REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
ARTIGO
DE
REVISÃO
Anestesia
e
doenc
¸a
de
Alzheimer
---
Percepc
¸ões
atuais
夽
Ana
Filipa
Vieira
da
Silva
Ferreira
Marques
a,∗e
Teresa
Alexandra
Santos
Carvalho
Lapa
a,baCentroHospitalareUniversitáriodeCoimbra(CHUC),Coimbra,Portugal
bUniversidadedaBeiraInterior(CICS),FaculdadedeCiênciasdaSaúde,Covilhã,Portugal
Recebidoem21deagostode2016;aceitoem27desetembrode2017 DisponívelnaInternetem11denovembrode2017
PALAVRAS-CHAVE
Doenc¸adeAlzheimer;
Anestesiageral;
Disfunc¸ãocognitiva
pós-operatória
Resumo
Justificativaeobjetivos: Temsidoespeculadoqueousodeagentesanestésicospossaserum fator derisco para odesenvolvimento dedoenc¸ade Alzheimer. Oobjetivo destarevisão é descreverediscutirdadospré-clínicoseclínicosrelacionadoscomaanestesiaeessadoenc¸a.
Conteúdo: Adoenc¸ade Alzheimerafetacerca de5%dapopulac¸ãocommaisde65 anos,a idadeéoprincipalfatorderiscoeestáassociadaaumaelevadamorbidade.Aevidênciaatual questionaumapossívelassociac¸ãoentreanestesia,cirurgiaeefeitoscognitivosemlongoprazo, oqueincluiadoenc¸adeAlzheimer.Emboraosdadosobtidosemalgunsdosestudosanimais sugiramumaassociac¸ãoentreanestesiaeneurotoxicidade,esseelopermaneceinconclusivoem humanos.Fizemosumarevisãodaliteraturaemqueforamselecionadosartigoscientíficosna basededadosPubmed,publicadosentre2005e2016(umde1998pelarelevânciahistórica),em inglês,queabordamaeventualrelac¸ãoentreanestesiaedoenc¸adeAlzheimer.Forameleitos 49artigos.
Conclusão:A possível relac¸ão entre agentes anestésicos, disfunc¸ão cognitiva e doenc¸a de Alzheimerpermaneceporesclarecer.Serãonecessáriosestudosdecoorteprospetivosouensaios clínicosrandomizadosparamelhorcompreensãodessaassociac¸ão.
©2017SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/). KEYWORDS Alzheimerdisease; Generalanesthesia; Postoperative cognitivedysfunction
AnesthesiaandAlzheimerdisease---Currentperceptions Abstract
Backgroundandobjectives: Ithasbeenspeculatedthattheuseofanestheticagentsmaybea riskfactorforthedevelopmentofAlzheimerdisease.Theobjectiveofthisreviewistodescribe anddiscusspre-clinicalandclinicaldatarelatedtoanesthesiaandthisdisease.
Content: Alzheimerdisease affects about5% ofthepopulationover 65years old, withage being the main risk factor and being associated with a high morbidity. Current evidence questionsapossibleassociationbetweenanesthesia,surgery,andlong-termcognitiveeffects,
夽 Localdoestudo:CentroHospitalareUniversitáriodeCoimbra. ∗Autordecorrespondência.
E-mail:fi[email protected](A.F.Marques).
https://doi.org/10.1016/j.bjan.2017.09.003
0034-7094/©2017SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸a CCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
includingAlzheimerdisease.Althoughdata fromsomeanimalstudiessuggestanassociation betweenanesthesiaandneurotoxicity,thislinkremainsinconclusiveinhumans.Weperformed a reviewoftheliterature inwhichwe selected scientific articlesinthe PubMeddatabase, publishedbetween2005and2016(onearticlefrom1998duetoitshistoricalrelevance),in English,whichaddressthepossiblerelationshipbetweenanesthesiaandAlzheimerdisease.49 articleswereselected.
Conclusion: Thepossiblerelationshipbetween anestheticagents,cognitivedysfunction, and Alzheimer diseaseremainstobeclarified.Prospective cohortstudiesorrandomizedclinical trialsforabetterunderstandingofthisassociationwillberequired.
©2017SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
Adoenc¸adeAlzheimeréaformamaiscomumdedemência
daatualidade,estima-sequeatinja26,6milhõesdepessoas
emtodoomundo,1cercade5%dapopulac¸ãocommaisde
65anos.2 Adescobertadeumapossível deteriorac¸ão cog-nitiva como resultado de um evento anestésico/cirúrgico conduziuàinvestigac¸ãodessefenômeno,motivadatambém pelamaiorpreocupac¸ãoeprocuradeinformac¸ãoporparte dosdoentesedassuasfamílias.3
A disfunc¸ão cognitiva pós-operatória é uma síndrome perioperatóriabemreconhecida,consequênciadaanestesia ecirurgiacujacausaexatapermaneceporesclarecer.4De queformaadisfunc¸ãocognitivapós-operatóriaeadoenc¸a de Alzheimer podem estar ligadas permanece uma ques-tão em estudo. A bioquímica subjacente ao processo de demência, o estudo da relac¸ão entre doenc¸a de Alzhei-meredisfunc¸ãocognitivapós-operatóriaenquantoprovável espectrodeumamesmadoenc¸aearelac¸ãodeambascom osagentesanestésicosmotivamaexplorac¸ãodessaárea.
Fizemos uma pesquisa na Pubmed com as palavras ‘‘Alzheimerdisease’’,‘‘Anesthesia’’e‘‘Postoperative
Cog-nitive Dysfunction’’, foram incluídos artigos científicos
publicadosentre2005e2016(um de1998 pelarelevância histórica),eminglês,queabordamaeventualrelac¸ãoentre anestesiaedoenc¸adeAlzheimer.Deacordocomoscritérios deinclusãoepelasuarelevânciaforameleitos49artigos.
Estarevisãovisaasumarizaradefinic¸ãoeapatofisiologia dadoenc¸adeAlzheimer,bemcomodiscutiroconhecimento científicoque relacionaaexposic¸ãoaagentesanestésicos comodesenvolvimentodessademência.
A
doenc
¸a
de
Alzheimer
É uma demência progressiva que conduz ao declínio das capacidades cognitivas. A grande maioria dos casos de doenc¸a de Alzheimeré esporádica, oude iníciotardio, e presume-sequesejaumadoenc¸amultifatorialresultanteda interac¸ãoentrefatoresgenéticoseambientais.5Oprincipal fatorderiscoéaidade,emboraoutros,comosexofeminino, baixoníveleducacional,históriafamiliaremutac¸ões gené-ticasespecíficas(genótipodaapolipoproteínaE),6,7também
possam contribuir. Estão descritos vários fatores de risco modificáveis,comodoenc¸ascardiovasculares,antecedentes detraumatismocrânio-encefálico,6 diabetes,8hipertensão edislipidemia,9 Aassociac¸ão entreexposic¸ãoambientala fatoresderiscomodificáveisedoenc¸adeAlzheimer provi-denciouuma analogia potencialpara o eventual papel da anestesiageralnapatogênesedessadoenc¸a.Nessalinhade pensamento,areduc¸ãodessesfatoresderiscomodificáveis diminuiriaaincidênciadademência.
Patofisiologia
da
doenc
¸a
de
Alzheimer
Adoenc¸adeAlzheimercaracteriza-seporneurodegenerac¸ão severa,neuroinflamac¸ão e perdaprogressivadas aptidões cognitivas.10 Os critérios de diagnóstico para demência divulgadospelaAssociac¸ãoNacionalAmericanado Envelhe-cimentoeAssociac¸ãodoAlzheimerdefinemdemênciacomo odesenvolvimentodesintomascognitivosou comportamen-taisassociadosaodeclíniodonívelpréviododesempenho, envolvendováriosdomínioscognitivosque nãopossamser explicadospordelíriooudistúrbiospsiquiátricos.11 Recente-mente,asdiretrizesincluíramtambémbiomarcadorescomo critériosdediagnóstico,taiscomo:níveisdiminuídosde pro-teínaamiloide(poroligomerizac¸ão) associadosaaumento daproteínatautotaloutaufosforiladanolíquido cefalor-raquidiano(LCR).12Alémdisso,arazãoentreaproteínatau totale aproteínaamiloide podetambémserusada como adjuntonodiagnósticodedoenc¸adeAlzheimer.13
O distúrbio principal envolvido na sua patofisiologia é
ofoldingproteicoanormal,temcomocaracterísticas
neu-ropatológicasmarcantes:1) Aacumulac¸ão deplacassenis formadasporagregadosdeproteínaamiloideextracelular; e2)Aformac¸ãodeemaranhadosneurofibrilares intraneu-ronaisdeproteínatauhiperfosforilada.14,15Essesdistúrbios induzemestresseoxidativo,inflamac¸ãoe disfunc¸ão neuro-nalcomeventualmortecelular.14 Aperdadahemóstaseda fosforilac¸ãodaproteínataupoderesultardadesregulac¸ão dascínasesedasfosfatasesenvolvidasnesseprocesso. Fato-resambientaistambémpodemcontribuirparaalterac¸õesda transduc¸ãodesinal,queconduzamàperdadesseequilíbrio eculminamnadegenerac¸ãoneurofibrilaremortecelular.16 Ahipóteseamiloidereconhecequeadesregulac¸ãoentrea
produc¸ãoeaclearancedeproteínaamiloideconduz àsua acumulac¸ão.17 Essahipótesecontemplaaindaquealgumas formasdopeptídeoamiloidesãoneurotóxicasecontribuem para a fosforilac¸ão anormal da proteína tau. Em última instância, essa cascata culmina em dano mitocondrial, desregulac¸ãodocálcio,apoptoseeneurodegenerac¸ão.18
Estudosdebiomarcadoresmostramqueasconcentrac¸ões deproteínaamiloidenoLCRestãoinversamente relaciona-dascomograudedoenc¸adeAlzheimer.19Noentanto,quer asplacasamiloidesqueradiminuic¸ãodaproteínaamiloide podemserencontradasemidosossemclínicadedisfunc¸ão cognitiva,peloqueaamiloidopatiaporsisópareceser insu-ficienteparaodesenvolvimentodesintomasdedemência.20 Algunsneurotransmissoresparecemterumpapelno con-texto da demência de Alzheimer. A disfunc¸ão colinérgica pareceestarenvolvidanossintomasclínicosdedemência. Adoenc¸adeAlzheimeraparentaestarassociadaàperdade neurônios colinérgicos umavez quea acetilcolina modula func¸õescerebraissuperiorescomoatenc¸ão,aprendizagem e memória. Dessa forma, o grau de disfunc¸ão cognitiva podeser associado ao déficit colinérgico presente, o que levanta a questão do potencial papel dos inibidores da acetilcolinesterase.18
A tentativa de relacionar exposic¸ões ambientais, tais comoaanestesiaa,aodesenvolvimentodedoenc¸ade Alzhei-mer,deveterporbaseevidênciaentreexposic¸ãoeprocessos fisiopatológicossubjacentesàdoenc¸a.Alémdisso,a cirur-gia,por si só,é considerada fomentadora de respostade estresseinflamatório, podendopromover a patogêneseda doenc¸a.21
Modelos
animais
Vários estudos geraram evidência no sentido de que os agentes anestésicos pudessem contribuir ou mesmo exa-cerbar doenc¸as neurodegenerativas, tais como a doenc¸a deAlzheimer.22,23 Enquanto alguns estudos demonstraram alterac¸õesnosníveisdecitosinaseproteínataudolíquido LCR humano posteriormente a anestesia/cirurgia, coinci-dentes comos níveis encontradosem pacientescom essa demência,21outrosnãoencontraramcontributosignificativo daanestesiaecirurgianoseudesenvolvimento.24,25
O uso de modelos animais permite a explorac¸ão dos mecanismosatravésdos quaisosanestésicospossamestar envolvidosnapatogeniadadoenc¸adeAlzheimer.Umestudo pilotonestaárea,in vitro---queusouummodelode célu-las livres --- demonstrou que anestésicos voláteis como o halotano,o isofluranoe osevoflurano poderiampotenciar a oligomerizac¸ão e a citotoxidade dos peptídeos amiloi-desrelacionados coma doenc¸ade Alzheimer.26 Dereferir queaoligomerizac¸ãodaproteínaamiloidecomhalotanofoi dose-dependenteequeasdosesusadasforamelevadas(∼4 MAC).Oefeitopermaneceuhorasapósaretiradado anes-tésicovolátil.Estudosinvitroeemanimaisdemonstraram queousodeisofluranoa1,4%esevofluranoa2,5%durante duas horas potenciao processamento da proteína precur-sora amiloide em proteína amiloide, aumentando os seus níveiscerebraisemratinhoswildtype(comcincomeses), o que conduz à ativac¸ão da caspase-3 e causa apoptose neuronal.27,28 Umestudorecentereportouqueaanestesia comsevoflurano a 2,1%durante seis horas podeinduzir a
ativac¸ãodacaspase-3 eo aumentodosníveis deproteína amiloidenocérebroderatinhosnaivecomseisdiase rati-nhos transgênicos para a doenc¸a de Alzheimer (mutac¸ão daproteínaprecursoraamiloide),essesúltimospodemser maisvulneráveis à neurotoxicidade.29 Demonstrou, assim, quecertosmodelosderatinhotêmumriscoaumentadode desenvolvimentodedoenc¸adeAlzheimer.
Em 2008 um grupo de trabalho expôs ratinhos trans-gênicos (mutac¸ão para expressão da proteína precursora amiloidehumana)de12meseseratinhosnãotransgênicos damesmaninhadaaoisofluranoeaohalotanodurante120 minutos pordia durante cinco dias.Concluiu que norato transgênico houve sobrecarga de placas de proteína ami-loideapósusodehalotanoeagregac¸ãodeproteínatauapós exposic¸ão à isoflurano.30 No entanto, não foi encontrada alterac¸ãonodesempenhocognitivonoratinhomutante,não foiencontradoefeitodosanestésicosvoláteissobrea apop-tose quer no ratinho transgênico quer no controle e não severificoudissociac¸ãoentreagerac¸ãodeplacasamiloide (halotano---ratinhomutante)versusdeclíniododesempenho cognitivo(isoflurano---ratinhocontrole).Maistarde,como mesmomodeloderatinhos,osanimaisforamexpostosa iso-flurano20-30minutosduasvezesporsemanadurantetrês meseseconstatou-sequeapresentavamdiminuic¸ão compor-tamentaleaumentodamortalidade.Respostassimilaresà doenc¸adeAlzheimerforamtambémidentificadasnoratinho transgênico,comonúmeroaumentadodecélulas apoptóti-cas,reduzidaautofagia,reduc¸ãodaastrogliaeaumentoda respostadamicroglia,bemcomoaumentodosagregadosde proteínaamiloide.31
Em 2011, um estudo com modelos de ratinhos tripla-mentemutadosparaadoenc¸adeAlzheimerexpôsumgrupo aanestesiageralcomhalotanoouisofluranocincohoraspor semana durantequatrosemanas(atrês diferentesidades: dois, quatroe seis meses)e umgrupo semexposic¸ão aos anestésicosinalatórios.32Nãoforamencontradasdiferenc¸as no declínio cognitivo dos ratinhos mutados expostos ao anestésico volátil quando comparados com os ratinhos mutados que não foram expostos. Apesar de os níveis de proteína tau fosforilada no hipocampo estarem aumen-tados dois meses após a cirurgia, nãoforam encontradas alterac¸ões amiloides, das caspases, da microglia ou da sinaptofisina. Esses resultados pareceram indicar que a exposic¸ão a esses agentes inalatórios durante o período pré-sintomático da doenc¸ade Alzheimernão serelaciona comoacelerardodeclíniocognitivo.
Agentesanestésicosintravenosos,emconcretoo propo-fol,tambémestãoassociadosaoaumentodaproteínatau
nohipocampo dorato,etalefeitoparecedever-seàac¸ão diretadofármaco,e nãoa efeitosfisiológicossecundários (comohipotermia).33
Peranteaeventualligac¸ãoentrecirurgiae/ouanestesia ealterac¸õespatofisiológicasrelacionadascomadoenc¸ade Alzheimer,umadasmaioresdificuldadesnessaavaliac¸ãoé aseparac¸ãoentreaexposic¸ãoaosanestésicoseosefeitos dacirurgia.
A existência de declínio cognitivo após cirurgia está razoavelmente bemestabelecida e há muitaliteraturade estudosem animaisque examinaessa interac¸ão. O declí-nio cognitivo pós-cirúrgico em ratinhos envelhecidos foi associado à microgliose,produc¸ão deproteína amiloidee hiperfosforilac¸ãodaproteínataunohipocampo.34 Opapel
daneuroinflamac¸ãona disfunc¸ão cognitivapós-cirúrgicae relac¸ãocomadoenc¸adeAlzheimertambémtemsido estu-dado. Em ratinhos jovens wild type a cirurgia, e não a anestesia,causouneuroinflamac¸ãoeperdascognitivas agu-dasetantoamicrogliosecomoosdéficit cognitivosforam reduzidosporagentesanti-inflamatórios.35---37Acirurgia con-duzàformac¸ãodefatordenecrosetumoral-␣,queprovoca lesãodabarreirahematoencefálicaepermiteainfiltrac¸ão de macrófagos inflamatórios, sobretudo no hipocampo.34 Ratinhos submetidos a cirurgia, quando comparados com ratinhosqueapenasforamanestesiadossemsofrerqualquer intervenc¸ãocirúrgica,apresentaramníveisaumentadosde interleucina-1einterleucina-6.37
Deve ser mencionado que os estudos animais não são capazes de separar totalmente a anestesia da cirurgia, porque cada procedimento cirúrgico é sempre feito com um agente anestésico, e tem-se tornado mais evidente que os anestésicos são capazes de modular a resposta imune/inflamatória.
A ciência e a investigac¸ão científica nessa aérea não estagnaramejáem2008surgiuumestudoqueveioapoiar asbaixas concentrac¸ões deamiloide enquanto substância compotencialpapeldemodulac¸ãodaneurotransmissão,38o queveiocontrariaraatitudeculpabilizadoradacomunidade científicaemgeral.
Evidência
clínica
Estudosprospectivos
Peranteaevidênciadequeaanestesiaprovocadiminuic¸ão das capacidadescognitivas em indivíduos suscetíveisapós cirurgiaeletiva, sugere-se que osmecanismospatológicos subjacentes à disfunc¸ão cognitiva pós-operatória mimeti-zemosdadoenc¸adeAlzheimer.39
O primeiro grande estudo internacional de disfunc¸ão cognitivapós-operatória(o estudoISPOCD)reportavauma incidênciade25% empacientessubmetidos acirurgianão cardíaca após uma semana e 9,9% após três meses.40 O númerodeestudosprospectivosqueexploramaassociac¸ão entreexposic¸ãoaagentesanestésicosedoenc¸ade Alzhei-mer é limitado. A partir do estudo original ISPOCD, 701 pacientes foram seguidos por 8,5 anos. Nesse estudo os doentes que desenvolveram disfunc¸ão cognitiva pós--operatóriaapresentavammaiormortalidadeemaiorrisco dedependênciasocial,masnãoéfeitaqualquerreferência àincidênciadedemência.41Omesmoautor,numaavaliac¸ão separada,seguiu686indivíduosenvolvidosnoestudoISPOCD desde1994-1996e1998-2000até1dejulhode2011, atra-vés do registro nacional de doentes dinamarquês e do registrocentraldepesquisa psiquiátrica,dessesapenas32 desenvolveramdemênciaenãofoiencontradaumarelac¸ão estatisticamente significativa entre disfunc¸ão cognitiva pós-operatóriae demência.42 Recentementefoi conduzido umestudoprospectivorandomizadocomumgrupode180 pacientesdiagnosticadoscomdiminuic¸ãocognitiva amnés-tica,umsubtipodedisfunc¸ãocognitivacompredomíniode dificuldadedememória,comoobjetivodeavaliaroefeito daanestesianaprogressãodessaperturbac¸ãoparadoenc¸a deAlzheimercomumperíododeseguimentodedoisanos.23 Sessentapacientesdeambulatóriocomomesmodiagnóstico
foramusadoscomogrupodecontrole,enquantoosrestantes foramsubmetidosacirurgialombarespinhalerandomizados para receber sevoflurano, propofol ou anestesia epidural com lidocaína. Através de testes neuropsicológicos e avaliac¸ãodeníveisdepeptídeoamiloide,proteínatautotal etaufosforilada,osinvestigadoresconcluíramqueonúmero decasos dedoenc¸ade Alzheimeremergentes nãodiferiu entreosgrupos.Onúmerodecasosdedisfunc¸ãocognitiva amnéstica progressiva foi maior no grupo do sevoflurano doquenogrupocontrole(p=0,001),masospacientesque receberam anestesia epidural com lidocaína ou anestesia endovenosacom propofol apresentarama mesma taxade progressão que o grupo controle. A taxa de progressão para demência foi mais rápida no grupo que recebeu sevoflurano,embora essevalornãofosseestatisticamente significativo.23
Estudosretrospectivosobservacionais
Umagrande parte da literaturaque pretende examinara relac¸ão entre exposic¸ões prévias à anestesia/cirurgia e o risco subsequente de desenvolvimento de demência tem recorrido a bases de dados e técnicas epidemiológicas (observacionais)para oefeito.Denotar queé umdesafio examinardeformaindependenteosefeitosdaanestesiae dacirurgia(tabela1).
Estudosdecoorte
Em 2005, foi feito um estudo de coorte retrospectivo, com o objetivo de avaliaro risco de desenvolvimentode doenc¸adeAlzheimerapóscirurgiaderevascularizac¸ão mio-cárdica sob anestesia geral comparativamente com outro gruposubmetidoaangioplastiapercutâneatransluminalsob sedac¸ão(semanestesiageral).43 Foramselecionados5.216 e 3.954 pacientes, respectivamente, através da base de dadosdosistemadesaúdede veteranos.Apopulac¸ão em estudo incluía todos os pacientes com 55 anos ou mais, semdiagnósticopréviodedemência,submetidosacirurgia de revascularizac¸ão coronária ou angioplastia percutânea transluminalentreoutubrode1996esetembrode1997.Os pacientesforamacompanhadosdesdeadatadaintervenc¸ão a que foram submetidos até setembro de 2002, até ao diagnóstico de doenc¸a de Alzheimer ou até a morte. Os resultadosmostraramque119pacientes (78submetidosa revascularizac¸ãomiocárdicae41aangioplastiapercutânea transluminal)desenvolveramdoenc¸adeAlzheimerduranteo períododeseguimento.Oriscorelativodedoenc¸ade Alzhei-merfoi comparadoem ambos osgrupos. No modelo final ajustado,acirurgiaderevascularizac¸ãodomiocárdiocom anestesiageralestavaassociadaa1,71vezmaiorriscode desenvolverdoenc¸ade Alzheimerquandocomparada com a angioplastia percutânea sem anestesia geral (razão de risco=1,71;IC95%entre1,02-2,87;p=0,04).
Em2009,umestudodecoorteretrospectivoidentificou três grupos de pacientes selecionados através do Centro dePesquisa para a Doenc¸a deAlzheimer daUniversidade deWashington: 1)Semantecedentesdecirurgiacardíaca; 2)Semantecedentes dedoenc¸a;3)Grupocontrole.Desse modo foi feito o seguimento em longo prazo da func¸ão cognitiva antes e após cirurgia e doenc¸a.25 Esses paci-entes eram submetidos a exames anuais e na altura do
Tabela1 Estudosrelevantesqueevidenciaramarelac¸ãoentredemênciaecirurgia/anestesia Autor,ano Tipodeestudo Populac¸ão Resultados Lee,2005 Estudodecoorte
retrospectivo
Adultossubmetidosàcirurgiade revascularizac¸ãomiocárdicasob anestesiageral(n=5.216)ea angioplastiatransluminal percutâneasobsedac¸ão (n=3.954).
Cirurgiaderevascularizac¸ãodo miocárdiosobanestesiageral riscoaumentadode
desenvolvimentodedoenc¸ade Alzheimer(razãoderisco=1,71;
p=0,04). Avidan,2005 Estudodecoorte
retrospectivo
Adultoscomalgumgraude demência(365)esemdemência (214):1)Semantecedentesde cirurgiacardíaca;2)Sem
antecedentesdedoenc¸a;3)Grupo decontrole(n=575).
Grupocomdemênciasem diferenc¸anatrajetóriacognitiva entreosgrupos,gruposem demênciaprogressãopara demênciaclínicadeforma idênticaentreosgrupos. Steinmetz,2009 Estudoprospectivo Adultossubmetidosàcirurgia,
comdesenvolvimentoounão DCPO,semdemência(n=686).
32desenvolveramdemência,sem relac¸ãoestatisticamente
significativaentreDCPOe demência.
Vanderweye,2010 Estudodecoorte retrospectivo
Adultossujeitosahernioplastia sobanestesiageralouregional (n=3.769)ecirurgiaprostática sobanestesiageralouregional (n=6.511).
Semassociac¸ãoentreanestesia geraleriscoaumentadode desenvolvimentodedoenc¸ade Alzheimercomparativamentea anestesiaregionalemambosos estudos.
Seitz,2011 Metanálisedeestudos caso-controle
Adultossubmetidosàcirurgiasob anestesiageralvs.pacientesnão cirúrgicosousobanestesia regional;15estudos(1.752casos, 5.261controles).
Ausênciaderelac¸ão
estatisticamentesignificativa entreanestesiagerale desenvolvimentodedoenc¸ade Alzheimer.
Liu,2013 Estudoprospectivo randomizado
AdultoscomDCAsubmetidosà cirurgiacoluna(n=180).
MaiorincidênciaDCAprogressiva nogrupoanestesiadocom sevoflurano(p=0,001). Sprung,2013 Estudocaso-controle Adultoscomdiagnósticode
doenc¸adeAlzheimer(n=877) comparadoscomadultoslivresde doenc¸a(n=877).
Semassociac¸ãoentreexposic¸ãoà anestesiageralediagnósticode Alzheimer(p=0,27).
Chen,2014 Estudocaso-controle Adultosdiagnosticadoscom demência(n=5.345)comparados comadultoslivresdedoenc¸a (n=21.830).
Exposic¸ãoàanestesiageral associadaariscoaumentadode desenvolvimentosdedemência.
DCPO,disfunc¸ãocognitivapós-operatória;DCA,disfunc¸ãocognitivaamnéstica.
recrutamentodos 575selecionados 214nãoapresentavam
demência,enquanto361apresentavamdemêncialigeiraou
muitoligeira. Verificaram que nogrupode pacientessem
demênciahouveprogressãoparademênciaclínica,aolongo
doestudo, deforma idêntica nos três grupos, sendo que
osmais velhos tinham maiorprobabilidade de progressão
(p<0,0001).Nogrupodedoentescomdemênciaadinitium
antecipou-se que a disfunc¸ão cognitiva pós-operatória se
pudessemanifestarcomoumaumentona taxadedeclínio
cognitivo,noentantonãoforamencontradasdiferenc¸asnas
trajetóriascognitivasentreosgrupos.
Procedimentoscirúrgicosquepossamserfeitossob
anes-tesiageral ouregionalsãopossíveisfontesdecomparac¸ão
dosefeitosdaanestesiageralnodesenvolvimentodedoenc¸a
de Alzheimer. Nesse sentido, em 2010, foi elaborado um
estudo de coorte retrospectivo com dois grupos de
paci-entescirúrgicos (cirurgia prostáticae cirurgia dehérnia),
com o objetivo de comparar o risco de desenvolvimento
de doenc¸ade Alzheimerapós exposic¸ão à anestesiageral
e anestesia regional.44 No estudo das hérniasforam
sele-cionados 3.769 doentes, dos quais 2.658 (70,5%) foram expostosaanestesiagerale1.111(29,5%)foram interven-cionadossob anestesiaregional.Arazãoderiscoajustada para idade, durac¸ão do internamento, o número de pro-cedimentospréviosenúmerodediagnósticosnomomento da admissão mostraram não existir umaassociac¸ão entre anestesia gerale risco aumentado dedesenvolvimentode doenc¸a de Alzheimercomparativamente à anestesia regi-onal (razão de risco=0,65; IC 95% 0,49-0,85). No estudo dapróstataforamincluídos6.511pacientes,2.820(43,3%) foram expostos a anestesia geral e 3.691 (56,7%) a anes-tesia regional.Similarmenteao encontrado noestudo das hérnias, o risco de desenvolver doenc¸a de Alzheimer em indivíduos submetidosaanestesiageralnãoseencontrava
elevadocomparativamentecomaanestesiaregional(razão derisco=0,71;IC95%0,49-1,04).
Metanáliseseestudosdecaso-controle
Em 2011 foi publicada uma metanálise de estudos de caso-controle que avaliava a associac¸ão entre exposic¸ão à anestesia geral e o desenvolvimento de doenc¸a de Alzheimer.45 Esse trabalho definia exposic¸ão à anestesia geral como qualquer história de cirurgia sob anestesia geral comparada comausência dehistória decirurgiasob anestesia geral. O grupo controle incluía pacientes não cirúrgicos ou pacientes cirúrgicos sob anestesia regional. Nessas condic¸ões foram incluídos 15 estudos, com 1.752 casos e 5.261 controles. O outcome primário era o diag-nóstico de doenc¸a de Alzheimer de qualquer gravidade.
Osoutcomessecundários diziamrespeitoaotempo
decor-rido atéao desenvolvimento dadoenc¸a, desenvolvimento de início precoce (< 65 anos) ou tardio (> 65 anos). A análise feitanão revelou associac¸ão estatisticamente sig-nificativa entre anestesia geral e o desenvolvimento de doenc¸a de Alzheimer, com um odds ratio combinado de 1,05;p=0,43. Doisdossubgruposde análisedesseestudo visavam a comparar a exposic¸ão à anestesia geral com a exposic¸ãoàanestesiaregionaleaassociac¸ãoentreonúmero de anestesias gerais prévias ou a exposic¸ão cumulativa a anestesiageraledoenc¸adeAlzheimer.Nãofoiencontrada diferenc¸a estatisticamentesignificava nodesenvolvimento de doenc¸a de Alzheimer entre a anestesia geral ou a anestesia regional nemassociac¸ão entreexposic¸ão cumu-lativaàanestesia geraleodesenvolvimentodessetipode demência.
Recentemente,umgrupodeinvestigadorespublicouum estudodecaso-controledebasepopulacionalcomrecurso ao projeto epidemiológico de Rochester e ao registro de pacientescomdoenc¸adeAlzheimerdaClínicaMayo.24Entre 1dejaneirode1985e31dedezembrode1994foram iden-tificados 877 casos incidentes de doenc¸a de Alzheimer e paracadacasofoiselecionadoaleatoriamenteumcontrole, livrededoenc¸aeemparelhado deacordocomo sexoe a idade,consoanteoanoíndice.Osregistrosmédicosdecada pacienteapartirdos45anoseatéaoanoíndiceforam exa-minadosparadeterminaraexposic¸ãoàanestesia.Entreos casos dedemência, 615 (70%) foramsubmetidos a proce-dimentossob anestesiageral contra636 controles(72,5%) nasmesmascircunstâncias,enãofoiencontradaassociac¸ão estatisticamente significativa entre a exposic¸ão e o diag-nóstico(p=0,27).Alémdisso, osautoresnãoencontraram associac¸ãoexpressivaentreexposic¸ãoemtermos quantitati-vos(númerodeexposic¸õesàanestesia)eodesenvolvimento dedemência.
Outro estudo de caso controle de base populacional publicado em 2014 procurou avaliar a associac¸ão entre exposic¸ãopréviaaváriostiposdeanestesiageralea inci-dênciadedemência.6 Paraisso foramusadosos dadosde ummilhão de pacientesabrangidos pelo seguro de saúde universaltailandêsentre2005e2009.Foramidentificados 5.345 casos de indivíduos com mais de 50 anos recém--diagnosticadoscomdemência.Osindivíduossemdemência (n=21.830)foramemparelhadosparasexo,idadeedatade diagnóstico.Aanestesia geralfoidivididaem trêsgrupos: 1) Anestesia geral com intubac¸ão por tubo endotraqueal;
2) Anestesia geral por injec¸ão intravenosa ou anestesia geralporinjec¸ãointramuscular;e3)Sedac¸ãoprofunda.Os autoresconcluíram que indivíduos expostos àcirurgia sob anestesiageralcom intubac¸ãoendotraqueal (OR=1,34;IC 95% 1,25-1,44) e anestesia geral por injec¸ão intravenosa ouinjec¸ão intramuscular(OR=1,28;IC 95% 1,14-,43) cor-riam ummaiorrisco de desenvolver demência,esse risco aumentavacomo aumentodaexposic¸ão(p<0,0001).Não severificaramdiferenc¸asentre osgrupos relativamenteà exposic¸ãoàsedac¸ãoprofunda.
Atualidade
Novos estudos têm surgido nessa área. Um estudo pros-pectivolongitudinal de2016 envolveudoentessubmetidos pela primeira vez à cirurgia de bypass coronário e que foramenvolvidos inicialmentenumestudodecomparac¸ão
deoutcomescognitivos após randomizac¸ão pararecepc¸ão
debaixasoualtasdosesdefentanil.Apósaavaliac¸ãodos 12meses osmesmos doentes foram convidados a partici-parnumestudodeseguimentoaos7,5anosapóscirurgia.46 Foram analisados 193 dos 326 doentes iniciais com 55 anos ou mais. Avaliaram-se os doentes para o desenvol-vimentode demência e foi tambémpesquisada disfunc¸ão cognitiva pós-operatória aos três meses, 12 meses e 7,5 anosapóscirurgia. Noentanto,sófoipossível avaliar113 doentesquerparademênciaquerparadisfunc¸ãocognitiva pós-operatória. Nos 7,5 anos após a cirurgia a prevalên-ciade demência foi 30,8% nospacientes com maisde 55 anosàdatadaintervenc¸ão.Osautoresatribuemessa ele-vada prevalência de demência à anestesia/cirurgia ou ao natural declínio das capacidades cognitivas com o enve-lhecimento e em doentes com patologia cardiovascular grave. Acrescentam ainda que como não existiu segui-mento de um grupo de controle não cirúrgico, essa será umalimitac¸ãoimportantedoestudo.Adisfunc¸ãocognitiva pós-operatória foi detectada em 32,8%. Dos 113 doentes avaliadosparaambas asentidades, 44%dos que apresen-tavamdemênciaforamtambémclassificadoscomdisfunc¸ão cognitiva pós-operatória. O déficit cognitivo preexistente e a doenc¸a vascular periférica foram ambos associados à demência aos 7,5 anos após cirurgia de bypass coronário e adisfunc¸ão cognitivapós-operatória quer aos três quer aosseis mesesfoi associada a aumento damortalidade a 7,5anos.
Outrogrupodetrabalhoanalisou8.503paresdegêmeos dinamarqueses de meia-idade (< 70 anos) e de idade avanc¸ada (≥ 70 anos). Foram criados dois grupos: 1) Os que tinham sido submetidos a pelo menos uma cirurgia (18a24anosantesdaavaliac¸ãocognitiva);2)Osquenão tinhamsofridoqualquerintervenc¸ãocirúrgica.Alémdisso, ospacientesqueforamoperadosforamdivididosemquatro grupos:1)Cirurgiasmajor;2)Artoplastiasdojoelhoeanca; 3)Cirurgiasminor;4)Outras.Osresultadosdecincoestudos cognitivosforamcomparadosentreosgêmeos.Agenéticae oambienteenquantoconfundidoresforamavaliadosnuma análiseintraparesde87paresdegêmeosmonozigóticose 124dizigóticosdomesmosexoemqueumtinhahistóriade cirurgiaeooutronão.47Osgêmeosquesofreramcirurgias majorpontuaramligeiramentepiornostestesdecognic¸ão comparadoscomosquenãosofreramqualquerintervenc¸ão,
no entanto os autores consideram a diferenc¸a como um efeito de tamanho negligenciável. Na análise intrapares o gêmeoexposto à cirurgia tinha pontuac¸ões mais baixas nos testes cognitivos em 49% dos pares. Os gêmeos com 70 anos ou mais que foram submetidos à artoplastia da anca e joelho tiveram pontuac¸ões superiores nos testes cognitivos, inclusive superiores àqueles que não sofreram qualquerintervenc¸ão.Oestudonotaqueasdoenc¸as subja-centespodemserumfatorderiscoimportantenasligeiras variac¸õesdafunc¸ãocognitivaentregruposcirúrgicosenão cirúrgicos e que a func¸ão cognitiva pré-operatória pode ser um determinante mais importante do funcionamento cognitivoem idadesmaisavanc¸adasdoque acirurgia ea anestesia.
Outro estudo de coorteprospectivo que procurou ava-liar a associac¸ão entre anestesia e demência ou doenc¸a de Alzheimer incluiu doentes com 65 anos ou mais sem demência (n=3.988) seguidos até ao desenvolvimentode demência, morte ou abandono. No início do estudo foi colhida informac¸ão relativa aos procedimentos cirúrgi-cos prévios sob anestesia geral ou do neuroeixo e novas intervenc¸õesforamreportadasacadadoisanos.48Foifeita umacomparac¸ãoentrepacientessubmetidosacirurgiasde altorisco sobanestesiageral, outrascirurgiassob aneste-siageraleoutrascirurgiascomanestesiadoneuroeixocom pacientesquenãoforamsujeitosaintervenc¸ãocirúrgicae a anestesia. Duranteo períodode seguimento, 946 (24%) pessoas foram diagnosticadas com demência, 752 (19%) apresentavam doenc¸a de Alzheimer e 42% dos envolvidos alcanc¸aram o fim do estudo sem qualquer diagnóstico de demência.Oriscoajustadodedemêncianãofoisuperiorno grupodepessoas comcirurgiasdealtoriscosobanestesia geralcomparativamentecomogruposemhistóriade anes-tesia(HR=0,86;IC95%0,58-1,28);omesmoseverificouno casodedoenc¸adeAlzheimer(HR=0,95;IC95%0,61-1.49). Osautoresconcluíramnãoexistirassociac¸ãoentreexposic¸ão à anestesia e desenvolvimento de demência/doenc¸a de Alzheimernoadultodeidadeavanc¸ada.
Em 2016, investigadores da Clínica Mayo publicaram um novo estudo de coorte prospectivo, de base popula-cional, que visava a avaliar a associac¸ão entreexposic¸ão à anestesia geral após os 40 anos com a incidência de diminuic¸ão cognitiva ligeira em idosos. Foram selecio-nados indivíduos entre os 70 e os 89 anos (n=19.731) submetidosa váriasavaliac¸õesneuropsicológicas noinício do estudo e aos 15 meses e foram também recolhi-dos dados relativos à exposic¸ão à anestesia após os 40 anos.49 Dos1.731 participantes, 536 (31%) desenvolveram diminuic¸ão cognitiva ligeira. A exposic¸ão à anestesia, o número de exposic¸ões e a durac¸ão da exposic¸ão cumu-lativa total não foram associadas a diminuic¸ão cognitiva ligeira. No entanto, numa análise sensitiva secundá-ria, verificaram uma associac¸ão entre anestesia após os 60 anos e incidência de diminuic¸ão cognitiva ligeira (HR ajustado=1,25;IC95%1,02-1,55;p=0,04).Osautoresnão excluemapossibilidade deaexposic¸ão aagentes anesté-sicos numa fase de vida avanc¸ada poder estar associada aoaumentodataxadeincidênciadediminuic¸ãocognitiva ligeira.Noentanto,concluemnãoexistirassociac¸ão signi-ficativaentreexposic¸ãocumulativaàanestesiaapós os40 anoseessaalterac¸ãocognitiva.
Conclusão
Prevê-se que a prevalência da doenc¸a de Alzheimer aumente com o envelhecimento da populac¸ão. Cada vez maisidosossãosubmetidosa cirurgiae aanestesia geral, pelo que é pertinente averiguar a sua associac¸ão com o desenvolvimento de demência. Estudos animais sugerem queacirurgiaeosanestésicospossamacelerarapatologia de Alzheimer, sendo comuns alterac¸ões cognitivas, tais como a disfunc¸ão cognitiva pós-operatória. A evidência clínicaquerelacionaosefeitosadversosdaanestesiacoma deteriorac¸ãocognitivaeexacerbac¸ãodaneurodegenerac¸ão em indivíduos suscetíveis é merecedora de atenc¸ão. Na maioriadassituac¸õesédifícildiscernirseasalterac¸ões cog-nitivas sãodevidasàcirurgiaouàanestesia,àinflamac¸ão ou se trata de um percurso natural de envelhecimento do indivíduo.Os resultados deestudos observacionaisem humanosqueestudamarelac¸ãoentreanestesia,cirurgiae demênciatêmsidoinconsistentes.Váriosfatoresdevemser levados em considerac¸ão em futurosdesenhos de estudo, tais como selec¸ão de uma amostra suficiente, grupos de controle apropriados (não cirúrgicos e sem anestesia), avaliac¸ão pré-operatória da func¸ão cognitiva através de testespsicológicospadronizadoseousodebiomarcadores eneuroimagemparadeterminaraexistênciadedoenc¸ade Alzheimereacargaamiloide.Alémdisso,seriainteressante o desenvolvimento de hipóteses de estudos futuros que tivessem porbase a relac¸ão entre anestesia e doenc¸a de Alzheimereoprocessoneurobiológicosubjacenteàdoenc¸a. Maisestudosdecoorte prospectivosouensaiosclínicos randomizados,idealmentecombiomarcadorese/ou neuroi-magem,sãonecessáriosparacompreenderarelac¸ãoentre anestesia e a doenc¸a deAlzheimer. Até ládeve ser feito umesforc¸onosentidodeaprimorarocuidado perioperató-riodeadultosdeidademaisavanc¸adaquepossamestarem riscodealterac¸õescognitivaspós-operatóriaseaescolhada técnicaanestésicadeveterporbaseoprocedimento cirúr-gicoeoutrosfatoresclínicosrelativosqueraodoentequer àtécnicaemquestão.
Conflitos
de
interesses
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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