CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ - CERES DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO CERES - DHC
RAFAEL JEFFERSON DOS SANTOS FERREIRA
“VOCÊ NÃO GOSTA DE MIM MAS SUA FILHA GOSTA”: AS AMBUIGUIDADES
CONTIDAS NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA. (1964-1967)
CAICÓ, 2015
“VOCÊ NÃO GOSTA DE MIM MAS SUA FILHA GOSTA”: AS AMBUIGUIDADES
CONTIDAS NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA. (1964-1967)
Monografia apresentada ao Curso de História Bacharelado, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte-CERES, para obtenção do título de Bacharel em História.
Orientador: Prof. Dr. Antônio Manoel Elíbio Júnior.
CAICÓ, 2015
“VOCÊ NÃO GOSTA DE MIM MAS SUA FILHA GOSTA”: AS AMBUIGUIDADES
CONTIDAS NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA. (1964-1967)
Aprovada em: _____/_____/_______
BANCA DE DEFESA
Professor Dr. Antônio Manoel Elíbio Júnior. Departamento de História do CERES- UFRN
(Professor Orientador)
_____________________________________________________________________ _
Professor Elton John da Silva Farias Departamento de História do CERES- UFRN
(Professor Coorientador)
_____________________________________________________________________ _
Professor Rosenilson da Silva Santos Departamento de História do CERES- UFRN
CAICÓ, 2015
Dedico este trabalho inteiramente à Francineide dos Santos e a Antônia Severina da Silva, minhas mães, que desde o começo acreditaram na minha capacidade e que sempre me apoiaram em todas as minhas decisões.
“Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar. As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito.” (Chico Xavier)
É citando esse grande homem que começo os meus agradecimentos.
A minha família, em especial a minha mãe Francineide dos Santos, meu exemplo maior de força e de superação, minha primeira professora, que desde de criança me ensinou a trilhar pelo caminho do bem, fazendo da educação a minha maior arma.
Aos meus avós/pais, Dona Antônia Severina da Silva e seu Damião Ferreira da Silva, que me apoiaram em tudo, sempre me mostrando qual seria o melhor caminho e sempre torcendo por mim.
Aos amigos que fiz nesse curso, Francicleide, Antônio, Cristiano, Nara, Lucélia, saibam que vocês sempre farão parte da minha história, e que me sinto honrado em tê-los como amigos, e que essa amizade siga para o resto de nossas vidas.
Gostaria de agradecer também a uma das pessoas que mais amo nessa vida, uma irmã, não de sangue, mas sim de coração. Luana Barros, saiba que sou muito grato por ter você na minha vida, que você é muito especial para mim, quero carregar nosso elo de amizade para onde for e por toda minha vida.
Gostaria de agradecer aos amigos que fiz no decorrer desses anos nas viagens de ônibus, a duas pessoas em especial, Joyciana Medeiros, amiga e futura historiadora, por todas as conversas que tivemos (que não foram poucas). Como também queria agradecer a Gabi Lúcio, uma grande amiga, que ao decorrer do tempo ganhou um lugar muito especial no meu coração, muito obrigado pelas noites de conversas e conselhos, saiba que você me ajudou na superação de um dos momentos mais turbulentos da minha vida.
Agradeço imensamente aos meus professores, em especial ao meu orientador Professor Antônio Manoel Elíbio Júnior, como também ao meu coorientador Professor Elton John da Silva Farias, saibam que sem a ajuda de vocês nada disto seria possível.
Agradeço a Helder Macedo, grande historiador o qual tive a honra de ter como professor, que sempre foi solícito, e que sempre esteve pronto a me ajudar.
Agradeço também a todos os professores que ao longo desse curso me ensinaram, os que ainda se encontram no CERES, os que partiram para outras cidades, como as professoras
Enfim, gostaria de agradecer a todos que fizeram e fazem parte da minha vida, saibam que este trabalho é uma vitória que eu quero compartilhar com todo vocês.
RESUMO
O presente trabalho tem como por objetivo principal realizar uma discursão sobre a obra musical de Chico Buarque de Holanda em relação ao Brasil pós golpe de 1964 até o ano de 1967, analisando a visão que o compositor tinha sobre o país, e como ele a demostrava em suas canções. Para isso, faremos a análise de duas composições “Marcha para um dia de sol” e “A Banda”. Utilizaremos seis livros, sendo três de teor biográfico (ZAPPA 2011, HOMEM 2009 e SILVA 2004), como também dez trabalhos (PIMENTEL 2011, DEL VECCHIO 2013, NAPOLITANO 2001, SOUSA 2012, MENDES 2003, MARTINS 2005, MATOS 2011, ROSA 2008, PINA 2008 e CAVALCANTI 2003), para fundamentarmos nossa pesquisa. Falaremos sobre os trabalhos já publicados sobre Chico Buarque, faremos um resumo de sua biografia até meados de 1967, como também das ambiguidades contidas nas duas canções analisadas.
ABSTRACT
The present work has as main objective to perform a for reflexion on the musical work of Chico Buarque de Holanda in relation to Brazil after coup of 1964, analyzing the vision that the composer had on the country, and as he was already arguing in their songs. For this reason, we will do the analysis of two compositions "Marcha para um dia de sol" and "A Banda". We will use six books, three of biographical (ZAPPA, HOMEM e SILVA) content, as also four theses for footing our research. We will use six books, three of biographical content (ZAPPA 2011, HOMEM 2009 and SILVA 2004), as also ten jobs (PIMENTEL 2011, DEL VECCHIO 2013, NAPOLITANO 2001, SOUSA 2012, MENDES 2003, MARTINS 2005, MATOS 2011, ROSA 2008, PINA 2008 and CAVALCANTI 2003), footing for our research. We will talk about the work that has already been published on Chico Buarque, we will have a summary of his biography by mid-1967, as well as the ambiguities contained in the two songs analyzed.
“A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida.”
INTRODUÇÃO ... 11
1. “VAI PASSAR NESSA AVENIDA UM SAMBA POPULAR”: AS INTERPRETAÇÕES SEOBRE A OBRA DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA...15
2. “PRA VER A BANDA PASSAR”: DE FRANCISCO A CHICO, O INÍCIO DE SUA
JORNADA...28
3. “SE TODO MUNDO SAMBASSE SERIA TÃO FÁCIL VIVER”: AS
AMBIGUIDADES NAS CANÇÕES DE CHICO BUARQUE...50
CONSIDERAÇÕES FINAIS...77 REFERÊNCIAS...80
INTRODUÇÃO
“A música tem sido no Brasil a intérprete de dilemas nacionais e veículos de utopias sociais. Para completar, ela conseguiu, ao menos nos últimos quarenta anos, atingir um grau de reconhecimento cultural que encontra poucos paralelos no mundo ocidental. O Brasil é, sem dúvida, uma das grandes usinas sonoras do planeta e um lugar privilegiado não apenas para ouvir música mas também para pensar a música. A música, sobretudo a chamada “música popular”, ocupa o lugar das mediações, fusões, encontro de diversas etnias, classes e regiões que formam o nosso grande mosaico nacional.” (NAPOLITANO, 2005).
Em rememoração aos cinquenta anos do Golpe Civil-Militar de 1963, ocorrido em 2014, e em comemoração aos setenta anos de vida completos também no mesmo ano, do cantor, compositor e escritor Francisco Buarque de Holanda - ou como ficou conhecido no Brasil e fora dele Chico Buarque; um dos símbolos da MPB, grande nome da Bossa Nova, criador de clássicos da música nacional como, “Construção”, “Apesar de você”, “Cálice”, como também de “A Banda”, possivelmente sua composição mais conhecida, é que o presente trabalho pretende falar.
É interessante notar como certas canções nos fazem ter emoções as mais diversas possíveis, e de como muitas delas condizem com a nossa situação. Por vezes nos vemos nas letras de certas composições, seja por ela tratar de um situação que vivemos no nosso cotidiano, ou por falar de um amor findo ou não correspondido. Qualquer que seja a situação, sempre existirá uma trilha sonora que acompanhará esses momentos.
Chico Buarque domina como poucos o ato de compor canções que falam diretamente com quem as ouvem. Suas letras são carregadas dos mais variados sentidos e sentimentos, seja o da dor da perda como em “Bastidores”:
“Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar Voltei pra me certificar Que tu nunca mais vais voltar Vais voltar, vais voltar”
Eis o malandro na praça outra vez Caminhando na ponta dos pés Como quem pisa nos corações Que rolaram dos cabarés
Ele, com a maestria de grande compositor, interprete, cantor, artista popular, e escritor que é, consegue passar sua mensagem em suas canções.
É sobre essas mensagens que trataremos nesse trabalho. Mais precisamente das quais traziam suas composições durante o início dos anos 1960, até de depois do golpe de 1964. Esse período ficou conhecido como os “anos de chumbo” onde o direito de livre expressão foi cerceado pelo governo civil-militar, anos em que mostrar seus ideais e pensamentos, em que se opor ao governo militar poderia incorrer na morte. Mas foi durante essa época tão turbulenta da história recente do Brasil, que Chico Buarque compôs seus maiores trabalhos, onde ficou conhecido por suas “canções de protesto”, cheias de duplicidades em suas letras, que conseguiam passar desapercebidas aos olhos dos censores do governo militar.
A escolha das canções de Chico Buarque se deu por além de ser um dos maiores compositores do país como já foi dito antes, foi também pelo fato de que ele é filho de Sergio Buarque de Holanda, um dos maiores historiadores do Brasil. O que nos levou a indagar qual seria o posicionamento do filho de um historiador tão importante sobre o momento que vivia o país. Qual a influência que os trabalhos de seu pai exerciam sobre ele, e o que ele, como artista, poderia fazer para contestar o governo militar sem sofrer as consequências desse ato.
Outro fator que levou a composição desse trabalho, foi a leitura de “O Falso Observador de Pássaros”, de Luiz Maria Veiga, lançado em 1988 pela editora Atual, que narra a história do jovem Ernesto que, no final da década de 1960, descobre uma base subterrânea do governo, e que consegue explodi-la, desarticulando assim um esquema de espionagem dos militares. Em uma das passagens do livro, Ernesto ouve uma mensagem de resistência ao regime militar contida na letra de uma canção. Essa passagem do livro chamou a atenção para esse fato, mensagens escondidas em letras de canções que faziam oposição ao governo militar.
É sabido que a composição “Cálice” fora censurada por trazer uma mensagem de contestação ao governo militar, por esse fato, surgiu a curiosidade de saber quais outras canções tinham também essas letras de oposição, se tinha sido censuradas ou não, quais mensagens passavam, e que sentimentos poderiam evocar em quem as ouvia.
Seria essa a verdadeira natureza do historiador, a curiosidade, a necessidade de saber mais, de não se contentar com explicações superficiais, de sempre querer saber “Porquês” das
coisas terem sido assim, de estar sempre pesquisado, procurando por respostas que não estavam a vista dos outros.
É isso que essa pesquisa pretende mostrar. Trazer à tona as mensagens contidas nas canções de Chico Buarque que passaram desapercebias, tanto dos censores quanto de muitos que as ouviam, sem dar a atenção aos seus detalhes, pois como diz o professor Dr. Lourival Andrade Júnior nas suas saudosas aulas de história da arte: “O diabo se esconde nos detalhes”, e é nesses detalhes escondidos que a nossa pesquisa trabalha, lendo nas estrelinhas o que essas canções queriam dizer, escutando os silêncios para saber o que ele falam.
Nossa monografia é composta por três capítulos:
O primeiro capítulo do nosso trabalho é uma revisão bibliográfica de artigos de âmbito acadêmico que tratam da mesma temática que a nossa, ou seja, essas publicações falam das músicas de protesto de Chico Buarque, neles podemos ter uma gama de informações sobre tais canções como também as opiniões que pesquisadores tem sobre esse assunto, afim de nos dar um norte para seguir nossa pesquisa.
Já o segundo capítulo é uma pequena biografia sobre Chico Buarque, nele veremos a sua trajetória, desde sua infância até o momento em que ele surge para o país como cantor e compositor da Bossa Nova, é importante relatar que esse capítulo mostra a vida do compositor até os anos de 1967, quando ele lança “A Banda”, isso acontece pois é até esse ano que nossa pesquisa se concentra. Mostraremos quem foram suas influências na vida pessoal e profissional, suas primeiras composições, e como ele se tornou um dos maiores nomes da música popular brasileira. Essa passagem pela vida de Chico Buarque se torna de suma importância, já que antes de conhecer as suas criações, temos que conhecer um pouco sobre seu criador.
O terceiro e último capítulo desse trabalho é a análise das letras escolhidas na composição da nossa pesquisa, trabalhamos com as canções “Marcha para um dia de Sol” (1964), como também com “A Banda” (1967). Essas duas canções foram escolhidas por serem de épocas diferentes da vida de Chico Buarque, mas mesmo tendo alguns anos de diferença entre as composições, ambas tratam de uma mesma temática, e é sobre essa temática que trataremos neste capítulo.
A música nos leva ao contexto histórico e a época em que foram escritas. Podemos ver nos elementos das canções passagem da história que mesmo que não tenhamos testemunhado, apenas em ouvi-las identificamos o momento o qual se passava quando foram compostas. Pesquisar sobre música por mais difícil que seja - e é muito difícil, se torna prazeroso; pois no leva a uma viagem pela história através dos sons.
Esse trabalho pretende fazer uma viagem pelas canções de Chico Buarque, trazendo nelas a história recente do Brasil. Mostrando como é possível protestar usando da arte, sem recorrer a violência. Reafirmando a importância da música na vida das pessoas, pois como disse o filósofo alemão Arthur Schopenhaue: “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende”
Capítulo I
“Vai passar nessa avenida um samba popular”: As
interpretações sobre a obra de Chico Buarque de Holanda
“Eu falava através de personagens, enxergava através de outros olhos” (Chico Buarque de Holanda, 1976)
O leque de trabalhos publicados sobre a obra de Chico Buarque é muito grande, já que como é um dos grandes artistas da MPB e pessoa de alto nível cultural e intelectual, ele se torna um formador de opinião, onde tudo que escreve ou compõe de uma forma ou de outra abre oportunidade para discussão.
Nesse capítulo iremos apresentar algumas publicações que envolvem a obra de Chico Buarque. Mostraremos quais são, quem as escreveu, e a sua finalidade, afim de entendemos o pensamento que outros pesquisadores tem sobre esse cantor, compositor, poeta, escritor, ator, figura tão importante no cenário artístico brasileiro. Elencamos aqui apenas os trabalhos usados na composição da nossa pesquisa, trabalhamos com quatro artigos e um livro que foram dedicados a analisar as obras de Chico Buarque, sejam elas na música, teatro ou literatura.
Ao pesquisarmos sobre os trabalhos publicados sobre Chico Buarque e suas canções, não reduzimos nossa busca apenas as publicações de âmbito acadêmico, mas também as de contexto mais popular, procuramos por essa visão mais popularizada do compositor, já que ele era a voz dos “excluídos” durante a época da ditadura militar, agora, tivemos a necessidade de saber o que o povo de um modo geral pensava sobre essa figura tão importante da música brasileira. E como a maioria de suas canções é ritmada pelo samba, utilizamos justamente um samba-enredo para ter essa ideia do “Chico Buarque popular”.
No carnaval do Rio de Janeiro de 1998, o G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira1 canta o samba-enredo: “Chico Buarque da Mangueira”, composto por Nelson Dalla Rosa, Vila
1 “O Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira é uma das mais tradicionais
escolas de samba do Rio de Janeiro e uma das mais populares do Brasil. Foi fundada em 28 de abril de 1928, no Morro da Mangueira, próximo à região do Maracanã, pelos sambistas Carlos Cachaça, Cartola, Zé Espinguela,
Boas, Carlinhos das Camisas e Nelson Csipai, deu a escola de samba o título de campeã do carnaval daquele ano.
Figura 1 - Carnaval de 1998, desfile da Mangueira em homenagem a Chico Buarque.
Fonte: Ouro de Tolo Blog spot2
Figura 2- Em 1998, a Mangueira foi campeã do carnaval do Rio de Janeiro.
Fonte: O mundo maia Blog spot3
entre outros. Sua quadra está sediada na Rua Visconde de Niterói, no bairro do mesmo nome. Biografia: Mangueira. Em: mangueira website. Disponível em: (http://www.mangueira.com.br/a-mangueira/historia/historia-da-mangueira/). Acesso em 27/05/2015. 2(http://www.pedromigao.com.br/ourodetolo/wpcontent/uploads/2013/11/sambodromo_08.jpg). Acesso em 20/05/2015. 3 (http://4.bp.blogspot.com/cX6ELZA7CMg/TmvhlJmVKkI/AAAAAAAAAvA/zXw2zlZ_3KE/s1600/desfile+ma ngueira+1998.jpg ). Acesso em 20/05/2015.
Chico Buarque da Mangueira
Nelson Dalla Rosa, Vila Boas, Carlinhos das Camisas e Nelson Csipai/1998 Mangueira despontando na avenida
Ecoa como canta um sabiá Lira de um anjo em verso e prosa De um querubim que em verde e rosa Faz toda a galera balançar
"Hoje o samba saiu" Pra falar de você
Grande Chico iluminado E na Sapucaí eu faço a festa
E a minha escola chega dando o seu recado É o Chico das artes.... O gênio
Poeta Buarque... Boêmio A vida no palco, teatro, cinema Malandro sambista, carioca da gema Marcando feito "tatuagem"
Acordes do seu violão Chico abraça a verdade
Com dignidade contra a opressão Reluz o seu nome na história A luz que ficou na memória E hoje o seu canto de fé (de fé) Vai "buarqueando" com muito axé Ô iaiá... vem pra avenida
Ver "meu guri" desfilar Ô iaiá... é a Mangueira Fazendo o povo sambar
Figura 3- Homenagem ao malandro, tão cantado por Chico Buarque
Fonte: Aqui é só Samba website4
Figura 4- Carro alegórico homenageando o malandro, referência ao espetáculo de 1978, escrito por Chico Buarque “Opera do Malando”.
Fonte: Estadão Website5
4(http://robsoncotta.orgfree.com/carnaval/imagens/005.jpg). Acesso em 20/05/2015.
5 (http://img.estadao.com.br/fotos/D9/DB/F9/D9DBF9D61BEA4FF6ACF50930233AB884.jpg).
O primeiro trabalho analisado é o livro de Fernando de Barros e Silva intitulado “Chico Buarque” da coleção “A folha explica” lançado em 2004 pela editora Publifolha. Nesse livro, Silva faz uma viagem por parte da obra buarquiana, indo desde suas primeiras composições ainda no início dos anos 60 até os dias mais atuais. Nesse livro, o autor faz essa análise juntamente com uma pequena biografia de Chico Buarque, pois como ele mesmo cita na apresentação do livro:
Estas páginas não pretendem ser uma biografia, embora contenham elementos da vida do autor e se fixem em algumas passagens marcantes de sua trajetória. (SILVA,2004, p-9).
Fica evidente nesse trabalho de Silva, a sua intenção de desassociar a figura de Chico Buarque e de sua obra da fragmentação que muitos pesquisadores fazem. Ele tenta tirar o foco dos “vários Chicos” que são publicados, tanto em trabalhos acadêmicos, quanto em publicações para fora dos muros da academia:
“É curioso, aliás, notar como a universidade, no caso de Chico, tende a mimetizar as clivagens do mercado e a tratar sua obra de forma fragmentada – ou melhor, fatiada. Fala-se muito em “Chico e a política”, “Chico e o Feminismo”, “Chico e a malandragem”. (SILVA, 2004)
Mas por ter uma obra tão grande no âmbito musical, fica muito difícil não fragmentar Chico Buarque em vários “Chicos”. Em 1994 em comemoração aos 50 anos de idade do compositor, foi lançado pela Polygram Philips uma coletânea de cinco discos que faz essa separação dos vários “Chicos”.
A divisão foi feita em “O amante”, que traz as canções românticas do compositor dando destaque a visão dele sobre a alma feminina, já que ele via o mundo “pelo olhos dos outros”, como conta em entrevista à Revista 365 em 1976. Podemos destacar canções como “Tatuagem” (1973) que foi composta por ele para fazer parte da trilha sonora de sua peça Calabar6, que estrearia em 1974, mas que devido a censura, passou cerca de seis anos impedida de ser apresentada.
6Calabar foi escrita no final de 1973, em parceria com o cineasta Ruy Guerra e dirigida por Fernando
Peixoto. A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Era uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de 30 mil dólares e empregava mais de 80 pessoas. Como sempre, a censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar e, como se não bastasse, ainda proibiu que a proibição fosse divulgada. O prejuízo para os autores
Outro disco que faz parte dessa coletânea, é “O cronista”, onde podemos dar destaque a “Bye, Bye, Brasil” (1979). Essa canção foi composta para fazer parte da trilha sonora do filme dirigido por Cacá Diegues7 que tem o mesmo título que a canção. Essa composição foi feita em um momento muito especial para o Brasil, pois, mesmo sobre a sombra do regime militar, em 15 de março do mesmo ano, o General Figueiredo assina a lei da anistia, mesmo sendo generosa com os torturadores da Ditadura, ela permite a volta dos exilados do regime, como ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola.
Outra parte dessa coletânea é o disco “O Malandro”, onde entre outras canções está a tão famosa “A Banda” que é objeto de discursão da nossa pesquisa. Mas esse disco também pode ser uma homenagem a um dos muitos personagens criados por ele, o malandro da Favela da Rocinha Julinho da Adelaide, que surge como uma forma de Chico Buarque promover suas composições sem ser censurado pelo regime. Essa personagem inventada por Chico Buarque foi tão real que em 1974 o jornalista Silvio Lancellotti fala dessa “descoberta” feita pelo compositor:
Na festa de inauguração do novo Teatro Bandeirantes, dia 12, em São Paulo, [...] o próprio Chico, acuado por uma terrível síndrome de infecundidade, estava sendo obrigado, pela primeira vez em sua carreira, a recorrer a trabalhos de outro autores. Paradoxalmente, no entanto, sua descoberta, um certo Julinho da Adelaide, originário da favela da Rocinha, no Rio, demostrou que pode tranquilamente preencher os vazios deixados pelo autor de “Fado tropical” e outras coisas. Seus estilos musicais são irmão. (HOMEM, 2009)
Julinho da Adelaide não enganou só esse jornalista, como também os censores. Responsável por canções como “Acorda Amor” (1974), “Jorge Maravilha” (1974) e “Milagre Brasileiro” (1975), teve sua verdadeira identidade revelada no ano de 1975, devido a uma reportagem publicada no Jornal do Brasil. Após esse acontecimento, a polícia federal passou a exigir CPF e RG dos autores.
O quarto disco se chama “O político”, nesse disco podemos dar destaque as mais emblemáticas canções de Chico Buarque, nele estão contidas todas as “canções de protesto” que durante o regime militar foram impedidas de tocar nas rádios ou tiveram os discos recolhidos das lojas como o caso de “Cálice” (1973) por exemplo.
e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme. Seis anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura. Obra: Calabar. Em: chicobuarque website. Disponível em(http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre_cin.asp?pg=tea_calabar.htm). Acesse em 29/05/2015.
7 Carlos Diegues, mais conhecido como Cacá Diegues, (Maceió, 19 de maio de 1940) é um premiado cineasta brasileiro. Foi um dos fundadores do Cinema Novo. Biografia: Cacá Diegues. Em: carlosdiegues website. Disponível em:( http://www.carlosdiegues.com.br/avida_biografia.asp). Acesso em 29/05/2015
O quinto e último disco dessa coletânea é intitulado “O Trovador”, onde contém canções como “Eu te Amo” (1980), composta com outro grande nome da MPB, Tom Jobim.
Com uma gama tão grande de composições, fica impossível não fragmentar Chico Buarque em vários “Chicos”, pois para uma análise minimamente bem feita de sua obra, é impreterível essa divisão.
Podemos notar na letra do samba enredo da Mangueira, elementos presentes nos artigos acadêmicos acima citados. Do livro de Fernando de Barros e Silva, podemos retirar dessa letra os vários “Chicos” como Silva destaca em seu texto. No samba da Mangueira podemos ver “o gênio”, “o iluminado”, “o malandro”, como também “o boêmio”, variações de uma mesma pessoa. Essa fragmentação da figura de Chico Buarque aos olhos do povo vem das várias intepretações que esse público dava as suas canções, das verdades contidas nas letras e que eles tomavam para si como parte do seu cotidiano.
Para Foucault:
A verdade a mais elevada já não residia mais no que era o discurso, ou no que ele fazia, mas residia no que ele dizia. (FOUCAULT,1970)
Sendo assim, essa população mais humilde poderia interpretar essas canções como uma descrição das suas vidas. Ao se verem nas letras de Chico Buarque, eles deixavam de ser “pacientes”, e passavam a ser “sujeitos da história”, fazendo dessas composições suas verdades. Usando do trabalho de Nalva Lopes de Sousa, bacharelanda pela UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri): “Afasta de mim esse cálice! Chico Buarque e a censura no Brasil pós 1964”, publicado em 2012, para compor nossa pesquisa, observamos que nesse artigo ela trabalha com duas canções icônicas de Chico Buarque, “Cálice” (1973) e “Apesar de Você” (1973), tidas como “canções de protesto”, a autora analisa essas canções, explicando como ele conseguiu tornar-se uma pessoa formadora de opinião na sociedade brasileira pós golpe de 1964, e as influências que ele teve na sua trajetória, tanto como cantor quanto como pessoa:
Notamos também que Chico foi influenciado pelo seu pai Sérgio Buarque de Holanda (1902- 1982) em relação à história do Brasil, pois ele cresceu em um ambiente familiar onde se discutia muito essas questões, ele também foi influenciando por alguns compositores como por exemplo Noel Rosa (1910- 1937), cantor e compositor, o qual Chico ouviu desde pequeno. Esses fatores despertaram o interesse em Chico Buarque cada vez mais pela história do Brasil de tal modo que passou a apresentar a realidade do Brasil no período da Ditadura militar em suas canções, o que também resultou na perseguição do compositor por parte dos censores. (SOUSA, 2012).
Essa análise, mostra uma posição mais incisiva de Chico Buarque em oposição ao regime militar vigente, podemos perceber que as canções por ela analisadas foram compostas após 1968, quando entrou em vigor o Ato Institucional de Número 5 (AI-5), esse artigo nos serviu para comparar as mudanças ou o redirecionamento das composições de Chico Buarque, antes e depois do AI-5.
Uma outra parte do samba mangueirense, temos as frases: “Acordes do seu violão/ Chico abraça a verdade”, essas duas frases nos remete a outro estudo usado na composição da nossa pesquisa, o trabalho de Nalva Lopes de Sousa: “Afasta de mim esse cálice! Chico Buarque e a censura no Brasil pós 1964”, nesse artigo, a autora aborda as ditas “canções de protesto” de Chico Buarque. Usando de suas canções para se opor ao governo militar e se tornando formador de opinião, já que no contexto histórico da época, suas composições possuíam verdades que não podiam ser ditas abertamente sem que as quem dissesse sofresse represálias por parte do governo vigente.
Sendo assim, Chico Buarque com seu violão, abraçaria a verdade em forma de canção. Essa era mais uma visão do povo em torno da obra buarquiana, como se ele fosse um porta-voz das verdades escondidas dos olhos de muitos. Assim com Sousa explica em seu trabalho.
Utilizamos também na composição da nossa pesquisa, “O Inconformismo Social no Discurso de Chico Buarque”, escrito por Christian Alves Martins, na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), publicado em Junho de 2005 na Fênix – Revista de História e Estudos Culturais.
Martins analisa as entrevistas dadas por Chico Buarque durante o regime militar, mostrando a indignação social em seu discurso. Ele se propõe a discutir, o ponto de vista de Chico Buarque como artista, e qual o papel do artista durante a Ditadura. Mostrando de certa forma que mesmo falando que não, Chico Buarque estava ativo na contestação ao governo militar:
A leitura de suas entrevistas deixa clara a tentativa de Chico Buarque em negar esta imagem de artista militante. Concordamos com o cantor, pois, como já dissemos alhures, isto seria uma leitura reducionista do artista. Porém, como defendemos neste artigo, não há como negar que a tônica de seu discurso e de sua obra seja a de indignação social. (MARTINS,2005, p-14)
A leitura do artigo de Martins, foi de grande ajuda para a composição de nossa pesquisa, já que contribuiu para o nosso entendimento da visão de Chico Buarque como artista engajado na oposição ao regime militar, podemos ter uma noção do seu papel como artista, e
como ele via a sociedade brasileira durante a ditadura. E de como através da sua arte, ele expos sua indignação como o momento pelo qual o Brasil passava.
Utilizamos também o trabalho de Alessandro A. Fagundes Matos intitulada: “Ditadura, MPB e Sociedade: A música de resistência em Chico Buarque de Holanda”, publicado pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) em 2001.
Nesse artigo Matos, assim como Sousa, faz uma análise da canção da canção “Apesar de Você” (1973), mas ao contrário do caminho traçado por Sousa, Matos busca mostrar a dualidade que continha essa canção, e como ela fora usada na visão do autor para se opor ao governo militar, ou como ele mesmo ressalta “interpretações consideradas anti-governo” (MATOS, p -01).
Na continuidade do artigo, Matos tenta estabelecer um contexto entre a canção e o momento histórico pelo qual o Brasil passava, tendo a composição de Chico Buarque como fonte histórica, como se a literatura contida na canção fosse um reflexo da sociedade da época: A arte em questão é a música. A música que é um discurso materializado em sons, palavras harmonizadas com o papel de transmitir críticas, ideologias, persuadir o seu receptor, a manifestação daquilo que o sujeito carrega consigo e conseqüência de toda a sua formação. (MATOS, 2011, p-18)
Matos aborda um ponto de vista interessante em sua pesquisa, ele interpreta a canção pelo ângulo do excluído, do povo, que não tinha vez nem voz, mas que fazia dessa composição sua chance de manifestar-se contra o regime militar, usando da duplicidade da letra como ferramenta de contestação:
O verbo “abafar” toma o sentido de silenciar. Essa prática de silenciar é direcionada a todos os esquerdistas, ao proletariado, enfim, todos que sofreram com a dor do silêncio, que são indicados na palavra “coro”, que representa a união de várias vozes. Além dessa junção de vozes cantando uma só canção, a da liberdade de expressão e opinião, mais uma vez o antagonista da obra é ridicularizado. Tal argumento pode ser compreendido quando lido o verso “Na sua frente”. Independente de apreciar, ou não, a manifestação realizada pelos oprimidos – e tudo indica que não seria algo que traria satisfação ao opressor, pois aponta para um tempo já libertado – mais uma vez o adversário da massa seria posto à impotência de reagir. (MATOS, 2011, p-17)
Com isso, Matos deixa aberta mais uma via de pesquisa para a canção. Essa visão apresentada do excluído foi de grande valia para a nossa pesquisa, já que foi assim que analisamos “A Banda”, mostrando a visão de cada um dos personagens contidos nessa canção. E assim como Matos, analisamos esse engajamento meio que escondido de Chico Buarque ao compor a marchinha, já que ele quebra o silencio provocado pelo medo que o regime impunha, dando voz aos excluídos.
“Com dignidade contra a opressão”, assim é cantado mais um dos versos do samba-enredo da escola de samba carioca, isso nos leva ao trabalho de Alessandro A. Fagundes Matos “Ditadura, MPB e Sociedade: A música de resistência em Chico Buarque de Holanda”, que faz uma abordagem das canções de Chico Buarque na visão dos excluídos, dos marginalizados pelo regime militar, essa “opressão” a qual fala a letra, seria a vivida por pessoas comuns, fora dos grandes círculos políticos ou de intelectuais. Os oprimidos com mais força pelo regime, já que se desaparecessem não seriam notados de imediato pela grande mídia, por se tratarem de pessoas comuns, na sua maioria estudantes. Eram excluídos, fantasmas de uma época que ficou conhecida como “anos de chumbo”. Eram essas pessoas que se agarravam as esperanças trazidas pela voz de Chico Buarque. Quando ele canta em “Apesar de Você” (1970) que “Amanhã há de ser Outro dia” ele não só faz uma crítica ao governo, como também dá esperanças ao povo de que mesmo o Brasil esteja vivendo uma ditadura, o amanhã sempre chega, dando ao povo algo pra sonhar, com um país livre do governo autoritário militar.
Essa é mais uma visão popular que se tinha sobre Chico Buarque nessa época turbulenta, a de “um anjo” de “um querubim”, como cita a o samba, e que trazia a boa nova, a mensagem de esperança de um Brasil livre nas letras de suas canções.
Usando também da dissertação de pós-graduação escrita por Ligia Vieira Cesar: “Poesia e Política nas canções de Bob Dylan e Chico Buarque”, feita UFPR (Universidade Federal do Paraná) publicada em 1990. Essa pesquisa já se torna interessante pelo ano de sua composição, que se deu apenas cinco anos após o fim da ditadura militar no Brasil, isso torna esse trabalho um relato quase que ao vivo da história recente do país.
Em seu trabalho, Cesar aborda a “canção de protesto” como elemento fundamental nas ideologias de Bob Dylan e de Chico Buarque, que mesmos separados por momentos históricos diferentes - já que Bob Dylan protestava contra o racismo nos Estados Unidos e a guerra no Vietnã, e Chico Buarque contra a ditadura no Brasil; ainda assim estavam unidos pela mesma ideologia, ambos faziam de sua poesia ferramentas de reivindicação, como destaca a autora:
Dylan, rompendo com a linguagem oficial, revela seu desajustamento à realidade ideológica que o envolve, transformando sua poesia no instrumento de reivindicações- sociais. E sua poética, centrada em propósitos políticos, apresenta assim, um discurso social evidente, refletindo a imagem do poeta-político preocupado com o panorama histórico de seu país. (CESAR, 1990)
Nota-se aqui uma semelhança entre eles, Bob Dylan com sua folk music, era contrário à política do establishment, um conceito utilizado para denominar um grupo
sociopolítico que exercia sua autoridade para o controle da sociedade, usando desse poder para servir apenas a seu próprio interesse e segundo suas próprias concepções. Já Chico Buarque usa da Bossa Nova para contestar o governo militar, que ao assumir o controle do país revogou direitos políticos e de expressão dos que lhe eram contrário.
No decorrer de sua dissertação, Costa faz uma viagem as raízes da música de protesto no Brasil, que segundo ela, teriam nascido junto com o samba:
Ao abordar, as canções políticas de Chico. Buarque, faz-se necessário historiarmos primeiramente sobre a origem do samba, sua evolução, sua interpretação com a música estrangeira – o jazz - e conseqüente criação de um ritmo genuinamente nosso – a Bossa Nova - que, engajando-se no contexto histórico pré e pós 64, toma a forma e a estrutura das canções de protesto. (CESAR, 1990)
Segundo a autora, o primeiro samba com ar de protesto foi “pelo telefone”, composto por Ernesto dos Santos “Donga”, que era um dos cantores favoritos de Chico Buarque. Esse samba fazia críticas a polícia da época que combatia os jogos de azar. E é desse samba que surge a Bossa Nova no início dos anos de 1960, tendo Chico Buarque como um dos seus maiores expoentes. Para Cesar:
Após o período inicial (1958-1962) as músicas da Bossa Nova - de letras que se prendiam a temas intimistas falando do "mar, amor e luar" - passaram a acompanhar a evolução do problema político brasileiro, tendo uma conotação mais popular e participativa no período pré-64, para finalmente desempenhar uma fase de politização explícita quase militante, nos anos de repressão militar. (CESAR,1990)
O trabalho de Ligia Vieira Cesar foi de grande utilidade para a nossa pesquisa, já que ela aborda a temática da “canção de protesto” de um ângulo bastante interessante, fazendo uma comparação entre Chico Buarque e Bob Dylan, dois grandes compositores e que compunham para o público da “Intelligentsia” (CESAR, p- 65), essa expressão é designada ao um grupo de pessoas que estão envolvidas com trabalhos intelectuais, afim de disseminar a cultura. No caso de Chico Buarque, as canções do contestação ao regime militar. Esse trabalho de Cesar nos serviu para entendemos o posicionamento ideológico do compositor, de como ele usava dos desvios de linguagem em suas canções para torná-las um veículo de denúncia. Usando de sua arte para contar a história dos vencidos e não dos vencedores, usando de sua escrita para criar um futuro utópico, ou apenas fazendo uma perspectiva do que ainda estava por vir.
Em outro trecho dessa canção, tem a seguinte frase: “Ver ‘meu guri’ desfilar”, essa parte nos remete ao trabalho de Ligia Vieira Cesar: “Poesia e Política nas canções de Bob Dylan e Chico Buarque”, que fala justamente dos desvios de linguagem, da duplicidade contida nas composições de Chico Buarque. Isso nos leva ao trecho do samba-enredo, já que “Meu Guri” (1981) é uma das composições em que ele faz críticas a situação de miséria que muitas famílias brasileiras estavam vivendo.
A duplicidade de sentido na letra do samba-enredo da Mangueira é uma clara alusão aos sentidos duplos que Chico Buarque põe nessa canção. Quando a letra do samba diz que “Ver "meu guri" desfilar”, vai no sentido contrário da composição buarquiana, já que ele na letra original, diz que: “Chega estampado, manchete, retrato/Com venda nos olhos, legenda e as iniciais”. Essa são ambíguas, duas letras que se antagonizam. Bem como Ligia Vieira Cesar fala em seu artigo, se na letra da escola de samba ele veem “O guri” desfilar na avenida, Chico Buarque o traz a realidade do país nos anos de comando dos militares.
Essa visão popular de Chico Buarque foi de grande ajuda na composição de nosso trabalho, visto que no âmbito acadêmico ele é tido como grande intelectual, formador de opinião, de contestador, adjetivos dado também as suas composições, sejam elas na música, literatura, teatro como também no cinema. Mas para nós foi de grande interesse ver o que o povo achava das suas canções, de como eles a interpretavam, se elas faziam algum sentido, e se faziam, qual era.
Percebemos ao analisar a letra do samba-enredo da mangueira que as canções de Chico Buarque ajudaram a compor um sentido para a vida da população mais humilde que as ouviam, claro que em sua grande maioria, as duplicidades, as ambiguidades, os sofismas passam por muitas vezes desapercebidos, mas como Cesar deixa claro em seu texto, Chico Buarque não estava compondo apenas para um público “Intelligentsia”, mas sim para a “grande massa”.
Esse primeiro capítulo foi uma revisão dos principais textos usados na composição da nossa pesquisa. Foi relevante essa breve discursão, visto que precisamos entender o que já tinha sido publicado sobre esse assunto, para que pudéssemos alicerçar bem nosso trabalho sem que o mesmo fosse apenas um conjunto de dados sem trazer nada a acrescentar junto aos demais, já que falar de Chico Buarque abre espaço para um grande campo de pesquisa.
O próximo capítulo será uma breve biografia do compositor, já que para que possamos entender sua obra, antes de tudo devemos entender quem era Chico Buarque tirando o olhar de grande cantor da MPB, precisamos entender quais foram suas influências tanto na
vida privada quanto na carreira como cantor e compositor. Afim, iremos explorar um pouco sobre a pessoa de Chico Buarque de Holanda.
Capítulo II
“Pra ver a banda passar”: De Francisco a Chico, o início
de sua jornada
A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolveram nas características gerais de uma época. (Antônio Candido, 1967)
É com essa citação feita para o livro Raízes do Brasil, que começamos este capítulo. Nele, falamos de uma figura que se torna “atemporal”, devido à sua importância para a história recente do Brasil. Cantor, compositor e escritor, Francisco Buarque de Holanda é um dos grandes nomes do seu tempo.
Chico Buarque, autor consagrado de canções como “A Banda”, por exemplo, foi de grande importância na luta contra o Regime Militar. Através de suas obras, conseguia comunicar mensagens que contestavam o atual momento em que se encontrava o país. Mas antes de conhecer quais obras eram essas e qual a importância das mesmas na oposição ao modo como o Brasil estava sendo gerido por um ditadura civil-militar, antes de tudo temos que conhecer a pessoa por trás do mito Chico Buarque de Holanda, sua trajetória da infância ao seu surgimento como cantor e compositor que marcou uma geração que esse capítulo irá tratar.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de Junho de 1944, Francisco Buarque de Holanda, foi o quarto filho dos sete de um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, Sérgio Buarque de Holanda8 e dona Maria Amélia Cesário Alvim de Holanda. Na infância, Chico
8 Juntamente com Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, nascido em São Paulo
em 11 de julho de 1902, foi um dos “explicadores do Brasil”, isto é, alguém que, por meio de uma respeitável obra, procurou tornar o país mais inteligível aos próprios brasileiros. Seu interesse oscilou entre a literatura e a história, sempre abordadas pelo viés da sociologia, especialmente a da escola alemã, mais precisamente a de Max Weber. Hoje, Sérgio Buarque de Holanda, falecido em 1982, é considerado um dos mais eminentes intelectuais
Buarque morava no Rio de Janeiro, até os oito anos de idade, quando foi junto com a família morar na Itália, devido ao trabalho de seu pai, que foi lecionar na Universidade de Roma.
Sua iniciação musical vem desde seus primeiros dias de vida. Na casa dos Buarque de Holanda, a música era quase que uma regra. Chico Buarque ouvia cantores como: Ataulfo Alves, Mário Lago, Lupicínio Rodrigues, Lamartine Babo, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Herivelto Martins, Ary Barroso, Donga, Ismael Silva, Dorival Caymmi e muitos outros bambas que, em meados dos anos 1940, povoaram as rádios com belos sambas e alegres marchinhas, nas vozes de Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Francisco Alves, Sílvio Caldas. Vários desses músicos tiveram influência marcante na obra de Chico. (ZAPPA, 2011,p-43)
Isso, aliado aos livros de Guimarães Rosa9, Dostoiévki10, Tolstoi 11 e Kafka12, seus autores preferidos durante a juventude, moldaram sua intelectualidade. Claro que os trabalhos de seu pai também o influenciaram bastante. Já que em Raízes do Brasil (1936) Sérgio Buarque,
brasileiros do século XX. Texto Sérgio Buarque, o explicador do Brasil, em: educaterra web site. Disponível em: (http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2002/07/03/001.htm). Acesso em 10/10/2014
9João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967)
foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata. Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Biografia: Guimarães Rosa. Em: Academia
Brasileira de Letras web site. Disponível em:
(http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=681&sid=96). Acesso em 10/10/2014
10Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (Moscou em 11 de novembro de 1821 - 9 de fevereiro de 1881)
foi um escritor russo do século XIX. É considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos. É um dos pais do existencialismo (escola literária e filosófica que defende da liberdade individual, subjetividade e responsabilidade do ser humano). Escreveu novelas, contos e r omances que são lidos por pessoas do mundo todo. Biografia: Dostoiévski. Em: Sua pesquisa web site. Disponível em: (http://www.suapesquisa.com/quemfoi/dostoievski.htm). Acesso em 10/10/2014.
11 O Conde Liev Tolstói nasceu em 1828. Participou da Guerra da Crimeia e casou-se com Sofia
Andrêievna Berhs em 1862. Enquanto Tolstói administrava suas vastas propriedades nas estepes do Volga, dava continuidade a projetos educacionais, cuidava dos servos e escrevia Guerra e paz (1869) eAnna Kariênina (1877). Uma confissão (1882) marcou uma crise espiritual em sua vida; ele se tornou um moralista extremista e, em uma série de panfletos, a partir de 1880, expressou sua rejeição em relação ao Estado e à Igreja. Morreu em 1910, em meio a uma dramática fuga de casa, na pequena estação de trem de Astápovo. Biografia: Liev Tolstói. Em: Companhia das letras web site. Disponível em: (http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02524). Acesso em 10/10/2014.
12Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 — Klosterneuburg, 3 de junho de 1924)1 2 foi um escritor
tcheco, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas. Biografia: Franz Kafka. Em: Companhia das letras web site. Disponível em: (http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00250). Acesso em 10/10/2014.
traz uma macro interpretação da formação do povo brasileiro, mostrando a multiplicidade da nossa população, assim como Chico Buarque mostra vários Brasis em suas canções.
Figura 5- Chico Buarque jovem.
Fonte: Correio website13
13 (http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/coluna-vip-chico-buarque-acervo- digital-com-1044-fotos/). Acesso em 20/05/2015.
Mas na questão poética de suas obras pode-se notar a influência de Guimarães Rosa, pois assim como o escritor mineiro, Chico Buarque também gostava de “inventar” palavras. Isso pode ser visto na canção “Pedro Pedreiro (1966)”, onde ele cria a palavra “penseiro”:
Pedro Pedreiro
Chico Buarque/1965
“Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro espera o carnaval”
Em 1966, em uma entrevista para a revista Manchete, Sérgio Buarque fala da paixão do filho pelos livros:
Chico andava sempre com um livro de Guimarães Rosa. Numa de suas músicas, aliás, ele usou palavras inventadas tiradas da linguagem popular, como faz o Guimarães. Lê em inglês e Francês às vezes em italiano. Em política, tem pensamentos próprios, e me disse certa vez que não dá às suas composições, intencionalmente, um conteúdo político, pois o resultado final surge mais de sua criação e de sua formação. Quando as músicas ficam prontas, geralmente têm significado social ou político. Mas Chico não está preso a um só tipo de influência. (Revista Manchete 1966).
Em 1959, um fato surge na vida Chico Buarque, é lançado o LP Chega de Saudade14, do cantor baiano João Gilberto15. Isso muda drasticamente a vida do Jovem, que até então tinha
14 Chega de Saudade é o primeiro álbum do cantor e compositor brasileiro João Gilberto.
O disco foi lançado em LP em 1959 pela Odeon, este é um grande disco, tanto por suas canções quanto por sua importância na história da música popular brasileira, tendo sido mantido em catálogo desde o seu lançamento até 1990, por 31 anos consecutivos. Em 2007, foi eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stone como o quarto melhor disco brasileiro de todos os tempos. Espaço da Música. Em: Espaço da Música web site. Disponível em: (http://espacodamusicadownload.blogspot.com.br/2012/09/download-1959-chega-de-saudade-joao_14.html). Acesso em 10/10/2014
15João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (Juazeiro, Bahia, 10 de junho de 1931), conhecido como João
Gilberto, é um cantor, violonista e compositor brasileiro. Tido como o pioneiro criador da bossa nova, é considerado um gênio e uma lenda viva da música popular brasileira.
Desde o lançamento do compacto que continha Chega de Saudade e Bim Bom, munido apenas da voz e do violão, começou uma revolução na música brasileirae na música mundial. Dono de uma sonoridade original e moderna até hoje, João Gilberto foi o artista que levou a música popular brasileira ao mundo, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Japão. Tido como um dos maiores influentes do jazz americano no século XX ganhou prêmios importantes nos Estados Unidos e na Europa, como o Grammy, em meio à beatlemania. Espaço da
Música. Em: Espaço da Música web site. Disponível em:
(http://espacodamusicadownload.blogspot.com.br/2012/09/download-1959-chega-de-saudade-joao_14.html). Acesso em 10/10/2014
o sonho de ser escritor, pois tinha crônicas escritas no jornal verbâmidas, jornal do colégio Santa Cruz em São Paulo onde estudava. Essa “descoberta” para a música aconteceu quando ele tinha 14 anos.
Nesse mesmo ano de 1963, Chico Buarque ingressa na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Sua entrada nesse curso se deu mais por falta de alternativa do que por escolha. Em entrevista à revista Manchete, em Outubro de 1966, Chico Buarque reconhece seu engano em relação ao curso de Arquitetura:
Resolvi estudar arquitetura por engano, e estou meio desanimado por isso. Não é por causa da música. Tenho a intenção de estudar depois alguma coisa, mas ainda não descobri o que é. Sou forte em matemática, mas fraco em desenho. Em física, prefiro não falar: é fogo. Para resumir a minha situação: gosto muito de arquitetura, mas como leigo, olhando de fora os edifícios, coisa que sempre me atraiu. Prefiro desconhecer os mistérios de sua construção. (Revista Manchete 1966).
Em 1º de Abril de 1964, o até então presidente João Goulart é deposto pelo golpe Civil-Militar16. Nesse tempo, os movimentos estudantis foram ganhando força e as universidades passaram a ser um dos focos de resistência contra o Regime. Chico Buarque que se considerava de “esquerda”, se juntava assim a grupos como o JUC (Juventude Universitária Católica) como também ao DCE (Diretório Central de Estudantes).
Com o Presidente Goulart sendo deposto nove dias após o Golpe, um ato institucional cassou quarenta mandatos de parlamentares17. A censura começava a mostrar suas
16 “A Ditadura militar no Brasil teve seu início com o golpe militar de 31 de março de 1964, resultando
no afastamento do Presidente da República, João Goulart, e tomando o poder o Marechal Castelo Branco. Este golpe de estado, caracterizado por personagens afinados como uma revolução instituiu no país uma ditadura militar, que durou até a eleição de Tancredo Neves em 1985. Os militares na época justificaram o golpe, sob a alegação de que havia uma ameaça comunista no país.” Fico, Carlos. Em: “Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar”. UFRJ,2004. Revista Brasileira de História, Vol.24 Nº 47. Disponível em:
(http://www.scielo.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=article%5Edlibrary&format=iso.pft&lang=i&nextAction=lnk&in dexSearch=AU&exprSearch=FICO,+CARLOS). Acesso em 30/05/2015.
17 Durante o período dos governos militares, foram cassados e suspensos cerca de 4.700 direitos políticos.
Só no primeiro ato institucional, de 10 de abril de 1964, são cassados, entre outros, quarenta parlamentares e dois ex-presidentes, Jânio Quadros e João Goulart. Em 8 de junho, o senador Juscelino Kubitscheck tem seu mandato eletivo cassado e os seus direitos políticos suspensos pelo prazo de dez anos. A história da Câmara dos Deputados. Em: Portal da Câmara dos Deputados web site. Disponível em: (http://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/historia/historia/a4republica.html). Acesso em 10/10/2014.
garras, proibindo, depois liberando a exibição do filme de Glauber Rocha: Deus e o Diabo na terra do Sol18 de 1963.
Sobre o golpe, Chico Buarque fala em entrevista à Folha de São Paulo em 1999: Nos anos 50 havia um projeto coletivo, ainda que difuso, de um Brasil possível, antes mesmo de haver a radicalização de esquerda dos anos 60. [...] Ela [Brasília] foi construída sustentada numa ideia daquele Brasil que era visível para todos nós. Inclusive nós, que estávamos fazendo música, teatro etc. Aquele Brasil foi cortado evidentemente em 64. Além de tortura, de todos os horrores de que eu poderia falar, houve um emburrecimento do país. A perspectiva do país foi dissipada pelo Golpe. (Folha de São Paulo, 1999).
Em 1965, o Ato institucional nº 2 dissolve os partidos políticos e estabelece o bipartidarismo, no qual a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) apoia o Regime, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), reúne uma raquítica oposição. Nesse mesmo ano é inaugurada a TV Globo, que viria a se transformar na maior emissora do Brasil.
Nesse clima e durante sua época como universitário, Chico Buarque ajudava nas vigílias, se revezando com outros, para evitar que a faculdade fosse tomada. No mesmo ano de 1965, ele participa de um show no teatro Arena19, intitulado de “Um quadro negro”. Nesse show, ele e Taiguara20 tiveram sua “estreia” por assim dizer ao público paulista. Chico Buarque
18Manuel (Geraldo Del Rey) é um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel
Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Ele passa a ser perseguido por jagunços, o que faz com que fuja com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães). O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Porém ao presenciar a morte de uma criança Rosa mata o beato. Simultaneamente Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um matador de aluguel a serviço da Igreja Católica e dos latifundiários da região, extermina os seguidores do beato. Filmes. Em: Adoro Cinema web site. Disponível em: (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-91057/). Acesso em 10/10/2014.
19 O Teatro de Arena de São Paulo (ou somente Teatro de Arena) foi um dos mais importantes
grupos teatrais brasileiros das décadas de 50 e 60. Inicia-se em 1953 tendo promovido uma renovação e nacionalização do teatro brasileiro, sua existência termina em 1972. Em seu palco, de cerca de 90 lugares, hoje Teatro de Arena Eugênio Kusnet apresentaram-se espetáculos de importantes diretores e dramaturgos brasileiros comoJosé Renato Pécora, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Teatro Arena-SP. Em: Enciclopédia Itaú Cultural web site. Disponível em: (http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399339/Teatro-de-Arena-(S%C3%A3o-Paulo,-SP). Acesso em 11/10/2014.
20Taiguara Chalar da Silva (Montevidéu, 9 de outubro de 1945 — São Paulo, 14 de fevereiro de 1996)
foi um cantor e compositor brasileiro, emobora nascido no Uruguai durante uma temporada de espetáculos de seu pai, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1949 e para São Paulo, posteriormente, em 1960. Largou a faculdade de Direito para se dedicar à música. Participou de vários festivais e programas da TV. Fez bastante sucesso nas décadas de 60 e 70. Autor de vários clássicos da MPB, como Hoje, Universo do teu corpo, Piano e viola, Amanda,Tributo a Jacob do Bandolim, Viagem, Berço de Marcela, Teu sonho não acabou, Geração 70 e Que as Crianças Cantem Livres; entre outros.
Considerado um dos símbolos da resistência à censura durante a ditadura militar brasileira, Taiguara foi um dos compositores mais censurados na história da MPB, tendo 68 canções censuradas e escreveu uma, Cavaleiro
canta “Marcha para um dia de sol”, uma das suas primeiras composições. Era uma canção ingênua e pacifista, mas que ele nunca gravou.
Marcha para um dia de sol Chico Buarque/1964
Gravada por Maricenne Costa Eu quero ver um dia Nascer sorrindo E toda a gente Sorrir com o dia Com alegria Do sol do mar Criança brincando Mulher a cantar Eu quero ver um dia Numa só canção O pobre e rico Andando mão e mão Que nada falte Que nada sobre O pão do rico E o pão do pobre Eu quero ver um dia Todos trabalhar E ao fim do dia Ter onde voltar E ter amor
Eu quero ver a paz Tristeza nunca mais Eu quero tanto um dia O pobre ver sem frio E o rico com coração Eu quero ver um dia Numa só canção O pobre e rico Andando mão e mão Que nada falte Que nada sobre
da Esperança, em homenagem a Luís Carlos Prestes1 . Os problemas com a censura eventualmente levaram Taiguara a se auto-exilar na Inglaterra em meados de 1973. Em Londres, estudou no Guildhall School of Music and Drama e gravou o Let the Children Hear the Music, que nunca chegou ao mercado, tornando-se o primeiro disco estrangeiro de um brasileiro censurado no Brasil. Taiguara O cancioneiro da esperança. Em: Flávio Tiné web site. Disponivel em: (http://flaviotine.blogspot.com.br/2008/08/taiguara.html). Acesso em 11/10/2014.
O pão do rico E o pão do pobre Eu quero ver um dia Todos trabalhar E ao fim do dia Ter onde voltar E ter amor
Eu quero ver a paz Tristeza nunca mais Eu quero tanto um dia O pobre ver sem frio E o rico com coração
No mesmo ano, no colégio Santa Cruz onde havia estudado, ele canta o que seria considerando o “marco zero” da sua carreira. “Tem mais Samba ai”, é considerada por ele sua canção de número Um. Essa obra além de ser a primeira inaugura uma das constantes no trabalho de Chico Buarque como compositor: a criação por encomenda. Essa canção foi feita para o show Balanço de Orfeu, produzida por Luiz Vergueiro, estreando no teatro Maria Della Costa em 7 de Dezembro de 1964 em São Paulo.
Figura 6- Gravação de Show no teatro da TV Record em 1964
Fonte: Estadão Website21
21 (http://acervo.estadao.com.br/noticias/personalidades,chico-buarque,915,0.htm). Acesso em
No cenário internacional, o tempo era de cantores como Bob Dylan22, Ella Fitzgerald23, Frank Sinatra24, e os Beach Boys25. O filósofo francês Jean-Paul Sartre26recusa o prêmio Nobel de literatura. Os Beatles, o fenômeno musical da época, desembarcam nos Estados Unidos, com o seu sucesso “I want to hold your hand”27. Mas os sons harmoniosos da banda inglesa não impressionavam Chico Buarque, que nesse tempo já fazia canções, ele preferia as imperfeições das composições dissonantes de João Gilberto.
Em 1965, ele faz um show ainda na faculdade, intitulado de “Avanço”, cantando para um grande público no Teatro Paramount em São Paulo. Nesse show também participam
22Bob Dylan (1941) é um cantor e compositor norte-americano de folk. Um dos ícones da contracultura.
É considerado um dos maiores compositores do século XX. Biografia - Bob Dylan. Em: E-Biografias web site. Disponível em: (http://www.e-biografias.net/bob_dylan/). Acesso em 11/10/2014.
23Ella Jane Fitzgerald (Newport News, 25 de abril de 1917 — Beverly Hills, 15 de junho de 1996)
também conhecida como a "Primeira Dama da Canção" (em inglês: First Lady of Song) e "Lady Ella", foi uma popular cantora de jazz estadunidense Com uma extensão vocal que abrangia três oitavas, era notória pela pureza de sua tonalidade, sua dicção, fraseado e entonação impecáveis, bem como uma habilidade de improviso "semelhante a um instrumento de sopro", particularmente no scat. Considerada uma das intérpretes supremas do chamado Great American Songbook,3 teve uma carreira que durou 59 anos, venceu 14 prêmios Grammy e recebeu a Medalha Nacional das Artes do presidente americano Ronald Reagan, bem como a Medalha Presidencial da Liberdade, do sucessor de Reagan, George H. W. Bush. Biografia – Ella Fitzgerald. Em: Clube de Jazz web site. Disponível em: (http://clubedejazz.com.br/ojazz/jazzista_exibir.php?jazzista_id=11). Acesso em 11/10/2014.
24Francis Albert "Frank" Sinatra (Hoboken, 12 de dezembro de 1915 — Los Angeles, 14 de maio de
1998) foi um cantor e ator norte-americano.
25 The Beach Boys é uma banda de rock dos Estados Unidos formada em Hawthorne, Califórnia, em
1961, e é tida como uma das mais influentes da história do rock e do pop. Emplacou dúzias de canções nas paradas de sucesso (também emplacou quatro compactos no primeiro lugar entre os mais vendidos nos Estados Unidos), além de álbuns recordistas de venda. Foi incluída no Hall da Fama do Rock and Roll em 1988. Seu álbum Pet Sounds, de 1966, que contêm clássicos como "Wouldn't It Be Nice", "Sloop John B", e "God Only Knows", e é considerada uma das maiores obras primas da história da música pop. Biografia – The Beach Boys. Em: Almanaque da Folha web site. Disponível em: (http://almanaque.folha.uol.com.br/quizes/biobboys.shtml). Acesso em 11/10/2014.
26Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi filósofo e escritor francês. "O Ser e o Nada" foi o seu principal
trabalho filosófico. Foi um dos maiores integrantes do pensamento existencialista na França, juntamente com Albert Camus e Simone de Beauvoir. Biografia: Jean-Paul Sartre. Em: E-Biografias web site. Disponível em: (http://www.e-biografias.net/jean_paul_sartre/). Acesso em 11/10/2014.
27I Want To Hold Your Hand é o nome de uma música lançada pelo grupo de rock inglês The Beatles
em 1963. É uma das músicas de maior sucesso dos Beatles. Composta pela dupla Lennon/McCartney pode ser considerada o marco inicial da Beatlemania nos Estados Unidos, pois foi a primeira música do Beatles a fazer sucesso nos EUA, alcançando a primeira posição na Billboard no dia 1º de fevereiro de 1964 como a mais tocada nas rádios por sete semanas (Billboard 1) e esteve entre as cem mais tocadas por quinze semanas (Hot 100). No Reino Unido, o single havia alcançado o primeiro lugar nas paradas no dia 12 de dezembro de 1963, permanecendo no topo por cinco semanas. Biografia – Beatles. Em: Beatlemania web site. Disponível em: (http://www.beatlemania.com.br/). Acesso em 11/10/2014.
Gilberto Gil28, até então um desconhecido do grande público, como também Maria Bethânia29. 1965 é um ano de mudanças na vida de Chico Buarque, nesse ano, ele inscreve sua canção “Sonho de um Carnaval”, para o festival de música da TV Excelsior30. A composição foi
defendida no festival por Geraldo Vandré31. A canção foi para a final, mas não ficou entre as primeiras.
Essa ideia de concurso surgiu nas universidades, tendo como o Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA)32, seu marco inicial. Vendo o sucesso do festival
28Gilberto Gil (1942) é um músico brasileiro e um dos criadores do movimento tropicalista nos anos 60.
Biografia – Gilberto Gil. Em: E-Biografias web site. Disponível em: (http://www.e-biografias.net/gilberto_gil/). Acesso em 12/10/2014.
29 Maria Bethânia Viana Teles Velloso1 (Santo Amaro, 18 de Junho de 1946 é uma cantora e compositora
brasileira). Nascida em Santo Amaro da Purificação, Bahia, ela participou, na juventude, de peças teatrais ao lado de seu irmão, o cantor Caetano Veloso e de outros cantores proeminentes da época. Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro onde começou sua carreira musical substituindo a cantora Nara Leão no espetáculo Opinião. Biografia – Maria Bethania. Em: Infoescola web site. Disponível em: (http://www.infoescola.com/biografias/maria-bethania/). Acesso em 12/10/2014.
30Rede Excelsior foi uma rede de televisão brasileira cuja primeira emissora, a TV Excelsior de São
Paulo, entrou no ar em 9 de julho de 1960. Fechou as portas em definitivo em 30 de setembro de 1970. A rede de televisão pertencia ao empresário Mário Wallace Simonsen. TV Excelsior. Em: Tudosobretv web site. Disponível em: (http://www.tudosobretv.com.br/histortv/tv50.htm). Acesso em 12/10/2014.
31 Geraldo Vandré, nome artístico de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, paraibano, (João Pessoa, 12 de
setembro de 1935) é um cantor e compositor brasileiro. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951, tendo ingressado na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Militante estudantil participou ativamente do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1966, chegou à final do Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com o sucesso “Disparada”, interpretada por Jair Rodrigues. A canção arrebatou o primeiro lugar ao lado de A Banda, de Chico Buarque. Em 1968, participou do III Festival Internacional da Canção com Pra não dizer que não falei de flores ou Caminhando. Biografia – Geraldo Vandré.
Em: Vandretempoderepouso web site. Disponível em:
(http://vandretempoderepouso.blogspot.com.br/p/biografia.html). Acesso em 12/10/2014.
32O Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mais conhecido como TUCA (Teatro da
Universidade Católica), é um teatro brasileiro inaugurado em 1965. Sua inauguração se deu com a peça Morte e Vida Severina, escrita por João Cabral de Melo Neto. Tornou-se famoso pelas manifestações políticas durante a ditadura militar. O teatro conta com duas salas: o Auditório Tibiriçá e o Tucarena. O teatro sofreu dois incêndios em 1984, que causou sérios danos em sua estrutura. Foi reaberto em 1986, com as obras de reconstrução incompletas. Tombado pelo Patrimônio Histórico do município de São Paulo, retomou as obras de reforma em 2002, tendo sido reinaugurado em agosto de 2003. História – TUCA. Em: Teatrotuca web site. Disponível em: (http://www.teatrotuca.com.br/historia.html). Acesso em 12/10/2014.