CIÊNCIA
Percursos
EDITORES
DESIGN E PAGINAÇÃO
MAPAS
Mariana Soler, Mariana Valente e António Candeias
Nuno Carriço
Nuno Carriço
Novembro 2019 - Universidade de Évora Gráfica Eborense IMPRESSÃO E ACABAMENTO ---/--DEPÓSITO LEGAL 978-972-778-135-5 ISBN
ÍNDICE
NOTA INTRODUTÓRIA
AS AVES DE ÉVORA: ONDE O CAMPO ENCONTRA A CIDADE ÉVORA COM PATRIMÓNIO BOTÂNICO
ÁRVORES E ARBUSTOS DA CIDADE DE ÉVORA ÉVORA: TERRA DE CAL E COR
À DESCOBERTA DO ESGRAFITO EM ÉVORA PEDRAS QUE FALAM: JOGOS MATEMÁTICOS CONVENTO DE NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS CEMITÉRIO DE NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS PEDRAS DOS MONUMENTOS DE ÉVORA
ÉVORA, UMA BELEZA SINGULAR NA SUA QUASE SIMETRIA
O AQUEDUTO DA ÁGUA DA PRATA
A CENTRAL ELEVATÓRIA DE ÁGUAS SOMBRAS DO TEMPO
O COLÉGIO DO ESPÍRITO SANTO (1551)
OS AZULEJOS DA SALA DE AULA DE FILOSOFIA NATURAL O ABASTECIMENTO E A UTILIZAÇÃO DE ÁGUA NA CIDADE
8 11 33 37 75 89 109 127 133 137 165 193 205 217 229 241 251
DOS RESERVADOS DA BIBLIOTECA PÚBLICA DE ÉVORA 267
CIÊNCIA NO MUSEU
FIGURAS FALANTES: ESCULTURAS DO PERÍODO BURGUÊS EM ÉVORA (1850-1930)
A ARQUITECTURA DO FERRO E A MODERNIZAÇÃO DA CIDADE DE ÉVORA
BIOGRAFIAS DOS AUTORES CRÉDITOS DE IMAGEM 289 301 325 336 342 POEMA 349 POEMA 5
Deambular por Évora mobiliza todos os sentidos, mobiliza a curiosidade, o desejo de conhecimento, a empatia pelo que vemos e pelo que pres--sentimos, a contemplação, a reverência por gestos humanos e não huma-nos. Quase podemos dizer que é um lugar tão bonito "que basta contem-plá-lo para se ser feliz toda a vida". Mas é um lugar dinâmico, em devir, com muitas camadas, que exigem contemplação renovada e continuada. Este conjunto de textos pretende alimentar a renovação dessa contempla-ção habitando-a com ciência e arte que se juntam a dois belos poemas inéditos de Margarida Morgado. "Belas são as coisa que vemos, mais belas as que compreendemos [...]" (Steno, cientista século XVII).
A ciência produz mais Évora. Mapas orientam os caminhos. A fotografia emoldura o que merece ser olhado, o texto não se esquece das ausên-cias. Imagem e texto forçam o desejo de ver e alimentam a compreensão de alguns aspetos de Évora. Muito fica de fora, mas entendemos este trabalho em devir, continuando com mais contributos a disponibilizar em linha (a este roteiro está associada uma aplicação digital).
Ligar o conhecimento a um fio sensível que nos coloca no mundo foi inspiração para organizarmos este roteiro sob a égide dos quatro elemen-tos. Esses quatro elementos desenvolvem-se em torno do texto central sobre a quase simetria de Évora.
Ar, terra, água, fogo.
De ar são feitas as árvores, no ar se deslocam as aves. De água é feita a vida e com água se organizam as cidades. Mas é com terra que se cons-troem as cidades, se pintam e se decoram. Cores, umas que vemos e ou-tras não, e esgrafitos que não nos cansamos de olhar. Pedras que falam de momentos lúdicos de outros tempos. Rochas diversas, património valioso, que com a maestria dos canteiros combinam padrões, cores e texturas. O fogo é energia. Energia inscrita na pedra, no ferro, nos azulejos e nou-tros materiais, na produção de belas formas tridimensionais, e de
narrati-vas de ciência. O sol com a sua sombra registada na pedra. Energia no conhecimento que se desenvolve na universidade e noutros espaços, nos livros da biblioteca e nas obras do museu. Energia das vidas que habitam e que habitaram os conventos e a cidade.
Técnicas, saberes e beleza que nos espantam.
A todos estes elementos se juntam o tempo, o movimento e os gestos. Gestos de trabalhadores, gestos de conceção, gestos de criação artística, gestos da nossa contemplação dinâmica. Movemo-nos pela cidade, movem-se os ramos de árvores e arbustos tão diversos, movem-se as aves, de muitas espécies, num céu de um azul singular, movem-se as sombras marcando as horas, movem-se os perfumes de tantas fragrâncias. A sua quase simetria junta-lhe uma beleza singular.
Évora parte de um núcleo comum, protegido por suas históricas muralhas. Escondida por elas e habitada por histórias, tempos e gente que vamos descobrindo nas suas várias camadas. Abre-se em portas orientadas, aos quatro pontos cardeais, deixando suas veias abertas àqueles que vêm de Norte, Sul, Leste ou Oeste. Protege-se, mas cria caminhos para quem a quiser descobrir.
Estes percursos, no espaço ou no tempo, assentam em muitos trabalhos de investigação provenientes de áreas diferentes e resultam da vontade de comunicar conhecimento dos investigadores que participam neste roteiro. Com cada texto recebemos uma nova "lente" para olhar e sentir Évora, ela dá-nos a perspetiva que deriva da especialidade de cada autor: das cores aos gestos, do subsolo ao céu.
Os textos têm grandes diferenças - na sua extensão, na sua forma de comunicação, na sua expressão bibliográfica, na sua utilização ou não do Acordo Ortográfico - e são da responsabilidade de cada autor, mas todos nos ajudam a ver mais e a mais compreender.
Convite a sentir e pressentir experienciar e conhecer uma
cidade singular
PEDRAS DOS
MONUMENTOS DE
ÉVORA
Luís Lopes
Nos monumentos da cidade de Évora encontram-se largamente representados, tanto como elementos estruturais como decorativos, os granitos, granodioritos, gnaisses e migmatitos que ocorrem na região. Outras rochas ornamentais ou decorativas também fazem parte do valioso e diversificado património religioso da cidade de Geraldo Geraldes.
Nas igrejas e capelas de Évora encontramos um verdadeiro caleidoscópio de rochas; rochas sedimentares correspondentes a calcários e brechas carbonatadas provenientes da Orla Ocidental portuguesa; rochas metamórficas representadas pelos xistos e mármores alentejanos de Estremoz (Borba, Vila Viçosa), Viana do Alentejo, Escoural, Serpa, Triga-ches e Ficalho; alguns gnaisses de origem indeterminada dos arredores de Évora e alguns granitos e gnaisses serpentinitos de origem italiana. A intensa e diversificada utilização de rochas nos monumentos eborenses em diferentes períodos históricos, ilustra como estas obras evidenciam uma capacidade financeira capaz de suportar a utilização intensiva de materiais de construção com técnicas de exploração e beneficiamento ou transformação assaz difíceis e morosas. Mesmo agora e com máquinas altamente especializadas e robotizadas postas à disposição da indústria, produzir as quantidades de blocos aparelhados necessários para edificar, por exemplo a Sé Catedral, levaria alguns anos e teria custos seguramen-te muito elevados. Nesta perspetiva a Igreja surge como polo permanen-temente dinamizador de Arte e Indústria que se desenvolve em torno da pedra. A utilização continuada da "pedra" ao longo dos séculos, justifica e também nos permite compreender como a experiência adquirida, nos coloca atualmente entre os principais fornecedores de obras em pedra, quer seja em modernas produções arquitectónicas como no restauro de monumentos emblemáticos. Por exemplo, em Miami, Flórida (EUA), o monumento erigido em homenagem aos astronautas falecidos no aciden-te do vaivém Challenger, em 28 de janeiro de 1986, foi feito com o granito cinzento de Alpalhão; em 2011 o restauro das escadarias da Cate-dral de Notre Dame de Paris foi efetuado com calcários portugueses e os stands da Rolls Royce de todo o Mundo também estão a ser revestidos com pedra portuguesa. São apenas três exemplos, entre muitos outros, onde empresas nacionais deixam a sua marca em monumentos e edifíci-os de referência a nível mundial, utilizando materiais portugueses. No perímetro urbano da cidade de Évora ainda existem alguns afloramen-tos em que se identificam algumas das rochas utilizadas nos monumenafloramen-tos. Por exemplo, sabemos que as fundações do Templo Romano assentam em granitóides e sob os edifícios da Fundação Eugénio de Almeida ocorrem gnaisses e migmatitos. Por vezes a toponímia é um bom
indica-dor das rochas subjacentes (Bairro do Granito), outras vezes são as obras de grandes infra-estruturas que nos expõem estas rochas (terraplanagens e fundações no parque industrial).
Também os "granitos do Alto de São Bento" são um lugar-comum que todos os eborenses conhecem. Curiosamente, é precisamente nas ime-diações do Alto de São Bento, assim como no Monte das Flores, que encontramos vestígios in situ de antigas explorações de granito. O mé-todo de exploração, com incisões alinhadas onde cunhas de madeira seca eram inseridas e por intumescimento com água provocavam a rup-tura do granito, era usual no Período Romano e, na verdade, foi utilizado em vários monumentos romanos de Évora (Lopes et al., 2000). Este método extrativo marca uma inovação à utilização das rochas nos
monumentos megalíticos. Ao invés de apenas serem selecionadas e aplicadas em bruto, no Período Romano as rochas são extraídas dos afloramentos mas, tendo em vista a sua utilização, irão ser transformadas adquirindo então a forma mais conveniente de acordo com o seu destino.
Afloramento nos arredores do Alto de São Bento onde, no bloco ao centro, podem-se encontrar vestígios in situ de exploração antiga de granito, muito provavelmente pertencentes ao Período Romano.
Genericamente as rochas utilizadas nos monumentos de Évora podem separar-se em três grupos, a saber:
1) Rochas ígneas, siliciosas, onde se englobam granitos e rochas afins
Sendo por excelência os materiais abundantes e disponíveis, não admira que as rochas siliciosas (granitos, gnaisses, migmatitos, granodioritos, quartzodioritos e dioritos), usualmente designadas por "granito", tenham sido desde muito cedo utilizadas pelos nossos antepassados.
Para além da sua utilização como elemento estrutural, fazendo parte do edifício e contribuindo para a sua robustez, estas rochas também foram utilizadas como elementos decorativos. Para estes fins regista-se, contu-do, um cuidado na selecção dos tipos petrográficos sendo privilegiados os homogéneos e de grão mais fino. As aplicações são diversificadas (pavimento, revestimento de paredes, colunas, arcos, estátuas, etc.). Entre as obras mais emblemáticas destacamos as gárgulas na Igreja/ Ermida de São Brás, as estátuas na Igreja da Graça e os robustos orna-mentos da Porta dos Nós na entrada da Igreja do Carmo, atribuída a Diogo de Arruda (Espanca, 1950). Acontece que, expostas aos agentes atmosféricos, com o decorrer dos anos, estas rochas sofrem os efeitos da meteorização, bem patentes nos exemplos apresentados, com a excepção da Igreja do Carmo onde o estado de conservação é excelente em virtude, cremos nós, do resguardo em que se encontra inserido. Neste grupo também se incluem as rochas gnaisso-migmatíticas de composição mineralógica similar aos granitos mas com indícios claros de movimento, ou seja, apresentam dobras que sugerem um fluxo quando, a vários quilómetros de profundidade, estavam sujeitas a altas pressões e temperaturas. Como curiosidade no Brasil estas rochas são referidas como "movimentadas". Este grupo representa as rochas mais abundantes na região pelo que não admira que tenham sido profusamen-te utilizadas desde os monumentos megalíticos pré-históricos até aos passeios e arruamentos atuais. Quando inalteradas, normalmente estas rochas são de cor cinzenta clara e podem apresentar encraves (manchas mais ou menos regulares de materiais, normalmente de cor mais escura
Gárgulas em granito na Igreja de São Brás.
Avançado estado de meteorização de duas das estátuas da Igreja dos Meninos da Graça
Portal dos Nós na entrada da Igreja do Carmo, em granito de Évora. Fotografia anterior ao restauro de 2013.
do que a rocha que os envolve). Estes encraves são facilmente identificá-veis e em alguns casos, em função das características petrográficas que apresentam (textura, dimensão do grão e minerais presentes, etc.) é mesmo possível determinar aproximadamente o local de exploração da rocha que os contêm no terreno. Os fenómenos meteóricos de alteração destas rochas conduzem a que as mesmas adquiram tonalidades cremes ou castanhas. À superfície os minerais primários (quartzo, feldspatos potássicos e sódico-cálcicos, micas - branca ou moscovite e negra ou biotite -, anfíbolas, entre outros, ditos acessórios) alteram-se e esta "degradação" da rocha não é mais do que uma adaptação dos seus constituintes às condições a que agora estão sujeitas. É um reflexo do
tempo que passou por elas desde que foram retiradas dos afloramentos a que correspondem. Esta característica transforma-as num património do tempo que enriquece a cidade e contribuí para a sua identidade.
Pormenor de utilização de gnaisses e migmatitos na Igreja de São Francisco. As colunas em mármore branco de Estremoz substituíram outras que apresentavam um elevado grau de meteorização.
Detalhe da alteração dos cristais de biotite no granito cinzento utilizado na Igreja de Nossa Senhora da Pobreza.
2) Rochas metamórficas essencialmente carbonatadas – Mármores
Os mármores existem no Alentejo em várias localidades embora com características próprias que a Geologia de cada local pode explicar. Pela dimensão das explorações e pela intensa utilização é justo destacar os mármores do triângulo do "ouro branco" alentejano, de Estremoz - Borba - Vila Viçosa. Este triângulo insere-se na estrutura geológica designada por anticlinal de Estremoz. Corresponde a uma estrutura elíptica com eixo maior superior a 40 quilómetros desde o norte de Sousel até ao sul do Alandroal e eixo menor com cerca de 10 quilómetros na região de Estremoz. Tridimensionalmente define uma grande dobra em forma de "A", ou seja, com a concavidade voltada para baixo onde as rochas mais antigas se situam no interior. Há registo de duzentas e vinte sete pedreiras activas em 1987 (Martins, O., 1989). Muitas destas eram peque-nas explorações que coalesceram e tornaram-se maiores, outras simples-mente fecharam por vários motivos. Em 2019 cerca de 40 pedreiras produzem mármores brancos, cremes, rosados, azuis, anil, e mais rara-mente esverdeados. Qualquer destas variedades apresenta diferentes intensidades de cor. Além disso pode ser homogénea, venada e/ou vergada, ou seja apresentar variações graduais entre as diferentes cores ou apresentar traços e linhas discretas e coloridas normalmente escuras (verde, preta, cinzenta, azul ou vermelha) que se destacam na matriz homogénea do mármore.
As variedades claras, de vários tons, são frequentemente utilizadas junta-mente com as variedades cinzentas de modo a se obterem padrões e efeitos estéticos agradáveis ou ajudarem a compor determinados moti-vos.
Nos monumentos eborenses os mármores estão sempre presentes, sendo a maioria proveniente do anticlinal de Estremoz. Também se conhecem explorações de mármores noutras localidades, todavia estes apresentam características petrográficas (texturais, e mineralógicas) assim como padrões e cores tão característicos que, frequentemente, permitem uma rápida e acertada identificação. Estão nestas circunstâncias os materiais provenientes de: 1) Viana do Alentejo e 2) Escoural - ambos de granulari-dade média a grosseira e muito semelhantes, embora os de Escoural
Algumas da variedades de mármore em ladrilhos quadrados com 30 cm de lado. Da esquerda para a direita: Ruivina da Lagoa, Pele de Tigre de Pardais, Rosa Vergado de Borba, Rosa Aurora, Creme de Pardais, Branco Rosado de Estremoz e Branco Vigária.
Ornamento em forma de coroa na Igreja do Espírito Santo. Os tons claros corres-pondem a mármores cremes de brancos de Estremoz, o azul ao mármore Ruivina e a cor avermelhada ao Lioz variedade Encarnadão.
tenham granularidade ligeiramente maior; são mármores bandados onde se destacam bandas rosadas, verdes, castanhas e cremes, raramente brancas, com minerais acessórios (granada, anfíbolas, piroxenas, feldspa-tos, pirite, calcopirite vesuvianite e quartzo), facilmente identificáveis com o auxílio de uma lupa de mão; 3) Trigaches - mármores cinzentos-claros e escuros de grão médio a grosseiro e com a particularidade de cheira-rem a ovos-podres (SO2) quando percutidos; 4) Serpa - mármores verdes claros, homogéneos, de grão médio a fino com granadas castanhas claras e anfíbolas características (que neste caso correspondem a minerais brancos alongados); 5) Vera Cruz (Portel) – semelhantes aos de Serpa mas mais escuros e com bandado melhor definido e 6) - Vila Verde de Ficalho (Sobral da Adiça) apresentam a granularidade mais fina de todos os mármores alentejanos e por isso desenvolvem uma fractura concoidal característica, todas as cores referidas para os mármores de Estremoz também aqui se podem encontrar mas são mais frequentes as tonalida-des brancas e cremes e azul claras. Atualmente, para além das pedreiras do anticlinal de Estremoz, apenas há extração de mármores neste local. Neste grupo podemos ainda incluir, por também serem metamórficas e de menor dureza que as rochas siliciosas, os serpentinitos que são rochas verdes, com aspecto brechóide e são facilmente detectáveis por apresen-tarem uma cor de fundo verde-seco muito característica. Onde quer que tenham sido utilizadas contrastam com as que lhes sejam adjacentes. Podem-se encontrar no altar principal da Sé de Évora, na Igreja do Con-vento do Espinheiro e na Igreja do Espírito Santo, por exemplo.
A aplicação no altar da Sé merece particular atenção. Uma análise deta-lhada revela alguns dados interessantes. Antes de mais a simetria nos dois painéis em paredes opostas privilegia a cor em vez do material, assim o painel da esquerda apresenta mármore azul de Trigaches e o da direita mármore Ruivina de Estremoz. Em relação à rocha verde percebe-se que foi usada a técnica de polimento em livro aberto e desdobrado. Esta consiste em polir ambas as faces resultantes de um corte e aplica-las lado a lado, vertical e/ou horizontalmente. Desdobrado porque é perceptível que o processo foi repetido várias vezes o que tornou possí-vel que um fragmento relativamente pequeno possa ter originado placas suficientes para cobrir as áreas necessárias do painel. O detalhe também
Vista geral do lado noroeste do altar da Sé Catedral de Évora (Igreja de Santa Maria). Destacam-se as colunas, as placas retangulares verticais e os painéis inferiores (com dobras) em mármore Ruivina escuro e vergado; dois painéis em amarelo de Negrais e o painel mais trabalhado e com a brecha verde, sob o órgão. Rodeando todas as estruturas referidas está o Lioz, variedade Encarnadão. Os capitéis, ricamente trabalhados, são em mármore branco e creme de Estremoz.
mostra que pequenos fragmentos foram de igual modo utilizados, facto só por si revelador da preciosidade desta rocha, pela sua escassez. Rochas metamórficas também são os xistos, mais ou menos siliciosos, esverdeados, acinzentados ou "borra de vinho". São essencialmente utilizados nos pavimentos em conjunto com mármores de várias tonalida-des definindo padrões e jogos de cor geometricamente dispostos nos espaços que preenchem. Ocasionalmente, como acontece na igreja de São Mamede, foram utilizadas placas de grandes dimensões, ou seja, constituem verdadeiros painéis colocados nas paredes.
Painel ornamental sob o órgão do altar principal da Sé de Évora, no lado esquerdo. Para além do "Verde Glaciale" (serpentinito), de Itália, que se destaca ao centro, é também composto por mármore branco de Estremoz, mármore azul claro de Trigaches e calcário Lioz Encarnadão de Pêro Pinheiro.
Pormenor do painel ornamental sob o órgão do altar principal da Sé de Évora, lado sudeste. O mármore azul de Trigaches utilizado no outro painel é substituído por mármore Ruivina Claro de Estremoz. As restantes rochas são as mesmas. No Lioz destacam-se os fósseis brancos de lame-librânquios (rudistas) muito característicos de todas as variedades cromá-ticas de Lioz.
Pavimento revestido com xisto luzente e mármores indiferenciados na entrada da Igreja do Carmo.
Igreja de São Mamede, painel em xisto. No Alentejo placas de xisto de tão grandes dimensões não são usuais e a sua utilização nestes painéis é um reconhecimento dessa raridade. Paralelamente, na atualidade os ladrilhos de maiores dimensões são vendidos a um preço muito superior aos de menores dimensões, deste modo o tamanho das peças aplicadas numa obra revela o poder económico do proprietário.
3) Rochas sedimentares carbonatadas – Calcários
Os calcários encontrados nos monumentos religiosos de Évora são rochas sedimentares carbonatadas que não existem no interior alentejano. As diversas variedades encontradas são provenientes da costa ocidental (geologicamente correspondente à Orla Meso-Cenozóica Ocidental) onde ainda hoje se exploram. Destacamos os calcários cretácicos consti-tuídos por fósseis de rudistas (bivalves) provenientes da região de Pêro Pinheiro - Sintra, genericamente designados por Lioz que se apresenta nas variedades creme, encarnadão, cor-de- rosa, amarelo e mais raramen-te cinzento. Esta rocha ornamental desempenhou um papel histórico muito importante. Entre outras utilizações, está intrinsecamente associada à Expansão Marítima Portuguesa, à edificação do Convento de Mafra e à Reconstrução Pombalina de Lisboa.
Igreja do Espírito Santo, púlpito com base em calcário de Lioz rosado ricamente trabalhado.
Efetivamente, estas rochas associadas a outros calcários, eram transforma-das em altares e peças de cantaria que eram utilizatransforma-das como lastro transforma-das embarcações que zarpavam ao Novo Mundo (Silva, 2007). Chegados aos destinos serviam para ornamentar as igrejas que ainda hoje se podem encontrar nas cidades costeiras do Brasil, por exemplo em Salvador da Baía e Vitória do Espírito Santo.
Estas rochas correspondem a calcários bio construídos ou seja, a antigas estruturas biológicas de rudistas, corais e outros invertebrados, que fixavam o carbonato de cálcio e assim iam edificando os recifes de corais, tal como acontece hoje em dia. Há cerca de 97 milhões de anos isso
ocorreu num local hoje correspondente à região de Lisboa e arredores (Pêro Pinheiro - Negrais - Sintra - Cascais), razão pela qual historicamente a indústria da Pedra Ornamental em Portugal está tão enraizada naquela região, já que o núcleo extrativo e transformador de Pêro Pinheiro foi, até à década de 90 do Séc. XX, o mais importante do país. As mais importantes escolas de cantaria tinham aí a sua sede e tudo devido à ocorrência do Lioz no seu território. Esta rocha é pois parte integrante do património histórico português.
Outras rochas de natureza carbonatada também presentes nos monumen-tos eborenses e absolutamente inconfundíveis por apresentarem aspemonumen-tos distintivos muito próprios são a "Brecha da Arrábida" que não é mais do que um calcário constituído por fragmentos multicolores e unidos por uma matriz também carbonatada e o Calcário Negro de Mem Martins. Como o nome indica, esta rocha apresenta uma cor negra absoluta devi-do ao teor elevadevi-do em matéria orgânica. No entanto ainda é suscetível de polimento devido à natureza microcristalina. Como elemento decora-tivo em conjunto com outros materiais também a podemos encontrar nos monumentos eborenses. Desde a década de 80 do Séc. XX que estes materiais não são explorados. A Brecha da Arrábida por apenas ocorrer no Parque Nacional da Arrábida e ter sido proibida a sua extração. Uma das últimas a ser encerrada, a Pedreira do Jaspe permanece tal como foi abandonada, sendo os indícios da atividade extrativa perfeitamente evi-dentes. É hoje um local visitável integrado nos percursos da natureza que o Parque promove. Quanto ao Calcário de Mem Martins apresentava reservas de reduzida dimensão que acabaram por ficar sob núcleos popu-lacionais em resultado do crescimento urbano. A maestria dos canteiros portugueses revela-se quando combinam padrões, cores e texturas das várias rochas, realçando o seu melhor num produto final esteticamente apelativo.
Igreja de São Mamede, púlpito em Lioz com ornamentos de Brecha da Arrábida e Calcário Negro de Mem Martins. Observam-se ainda as ombreiras da porta de acesso em Lioz variedade Encarnadão.
Outras variedades de calcários encontram-se erroneamente aplicados em trabalhos de restauro e ampliação recentes. É o caso de Alpinina, Vidraço, Ataíja, Moca Creme ou Moleanos, que provêm do Maciço Calcário Estremenho e correspondem a unidades geológicas jurássicas distintas dos calcários da região de Lisboa, que são de idade cretácica.
Para além dos monumentos
A maior parte dos pavimentos mais antigos da cidade são constituídos por rochas negras (metachertes) e verdes escuras, com veios de quartzo branco e mineralogia muito variada onde se destaca o epídoto (ou pista-cite, por ter a cor das sementes do pistácio). No geral estas rochas são muito resistentes e daí a sua utilização nos pavimentos. Também deverão ter entrado na composição das argamassas e alvenarias que constituem as paredes das casas mais antigas. Como elemento estrutural registámos a sua presença no podium do Templo Romano; como elemento decorati-vo não encontrámos vestígios da sua utilização.
Em cima à esquerda, contraste entre a calçada antiga (medieval) e a disposição regular dos paralelepípedos na calçada moderna, nas ruas de Évora. Restantes imagens com um pormenor (em cima à direita) e aspectos gerais da variedade
litológica presente na calçada antiga, verdadeiro mostruário da geologia regional. Rochas siliciosas de monumentos religiosos de Évora observada ao microscópio.
Outra forma de olhar as rochas
O desenvolvimento do conhecimento sobre as rochas tem sido potencia-do e aprofundapotencia-do pelo recurso a um importante instrumento - o microscópio petrográfico – que congrega à sua volta diferentes áreas disciplinares. "Vemos" mais e mais compreendemos. Hoje, é possível recorrer às rochas adequadas no restauro de monumentos e fazê-lo de forma sustentável. Conhecemos a localização de muitas variedades e aprendemos a conhecer o seu estado de degradação/meteorização, em particular nos monumentos da nossa cidade. As rochas são um patrimó-nio que urge preservar e cuidar. Existem vários grupos a nível mundial que lhes prestam atenção, devolvendo-nos uma consciência do seu valor. É o caso do grupo "Global Heritage Stone", http://globalheritage stone.com, onde os mármores de Estremoz e o calcário de Lioz estão inscritos como património a preservar.
Alguns mármores dos monumentos religiosos de Évora observados ao microscó-pio. São essencialmente constituídos por calcite (mais de 98%), quartzo (1%) e outros (moscovite, sericite, dolomite, óxidos, etc.). As diferentes tonalidades resultam da interferência entre a luz duplamente polarizada que por eles passa e a orientação dos cristais.
Em cima à esquerda, orientação preferencial da calcite em resposta às forças tec-tónicas orientadas que a rocha sofreu onde a seta indica o sentido de movimento, "c" é o plano principal de movimento e "s" o plano de orientação do eixo maior dos minerais. A imagem da direita mostra um pequeno cristal de quartzo que cresceu num dos planos "c", a nuvem no seu interior corresponde a inclusões fluídas a partir das quais podemos determinar as condições de pressão e tempera-tura que presidiram à recristalização da rocha. Ao centro e a duas escalas diferen-tes, observam-se na horizontal, planos de movimento sublinhados por cristais de filossilicatos, no caso mica branca (moscovite) e sericite que se encontram em destaque na imagem da direita. Em baixo ilustra-se um mármore com textura intermédia, isótropa e homogénea onde não são evidentes as orientações dos esforços tectónicos sofridos pela rocha. Estes materiais são os preferidos pelos escultores para talharem as mais finas obras.
Calcários dos monumentos religiosos de Évora observados ao microscópio. Em cima, calcário Lioz cortado paralelamente ao plano da estratificação. Toda a rocha apresenta um aspecto consolidado resultante da recristalização que sofreu apôs a sedimentação. Os fósseis representados correspondem a fragmentos de bivalves hoje extintos (rudistas). Ao centro, a imagem da esquerda representa a mesma rocha, mas segundo o plano perpendicular à estratificação que aqui está representada pelo alinhamento das conchas de bivalves e pela linha recortada, sublinhada por minerais argilosos castanhos. Estas linhas recortadas designam-se por estilólitos e resultam da dissolução sob a pressão que os sedimentos que estão por cima provocam na rocha, o que fica é o resíduo insolúvel argiloso. À direita representa-se o aspecto do calcário Negro de Mem Martins ao microscópio. Os minerais, de reduzidas dimensões, não são resolúveis a esta escala e por isso a rocha tem textura criptocristalina (ou micrítica, micrite é a calcite criptocristalina). Em baixo representa-se um calcário com textura oolítica. A imagem da direita representa o pormenor da relação entre os oólitos (textura interna concêntrica) e o cimento cristalino (calcite esparítica) que os une. Em amostra de mão estes materiais apresentam-se mais friáveis deixando, por vezes, resíduo ao tacto por isso a sua utilização é de todo desaconselhada em exteriores.
Templo Romano de Évora. Construído no Séc. I na então Liberatias Iulia é por si só um repositório das rochas da região. Os capitéis e bases das colunas são de mármore branco de Estremoz, as restantes rochas siliciosas têm origem nas antigas pedreiras nos arredores de Évora.
Templo Romano de Évora. Pormenor de base de coluna em mármore de Estremoz. As restantes rochas são granitos da região de Évora. Os efeitos da erosão, natural ou antrópicas, também fazem parte da história que o monumento nos conta. Casal Moura, A., 2000. Granitos e Rochas Similares de Portugal, Instituto
Geológico e Mineiro, Lisboa, ISBN 972-98469-5-2. 179 p.
Casal Moura, A.; Carvalho, C.; Almeida, I.; Saúde, J. G.; Farinha Ramos, J.; Augus-to, J.; Rodrigues, J. D.; Carvalho, J.; Martins, L.; Matos; M. J.; Machado, M.; Sobreiro, M. J.; Peres, M.; Martins, N.; Bonito, N.; Henriques, P. & Sobreiro, S., 2007. Mármores e Calcários Ornamentais de Portugal. INETI (National Institute of Engineering, Technology and Innovation), ISBN 978- 972-676-204-1. 383 p. Espanca, Túlio, Artes e Artistas em Évora no séc. 18, A cidade de Évora, vols. 21-22, Évora, 1950; ESPANCA, Túlio; Inventário Artístico de Portugal – Concelho de Évora, Vol.7, Lisboa.
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Martins, O. 1989. A Indústria Extractiva das Rochas Ornamentais de Portugal em 1987. Bol. Minas. Lisboa. 26 (1) Jan./Mar. 1989, p. 7-52C
Silva, Z. C., 2017. O Lioz Português de lastro. De navio a arte na Bahia, Edições Afrontamento, Porto, ISBN 978-972-36-0924-0, 156 p.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Em resumo
As pedras dos monumentos permitem reescrever a história da cidade numa perspetiva socioeconómica, histórica e arquitectónica que extra-vasa as fronteiras nacionais e não se esgota no emblemático Templo Romano. A grande variedade de materiais utilizados ao longo do tempo implica uma continua transferência de materiais e conhecimentos a cente-nas ou mesmo milhares que quilómetros de distância. Contextualizando estas trocas no tempo ainda mais importância adquirem uma vez que exigem esforços proporcionalmente muito superiores aos que hoje são exigidos para o mesmo fim.
162 163 PRAÇA DE GIRALDO CÂMARA MUNICIPAL DE ÉVORA BIBLIOTECA PÚBLICA DE ÉVORA LARGO DOS COLEGIAIS MUSEU DE ÉVORA SÉ DE ÉVORA IGREJA DE S.FRANCISCO PALÁCIO DE D.MANUEL JARDIM PÚBLICO PRAÇA 1º DE MAIO PRAÇA JOAQUIM ANTÓNIO D’AGUIAR LARGO DA PORTA DE MOURA DE AVIS LARG ODO CHÃO DAS COVA S LARGO DA MISERICÓRDIA
RUA MIGUEL BOMBARDA RUA DIOGO CÃO RUA5 D E OUTU BRO RUA JO ÃO DE D EUS RU A D A RE PÚ BL IC A RUA DORA IMUN DO RUA R OMÃO RAMA LHO RUA B ERNA RDO MATO S RUADO S MERC ADORES RUA DA MO EDA
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RUA DO CICIOSO
IGREJA DA GRAÇA RUADO M ENINO JE SUS JARDIM DIANA RUA D A MOU RARIA RUA DE AVIS RU A D A S FO N TE S RUA D E MAC HEDE RUA C ARDE ALRE I AV. DA UNIVERSIDADE AN UEL TRIN DAD E SA LGU EIRO RUA DE MEN DO ESTEVEN S COLÉGIO DO ESPÍRITO SANTO TEATRO GARCIA DE RESENDE DA PRATA RUA DO CANO RUA CAN DIDO DOS REIS PORTA DA LAGOA AV.D E LIS BO A PORTA DO RAIMUNDO LARGO LUÍS DE CAMÕES CONVENTO DOS REMÉDIOS 6 7 8 9 5 1 2 3 4
PEDRAS DOS
MONUMENTOS DE ÉVORA
IGREJA DE S. TIAGO 1 IGREJA DA GRAÇA 2 3 4 IGREJA DE S. FRANCISCO 5IGREJA DO ESPÍRITO SANTO 6 SÉ DE ÉVORA 7 IGREJA DE S. MAMEDE 8 TEMPLO ROMANO 9 IGREJA DO CARMO
IGREJA DO SENHOR JESUS DA POBREZA
TEMPLO ROMANO