que compramos pão, pois deste modo, foi mais fácil deixar ruir a torre de atum.
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Capítulo III – Conhecer o advir
Um dos passos que ajuda à tua afirmação pessoal e que, de certa forma, te permite “ganhar” uma identidade profissional é assumires-te como parte de um grupo presente na escola. Conhecer e conviver com os professores, participar em reuniões, e até tomar pequeno-almoço no bar, ou simplesmente ser cumprimentado por um aluno, contempla-te com um sentimento de pertença. E este, dá-te alento para ires mais longe. É claro que só pelo facto de pertenceres a um núcleo de estágio, te sentes mais “protegido”, mas sentires que pertences à escola, e particularmente, ao grupo do fato de treino, não te deixa “tão só”. É como se o teu lugar fosse reconhecido. “Mas não é?” Perguntas tu. É. É, sim senhor, mas continuas a ser o estagiário, se é que me entendes.
Para além disso, uma pessoa importantíssima que te acompanha neste mar de sentimentos confusos é o professor cooperante, o professor que te orienta na escola. Eu senti um descanso quando reparei que a sua ação na escola partia de “ter os alunos comigo”, pois em certa medida, esta também era a minha perspetiva. A sua premissa “tenho ideias claras, não fixas”, ajustou-se àquilo que considerei que deveria ser o papel da orientação. Confirmarás com certeza, que o sentimento de confiança em relação a este desafiador assegurará uma serenidade progressiva em ti.
E se estiveres, como eu estive - sempre pronta a aprender - o ano de estágio profissional contribuirá para a tua vontade de lutar por um ensino inovador e de qualidade crescente.
O estágio profissional, sendo a última fase da formação inicial, tem como objetivo promover as vivências que conduzam ao desenvolvimento da competência profissional, como sejam, as “competências docentes a integrar no exercício da prática pedagógica” (artigo 7º do Decreto-Lei nº 344/89, de 11 de Outubro). Na verdade, aquilo que se pretende, e que eu pretendo, é ser-se competente na profissão. Neste ano, torna-se quimérico atingir-se a competência - o que não é impeditivo de começar a colecionar formas de lá chegar. Isto, porque, “ter competências não é ser competente, isto é, ser
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detentor de competências não é garantia de competência, porquanto a competência é situacional, manifesta-se na acção e é de natureza relacional” (Batista, 2011, p. 437). Portanto, a formação deve ser “um espaço onde se adquira os requisitos da competência e não meras competências. Assim, é necessário que se criem condições para que exista tempo e espaço para pensar, para analisar, para produzir, para construir e (re)construir o pensamento, o conhecimento, as crenças e as concepções. É ainda necessário que a criatividade, a sensibilidade, o autodesenvolvimento, a comunicação e as metacompetências sejam objecto de desenvolvimento, o que apenas é viável se houver investimento no pensamento crítico e reflexivo, porquanto a atribuição de sentido e de significado às vivências é fundamental” (Batista, 2011, pp. 437-438).
Daí que, quanto mais conhecimento e vivência, mais se abre o leque de
opções para tomarmos decisões. Segundo Matos (2011b), “O Estágio
Profissional visa a integração no exercício da vida profissional de forma progressiva e orientada, através da prática de ensino supervisionada em contexto real, desenvolvendo as competências profissionais que promovam nos futuros docentes um desempenho crítico e reflexivo, capaz de responder aos desafios e exigências da profissão” (p. 2). O estágio também é isto mesmo, o nosso leque para o futuro.
Importa, ainda, saber que a estrutura e funcionamento do estágio profissional consideram os princípios decorrentes das orientações legais do Decreto-lei nº 74/2006 de 24 de março e do Decreto-lei nº 43/2007 de 22 de fevereiro e têm em conta o Regulamento Geral dos segundos Ciclos da Universidade do Porto, e o Regulamento do Curso de Mestrado em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário.
Agora que começas a entrar no assunto, fica sabendo que sim, no início são muitas as coisas em que tens de pensar. E apesar de teres dito a ti mesmo que “não, há coisas que eu quero, e que serão minhas, e serei diferente e melhor”, no fundo, vais observar com atenção o que fazem os outros, vais atentar especificamente nas orientações do professor cooperante, vais quase tentar juntar um pouco de todos para experimentares. Acerca disto, Cunha
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(2008b) refere que “os professores deixam para depois a preocupação com a
compreensão de si próprios e dos outros, ao serem submergidos pelas suas preocupações iniciais de sobrevivência. (…) No que concerne ao seu estilo pessoal, evoluem da imitação rígida de modelos de ensino para o seu modo pessoal de ensinar” (p. 90). Não é mau, de todo, é apenas a maneira de te começares a descobrir.
Aliás, fases de receio, de insegurança, de luta, de conquista vão-te aparecer de certeza. Segundo Huberman (2000), o professor estagiário defronta-se com dois sentimentos: o da sobrevivência, que se caracteriza pela luta em não desistir da profissão, ao deparar-se com todas as adversidades; e o da descoberta, que se caracteriza pelo facto de se sentir um profissional, de se descobrir enquanto profissional. É um pouco isto que vai acontecer contigo.
Apesar de estares preocupado com a tua imagem enquanto professor, tens de perceber que mesmo que este espaço de formação te leve a construir uma imagem idealizada sobre aquilo que deves ser e fazer, nunca podes esquecer os que permitem a concretização desta etapa – os teus alunos. É com eles, que neste ano, tens de ser e fazer! Porque eles é que te vão permitir dar o melhor de ti. Tu vais ser quanto mais eles te derem para ser, e eles vão ser quanto mais tu deres para serem!
E da mesma forma que quando convidas alguém para passar férias na tua casa de verão sabes quantos quartos e colchões tens vagos, terás de conhecer a escola onde vais lecionar e o que ela oferece.
Eu fiquei colocada na escola que escolhi para realizar o meu estágio, a Escola Secundária de Almeida Garrett (ESAG), em Gaia. Na verdade, não era a escola mais perto de casa, pois sou de Rio Tinto, mas tive ótimas referências acerca da mesma e decidi envergar pelo entusiasmo que me tinham despertado.
Jamais me arrependi, mesmo não tendo vivido, sensivelmente até ao último mês de estágio, todo o seu espaço estrutural e funcional já que a escola se encontrava em obras. No entanto, um dos pavilhões gimnodesportivos ainda estava disponível. Ainda assim, o meu espaço de estágio foi praticamente o Estádio Municipal do Parque da Cidade de Gaia, pois dado que as instalações
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na escola não eram suficientes, algumas turmas tinham que ter aulas no exterior. Deste modo, no estádio, contámos com dois espaços interiores, situados debaixo da bancada. Um era uma zona de aquecimento para atletas, e outro, uma sala de conferências. Usufruímos ainda, do espaço exterior - o relvado sintético e a pista.
Isto trouxe alguns constrangimentos ao planeamento, pois tornou-se necessário adequar os conteúdos programáticos aos recursos espaciais e materiais, assim como às condições climatéricas. Quando estas não eram favoráveis, lecionava-se a aula no espaço interior, e neste, não havia balizas ou tabelas, e o uso de bolas não era recomendado por questões de segurança (mas ainda consegui lecionar voleibol, com cuidadinho).
Nota que, dada a circunstância, para uma aula de 90 minutos, o tempo útil era de 60, tendo em conta as deslocações dos alunos. Mas até as viagens curtas de camioneta eram engraçadas e sempre davam para conversar sobre que se iria fazer na aula.
Eu em pouco tempo apaixonei-me pelos alunos da escola, e em particular, pela minha turma. Cedo, criei expetativas em relação ao bom clima de trabalho, de aprendizagem e de relacionamento. Foi aqui que comecei a ter receio de não conseguir “dar o mundo ao outro”, pois sabia que em algum momento me poderia concentrar no estágio como tarefa a concluir. Sempre disse que iria fazer tudo para que isso não acontecesse, porque assim que olhasse para o estágio como uma simples tarefa, ele iria perder o valor. O valor “de quem anda a gosto não cansa”. Parte de mim encontrar significados intrínsecos, e eu, (tal como tu deves fazer), tive de encontrar sentidos para as tarefas inerentes ao estágio. E digo-te sinceramente, que realizei apenas o que fez sentido para mim. Vai haver coisas que te farão questionar, “mas porque é que eu tenho de fazer isto?”. Quando esses momentos chegarem, em última instância, mesmo, lembra-te do que o povo diz, “guarda o que não presta, encontrarás o que precisas”. Não digas, depois de leres isto, que eu disse que há coisas que não prestam, (risos)! Só quero frisar que as coisas têm uma razão de ser, e tu tens de encontrá-las.
Capítulo IV – Entendimento do Estágio Profissional como uma troca equivalente
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Capítulo IV – Entendimento do Estágio Profissional como uma troca equivalente
Quando eu conheci a minha turma, e depois de me ter apaixonado por ela, questionei-me mais uma vez, acerca daquilo que nós, professores, temos em mãos. É muito fácil sentirmo-nos apaixonados quando percebemos que essas pessoas, quer queiramos quer não, serão um elo de vinculação entre o nosso próprio futuro e o futuro que elas desejam destinar para as suas vidas. É tão grande a beleza deste laço!
Por um lado, temos as questões práticas do processo, como sejam as características da turma, e com as quais tens de trabalhar. A minha era uma turma do 12º ano, constituída por 25 alunos, dos quais, 17 rapazes e 8 raparigas, do curso de Ciências Socioeconómicas. A média de idades situava-se nos 17 anos. Ora, que é que isto quer dizer? Em primeiro, sabia que estas pessoas da turma H, estariam na fase de pensar naquilo que querem fazer no futuro. Sabia também, ainda que revelassem uma maturidade diferente entre uns e outros, que eram apenas, em média, 5 anos mais novos do que eu. Éramos do mesmo tempo, digamos assim. Este era um fator que nos podia aproximar se soubesse tirar partido daquilo que o nosso tempo nos permite ter em comum. Porém, isto podia ser visto, igualmente como um fator de vulnerabilidade face às representações socias de respeito aos mais velhos e experientes. Não te consigo dar receitas acerca disto. Terás de apelar ao teu tato e aos conhecimentos, entre os quais, os pedagógicos, para lidar com a situação.
Por outro lado, há as questões sublimes, como sejam: como conseguirei concentrar-me em mim e na minha atuação, sem esquecer que para estas pessoas que estão comigo, este também é mais um ano de formação?; como conseguirei formar estas pessoas através do desporto?; como conseguirei formar, sem me esquecer que tenho de ensinar o desporto?
Foi ao tentar encontrar uma resposta para estas questões, que numa conversa com um amigo surgiu o conceito de troca equivalente.
Assim, como todos os que pisam a Terra comentam vulgarmente o desporto, a discussão sobre o que é ser professor está longe de se esgotar. A
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definição que fica entre o seu papel e as suas funções, nem sempre é fácil de distinguir. E não querendo ousar fazer acrescentos ao debate, vou-te declarar um dos meus entendimentos sobre a temática, no sentido, em que esse ambicionou ser sujeito da minha máxima no ano de estágio.
Ser professor hoje é um processo inacabado. Como já te disse, somos tanto mais professores quanto mais nos derem para o ser. Eu gosto de desporto, mas amo muito mais as pessoas. Foi então, que tive de encontrar um equilíbrio entre as questões que coloquei. Eu adorei conhecer a minha turma e as individualidades dela, e sempre disse aos meus alunos “se me pedirem uma mão, eu dou-vos as duas”. Porquê? Transportei o fundamento dos propósitos enunciados pela alquimia em que é preciso oferecer algo em troca de valor equivalente, para o estágio profissional. Quero com isto dizer que, só é possível maximizar as aptidões e potencialidades do aluno, quando este e docente encontram um elo de ligação em equilíbrio. Então, se eu quero que os meus alunos sejam o máximo, eu tenho de dar o máximo. Se eu der o máximo, vou esperar que eles despertem as suas capacidades ocultas máximas. E se o resultado não for o que eu estou à espera? Continuas a dar o máximo. Pois só assim saberás que a possibilidade de eles darem também, lá reside. É a beleza da incerteza de conseguires ou não “dar o mundo ao outro”.
A outra face desta troca é a questão: então e eu, que recebo? O que recebo de uma pessoa maximizada? Recebes experiência e prazer. Recebes novos horizontes máximos, porque não há limite na condição humana, nem na tua atuação, nem no ser professor.
Termino este capítulo com Cunha (2008b, p. 35): “A formação pode e deve fomentar o processo de auto e hetero-desenvolvimento do indivíduo, abrindo novos caminhos, estabelecendo novos objectivos, proporcionando condições de desenvolvimento pessoal e profissional, baseados em estratégias que possibilitem uma maior capacidade de adaptação e modos de equilíbrio superiores.”
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Capítulo V – Uma crise existencial: a importância de ser ator
Decerto, já ouviste dizer que o professor tem de ser um ator. Inicialmente, esta premissa fez-me muita confusão. Simplesmente, não a percebia. Nóvoa (1992, p. 7) diz que “não é possível separar o eu pessoal do eu profissional”. Então, o que é isso de ser ator? Terei que ser alguém que não sou?
Não. Nós interpretamo-nos na busca de significados para a construção de uma identidade profissional. E a apropriação dos significados profissionais, têm que ver com os teus próprios modos de ver e a própria experiência, porquanto há uma harmonia entre aquilo que és e aquilo que ensinas.
Está na altura de deixar de acreditar que para ser professor o que interessa é apenas ter jeito. Sabemos agora, que são precisos muitos mais saberes. Sabemos da mesma forma, que também não basta saber o que ensinar, é preciso que consigamos que o aluno queira aprender. Este é um fator que frequentemente distingue uns professores de outros. E aqui entra o pessoal, e não é mesmo nada difícil acreditar não ser possível retirar a pessoa que mora no profissional.
O tato pedagógico enunciado por Nóvoa (2008, p. 3), e que é um conceito difícil de definir, mas que compreendemos bem, vem dar mais uma mão ao entendimento de que as dimensões profissionais e pessoais caminham lado a lado. Onde quero chegar com isto? Que realmente é importante que o professor se adeque mediante as situações que encontra, para ser capaz de satisfazer e potenciar o aluno “a” e o aluno “b”. De tal forma, que a tal troca equivalente, pode perfeitamente aplicar-se ao equilíbrio entre o eu pessoal e o eu profissional. Deste modo, a importância do professor ser um ator, e a sua potencialidade, reside, não na forma como encarna o papel, mas sim, pela forma como consegue aceder a outros papéis. Não um ator que representa mas um ator que age e reage, que atua de acordo com o que a situação pede. Isto é adequar. Percebes agora? Não tens que ser uma pessoa que não és.
Um dia eu escrevi no meu bloco de notas, que o estágio para além de me ter permitido conhecer-me enquanto profissional, também me permitiu conhecer-me enquanto pessoa. Mas afinal não era bem isto que queria dizer.
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Eu acho que … o estágio, por te fazer reconhecer alguns traços característicos da tua atuação enquanto professor, é que evidencia algumas características da tua personalidade que já te enraizavam, só que como não as tinhas de pôr permanentemente em prática …
Quando pensas melhor sobre o assunto, e pensas sobre ti e sobre quem és, percebes que já eras um pouco assim. Então, chegas à conclusão que afinal, não te conheceste só agora. Apenas fizeste uso da pessoa que és e encontraste-te contigo. Um contigo mais teu, que repousava até um novo despertar. Que lindo, quando começas a inteirar-te que “tu és tu, e tu és professor”.
Capítulo VI – Ensaio sobre uma comunidade de prática: a partilha de ontem, um sentido para hoje, um amanhã (re)construído
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Capítulo VI – Ensaio sobre uma comunidade de prática: a partilha de ontem, um sentido para hoje, um amanhã (re)construído
Se partilhar for dar um pouco de si, Se partilhar for dividir um pouco de nós, Então, há uma parte de nós, Em toda a parte, de uma parte de ti.
Neste capítulo vou-te falar, essencialmente, sobre o valor e o poder da partilha. Começo pelo meu bloco de notas que data 5 de janeiro de 2012:
“Parte do meu ser aceitar o conceito de partilha. Não estranhem quando digo aceitar. Eu aceito, no sentido em que me permito ser alvo dessa noção. Já disse outrora que não sei ser sem os outros, e já falei antes em modelagem. Acredito que partilhar, é um verbo construtivo da nossa pessoa, é um verbo que nos constrói.
Por vezes, dou por mim a pensar que a nossa identidade estará sempre a edificar-se. Porque estaremos sempre em contacto com novas pessoas, novos lugares, outros tempos. Há coisas que decerto se vão manter e que fazem parte daquilo que nos identifica e distingue dos outros. Há outras que talvez vêm e ficam por minutos, outras que vêm para nos adaptar, outras que vêm para nos mudar.
Este é um processo de crescimento, até que a luz se apague. À medida que para lá vamos caminhando, vão-se alternando interruptores, vão-se descobrindo novos tons e novas cores, vão-se revisitando povoados e reacendendo-se lumes e chamas. Por outras palavras, nós somos e vamos sendo. O estágio profissional é um dos reflexos desta conceção, a partilha edifica.”
Esta é uma nota introdutória de mim. Mas na verdade, esta poderá ser uma nota introdutória para ti, no teu ano de estágio. Quando deleitas o olhar sobre uma paisagem, já pensaste sobre o que estará ela a pensar de ti, por estares tão fixado em todos os seus pontos de altos e baixos, de verde e azul, de tom de pedra e cinza? Já pensaste que ela poderá estar a perguntar-se
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sobre o que tem de tão seu, que a faz chamar por ti? De que é feito esse tecido que vos entrelaça utopicamente por bens comuns? Já pensaste que ela ali está para ser admirada e tu ali estás para a admirar? Alguma vez ousaste pensar que estão a partilhar? Já? Aposto que neste preciso momento paraste por um segundo e recordaste certo momento (sorriso).
Pega agora nesse sentimento e transporta-o para o estágio profissional. Difícil? Nada a ver? Calma, vou-te mostrar.
Etienne Wenger (2006, p.1) diz-nos que “Communities of practice are groups of people who share a concern or a passion for something they do and learn how to do it better as they interact regularly.”
Partindo do enunciado de Wenger, podemos inferir que o funcionamento do núcleo de estágio é congruente com a conceção de comunidade de prática, porquanto este grupo partilha preocupações e paixões comuns pelo que faz, e aprende a fazê-lo melhor interagindo regularmente. Considerarás, certamente, que não há dúvidas quanto a isto. Por isso, o que vou (tentar) fazer é mostrar-te … ousar mostrar-te, que o processo de partilha ultrapassa os elementos do núcleo de estágio (a comunidade de prática). Vou ensaiar “alargar” o conceito de Wenger, consciente, de que isto, nada mais é do que um mero ensaio. Não obstante, o meu objetivo último é fazer-te compreender que a partilha tem o poder de te ajudar a construir enquanto profissional.
Antes de passar à ousadia, vou falar-te de partilhas importantes no seio da comunidade de prática.
Sabes, eu tive a sorte de ter um professor cooperante sempre presente. Foi muito mais do que um mero observador de mim. Não penses que esta pessoa será um condutor, e tu um carro telecomandado. Não. Esta pessoa é um mapa, que entre um ponto de partida e um destino, te mostra os possíveis caminhos. E a escolha será sempre tua. Influenciada para bem, mas tua. Esta pessoa, com experiência, vai reparar em ti. Vai tentar traçar-te um perfil. E olha que acertou no meu! Refiro-me ao perfil inicial que cada professor cooperante deve traçar acerca de ti. Vais estar “mortinho” por saber o que é que ele acha de ti e quais são as suas expetativas para ti. E por isso, tenho a certeza que as
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suas primeiras palavras acerca de como te considera te vão marcar, para o bem, ou para o mal. Espero que tenhas a mesma sorte que eu.
É que o meu núcleo reunia com muita regularidade. Estávamos sempre juntos. Passávamos as manhãs na escola. Observávamos as aulas uns dos outros, e em grupo, comentávamos tudo o que havia para comentar. O professor cooperante ouvia-nos e comentava também. E quando não falávamos sobre as aulas, falávamos sobre a escola, sobre nós, sobre um tema de interesse. E aqui, cria-se uma relação de hábitos, uma relação de partilha, uma relação de confiança. Sentes-te tão mais puro, tão mais liberto, tão mais descansado quando sabes que tens um grupo com quem contar … que é capaz de falar contigo abertamente … porque, repara, todos os estagiários, entre outras coisas, procuram as mesmas. Descobrirem-se, darem de si, serem melhores. Ambos sabemos que se nos ajudarem a desembrulhar um presente, descobrimos mais depressa o que lá está. Que dar sabe bem melhor quando alguém está disposto a receber. Que para sermos melhores, o primeiro passo é tomar consciência de que o podemos ser. E que por vezes, se alguém nos sussurrar ao ouvido “tu consegues”, tu acreditas que vais conseguir.
Chamávamos seminários a estes momentos de conversa. Eu fui crescendo nestes momentos, pois estes eram grandes em reflexão, e os meus colegas de estágio e o professor cooperante quase se tornavam moderadores do meu próprio pensamento. Ao partilhar as minhas preocupações com eles pude distanciar-me dos problemas e “observá-los de fora”, pelo que surgiram instantes de clareza e que me permitiram tomar decisões mais assertivas, com um sentimento de segurança extra, na medida em que o assunto tinha sido discutido, refletido e considerado. A propósito, tenho um exemplo muito explícito no meu bloco de notas (10 de novembro de 2011) referente a isto:
“Em conversa com os colegas de estágio, pensou-se em duplicar o valor do golo feminino, ou, criar uma regra, em que o golo só é válido, se nessa jogada tiverem participado todos os elementos de equipa. Vou aplicar. A ver vamos se resulta.”
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Fomos trabalhando em comunidade para uma comunidade. Porque não basta dizer que pertencemos a uma comunidade de prática, só pelo sentido identitário, se não formos, de facto, praticantes.
Como te disse, para mim, partilhar é um verbo construtivo, e estar disponível para observar aulas e falar sobre elas, permite-te aprender com erros sem, na verdade, teres de os cometer. Permite-te de igual forma, contemplar ideias geniais e que não tinhas pensado (mas olha que por funcionar com ele, pode não funcionar contigo, obviamente). E o interessante de seres praticante dentro de uma comunidade, é que se aprendeste com o erro do outro, esse outro aprendeu a corrigi-lo.
Por vezes, observar uma aula, é olhar para ti, através do seu reflexo. E mais importante do que isso, refletir sobre o que observaste é olhar para nós, professores, e o que é que nós estamos a fazer com os nossos aprendizes. Porque numa aula está presente o professor, o aluno, e a possibilidade de consequências daqueles minutos, que te fazem refletir sobre as tuas práticas. Afinal, para que(m) queres melhorar? Para que queres saber os erros que não podes cometer? É inevitável, tu deves querer ser bom professor porque os alunos precisam que tu o sejas. O pensamento de querer ser bom professor só por ser, porque te preenche o ego, ou o pensamento de querer ser melhor para te sentires grande e valoroso não existe. Desculpa-me a comparação bacoca, mas pensares assim é tão inútil como um chef ser excelente e não ter ninguém que aprecie os seus cozinhados.
Comecemos então, a ousar. Disse-te que te ia mostrar que o processo de partilha ultrapassa os elementos do núcleo de estágio, no sentido em que este preconiza uma comunidade de prática.
Tendo como ponto de partida, o processo que envolveu a minha primeira grande decisão no meu ano de estágio, o meu primeiro atrevimento é dizer-te que o processo de partilha passa, também, pelos alunos. O segundo atrevimento é perguntar-te, se considerarias que os alunos pudessem fazer parte de uma comunidade de prática, onde tu também estivesses. Que te parece?
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“Em relação às jornadas competitivas, continua-se a notar um constrangimento por parte das raparigas da turma. É certo que elas estão a evoluir, no entanto, não são criadas tantas oportunidades de prática como o desejado, em situação de jogo. As equipas são heterogéneas, e como tal, há níveis diferenciados numa mesma equipa. O objetivo é que se fomente um trabalho cooperativo, para que a competição seja inclusiva e integradora. Não obstante, este trabalho demora o seu tempo, para atingir-se na sua plenitude. Neste caso concreto, há pessoas da turma que em 15 minutos não tocam na bola, apenas se movimentam (e por vezes até esta movimentação perde o sentido, pois o objetivo dela não é cumprido). Portanto, isto preocupa-me. Neste sentido, havia já criado a regra do golo da rapariga valer por dois. Numa equipa resulta, noutras continua a ser insuficiente. (...) Por outro lado, houve uma aluna que fez uma observação que me surpreendeu. Disse, “professora, se o MED tenta trazer características do desporto institucionalizado, lá fora há o futebol masculino, e o futebol feminino. Aqui podíamos fazer a mesma coisa. Não está a resultar muito bem”.
(…) Estou prestes a tomar uma decisão. Todos devem ter aprendizagens significativas.” (17 de novembro de 2011)
“Decidi separar os rapazes das raparigas na época desportiva de futsal. Vou continuar com o Modelo de Educação Desportiva, mas há que adaptar o processo de ensino e aprendizagem.” (23 de novembro de 2011)
“A turma aplaudiu a sugestão e, de facto, o entusiasmo, a vontade e a motivação foram outros. As meninas referiram que conseguiam aprender mais, e eles, bem, só visto.” (29 de novembro de 2011)
Fica claro que o comentário da aluna foi decisivo para a minha tomada de decisão. Na verdade, discutimos o assunto, de modo que senti que a deliberação foi partilhada. Eu intitulei esta atitude como a “minha primeira grande decisão”, pelo simples facto de ter sido a primeira vez no estágio em
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que tive de decidir entre duas opções que me estavam a causar um constrangimento, separar ou não, raparigas e rapazes.
Embora esta partilha tenha sido muito concreta para a minha atuação, há outras que aconteceram em momentos de conversas informais e que se revelaram elementos importantes, ao passo que me levaram a questionar algumas conceções, e que de certa forma influenciaram as minhas práticas.
Dou-te o exemplo de uma aluna (não pertencente ao 12º H) que conheci no dia 9 de dezembro de 2011:
“Antes não conseguia correr cinco minutos e agora corro meia hora. Graças à professora. É exigente e é assim mesmo que deve ser. A minha condição física melhorou.”
Acabamos por conversar sobre o desporto, a importância que tem e o modo como é visto. A perceção que os alunos têm, embora possa ser não refletida, faz-nos refletir a nós.
Dou-te outro exemplo:
“Estou a gostar mais deste ano porque o professor olha para todos nós e não apenas para os rapazes. Ele explica tudo e não está sempre a parar.”
Para além de te ter mostrado que partilhámos, confesso-te que os momentos de conversa informal são privilegiados. Acerca disto, tenho registado conclusivamente, no bloco de notas (19 de janeiro de 2012):
“Foi hoje, numa conversa informal com duas alunas (uma delas não pertence ao 12ºH) que se falou sobre a relação entre aluno e professor. Tenho notado que este tipo de momentos são um meio privilegiado para se conhecer individualidades. Os alunos estão muito mais recetivos e descontraídos. Muitas vezes, são eles que nos procuram. Estas conversas também influenciam, em certa medida, a nossa atuação enquanto professores. Depois de ouvir muitas
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vezes que no primeiro dia de aulas “não se mostram os dentes aos alunos”, chegam agora perceções do outro lado, reafirmando que sim, “mostra-se os dentes se se tiver que mostrar”.
(…) entendo os dois lados, pois, já pude verificar que ambos podem ou não resultar. De qualquer maneira, considero que a melhor opção é despirmo-nos de conceções e agir de acordo com o que encontramos pela frente, sempre com moderação, e em prol de um bom relacionamento com os alunos. Se nós queremos isso com o outro (em linguagem corrente “com toda a gente”) por que não com aqueles que pretendemos educar e ensinar? Somos todos pessoas.”
Resta-me dizer-te que é também em conversas informais com elementos de outros núcleos de estágio, que partilhas conhecimentos, no sentido em que estão a viver experiências similares. E o meu último atrevimento será perguntar-te se considerarias que estes elementos pudessem fazer parte de uma comunidade de prática, onde tu também estivesses. Que te parece?
Através da minha experiência, pude perceber que de facto, o valor da partilha reside na possibilidade do amanhã. O tal amanhã que tanto procuras. Partilhar edifica mesmo.
Imagina agora … que a paisagem de que te falei são os teus alunos. Continua a ser difícil transportar sentimentos? Não é pelo mundo que eles podem criar que em parte escolheste esta profissão?
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Capítulo VII – Escola e comunidade: uma exigência
“Foi essa a educação que te deram em casa?” “Foi isso que te ensinaram na escola?” Quantas vezes nos deparámos com estas questões! Quem somos nós no meio destes dois mundos de professores e pais? Seria possível a perfeição, se estes dois nos dessem à luz em uníssono? Não me leves à letra, porque tanto quanto sabemos, o meu pai é diferente do teu, e eu sou diferente de ti. Mas se as envolvências fossem simétricas … não seríamos cada vez mais íntegros?
Não obstante, será que a escola está preparada para assumir funções de “pai” quando é preciso? Será que o “pai” tem tudo aquilo que é preciso para assumir o papel de professor?
Como é possível que escola e comunidade caminhem lado a lado, se na escola está uma comunidade de individualidades? Quais os valores a ensinar?
Segundo Canário (2005), a escola como instituição funciona como uma “fábrica de cidadãos” que visa a integração social, e que parte de um conjunto de valores intrínsecos. A escola é detentora de uma cultura própria, que se constrói e desenvolve durante o percurso de interação social, embora se considere a escola como um veículo transmissor da cultura da sociedade em que se insere (Santos Guerra, 2002).
Mas a escola de hoje está carregada de diversidades culturais. Enquanto agência desta mediação, a escola assemelha-se metaforicamente a um entreposto cultural, a um posto dinâmico entre culturas (Torres, 2008). Portanto, há que ter em conta a diversidade e a diferença, que são valores positivos e fatores importantes de progresso, no rumo a uma escola inclusiva.
Neste contexto, as sociedades democráticas devem oferecer um sistema educativo capaz de assegurar que todos os alunos atingem o máximo das suas potencialidades, através das mesmas possibilidades e oportunidades (Pereira,
2004). E como conseguir isto? É muito difícil viajar até às profundezas da
questão, porque muitas outras aparecem pelo caminho.
Eu pensei nisto, e penso, porque eu acredito na escola. Acredito que a escola tem o potencial de ser um acrescento às individualidades, na medida
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em que lhes é complementar. A escola deu-me coisas sem as quais já não sei ser. É quando penso nisto, que percebo o que é “dar o mundo ao outro” sem o saber explicar, na verdade. Parece que pegaram numa bolinha de ensinamentos e passaram-na para a minha mão, para que pudesse vê-la, cheirá-la, escutá-la, descobrir os seus sabores e a sua textura, e no final, senti-la, pensar sobre ela e o que fazer com ela.
E os meus pais, ainda que por vezes, duvidassem do que tinha em mãos, ajudaram-me a segurá-la na mesma, e certificaram-se de que a tratava bem, alimentando-a com esperanças e anseios, e dando-lhe valores e ambições a beber.
Foi a pensar nessa bolinha palpável, fruto de uma relação requisito da maioria de nós, que recordei com júbilo as mostras que a escola pode dar à comunidade. Mostras simples, mas que aproximam estes dois elos que te tenho vindo a falar. Aproximam-se, no sentido em que estão juntas em eventos de expressão daqueles que seguram a tal bolinha. Se participares, durante o estágio profissional, na escola, poderás ficar mais sensível a estas questões.
Desculpa-me se vou falar apenas daquilo que é relacionado com a Educação Física, mas a verdade é que esta me impressiona sobremaneira, porque considero-a “extremamente visionável”. A quantos saraus já fomos em que depois de procurarmos um lugar para nos sentarmos terminámos de pé? Repara na força que a Educação Física pode ter num chamamento à comunidade ansiosa por ver o que os seus filhos estão a fazer na escola.
Na ESAG, impressionou-me o facto de o pavilhão gimnodesportivo estar repleto à hora de almoço. É a que a escola onde lecionei no meu ano de estágio tem uma vinculação muito forte com a ginástica. Tão forte que esta modalidade aparece no currículo da Educação Física de todos os anos de escolaridade. É um exemplo da ponte entre esta disciplina e o desporto escolar. E claro, no sarau, a ginástica foi “imperial”.
Foi também na ESAG que me apercebi, desta vez, do lado de cá (professora), que os alunos são mesmo a fonte de dinamização de uma escola. Era uma alegria imensa passar pelo “recreio” e ficar a observar as atuações de uns, as danças de outros, a expressão de quem sabe que está ali para criar
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valor. A união entre ator e espetador era de uma riqueza tal que chegava a deixar os “pelos em pé”.
Lembro-me do corta-mato na fase distrital em Santo Tirso, lotado de familiares e amigos à espera que o seu ente querido superasse mais uma prova. E eu, nesse dia, vesti três roupas. A de professora, ao acompanhar os meus “garrettianos”, a de professora-estagiária ao encontrar antigos professores de escolas que frequentei, e a de familiar, pois a minha irmã também se encontrava em prova. Este foi um dia em que vivi três sensações diferentes. A sensação de ser professora e de ter uma identidade profissional, a sensação de ser professora sem o ser na totalidade, e a sensação de pertencer à comunidade.
Foi ainda, no Torneio Compal Air que o núcleo de estágio organizou, que o sentimento de ser professora ganhou, outra vez, forma, como se os olhares atentos e as questões dos mais pequenos jogadores fossem o reconhecimento de um estatuto. “Professora para que campo vou agora?” “Professora ajuda-me a arbitrar?”
Contudo, mais importante do que este meu sentimento mais crescido foi poder olhar à volta e reparar que havia filas de alunos à porta do pavilhão à espera de uma oportunidade para participarem na atividade. Para mim, esta foi mais uma espécie de resposta ao meu “porquê” de acreditar na escola. Um “porquê” do acreditar que sim, os alunos estão à nossa espera e estão disponíveis, e sim, precisam de nós, professores, para lhes darmos azos.
É com este sentimento que me apetece clamar que a escola está viva, e bem viva! E que é preciso mostrá-la e que também é preciso que a queiram ver. Para que deixemos de escutar tantas vezes as mesmas questões de um lado e de outro, como se não houvesse ninguém no meio, e como se a escola e a comunidade estivessem impedidas de se verem. Não estão!
O diretor de turma, por exemplo, é uma figura importantíssima na relação entre estas duas. “O director de turma (…) é particularmente responsável pela adopção de medidas tendentes à melhoria das condições de aprendizagem e à promoção de um bom ambiente educativo, competindo-lhe articular a intervenção dos professores da turma e dos pais e encarregados de educação
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e colaborar com estes no sentido de prevenir e resolver problemas comportamentais ou de aprendizagem.” (artigo 5º do Decreto-lei nº30/2002, de 20 de dezembro)
Compete-lhe, portanto, entre outras, “garantir uma informação actualizada junto dos Pais e Encarregados de Educação acerca da integração dos Alunos na comunidade escolar, do aproveitamento escolar, do comportamento, da assiduidade e das actividades escolares”; “articular as actividades da Turma com os Pais e Encarregados de Educação promovendo a sua participação”. (artigo 64º do Regulamento Interno ESAG, 2012).
Tive a oportunidade de reunir algumas vezes com uma diretora de turma da ESAG, e pude perceber que esta pessoa deve ter características muito peculiares, face àquilo que lhe compete. Obviamente, que cada professor se sente responsável pelos seus alunos, mas a envolvência do diretor de turma acaba por ser maior, precisamente por ser o elo de ligação com os encarregados de educação.
Durante o teu estágio profissional, vais poder com certeza, participar em eventos como os referidos anteriormente, viver de perto o desporto escolar e participar em reuniões importantes, que por um lado te farão sentir mais professor, e por outro, te farão sentir que a escola tem muito para mostrar, e que é importante para cada um de nós, que a comunidade esteja presente para que possamos ser cada vez mais completos, e para que ambas possam atirar para a vida o melhor de nós.
Participa na escola e sentir-te-ás grato. Porque vai haver alturas em que te poderás questionar, se a escola em que acreditas, existe.
Confesso-te que doía quando em conversas com os alunos, eles falavam dos exames nacionais como se aquele momento lhes definisse o resto da vida. Parece que a escola é agora o espaço de treinar para um momento, e que não há espaço para aprender coisas interessantes e para aprender a ser.
Eu quero continuar a acreditar que a escola, no máximo, treina as suas pessoas a pensar para poder decidir e a estar preparado para o futuro. E o futuro … esse, está sempre a mudar.
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Capítulo VIII – O aprendido
Já deves estar impaciente e a perguntar-te nesta altura, “afinal, como foi para ela ser professora? Como foi planear, lecionar, lidar com as dificuldades?” Pois, falar-te-ei agora sobre isso.
O título deste capítulo, “O aprendido”, não quer dizer que as outras coisas aqui faladas não tenham sido aprendizagens. Quer antes dizer, que te vou falar de algumas coisas muito concretas que aprendi em relação ao processo de ensino e aprendizagem. Não vou ser muito extensa, vou antes focar-me em três premissas que te serão essenciais, e que serão as tuas preocupações mais práticas na lecionação no estágio profissional: controlo da turma, gestão do tempo de aula e instrução.
Claro está, que quando chegares à escola, terás de conhecer, para além das suas características físicas, as orientações pelas quais se rege e por isso, é importante que leias, entre outros, o Projeto Educativo de Escola, o Regulamento Interno, o Regimento do Conselho da Área Disciplinar de Educação Física, o Projeto Curricular de Escola e o Currículo Nacional de Educação Física. Até porque, como refere Bento (2003, p.19), “A planificação do processo educativo é extremamente complexa, pluridimensional e multiforme, dependendo também de condições diversas. A programação e direcção dos factores e momentos essenciais e decisivos, fundamentais e orientadores, com os meios e formas ajustadas, requerem dois níveis: o nível das indicações gerais e centrais, o nível das indicações locais, relativas a cada situação, específicas e particulares.” E tu vais planear. A este nível destaco a importância da construção do Modelo de Estrutura de Conhecimento (MEC), que estrutura conhecimentos indispensáveis ao processo de ensino e aprendizagem, como sejam, a análise da matéria de ensino, do envolvimento e dos alunos, a extensão e sequência da matéria, os objetivos de ensino, a configuração da avaliação e as progressões de ensino.
Depois de selecionar as modalidades desportivas a lecionar, tendo em conta os documentos orientadores e as condições existentes na escola, e de